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Oceanos Estão Aquecendo Mais Rápido do Que o Previsto, diz estudo

As altas temperaturas estão matando os ecossistemas marinhos, elevando o nível do mar e tornando os furacões mais destrutivos. 

Pesquisadores descobriram que os oceanos estão ficando mais quentes, em média, 40% mais rápido do que o estimado em 2014, durante um painel das Nações Unidas. No artigo, publicado na revista Science [How fast are the oceans warming?], eles também apontam que as temperaturas das águas quebraram recordes por anos consecutivos. 

À medida que o planeta aquece, os oceanos amortecem o problema: eles diminuem os efeitos das mudanças climáticas, absorvendo 93% do calor aprisionado pelos gases do efeito estufa. "Se o oceano não estivesse absorvendo tanto calor, a superfície da Terra esquentaria mais rapidamente", explicou Malin L. Pinsky, professor da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos. "Na verdade, o oceano está nos salvando do enorme aquecimento." 

As altas temperaturas já estão matando os ecossistemas marinhos, elevando o nível do mar e tornando os furacões mais destrutivos. Além disso, as populações que dependem da pesca podem ser prejudicadas. "A capacidade dos oceanos quentes de produzir alimentos é menor, o que significa que essas pessoas estarão se aproximando da insegurança alimentar", comentou Kathryn Matthews, cientista do grupo de conservação Oceana

Importância científica

A temperatura média das águas é uma maneira de rastrear os efeitos das emissões de gases do efeito estufa. "Os oceanos são o melhor termômetro para mudanças na Terra", falou Zeke Hausfather, do grupo de pesquisa climática Berkeley Earth

Historicamente, entender as temperaturas oceânicas tem sido difícil. Um relatório oficial das Nações Unidas, emitido em 2014 pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, apresentou cinco estimativas diferentes do calor marítimo. Todas mostraram menos aquecimento que os níveis projetados por modelos climáticos computacionais – sugerindo que ambos métodos eram imprecisos. 

Desde o começo dos anos 2000, os pesquisadores medem o calor do oceano com uma rede chamada Argo. Nela, flutuadores medem a temperatura e a salinidade a 6,5 mil pés superiores do mar e enviam os dados via satélites. 

Antes de Argo, eram utilizados sensores de temperatura que os navios mergulhavam com um fio de cobre. As informações eram transferidas para gravação até que o fio se quebrasse. Esta técnica estava sujeita a incertezas por causa da profundidade em que a medição era feita – e isso atrapalha os cientistas atualmente. 

Na nova pesquisa, Hausfather e colegas avaliaram três estudos recentes que explicam os instrumentos antigos. Os resultados convergiram em uma estimativa de aquecimento dos oceanos maior do que a do relatório de 2014 das Nações Unidas, além de ser mais parecida com os modelos climáticos computacionais. 

De acordo com a análise, as águas mais próximas da superfície ficaram mais quentes, e o aquecimento acelerou nas duas últimas décadas. Com o aquecimento, o nível do mar sobe porque a água quente ocupa mais espaço do que a água fria. "À medida que o oceano esquenta, está levando os peixes a novos lugares, e já vimos que isso está gerando conflitos entre países", disse Malin L. Pinsky. "Isso levou ao colapso nas relações internacionais em alguns casos." 

Avaliação quente

Um quarto estudo usou um método para estimar a temperatura dos oceanos indiretamente, também descobrindo que eles estavam aquecendo mais rápido. Esta análise inicialmente continha um erro que levou os autores a revisar as estimativas para baixo, a aproximou das estimativas do novo consenso. 

"A correção fez com que eu concordasse melhor com outros registros. Anteriormente, este estudo mostrava aquecimento maior do que qualquer outro, e isso era preocupante porque significava que nossas estimativas observacionais poderiam ser problemáticas", declarou Hausfather

Para ele, os esforços para mitigar o aquecimento global, como o Acordo de Paris, ajudariam a reduzir o calor oceânico. "Há algum motivo para confiar que vamos evitar os resultados do pior caso."


Como a Erosão Afeta 60% do Litoral Brasileiro e Deforma Centenas de Quilômetros de Praia

Praia erodida em Natal, no Rio Grande do Norte.

O Brasil tem cerca de 7.500 quilômetros de litoral, entre praias, falésias, dunas, mangues, restingas e muitas outras formações. Mais da metade disso, no entanto, está sendo progressivamente destruída pela erosão ou pelo acúmulo de sedimentos, agravados pela ação humana. 

Juntos, esses dois problemas - erosão e acúmulo - atingem hoje cerca de 60% do litoral brasileiro, segundo o livro Panorama da Erosão Costeira no Brasil, publicado em novembro em de 2018 pelo Programa de Geologia e Geofísica Marinha, que reúne 27 universidades e instituições de pesquisa, e divulgado pela Fapesp em dezembro de 2018. 

Isso significa que hoje 4.500 km de litoral são afetados pela erosão. Isso é um aumento de 50% em relação à primeira edição do levantamento, em 2003, quando cerca de 3.000 km do litoral eram afetados. 

As regiões mais atingidas são Norte e Nordeste, segundo o geógrafo Dieter Mueher, coordenador do levantamento e pesquisador da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). "Na verdade, o que piorou mais se deu no Ceará e em Pernambuco", afirma. 

Isso é bem visível em locais como Paracuru (CE) - na praia de mesmo nome, as raízes dos coqueiros foram expostas pela ação das ondas e as árvores correm o risco de cair. No município de Fortim (CE), a linha da costa recuou 300 metros, e o avanço do mar destruiu estradas, casas e atracadouros. 

Nas praias de Pilar e Forno da Cal, em Itamaracá (PE), a erosão diminuiu a faixa de areia e já expôs as rochas sob a praia. No Recife, a praia de Boa Viagem sofre com o problema há décadas, e no município próximo de Paulista dezenas de famílias já perderam casas e comércios. 

Embora concentrado nas regiões Norte e Nordeste, o efeito dramático da erosão é visível no Brasil todo. O problema altera a linha da costa e gera danos econômicos e sociais. Se a erosão for muito grande, a água do mar pode acabar entrando pelos estuários e contaminando o lençol freático, fazendo com que ele se salinize. As mudanças também afetam a vida marinha e de animais como pássaros e tartarugas.

Falésia na cidade de Conceição da Barra, no Espírito Santo, um dos locais onde o processo de erosão foi acelerado pela ação humana.

Em São João da Barra (RJ), a erosão destruiu trechos da estrada de ligação entre o Farol de São Thomé e a Praia do Açu, que também teve várias casas e comércios próximos à linha da costa destruídos. O mesmo acontece em Ilha Comprida (SP), onde casas e árvores são derrubadas pelo efeito da erosão e onde, em alguns pontos, a linha da praia recuou até 100 metros. 

Em Matinhos (PR), o problema aflige a Praia Brava de Caiobá desde os anos 1970 e nenhuma das obras feitas desde então conseguiu resolvê-lo - pelo contrário, acabaram agravando a situação, com barreiras sendo derrubadas e a praia, deformada. 

Ação humana

"A erosão é um fenômeno natural, mas que é intensamente agravado pela ação humana", diz Mueher, da Ufes

O oceanógrafo Michel Mahiques, pesquisador do Instituto de Oceanografia da USP, explica que o processo de variação da linha da costa é algo que normalmente acontece ao longo de milhares de anos, não com a rapidez que se observa atualmente. 

"A variação se dá em uma escala de tempo geológica. Quando o clima da Terra varia, o nível do mar sobe, o nível do mar desce", afirma. "Quando o homem atua como um agente que aumenta a temperatura do planeta, ele está acelerando um processo natural." 

