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Sustentabilidade das Organizações Humanas / Tecendo Relacionamentos

Tudo que é sustentável tem o padrão de rede. Todas as evidências disponíveis corroboram essa afirmativa. Ecossistemas, organismos vivos e partes de organismos são os melhores exemplos de entidades sustentáveis de que dispomos. Ora, todos esses tipos de sistemas têm o padrão de organização de rede: estruturam-se e funcionam como redes.

A partir dessa constatação – de que tudo que é sustentável tem o padrão de rede – muitas pessoas estão descobrindo que, se quiserem constelar condições mais favoráveis à sustentabilidade das organizações humanas, precisam entender as redes, procurar saber como elas se organizam, se estruturam e funcionam. E, a partir daí, querem então aprender a fazer netweaving. Bem, esta é a razão da Escola de Redes! Por: Augusto De Franco.

1) O que são redes?

Redes são sistemas de nodos e conexões. No caso das redes sociais, tais nodos são pessoas e as conexões são relações entre essas pessoas. As relações em questão são caracterizadas pela possibilidade de uma pessoa emitir ou receber mensagens de outra pessoa. Quando isso acontece de fato dizemos que se estabeleceu uma conexão.

Existem muitos tipos de redes, dentre os quais os mais conhecidos e citados são as redes biológicas (a rede neural, por exemplo, que conecta os neurônios no cérebro dos animais, ou a teia da vida que assegura a sustentabilidade dos ecossistemas, conectando micro-organismos, plantas e animais e outros elementos naturais) e a rede social (embora existam também redes de máquinas - como a rede mundial de computadores que chamamos de Internet - que são redes sociais na medida em que conectam pessoas). Há uma homologia entre esses diversos padrões organizativos, de sorte que, estudando-os, pode-se iluminar a compreensão do multiverso das conexões ocultas que configuram o que chamamos de social.

2) Redes propriamente ditas são apenas as redes distribuídas

Em geral (em mais de 90% dos casos) denominamos indevidamente de redes estruturas descentralizadas que tentam conectar horizontalmente instituições verticais (quer dizer, organizações hierárquicas, mesmo que essas organizações façam parte da sociedade civil e pertençam à nova burocracia associacionista das ONGs). Uma rede social propriamente dita, no entanto, é uma rede distribuída. Para compreender isso é preciso começar dando uma boa olhada naqueles diagramas de Paul Baran (1964), esboçados em um documento em que descrevia a estrutura de um projeto que mais tarde se converteria na Internet, na sua versão original (1).

Nos três desenhos (do diagrama de Baran) os pontos (nodos) são os mesmos. O que varia é a forma de conexão entre eles. Redes propriamente ditas são apenas as redes distribuídas (o terceiro grafo). As outras duas topologias – centralizada e descentralizada – podem ser chamadas de redes, mas apenas como casos particulares (em termos matemáticos). Ambas são, na verdade, hierarquias.

A partir de certo número de conexões em relação ao número de nodos começam a ocorrer na rede fenômenos surpreendentes, que não dependem, ao contrário do que se acredita, do conteúdo das mensagens que trafegam por essas conexões. Quanto mais distribuída ou menos centralizada ou descentralizada (i. e., multicentralizada) for a topologia da rede, maiores serão as chances de tais fenômenos ocorrerem. Esses fenômenos – como o clustering (aglomeramento) e o swarming (enxameamento), a autoregulação sistêmica, a produção de ordem emergente e/ou a desconstituição de ordem pré-existente (ou remanescente) e a redução do tamanho (social) do mundo (crunch) – não podem ser adequadamente captados e explicados pelas categorias e hipóteses (que compõem as teorias) tradicionais das ciências sociais. É por isso que vem nascendo uma nova ciência das redes.

