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Por Que a Amazônia é Vital Para o Mundo?

Floresta Amazônica leva umidade para toda a América do Sul, influencia regime de chuvas na região, contribui para estabilizar o clima global e ainda tem a maior biodiversidade do planeta. 

Regime de chuvas 

A Floresta Amazônica produz imensas quantidades de água para o restante do país e da América do Sul. Os chamados "rios voadores", formados por massas de ar carregadas de vapor de água gerados pela evapotranspiração na Amazônia, levam umidade da Bacia Amazônica para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. Esses rios voadores também influenciam chuvas na Bolívia, no Paraguai, na Argentina, no Uruguai e até no extremo sul do Chile

Segundo estudos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, uma árvore com copa de 10 metros de diâmetro pode bombear para a atmosfera mais de 300 litros de água em forma de vapor por dia – mais que o dobro da água usada diariamente por um brasileiro. 

Uma árvore maior, com copa de 20 metros de diâmetro, pode evapotranspirar mais de 1.000 litros por dia, bombeando água e levando chuva para irrigar lavouras, encher rios e as represas que alimentam hidrelétricas no resto do país. 

Assim, preservar a Amazônia é essencial para o agronegócio, para a produção de alimentos e para gerar energia no Brasil

O desmatamento prejudica a evapotranspiração e, por consequência, a rota desses rios, podendo afetar assim o regime de chuvas no restante do país e diversas atividades econômicas. Além disso, o Rio Amazonas é responsável por quase um quinto das águas doces levadas aos oceanos no mundo. 

Mudanças climáticas 

A Amazônia e as florestas tropicais, que armazenam de 90 bilhões a 140 bilhões de toneladas métricas de carbono, ajudam a estabilizar o clima em todo o mundo. Só a Floresta Amazônica representa 10% de toda a biomassa do planeta. 

Já as florestas que foram degradadas ou desmatadas são as maiores fontes de emissões de gases do efeito estufa depois da queima de combustíveis fósseis. Isso porque as florestas saudáveis têm uma imensa capacidade de reter e armazenar carbono, mas o desmatamento para o uso agrícola ou extração de madeira libera gases do efeito estufa para a atmosfera e desestabiliza o clima. 

O Acordo de Paris, firmado em 2015 e cujo objetivo é manter o aquecimento da temperatura média do planeta abaixo de 2°C, passa necessariamente pela preservação de florestas. Dados da ONU de 2015 apontaram o Brasil como um dos dez países que mais emitem gases do efeito estufa no mundo, com 2,48% das emissões. 

No âmbito do acordo internacional, o Brasil se comprometeu a reduzir as emissões de gases do efeito estufa em 43% em relação aos níveis de 2005 até 2030. Para alcançar tal meta, o país se comprometeu a aumentar a participação de bioenergia sustentável em sua matriz energética e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas, entre outros pontos. 

Segundo o documento que detalha a chamada pretendida Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil para o alcance do objetivo do Acordo de Paris, anunciada em setembro de 2015, o país se propôs a "fortalecer políticas e medidas com vistas a alcançar, na Amazônia brasileira, o desmatamento ilegal zero até 2030 e a compensação das emissões de gases de efeito de estufa provenientes da supressão legal da vegetação até 2030". 

Equilíbrio ambiental 

Como a maior floresta tropical do mundo, a Amazônia possui a maior biodiversidade, com uma em cada dez espécies conhecidas. Também há uma grande quantidade de espécies desconhecidas por cientistas, principalmente nas áreas mais remotas. 

Assegurar a biodiversidade é importante porque ela garante maior sustentabilidade natural para todas as formas de vida, e ecossistemas saudáveis e diversos podem se recuperar melhor de desastres, como queimadas. 

Preservar a biodiversidade amazônica, portanto, quer dizer contribuir para estabilizar outros ecossistemas na região. O recife de corais da Amazônia, por exemplo, um corredor de biodiversidade entre a foz do Amazonas e o Caribe, é um refúgio para corais ameaçados pelo aquecimento global por estar em uma região mais profunda. 

Segundo o biólogo Carlos Eduardo Leite Ferreira, da Universidade Federal Fluminense, esse recife poderá ajudar a repovoar áreas degradadas dos oceanos no futuro, mas as petroleiras Total e BP têm planos de explorar petróleo perto da região dos corais da Amazônia, ameaçando assim esse ecossistema. 

A biodiversidade também tem sua função na agricultura: áreas agrícolas com florestas preservadas em seu entorno têm maior riqueza de polinizadores, dos quais depende a produção de alimentos, como café, milho e soja. 

Produtos da floresta 

As espécies da Amazônia também são importantes pelo seu uso para produzir medicamentos, alimentos e outros produtos. Mais de 10 mil espécies de plantas da área possuem princípios ativos para uso medicinal, cosmético e controle biológico de pragas. 

Em 2017, uma pesquisa da Faculdade de Medicina do ABC, em São Paulo, mostrou que a planta unha-de-gato, da região amazônica, além de ser utilizada para tratar artrite e osteoartrose, reduz a fadiga e melhora a qualidade de vida de pacientes em estágio avançado de câncer. 

Produtos da floresta são comercializados em todo o Brasil, como açaí, guaraná, frutas tropicais, palmito, fitoterápicos, fitocosméticos, couro vegetal, artesanato de capim dourado e artesanato indígena. Produtos não madeireiros também têm grande valor de exportação: castanha-do-brasil (também conhecida como castanha-do-pará), jarina (o marfim vegetal), rutila e jaborandi (princípios ativos), pau-rosa (essência de perfume), resinas e óleos.

Por: Priscila Jordão (Deutsche Welle).

A Amazônia Não é o Pulmão do Mundo, mas sua completa supressão impactaria o clima do planeta

São as algas marinhas que fornecem a maior parte do oxigênio de que o planeta precisa. Florestas como a Amazônica consomem tudo ou quase tudo que produzem. 

Pulmão do mundo. No que você pensa ao ouvir essa expressão? Ora, só dá para imaginar que a Amazônia é a maior produtora mundial do oxigênio. Acontece que essa história de “pulmão do mundo” não confere. Na verdade, são as algas marinhas que fazem a maior parte desse trabalho – elas jogam na atmosfera quase 55% de todo o oxigênio produzido no planeta. E mais: florestas como a Amazônia, segundo os cientistas, são ambientes em clímax ecológico. Isso quer dizer que elas consomem todo – ou quase todo – o oxigênio que produzem. 

As estimativas variam, mas todas indicam que a parcela de oxigênio excedente fornecida pela Amazônia para o mundo é bem pequena. É que, além de produzir oxigênio na fotossíntese (enquanto sequestram gás carbônico da atmosfera e o transformam em matéria-prima para galhos e folhas), as árvores também respiram – consumindo oxigênio e liberando gás carbônico. No fim, a relação entre produção e consumo tende a ficar no empate. 

Isso não significa, contudo, que derrubar a floresta não impactaria o clima do planeta. Ao contrário: quando não alimentam a indústria legal ou ilegal de madeira, árvores derrubadas se decompõem, liberando gás carbônico e agravando o problema do aquecimento global. Além disso, já se sabe que, de várias maneiras, a Amazônia produz sua própria chuva e influencia o regime pluviométrico de outras regiões. 

Segundo os cientistas, ela lança na atmosfera uma quantidade inimaginável de partículas de origem biológica – de pedacinhos de plantas a fungos e moléculas orgânicas. Levadas pelo vento, essas partículas acabam virando núcleos de condensação de nuvens (em torno dos quais o vapor dágua se transforma em gotículas ou cristais de gelo). É por isso, entre outros fatores, que as chuvas são tão abundantes na Amazônia. Quanto mais o desmatamento avança, mais elas tendem a rarear – colocando em risco o delicado equilíbrio da floresta. 

Produção de oxigênio no mundo 

  • Algas marinhas – 54,7% 
  • Bosques e florestas – 24,9% 
  • Estepes, campos e pastos – 9,1%
  • Áreas cultivadas – 8,0% 
  • Algas de água doce – 0,3%


Por: Reinaldo José Lopes (Superinteressante).