Mas o aquecimento global não é o único fator, segundo os pesquisadores: em escala local, a ocupação da praia e as obras costeiras têm um papel muito maior na deformação da paisagem. "O que afeta mais é a interferência local na paisagem, a ocupação cada vez maior da faixa costeira", diz Mueher

"As obras costeiras que o homem faz bloqueiam o transporte de sedimentos [pelo vento, pela maré, pelas correntes, por rios] que formam a praia, causando déficit de um lado e a acumulação de outro", explica Michel Mahiques. "O mesmo efeito acontece quando você constrói uma estrada muito perto da costa, quando faz um píer na praia, quando altera a desembocadura de um rio" 

"Para o gestor público, o prefeito, empreiteiro, é muito mais fácil culpar o aquecimento global e fingir que suas obras não têm impacto nenhum", afirma Mahiques. "Afinal, o aquecimento global não tem CNPJ. Mas não podemos ter uma postura fatalista. O que os estudos [reunidos no livro] mostram é que dá para relacionar diretamente a deformação do litoral com a ocupação da linha da costa." 

Os primeiros sinais registrados de erosão costeira em Pernambuco, por exemplo, são do início do século 20, quando a ampliação do porto do Recife afetou a orla de Olinda

Muitas vezes, as próprias obras feitas para tentar conter a erosão em orlas urbanizadas são mal projetadas e acabam provocando deformação em outras áreas. "Fica tudo na mão do município, onde geralmente as prefeituras não têm condições, dinheiro e equipe técnica qualificada", diz Mueher, da Ufes

Foi o que aconteceu em São Vicente, no litoral de São Paulo, segundo Michel Mahiques, da USP. "Eles começaram fazendo uma série de obras de contenção, mas não houve uma avaliação correta do impacto e foram obrigados a fazer cada vez mais." 

O acúmulo de areia também pode gerar danos. Em Iguape, no sul do Estado de São Paulo, foi aberto um canal chamado Valo Grande, que desvia o curso de um rio. "O sedimento do rio foi parar na cidade de Iguape e assoreou o porto", explica o oceanógrafo. 

O que pode ser feito

Como o que mais causa deformação nas praias é a ocupação e a construção de estruturas na orla, a solução mais efetiva para o problema, segundo os pesquisadores, é interferir o mínimo possível na paisagem, ou seja, evitar ao máximo a ocupação das áreas próximas à praia. 

"É preciso criar uma zona de recuo para garantir a não erosão", explica o professor Miguel Mahiques. "É preciso manter uma distância da linha da costa. Mas muitas vezes isso é feito de maneira errada. Em áreas que têm dunas, tem gente que retira as dunas. Não é pra retirar, elas são uma proteção." 

"Nas áreas urbanizadas em que o dano é irreversível, o que se faz são medidas mitigadoras, como procurar areia para alimentar a praia." 

Segundo os analistas, é preciso uma mudança de cultura e mais consciência ambiental inclusive dos proprietários. "Todo mundo quer ter o pé na areia, e casas e hotéis são construídos muito próximos ao mar. Isso é uma garantia de 100% de ter problema daqui a 10, 20 anos", diz Mahiques.

Por: Letícia Mori (BBC News).

Fibras: O Carboidrato Que Salva Vidas, Mas Maioria das Pessoas Não Come o Suficiente

A fibra está presente em frutas, legumes, pães e massas integrais e lentilhas.

Comer mais fibras ajuda a reduzir o risco de doenças cardíacas e morte, além de diabetes tipo 2 e câncer de intestino. É o que mostra uma revisão histórica publicada pela revista científica The Lancet [Carbohydrate quality and human health: a series of systematic reviews and meta-analyses]. 

O levantamento, encomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para guiar a formulação de novas diretrizes sobre a quantidade de fibras na dieta, sugere, no entanto, que a maioria das pessoas não está ingerindo quantidade suficiente do nutriente. 

As fibras são carboidratos encontrados em alimentos como frutas, verduras, legumes, cereais matinais, pães e massas integrais, feijão, lentilha, grão de bico, nozes e sementes. 

Elas são conhecidas por prevenir e tratar a constipação - mas seus benefícios para a saúde vão muito além. 

"A evidência agora é esmagadora. É um divisor de águas, as pessoas têm que começar a fazer algo a respeito", afirmou o professor John Cummings, um dos pesquisadores. 

Alerta para dietas low carb

Há uma preocupação de que as pessoas estejam deixando de comer fibras à medida que as dietas low carb, que restringem o consumo de carboidratos, se tornam mais populares. 

"Precisamos levar a sério este estudo. Suas descobertas sugerem que, embora cada vez mais populares, qualquer dieta que recomende pouca ingestão de carboidrato deve levar em conta o custo da perda de fibras de grãos integrais", afirma Nita Forouhi, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido

"Esta pesquisa confirma que o consumo de fibras e grãos integrais são claramente importantes para a saúde no longo prazo." 

Quantidade ideal 

A maioria das pessoas ao redor do mundo está consumindo menos de 20 gramas de fibra por dia. 

Pesquisadores da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, e da Universidade de Dundee, na Escócia, dizem que deveríamos consumir no mínimo 25g de fibra por dia. 

Esta seria, segundo eles, a quantidade "adequada" para melhorar a saúde, mas há benefícios em ingerir mais de 30g. 

Chegar a essa quantidade, no entanto, pode não ser tão simples. Por exemplo, uma banana por si só pesa cerca de 120g, mas não é composta apenas por fibras. Tirando todos os açúcares naturais e a água, restam apenas cerca de 3g de fibras. 

Como consumir 30g?

Elaine Rush, professora de nutrição da Universidade de Tecnologia de Auckland, na Nova Zelândia, preparou a lista abaixo como um exemplo de como atingir a meta diária de 25-30g de fibras: 

- Meia xícara de aveia em flocos: 9g de fibras

- Dois Weetabix (cereal matinal de trigo integral): 3g de fibras

- Uma fatia espessa de pão integral: 2g de fibras

- Uma xícara de lentilhas cozidas: 4g de fibras

- Uma batata cozida com casca: 2g de fibras

- Meia xícara de acelga: 1g de fibras

- Uma cenoura: 3g de fibras

- Uma maçã com casca: 4g de fibras 

"Não é fácil aumentar a [quantidade de] fibra na dieta", ela reconhece. 

"É uma grande mudança para as pessoas. Um grande desafio", acrescenta Cummings

Dicas

O NHS, serviço público de saúde do Reino Unido, oferece algumas dicas para aumentar a ingestão de fibras. Entre elas, estão: 

- Cozinhar batatas com casca 

- Substituir o pão branco, macarrão e arroz por suas versões integrais 

- Escolher cereais matinais ricos em fibras, como mingau de aveia 

- Acrescentar grão de bico, feijão ou lentilha na salada 

- Comer nozes ou frutas frescas na hora do lanche ou da sobremesa 

- Consumir pelo menos cinco porções de frutas ou verduras e legumes por dia 

Qual o benefício?

Os resultados da pesquisa sugerem uma redução de 15% a 30% na mortalidade relacionada a todas as causas e doenças cardiovasculares, ao comparar pessoas que consomem mais quantidade de fibra àquelas que comem menos. 

O maior consumo de alimentos ricos em fibras também foi associado a uma queda de 16% a 24% na incidência de doenças coronarianas, derrames, diabetes tipo 2 e câncer colorretal. 

Após analisar 185 estudos e 58 ensaios clínicos, a revisão sugere que se mil pessoas substituírem uma dieta pobre em fibras (menos de 15g) por uma alimentação rica no nutriente (25-29g), 13 mortes e seis casos de doenças cardíacas poderiam ser evitados. 

Foi o que eles observaram no decorrer dos estudos, que costumam monitorar os participantes por uma ou duas décadas. 

E quanto mais fibras as pessoas comiam, melhor. 

Como a fibra atua no organismo?

Costumava haver a ideia de que as fibras não tinham muita função - que o corpo humano não conseguia digeri-las. 

