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Exploração do Cerrado - O Impacto Que Está na Mesa

Se  somos o reflexo do que comemos, a Terra é a expressão de nossos hábitos alimentares. Ao longo dos últimos 10 mil anos, o homem vem transformando as paisagens naturais com as atividades de agricultura e pastoreio, moldando os ecossistemas. Digitais dessa dinâmica insustentável, as alterações feitas apenas nas últimas cinco décadas no Cerrado brasileiro impressionam e preocupam. 

Uma das áreas mais importantes para a conservação da biodiversidade do planeta, os cerrados cobriam originalmente cerca de 24% do território nacional. Mas isso mudou bastante. Segundo o Terraclass – sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) que mapeia o uso da terra e da cobertura vegetal no bioma – cerca de metade desse território havia sido alterado até 2013, sendo que mais de 90% dessa transformação ocorrera em função da produção de alimentos, sobretudo carne e soja. 

Enquanto a expansão da agricultura ocorre em solos com maior aptidão agrícola, a expansão das pastagens plantadas se dá de forma generalizada. Hoje, a taxa média anual de desmatamento no Cerrado está em torno de 6 mil quilômetros quadrados, mais que a perda de cobertura nativa na Amazônia em 2014, que foi de 4,8 mil quilômetros quadrados. 

O avanço sobre as áreas naturais do Cerrado resultou num excepcional crescimento da produção agrícola no Brasil, a ponto de possibilitar que o país se torne em pouco tempo o maior produtor de alimentos do mundo, se continuar o mesmo ritmo. Os impactos positivos são bastante evidenciados, principalmente pelo setor que se orgulha de “puxar a economia nacional”. 

Pouco se fala, porém, dos impactos negativos da expansão sobre o Cerrado. E não só para o Brasil. Uma das maiores estudiosas do bioma, a pesquisadora da Universidade de Brasília, Mercedes Bustamante alerta que o Cerrado passa por um intenso processo de fragmentação que compromete importantes funções ecológicas. 

Pense no ambiente natural como um grande organismo, sendo o bioma Cerrado um dos seus “órgãos vitais”. Uma das funções que o Cerrado desempenha no equilíbrio ecológico é justamente a manutenção do sistema hídrico do país. O Cerrado abriga as nascentes de três grandes bacias do continente sul-americano (Tocantins-Araguaia, Paraná-Prata e São Francisco). 

Apesar dos alertas dos cientistas sobre a importância de se conservar essa imensa “caixa d’água”, o desmatamento avança e compromete esse serviço ambiental que o Cerrado presta gratuitamente à nação. Para Mercedes Bustamante, estamos “fechando a torneira” que fornece água para a cidade e o campo. 

Do ponto de vista climático – e aí a escala de impacto já é global –, as transformações no Cerrado já fizeram acender a luz amarela entre os cientistas. 

Entre 2005-2010, as emissões brasileiras de CO2 oriundas do desmatamento e mudanças de uso da terra foram reduzidas em 83%. Tal decréscimo ocorreu sobretudo pela redução do desmatamento na Amazônia. No Cerrado a história é diferente. A contribuição do desmatamento do Cerrado, aumentou. Entre 1994-2002, as emissões do bioma atingiram 1704 Teragramas (milhão de toneladas) e aumentaram para 1845 Teragramas no período entre 2002-2010. 

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o Brasil já ultrapassou os Estados Unidos em emissões agrícolas, estando em terceiro lugar, atrás apenas da China e Índia. Vale mencionar também outros impactos ainda não entendidos plenamente, mas que têm um potencial imenso de gerar danos no curto, médio e longo prazos. 

Segundo a FAO, o uso de pesticidas no Brasil pulou de 117 mil toneladas para 353 mil toneladas entre 1999 e 2014, principalmente pelo aumento no uso de inseticidas. E anualmente mais de 3 milhões de toneladas de fertilizantes são necessárias para manter a produtividade. A maior parte dos pesticidas foi lançada sobre as lavouras localizadas no Cerrado. Além dos alimentos, a água, o solo, o ar e a biodiversidade são contaminados pela pulverização de agrotóxicos. 