Desmatamento na Amazônia Seria o Dobro do Registrado Pelo INPE, aponta estudo de universidade americana

Resultado de estudo de universidade americana é o dobro do desmatamento registrado pelo Inpe no período.

A Amazônia brasileira perdeu mais de uma Alemanha em área de floresta entre 2000 e 2017. São cerca de 400 mil km² a menos de área verde, de acordo com estudo de uma equipe de pesquisadores da Universidade de Oklahoma publicado na revista científica Nature Sustainability [Improved estimates of forest cover and loss in the Brazilian Amazon in 2000–2017]. 

O resultado apontado é mais que o dobro da área de 180 mil km² registrada no mesmo período pelo sistema de monitoramento de desmatamento anual adotado pelo Inpe, o Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes). 

O conceito de floresta desmatada e a qualidade das imagens analisadas pelo satélite utilizado na nova pesquisa, com menos interferência de nuvens e sombras, são apontados como fatores para a discrepância nos resultados. 

O mesmo estudo diz ainda que o tamanho de toda floresta na Amazônia é subdimensionado em 15%. Dados sobre desmatamento servem de base para a elaboração de políticas públicas e acordos internacionais do governo brasileiro. 

O artigo revela ainda que as unidades de conservação da Amazônia perderam 20 mil km² de floresta entre 2000 e 2017. Daria para colocar quase quatro Brasílias nesse espaço. 

Mas a pesquisa aponta um avanço no reflorestamento entre 2001 e 2013. Considerando reflorestamento como áreas verdes regeneradas e que assim permaneceram por pelo menos quatro anos, a Amazônia teve um ganho de 21% de floresta do que foi desmatado no mesmo período. 

O método

O método utilizado pelos pesquisadores da Universidade de Oklahoma considera dados de um radar (PALSAR), que obtém imagens mesmo com presença de nuvens, adicionados a imagens diárias de um satélite (MODIS). 

Os dados são analisados em um algoritmo que considera um pixel como área verde ou não-verde durante o ano inteiro. O estudo afirma que 99,7% dos pixels analisados por esse método, chamado de PALSAR/MODIS, apresentaram boa qualidade para análise. 

Por outro lado, a pesquisa aponta que no sistema de monitoramento adotado pelo Inpe, o Prodes, que utiliza principalmente um satélite (LANDSAT) que faz imagens de uma determinada área a cada 16 dias, teve entre 5% e 15% das imagens cobertas por nuvens ou sombras. 

Nesses casos, analistas do Inpe fazem análise visual de imagens de outros três satélites (LANDSAT 8/OLI, CBERS 4 e IRS-2) para calcular uma estimativa de perda de floresta nas áreas cobertas. Em seu site, o Inpe afirma que "a estimativa do desmatamento sob nuvens corresponde em média a apenas 5%". 

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Pesquisadores de Oklahoma se basearam em dados do radar PALSAR, que faz imagens através de nuvens, enquanto o Inpe usa o PRODES, com base no satélite LANDSAT, em que 5% a 15% das imagens ficaram cobertas por nuvens ou sombras no período analisado. Essa imprecisão nas imagens ainda seria responsável por um subdimensionamento da floresta amazônica. O método PALSAR/MODIS identificou 3.750.000 km² de floresta em 2010, um número 15% maior do que o Prodes apontou no mesmo ano. 

Xiangming Xiao, chefe da pesquisa e professor doutor do Centro de Análises Espaciais da Universidade de Oklahoma, explica que outros estudos já haviam apontado inconsistências nos dados do Prodes, mas pela primeira vez isso é mostrado com imagens de melhor qualidade. 

"Pesquisas anteriores já identificaram as imprecisões nos dados do Prodes, no entanto, essas publicações atribuíram os problemas sob a perspectiva de algoritmos e relatórios. Nosso artigo avança este argumento principalmente da perspectiva dos dados com qualidade melhor de imagem, o que garante que nossa análise de dados tenha poucas lacunas", diz o professor Xiao, que começou a se envolver em projetos de monitoramento da Amazônia em 2002. 

Foram quatro anos de monitoramento e análise de dados para que os 14 pesquisadores apresentassem os resultados sobre desmatamento na Amazônia. Dois brasileiros, servidores da Divisão de Sensoriamento Remoto do Inpe, Yosio Shimabukuro e Egidio Arai, participaram dos estudos. 

Conceitos diferentes sobre floresta

Além da qualidade das imagens de satélite e o tipo de algoritmo utilizado na análise dos dados, os pesquisadores afirmam que a definição de cobertura florestal interfere no resultado final. 

Na pesquisa da Universidade de Oklahoma eles consideram a perda de área verde como desmatamento. Já o Prodes utiliza apenas o conceito de floresta primária para desmatamento. 

Ou seja, após uma área ser desmatada, mesmo que ela seja reflorestada posteriormente, essa área não é mais analisada pelo sistema de monitoramento, explica o pesquisador Carlos Souza, do Imazon, instituto que faz análises sobre desmatamento na Amazônia. 

"Uma vez que detecta o desmatamento, o Prodes não olha mais aquela área. Ele só indica desmatamento de floresta primária. O Imazon fez um estudo utilizando uma metodologia que chamamos de MapBiomas, com imagens do satélite LANDSAT, que apontou 12 milhões de hectares (120 mil km²) de floresta em regeneração em 2017", diz Souza. 

Para Claudio Almeida, chefe da Coordenação do Programa Amazônia (COAMZ), departamento do Inpe que faz o monitoramento de imagens da Amazônia, ela "tem hoje cerca de 20% de sua área em algum grau de regeneração, isso representa aproximadamente 140 mil km²". 

"No Prodes nós consideramos essa área como uma máscara que não é analisada. Essa parte da verificação é feita por outro sistema do Inpe, o Terraclass, que monitora a ocupação da terra após o desmatamento", afirma Almeida. 

Dinâmica da floresta

A pesquisa faz ainda uma análise da dinâmica do desmatamento na floresta. Em 2010 e entre 2015 e 2016, houve um crescimento acentuado no desmatamento por fatores climáticos. 

O El Niño trouxe um clima mais seco para a região, o que facilitou a propagação de queimadas, que em média são responsáveis por 70% do desmatamento de áreas verdes na Amazônia. Em anos secos o total desmatado chegou a 3,7 vezes a área de perda de floresta em anos mais chuvosos. A própria dinâmica de desmatamento ilegal estaria facilitando anos mais secos.



Método PALSAR/MODIS identificou 3,75 milhões de km² de floresta em 2010, 15% a mais do que o PRODES no mesmo ano.

"Estudos anteriores apontam que a degradação da floresta por incêndios e extração seletiva de madeira reduzem a resistência à seca, o que aumenta as chances de desmatamento. Portanto, reduzir o fogo induzido pelo homem e a extração de madeira poderia ajudar", aconselha o professor doutor Yuanwei Qin, que também liderou a pesquisa. 

O professor Qin ainda lembra que as análises apontaram que 90% dos desmatamentos ocorreram em até 5 km de proximidade de áreas que já tinham sido desmatadas antes de 2002. Para o cientista, isso demonstra que "o grau de atividade antrópica (alterações realizadas pelo homem) impulsiona a perda da floresta na Amazônia brasileira". 

Sistemas diferentes e histórico de dados

Para Carlos Souza, do Imazon, métodos diferentes de monitoramento da floresta demonstram avanços no acompanhamento de desmatamentos. O instituto divulgou na semana passada resultado do SAD (Sistema de Alerta de Desmatamento), que indicou que a Amazônia perdeu 5 mil km² de floresta nativa nos últimos 12 meses. 

O método adotado pelo Imazon também é diferente do Prodes e do DETER, este um sistema em tempo real de alerta de alterações na cobertura vegetal acima de três hectares. 

"Essa pesquisa de Oklahoma traz um novo tipo de informação. A comunidade científica é sempre aberta para isso, mas são dados científicos. Para se aprofundar mais, e posteriormente criar um sistema operacional, é preciso se aprofundar mais na pesquisa. Outros trabalhos já tinham apontado que o desmatamento na Amazônia é maior do que o Prodes estima, mas não o dobro como este caso", afirma Souza. 