3) As rede sociais não são uma invenção contemporânea

Não é agora que a sociedade está se constituindo como uma sociedade-rede. Toda vez que sociedades humanas não são invadidas por padrões de organização hierárquicos ou piramidais e por modos de regulação autocráticos, elas se estruturam como redes. [Isso é o que chamei de rede-mãe]. O que ocorre na época atual é que a convergência de fatores tecnológicos (como a fibra ótica, o laser, a telefonia digital, a microeletrônica e os satélites de órbita estacionária), políticos, econômicos e sociais, está possibilitando a conexão em tempo real (quer dizer, sem distância) entre o local e o global e, assim, está tornando mais visível a rede social e os fenômenos a ela associados, ao mesmo tempo em que está acelerando e potencializando os seus efeitos, o que não é pouca coisa.

4) Rede sociais não são redes digitais

Quando se fala hoje em redes sociais, as pessoas pensam logo em sites de relacionamento ou assemelhados, que permitem interatividade e compartilhamento de conteúdos ou ensejam a experimentação de algum grau de identidade coletiva, como: Bebo, hi5 e Orkut – para citar três exemplos diversificados de ambientes de troca pessoal ou de prestação de serviços personalizados que permitem, de alguma forma, a publicação de conteúdos no mesmo endereço e a conexão virtual de pessoas com pessoas por meios digitais.

Todavia, as redes sociais não estão propriamente no mundo digital, naquele sistema de redes interconectadas que foi chamado de Internet (interconnected network). Como o nome está dizendo, elas estão no mundo social.

É um equívoco confundir ‘redes digitais’ com ‘redes sociais’. Porque a conexão não tem a ver com o acesso ao computador, nem mesmo com a capacidade de ler e escrever. Redes são sistemas de conexões. Se quisermos uma boa (e precisa) definição: ‘redes são múltiplos caminhos’. Ora, existem redes sociais desde que existe a sociedade humana: o que varia é a topologia, ou seja, o grau de distribuição dessas redes. E o fenômeno contemporâneo mais significativo, da possibilidade de conexão em tempo real (ou sem-distância) que acelerou a emergência de uma nova fenomenologia social, atípica e inédita, tanto pode ser viabilizado pelo e-mail, pelos sites de relacionamento e pela blogosfera, quanto pela telefonia (sobretudo a celular) e pelo contato pessoal em localidades (quer dizer, em clusters sócio-territoriais ou de proximidade espacial).

5) Redes sociais não são clubes seletos de pessoas cooperativas

Redes sociais não são sociedades angelicais ou clubes seletos de pessoas cooperativas. As redes sociais convertem, de fato, competição em cooperação, mas como resultado da sua dinâmica. Elas não convertem indivíduos competitivos, beligerantes e possuídos de forte ânimo adversarial, em indivíduos cooperativos, pacíficos e amigáveis. Ao favorecer a interação e permitir a polinização mútua de muitos padrões de comportamento, o resultado do “funcionamento” de uma rede social é produzir mais cooperação, como já descobriram (ou estão descobrindo) os que trabalham com o conceito de capital social. As pessoas podem continuar querendo competir umas com as outras, porém, quando conectadas em uma rede, esse esforço não prevalece como resultado geral na medida em que, na rede, elas não podem impedir que outras pessoas façam o que desejam fazer e nem podem obrigá-las a fazer o que não querem. Assim, a rede não é um instrumento adequado para alguém adquirir mais poder (que é sempre o poder de obstruir, separar e excluir).

6) Netweaving em redes sociais

Para iniciar a transição de uma organização-mainframe para uma organização-network é necessário aprender a fazer netweaving em redes sociais, quer dizer, aprender como articular e animar essas redes.

Para articular redes, em primeiro lugar, é necessário conectar pessoas (ou redes propriamente ditas, quer dizer redes distribuídas de pessoas). A conexão horizontal de instituições hierárquicas não gera redes distribuídas, pela simples razão de que o fluxo pode ser interrompido (controlado, filtrado) em cada nodo. Se isso acontecer, a topologia passa a ser descentralizada (quer dizer, multicentralizada).