Mas a fibra nos faz sentir saciados e afeta a forma como a gordura é absorvida no intestino delgado, além de servir de alimento para bilhões de bactérias que vivem no intestino grosso. 

Funciona como uma espécie de cervejaria, em que as bactérias fermentam as fibras para produzir uma série de compostos químicos. 

Isso inclui ácidos graxos de cadeia curta, que são absorvidos pelo organismo e têm efeito em todo o corpo. 

"Temos esse órgão preparado para digerir fibras, que muita gente simplesmente não usa muito", diz Cummings.

Por: James Gallagher (BBC News).


Ecossistemas Poderão Ser Restaurados Por Meio da Engenharia da Biodiversidade

Pesquisadores avaliam que há condições teóricas, metodológicas e tecnológicas para manipular a composição de comunidades ecológicas e garantir a permanência das funções de um ecossistema.
  (Beija-flor-de-cabeça-preta ou Trochilus polytmus / Foto: Sharp Photography - Wikimedia).

Muitos cientistas consideram que as atividades humanas começaram a ter, a partir do fim do século 18, um impacto tão significativo no clima e nos ecossistemas da Terra a ponto de der dado origem a uma época geológica que denominaram Antropoceno. 

As eliminações de espécies nesse período mais recente da história do planeta Terra podem rivalizar com as grandes extinções em massa registradas ao longo de outras eras geológicas. A fim de restaurar essa perda de biodiversidade e o funcionamento do ecossistema terrestre seria preciso aplicar, urgentemente, o conhecimento ecológico existente. 

Um estudo de autoria de pesquisadores brasileiros e britânicos indicou que há condições teóricas, metodológicas e tecnológicas sem precedentes para enfrentar esse desafio. 

Resultado de uma pesquisa apoiada pela FAPESP e de um pós-doutorado realizado com Bolsa da FAPESP, o trabalho teve resultados publicados na revista Trends in Ecology & Evolution

"Estamos a apenas alguns passos de possibilitar a realização da ‘engenharia da biodiversidade’, ou seja, manipular a biodiversidade para projetar a composição de comunidades ecológicas e garantir a permanência das funções de um ecossistema", disse Rafael Luís Galdini Raimundo, professor do Departamento de Engenharia e Meio Ambiente da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e primeiro autor do estudo, à Agência FAPESP

"Temos agora todas as condições teóricas e metodológicas para entender e prever melhor as consequências da inclusão ou da retirada de uma espécie de uma comunidade para fim de manejo na diversidade funcional de um ecossistema", avaliou. 

De acordo com os autores do estudo, a manipulação de comunidades ecológicas para restauração tem uma longa história científica e é feita há mais de um século, principalmente em países da Europa e nos Estados Unidos

Tradicionalmente, contudo, as iniciativas de restauração têm sido focadas na inclusão ou na remoção de espécies com o intuito de resgatar padrões de riqueza de plantas e animais, sem se concentrar nas interações ecológicas entre populações, espécies e predadores e presas, por exemplo. 

Essas interações ecológicas são determinantes para os padrões de biodiversidade e de funcionamento de um ecossistema por moldar a força e os modos de seleção natural. Eventuais mudanças nos padrões dessas interações provocadas pela extinção de espécies ou pela entrada de espécies invasoras, por exemplo, afetam a evolução de características funcionais ecologicamente relevantes, como o tamanho do bico de aves que se alimentam de frutos (frugívoras) e o tamanho dos frutos que dispersam. 

Na Mata Atlântica, a perda de grandes espécies de aves como tucanos (Ramphastidae) e jacutingas (Pipile jacutinga) tem levado à diminuição da dispersão de árvores com sementes grandes. Já a diminuição de espécies dispersoras do palmito-juçara (Euterpe edulis) tem feito com que suas sementes passem a ser distribuídas por poucas áreas do bioma. Consequentemente, tem diminuído o tamanho das sementes da planta, dizem os autores do estudo. 

"As interações entre espécies representam a ligação entre processos ecológicos e evolutivos e também podem ser vistas como a conexão entre a estrutura da biodiversidade e o funcionamento do ecossistema", disse Galdini Raimundo

Condições propícias 

O desenvolvimento de modelos matemáticos de redes adaptativas permitiu a ecólogos compreender melhor como mudanças nos padrões de interações ecológicas – que definem a estrutura de uma rede de interações – são seguidas por mudanças na dinâmica e nas propriedades das populações de cada espécie, como sua abundância e características. 

Essas mudanças ecológicas e evolutivas nas propriedades das espécies podem desencadear novas reconfigurações no nível da rede de interações, fechando um ciclo. 

"A aplicação da abordagem de rede à ecologia permite gerar previsões para o que acontece com processos evolutivos e ecológicos nessas redes de interações complexas e criar hipóteses testáveis de diferentes estratégias de manejo", disse Galdini Raimundo. "Com isso, é possível construir comunidades estáveis, com todas as funções ecossistêmicas operando normalmente." 

Apesar do potencial dos modelos de redes adaptativas na gestão de ecossistemas, até recentemente os dados necessários para alimentá-los impediam sua aplicação como uma ferramenta preditiva na ecologia da restauração. 

As técnicas de sequenciamento do genoma desenvolvidas nos últimos anos permitiram obter dados de interação de espécies em uma escala sem precedentes, dando origem ao big data da biodiversidade. 

Segundo os pesquisadores, essas técnicas de sequenciamento possibilitaram não apenas obter dados da estrutura ecológica de redes, mas também sobre as relações filogenéticas entre espécies dentro de uma comunidade – o que é fundamental para prever como uma rede ecológica irá reconectar sua estrutura e como novas dinâmicas irão remodelar características e a abundância de espécies. 

"Fundir técnicas de sequenciamento de genoma de última geração com redes ecológicas fornece novas ferramentas para estudar a resiliência de comunidades interagentes às mudanças ambientais, ao mesmo tempo que incorpora importantes atributos, como a diversidade funcional", disse Darren Evans, professor da Newcastle University, na Inglaterra, e coautor do estudo. 

Alguns dos gargalos para o uso desses modelos ecológicos evolutivos e preditivos são ampliar as colaborações em pesquisa, de modo a permitir monitorar locais para fazer as previsões de rede adaptativas, e aumentar a interação entre pesquisadores que realizam os trabalhos em campo e implementam as práticas de restauração e os teóricos. 

"A aplicação desses modelos depende do estabelecimento de uma via de mão dupla entre o pesquisador que faz os modelos e gera as predições e quem está em campo, testando as práticas de restauração nessa escala de comunidade, para aprimorar os modelos, gerar predições mais acuradas e, com o tempo, em longo prazo, conseguirmos refinar essa engenharia da biodiversidade", disse Galdini Raimundo

O artigo Adaptive networks for restoration ecology (doi: doi.org/10.1016/j.tree.2018.06.002), de Rafael L. G. Raimundo, Paulo R. Guimarães Jr e Darren M. Evans, pode ser lido por assinantes da revista Trends in Ecology & Evolution em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0169534718301393.

Por: Elton Alisson (Agência Fapesp).

População Vulnerável Submetida a Ondas de Calor Cresceu em Todo o Mundo

A elevação da temperatura global aumentou a exposição de populações vulneráveis a ondas de calor extremo em todas as regiões do mundo no ano de 2017. A informação consta de estudo sobre os efeitos das mudanças climáticas sobre a saúde feito por especialistas de 27 instituições internacionais em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS), e divulgada na revista médica The Lancet, em Londres

De acordo com a publicação, o número de pessoas consideradas vulneráveis que foram submetidas a uma onda de calor aumentou em 157 milhões na comparação com 2000 e em 18 milhões comparado a 2016. 