Em julho, o presidente Jair Bolsonaro criticou publicamente dados do DETER, que, para ele, "não condizem com a realidade". O caso resultou na demissão do diretor do Inpe, Ricardo Galvão, e teve repercussão internacional. 

O estudo de Oklahoma adotou 2000 como ano de referência (ou linha de base, como os pesquisadores chamam). Já o PRODES possui uma referência mais antiga e Souza explica que esse é um fator importante do método brasileiro, apesar das limitações e da necessidade de melhorias. 

"O valor do Prodes é que temos uma série longa de dados, desde 1988. Muitas políticas públicas foram pensadas com base nessas informações, metas que o governo colocou de emissões associadas a desmatamento foram feitas tomando esses dados como referência, então tudo isso é importante. Qualquer método adicional, que vai trazer melhorias, precisa considerar essa dimensão temporal", diz Souza. 

O chefe do monitoramento na Amazônia, Claudio Almeida, diz que o órgão acompanha estudos sobre o tema de forma permanente, mas também reforça a importância da série histórica do Prodes. 

"O Inpe faz o monitoramento operacional do bioma, mas também tem um lado de pesquisa até pela formação da equipe. Então é comum ter pesquisadores do órgão participando ou acompanhando estudos de fora. Desde 1988 o Prodes incorporou alguns elementos de inovações propostas pela academia, mas não podemos mudar tudo porque esse fator histórico nos permite comparações importantes com a floresta no passado. No caso dessa pesquisa da Universidade de Oklahoma vejo que é um bom método para analisar áreas maiores, mas o Prodes ainda é melhor para avaliar desmatamento em locais específicos", avalia Almeida.

Por: Hyury Potter (BBC News Brasil).

Bioenergia Pode Ajudar a Mitigar as Mudanças Climáticas, reconhece IPCC

Aumento generalizado e desordenado da produção de culturas energéticas, no entanto, pode ter impactos na degradação da terra, segurança alimentar e no uso de recursos hídricos, apontou relatório especial do painel do clima da ONU

A bioenergia pode ajudar na mitigação das mudanças climáticas globais contribuindo para diminuir a queima de carvão, petróleo e gás natural para geração de energia e, consequentemente, reduzindo a emissão de gases de efeito estufa para a atmosfera. 

Pesquisadores brasileiros e estrangeiros que têm estudado o assunto defendem ser possível expandir o uso de bioenergia sem degradar o solo, comprometer a segurança alimentar ou os recursos hídricos. 

O tema foi abordado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU) no seu mais recente relatório especial, lançado no dia 8 de agosto de 2019 com o tema "Mudanças climáticas e uso da terra", e em seu respectivo sumário para os formuladores de políticas. 

A abordagem do relatório sugere que, entre cientistas e negociadores de governos, o antagonismo entre a produção de biocombustíveis e o cultivo de alimentos começa a se dissipar. 

O documento reconhece, por exemplo, que o uso da bioenergia, juntamente com a redução do desmatamento de florestas tropicais e o replantio de vegetação nativa para sequestrar e retirar dióxido de carbono (CO2) da atmosfera, pode ajudar a limitar o aquecimento global a 1,5ºC ou bem abaixo de 2ºC nas próximas décadas. 

Mas ressalva que o aumento generalizado e desordenado da produção de bioenergia no mundo pode resultar em uma grande expansão de áreas de cultivo de culturas energéticas em detrimento do cultivo de alimento, além de aumentar o uso de água para irrigação. 

"Alguns cenários do IPCC apontam que, com o aumento da demanda por energia, poderia ocorrer um incremento de mais de 25 milhões de hectares por ano da área voltada ao cultivo de culturas para produção de bioenergia no mundo. Isso poderia pressionar áreas de vegetação nativa ou voltadas à produção de alimentos", disse Luís Gustavo Barioni, pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária e um dos autores do capítulo transversal sobre bioenergia e tecnologias de captura e armazenamento de CO2 – as chamadas BECCS (Bionergy Carbon Capture and Storage) – em cenários de mitigação, à Agência FAPESP

"Mas, para chegar a taxas de expansão de uso da terra para bioenergia dessa ordem, precisaria ter um mercado internacional pujante, que pagasse não só por esse tipo de energia, mas também pelo serviço ambiental de captura e armazenamento do carbono. E isso ainda é muito incipiente", ponderou Barioni. (Leia mais em http://agencia.fapesp.br/31178/). 

Ação de cientistas brasileiros

A declaração final sobre o papel da bioenergia no combate às mudanças climáticas no sumário para tomadores de decisão reflete a ação de diplomatas e funcionários do governo brasileiro, apoiados a distância por cientistas, na reunião do IPCC, em Genebra, na Suíça

Durante o evento, os delegados nacionais de 190 países discutiram o texto até entrar em um acordo para que o documento pudesse ser fechado, de acordo com Gláucia Mendes Souza, professora do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN). 

A versão preliminar do sumário refletia de modo impreciso as conclusões do relatório e apresentava restrições controversas e enviesadas em relação à bioenergia, afirmam pesquisadores brasileiros que acompanharam as discussões a distância. 

"O sumário apresentava dados que só depreciavam a bioenergia, baseados em valores equivocados de produtividade e de área necessária para produzir biocombustíveis para atender as necessidades da transição energética global", acrescentou Luiz Augusto Horta Nogueira, pesquisador associado do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético da Universidade Estadual de Campinas (Nipe-Unicamp). 

Por meio de uma interlocução com diplomatas do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, que participaram da redação do sumário, na Suíça, um grupo de cientistas brasileiros, integrado por Nogueira e outros pesquisadores ligados ao BIOEN, apresentou uma série de argumentos que permitiram a adequação correta do documento. 

"Fizemos uma intervenção circunstanciada, baseada em evidências e argumentos científicos, que permitiu alterar ou eliminar opiniões enviesadas no sumário para os formuladores de políticas", disse Souza

Mais informações sobre essa negociação estão no artigo Nunca Tantos Deveram a Tão Poucos, publicado no site da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), no dia 9 de agosto. 

Cenários de expansão

De acordo com o relatório, para limitar o aquecimento global a 1,5ºC até 2050 seria necessário usar até 7 milhões de quilômetros quadrados (Km²) para a produção de culturas energéticas. A área de cultivo necessária em um cenário de aquecimento de 2ºC seria menor, limitada a 5 milhões de km². 

Maiores níveis de conversão da terra para produção de bioenergia poderiam ter efeitos adversos que afetariam a disponibilidade de água, de alimentos, a biodiversidade e causariam o aumento da degradação do solo e desertificação, indica o relatório. 

"A expansão da produção mundial de bioenergia com captura e armazenamento de carbono nas taxas estimadas nos cenários de aquecimento global mais ambiciosos projetados pelo IPCC é factível, uma vez que o aumento da área de cultivo de culturas energéticas em países que são grandes produtores de biocombustíveis, como o Brasil, está bem abaixo desses limites", afirmou Barioni

Segundo ele, a área de produção de cana-de-açúcar no país, que hoje é de 10,2 milhões de hectares, tem aumentado, junto com a de soja, em 3 milhões de hectares por ano, com maior proporção de lavouras de soja. Além disso, outras formas de energia renováveis, como a eólica e a solar, devem aumentar a competição com o etanol e outros biocombustíveis para ampliar suas participações na matriz energética brasileira. 

"O Brasil já tem uma matriz energética relativamente limpa e não tem uma expansão muito rápida da demanda energética. Dessa forma, não há perspectiva de aumentar significativamente a área voltada à produção de cana-de-açúcar", avaliou. 

O relatório também aponta que a integração da bioenergia em paisagens agrícolas geridas de forma sustentável e que limitar a produção de culturas energéticas em terras marginais ou abandonadas teriam efeitos insignificantes sobre a biodiversidade e a segurança alimentar e poderiam diminuir a degradação da terra. 

