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Coronavírus: A Corrida Para Encontrar Animal Que Foi Origem do Surto

Pangolim traficado em Kuala Lumpur: animal é suspeito de ser o hospedeiro intermediário do coronavírus.

Em algum lugar da China, um morcego voa deixando para trás um rastro de coronavírus em seus excrementos, que caem em meio à vegetação de uma floresta. 

Um animal silvestre, possivelmente um pangolim à procura de insetos para comer, faz contato com os excrementos... e com o vírus. 

Eventualmente, um deles é capturado, entra em contato com seres humanos e, de alguma forma, acaba infectando alguém. 

Este indivíduo, por sua vez, transmite o vírus a seus colegas no mercado, onde outros animais silvestres são vendidos. 

E assim pode ter nascido o surto global do novo coronavírus (Covid-19) que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), tem potencial de "pandemia". 

Os cientistas estão tentando comprovar este cenário e tentam encontrar animais selvagens com o vírus. 

Desvendar a sequência de eventos é um "trabalho de detetive", diz à BBC o professor Andrew Cunningham, da Zoological Society of London, no Reino Unido. 

Uma grande variedade de animais pode ter servido como "hospedeiro" do vírus, especialmente o morcego, conhecido por ser portador de um número considerável de coronavírus diferentes. 

O vírus já infectou mais de 80 mil pessoas em quase 40 países, provocando 2.762 mortes ao redor do mundo (mais de 95% na China). No Brasil, um paciente recebeu um diagnóstico preliminar da doença. 

Mas o que sabemos sobre a "transmissão indireta", como é chamada no mundo científico a transmissão do vírus de um ser vivo para outro? 

Quando os cientistas conseguiram decifrar o código genético do novo coronavírus, após coletar uma amostra de um paciente infectado, os morcegos se tornaram os principais suspeitos. 

Estes mamíferos vivem em enormes colônias, voam longas distâncias e estão presentes em quase todos os continentes. 

E o mais curioso: eles não costumam ficar muito doentes, mas têm a capacidade de espalhar patógenos a uma grande distância e de forma bem ampla. 

Segundo a professora Kate Jones, da University College London (UCL), no Reino Unido, há evidências de que os morcegos se adaptaram à alta demanda de energia de seus voos e aprimoraram sua capacidade de reparar danos em seu DNA. 

"Isso poderia permitir a eles lidar com uma carga maior de vírus antes de ficarem doentes, mas essa é hoje apenas uma hipótese", observa Jones. 

Não há dúvida de que o comportamento dos morcegos ajudou a espalhar o vírus. 

"Se considerarmos a forma como vivem, é natural que tenham uma grande variedade de vírus. E como são mamíferos, existe a possibilidade de que alguns deles possam infectar humanos diretamente ou por meio de uma espécie de hospedeiro intermediário", acrescenta o professor Jonathan Ball, da Universidade de Nottingham, no Reino Unido. 

Agora, a segunda parte do quebra-cabeça é estabelecer a identidade do animal misterioso que incubou o vírus em seu corpo e acabou possivelmente em um mercado na cidade de Wuhan, na China, epicentro do surto. 

O principal suspeito é o pangolim. Este mamífero, que se alimenta de formigas, talvez seja a espécie mais traficada em todo o mundo — e é, por isso, ameaçada de extinção. 

Há uma grande demanda por pele de pangolim, especialmente para uso medicinal na China, embora sua carne também seja requisitada em outros países. 

Coronavírus foram detectados em pangolins e, segundo alguns cientistas, um tipo muito próximo ao coronavírus que está causando esse surto. 

Mas será que o vírus do morcego e o vírus do pangolim podem ter se modificado geneticamente antes de se espalhar para os seres humanos? É aqui que os especialistas são cautelosos. 

Como ainda não foi finalizado um estudo completo sobre o pangolim, é impossível verificar cientificamente as informações. O professor Cunningham destaca que a procedência e o número de pangolins examinados pelos pesquisadores é um fato importante. 

"Há muitas perguntas sobre esta análise: os animais foram examinados diretamente na natureza (o que é mais importante para o resultado) ou eram simplesmente pangolins que já estavam no mercado de Wuhan (neste caso, as conclusões sobre se são portadores do vírus não seriam suficientemente robustas)?", diz. 

Os pangolins e outros animais silvestres, incluindo uma variedade de morcegos, são amplamente vendidos nos mercados chineses, o que facilita a transmissão do vírus. 

"Estes mercados criam as condições ideais para que os vírus sofram mutações e saltem de uma espécie para outra, incluindo seres humanos", acrescenta Cunningham. 

O mercado

O mercado de Wuhan, que foi fechado depois que o surto veio à tona, tinha uma seção de animais silvestres, onde eram vendidos animais vivos ou abatidos, incluindo partes de camelos, coalas e vários tipos de aves. 

O jornal britânico The Guardian destacou que algumas barracas vendiam filhotes de lobos, cigarras, escorpiões, ratos, esquilos, raposas, civetas, porcos-espinhos, salamandras, tartarugas e crocodilos. 

Até onde sabemos, morcegos e pangolins não estavam nesta lista, mas as autoridades chinesas têm informações específicas sobre que animais foram vendidos neste mercado. 

"Se ocorreu mutação no vírus, precisamos saber se isso acontecerá novamente. É fundamental do ponto de vista de saúde pública. Precisamos saber especificamente o tipo de animal e os riscos de que possa haver outra mutação, outra mudança no vírus", diz Cunningham.

 O vírus da Mers, síndrome respiratória do Oriente Médio, foi encontrado em camelos e dromedários.

Muitos vírus que se tornaram conhecidos devido ao seu alcance nos últimos anos são provenientes de animais. 

Esta é a história do ebola, do HIV, da Sars e agora do coronavírus. 

Jones acredita que isso se deve à nossa capacidade crescente de detectá-los, à conectividade cada vez mais onipresente e à invasão de habitats selvagens, "mudando paisagens e entrando em contato com novos vírus que a população humana nunca viu antes". 

"Se entendermos os fatores de risco, podemos tomar medidas para impedir (a propagação) sem afetar negativamente os animais selvagens", explica Cunningham. 

Conservacionistas alertam que, embora se acredite que os morcegos sejam portadores de muitos vírus, eles também são essenciais para o funcionamento dos ecossistemas. 

"Os morcegos insetívoros comem grandes quantidades de insetos, como mosquitos e pragas agrícolas, enquanto os morcegos que se alimentam de frutas polinizam árvores e espalham suas sementes", observa.

 Morcegos são vendidos em mercado indonésio.

"É imperativo que estas espécies não sejam abatidas por meio de medidas equivocadas de 'controle de doenças'", acrescenta. 

Depois que a síndrome respiratória aguda grave (Sars) eclodiu, em 2002, causada por um coronavírus muito semelhante ao do surto atual, houve uma proibição temporária dos mercados de animais silvestres. Mas os mercados reapareceram rapidamente na China, Vietnã e outras partes do sudeste asiático. 

A China suspendeu mais uma vez a compra e venda de produtos oriundos de animais selvagens, como alimentos, peles e medicamentos tradicionais. Acredita-se que a medida possa ser permanente. 

Embora seja possível que nunca saibamos exatamente como ou onde o novo coronavírus foi transmitido para os seres humanos, a professora Diana Bell, da University of East Anglia, no Reino Unido, diz que podemos evitar outra "tempestade perfeita". 

"Estamos reunindo animais de diferentes países, habitats distintos, estilos de vida diversos, em matéria de animais aquáticos, animais arbóreos, etc., e estamos misturamos eles em uma espécie de caldeirão, e temos que parar de fazer isso", conclui.

Por: Helen Briggs (BBC News).

Como Nosso Corpo é Afetado Pela Tecnologia Digital e Como Isso Impacta As Relações Sociais

 A busca da palavra única, autoritária, coincide com a busca de um território sem variações, com uma trama digital sem matizes, com perspectivas sem nuances, diversidade ou consistência. Planificar é um verbo fundamental desse projeto, que se opera em todas as dimensões. Na ambiental, por exemplo, impõe-se queimando, desmatando, drenando a diversidade e achatando a tridimensionalidade natural dos sistemas vivos. E assim prossegue na pauta de costumes, na cultura, na educação, na ciência. 

Análises políticas, denúncias jornalísticas, argumentos científicos, alertas sociológicos e psicológicos proliferam para apontar os descaminhos que vivemos hoje no Brasil. Mas em meio à verborragia planificada no digital, um elemento é negligenciado apesar de onipresente. 