As regiões com maior risco são a Europa e o Leste do Mediterrâneo, que tem mais de 40% da população acima de 65 anos, faixa etária mais vulnerável. Já as populações da América do Sul e parte da Ásia estão mais expostas a enchentes e secas. 

De acordo com o estudo, são consideradas populações vulneráveis os idosos, principalmente em áreas urbanas; os profissionais que trabalham expostos na agricultura, na área de construção e trabalhadores manuais. Também apresentam maior vulnerabilidade às variações climáticas pessoas que têm condições médicas pré-existentes, como doenças neurológicas, cardiovasculares, pulmonares, renais e diabetes. 

Os pesquisadores mostram que um dos efeitos das mudanças climáticas sobre a saúde é o chamado estresse por calor. Os médicos explicam que o corpo humano precisa manter uma temperatura média de 37º para funcionar normalmente. 

Quando expostos ao calor extremo, os mecanismos de defesa do corpo se alteram, com a dilatação das veias para aumentar o fluxo de sangue e o aumento do suor para equilibrar a temperatura, causando estresse nas funções de alguns órgãos. 

A publicação já identificou que 2018 foi um ano ainda mais quente em muitas partes do mundo e que a mortalidade por exposição ao calor extremo já é uma realidade. A poluição do ar por carvão, por exemplo, é atribuída pelo estudo como causa de 16% das mortes em todo o mundo. 

Ainda segundo a pesquisa, o calor agrava a poluição do ar e 97% das cidades em países de baixa e média renda não atendem às diretrizes de qualidade do ar da OMS. O relatório destaca também que o aumento da temperatura fora de época aumenta a propagação da cólera e da dengue em áreas endêmicas. 

Outro fator do aquecimento global que afeta na questão da saúde é o risco de insegurança alimentar para os mais pobres, uma vez que os indicadores apontam uma tendência de redução no rendimento das colheitas em todas as regiões do mundo. 

Impacto no trabalho

A pesquisa revela ainda, pela primeira vez, que o calor extremo tem impacto na capacidade laboral. Em 2017, as altas temperaturas resultaram na perda de 153 bilhões de horas de trabalho. 

Segundo o relatório, a China perdeu 21 bilhões de horas, o equivalente a um ano de trabalho para 1,4% de sua população ativa. A Índia perdeu 75 bilhões de horas, o que representa 7% de sua população total de trabalhadores. 

Soluções 

Os autores sugerem o fortalecimento de regulamentos trabalhistas para proteger os trabalhadores, além da melhoria nas condições de hospitais e sistemas de saúde e aumento dos esforços para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. 

Os especialistas alertam que os gastos para adaptação aos efeitos do aquecimento global para a saúde ainda são inadequados, da ordem de 11,68 bilhões de libras, o que representa apenas 4,8% de tudo o que é investido no mundo em ações de adaptação para mudanças climáticas. 

A pesquisa faz parte do projeto The Lancet Countdown: tracking progress on health and climate change, que foi lançado em 2016 depois que a revista The Lancet concluiu que as mudanças climáticas são a maior ameaça à saúde pública no século 21. A revista médica também projeta que os efeitos do aquecimento global podem anular os avanços na saúde conquistados nos últimos 50 anos.

Por: Débora Brito / Edição: Sabrina Craide (Agência Brasil).

O Que é Sensação Térmica e Por Que Não 'Fritamos' Quando Ela Ultrapassa os 80º Celsius?

A sensação térmica é algo subjetivo que, como a expressão sugere, é o calor ou frio que as pessoas sentem. 

A informação divulgada pelo Sistema Meteorológico do Paraná (Simepar) de que a sensação térmica na cidade de Antonina, a 87 km de Curitiba, chegou a escaldantes 81º Celsius no dia 18 de dezembro de 2018, deixou muita gente espantada. Não é para menos. Esta é mais ou menos a temperatura de um cafezinho ou do chimarrão dos gaúchos. É apenas, também, cerca de 20ºC a menos do que a temperatura de fervura da água. 

É preciso diferenciar, no entanto, um ponto importante: temperatura não é a mesma coisa que sensação térmica. 

"Temperatura é a quantidade de calor fornecida pelos raios solares ou pelo ambiente", explica o meteorologista José Carlos Figueiredo, do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e presidente da Sociedade Brasileira de Meteorologia. "A sensação térmica, por sua vez, leva em conta a temperatura e a umidade relativa do ar." 

Também é preciso colocar na equação o "funcionamento" do ser humano. Nas pessoas, o suor é um mecanismo de perda de calor, saindo pela pele e evaporando e, assim, reduzindo a temperatura corporal e a sensação térmica. 

Em ambientes ou climas muito úmidos, a água em forma de vapor, pairando no ar, reduz a taxa de evaporação do suor da pele, e, por isso, faz com que uma pessoa sinta mais calor num local desses do que outra em um ambiente seco de mesma temperatura. 

Daí a confusão que há entre os dois conceitos. A temperatura é a expressão do valor concreto, real, absoluto do calor - ou do frio - que é medido pelos termômetros. Diferentemente, a sensação térmica é algo subjetivo, que, como a expressão sugere, é o calor ou frio que as pessoas sentem. 

Por isso, pode variar de um indivíduo para outro ou até de acordo com a roupa que cada um está vestindo ou do lugar onde nasceu e a que clima está adaptado. 

Também deve se observar que mesmo que ela chegue a 100ºC - como mostram algumas fórmulas de cálculo - a água não ferve, pois objetos e coisas inanimadas não sentem nada, como se sabe. 

Origem da sensação térmica

O conceito e a expressão sensação térmica começaram a se popularizar após a Segunda Guerra Mundial, quando as tropas alemãs foram derrotadas numa tentativa de invasão à Rússia, durante o seu inverno rigoroso, também conhecido como "General Inverno", o mesmo que já havia ajudado a bater Napoleão Bonaparte, em 1812. 

Depois do fim do conflito mundial, em 1945, o exército americano criou um índice de avaliação do frio relacionado à velocidade do vento. Esse índice popularizou-se e passou a ser divulgado juntamente com as temperaturas. No Brasil e em outros países quentes, a sensação térmica está relacionada com a umidade relativa do ar e não com o vento, embora esse último possa diminuí-la também. 

O problema é que há muitas fórmulas diferentes de calculá-la. Várias estão disponíveis na internet. Desde que surgiu a primeira há cerca de 70 anos, mais de 160 outras foram criadas, cada uma com seus próprios critérios. "Todas são feitas para locais diferentes", diz Figueiredo. "Desde 1978, vem surgindo fórmulas diversas, principalmente nos últimos dez anos, devido ao interesse da imprensa em reportagens sobre o clima." 

Segundo o meteorologista Fabio Luiz Teixeira Gonçalves, professor do Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, da Universidade de São Paulo (IAG-USP), o cálculo da sensação térmica leva em conta muitas variáveis, além da temperatura, tais como umidade relativa do ar, radiação solar, falta ou presença de vento e vestimentas. "São fórmulas semi-empíricas", diz. "Elas são ajustadas com questionários aos habitantes locais de cada região. Mesmo assim, ela é subjetiva e varia de pessoa para pessoa." 

Duas das fórmulas mais conhecidas e usadas no mundo são o Heat Index, criado nos Estados Unidos, e o Humidex, do Canadá, ambas disponíveis na internet. O Semipar não divulgou qual fórmula usou, mas apenas a temperatura e a umidade relativa do ar. "Por volta, das 14 horas daquele dia, o calor em Antonina era de 44.3ºC e unidade de 65%", conta Samuel Braun, um dos meteorologistas do órgão. "Pelos nossos cálculos, a sensação térmica chegou a 78ºC." 

Não atingiu, portanto, a marca de 81ºC divulgada por alguns portais de notícias. O que, diga-se, não faz muita diferença. O certo é que o Semipar não usou nem o Heat Index nem Humidex

No primeiro caso, o resultado para temperatura e a umidade registradas na cidade paranaense seria uma sensação térmica de 88.5ºC e, no segundo, de 72ºC. 