De acordo com Barioni, há cerca de 3 bilhões de hectares de terras pastoris no mundo hoje, dos quais 1,5 bilhão de hectares são efetivamente usados como pastagem. Ainda não é possível estimar, porém, se a bioenergia pode vir a ocupar a área remanescente. 

"Isso dependerá muito de incentivos econômicos. Se for mais atrativo economicamente produzir culturas energéticas em comparação com cultivos para alimentação humana, pode ocorrer o deslocamento da produção de alimentos para áreas com maior risco climático ou condições de solo não muito favoráveis", disse o pesquisador. 

Já as áreas de pastagens podem não ser muito afetadas, em razão dessa atividade ser realizada em regiões mais remotas, em que a logística não é muito favorável para produção de bioenergia, ponderou. 

"Normalmente, como há o transporte intensivo de biomassa, a produção de bioenergia ocorre em regiões com melhor logística. Mas ainda há muita incerteza se a bioenergia ocupará essas áreas ou competirá por terras em regiões menos favoráveis em termos de logística, onde estão situadas áreas de pastagem", afirmou Barioni.

Por: Elton Alisson (Agência Fapesp).

Estudo Relaciona Exploração de Gás Natural Por 'Fracking' a Aumento nas Emissões de Gases Estufa

O metano proveniente do fracking tem características diferentes daquele emitido pelas técnicas convencionais de produção de gás natural — Foto: Tim Evanson / Visualhunt. Estudo relaciona exploração de gás natural por fracking a aumento nas emissões de gases estufa. 

Um estudo divulgado no dia 12/08/2019 aponta que o aumento da concentração de gás metano na atmosfera nos últimos anos vem, em grande parte, da exploração do gás de xisto por meio de "fracking" (técnica também conhecida como "fraturamento hidráulico"). 

A conclusão dos pesquisadores da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, foi publicada em artigo na revista científica Biogeosciences [Ideas and perspectives: is shale gas a major driver of recent increase in global atmospheric methane?]. Eles analisam o aumento da concentração de gás metano na atmosfera ao longo da última década e sua relação com a crescente utilização do fracking como prática de produção de gás natural. 

O metano é um dos principais gases causadores do efeito estufa. E o fracking é uma técnica de produção de gás natural considerada não convencional: uma espécie de sonda é inserida a mais de 3 mil metros de profundidade, "fraturando" as rochas para a retirada do gás natural presente em camadas quase inacessíveis. 

Segundo o autor do artigo, Robert Howarth, que é professor de ecologia e biologia ambiental, é um erro atribuir a fontes biológicas o aumento da concentração de metano no ar. Pesquisas anteriores vêm associando essa elevação, principalmente, a atividades como a pecuária para produção de carne bovina. 

Como foi feito o estudo 

Os cientistas fizeram uma análise química da composição do metano que vem sendo emitido na atmosfera nos últimos anos. Dessa forma, conseguiram encontrar rastros de suas origens. 

Essa espécie de "impressão digital química" do gás metano indica que uma grande proporção dele agora vem sendo emitida por meio do fracking. A concentração de metano na atmosfera vem aumentando especialmente desde 2008, mas também sua composição está ficando diferente. 

Isso porque o metano proveniente do fracking tem características diferentes daquele emitido pelas técnicas convencionais de produção de gás natural. E também é diferente daquele metano liberado na queima de outros combustíveis fósseis, como o carvão. 

A pesquisa indica que a proporção de moléculas de carbono-13 em relação ao carbono-12 é menor no metano emitido por fracking. Assim como o metano emitido por fontes biológicas, como aquele presente nos gases de animais ou exalado por terras úmidas, tem concentração de carbono-13 mais baixa do que o metano que vem dos combustíveis fósseis. 

Metano no aquecimento global 

De acordo com o estudo, os níveis de gás metano no ar aumentaram muito durante as últimas duas décadas do século 20 e depois se estabilizaram na primeira década do século 21. 

Depois, houve um aumento dramático no metano atmosférico entre 2008 e 2014, passando de 570 bilhões de toneladas anuais para 595 bilhões de toneladas, por causa das emissões por atividades humanas nos últimos 11 anos. 

"Reduzir as emissões de metano agora pode ser uma forma imediata de desacelerar o aquecimento global e cumprir com as metas das Nações Unidas, de manter o aumento da temperatura do planeta abaixo de 2ºC", afirma o cientista, em nota de divulgação da pesquisa. 

"Se pararmos de jogar metano na atmosfera, ele vai se dissipar", acrescenta. "Ele vai embora rapidamente, se comparado com o dióxido de carbono (CO2). Reduzir o metano é a forma mais fácil de conter o aquecimento global". 

O cientista também diz que, ao longo da última década, cerca de dois terços de toda a nova produção de gás natural vem dos Estados Unidos e do Canadá.

Fonte: G1.

Quem Quer Agradar o Mundo?

Uma boa reputação ambiental não é apenas uma questão política. Ela é crucial para quem faz negócios. Foto da Amazônia: Ricardo Lima / Getty Images.

Agricultura brasileira está diante de uma encruzilhada. De um lado, pode se consolidar como a grande vilã do mundo, uma destruidora das florestas do Brasil e do equilíbrio climático de todo o planeta. De outro lado, pode ser vista como a grande salvadora da biodiversidade da floresta e mantenedora do aquecimento global em níveis administráveis. A decisão sobre o caminho a seguir será tomada nos próximos meses. 

É patente que a imagem do Brasil no exterior vem se deteriorando aceleradamente desde o início do governo Bolsonaro. Sem entrar nos méritos dos motivos, a política ambiental do governo atual tem sido associada a redução de áreas de conservação, desmanche dos órgãos de fiscalização, flexibilização de leis ambientais, anistia a quem cometeu irregularidades, defesa da caça de animais, cancelamento de parcerias internacionais para conservação, ataque às organizações de defesa do meio ambiente, corte de verbas para o desenvolvimento sustentável e, no caso recente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, críticas aos pesquisadores que monitoram o desmatamento. Tudo isso supostamente em nome de algum benefício para a agricultura brasileira. 

A conta dessa percepção já está chegando. Diversos governos de outros países têm manifestado preocupação com a política ambiental do Brasil e os custos para o planeta de uma eventual destruição da floresta Amazônica – que é brasileira, sem dúvida, mas cuja saúde é fundamental para o resto do planeta. A Amazônia não é apenas a fábrica de chuvas do resto do país e guardiã da maior biodiversidade do mundo. Também é um estoque de carbono decisivo para manter o equilíbrio do clima da Terra diante do aquecimento global em curso. Por isso, diante das declarações pró-devastação ambiental do presidente do Brasil, a revista britânica The Economist resumiu a expectativa global ao batizá-lo de "o chefe de estado mais perigoso do mundo em termos ambientais". É como se o Brasil detivesse armas de destruição em massa ambientais. E é como se o nosso presidente estivesse sendo visto – o jogo aqui é o da percepção – como uma versão climática de Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte

Essa conta já foi percebida por quem faz negócios. Em uma palestra recente, Marcello Brito, presidente do Conselho Diretor da Associação Brasileira do Agronegócio, alertou para o risco de restrições comerciais caso a imagem do Brasil lá fora continue se degradando. O tão sonhado acordo do Mercosul com a União Européia pode virar cinzas muito antes da floresta. Até a China, maior cliente do Brasil, deu seu recado. A China cada vez mais se posiciona como a líder global em tecnologias verdes. O governo chinês começou a combater as mudanças climáticas por interesse próprio. O órgão responsável por comprar do Brasil já alertou para cuidarmos das práticas sustentáveis na agricultura, sob pena de embargo. Como lá é uma ditadura, nem dá para dizer que foi alguma ONG que soprou maledicências nos ouvidos deles. 

O risco não é apenas para o setor agrícola. Executivos de mineradoras que operam no Brasil relatam que os acionistas vêm expressando cada vez maior preocupação com o risco socioambiental de trabalhar num país onde os cuidados ambientais estão se degradando. 