Para acessá-lo, vale resgatar uma premissa fundamental de diferentes teorias da Comunicação que é o fato de a tecnologia exercer grande influência sobre os modos de perceber, pensar, dialogar, interagir e expressar-se na sociedade. Se convocamos o auxílio da neurociência para compreender esta perspectiva da sensorialidade humana, temos que a cognição não é um produto isolado do cérebro, mas um desdobramento do arranjo integrado de todo o corpo, incluindo suas diferentes estruturas e camadas, suas habilidades sensórias e perceptivas, suas emoções, impulsos, sentimentos e expressões psicomotoras, e suas relações com o ambiente. 

Portanto, os efeitos da tecnologia sobre o humano são efeitos sobre o corpo. E como tem passado o corpo dos brasileiros conectados às redes digitais? A cultura de uso intenso dos smartphones significa, por exemplo, que passamos muitas horas imersos na relação com as telas, com um campo visual estreito e bidimensional, e um conjunto de estímulos limitados e muito focados na visão, convocando a cabeça baixa e alguns poucos movimentos de mãos e dedos. Ou seja, a riqueza da sensorialidade e das habilidades do universo corporal, em todas as suas camadas e conexões internas e com o ambiente, é evocado de modo acanhado. 

Isso representa menos estímulo ao caráter conectivo reticular do corpo e mais estímulo a uma conectividade reativa e impulsiva. Esbravejamos, reclamamos, replicamos… mas a criatividade, o devaneio, o pensamento capaz de alçar voos na imensidão da mente ficam mais propensos a voos de galinha do que voos de condor. 

O simulacro de contato com o outro, via digital, também reduz as trocas presenciais, que são onde a imagem do outro ganha tridimensionalidade, gestos dos pés à cabeça, micro expressões no rosto, nas mãos, nos membros e tronco; onde a conversa tem nuances de temperatura, empatia, desacordos, negociações mediadas por uma orquestração psicobiofísica contínua, bem diferente das frequências homogêneas e planificadas do digital. 

Se pensarmos que o corpo humano foi moldado por milhares de anos para reconhecer, afetar e ser afetado pela riqueza da troca presencial, dá para imaginar a aridez que representa o contato virtual. Dá para entender também tanta sensação de vazio, tanta dificuldade de diálogo, tanta aspereza no trato em sociedade – justamente na era da sociedade em rede. 

Não digo que esta sensação que paira no ar de um desarranjo constante seja apenas pela carência do corpo. É claro que todo o contexto político, social, econômico e ambiental que temos vivido exerce pressão implacável sobre todos nós. Mas o fato é que a ausência da primazia ancestral do corpo na contemporaneidade humana alimenta um desalento muitas vezes difícil de reconhecer, de dar nome, de dedicar cuidado. 

A pauta aqui não é uma mera questão de sedentarismo, de ir ou não à academia. O assunto é o corpo em suas camadas entrelaçadas … todas elas: as físicas, as subjetivas, as transcendentais. O corpo entorpecido pelo estresse e pelo digital vai afrouxando e deixando de viver esses entrelaçamentos. E de construir sentido a partir deles. 

A falta de experiência conectiva do corpo destreina o sistema nervoso – também uma rede viva – a operar, buscar e fazer conexões; a reconhecer e degustar os modos integrados de ser e de estar no mundo. Aumenta, assim, a dificuldade de ser conectivo para além da pele e de ser integrador através do digital. E justamente na era das redes… 

Mas esse não é um texto para ser coroado com um emoji de lágrima escorrendo. Este é um chamado para os que são ativistas, os que sentem falta de entrosamento, os que carregam o peso da solidão, os que não conseguem fugir da raiva, os que não conseguem superar a apatia, os que não escutam, os que não abraçam. Tantas condições fragilizadas de comportamento, tendo em comum o mesmo catalizador: a falta de corpo em camadas. 

Dificilmente construiremos alternativas às conjunturas que nos desagradam sem mudanças de mentalidades. E transformar fluxos cognitivos implica transformações do corpo – nossa dimensão mais singular, eloquente e onipresente. Assim, além de arregaçar as mangas pelo que se quer, pode ser muito fértil redescobrir o corpo que é ecossistema por dentro e que compõe redes em fluxo por fora. 

É preciso reconhecer se cada um de nós está perdendo vitalidade, fechando-se no corpo próprio. É preciso cultivar a respiração, o toque em si e no outro, o abraço, o afeto, o contato. É preciso experimentar liberdade de movimento, de expressão estética, de ludicidade, de descanso e de degustação do universo interno. Corpos com vitalidade, com escuta aberta a perceber seu caráter integrado, são corpos ativamente políticos. 

Mantêm o sistema nervoso estimulado a reconhecer os fenômenos integrados do mundo. Estão preenchidos e aptos a lidar com as impermanências de hoje, e a instigar a conectividade com os demais. É o que diz o neurônio-espelho e milênios de aprendizado humano pelo contato, pela observação e pela experiência conjunta. 

Num momento em que aparecem poucas alternativas além do espernear, dar a chance para o inusitado, o simples, o que está escondido no trivial, pode ser tão efetivo e ousado como foi o movimento das mulheres de Atenas na guerra do Peloponeso. Então dedique uma semana a experimentar seu corpo de outro modo. Que seja um segredo seu, mas experimente. 

Perceba que toda ação é um sinal de vida do corpo. Andar na rua é modificar a paisagem de um espaço tridimensional. Respirar é cultivar diálogo entre o ambiente e o sangue. Cruzar olhares é assimilar outro humano único como você. Tocar-se é ativar seu universo sensorial. Permita-se pequenas transgressões de seus padrões. Divirta-se com suas estranhezas e dos outros. Busque atividades para acessar as camadas entrelaçadas esquecidas. 

Se não surtir efeito, sempre haverá a rotina digital de todo o dia. Mas se acender algo diferente em seus sentidos, se brotarem desdobramentos que vão além do corpo, continue a experiência na semana seguinte e na outra… e na outra…

Por: Ricardo Barretto; comunicólogo e educador somático que pesquisa relações entre o corpo vivo, fluxos comunicativos e o ambiente. Fonte: Página 22.

Árvores da Amazônia São “Cápsulas do Tempo” da História Humana

Foto: Victor Caetano Andrade/Trends in Plant Science.

Brasileiro liderou estudo internacional que provou a importância histórica das plantas de florestas tropicais. Segundo especialistas, análise de ecossistemas é essencial para compreendermos o passado.

Além da arte, dos documentos e das descobertas arqueológicas, outro fator pode nos dar pistas sobre o passado: as árvores. Em um artigo publicado recentemente no Trends in Plant Science [Tropical Trees as Time Capsules of Anthropogenic Activity], cientistas que estudaram espécies da Amazônia explicam como algumas plantas podem contribuir para o entendimento da história da humanidade. 

“À medida que as árvores crescem, elas absorvem detalhes sobre o ambiente em sua madeira, criando registos do ambiente ao longo do tempo”, disse o brasileiro Victor Caetano Andrade, que liderou a pesquisa, em comunicado. “Ao combinar técnicas como dendrocronologia (o estudo de anéis das árvores), análise de isótopos de carbono e oxigênio, e genética, podemos obter informações sobre o clima e os eventos mediados por humanos na floresta tropical.” 

Mas demorou para os cientistas descobrirem o potencial histórico das florestas tropicais. Há muito considerados barreiras à migração humana e à experimentação agrícola, esses ecossistemas foram chamados até de “desertos verdes”. Felizmente, nas últimas duas décadas, análises em regiões como a Floresta Amazônica mudaram a visão dos especialistas sobre esses cantos do mundo. 

“Surpreendentemente, a história negligenciou algumas das maiores e mais antigas testemunhas que as florestas tropicais têm a oferecer: suas árvores”, explicou Caetano Andrade. “Escavações arqueológicas e análises arqueobotânicas levaram a grandes avanços em nosso reconhecimento de vidas humanas passadas nos trópicos, mas as árvores que ainda estão de pé também têm algo a dizer.” 

Segundo o especialista, quando as informações biológicas coletadas das árvores são combinadas com os registros arqueológicos e históricos das sociedades nativas da Amazônia, é possível avaliar o passado. Um exemplo disso é a observação de como comunidades indígenas ou invasores estrangeiros administraram a floresta local. 

“Quando humanos do passado construíram habitações dentro da floresta, criaram seletivamente buracos no ‘teto da floresta’, permitindo a entrada de luz para cultivar suas espécies de plantas preferidas”, disse Caetano Andrade. “É assim que as sociedades nativas influenciaram o estabelecimento de árvores em seus territórios.” 

Um exemplo claro que pôde ser observado pelos pesquisadores ocorreu durante o período pré-colonial na Amazônia central, onde a população de árvore de castanha brasileira cresceu muito. No entanto, quando os colonos europeus invadiram os trópicos, os indígenas abandonaram a paisagem, levando as castanheiras a pararem de expandir sua população por quase 70 anos. “Isso demonstra como a floresta responde ativamente à ocupação humana ao longo do tempo”, afirmou o especialista. 