O certo é que o ser humano é capaz de suportar isso. Pelo menos é o que garante Gonçalves, da USP

Conseguimos suportar altas temperaturas? "Somos extremamente tolerantes a altas temperatura e não só à sensação térmica", afirma o meteorologista. "Estamos entre os melhores no grupo dos mamíferos. Suamos muito bem e não temos pelos. E ninguém fica queimado em saunas, nem nas úmidas, que podem chegara a 50°C com umidade relativa de 70 a 80%, nem nas secas onde faz 100ºC e umidade abaixo de 10%." 

Bem menos ameno do que em Antonina. Com esses números, pelo Heat Index, a sensação térmica no primeiro caso seria de 133.7 a 155.7ºC e 129.7ºC, no segundo. 

O professor de clínica médica, Jamiro da Silva Wanderley, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, também ressalta a grande tolerância humana às inclemências do clima. "Temos uma capacidade de adaptação fantástica, tanto para altas temperaturas como para bem baixas. Vários mecanismos adaptativos são deflagrados de acordo com a necessidade." 

Quando o calor é muito intenso, por exemplo, as pessoas começam a transpirar, para manter sua temperatura corporal dentro do aceitável. 

"Passamos a urinar menos e mais concentrado (urina escura, amarelo ouro), para preservar água", explica Wanderley

Isso não significa, no entanto, que não haverá problemas. "Se continuarmos com altas temperaturas e não nos hidratarmos adequadamente, teremos boca seca, vamos desidratando, podendo ficar com dores de cabeça, prostração, confusão mental e perda de consciência e até coma", alerta. Além disso, poderá haver problemas renais. 

Segundo o médico Onivaldo Cervantes, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), há relatos de que o corpo humano aguentaria até 127ºC - não sensação térmica - por até 20 minutos. 

"Mas o fato é que acima de 28ºC, sem vento, o calor já começa a ficar desagradável para o corpo", avisa. "Além disso, a temperatura corporal não deve ultrapassar os 40ºC, embora em alguns casos possa chegar a 42ºC, o que é muito perigoso. Neste estado febril, as proteínas do sangue começam a se desnaturar [perdem sua estrutura e deixam de ser ativas], o que leva a uma dificuldade circulatória e consequente diminuição da oxigenação dos tecidos." 

Diante disso tudo, Figueiredo defende que não deveria existir fórmulas para calcular a sensação térmica. 

"Não serve para nada, pois as fórmulas adotadas não levam em conta fatores metabólicos, gravidez, obesidade, cor da pele, altura, peso e se as pessoas estão em repouso ou não", critica. 

"Como as informações sobre umidade e temperaturas são coletadas à sombra, quando as pessoas saem de casa, não têm a menor ideia do que estão sentindo. Para mim, só serve para serem alardeadas na imprensa informações sem critérios científicos."

Por: Evanildo da Silveira (BBC News).


Desigualdade na Comida: Quem Lucra Com a Nossa Laranja?

Somos um dos maiores produtores da fruta no mundo, mas isso só tem beneficiado alguns poucos. Toda comida que a gente consome é produzida por milhões de agricultores pelo mundo. Um trabalho que deveria ser cada vez mais celebrado e valorizado, mas a realidade é bem diferente. 

Conforme revelado no relatório Hora de Mudar, lançado em junho de 2018, quem tem ficado com fatias cada vez mais generosas do dinheiro gerado pela produção agrícola são os grandes supermercados, especialmente dos Estados Unidos e Europa, e outros gigantes da indústria alimentícia. Aos trabalhadores agrícolas, sobretudo os pequenos, sobram pobreza, sofrimento e péssimas condições de trabalho. 

Vejamos o caso da laranja brasileira. Somos um dos maiores produtores de laranja do mundo - 3 de cada 5 copos de suco de laranja consumidos no mundo são produzidos no Brasil. Esse sucesso todo tem gerado muito lucro aos grandes supermercados e à indústria de suco, e pouco ou quase nada aos produtores.





Fonte: Oxfam Brasil. Clique aqui e assine a petição!

O Destino dos Mamíferos Após a Extinção dos Dinossauros

Quando se fala em extinção em massa, é comum imaginar um meteoro caindo na Terra e dizimando dinossauros, mas não é bem assim. As diversas extinções em massa na história do planeta ocorreram de forma diferente sobre os grupos de seres vivos. Um exemplo são os mamíferos, classe de vertebrados que já existia no tempo dos dinossauros e sobreviveu ao evento extintivo massivo há 66 milhões de anos, que marcou o fim do período Cretáceo. 

Havia quatro linhagens de mamíferos contemporâneas dos répteis gigantes. Todas sobreviveram. Algumas saíram mais chamuscadas, outras menos. Em estudo publicado na Biology Letters, os biólogos Tiago Bosisio Quental, da Universidade de São Paulo, e Mathias Pires, da Universidade Estadual de Campinas, buscam entender de que forma os diversos grupos de mamíferos atravessaram a extinção em massa no fim do Cretáceo. O trabalho contou com apoio da FAPESP

"Quando se fala em extinções em massa, subentende-se um evento de grandes proporções, durante o qual um número elevado de espécies se extinguiu em um período relativamente curto", disse Pires

Outro modo de se olhar para as extinções em massa é observar o número de espécies no registro fóssil. Verifica-se que em um determinado período geológico ocorreu uma extinção em massa quando o número total de espécies que desapareceu do registro fóssil é muito superior ao número de novas espécies. 

"Ou seja, é quando a taxa de extinções, velocidade com que espécies são perdidas, supera a taxa de especiações, a velocidade com que as espécies são geradas. Isso torna negativa a taxa de diversificação, que é dada pela diferença entre as duas taxas", disse Pires

No registro fóssil dos últimos 500 milhões de anos foram identificadas cinco grandes extinções em massa (e muitas outras de menor escala). Elas ocorreram por diversos motivos, como vazamentos magmáticos por centenas de milhares ou milhões de anos, liberando bilhões de toneladas de gases de efeito estufa que envenenaram a atmosfera e bloquearam a radiação solar. 

Foi o que ocorreu na pior das extinções em massa, há 252 milhões de anos, que marcou a passagem dos períodos Permiano ao Triássico (e das eras Paleozoica à Mesozoica), quando mais de 90% das espécies desapareceram. Extinções em massa também ocorreram quando houve a liberação maciça de bilhões de toneladas de gás carbônico (CO2) aprisionadas no subsolo oceânico, causando um megaefeito estufa – como especula-se ter ocorrido no final do período Triássico, há 201 milhões de anos, com perda de 80% das espécies. 

Ou o contrário, com o sequestro de bilhões de toneladas de CO2 da atmosfera, o que derrubou as temperaturas, causando uma severa glaciação planetária. Foi assim há 444 milhões de anos, no fim do período Ordoviciano, quando desapareceram 86% das formas de vida.

Pesquisadores descrevem a dinâmica de diversificação dos mamíferos depois da extinção em massa do fim do Cretáceo. Muitas linhagens contemporâneas aos dinossauros desapareceram, mas outras sobreviveram. Imagem: originação, extinção e taxas de diversificação para os três clados [grupos com um ancestral comum] de mamíferos na América do Norte. Linhas pontilhadas denotam o limite do Cretáceo-Paleógeno.

Evento K-Pg 

A extinção em massa de 66 milhões de anos atrás se chama evento K-Pg, sigla que se refere ao momento em que acaba o período Cretáceo (Kreide, em alemão) e inicia o período seguinte, o Paleógeno (Pg). Em uma escala de tempo mais ampla, o evento K-Pg foi o instante geológico que marca o fim da era Mesozoica, aquela dominada pelos dinossauros, e o início da Cenozoica, os últimos 66 milhões de anos. 