É claro que não precisa ser assim. Entre 2005 e 2015, o Brasil reduziu 70% do ritmo de desmatamento na Amazônia. Foi resultado de um mix de políticas públicas como a suspensão do crédito agrícola nos municípios campeões de destruição, melhora na fiscalização e no monitoramento, criação de unidades de uso sustentável em áreas críticas como as margem da BR 163, a Cuiabá-Santarém. Sabe qual foi o impacto da redução no desmatamento para a produção agrícola do país? Nenhum. Ao contrário: nesse período, o Brasil bateu recordes sucessivos de produção e de exportação, também de geração de emprego e de crescimento econômico. E de redução da pobreza e da fome. Além disso, o Brasil ganhou reconhecimento internacional. Teve acesso à doação de bilhões de euros da Europa em programas de geração de empregos sustentáveis no Fundo Amazônia, com recursos para os governos estaduais, municipais e federais. O Brasil virou uma das grandes potências diplomáticas nas negociações dos acordos do clima, sob o guarda-chuva da ONU, que incluem não só metas mas também investimentos em obras de adaptação às mudanças climáticas e transferências de tecnologia. 

O passo seguinte nesse círculo virtuoso seria buscarmos os pagamentos por serviços ambientais. O Brasil tem tudo para ser um dos grandes beneficiários dos recursos destinados para premiar quem conserva o carbono na terra. Empresas como a Permian Global captam investimentos para compensar a conservação de florestas. Há outras frentes mais ambiciosas. Novas empresas estão se organizando para remunerar os agricultores que, por meio de boas técnicas, preservam a integridade do solo e aumentam o acúmulo de carbono embaixo da terra. Uma delas, a americana Indigo, está montando um mercado internacional para pagar aos agricultores que estocam carbono no solo. 

Isso sem falar nos produtos da floresta em pé. Um potencial econômico que mal começamos a explorar. A floresta preservada no Pará e na Bahia tornam o Brasil um dos maiores produtores mundiais de cacau. Se a destruição ambiental deixa um gosto amargo na boca, a preservação é doce como um chocolate. 

É esse tipo de benefício que precisamos buscar. A experiência recente do Brasil mostrou que somos capazes de ser os heróis da luta global pelo clima. E os heróis não abandonam a luta.

Por: Alexandre Mansur (Exame).

Poluição do Ar Pode Ser Tão Perigosa Quanto Fumar Um Maço de Cigarro Por Dia

Pesquisadores dos EUA viram que pessoas expostas a gases poluentes, principalmente ao ozônio, estão mais sujeitas a enfisema pulmonar. 

Pesquisadores dos Estados Unidos concluíram que a exposição à poluição do ar pode ser equivalente a fumar uma carteira de cigarros por dia e que ela ainda pode aumentar a chance de se ter enfisema pulmonar, uma doença perigosa e sem cura. 

Os cientistas notaram uma maior incidência da enfermidade em pessoas que estão expostas por muito tempo a gases poluentes, em especial ao ozônio. O enfisema é uma doença respiratória grave, que diminui a elasticidade dos pulmões e leva à destruição dos alvéolos pulmonares, causando sintomas como respiração rápida, tosse ou dificuldade para respirar. 

Segundo o estudo, conduzido pela Universidade de Chicago, pela Universidade Columbia e pela Universidade Estadual de Nova York em Buffalo, em áreas com aumento de três partes por milhão (3 ppm) no nível de ozônio ao longo de dez anos, as pessoas têm maior chance de ter enfisema. Essa possibilidade é a mesma que tem alguém que fume uma carteira de cigarros por dia ao longo de 29 anos. 

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores estudaram 7 mil pessoas e a poluição a que elas tiveram expostas do ano 2000 até 2018. Os participantes, que foram expostos a exames de tomografia computadorizada, viviam todos em grandes regiões metropolitanas como Chicago, Baltimore, Los Angeles, Minnesota e Nova York. Os resultados foram publicados no dia 13/08/2019 no periódico médico JAMA [Association Between Long-term Exposure to Ambient Air Pollution and Change in Quantitatively Assessed Emphysema and Lung Function]. 

Os cientistas acreditam que a principal causa para a maior predisposição ao enfisema é o ozônio que fica concentrado na troposfera (camada mais baixa da atmosfera). O gás é produzido especialmente quando a luz ultravioleta age com outros poluentes liberados por combustíveis fósseis. 

"Conforme as temperaturas aumentam com o aquecimento global, o nível de ozônio troposférico vai continuar a aumentar", contou R. Graham Barr, professor de epidemiologia na Universidade Columbia. "A não ser que passos sejam tomados para reduzir os poluentes, ainda não é claro qual nível ou sequer se esses gases são seguros para a saúde humana".


Nível do Mar Está Acelerando Há 60 Anos

Surfistas aproveitam ondas raras na praia do Flamengo, dentro da Baía de Guanabara. Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil. Estudo revê séries de dados e mostra que elevação global do oceano ganhou impulso bem antes do que se imaginava. 

A aceleração da elevação do nível global dos oceanos começou 30 anos antes do que os cientistas imaginavam. O resultado é de um novo estudo, publicado no dia 05/08/2019. 

A equipe do pesquisador alemão Sönke Dangendorf, da Universidade de Siegen, desenvolveu uma nova metodologia para analisar as séries de dados mais antigas sobre o nível do mar e concluiu que a tendência observada hoje data dos anos 1960 – antes mesmo de a expressão “aquecimento global” ter aparecido pela primeira vez na literatura científica. O estudo foi publicado no periódico Nature Climate Change [Persistent acceleration in global sea-level rise since the 1960s]. 

Ao longo do último século, os oceanos já subiram cerca de 20 centímetros. O fenômeno, um dos efeitos mais temidos do aquecimento global, é causado sobretudo pelo derretimento de geleiras de montanhas, dos mantos de gelo da Groenlândia e da Antártida e pela expansão térmica do mar – líquidos aquecidos aumentam de volume. 

Estima-se que a elevação neste século, a depender do comportamento do gelo da Antártida, possa ultrapassar um metro. Isso teria consequências dramáticas para cidades costeiras e nações insulares, já que uma elevação dessa ordem pode se multiplicar por quatro durante ressacas ocorridas em maré alta. 

O nível do mar é medido com precisão milimétrica por satélites desde 1993, quando se detectou a aceleração. Antes disso, os cientistas precisavam se fiar em registros esparsos de marégrafos espalhados pelo mundo. 

Dangendorf e seus colegas combinaram duas técnicas de análise dos dados dos marégrafos: uma que permite olhar a tendência no longo prazo, mas não detecta variações que ocorrem de um ano para o outro, e uma que permite reconstruir a variação anual, mas não enxerga o longo prazo. Assim, foram capazes de reconstruir a tendência de aumento do nível do mar desde 1900. 

Eles descobriram que a aceleração começou em 1960, saltando de cerca de 1 mm por ano para quase 4 mm por ano. Ela seguiu uma mudança nos ventos alísios do hemisfério Sul. O principal ponto de aumento é no Pacífico Sul, entre Austrália e Nova Zelândia. E mostra a importância da expansão térmica para essa tendência.


Aceleração do nível do mar (Imagem: The Carbon Brief).

"Os ventos se intensificaram, levando a uma maior redistribuição de massas de água quente superficial para o Pacífico", afirmou Dangendorf ao Observatório do Clima. Ele afirma que isso causou um segundo efeito sobre o nível global do mar: "Se a água mais quente é empurrada para longe, a água mais fria e mais densa de profundidades intermediárias sobe à superfície. Essa água mais fria e mais densa absorve calor de forma mais eficiente, levando a uma maior expansão térmica – e, por consequência, a uma elevação mais rápida no nível do mar".


Riscos Ambientais Sob a Ótica do Mercado Segurador

Mais do que oferecer coberturas abrangentes, que garantem o ressarcimento dos danos que os segurados possam sofrer por conta de chuva, enchente, incêndio, poluição, crimes e desastres ambientais, as seguradoras precisam trabalhar fortemente para evitar que esses danos aconteçam. 