Pesquisadores retiram amostra de tronco de árvore para análise. Foto: Victor Caetano Andrade/Trends in Plant Science.

Da mesma forma, analisar o que as sociedades optaram por cultivar também é interessante, já que entende-se que cada grupo promoveu o crescimento de árvores que considerou úteis para alimentação ou construção. “Parte da cultura dessas sociedades é como eles manejam a floresta dentro do ecossistema local”, explicou o Caetano Andrade. “Como as árvores podem viver por centenas de anos, elas registram todos os impactos que os seres humanos estão causando na comunidade florestal circundante.” 

É justamente o foco no impacto humano que diferencia essa pesquisa de tantas outras, acreditam os estudiosos. “O trabalho avaliado aqui demonstra duas descobertas importantes: primeiro, que as sociedades humanas, de caçadores-coletores a moradores urbanos, tiveram um papel significativo no cultivo de árvores tropicais no passado; e segundo, que esse papel pode ser observado em árvores que ainda existem hoje”, pontuou Patrick Roberts, que também participou da pesquisa, em declaração à imprensa. 

Conservação

A equipe espera que a sua pesquisa incentive a conservação das florestas tropicais, já que preservar esses ecossistemas também significa preservar registros históricos. Além disso, a equipe de Caetano Andrade acredita que suas descobertas mostram que é possível ter um sistema econômico bem-sucedido – sem esgotar os recursos naturais da Amazônia

“É possível pensar em modelos econômicos que possam manter a floresta em pé”, ressaltou o brasileiro. “A prova é que isso acontece há milhares de anos antes das expansões coloniais, enquanto os povos nativos desenvolviam sistemas econômicos que mantinham e até enriqueciam a floresta. As populações tradicionais que vivem nas margens dos rios das florestas tropicais são os grandes heróis da preservação, pois conhecem a importância de manter a floresta em pé para garantir seu bem-estar.”


Técnica Pode Tornar Produção de Plásticos Mais Sustentável a Partir do Bagaço de Cana

Composto que possui 10 átomos de carbono foi obtido de forma mais sustentável – Foto: Green Chemistry. Pesquisador desenvolveu método que permite construir novas moléculas para a fabricação de plástico a partir do bagaço da cana-de-açúcar. 

O carbono é um elemento químico fundamental para a produção de diversos produtos, como cosméticos, plásticos e medicamentos. Normalmente, ele é obtido a partir do petróleo, fonte não renovável e que leva milhares de anos para se formar. Pensando em uma solução para obter moléculas de carbono de forma simples, sustentável e com menor risco ao meio ambiente, o professor Antonio Burtoloso, do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP, criou uma técnica inédita que permite a construção de moléculas de interesse industrial por meio do aproveitamento do bagaço da cana-de-açúcar. 

Empregando algumas reações químicas, o pesquisador chegou a um composto que possui dez átomos de carbono (C10) e que tem potencial para ser utilizado na fabricação de plásticos. Isso foi possível depois que ele conseguiu juntar duas moléculas da valerolactona – líquido incolor obtido a partir do bagaço da cana. Cada molécula da substância possui cinco átomos de carbono. “Utilizamos transformações simples e fáceis de serem reproduzidas, que podem ser aplicadas de forma rápida, robusta e com baixo custo”, explica o docente. Segundo o especialista, o procedimento para a criação do C10 leva apenas um dia. 

Atualmente a busca por fontes renováveis de carbono tem sido intensificada por pesquisadores de vários países, e a biomassa – todo material vindo de fonte natural – surge como um dos alvos favoritos dos cientistas. O professor da USP explica que, apesar de o petróleo também ser proveniente de uma fonte natural, o fóssil, ele não é renovável. Já a cana-de-açúcar, por exemplo, é plantada em abundância anualmente e possui em seu bagaço um enorme potencial de reaproveitamento. 

De acordo com o estudo divulgado em 2017 pelo Instituto de Economia Agrícola (IEA), o Brasil gerou cerca de 166 milhões de toneladas de bagaço na safra 2015/16. Parte dessa produção acaba sendo descartada e é justamente nesse ponto que o docente pretende atuar: “Não precisamos plantar cana-de-açúcar exclusivamente para colher o bagaço. A ideia é aproveitar parte desse resíduo que acaba virando lixo como insumo para a nossa técnica”, afirma o docente, que coordena o Grupo de Síntese Orgânica do IQSC

Essa área de pesquisa envolve, resumidamente, a construção de moléculas complexas e com maior valor agregado a partir de moléculas mais simples, que podem ser compradas no mercado. A possibilidade de desenvolver moléculas no laboratório contribui para a preservação ambiental, pois, em alguns casos, a extração de determinada substância da natureza gera grandes prejuízos aos recursos naturais, não compensando sua retirada. Um exemplo é o taxol, molécula orgânica que pode ser extraída do casco da árvore Taxus brevifolia para o tratamento de câncer. A cada árvore derrubada, que leva pelo menos 100 anos para chegar a sua fase adulta, poderiam ser produzidos poucos comprimidos de taxol, os quais não seriam suficientes para tratar sequer uma única pessoa.

Em geral, o plástico é produzido a partir de uma fonte não renovável, o petróleo; o novo método busca atender uma demanda por fontes de produção mais “verdes”. Foto: Marcos Santos/USP Imagens.

Futuro verde 

Além de ser um processo que gera mais riscos à natureza, a obtenção de carbono a partir do petróleo não é um procedimento que terá vida eterna. “Estamos pensando lá na frente, daqui a algumas gerações. Um dia o petróleo irá acabar. Como iremos fazer os produtos? Novos métodos precisam aparecer”, alerta Burtoloso

De acordo com o docente, a técnica desenvolvida no IQSC apresenta grande potencial de escalabilidade na indústria. Além disso, ele aponta que há um direcionamento dentro das empresas para o desenvolvimento de compostos mais sustentáveis. Ele afirma, inclusive, que vários países estipularam como meta, daqui a algumas décadas, a substituição de 20% a 30% do carbono proveniente do petróleo por fontes consideradas “verdes”. 

Esse tipo de ação também poderá atrair os olhares dos consumidores que, muitas vezes, optam por adquirir uma mercadoria fabricada de forma sustentável. “Se as propriedades dos produtos que serão produzidos com a nossa técnica forem similares às existentes no mercado, o cliente faria a compra com a consciência muito mais tranquila. Ele estaria usando algo que foi desenvolvido sem acarretar danos ao meio ambiente”, explica o professor. 

Os resultados obtidos no trabalho foram descritos no artigo científico Synthesis of long-chain polyols from the Claisen condensation of γ-valerolactone, publicado na Green Chemistry, revista britânica de alto impacto mundial na área de química verde. “É uma revista de grande prestígio, e fomos muito bem avaliados pelos revisores. Ficamos felizes com o reconhecimento”, comemora o cientista. 

Agora, os pesquisadores esperam aprimorar a técnica desenvolvida de forma que todo o processo fique ainda mais simples e barato. O grupo está aberto a firmar parcerias com a indústria visando à realização dos testes necessários para disponibilizar o novo método à sociedade. O trabalho contou com a colaboração da aluna de doutorado do IQSC, Camila Santos, além de pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).

Por: Henrique Fontes (Jornal da USP).

Nova Fonte de Energia Solar e Armazenamento é Desenvolvida

Um arco solar na Universidade de Surrey, onde os pesquisadores avaliarão a reação do público. Fonte: Solivus

Uma nova forma de geração e armazenamento integrados de energia solar está sendo desenvolvida para o Reino Unido. Combina chapas solares finas, flexíveis e leves com armazenamento de energia para alimentar edifícios ou carregar veículos elétricos fora da rede convencional de energia. 

A empresa por trás dela, Solivus, planeja cobrir os telhados de grandes edifícios industriais com o tecido solar. 

Isso inclui armazéns de supermercados e centros de distribuição de empresas de entrega. 

Mas Solivus também planeja fabricar unidades solares ou “arcos” para uso doméstico. 

O objetivo é criar energia local renovável, fornecer às pessoas e empresas seu próprio suprimento de energia e ajudar o Reino Unido a atingir sua meta de zero emissões de gases de efeito estufa até 2050. 

O material solar é uma chapa à base de carbono, que a empresa descreve como uma “fotovoltaica orgânica” (FVO). É um material que absorve a luz solar e produz energia. 

O filme fotovoltaico em camadas pode ser dobrado em formas ou colado em superfícies planas ou curvas, verticais ou horizontais – onde os painéis não podem ser usados ​​ou fixados sem danificar a integridade de um edifício. 