Em segundo lugar, para articular redes é necessário conectar as pessoas entre si e não apenas com um centro articulador ou coordenador (mesmo que este centro se chame de equipe de animação da rede).

Fracassamos freqüentemente em nosso intuito de trabalhar com redes porque, em geral conectamos instituições hierárquicas e não pessoas (ou redes distribuídas de pessoas, o que é a mesma coisa). Ou então, quando conectamos pessoas, instituímos – com o pretexto de realizar o trabalho de animação da rede – um centro coordenador, que mantém, de fato, uma ligação direta e transitiva com cada nodo da rede, mas que, na prática, acaba funcionando como uma espécie de direção que decide o que vai ser feito em termos coletivos. Decide pela rede. Decide para toda a rede.

7) As quatro tentações que impedem ou dificultam o netweaving

Quem quer articular e animar redes sociais deve resistir às quatro tentações seguintes: de fazer redes de instituições (em vez de redes de pessoas), de ficar fazendo reunião para discutir e decidir o que os outros devem fazer (em vez de, simplesmente, fazer), de tratar os outros como “massa” a ser mobilizada (em vez de amigos pessoais a serem conquistados) e, por último, de querer monopolizar a liderança (em vez de estimular a emergência da multiliderança).

8) As redes não duram para sempre e nem são feitas para crescer indefinidamente

Redes voluntariamente articuladas não são para durar para sempre. Nada dura toda vida (se durar como é, certamente não será sustentável!). Experiências de redes distribuídas, sobretudo em uma sociedade invadida por programas centralizadores, são eventos limitados no espaço e no tempo. Cada rede tem, assim, um tempo de vida. Elas se fazem e refazem. Somem e reaparecem, muitas vezes como outras redes.

Redes não são feitas para crescer de tamanho. Por que uma rede teria que crescer de tamanho (em termos populacionais) indefinidamente? Crescer sempre para que? Para fazer alguma coisa? Mas as redes não são para fazer coisa alguma: elas são simplesmente para... ser. Elas são o que qualquer sociedade seria se não tivesse sido invadida por programas centralizadores.

Freqüentemente nos preocupamos com as redes que param de crescer, mas as redes são móveis mesmo. Crescem até certo ponto, ou melhor, dentro de um certo tempo (o seu tempo) e depois tendem a diminuir ou até a desaparecer. Ora, se não estamos querendo usar a rede como um instrumento para fazer alguma coisa, qual o problema aqui?

9) A rede não é um instrumento para fazer a mudança. Ela já é a mudança!

Enfim, quem quer usar as redes porque está na moda, ou porque imagina que, assim, conseguirá ampliar seu poder, em geral não se dá muito bem. Até mesmo quem quer usar as redes para promover transformações em nome de uma causa, muitas vezes fica decepcionado. Por quê? Porque a rede não é um instrumento para fazer a mudança. Ela já é a mudança.

Mas essa mudança não é uma transformação do que existe em uma coisa que não existe e sim a liberdade para que o que já existe possa ser capaz de regular a si mesmo.

10) Uma rede só funciona quando existe

Uma rede funciona quando existe, ou seja, quando se configura segundo a morfologia de rede (distribuída) e manifesta a dinâmica de rede.

É necessário, portanto, que exista um conjunto de pessoas dispostas a se conectar em rede. Embora as redes, em si, não tenham um propósito instrumental, pois que materializam um modo-de-ser coletivo – aquilo que Maturana chama de social, stricto sensu – se quisermos articular uma rede com um propósito qualquer é necessário que tal propósito seja assumido por um conjunto de pessoas.