Com um crescimento exponencial nos últimos anos, os riscos ambientais respondem por três dos cinco principais riscos por probabilidade, e quatro por impacto, de acordo com a edição mais recente do Global Risks Report, publicação do World Economic Forum (WEF). Este amplo levantamento leva em consideração riscos como eventos climáticos extremos (inundações, tempestades), grandes desastres naturais (terremoto, tsunami, erupção vulcânica) e crise hídrica. 

As temperaturas globais se encaminham para um aumento de 3 a 5 graus Celsius até o fim deste século, o que supera muito a meta global para limitar essa elevação a 2 graus ou menos, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM). O ritmo acelerado da perda de biodiversidade também é uma preocupação especial. A abundância de espécies diminuiu em 60% desde 1970. Na cadeia alimentar humana, a perda de biodiversidade está afetando a saúde e o desenvolvimento socioeconômico, com implicações para o bem-estar, a produtividade e até mesmo a segurança regional. 

De acordo com o Global Risks Report, as consequências da inércia na mitigação de risco está se tornando cada vez mais clara, principalmente por conta das políticas que alguns países estão adotando e outros que estão fracassando em seus planos de mitigação. 

Diante deste cenário, é fundamental reconhecer que a mudança climática está ocorrendo e entender suas consequências. Como exemplo, temos os alagamentos nos grandes centros urbanos, onde existem ainda fatores agravantes como a obsolescência da infraestrutura de drenagem e a falta de cooperação da população no descarte adequado do lixo. 

Além dos governos, é necessário que todas as instâncias – empresas, comunidades, pessoas – entendam essas mudanças para posteriormente trabalhar na mitigação. É melhor todos trabalhando juntos, com foco, resiliência e visão de futuro. 

E onde exatamente o mercado segurador entra quando falamos em riscos ambientais? Pois bem, as seguradoras têm a missão de ajudar aos seus segurados a entender melhor o tema e se proteger dos riscos. Mais do que oferecer coberturas abrangentes, que garantem o ressarcimento dos danos que os segurados possam sofrer por conta de chuva, enchente, incêndio, poluição, crimes e desastres ambientais, é preciso trabalhar fortemente para evitar que esses danos aconteçam. 

Nota-se também uma preocupação cada vez maior do mercado segurador para oferecer produtos mais assertivos e complementares para abranger as questões ambientais. A tendência é que as seguradoras evoluam ainda mais nesse sentido e, assim, façam sua parte em prol de dias melhores. 

Seguros para riscos ambientais tendem a ser cada vez mais procurados, diante do aumento do nível de percepção dos riscos. E estamos falando desde os grandes impactos, que afetam a vida de milhares de pessoas em um determinado país ou cidade, e até mesmo aqueles considerados “individuais”, como um recente caso de um segurado, que foi impactado por uma enxurrada devido à queda de uma árvore que represou a água na rua onde mora. 

Mas a proteção realmente compensa? Sem dúvidas. É mais barato prevenir do que pagar perdas. Um estudo do National Institute of Building Sciences calculou que investir em resiliência a inundações, por exemplo, retorna entre US$ 5 e US$ 8 para cada US$ 1 gasto. É fato: não investir em proteção carrega custo de perdas futuras e oportunidades perdidas.

Por: Carlos Cortés; head de Engenharia de Riscos na Zurich Seguros. Fonte: Página 22.

Do Rio À Torneira / Do Ralo Ao Rio

Chegar em casa, lavar a mão, tomar banho, lavar frutas e verduras, cozinhar alimentos, lavar roupas..., a água, um dos recursos naturais mais preciosos do mundo, faz parte das nossas vidas e está enraizada no nosso cotidiano e afazeres domésticos. Mas, você sabe como ela chega até sua casa? Neste artigo mostraremos tudo o que acontece com nossa água de todo dia antes de chegar até nós, por onde ela passa e os tratamentos que são feitos para que venha de acordo com os parâmetros necessários para consumo. 

Como a água surge? 

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A água propriamente dita sempre existiu, a captação e tratamento dela para consumo começou em meados de 4000 a.C, quando as primeiras tubulações de cerâmica foram fabricadas e manuscritos gregos já orientavam pela fervura, exposição ao sol ou filtração em leitos de areia para purificar águas impuras. 

A “produção” da água existe em diversas formas, seja sólida, líquida e gasosa, estágios estes, que fazem parte do ciclo da água, como mostra a figura ao lado. 

Dentro deste ciclo, as etapas principais são a evaporação, precipitação, infiltração e escoamento. Ou seja, a água armazenada nos rios, lagos, oceanos e em pequenas partículas nas plantas é evaporada, se condensando nas nuvens; onde a partir do acúmulo da água na atmosfera ocorre um determinado processo que cria os núcleos de condensação, fazendo com que as partículas de água fiquem pesadas, caindo em forma de chuva. As chuvas que caem na superfície terrestre infiltram no solo, nos rios e o que resta da água é escoado, chegando novamente ao oceano e reiniciando todo o processo. 

Por conta disso, a água é considerada um recurso natural renovável, ou seja, faz parte de um processo que se desenvolve continuamente pela natureza. 

Esta água é utilizada para diversos objetivos, caracterizada como de usos múltiplos, seja para agricultura, para pecuária, para consumo nos centros urbanos, nas fazendas, cada uso, com uma necessidade específica para a qualidade da água, o que mostra como dependemos deste recurso nas atividades básicas, econômicas e de lazer. 

Formas de Captação

As formas de captação da água variam de acordo com o local, a quantidade necessária e o objetivo da utilização, aqui iniciaremos pelas captações de menor porte até as mais complexas. 

Entre as captações de água subterrâneas, têm-se os poços artesianos, os poços freáticos e os poços artesianos jorrantes, estes são classificados de acordo com a profundidade de captação e pressão, principalmente. 

O poço artesiano é um poço perfurado para captar água em aquíferos subterrâneos, possui vida útil de aproximadamente quarenta anos, com volume em média de 2 mil litros. Por serem captados em aquíferos confinados, com camadas impermeáveis do solo, possuem menor risco de contaminação. 

Por outro lado, o poço freático é um poço perfurado para captar água em camadas mais superficiais do solo, que por conta disso, possui maior risco de contaminação, podendo ter influência de usos próximos a região. 

Já os poços artesianos jorrantes se diferenciam principalmente em virtude da pressão da água, que chega à superfície como maior força, por conta disso o nome deste tipo de captação. 

Em termos de captação de águas superficiais, têm-se principalmente as captações em reservatórios, onde a água é represada e acumulada e em captações a fio d´água, onde a vazão que chega para captação é influenciada diretamente pela vazão do próprio rio. Após isso, a água é aduzida por tubulações até as estações de tratamento de água (ETA). 

Formas de Tratamento da Água

A complexidade do tratamento da água captada varia de acordo com a qualidade que a água chega até a estação de tratamento de água. O CONAMAConselho Nacional do Meio Ambiente, definiu na Resolução Conama nº 357 as classes de água, que variam de classe especial até a classe 4, indo em ordem crescente de qualidade excelente da água (para usos mais exigentes como consumo direto para beber) até a qualidade de água ruim. 

A partir destas Classes é que são definidos quais tratamentos serão necessários para viabilizar a utilização e o consumo humano, nos tópicos a seguir são definidos resumidamente os tratamentos para cada classe. Vale citar que quanto maior a classe, maior o custo para o tratamento. 

  • Classe Especial: Desinfecção 
  • Classe 1: Tratamento Simplificado 
  • Classe 2: Tratamento Convencional 
  • Classe 3: Tratamento Convencional ou Avançado 
  • Classe 4: Não indicado para abastecimento de consumo humano


Ou seja, as águas são tratadas para remover possíveis patógenos, que podem ocasionar doenças a quem consumir sem o devido tratamento. Além disso, o tratamento também é utilizado para reduzir a turbidez da água, para que fique transparente, e a retirada da cor. 

Tratamento este que passa principalmente pelas etapas de coagulação, floculação, decantação, filtração e desinfecção. 