A empresa diz que o filme fotovoltaico representa um décimo do peso dos painéis tradicionais em quadros – 1,8 kg por m² – não contém metais de terras raras ou materiais tóxicos e dura 20 anos. 

A eficiência do material em um laboratório é de cerca de 13%, mas permanece estável à medida que as temperaturas sobem à luz do sol natural – o que é um problema com os painéis solares tradicionais, embora esses possam funcionar com uma eficiência média de 15 a 18%. 

O filme fotovoltaico coleta um espectro mais amplo de luz do que outros painéis, diz o fabricante Heliatek, enquanto ainda trabalha em dias cinzentos. 

O plano é que a energia produzida seja armazenada localmente, em uma bateria de veículo elétrico ou potencialmente em uma bateria de volante gerador, o que pode liberar sua carga rapidamente. 

A combinação é uma criação de Jo Parker-Swift, que tem experiência em ciências biológicas, e que desenvolveu e vendeu duas empresas que trabalhavam com fundos do Serviço Nacional de Saúde

Mas foi uma chance de se reunir em um trem com dois ex-chefes de empresas de energia e uma conversa sobre a crescente demanda que a levou a pensar em uma maneira de aproveitar energia solar suficiente para tirar sua casa e seu carro da rede convencional. 

Uma vez em casa, ela olhou para as folhas dos arbustos de louro em seu jardim, calculando a área da superfície. 

“Eu devo ter parecido uma maluca, com certeza”, diz ela, marcando todas as folhas para não contar duas vezes. 

Mas ela achava que a natureza poderia ter a resposta para a independência energética – uma grande área superficial em um espaço pequeno, para capturar a luz do sol. Algo ao longo das linhas de uma árvore solar. 

Assim, começou uma jornada de pesquisa e investimento de dois anos e meio e o desenvolvimento da ideia de que não seria apenas uma casa funcionando fora da rede elétrica, mas negócios, empresas de entrega e seus veículos, casas, estádios e pontos pagos de energia para o transporte elétrico. 

O transporte é responsável por 23% das emissões de CO2 do Reino Unido e o governo se comprometeu a encerrar a venda de novos veículos a gasolina ou diesel até 2040. 

Ela espera que o filme fotovoltaico ajude na batalha de parar os níveis crescentes de CO2 na atmosfera e os danos aos oceanos cada vez mais ácidos. 

As empresas que desejam ser neutras em carbono reagiram positivamente e o plano de médio prazo da Solivus é lançar uma instalação de filmes fotovoltaicos em grandes propriedades comerciais e estádios do Reino Unido em 2021/22. 

A expectativa deles é que um telhado de 10.000 m² forneça aproximadamente 1 MW (megawatt) de energia – o suficiente para alimentar um bloco de apartamentos. 

A empresa também está trabalhando com o Centro de Inovação em Engenharia de Grafeno da Universidade de Manchester para verificar se o grafeno pode desempenhar um bom papel. 

O grafeno é um material 2D forte, com apenas um átomo de espessura, que conduz eficientemente calor e eletricidade. 

O próximo passo é mais modesto – o tecido solar foi instalado em um prédio agrícola, entregue a uma empresa de mobilidade que precisa carregar baterias para sua frota. 

E o filme fotovoltaico foi moldado em “arcos” – unidades com lados curvos e uma grande área de superfície, projetada para absorver mais luz sem precisar rastrear o sol. 

Prevê-se que uma unidade seja um sistema de 1 kW (kilowatt) fornecendo 1.000 kWh (killowatts-hora) a cada ano no Reino Unido. Pesquisadores da Universidade de Surrey estão analisando a reação do público à ideia e ao design

O custo para os consumidores seria pago, não através de um investimento inicial, mas sim por meio de um reembolso, com o objetivo de ficar abaixo das contas atuais de energia. 

O professor Michael Walls, do Centro de Tecnologia de Sistemas de Energia Renovável da Universidade de Loughborough, diz que o conceito de energia fotovoltaica leve em edifícios é “empolgante” porque abre novas aplicações para energia solar. Mas existem obstáculos econômicos e práticos. 

O mercado atual de painéis fotovoltaicos flexíveis é uma fração dos painéis solares rígidos tradicionais, o que significa que os fabricantes destes painéis não têm as mesmas economias de escala. 

Até agora, ele diz, que alguns filmes solares flexíveis têm apresentado problemas em que a água penetrou no revestimento, causando degradação. E a tecnologia dominante dos painéis fotovoltaicos flexíveis tem sido o CIGS – dispositivos feitos de disseleneto de cobre, índio e gálio. 

“Se eles puderem vender a um custo razoável e evitar problemas técnicos, seria fantástico, mas há muitos desafios”, diz ele. 

A ideia de uma árvore solar ainda não pode ser concretizada, mas a jornada está em andamento.

Por: Claire Heald (BBC News). Tradução: Maria Beatriz Ayello Leite (Ambientebrasil).

Geosmina Estimula Proliferação do 'Aedes aegypti' Mais que Qualquer Substância no Mundo

Coleta de amostras da água na saída do rio dos Poços. Locais onde composto orgânico está presente possuem também micro-organismos dos quais as larvas do mosquito se alimentam.
Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo. 

A geosmina que impregnou a água da Região Metropolitana desde o início de janeiro de 2020 atrai o mosquito Aedes aegypti mais do que qualquer outra substância no mundo. Uma equipe internacional de cientistas ligados à Universidade de Lund, na Suécia, descobriu que a geosmina, tida até agora como inofensiva, não só atrai a fêmea do Aedes como a estimula a colocar ovos, pois, onde a substância está presente, também há micro-organismos dos quais as larvas se alimentam. 

Mesmo que a água tratada pela Cedae deixe de ter cheiro de geosmina, devido à aplicação de carvão ativado, o esgoto que contamina os mananciais de onde ela foi tirada continuará a ser uma fonte em potencial de proliferação do mosquito transmissor de dengue, zika e chicungunha, explica a autora principal do trabalho, a pesquisadora sueca Nadia Melo. 

Ela afirma que, se a água de reservatórios domésticos tiver cheiro de geosmina, atrairá os mosquitos, e qualquer espaço será usado para a colocação de ovos. Estimuladas pela fartura de locais favoráveis a isso, as fêmeas do Aedes saem em busca de pessoas para picar e conseguir mais sangue. 

— É um perigo a água do Rio cheirar à geosmina. As autoridades devem estar atentas a isso. O Aedes é extremamente sensível ao odor dela. Uma concentração muito baixa já é suficiente para atraí-lo. O período em que a água ficou com odor de geosmina deve ter sido favorável à proliferação do mosquito e, enquanto existirem fontes de geosmina, no esgoto, ele continuará a proliferar — explica Nadia. 

Ela e os demais autores do estudo chegaram à conclusão quando buscavam substâncias que pudessem funcionar como armadilhas para as fêmeas, o que ajudaria no controle do mosquito. O resultado foi uma boa notícia para o mundo e péssima para o Rio, cidade que teve a água tomada pela geosmina. 

Impressionada ao ser informada que a substância se difundiu em tamanha proporção no Rio, a cientista sueca alerta que concentrações realmente ínfimas são suficientes para atrair o Aedes e que é impossível saber, hoje, o tamanho do problema: 

— Não sabia que a situação do Rio era essa. É preocupante. É preciso ter muita atenção porque a geosmina é ímã para o mosquito, ele vai preferir um local com a substância a qualquer outro. Um perigo. 

Como a geosmina atrai o mosquito da dengue (I)
A pesquisa, intitulada Geosmin Attracts Aedes aegypti mosquitoes to oviposition sites (“Geosmina atrai o mosquito Aedes aegypti para locais de postura de ovos”, em tradução livre) foi publicada na Current Biology, uma das mais importantes e respeitadas revistas científicas da biologia. Nela, os cientistas descrevem a descoberta de que o Aedes aegypti tem, na antena, um receptor específico para detectar a geosmina. Ao ser captada pelo mosquito, a substância estimula o sistema reprodutivo das fêmeas a colocar ovos. Uma vez que elas fazem a postura, partem em busca de alimento, isso é, de sangue humano, para dar início a um novo ciclo reprodutivo. 

Como a geosmina atrai o mosquito da dengue (II)
Os cientistas testaram diversas substâncias para descobrir quais são as mais atraentes para o Aedes. No estudo, mostram que a geosmina é a mais potente de todas. O mosquito parece ter naturalmente evoluído para se adaptar à geosmina. É sabido que, na natureza, alguns animais são atraídos e outros repelidos por ela. A inofensiva mosca-das-frutas, por exemplo, detesta geosmina. Nadia explica que o ser humano também é particularmente sensível à percepção do odor, que, em excesso, o incomoda. 