Isso não pode ser fornecido por alguma tecnologia de informação e comunicação. As tecnologias podem ajudar a articular e animar uma rede, mas não podem produzi-la. As redes sociais – não custa repetir – são sociais mesmo (como o nome está dizendo) e não tecnológicas. Assim, não adianta tentar começar criando uma lista de e-mails, cadastrando as pessoas em um site de relacionamento da Internet ou oferecendo a cada pessoa um blog, agregando esses blogs em um mesmo endereço virtual e denominando esse conjunto de blogs de blogosfera. Se as pessoas quiserem se conectar em rede, todas essas ferramentas podem ser úteis; se não quiserem, não adianta inscrevê-las, fornecer login e senha para cada uma delas ou mesmo ministrar para essas pessoas um curso para adestrá-las no uso de tais ferramentas.

A formação de um propósito coletivo, entretanto, não pode ser feita em assembléia, a partir da apresentação e da defesa de propostas seguidas de votação e, nem mesmo, pela aplicação de alguma técnica ou dinâmica para produzir circunstancialmente um consenso. Para que um conjunto de pessoas assuma um mesmo propósito – válido para efeitos de articulação de rede – é necessário que cada pessoa decida interagir por si mesma.

As redes farão coisas que seus membros quiserem fazer; ou melhor, só farão coisas conjuntas os membros de uma rede que quiserem fazer aquelas coisas. Se alguém propõe fazer alguma coisa em uma rede de 100 participantes, talvez 40 aceitem a proposta; os outros 60 farão outras coisas; ou não farão nada. Em rede é assim: não há centralismo. Não há votação. Não há um processo de verificação da formação da vontade coletiva que seja totalizante e que se imponha a todos, baseado no critério majoritário ou na produção artificial de consenso.

Trata-se, sim, de um processo consensual, mas não forçado pela aplicação de algum artifício “pedagógico” ou por qualquer tipo de “facilitação” profissional (nos quais os chamados facilitadores ou mediadores lançam mão se suas “técnicas” para conduzir – ainda que docemente – as reuniões para um desfecho esperado pelos seus promotores e organizadores). Essa é uma das razões de tanto insucesso nos processos de organização ou educação de base que pretendem levar o povo pela mão: quando os facilitadores ou mediadores não estão presentes a coisa não anda, ou volta à estaca zero.

O chamado consenso não é, portanto, um mecanismo artificial de deliberação ou de regulação de conflitos, usado para passar a impressão de que todos estão de acordo com as propostas que queremos que eles estejam. É o resultado de um processo emergente, aberto, livre e, por conseguinte, com desfecho é imprevisível. É por emergência que se forma uma rede e não pela imergência de um ímpeto organizador top dow proveniente de alguma organização hierárquica.

11) Uma rede começa sempre com uma rede

Uma hierarquia não pode construir uma rede. Se uma organização hierárquica (como uma empresa ou uma organização da sociedade civil) estiver convencida de que precisa articular uma rede – até mesmo para iniciar a transição do seu padrão de organização centralizado para um padrão distribuído – a primeira providência é dar autonomia a um grupo de pessoas que vão se organizar em rede para começar a tentar articular a rede desejada.

As pessoas que vão começar o trabalho, mesmo que já estejam sendo remuneradas por alguma outra função que desempenham em uma organização hierárquica, devem aderir voluntariamente ao projeto. Uma vez constituído esse grupo seminal ou genético da rede, a direção da organização hierárquica não pode mais tentar controlá-lo ou teleguiá-lo.

Esse é o passo fundante, necessário para começar a articular qualquer rede. Muitas organizações não querem se arriscar a dar esse passo, por medo de perderem o controle e é por isso que freqüentemente fracassam no seu intento de trabalhar com redes. Em alguns casos, os órgãos dirigentes de organizações hierárquicas querem compor um grupo inaugural apenas com pessoas de sua mais estrita confiança, infiltrando seus agentes para tentar controlar “por dentro” as redes que vão nascer e, também por isso, seus esforços acabam igualmente fracassando.

Um grupo inicial como esse – chamado às vezes de equipe ou comissão de articulação da rede (mas na verdade tal denominação não é a mais adequada já que ele é a própria rede em sua forma embrionária) – pode ser grande ou pequeno. Se quisermos articular uma rede social devemos ter uma meta, mas não podemos nos preocupar muito com o número inicial de interessados (pois que a partir de três pessoas conectadas horizontalmente já temos uma rede).