Etapa 1 – Captação: Já abordada anteriormente, se trata da captação, acumulação da água e encaminhamento por tubulação bombeada até a estação de tratamento de água;

Etapa 2 – Coagulação: Feita para aglomerar as partículas de sujeira, aumentando o peso e volume das mesmas, normalmente feito com adição de cal hidratada e sulfato de alumínio;

Etapa 3 – Floculação: A água é agitada lentamente, facilitando a união das partículas da sujeira, formando os flóculos;

Etapa 4 – Decantação: Nesta etapa, a água deixa de ser agitada, para que os flocos se depositem no fundo, separando estas partículas da água, a partir daí a água mais limpa vai para um filtro de areia e o lodo do fundo é conduzido para tanques de depuração; 

Etapa 5 – Filtração: A água já decantada passa pelo filtro de cascalho, areia e carvão mineral, onde vai aos poucos se livrando dos flocos que não foram decantados na etapa anterior;

Etapa 6 – Cloração e Fluoretação: A água filtrada, apesar de estar limpa, pode conter alguns microorganismos causadores de doenças, por conta disso é incluído o cloro, que serve como desinfetante (inativando ou destruindo os microorganismos) e como oxidante de compostos orgânicos e inorgânicos. Nesta etapa também, especialmente em grandes centros urbanos é necessário a inclusão do flúor, auxiliando na prevenção da cárie dentária; 

Etapa 7 – Reservação: Após o tratamento a água é armazenada em grandes reservatórios, nas áreas mais altas das cidades. 

Os reservatórios são utilizados para que tenha água disponível nas horas de maior consumo. Após estas etapas, que garantem o tratamento adequado, a água é distribuída, como veremos a seguir. 

Distribuição da Água 

Para facilitar a explicação, utilizaremos novamente a figura das etapas de tratamento, agora com foco na distribuição aos consumidores. 

Como comentado na etapa de tratamento, os grandes reservatórios de água ficam na parte mais alta, para facilitar a distribuição por gravidade, reduzindo a necessidade de utilização de bombas. 

Na etapa 8, as águas são levadas até os reservatórios de menor porte, mais próximos dos centros urbanos, e também, preferencialmente em locais altos. 

Na etapa 9, a água é distribuída por tubulações até as residências, comércios e indústrias. As tubulações devem ser mantidas e conservadas pela concessionária local, de forma a evitar vazamentos e perda de água. 

Quando percebemos a água? 

Todas estas etapas ocorrem através do investimento de estrutura, de profissionais qualificados e de planejamento de redes de tubulações nas cidades. Entretanto, quanto tempo gastamos para perceber a água enquanto a utilizamos em nossas casas? Em uma fração de segundos usamos todo o trabalho investido para que chegassem limpas e com ótima qualidade para consumirmos. 

Além disso, o Brasil tem um longo caminho a frente, onde mais de 21 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à rede de distribuição de água potável e cerca de 34 milhões de pessoas estão expostas ao risco de contrair doenças de veiculação hídrica em todo o país. 

Ou seja, além deste recurso ser cada vez mais difícil de se encontrar com boa qualidade no meio natural, com estiagens mais frequentes, tornam-se imprescindíveis campanhas de uso consciente e racional da água, assim como, de percebermos a água com toda sua importância e dependência para nossas atividades diárias. 

Da próxima vez que abrir a torneira, pense em todos os caminhos que a água percorreu até chegar na sua casa, com certeza conhecimento é o caminho para valorizarmos ainda mais nosso precioso recurso natural! 

Por: Maria Beatriz Ayello Leite (Ambiente Brasil).



Do Ralo Ao Rio 

Você sabe o que ocorre com a água depois que a utilizamos nas nossas atividades diárias, seja após o banho, lavando alimentos na torneira, lavando roupa? É necessário algum tratamento específico? Ou seria apenas um direcionamento para o rio mais próximo? 

Explicaremos aqui neste artigo todo o passo a passo da rede de tratamento de água e efluentes, parte esta, de extrema importância para a manutenção da saúde da população e melhoria na qualidade de vida. 

O importante trabalho subterrâneo

O tratamento de efluentes gerados nas casas e a implantação do saneamento básico nas cidades segue toda uma estruturação de redes coletoras, tubulações, caixas de separação que são planejadas principalmente de acordo com o objetivo de utilização da construção, a quantidade de pessoas presentes e tipos de efluentes que serão lançados, dentre outros requisitos. 

Apesar de serem estruturados para que fiquem prioritariamente no subsolo, fora da vista, o saneamento está listado dentro das necessidades básicas para a vida humana, sendo assegurado inclusive pela Constituição brasileira para manutenção da qualidade de vida da população. 

Entretanto, segundo pesquisa realizada pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) mostra que aproximadamente 52% da população brasileira não tem acesso à coleta de esgoto, expondo à saúde pública, devido à veiculação hídrica de doenças como cólera, meningite, hepetites A e B, bem como, impactando ao meio ambiente com contaminação do solo e rios por efluentes não tratados. 

Além disso, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada R$ 1,00 gasto com saneamento, são economizados cerca de R$ 4,00 na área da saúde pública, por conta da prevenção destas doenças vinculativas com a falta de tratamento. 

No aspecto ambiental, a redução em termos econômicos ocorre devido a diminuição da ocorrência de contaminação dos rios por metais pesados e redução da exposição de pessoas quando em contato com a água contaminada. 

Como funciona o ciclo do esgoto?

A importância do saneamento como necessidade básica já foi descrita acima, agora, no intuito de prover maior conhecimento e entendimento sobre como este trabalho é feito, explicaremos a seguir o ciclo do esgoto. 

Primeiramente, a rede de esgotamento varia de acordo com o porte do local, por exemplo, em casos onde não há rede pública próxima e há apenas residências de pequeno porte, pode ser pertinente a utilização de esgotamentos menores. 

1) Responsabilidade: O sistema de tratamento individual é obrigatório quando não há sistema público de esgoto, o sistema do tipo fossa-filtro-sumidouro é comumente utilizado; 

2) Caixa de Gordura: A caixa de gordura é necessária em todos os tipos de sistemas de tratamento, para evitar acúmulo de gordura (advindos de sabonete, sabão, por exemplo) e obstrução das tubulações; 

3) Ligações de passagem

4) Fossa Séptica: Local onde ocorre a sedimentação dos sólidos, formando um lodo, que deve ser limpo através de um caminhão limpa-fossa periodicamente; 

5) Filtro Anaeróbio: Utilizado para tratamento biológico do sistema, formado por britas compostas de microorganismos que decompõe a matéria orgânica, podendo ser colocado após o filtro um clorador para remover organismos que possam causar doenças; 

6) Sumidouro: Local para onde o esgoto, já tratado, vai para ser infiltrado no solo, ocorrendo através de furos na parede e no fundo; 

7) Zona de Raízes: Pode-se optar também, por utilizar as raízes de plantas como forma de filtro, assim, depois de passar pela fossa, o esgoto segue por um leito filtrante onde é feito o plantio de algumas plantas, que são adaptadas a condições de solo com pouca ou muita água; absorvendo a matéria orgânica e os nutrientes. 

Complementarmente, em locais com edificações de maior porte e com acesso à rede de esgotamento para a rede pública, há algumas diferenças e observações detalhadas a seguir; ressaltando principalmente que a estrutura de esgotamento se inicia dentro das residências e depois é encaminhada ao serviço de saneamento local, existindo responsabilidades específicas para o usuário e a concessionária que fornece o serviço.

1 e 2) Responsabilidade: O usuário é responsável pelas instalações prediais de esgoto dentro do terreno; 

3) Ligações de passagem

4) Caixa de gordura

5) Ligação entre a rede de esgoto da residência com a concessionária: Necessário a ligação das caixas de gordura, tubulações e válvula de retenção para esgoto com a rede coletora de esgoto; 

6) Descrição do local de medição das tarifas de esgoto: Existem tarifas de esgoto, similar à forma como são pagas as contas do serviço de abastecimento de água; 

7) Ligação equivocada da rede de esgoto com a pluvial: Esquema ilustrando uma das principais irregularidades que ocorrem, que é a ligação do sistema de esgoto junto a água da chuva, podendo sobrecarregar a rede coletora de esgoto, extravasando para fora do sistema; 

8) Ligação com a empresa responsável pelo serviço de saneamento local

Após este tratamento na residência e com a devida interligação da rede coletora de esgoto, a empresa que gerencia o serviço de saneamento local, inicia efetivamente o tratamento do esgoto gerado através das Estações de Tratamento de Esgoto (ETE). 