Como a geosmina atrai o mosquito da dengue (III)
Por ironia do destino do Rio, à mercê da falta de saneamento e do tratamento de água deficiente, um dos fatores limitantes para o uso de armadilhas de geosmina apontados pelo estudo é o fato que a substância não costuma ser abundante em condições normais. 

Os pesquisadores chegaram a testar, com a participação da Universidade Federal de Alagoas, a casca da beterraba como um chamariz para o mosquito. Isso porque ela tem geosmina, que lhe confere um cheiro característico de terra. Em Miami, a Universidade Internacional da Flórida testou sachês de geosmina sintética. Todas as experiências tiveram sucesso, mas nada como a própria geosmina para atrair o Aedes. A substância natural é ainda melhor, observa Nadia. 

‘Aedes’ gosta de esgoto

A cientista ficou surpresa ao saber que houve uma imensa produção de geosmina nos mananciais onde a Cedae capta água. 

— A fêmea do Aedes prefere água mais suja porque as larvas se alimentam de cianobactérias e outros micro-organismos presentes em ambientes ricos em nutrientes encontrados no esgoto. É um mito achar que o mosquito gosta e precisa de água limpa. Quem gosta de água limpa é o anófeles, o transmissor da malária — explica Nadia. 

A cientista observa que, enquanto houver água e esgoto com micro-organismos produtores de geosmina, haverá Aedes. Para o mosquito da dengue e da chicungunha, o verão da água com geosmina do Rio se tornou uma festa. 

Conhecido por seus estudos sobre o impacto do zika no cérebro e autor de pesquisas sobre os efeitos de toxinas produzidas pelas mesmas cianobactérias da geosmina, o neurocientista Stevens Rehen, professor titular da UFRJ e diretor científico do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, diz que não há conhecimento sobre os efeitos da geosmina combinada a outras condições ambientais ou de saúde. Ele afirma que é preciso investigar, por exemplo, se haveria aumento de toxicidade ou virulência de vírus como dengue, chicungunha e zika em pessoas que consomem cronicamente geosmina.

Por: Ana Lucia Azevedo (O Globo).

Coronavírus: o que sabemos e o que esperar da nova infecção respiratória

Especialistas explicam o que é o novo coronavírus, originário de Wuhan (China), quais seus sintomas e o risco de ele ser transmitido no Brasil. 
Foto: Suwit Nimjitt /EyeEm/Getty Images.

Um novo vírus que ataca o sistema respiratório e se espalhou a partir da região de Wuhan, na China, foi classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como emergência internacional. Ele pertence à família dos coronavírus, um grupo que reúne desde agentes infecciosos que provocam sintomas de resfriado até outros com manifestações mais graves, como os causadores da Sars (sigla em inglês para Síndrome Respiratória Aguda Grave) e da Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio). 

“Falamos de uma ampla família de vírus, que acometem praticamente todas as espécies, de répteis a mamíferos”, contextualiza o infectologista Celso Granato, do Fleury Medicina e Saúde. De acordo com as investigações ainda em andamento, o novo coronavírus, que infectou mais de 8 mil pessoas e matou pelo menos 170 até o momento, pode ter origem em serpentes ou morcegos — inclusive se especula que a ingestão de um desses animais teria originado o surto. Apesar de um estudo chinês ter encontrado uma relação do novo coronavírus com cobras, não existe consenso entre os cientistas sobre a origem da doença. Muitos apostam que outro animal possa estar envolvido com o início do problema na China. 

O fato é que coronavírus diferentes podem sofrer mutações e se recombinar, dando origem a agentes inéditos. Pulando entre espécies animais (os hospedeiros), eles eventualmente chegam aos seres humanos. “É um processo que tem semelhanças com o que acontece na gripe. Na gripe suína, um porco pegou o vírus de aves e, na recombinação de vírus diferentes dentro do animal, surgiu um H1N1 que conseguiu passar para os seres humanos“, explica Granato. 

Tudo leva a crer que o novo coronavírus tenha sido originalmente transmitido para o ser humano de um animal e ainda esteja em processo de evolução e adaptação. “Embora a transmissão de uma pessoa para outra já tenha sido detectada, até agora não está clara a importância da transmissão interumana”, diz a infectologista Lígia Pierrotti, do laboratório Delboni Auriemo. 

Seguindo o padrão dos coronavírus e a perspectiva de o agente aperfeiçoar sua propagação entre os humanos, existem algumas vias principais de transmissão. De acordo com o pneumologista Elie Fiss, professor titular da Faculdade de Medicina do ABC, os coronavírus normalmente são transmitidos pelo ar, por meio de tosse ou espirro, contato pessoal próximo ou com objetos e superfícies contaminadas. 

O que o novo coronavírus faz e quais são seus sintomas?

Pesquisadores e autoridades de saúde estão mobilizados em entender melhor o comportamento desse agente infeccioso e evitar sua disseminação geral. Além do alerta da OMS, o Brasil e outras nações deram início a um plano de vigilância e contenção de casos suspeitos — por ora não há episódios confirmados por aqui. 

Mas falamos de um vírus perigoso? O número de vítimas na China fez soar o alerta, sobretudo para o risco de pneumonia e insuficiência respiratória em pessoas mais velhas e que já tenham outras doenças. 

“O novo coronavírus causa, em geral, sintomas respiratórios mais leves que os da Sars e da Mers e os sinais clínicos mais referidos são febre e tosse. Até o momento, a letalidade também é menor que a associada a Sars e Mers“, relata Lígia. Um estudo com uma família infectada pelo novo coronavírus sugere que é possível que ele permaneça no corpo sem manifestar sintomas. Isso dificultaria o controle, uma vez que esse agente infeccioso poderia ser transmitido por pessoas aparentemente saudáveis. 

O professor Elie Fiss conta que a Sars é uma condição causada por um coronavírus diferente cujos primeiros relatos surgiram também na China em 2002. “Ela se disseminou rapidamente por mais de 12 países na América do Norte, América do Sul, Europa e Ásia, infectando mais de 8 mil pessoas e causando em torno de 800 mortes antes de a epidemia ser controlada em 2003”, lembra o pneumologista. 

Em 2012, por sua vez, outro coronavírus espalhou o terror na Ásia. Esse foi identificado inicialmente na Arábia Saudita e se alastrou pelo Oriente Médio, afetando pessoas que circularam pela região. Provocava um colapso respiratório e ganhou o noticiário com a sigla Mers. 

Tanto o vírus da Sars quanto o da Mers parecem mais mortais que o novo coronavírus de Wuhan. Segundo Lígia, a letalidade chega a 10% dos casos na Sars e a 40% nos episódios de Mers. 

De acordo com Fiss, a maioria dos óbitos ligados ao atual coronavírus têm acontecido em indivíduos que já possuíam doenças associadas. 

A atenção da OMS e das autoridades não é em vão. Celso Granato explica que possivelmente o vírus ainda se encontra em processo de mutação e nosso organismo não tem mecanismos de defesa para combatê-lo adequadamente. Na ausência de uma vacina ou de um tratamento específico, o melhor conselho é evitá-lo mesmo. 

Como se proteger?

Para os brasileiros, cabe frisar: a maioria dos casos da doença tem relação direta com os territórios chineses acometidos, que inclusive já foram isolados. Alemanha, Japão e Vietnã foram as primeiras nações além da China a apresentar casos autóctones — ou seja, transmitidos dentro dos próprios países. 

Por aqui, um episódio suspeito em Belo Horizonte já foi investigado e o veredicto é que não se tratava do problema. Outros casos seguem em investigação pelo Ministério da Saúde. 

“Pessoas que apresentam sintomas respiratórios e não tenham passagem por essas áreas de circulação do vírus nem contato com casos suspeitos ou confirmados não precisam se preocupar”, tranquiliza Lígia. 

A primeira medida de prevenção é evitar viajar a Wuhan e região, bem como a cidades que possam vir a alojar surtos. Se inevitável, os médicos Elie Fiss e Celso Granato aconselham algumas medidas básicas de proteção, que inclusive se aplicam a outros agentes infecciosos transmitidos pelo ar e por gotículas de saliva: 

  • Evite aglomerações e contato próximo com outras pessoas; 
  • Cubra o nariz e a boca com lenço descartável ao tossir ou espirrar (e descarte o material em local adequado); 
  • Lave as mãos a cada duas horas e principalmente após passar por estabelecimentos ou transportes públicos; 
  • Procure não tocar olhos, nariz e boca; 
  • Não compartilhe copos, toalhas e objetos de uso pessoal; 
  • Dependendo do local, compre e use máscaras que cobrem boca e nariz. 