O evento K-Pg foi provocado pela associação de dois fatores: vazamentos magmáticos devastadores onde hoje é a Índia, conjugados com a colisão de um astro celeste de 10 quilômetros de diâmetro na península de Yucatán, no atual México

"Todos esses episódios de extinção massiva são heterogêneos. Tiveram causas diferentes e transcorreram de forma diversa. Da mesma forma, seu impacto sobre as formas de vida não foi absoluto, mas relativo. Alguns grupos sofreram mais, outros menos. Alguns desapareceram, enquanto outros aproveitaram as novas condições ambientais pós-catástrofe para se diversificar rapidamente", disse Pires

No novo trabalho, os pesquisadores buscaram entender de que modo as diversas linhagens de mamíferos existentes no final do Cretáceo ultrapassaram o gargalo biótico do evento K-Pg. Também participaram do estudo Daniele Silvestro, da Universidade de Gotemburgo (Suécia), e Brian Rankin, da University of California em Berkeley (Estados Unidos). 

A grande classe dos mamíferos surgiu no Triássico há pelo menos 220 milhões de anos, idade do fóssil mais antigo que se conhece. No fim do Cretáceo, a linhagem era bastante diversificada. Havia os placentários (como são popularmente conhecidos os eutérios), linhagem à qual pertence o Homo sapiens, assim como todos os primatas, roedores, morcegos, cetáceos e ungulados, entre outros. 

Havia também os marsupiais (ou metatérios), grupo que hoje acolhe gambás, cangurus e coalas. Eles dividiam o cenário com o grupo dos monotremados e, por fim, com o dos multituberculados (seu nome deriva do formato específico de seus dentes, com vários tubérculos). 

O novo estudo ressalta que a extinção em massa do Cretáceo se abateu fortemente sobre os mamíferos. Isso não quer dizer que todos os quatro grupos sofreram com a mesma intensidade. A extinção em massa foi mais severa para uns do que para outros. 

Durante o Cretáceo, entre 145 e 66 milhões de anos atrás, os multituberculados eram a linhagem dominante e a mais diversificada entre os mamíferos. Sabe-se isso porque, no registro fóssil que antecede o evento K-Pg, os fósseis de multituberculados são a grande maioria. Já os fósseis de placentários e de marsupiais, embora menos numerosos, também são encontrados em bom número. 

A exceção são os monotremados. Assim como ocorre hoje, quando há somente duas famílias de monotremados viventes – das quais fazem parte o ornitorrinco e a equidna –, o registro fóssil dos monotremados é muito rarefeito, tanto antes quanto depois do Cretáceo, sugerindo que este grupo sempre foi relativamente marginal em relação às outras linhagens de mamíferos. É também por essa razão que tal linhagem não foi incluída no estudo. 

Sabendo-se que havia multituberculados, placentários e marsupiais, qual grupo de mamíferos foi mais severamente atingido no K-Pg? De qual linhagem sobreviveram mais gêneros? Qual grupo apresentou o maior aumento de diversidade (maior especiação) nos milhões de anos imediatamente posteriores ao gargalo biótico? Qual grupo jamais se recuperou do cataclismo? 

O único meio para tentar obter respostas a essas perguntas é recorrer ao registro fóssil encontrado em uma mesma região do planeta, de modo a tentar garantir que, há 66 milhões de anos e naquela região, a catástrofe se abateu de forma mais ou menos equivalente sobre todos os grupos de mamíferos. 

Quental e Pires elegeram a América do Norte como local do estudo, uma vez que 150 anos de contínuas prospecções paleontológicas naquele continente fornecem um rico painel da diversidade de mamíferos antes, durante e após o evento K-Pg. 

"A América do Norte apresenta um registro fóssil com qualidade suficiente para esse tipo de estudo. Já foram feitos outros estudos analisando como os mamíferos ultrapassaram a extinção do Cretáceo, mas até onde pudemos constatar este é um dos primeiros a analisar a dinâmica da diversificação das distintas linhagens de mamíferos", disse Quental

Os cientistas utilizaram um conjunto de dados com 188 recentes assembleias fossilíferas do Cretáceo e do Paleoceno – abrangendo um lapso temporal que vai de 69,9 milhões de anos até 55 milhões de anos atrás –, formações localizadas no interior ocidental da América do Norte

"O registro fóssil de mamíferos da América do Norte possui assembleias muito bem estudadas com datações em torno do evento K-Pg, sendo as ocorrências de fósseis relativamente bem resolvidas, minimizando a incerteza taxonômica. O conjunto de dados que utilizamos inclui informações sobre quase 290 gêneros de mamíferos, entre multituberculados, eutérios e metatérios", disse Quental

Foram empregados diversos métodos estatísticos avançados para identificar padrões de originação, extinção e diversificação, antes, durante e após o K-Pg. Os resultados evidenciaram que as três linhagens atravessaram a extinção em massa de maneiras bem distintas. 

O estudo indica que a taxa de originação de Methateria (marsupiais), por exemplo, permaneceu aproximadamente constante durante todo o intervalo de tempo estudado. No entanto, um claro pico de extinção é identificado durante o K-Pg, gerando um saldo líquido de diversificação negativo. Passado o evento K-Pg, a taxa de extinção diminuiu gradualmente. No entanto, a diversificação líquida negativa persistiu por mais de 2 milhões de anos, até cerca de 64 milhões de anos atrás. 

Quanto aos multituberculados, eles estavam se diversificando no fim do Cretáceo, apresentando altas taxas de originação e taxas de extinção relativamente baixas. Já em torno do limite K-Pg, a taxa de extinção permaneceu baixa, mas observam-se quedas na taxa de originação, o que derruba a diversificação de multituberculados para perto de zero. Ou seja, durante o K-Pg a taxa de diversificação encontra-se em equilíbrio, pois aproximadamente a mesma quantidade de gêneros de multituberculados está se originando e se extinguindo. 

Segundo o estudo, decorrido o K-Pg, embora a taxa de extinção dos multituberculados permanecesse em queda, o declínio na taxa de originação era ainda maior, consequentemente levando a uma diversificação negativa. Em outras palavras, a quantidade de gêneros de multituberculados continuou diminuindo durante o restante do período analisado, até 55 milhões de anos atrás. Tal declínio parece ter persistido por muito mais tempo, dado que os multituberculados desapareceram progressivamente do registro fóssil mundial, até, por fim, a linhagem terminar há cerca de 35 milhões de anos. 

Especula-se que a razão para o fim dos multituberculados teria sido a competição crescente com uma nova linhagem de eutérios, os roedores, cuja ordem tem origem justamente logo após o evento K-Pg, já no período Paleógeno. 

Quanto aos eutérios (placentários), o estudo mostra alta originação e alta extinção perto do limite K-Pg, resultando em uma inflexão na diversidade. As taxas de originação eram muito superiores àquelas das extinções, exceto no período entre 66 milhões de anos e 64 milhões de anos atrás. 

Logo após, verifica-se um segundo pulso de originação, acompanhado pela queda nas taxas de extinção, sinal da ocorrência de uma curta explosão na diversificação. Em torno de 62 milhões de anos atrás, a originação de eutérios diminui, enquanto a diversificação fica em torno de zero, sugerindo um equilíbrio de diversidade. 

"Encontramos três padrões de diversificação entre os grupos de mamíferos. Metatheria se comporta da forma clássica em uma extinção em massa. Diversas extinções se agrupam no tempo, levando a uma queda severa na diversificação", disse Quental

Segundo o pesquisador, nos multituberculados a diminuição na diversificação e a subsequente perda de diversidade foram impulsionadas pelo declínio das taxas de originação e não pela extinção, ou seja, perderam diversidade porque demoravam muito para gerar novas espécies. 