Em termos conceituais, o esgoto é composto basicamente de 99,9% de água e 0,1% de sólidos, sendo os principais parâmetros a serem removidos para o adequado tratamento, a matéria orgânica, o nitrogênio, o fósforo e os sólidos, o que irão garantir que o efluente seja devidamente tratado. 

Existem alguns passos principais no tratamento do esgoto sanitário, estruturados de forma a possibilitar que este fluido ganhe novamente uma utilidade, seja para retorno ao próprio corpo hídrico, seja para fins de reaproveitamento; conforme descrito abaixo. 

1) Rede Coletora: Rede que possui interação do usuário e da responsável pelo tratamento do esgoto para o encaminhamento do efluente para tratamento; 

2) Rede Elevatória: Responsável por bombear o esgoto para a estação de tratamento, a qual separa o esgoto em partes sólidas e líquidas; 

3) Pré Tratamento: Composto basicamente de grades com diferentes espessuras que retêm os materiais sólidos que chegam na estação de tratamento, bem como caixas para reter areia que podem danificar os equipamentos da ETE; 

4) Tratamento Biológico: Responsável pelo tratamento primário, com foco no tratamento biológico; 

5) Decantadores Primários e Secundários: É uma forma de separar determinadas misturas, que possuem densidades diferentes, e por isso se separam com o mais denso descendo ao fundo por gravidade; 

6) Geração de Lodo: A parte sólida se transforma em lodo, que atualmente pode possuir outras utilizações, como fertilizante ou envio diretamente ao aterro sanitário para destinação final; 

7) Desinfecção: Tratamento da parte líquida, focando a remoção de patógenos; 

8) Retorno ao Rio: A parte líquida tratada é devolvida ao rio. 

Todos estes procedimentos possibilitam que a água retorne a condições adequadas, retirando os sólidos, os microorganismos e parâmetros químicos danosos à saúde e ao meio ambiente, e assim concluindo o ciclo do esgoto. 

Estas etapas podem ser divididas também em grupos maiores de Tratamento Preliminar, com foco na remoção de sólidos grosseiros e de areia, o Tratamento Secundário, com foco na remoção da matéria orgânica e dos sólidos em suspensão e por fim, o Tratamento Terciário, voltado à remoção de patógenos. 

Vale ressaltar também que todos estes procedimentos de tratamento descritos são embasados por uma série de legislações específicas, em especial a Resolução Conama nº 357/2005 e a Resolução Conama nº 430/2011, que determina as condições mínimas de qualidade do efluente após o tratamento. Além disso, cada estado brasileiro possui normas particulares quanto a estes parâmetros de qualidade de saída do efluente. 

Por fim, em termos de manutenção e correções na rede de esgoto, comumente necessárias pelas concessionárias, são voltadas principalmente para a ligação incorreta da água da chuva com a rede coletora, sobrecarregando o sistema, a danificação de tubulações que levam o esgoto até a estação de tratamento de esgoto e a ligação incorreta de esgoto na rede de drenagem pluvial. 

Todas estas metodologias e etapas aqui apresentadas são definidas para que este importante ciclo, o do esgoto, funcione efetivamente, garantindo a melhoria nas condições básicas de saúde da população e reduzindo o impacto ao meio ambiente, para que um dia o percentual retratado no início do artigo, onde 52% da população brasileira não possui acesso ao saneamento básico, de fato se transforme. 

Por: Maria Beatriz Ayello Leite (Ambiente Brasil).

Pesquisa Compara Autodeclaração de Raça/Cor a Dados Genéticos

Ancestralidade genética africana, local de moradia e nível de instrução influenciaram a autodeclaração de cor. 

Um estudo que contou com a participação de pesquisadores da USP mostra que a probabilidade de alguém se declarar como preto ou pardo aumenta de acordo com a proporção de ancestralidade genética africana, mas varia segundo o local onde os entrevistados moram e o nível de instrução deles. 

Os dados estão no artigo Context-dependence of race self-classification: Results from a highly mixed and unequal middle-income country, publicado na revista científica PlosOne. No trabalho, os cientistas fazem uma comparação entre o componente de ancestralidade genética através de três marcadores (europeu, ameríndio e africano) e a autodeclaração de raça/cor das pessoas. A grande novidade do trabalho foi relacionar variáveis socioeconômicas, demográficas e genéticas em um estudo brasileiro sobre raça/cor. 

Os pesquisadores usaram dados do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa Brasil), uma investigação de caráter internacional que tem por objetivo pesquisar a incidência e os fatores de risco para doenças crônicas, em especial as cardiovasculares e o diabetes. São acompanhados 15 mil funcionários de seis instituições públicas de ensino superior do País. Em cada centro, os participantes da pesquisa fazem exames e entrevistas periódicos nos quais são avaliados aspectos como condição de vida, relação com o trabalho, gênero, especificidades da dieta da população brasileira e diferenças sociais. 

A medida da proporção de ancestralidade foi feita analisando-se o material genético dos participantes através da coleta de sangue. Os dados deste estudo foram colhidos durante dois anos, de 2008 a 2010, por pesquisadores da USP, Fiocruz e Universidades Federais da Bahia, do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais e do Espírito Santo

Paulo Lotufo, professor da Faculdade de Medicina da USP (FM/USP) e um dos pesquisadores envolvidos neste estudo, comenta que a localidade é um fator bem expressivo e deve ser levado em consideração. Em Salvador, por exemplo, 50% da população tem ancestralidade europeia. Já em Porto Alegre, esse número chega a 80%. Existe uma variação, segundo cada região do Brasil, que apresenta proporções diferentes de brancos, pretos, pardos, indígenas e amarelos. 

A professora Dóra Chor, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública (Fundação Oswaldo Cruz), que comandou o estudo, comenta que a grande quantidade de dados coletados pelo Elsa possibilitou o desenvolvimento de artigos como esse, que não tratam somente da ocorrência e fatores de risco de doenças do coração, diabetes e obesidade, por exemplo. 

A principal pergunta que moveu o grupo de pesquisadores foi a seguinte: quais fatores influenciam a autodeclaração de raça/cor? "Nosso maior interesse era olhar o quanto a ancestralidade e a composição racial do lugar em que a pessoa mora influenciavam a declaração de raça/cor", explica Dóra

A pesquisadora comenta que a ancestralidade africana influencia a autodeclaração de raça/cor, mas com intensidades diferentes, de acordo com a cidade. Além disso, a composição da área onde a pessoa mora também se relaciona com a probabilidade dela se declarar como negra ou parda. 

Lotufo explica que esse não foi o único fator analisado. O nível educacional também influencia a autodeclaração de raça/cor dos indivíduos. "Quem tinha nível educacional mais alto diminuía a chance de se declarar como preto, embora tivesse uma boa parte da ancestralidade africana", exemplifica. 

A pesquisa é resultado da combinação entre esses fatores, uma vez que apenas a ancestralidade genética não consegue explicar determinados fenômenos. Contextos situacionais são relevantes para cenários como o de políticas públicas, sociologia e medicina. "É preciso levar em conta vários contextos, tanto individuais como coletivos, para se ter uma explicação mais completa daquilo que influencia a forma como a pessoa se vê, em termos de raça. No geral, as pessoas acham que raça é uma coisa geneticamente determinada", comenta Dóra

De acordo com o professor, não é possível considerar igualmente a forma como a pessoa se vê e o que ela tem, de fato, no seu genoma. Existe uma concordância, entretanto, que há uma diferença que apresenta significado distinto. "É muito importante como a pessoa se vê e é vista no seu meio. Quer dizer, ninguém enxerga o DNA de ninguém", finaliza. 

Mais informações: e-mails palotufo@usp.br, dorachor@gmail.com

Por: Marcelo Canquerino (Jornal da USP).