Um mapa em tempo real

A Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, criou um site com atualizações diárias sobre o coronavirus. Os dados vêm da OMS, do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (EUA) e das autoridades sanitárias dos países com casos confirmados.

Por: Diogo Sponchiato e André Biernath (Saúde / Abril).

Agrotóxico Mais Encontrado em Frutas e Verduras no Brasil é Fatal Para Abelhas

Sem polinizadoras, produção de lavouras fica prejudicada; estudo da Anvisa analisou que mais da metade das 4 mil amostras de 14 alimentos vegetais no país contém agrotóxico. Segundo a ONU, 75% dos cultivos destinados à alimentação humana no mundo dependem das abelhas (Foto: desEYEns – Arte: Bruno Fonseca/Agência Pública). 

Um agrotóxico fatal para as abelhas foi o mais encontrado em um levantamento do governo que analisa o resíduo de pesticidas em frutas e verduras vendidas em todo país. O resultado da nova edição do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, o PARA, foi divulgado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no dia 11/12/2019 e mostrou também que em 51% dos testes realizados foi encontrada alguma quantidade de resíduo de agrotóxico nos alimentos. 

Na pesquisa, que testou 4.616 amostras de 14 alimentos, o ingrediente ativo Imidacloprido foi o mais encontrado. Ele é um neonicotinoide, um inseticida derivado da nicotina que tem capacidade de se espalhar por todas as partes da planta e, por isso, é fatal para os polinizadores. 

Uma reportagem da Agência Pública e Repórter Brasil revelou em março de 2019 que mais de 500 milhões de abelhas morreram em três meses em quatro estados brasileiros. Uma das principais causas das mortes foi justamente o contato com neonicotinoides, que atingem o sistema nervoso central das abelhas – afetando a capacidade de aprendizagem e memória e fazendo com que muitas percam a capacidade de encontrar o caminho de volta para a colmeia. 

Ter um agrotóxico fatal para abelhas como o mais encontrado em alimentos é um alerta também para a saúde humana. 

Primeiro porque ele acaba sendo consumido pelas pessoas. “Esse tipo de produto que se espalha por toda a planta é muito perigoso, pois lavar o alimento ou descascá-lo não é suficiente para retirar os resíduos de agrotóxico, que já circulam dentro da planta”, explica o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, vice-presidente da regional sul da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA). 

Outro problema desse tipo de agrotóxico ser o mais detectado no PARA é que, ao matar abelhas, se prejudica também a produção das lavouras. Isso porque elas são as principais polinizadores da maioria dos ecossistemas. No Brasil, das 141 espécies de plantas cultivadas para alimentação humana e animal, cerca de 60% dependem em certo grau da polinização das abelhas. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 75% dos cultivos destinados à alimentação humana no mundo dependem das abelhas. 

No PARA, o Imidacloprido foi encontrado em 713 amostras, ou cerca de 15% de todos os alimentos testados. Oito produtos agrotóxicos à base de Imidacloprido foram autorizados pelo governo de Jair Bolsonaro em 2019, com registros de comercialização indo para as multinacionais estrangeiras Sulphur Mills, Albaugh Agro (dois registros), Helm, Nufarm, Tide e Tradecorp, e para a nacional AllierBrasil. 

Na edição anterior do PARA, com análises feitas entre 2013 e 2015, o Imidacloprido havia sido apenas o quinto ingrediente ativo mais encontrado nas amostras. Segundo a Anvisa, não é possível comparar os resultados porque a metodologia de pesquisa mudou — alimentos e períodos de análise agora são diferentes. 

Resultados ‘alarmantes’

A pedido da Agência Pública e da Repórter Brasil, especialistas de organizações que estudam o tema dos agrotóxicos analisaram o relatório, disponibilizado no site da Anvisa, e afirmaram que os resultados são alarmantes, ao contrário do que fez parecer o tom otimista da divulgação oficial do relatório

Para Melgarejo, da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), o relatório acende um alerta. “O número de 23% dos produtos apresentarem agrotóxico acima do permitido é assustador. E os 27% com veneno abaixo do limite não traz tranquilidade”, diz. “Nas definições de limites aceitáveis, é tido como base uma pessoa adulta de 50 quilos. Mas estamos alimentando crianças e bebês com esses mesmos alimentos. Estar abaixo do limite considerado seguro para um adulto de 50 quilos não significa dizer que é seguro para um bebê ou criança.” 

Representantes da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida também criticaram o posicionamento da Anvisa em relação ao relatório, qualificado como “roupa bonita para um conteúdo altamente tóxico”. Em nota, a organização diz que apesar do aspecto técnico da publicação, o release divulgado no site da Anvisa é “extremamente otimista”. Segundo eles, o tom é “de uma peça de propaganda política para um relatório que, lido atentamente, traz grandes preocupações para a sociedade.” 

A organização completa dizendo que “em um contexto de uso crescente de agrotóxicos ano a ano, e também de aumento sistemático das intoxicações por agrotóxicos, é lamentável ver a Agência que deveria garantir a segurança alimentar da população minimizando resultados gravíssimos sobre as condições da comida servida ao povo brasileiro”. 

Para o Greenpeace, a comunicação dos resultados foi “maquiada”. “Os problemas continuam os mesmos, mas a forma otimista que eles divulgaram faz parecer que melhorou, e isso, infelizmente, foi replicado por muitos veículos de imprensa. Ainda temos mais de 50% dos alimentos com alguma quantidade de agrotóxicos. E os 27% com agrotóxicos abaixo do limite são questionáveis, pois esses limites são muito frágeis quando falamos de várias refeições durante o dia, com mistura de alimentos e substâncias, que tem um efeito diferente de um produto isolado”, explica Marina Lacôrte, especialista em Agricultura e Alimentação do Greenpeace. 

Criado em 2001, o PARA testou nesta versão 14 produtos da dieta da população brasileira — abacaxi, alface, alho, arroz, batata-doce, beterraba, cenoura, chuchu, goiaba, laranja, manga, pimentão, tomate e uva. As amostras foram recolhidas em estabelecimentos de 77 municípios, entre agosto de 2017 a junho de 2018, ou seja, antes do início do governo de Jair Bolsonaro, no qual 467 produtos agrotóxicos foram liberados em menos de um ano, um recorde histórico. 

Do total de amostras analisadas (4.616), em 2.254 (49%) não foram detectados resíduos, 1.290 (28%) apresentaram resíduos com concentrações iguais ou inferiores ao Limite Máximo de Resíduos (LMR), estabelecido pela Anvisa. E em 1.072 amostras (23%) foram identificados resíduos acima do permitido, incluindo até mesmo agrotóxicos proibidos de serem comercializados no Brasil. 

Em 0,89% — quase um em cada 100 casos —, foi identificado potencialidade para causar riscos agudos à saúde, com efeitos como enjoo, vômito, dor de cabeça e febre nas 24 horas seguintes ao consumo do alimento. 

A visão do governo, por meio da Anvisa, é a de que o resultado do relatório é positivo. “Temos situações pontuais de riscos, mas que não geram nenhum risco à saúde da população. Os dados mostram a segurança dos alimentos que a gente consome hoje”, garantiu Bruno Rios, diretor adjunto da Anvisa, em coletiva após a divulgação dos dados. 

Análise não identifica todos agrotóxicos permitidos

As coletas analisadas no PARA foram feitas pelas vigilâncias sanitárias e encaminhadas para os Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens): Instituto Octávio Magalhães (IOM/FUNED/MG), Laboratório Central de Goiás (Lacen/GO) e Instituto Adolfo Lutz (IAL/SP); e para um laboratório privado contratado por processo licitatório. 

Segundo o relatório, em cada amostra foram pesquisados até 270 ingredientes ativos, número bastante inferior aos 499 permitidos para serem comercializados no Brasil após avaliação da Anvisa, Ministério da Agricultura e Ibama. Foram detectados resíduos de 122 ingredientes ativos diferentes nas 4.616 amostras analisadas, o que resultou no total de 8.270 detecções de agrotóxicos — em muitos casos foram identificados mais de um tipo de pesticida em um só alimento, mas a Anvisa não especifica quais em seu relatório. 

Depois do Imidacloprido, citado no início da reportagem, os ingredientes ativos mais encontrados foram os fungicidas Tebuconazol (570) e o Carbendazim (526) — este último proibido na União Europeia, Estados Unidos, Canadá e Japão por causar problemas mutagênicos e de toxicidade reprodutiva. Em 2012, os EUA proibiram a importação do suco de laranja brasileiro devido à presença deste fungicida nos produtos. 

Entre os 40 ingredientes ativos mais encontrados está o Carbofurano, um produto proibido no Brasil, identificado 52 vezes na atual pesquisa — na edição 2013-2015, ele aparecia entre os 30 ingredientes ativos mais encontrados. 