"Já os eutérios mostram uma dinâmica mais complexa de ascensão e queda, mais precisamente atribuída por oscilações rápidas na taxa de especiação durante e logo após o K-Pg, ao mesmo tempo que a taxa de extinção aumenta, porém, não tanto a ponto de causar uma diversificação negativa por muito tempo", disse Quental

Pires ressalta que o estudo mostra que a extinção em massa do K-Pg foi ecologicamente seletiva entre as linhagens de mamíferos, "com uma concentração de extinções entre metatérios carnívoros especializados e eutérios insetívoros, enquanto os eutérios e os multituberculados mais generalistas mantiveram maior diversidade". 

Embora os resultados indiquem que os eutérios (placentários) sofreram perdas substanciais no limite de K-Pg, essas perdas foram compensadas pelo aumento da originação. Pode ter ocorrido diversificação entre os eutérios sobreviventes, graças à chegada à América do Norte de outros grupos de eutérios provenientes de outros continentes. 

"A plasticidade de dietas dos multituberculados pode ter permitido que os grupos persistissem, explicando as baixas taxas de extinção. A diversidade ecológica e taxonômica dos multituberculados foi crescente durante o fim do Cretáceo. No entanto, nossas análises mostram que os multituberculados não compensaram as perdas por extinção, pois geravam cada vez menos diversidade, diferentemente dos eutérios, cujas perdas foram compensadas por altas taxas de originação", disse Pires

A conclusão dos pesquisadores indica que, quando os clados (grupos com ancestral comum) são avaliados individualmente, eventos de extinção em massa podem ser vistos como mudanças na extinção, na originação ou em ambos os regimes. 

"Isso significa que os estudos sobre fenômenos macroevolutivos que são centrados em grandes grupos taxonômicos podem estar deixando de contar uma história macroevolutiva muito mais rica, só percebida em escalas taxonômicas mais sutis", destacam. 

O artigo Diversification dynamics of mammalian clades during the K–Pg mass extinction (doi: 10.1098/rsbl.2018.0458), de Mathias M. Pires, Brian D. Rankin, Daniele Silvestro e Tiago B. Quental, pode ser lido em http://rsbl.royalsocietypublishing.org/content/14/9/20180458.

Por: Peter Moon (Agência Fapesp).

Museu da Natureza: O Mais Novo Atrativo da Serra da Capivara

Recém-inaugurado no Piauí, ele aborda desde o surgimento do universo até a contemporaneidade para falar sobre a evolução da natureza na região. Foto: Ingrid Luisa.

Depois da tragédia com o Museu Nacional, que pegou fogo em setembro de 2018, a população brasileira foi alertada sobre o risco que muitos desses espaços sofrem pelo descaso do poder público. E, mais ainda, percebeu que precisava visitar seus museus. Afinal, não está na ordem natural das coisas o Louvre, em Paris, ter mais visitantes brasileiros que o museu carioca antes do incêndio. 

Apesar da grande diversidade que temos, incluindo excelentes acervos científicos, precisávamos de um genuíno museu de história natural para chamar de nosso. Faltava algo que não só explicasse e mostrasse a história do universo, mas situasse o território em que vivemos no meio disso tudo. Mas o Museu da Natureza, que acabou de ser inaugurado no entorno do Parque Nacional Serra da Capivara, interior do Piauí, cumpre com maestria esse papel. 

A experiência 

O Museu da Natureza já chama a atenção pela arquitetura do prédio que o abriga: sendo o primeiro edifício circular e em espiral todo planejado com estrutura metálica no Brasil, as 12 "salas" do museu formam uma grande rampa helicoidal – como o tronco do mandacaru –, para representar, no sentido ascendente, a evolução das mudanças geológicas e paleontológicas do planeta. 

Nele é possível ver e interagir com eventos cruciais desde as origens da vida até a contemporaneidade. Por exemplo, na primeira sala, para ilustrar a atração entre os corpos (que está na essência da formação do Universo), podemos testar mesas com diferentes tipos de ímãs e observar rochas primitivas (e meteoritos) em microscópios. Depois, na sala que informa sobre a formação dos continentes na Terra, podemos reorganizar as massas terrestres atuais como quisermos em um globo gigante. 

O objetivo disso é abranger, sob um ponto de vista cosmológico, todas as eras existentes. O museu é didático e interativo, fornecendo informações e experiências lúdicas para os visitantes. E um grande foco é conhecer mais sobre as espécies que já habitaram a região: de trilobitas a tigres-dente-de-sabre. 

"Todas as salas são vivenciais. Cada uma delas tem recriações de seres e paisagens que aqui existiram. Um dos pontos altos é o voo livre sobre a Serra da Capivara, o filme no teto com narração da [cantora] Maria Bethânia, a recriação da mega fauna brasileira, e o Infinito da Biodiversidade com os milhares de insetos", diz o curador do Museu da Natureza, Marcello Dantas.

 A sala com os fósseis da mega fauna brasileira mostram tigres-dente-de-sabre, preguiças gigantes, dentre outros grandes animais em uma grande parede interativa. Foto: Ingrid Luisa.





O "Infinito da Biodiversidade" é uma sala que fala sobre as intensas mudanças climáticas e as diferentes espécies animais que já habitaram a região. Foto: Ingrid Luisa.

Idealização 

"A ideia de construir o Museu da Natureza partiu da [arqueóloga] Niede Guidon. Ela achava que a nossa história não poderia se limitar à história do homem, pois as descobertas na Serra da Capivara revelaram muito sobre a evolução da natureza", diz Marcello

O Museu da Natureza se baseia em quase 50 anos de estudos na região. Situado na zona rural do município de Coronel José Dias (a 516 quilômetros de Teresina-PI), ele está no entorno do Parque Nacional Serra da Capivara, Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO

A Serra da Capivara possui a maior concentração de sítios arqueológicos do mundo: mil e duzentos. As milhares de pinturas rupestres, datadas de 12 mil a 6 mil anos atrás, incluem figuras humanas, animais e uma diversidade de cenas cotidianas que as tornam únicas. Mas Niede Guidon acreditava que mais do que a história humana, a Serra também conta a evolução da natureza na região — e do nosso próprio planeta. 

"Quando cheguei na região, majoritariamente composta pela Caatinga, vi que havia vales profundos e muitos rios por aqui. Nas escavações encontramos muitos fósseis marinhos. Mas como eles vieram parar aqui? Eu e uma equipe de geólogos e paleontólogos estudamos tudo e constatamos: o mar já cobriu toda essa região", conta Niede. Um dos fósseis mais comuns na Serra da Capivara são os trilobitas, artrópodes que habitaram os oceanos por quase 300 milhões de anos, do Cambriano ao Permiano — quando foram extintos. 

Com isso em mãos, e após registrar os achados humanos da região no Museu do Homem Americano, Niede idealizou o Museu da Natureza em 2002. Mas o dinheiro só saiu em 2017, por meio do BNDES. E com um pequeno detalhe: sem nenhuma correção monetária em relação a 2002, quando foi idealizado pela primeira vez. Foram necessárias diversas adaptações no projeto para não estourar o orçamento, o que tornou o museu mais simples do que o originalmente imaginado. 

A construção do local começou em junho de 2017, e foi concluída em dezembro de 2018. O Museu da Natureza é uma bela mistura de ciência, tecnologia, arquitetura e arte — e, o melhor: é tudo genuinamente nosso.

Por: Ingrid Luisa (Superinteressante).

Consumo de Carne Tem Que Cair Drasticamente Conforme População Cresce

Relatório Creating a Sustainable Food Future - A Menu of Solutions to Feed Nearly 10 Billion People by 2050, do Instituto Mundial de Recursos (WRI, na sigla em inglês), alerta que países mais ricos devem diminuir drasticamente o consumo de carne de ruminantes para que seja possível alimentar a população mundial em 2050. 