O trabalho desse grupo inicial começa com um convite – para se conectarem à rede – às outras pessoas do universo que se quer atingir. Para articular uma rede de pessoas tal convite deve ser pessoal. E a adesão das pessoas deve ser voluntária. Se estivermos tentando articular uma rede de funcionários de uma empresa, por exemplo, não adiantará para nada os chefes mandarem seus subordinados se conectarem na rede. Não é assim que funciona.

Para articular uma rede social (uma rede voluntariamente construída, portanto) o convite é sempre feito a partir do propósito. Esse propósito deve estar bem claro, tanto para os que vão fazer o convite, quanto para os que vão recebê-lo.

12) Começando a animar a rede

A rede é o meio, o ambiente. Não produz efeitos por si mesma, independentemente dos estímulos que recebe dos seus nodos. Seu papel é amplificar e processar em paralelo miríades de estímulos, transformá-los ao recombiná-los em inúmeras variações, reverberando, pulsando, para estabelecer uma regulação emergente.

Sendo assim, é necessário animar a rede, provocá-la, abastecê-la com estímulos que ensejem a sua atuação regulatória, dando pretexto, aos seus nodos, para estabelecerem – por meio de suas múltiplas interações – novos caminhos, novas conexões, por onde trafegarão novas mensagens.

Se quisermos articular uma rede e induzir a sua expansão, temos de ter uma pauta de ações regulares de animação da rede. Essas ações - e isto é, sem dúvida, o mais importante - devem ser sistemáticas, repetitivas, iteradas (de 'iteração', a repetição ad nauseam de uma mesma operação). Além disso, é necessário fornecer "finalidades iniciais" (a expressão, conquanto aparentemente contraditória, quer dizer que as pessoas devem se mobilizar na rede em torno de um propósito declarado, que elas sejam capazes de entender, mas que não será, provavelmente, o resultado que obterão; ou seja, as "finalidades finais" serão construídas pela própria dinâmica da rede).

No trabalho de animação de rede, deve-se ter em conta algumas orientações importantes:

a) Ter sempre campanhas e metas. As campanhas podem ser propostas em torno de alguma ação coletiva que deverá ser realizada. Então, tendo o objetivo claro (a "finalidade inicial"), será possível conectar mais pessoas na rede para atingir tal objetivo.

b) Ter sempre devolução ou retorno. Qualquer ação coletiva proposta à rede pelo núcleo inicial e realizada pela rede deve ser registrada e a informação deve ser devolvida à rede. Esse deve ser um processo permanente, recorrente, sistemático.

c) Disponibilizar amplamente as informações. Os conectados devem receber regularmente, até que a dinâmica própria da rede se estabeleça, uma mensagem do grupo inicial. O importante é a regularidade, que não deve ser quebrada.

O e-mail, o telefone e o SMS (“torpedo”) devem ser usados sistematicamente para a comunicação na rede. Cada pessoa conectada deve receber e-mails, ligações telefônicas e “torpedos” dos membros do grupo inicial, quando menos para bater-papo ou para perguntar como ela vai passando, o que está pensando sobre algum assunto, para convidá-la para uma festa, para um evento... Sim, é isso mesmo: conexão é relacionamento. Articular e animar a rede é aumentar os relacionamentos entre as pessoas! Pelo menos um telefonema semanal é desejável: "Olá, como vai? Eu vou indo e você? Tudo bem?" Na rede estamos fazendo novos amigos.

d) Estimular sempre a conexão P2P. A rede deve ser usada para divulgar as informações. Cada conectado à rede deve ser um nodo e um elo, simultaneamente um centro de recebimento e de difusão. Portanto, ao invés de distribuir massivamente um produto qualquer - um documento, uma cartilha, um jornal - é necessário estimular a replicação "por dentro" da rede.