Parece razoável, em termos econômicos, que o Brasil continue com o caminho de expansão da produção agrícola. Mas é preciso fugir da lógica da expansão territorial da agropecuária e passarmos para a intensificação ecológica. Para isso, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuárias (Embrapa) vem trabalhado com novos pacotes tecnológicos, como a integração lavoura-pecuária-floresta. O desafio é reverter a baixa produtividade das áreas consideradas degradadas – um pasto abandonado, por exemplo – e incorporá-las novamente à produção. 

Com esse caminho, passaremos a viabilizar os compromissos de desmatamento zero por parte das cadeias de produção agropecuária, e poderemos cada vez mais desenvolver mecanismos de rastreabilidade e transparência para o meio rural. 

Mas podemos ir além. Nós, consumidores, temos um poder de transformação que muitos sequer suspeitam. Nossos hábitos de consumo podem mudar as indústrias e influenciar o desenvolvimento de novas tecnologias. Foi por pressão do mercado que conseguimos banir o clorofluorcarbono (CFC), por muito tempo utilizado nas indústrias de refrigeração e ar condicionado, espumas, aerossóis, extintores de incêndio. E com isso, recuperamos nada menos do que a Camada de Ozônio, antes depauperada pela emissão desses gases. 

Por que, então, não fazemos o mesmo em relação aos alimentos? Informações corretas sobre procedência, qualidade e forma de produção permitem melhor escolhas, ou pelo menos uma maior consciência de nosso impacto. Os grandes compradores internacionais de commodities agrícolas já se movimentam para cobrar que os produtos venham livres de desmatamento ao longo de suas cadeias produtivas. Isso é resultado da pressão dos consumidores. 

Assim como existe uma rotulagem para os valores nutricionais, já há padrões estabelecidos para a rotulagem ambiental, só que isso ainda é pouco utilizado. Precisamos ser mais exigentes em relação a transparência quanto a produção e origem dos alimentos. E isso se faz cobrando de quem compra e vende os produtos agrícolas e pecuários. Com essa chave na mão, poderemos abrir as portas de um cenário em que a produção de alimentos seja aliada da conservação do meio ambiente. E não mais um fator de degradação da natureza.

Por: Mario Barroso (WWF Brasil).

O Clima Realmente Afeta Nossa Saúde?

Em 2013, neurocientistas da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, reportaram um dos mais estranhos casos da história da medicina: o de um homem que dizia conseguir farejar o clima. Se uma tempestade se aproximava, ele sentia um cheiro quase insuportável de excrementos de gambá misturado com o de cebolas cruas. Os pesquisadores não conseguiram explicar a causa desses sintomas bizarros. 

É provável que a maioria de nós não seja dotada desse "talento" – ainda bem. Mas mudanças na atmosfera – mesmo as mais sutis – parecem ter uma relação estreita com mudanças em nosso corpo. 

Enquanto cientistas ainda precisam confirmar algumas dessas conexões, as evidências não deixam de ser intrigantes. Se forem confirmadas, elas significam que tudo no corpo humano – do risco de um ataque cardíaco ao sexo de um futuro bebê – depende do clima. 

Eis aqui alguns desses mistérios – alguns mitos, outros verdades. 

A umidade provoca reumatismo? 

Apesar de sempre ouvirmos histórias de como o tempo frio e úmido atinge nossas articulações, ainda não é possível afirmar que isso realmente ocorre. Em 2009, uma análise de nove estudos realizados até então sobre o assunto concluiu que não há um efeito consistente do clima sobre os sintomas da artrite reumatoide. 

É mais provável que se trate de um caso de "tendência de confirmação": se você já acredita que a chuva traz dor, tende a notar mais os dias de mau tempo em que se sente desconfortável e a ignorar quando se sente bem. Mesmo assim, não se trata de um caso encerrado, já que outros estudos pretendem investigar o fenômeno mais a fundo. 