Isso porque esses animais requerem muita área de pasto e de plantação de soja que é usada em rações. Este espaço poderia ser usado para criar outros animais ou vegetais. Além disso, ruminantes liberam quantidades enormes de metano, um gás de efeito estufa. Carne de vaca é responsável por apenas 3% da dieta de um americano, mas é responsável por 50% das emissões. 

Em 2050 precisaremos produzir 50% mais alimentos do que produzimos agora, mas o maior desafio será reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 66%. Essa comida extra vai ter que ser produzida sem aumentar a área de fazendas que existem hoje, caso contrário as florestas do mundo serão destruídas. 

A produção de gado e laticínios usa 83% das terras de fazendas, portanto é necessário aumentar a quantidade de alimento produzido por hectare. Também é importante cortar o desperdício de alimento que poderia muito bem ser consumido. O mundo todo joga 33% dos alimentos fora na colheita, transporte, venda e nas próprias casas das pessoas. 

Mudanças urgentes

"Temos que mudar como produzimos e consumimos comida, não apenas por motivos ambientais, mas porque é um problema de sobrevivência para os humanos", diz Janet Ranganathan, vice-presidente de ciência e pesquisa da WRI

Tim Searchinger, da WRI e também da Universidade de Princeton (EUA), alerta que precisamos mudar o sistema de produção com urgência: "se tentássemos produzir todo o alimento necessário em 2050 com os sistemas de produção atuais, o mundo teria que converter a maior parte das florestas". Apenas a agricultura produziria metade das emissões de todas as atividades humanas. 

Menos carne para alguns, mais para outros 

Outro relatório, desta vez da ONU, mostra que a redução do consumo de carne é essencial para evitar mudanças climáticas perigosas. Reduzir o consumo de carne vermelha e laticínios é a principal forma de reduzir o impacto ambiental individual no planeta. 

O relatório da WRI recomenda que 2 bilhões de pessoas em vários países, incluindo EUA, Rússia e Brasil reduzam seu consumo de carne vermelha em 40%, limitando-o a 1,5 porção por semana, em média. Essa redução não faria muita diferença para a grande maioria da população mundial, que já consome pouquíssima carne de vaca. 

"As pessoas pobres do mundo têm direito a comer um pouco mais de carne", diz Searchinger

O consumo de carne vermelha já tem se reduzido espontaneamente nos EUA e Europa em 33% desde os anos 1960. 

Como fazer isso? 

"Campanhas de marketing e estratégias de mudança de comportamento que empresas de alimentos já usam pode ajudar a mudar dietas", diz Ranganathan. Governos também poderiam encorajar menor consumo de carne de vaca e carneiro em escolas, hospitais e outras instituições públicas. 

Outra mudança que pode ajudar a diminuir a geração de metano é melhorar a ração dos bovinos e reduzir o uso de energia de equipamentos de plantação. 

Já quanto ao tamanho da população em si, a melhor forma de diminuir o crescimento mundial é melhorar o acesso de mulheres à educação e ao atendimento de saúde, especialmente na África, para acelerar a redução voluntária de níveis de fertilidade. 

Este relatório da WRI foi apresentado em um encontro da ONU na Polônia, em que representantes de 200 países que assinaram o Acordo de Paris de 2015 se encontraram. O objetivo é limitar o aquecimento global em 1,5ºC. 

Por: Juliana Blume (HypeScience).

Camada de Gelo da Antártida Influencia Clima no Brasil

Ocorrência de bloqueios atmosféricos em toda a América do Sul tem relação com eventos extremos de retração e expansão do gelo.

Para entender a fundo o clima brasileiro e o que o influencia, é necessária uma análise de fatores muito externos à nossa região geográfica. Mudanças no continente da Antártica, por exemplo, afetam fortemente a temperatura e o regime de precipitações no país. É o que descobriu a pesquisadora Camila Carpenedo, do IAG-USP, em sua tese de doutorado. Segundo suas pesquisas, eventos extremos de retração ou expansão do gelo marinho antártico estão ligados à ocorrência de bloqueios atmosféricos em toda a América do Sul

Os estudos partiram da premissa de que os bloqueios no Hemisfério Sul se formam devido a variações longitudinais da temperatura da superfície do mar (TSM), e de que são mais frequentes no inverno e na primavera, períodos nos quais a extensão de gelo marinho é maior, atingindo latitudes entre 65º e 55º S. "Como a borda do gelo marinho está, [nestes períodos], localizada em uma região muito sensível da circulação geral da atmosfera, existe um grande potencial de variações na cobertura de gelo marinho afetar a circulação atmosférica, bem como os sistemas atmosféricos", conta a pesquisadora. 

Segundo explica Camila, bloqueios atmosféricos são sistemas quentes de alta pressão, e, no Hemisfério Sul, ocorrem principalmente entre latitudes de 50º S e 60º S. Tais bloqueios afetam o deslocamento normal de sistemas como ciclones extratropicais e frentes frias, que impactam as condições do tempo no Brasil

Os efeitos dos bloqueios são um aumento de temperatura e diminuição da precipitação sob sua região central, e condições opostas em suas bordas. "Dependendo da duração de um bloqueio, ele pode resultar em eventos extremos de seca e chuva, ou quentes e frios, o que impacta diretamente a produção agrícola do país", afirma a pesquisadora. 

Sobre os motivos que a levaram a investigar este cenário, Camila afirma que sempre esteve próxima do tema, fazendo estudos sobre a Antártica desde sua graduação. Além disso, ela reitera a importância do continente para o clima da América do Sul, através da formação de massas de ar frias e de desvio da trajetória de ciclones extratropicais. "Por exemplo, Boa Vista (RR) está a 3.776 km de distância de Porto Alegre (RS), enquanto a Estação Brasileira Comandante Ferraz na Antártica está a 3.600 km da capital gaúcha.", diz a pesquisadora, demonstrando tal importância. 

Alguns dos dados utilizados foram de extensão de gelo da NASA, índices climáticos, e saídas dos modelos de circulação geral oceano-atmosfera, além de algoritmos para identificar os eventos de bloqueio. 

A pesquisa demonstrou que há três padrões distintos de forçantes térmicas que se associam aos eventos extremos do gelo antártico: o Padrão Forçante Tropical 1 e 2 (PFT), e o Padrão Forçante Extratropical (PFE). O PFT1 ocorre em situações de retração do gelo no Mar de Weddell e causa uma série de fenômenos, que desfavorecem a formação de bloqueios atmosféricos. "Sobre o centro-sul da América do Sul, existe um centro anômalo de alta pressão, o que poderia indicar a atuação de massas de ar frias, contribuindo para as anomalias frias de temperatura do ar próximo à superfície até as latitudes intertropicais", afirma a pesquisadora. 

Já o PFT2 se mostra como oposto ao anterior, ocorrendo em situações de expansão de gelo no Mar de Weddell e contribuindo, desta forma, para a formação de bloqueios. O PFE ocorre em casos de expansão de gelo no Oceano Índico e no Oceano Pacífico Oeste, que também desfavorecem a formação de bloqueios, e implicam em um aumento da densidade de ciclones próximos a costa da Antártica

Sobre a conclusão dos estudos, a pesquisadora afirma: "os resultados sugerem que eventos extremos de gelo marinho antártico podem criar condições favoráveis ou desfavoráveis à ocorrência de bloqueios atmosféricos, evidenciando a interação entre fenômenos de baixa e alta frequência, o que sugere a natureza altamente não linear associada aos bloqueios atmosféricos." 

A intenção da pesquisadora Camila Carpenedo é de que os resultados apresentados possam ser precursores para a previsão de bloqueios no Hemisfério Sul, assim como aprimorar o conhecimentos a respeito destes, buscando representações mais adequadas dos fenômenos.

Por: Matheus Morgado (AUN/USP).