13) A rede “acontecendo”

Tudo o que vimos até aqui vale apenas como um esforço inicial para começar a animação da rede. É como empurrar um carro que está sem partida. Mas a rede só vai “acontecer” se existir de fato, independentemente do ativismo articulador e animador do grupo inicial; quer dizer, ela só vai “acontecer” se o carro “pegar no tranco”, deixando para trás a turma que está tentando empurrá-lo.

As medidas sugeridas até agora não são suficientes para que uma rede possa “acontecer”. E daqui para frente não existe mais uma fórmula, uma metodologia capaz de produzir redes sociais. Pode-se, entretanto, contribuir para aumentar as chances de que uma rede realmente “aconteça”, lançando mão, por exemplo, de meios distribuídos de conexão.

Hoje ninguém mais imagina deixar de usar a Web para articular e animar redes sociais. Alguns falam em usar a chamada Web 2.0 (ensejada pela ‘era wiki’, que permite que qualquer um possa publicar qualquer coisa na Web usando programas wiki). Mas isso também não é suficiente. Se quisermos articular redes distribuídas, o melhor é usar as ferramentas interativas de uma nova e cogitada Web 2.1, que são mais adequadas à dinâmica da blogosfera (2).

Portanto, se quisermos articular redes distribuídas, usando a Web, precisamos estimular que cada participante conectado tenha o seu próprio blog. E é necessário ter uma maneira de agregar automaticamente os blogs dos membros da rede (já existem programas gratuitos para fazer isso, como o feevy, por exemplo) (3).

Por si só, nada disso, todavia, produzirá redes sociais. Pois as redes sociais estão na sociedade, não na Internet ou em qualquer outro ambiente digital ou físico. Se não houver a rede no mundo das redes, naquilo que chamamos de espaço-tempo de fluxos, não haverá rede social em lugar algum, independentemente do meio tecnológico (físico ou não, digital ou não) que queiramos utilizar.

Mas, afinal, o que está faltando para a rede “acontecer” de fato, além de tudo o que já foi colocado aqui?

É necessário que os conectados à rede (que aderiram a ela a partir da concordância com seu propósito ou com suas “finalidades iniciais”) redefinam coletivamente a identidade da sua articulação (para que possam formular, então, as suas “finalidade finais”).

Uma articulação em rede é uma forma de organização. Uma organização é uma comunidade de projeto conformada a partir de uma identidade. Uma comunidade de projeto se forma em torno de um sonho coletivo, de um desejo compartilhado, de uma visão de futuro e, a partir daí, formula sua missão ou propósito e elabora seus valores ou princípios. O que a caracteriza é uma causa e um modo peculiar de ser e de agir.

Se conseguirmos chegar até a esse ponto, no qual os conectados à rede, compondo uma comunidade de projeto, vão buscar sentido para o que estão propondo ou fazendo em um mesmo repositório coletivo de definições, premissas e argumentos, então estará estabelecida uma nova forma de ser-coletivamente. E a rede voluntariamente articulada estará “acontecendo”, quem sabe conseguindo se comunicar com aquela rede que existe independentemente de nossos esforços organizativos [a 'rede-mãe']. Se isso acontecer, teremos gerado um novo ente (ou, melhor, desencadeado mais um processo) sustentável no mundo.

Notas e referências

(1) BARAN, Paul (1964). “On distributed communications: I. Introduction to distributed communications networks” in Memorandum RM-3420-PR, August 1964. Santa Mônica: The Rand Corporation, 1964.

(2) Cf.: UGARTE, David (2007). El poder de las redes: manual ilustrado para personas, colectivos y empresas abocados al ciberactivismo; já existe tradução brasileira (editada como livro, em papel, com apresentação de Augusto de Franco): O poder das redes. Porto Alegre: CMDC/ediPUCRS, 2008.

(3) www.feevy.com.br


1 comentários:

Maria Lucia Rodrigues-Francisco disse...

Artigo muito interessante

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