Menos pressão no ar causa dor de cabeça? 

Você já se sentiu carregando o mundo nas costas? Isso pode ser porque existe cerca de 1 tonelada de ar fazendo pressão sobre nossas cabeças a todo momento. Parece ser a receita certa para uma dor de cabeça. E, para algumas pessoas, é justamente isso o que acontece. 

O cientista Kazuhito Kimoto, da Faculdade de Medicina de Dokkyo, no Japão, e seus colegas pediram para que 28 pacientes com enxaqueca escrevessem o diário de suas dores durante um ano. Ao comparar os dados com o histórico da meteorologia no mesmo período, eles perceberam que a dor coincidia com a queda na pressão atmosférica. 

Apesar de a equipe ter estudado um pequeno grupo de voluntários, outro estudo japonês confirmou o efeito, descobrindo que a venda de analgésicos aumenta quando o barômetro cai. Um dos motivos poderia ser o fato de a queda de pressão do ar prejudicar o sistema vestibular – a cavidade na cabeça que nos ajuda a manter o equilíbrio –, provocando episódios de tontura e de dor de cabeça. 

O frio pode 'congelar' o coração? 

Além de ser a estação da gripe, o inverno também traz um aumento regular no número de ataques cardíacos. Segundo um estudo da Universidade de Pequim, as mortes por problemas cardíacos aumentam 40% no inverno em comparação com a primavera e o verão. 

Apesar de décadas de estudo, ninguém ainda sabe porquê, mas a pesquisa chinesa descobriu que uma temperatura mais fria parece aumentar a pressão arterial – um dos fatores de risco para o infarto. 

O calor ajuda a gerar mais meninos? 

Temos a impressão de que a população mundial é dividida exatamente em 50% de homens e 50% de mulheres. Mas a verdade é que essas proporções variam muito de acordo com o clima. No Hemisfério Norte, por exemplo, há mais chances de meninos serem concebidos em anos mais quentes do que naqueles em que o frio durou mais meses do que o normal. 

O exato motivo para isso ainda é um enigma. Pode ser que a temperatura altere o equilíbrio hormonal da mulher ou a produção de esperma no homem. Já alguns cientistas acreditam se tratar de um mecanismo evoluído nas mulheres para aumentar as chances de passar seus genes adiante. 

Isso porque os meninos têm menos chances de se reproduzir do que as meninas se estiverem em más condições de saúde. Então nosso corpo decidiria o sexo baseado em nosso ambiente atual. 

De qualquer forma, o efeito é minúsculo e tende a variar de região para região do mundo. Apesar de ser algo biologicamente interessante, esse não é um fator para orientar sua decisão de ter filhos. 

O sol pode matar? 

O sol está constantemente banhando a Terra com tempestades geomagnéticas e radiações cósmicas. A atmosfera terrestre, em tese, deveria nos proteger dessas reviravoltas espaciais, mas talvez não estejamos totalmente a salvo delas. 

Uma equipe de cientistas da Lituânia examinou os registros de mais de 1 milhão de mortes durante um período de 25 anos, e descobriu que a mortalidade por distúrbios cardíacos ou derrame parecia atingir um pico durante períodos com eventos extremos do clima espacial. 

Estranhamente, outro estudo descobriu que aquelas pessoas nascidas durante períodos de intensa atividade cósmica tendem a viver até cinco anos a menos do que aqueles nascidos em períodos calmos. Isso também reduziria sua fertilidade. 

Evidentemente, mais investigações precisam ser feitas para confirmar os resultados e tentar encontrar explicações. 

Pode ser difícil acreditar que nossa saúde dependa de algo tão imprevisível como o tempo da Terra, então imagine uma tempestade de partículas a milhões de quilômetros de distância.

Por: David Robson (BBC Future).