Em outubro de 2017, dois meses após o começo das análises, a Anvisa proibiu a comercialização de agrotóxicos à base de Carbofurano justamente pela persistência de seus resíduos nos alimentos, além de malefícios à saúde humana. Ele também é classificado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como altamente tóxico do ponto de vista agudo — a que causaria intoxicação nas 24 horas seguidas ao consumo. 

De acordo com a Anvisa, a presença de agrotóxicos não autorizados nas análises tem como um dos motivos os poucos registros para culturas consideradas de baixo retorno econômico. Por isso, muitos produtores acabam utilizando agrotóxicos autorizados para uma cultura específica – soja, por exemplo, em outras culturas, caso da uva.  

Laranja, goiaba e uva: os três mais com agrotóxicos

Entre os alimentos testados, a laranja foi a que mais apresentou resíduos de agrotóxicos. De 382 análises, apenas 157 não apresentaram vestígios de pesticidas, 173 apresentaram resíduos em concentrações iguais ou inferiores ao permitido pela lei e em 52 casos os níveis de agrotóxico encontrados estavam acima do permitido. 

Foram encontrados 47 agrotóxicos diferentes nas laranjas vendidas em supermercados brasileiros, que incluiu até mesmo resíduos de Carbofurano, proibido no Brasil. O mais encontrado na fruta foi o Imidacloprido. Na laranja também foi encontrado a maior exposição para risco agudo. Depois da laranja, a goiaba e a uva foram os alimentos que mais apresentaram riscos agudos. 

Nova metodologia é criticada

Até 2012, os resultados do PARA eram lançados anualmente. Desde então, optou-se por divulgar o relatório compilado de três anos. O último foi divulgado em 2016, com dados de 2013 a 2015. Não houve coletas em 2016, por conta de uma reestruturação no projeto, que só voltou à ativa no segundo semestre de 2017. 

Na edição anterior, onde foram analisadas 12.051 amostras em três anos, o percentual de alimentos com agrotóxicos acima do permitido era de 19,7%, menor do que o atual. 

Além disso, até 2015, o PARA trabalhava com uma lista de 25 alimentos a serem analisados, que representavam 70% da cesta de alimentos de origem vegetal consumidos pela população brasileira, segundo dados brutos da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE de 2008-2009, que traça o perfil de orçamento doméstico e condição de vida da população brasileira. Agora, esse número foi ampliado para 36, mas nem todos os alimentos escolhidos serão testados anualmente, pois as análises vão variar dentro de cada triênio. Nesta edição, por exemplo, apenas 14 foram analisados, e alimentos como o feijão e a batata ficaram de fora, mas devem entrar nas próximas edições. 

A rotatividade é criticada por especialistas da área. “Produtos muito importantes, que estão no prato do brasileiro, não aparecem no resultado. O trigo que vai no pãozinho do dia a dia, o feijão que é um ingrediente tradicional no prato brasileiro. Não é uma boa ideia a Anvisa fracionar as análises para períodos específicos, quando a população consome esses produtos durante todo o ano”, explica o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo. 

Marina Lacôrte, do Greenpeace, também criticou o baixo número de alimentos apresentados. “Esses dados tem que ser avaliados todo o ano, pois há safras todos os anos. Eles argumentam que essas alterações ocorrem por questões financeiras, mas esse é um investimento necessário que o governo deve fazer: a saúde da população. Se o problema é financeiro então que se retire a isenção de impostos para os agrotóxicos, e utilizem esses impostos para bancar programas como esse”, diz.

Por: Pedro Grigori. Fonte: Repórter Brasil.

Brasil Poderá Ter Marco Regulatório dos Animais de Estimação

Com base em dados oficiais do IBGE, o Brasil já é o segundo país na quantidade de animais de estimação. Animais domésticos: país já tem mais cães e gatos do que crianças em seus lares. 

Está em análise na Comissão de Meio Ambiente (CMA) projeto que cria no Brasil o marco regulatório dos animais de estimação (PL 6.590/2019). O autor, senador Luis Carlos Heinze (PP-RS), explica que seu objetivo é, além de reconhecer a importância que esses animais têm para o ser humano, conferir segurança jurídica aos segmentos econômicos envolvidos no setor. 

Com base em dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Heinze aponta que o Brasil já é o segundo país na quantidade de animais de estimação. Os números de 2018 indicam a presença de 139,3 milhões desses animais. São 54,2 milhões de cães, 39,8 milhões de aves, 23,9 milhões de gatos, 19,1 milhões de peixes e 2,3 milhões de outras espécies (répteis, anfíbios e pequenos mamíferos). O Brasil já tem mais cães e gatos do que crianças em seus lares, segundo o IBGE. 

A cadeia produtiva brasileira ligada à área (Cadeia Pet) também já é a segunda maior do mundo no ranking de faturamento com produtos e serviços (perde apenas para os Estados Unidos). São os segmentos Pet Food, Pet Care, Pet Vet, comércio, serviços técnicos e criatórios. 

“A Cadeia Pet é um dos setores que mais gera postos de emprego. Levantamentos mostram que, até o final de 2018, gerou aproximadamente 2 milhões de empregos diretos. No ano passado, novos investimentos alcançaram R$ 420 milhões, que deverão ser de R$ 2,1 bilhões em 2025, segundo as projeções do próprio setor”, argumenta o senador. 

Membros da família

Para Heinze, o vínculo afetivo que os animais de estimação atingiram no mundo hoje chegou a um nível em que já são vistos como parte da família. 

Mas, além da parte afetiva, eles ainda exercem outras funções de grande importância. Garantem acessibilidade a pessoas com deficiência (Leis 11.126 e 13.830), além de auxiliarem em muitos tratamentos terapêuticos, atividades esportivas e de ornamentação. Também exercem funções públicas, como os que fazem parte do Centro Nacional de Cães de Faro (CNCF), que atuam para a Receita Federal. 

“Ninguém mais deve relevar os animais a coisas. Isto é tão verdade que o Poder Judiciário, com frequência, trata de litígios de casais separados com pedidos de guarda compartilhada dos animais de estimação”, exemplifica o senador. 

O que diz o projeto

O PL 6.590/2019 define os animais de estimação como seres de senciência e sensibilidade, devendo ser protegidos contra maus-tratos, com plena condição de bem-estar. São destinações principais deles, entre outras: companhia, lazer, terapia, criação, guarda, trabalho, auxílio a pessoas com deficiência, esportes, participação em torneios e exposições, reprodução para melhoramento genético e trabalhos especiais. 

Esses animais passam a ser considerados essenciais à boa qualidade de vida do homem na sociedade, estando assegurado a eles uma vida digna. Por isso, devem ter acesso à água limpa, alimentação completa, balanceada e adequada à espécie. Também devem ter acesso a zelo e exercícios, acompanhamento médico-veterinário e provimento de medicamentos quando necessário. Também devem ter segurança e condições adequadas de transporte. 

Ainda segundo o PL 6.590/2019, todos esses direitos também devem ser respeitados por comerciantes que mantêm animais no estabelecimento. O mesmo valerá para as ONGs que recolhem animais de rua, abandonados por seus donos ou vítimas de maus-tratos. 

O projeto define os animais de estimação como intermédios entre o sujeito e o objeto de direito, proibindo serem tratados como “coisa”, mas sem personalidade jurídica ou status de sujeito. 

“Esta mudança põe o Brasil definitivamente no mapa da proteção mundial aos animais, moderniza a legislação sem solavancos, e sem a hecatombe socioeconômica que um eventual reconhecimento como sujeitos de direito, ainda hoje inviável, poderia gerar. Será um avanço notável no combate aos maus-tratos, enquanto acalma os ânimos daqueles que dedicam suas vidas a cuidar e trabalhar com animais de estimação, com ou sem raça definida”, pondera Heinze. 

Segurança para o agronegócio

O senador explica que também busca o desenvolvimento do agronegócio ligado ao mercado pet. O PL 6.590/2019 define a cadeia produtiva dos animais de estimação. É o ramo do agronegócio relacionado a animais, bens e serviços no conjunto dos agentes econômicos que têm parte relevante de seus negócios na produção de animais de estimação e de todos os produtos afins. É reconhecida como parte da cadeia toda empresa ou entidade que forneça bens para sua sustentação (indústria, comércio e serviços). 

São os seguintes os atores econômicos da cadeia produtiva, segundo o projeto: os criadouros das espécies de animais determinados no PL 6.590/2019 e as indústrias de rações, produtos de higiene, cuidados específicos, medicamentos e produtos veterinários, e de ingredientes para composição dos produtos. 