Como a Economia Individualista Está Causando um Eco-Colapso Planetário

Embora o capitalismo tenha produzido um desenvolvimento sem precedentes, esse mesmo motor está agora nos conduzindo em direção ao colapso ecológico, ameaçando destroçar-nos a todos. A economia capitalista de Adam Smith não pode oferecer solução para a crise porque a crise é o produto da própria dinâmica de produção movida pela competição por mercado que gera a crescente acumulação de riqueza e consumo, celebrada pelos economistas smithianos. Em seu livro “O Futuro do Capitalismo” ['The Future of Capitalism'], de 1996, Lester Thurow lucidamente captou o impacto socialmente suicida de transferir as decisões econômica aos indivíduos: 

Em nenhum outro aspecto da vida, o horizonte de tempo do capitalismo é um problema mais agudo do que na área do ambiente global… O que poderia fazer uma sociedade capitalista sobre problemas ambientais de longo prazo, como o aquecimento global ou a redução da Camada de Ozônio?… Usando as normas de resolução do capitalismo, a resposta ao que deveria ser feito hoje para prevenir tais problemas é muito clara – não fazer nada. Por maiores que possam ser os efeitos negativos, daqui a cinquenta ou cem anos, o preço que se paga por provocá-los, no presente, é zero. Se o valor corrente das consequências negativas futuras é zero, então, segundo a lógica econômica vigente, nada deveria ser gasto hoje para prevenir que emerjam aqueles problemas distantes. Mas se os efeitos negativos forem muito grandes daqui a cinquenta ou cem anos, então será tarde demais para fazer qualquer coisa capaz de melhorar a situação, já que qualquer coisa a ser feita naquele tempo poderia somente melhorar a situação num futuro distante, de cinquenta ou cem anos. De modo que, se forem bons capitalistas, os que viverem no futuro também decidirão não fazer nada, não importa quão graves sejam seus problemas. Finalmente, chegará uma geração que não poderá sobreviver no ambiente alterado da Terra – mas a essa altura será muito tarde para fazerem qualquer coisa e prevenir sua própria extinção. Cada geração toma boas decisões capitalistas, embora o efeito em rede seja o suicídio social coletivo. 

Lester Thurow, quase sozinho entre os economistas mainstream, reconhece essa contradição fatal do capitalismo – embora ele não seja anticapitalista e tenha escrito o livro do qual foi retirado o trecho acima na esperança de encontrar um futuro para o sistema. Até muito recentemente, os livros didáticos padrão de economia ignoravam completamente o problema ambiental. Ainda hoje, as obras padrão de teoria econômica não fazem quase nenhuma menção a meio ambiente ou ecologia e virtualmente nenhuma consideração séria sobre o problema. Isso reflete a crescente virada para a direita da ciência econômica, desde os anos 1970. Em países como os Estados Unidos, a profissão de economista abandonou desde então a prática do pensamento científico crítico de visões dissidentes. Hoje, um dogma religioso “neoliberal” neo-totalitário domina a disciplina. O keynesianismo, o velho liberalismo, para não mencionar o marxismo, são todos desprezados como incuravelmente antiquados; a economia ecológica é suspeita e aconselha-se o estudante de graduação prudente a manter-se longe de tais interesses, se deseja encontrar um emprego. Como propôs Francis Fukuyama nos anos 1990, depois do colapso do comunismo, a história teria atingido seu apogeu no capitalismo de livre mercado e democracia liberal. A ciência da economia, declarou Fukuyama, foi estabelecida com o feito de Adam Smith. O futuro traria não mais do que “ajustes técnicos infinitos”. Nenhum outro pensamento teórico seria necessário ou precisaria ser solicitado. 

Teologia econômica e negação da realidade 

Para os economistas que seguem as ideias Adam Smith, a noção de que há, ou deveria haver, limites ao crescimento econômico é quase impensável. Porque admitir que crescimento é um problema seria permitir uma rachadura fatal em todo o sistema e abriria portas para um desafio a partir da esquerda. Apesar de suas importantes divergências, os economistas smithianos, ainda filiam-se, todos, a uma mesma religião: a do “Não é Possível Parar de Comprar”. Adoram os mesmos ídolos – o crescimento e o consumo. Na extrema direita, os fundamentalistas de mercado como Milton Friedman, Gary Becker e adeptos da Escola de Chicago simplesmente negam que haja qualquer problema ambiental – para eles, certamente não é nada que o mercado não possa resolver. Numa entrevista de 1991, Milton Friedman tentou ridicularizar os ambientalistas com sua acidez característica: 

O movimento ambientalista é composto de duas partes muito distintas. Uma é formada pelos grupos de conservação tradicionais, que desejam proteger recursos. A outra é um grupo de pessoas que não estão fundamentalmente interessadas em poluição. São somente anticapitalistas de longo prazo, que aproveitarão cada oportunidade para destruir o sistema capitalista e a economia de mercado. Costumavam ser comunistas ou socialistas, mas a história foi ingrata com eles e agora tudo o que podem fazer é reclamar da poluição. Mas sem a moderna tecnologia, a poluição seria muito pior. A poluição dos cavalos foi muito pior do que a dos automóveis. Se você ler descrições das ruas de Nova York no século dezenove… 

E em sua arenga sado-econômica, “Free to Choose” ['Livres para escolher'; série de TV norte-americana exibida na década de 1980], o agressivo anticomunista queixou-se de que: 

Quaisquer que fossem seus objetivos declarados, todos os movimentos das últimas duas décadas – o movimento dos consumidores, o dos ambientalistas, o que propõe o retorno à terra, o que defende a vida selvagem, os hippies, os que não querem o crescimento da população humana, o “small is beautiful”, os anti-nucleares – tiveram sempre algo em comum. Eles opuseram-se a mais desenvolvimento, à inovação industrial, ao uso ampliado dos recursos naturais. Em resposta a estes movimentos, as agências reguladoras impuseram medidas de alto custo para cada vez mais ramos da produção...

O negacionismo caipira de Friedman modela, há muito tempo, a extrema direita da teologia econômica, mas sua afirmação confiante de que o crescimento infinito é sustentável é compartilhada por todo o espectro dos economistas mainstream, ainda que com nuances. Se examinarmos a extrema esquerda do pensamento econômico “aceitável” – por exemplo, Paul Krugman –, encontraremos o mesmo mantra segundo o qual “não se pode interromper o progresso”. Em sua coluna no The New York Times, Krugman especula “se não há algo maníaco no ritmo de acumulação – e, sobretudo consumo – de riquezas, nos Estados Unidos fin de siècle”: 

Mas há um argumento muito poderoso a lançar, em favor do recente consumismo norte-americano: o de que ele pode não ser bom para os consumidores, mas é útil aos produtores. Consumir pode não produzir felicidade – mas cria empregos, e o desemprego é muito eficiente na criação de miséria. É melhor ter consumidores maníacos, no estilo dos Estados Unidos, do que os consumidores depressivos do Japão. Há um forte elemento de disputa entre ratos, no 'bum' econômico dos EUA, impulsionado por consumo, mas são estes ratos disputando em suas gaiolas que mantêm as rodas do comércio em movimento. E embora seja uma vergonha que os norte-americanos continuem a competir sobre quem é capaz de possuir mais brinquedos, o pior de tudo seria a interrupção abrupta de tal competição. 

Krugman é um economista brilhante, mas as premissas smithianas de sua estrutura teórica não lhe permitem enxergar que podemos não ter mais recursos para produzir todos estes brinquedos. 

Aqui está a questão: o crescimento insaciável e o consumo estão destruindo o planeta e condenarão a humanidade a longo prazo – mas sem crescimento incessante da produção e aumento insaciável do consumo, teríamos colapso, no curto prazo. 