Também são parte do setor o comércio atacadista e varejista dos produtos para animais de estimação, o comércio de medicamentos e produtos veterinários, o comércio distribuidor e de autosserviços. Por fim, também entram na lista os serviços hospitalares, as clínicas veterinárias, hotéis e creches para animais. 

Outras regras

A proposta ainda vincula, por regulamentação, a adoção de uma política de fomento ao setor de animais de estimação em 120 dias, a partir da eventual sanção da lei. 

Também fica permitida a comercialização de animais de estimação em todo o país, desde que resguardados todos os direitos. E os governos federal, estaduais e municipais deverão assegurar, na formulação de políticas públicas para a área, a participação direta e indireta dos representantes de todos os segmentos econômicos ligados a animais de estimação, especialmente no que tange a questões tributárias, concorrenciais e regulatórias.


Desmate de Fragmento da Mata Atlântica Eleva Temperatura Local

Pesquisadores da USP e da Unicamp verificam que, se um remanescente florestal de um hectare tiver 25% de sua área devastada, o impacto no clima local será de 1°C; dados foram divulgados na PLOS ONE (Foto: Carlos Joly / BIOTA-FAPESP).

Estudo feito por pesquisadores das universidades de São Paulo (USP) e estadual de Campinas (Unicamp) revela que, se um fragmento de Mata Atlântica de aproximadamente um hectare tiver 25% de sua área desmatada, a temperatura local aumenta 1ºC. Se todo o pequeno remanescente for desflorestado, portanto, o impacto na temperatura máxima local pode chegar a 4ºC. Os dados foram divulgados na revista PLOS ONE

“Conseguimos detectar efeitos climáticos de aquecimento causado pelo desmatamento de florestas nessa escala de fragmentos da Mata Atlântica, muito comuns no sudeste do país”, disse Humberto Ribeiro da Rocha, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP e coordenador do trabalho. 

A investigação foi conduzida no âmbito de dois projetos: um vinculado ao Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG) e outro ligado ao Programa BIOTA-FAPESP

De acordo com Rocha, já havia evidências científicas de que o desmatamento de florestas tropicais promove o aquecimento do ar em escala local, mas baseadas em medidas de grandes áreas desmatadas, obtidas principalmente de estudos feitos na Amazônia

“Não havia uma informação detalhada sobre o efeito do desmatamento em pequenos fragmentos, nem estudos que levassem em conta diferentes níveis de antropização [mudanças por ação humana]”, disse Rocha, membro da coordenação do PFPMCG

A fim de suprir essa lacuna, os pesquisadores analisaram a relação entre o grau de desmatamento e o aquecimento da temperatura local em remanescentes da Mata Atlântica situados na Serra do Mar, no litoral norte de São Paulo, por meio de estimativas da temperatura da superfície terrestre (LST, na sigla em inglês). 

Essas estimativas da temperatura superficial são feitas a partir de dados de emissão de fluxos de calor (térmicos) em todo o globo, registrados continuamente por sensores ópticos no infravermelho, como os acoplados aos satélites do Programa Landsat, da agência espacial americana, a NASA

Com base nesses dados, foi calculada uma média anual de temperatura superficial de dezenas de milhares de amostras de áreas da Mata Atlântica com aproximadamente um hectare e com cobertura florestal variável do nível total até o desmatamento integral. Os fragmentos florestais também apresentavam diferentes graus de antropização, com variação de 1%. 

Os cálculos, feitos durante o doutorado da pesquisadora Raianny Leite do Nascimento Wanderley, sob orientação de Rocha, indicaram que as áreas com menor cobertura florestal apresentam temperaturas mais altas. Cada aumento de 25% na retirada da cobertura vegetal nativa resultou no aquecimento de 1ºC na temperatura local, chegando a 4ºC no caso de desmatamento total. 

“Esse padrão detectado é interpretado como uma caracterização de impacto da perda de cobertura florestal no microclima do ambiente”, disse Rocha

Impactos na floresta 

Segundo os pesquisadores, os fragmentos de Mata Atlântica abrangidos pelo estudo, situados em maior altitude, têm proporcionalmente maior quantidade de carbono estocado no solo em comparação com áreas da Amazônia. Dessa forma, o desmatamento dessas áreas pode comprometer o balanço de carbono da floresta. 

“A Mata Atlântica, que hoje está em equilíbrio ou talvez esteja marginalmente absorvendo carbono da atmosfera, pode passar a ser uma fonte emissora”, ponderou Carlos Joly, professor da Unicamp e um dos autores do estudo. 

O aumento da temperatura nesses fragmentos de floresta afeta mais a respiração do que a fotossíntese das plantas. Esse efeito também contribui para a liberação de maiores quantidades de carbono da floresta para a atmosfera, afirmou Joly, que é membro da coordenação do BIOTA-FAPESP

“A combinação desses dois processos cria uma sinergia maléfica para aumentar as emissões de carbono da floresta para a atmosfera”, acrescentou. 

De acordo com Joly, ainda não se sabe se os efeitos do aumento da temperatura nos fragmentos de Mata Atlântica em razão do desmatamento são iguais em todas as espécies de árvores. 

Normalmente, são as espécies pioneiras – que sobrevivem em condições desfavoráveis devido à alta capacidade reprodutiva – que apresentam maior capacidade de resistir a mudanças de temperatura, explicou o pesquisador. 

“Ainda não temos condições de prever em quanto tempo, mas no longo prazo certamente o aumento da temperatura em fragmentos de Mata Atlântica causado pelo desmatamento pode influenciar, de forma diferenciada, a sobrevivência de espécies de árvores na floresta”, disse. 

“Pode ser que ocorra uma diminuição de espécies típicas de uma floresta madura e aumente a proporção de espécies de maior plasticidade, que, em geral, são as pioneiras ou secundárias iniciais.” 

Funções comprometidas 

Considerada uma das florestas mais ricas e ameaçadas do planeta, a Mata Atlântica ocupa hoje 15% do território brasileiro, em região que abrange 72% da população do país. Dados recentes do Atlas da Mata Atlântica indicam que foram perdidos 113 quilômetros quadrados (km2) do bioma entre 2017 e 2018. O monitoramento é feito de forma contínua pela Fundação SOS Mata Atlântica, em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). 

Além dos impactos na biodiversidade, o desmatamento, ainda que em escala pequena, compromete importantes serviços ecossistêmicos prestados pela Mata Atlântica, entre eles a regulação térmica, ressaltam os autores. 

“A floresta é importantíssima para manter as temperaturas mais amenas em escalas local e regional. A mudança em seu funcionamento pode comprometer essa função”, disse Joly

O abastecimento de água também pode ser impactado. A Mata Atlântica abriga sete das nove maiores bacias hidrográficas do país, que são as cabeceiras de rios que abastecem reservatórios responsáveis por quase 60% da produção da energia hidrelétrica e fornecem água para 130 milhões de habitantes do país. 

“A Mata Atlântica não produz água, mas protege as nascentes e permite o armazenamento nos reservatórios para consumo, geração de energia, irrigação agrícola e pesca, entre outras atividades”, apontou Joly

Por estar situada em áreas extremamente íngremes, como as encostas, a floresta ajuda a evitar deslizamentos de terra, muito comuns em períodos de chuvas intensas. 

“A remoção ou a mudança no funcionamento desses fragmentos de floresta pode diminuir muito essa proteção”, afirmou Joly

Segundo o pesquisador, o Estado é o maior indutor do desmatamento na Mata Atlântica, hoje reduzida a 12,4% da área original, em razão da construção de obras de infraestrutura, como rodovias e gasodutos. O bioma também tem sofrido com a expansão urbana, que envolve a construção de favelas e de condomínios de alto padrão. 

Por ser um dos biomas mais ameaçados na América do Sul, a Mata Atlântica tem sido foco nos últimos anos de um grande número de estudos voltados à restauração, feitos, em grande parte, por pesquisadores vinculados ao programa BIOTA-FAPESP, ressaltou Joly

A maior iniciativa de restauração do bioma é coordenada pelo Pacto da Mata Atlântica – movimento surgido na sociedade civil voltado a restaurar e conservar a floresta. 

“Existe hoje expressivo conhecimento acumulado sobre restauração da Mata Atlântica. É lógico que não será possível recuperar tudo o que foi perdido, mas ao menos parte das funções da floresta podemos restaurar”, avaliou Joly

O artigo Relationship between land surface temperature and fraction of anthropized area in the Atlantic forest region, Brazil (DOI: 10.1371/journal.pone.0225443), de Raianny L. N. Wanderley, Leonardo M. Domingues, Carlos A. Joly e Humberto R. da Rocha, pode ser lido na revista PLoS One em https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0225443.

Por: Elton Alisson (Agência Fapesp).