Quem se importa pelo bem comum 

A teoria econômica de Adam Smith é uma ideia cujo tempo passou. A especialização, a ausência de planejamento, a produção anárquica para o mercado, o pensamento focado na maximização dos lucros, às custas de quaisquer outras considerações, foram um motor que gerou enormes avanços na produtividade industrial e agrícola – e também a maior acumulação de riquezas a que o mundo já assistiu. Mas o mesmo motor do desenvolvimento, agora imensamente maior e funcionando a todo vapor, está hiper desenvolvendo a economia do mundo, sobreconsumindo os recursos, envenenando as águas e a atmosfera com contaminação e aquecimento e conduzindo-nos ao abismo do colapso econômico – ou da simples extinção. O erro fatal de Adam Smith – fatal para nós – foi sua ideia segundo a qual o meio “mais efetivo” de promover o interesse público, o bem comum da sociedade, é simplesmente ignorá-lo e confiar exclusivamente na busca dos interesses egoísticos individuais. 

Em relação ao interesse público na riqueza econômica da sociedade, Smith afirmava que o mercado automaticamente produziria “opulência universal, que se estende às camadas mais baixas do povo”, já que “uma abundância geral difunde-se por todos os níveis da sociedade”. Dificilmente esta tese poderia mostrar-se mais equivocada. Mais de 200 anos depois, o desenvolvimento do capitalismo global produziu a sociedade de desigualdade mais obscena da História, com metade da população mundial vivendo com menos de dois dólares por dia, bilhões submersos em miséria desesperadora – muitas vezes mais que toda a população da Terra do tempo de Smith – e uma minúscula elite global, algumas poucas centenas de indivíduos, concentrando uma fatia cada vez maior da riqueza do mundo e esbanjando-se numa riqueza nunca antes imaginada. Este fracasso assustador de previsão científica deveria ser suficiente para ter ridicularizado a teoria econômica de Smith há muito. Isso inevitavelmente ocorreria nas ciências naturais, diante de equívoco comparável. 

No que diz respeito ao interesse público por preocupações sociais mais amplas, que incluem hoje o ambiente, a filosofia de Smith, baseada no individualismo como meio para maximizar o interesse público – o bem comum da sociedade – é, além de um completo equívoco, um convite ao suicídio. E está em total confronto com os cientistas e corpos científicos de todo o mundo, que pedem um plano – um plano para interromper o aquecimento global, para salvar as florestas e oceanos, para descontaminar o Planeta, salvar milhares de espécies da extinção etc. Mas os economistas capitalistas – mesmos os mais humanos, como Paul Krugman e Joseph Stiglitz – são hostis à ideia de planejamento econômico. 

As corporações não são necessariamente más. Mas o problema é que as decisões críticas que afetam o ambiente – divisões sobre o que e quanto produzir, sobre o consumo dos recursos, sobre a poluição – não estão hoje nem nas mãos da sociedade, nem nas dos governos. Estão em mãos privadas, principalmente a das grandes corporações. A partir da lógica que os orienta, os executivos não têm outra escolha, exceto tomar decisões sistematicamente erradas. No tempo de Adam Smith, isso não importava tanto, porque as empresas eram muito pequenas e suas ações tinham pouco impacto sobre a natureza. Mas hoje, quando enormes corporações têm o poder, a tecnologia e todo incentivo para derreter as camadas de gelo, este tema importa. Deixar a economia global nas mãos das corporações privadas, sujeitas às demandas do mercado, é o caminho para o eco-suicídio coletivo. 

Por: Richard Smith; historiador econômico. Tradução: Inês Castilho e Antonio Martins. O texto é um resumo do ensaio “How Did The Common Good Become a Bad Idea? The Eco-Suicidal Economics of Adam Smith”, do livro Green Capitalism: The God That Failed.


Formação de Gestores Para a Sustentabilidade

Atualmente, ao aproximar-se de uma realidade plural, contraditória e paradoxal, de mudanças velozes, em que a incerteza foi universalizada, somos impelidos a revisitar o percurso trilhado, a vislumbrar o devir e a inovar. 

O principal papel da universidade é participar da grande obra que consiste em ler o livro da vida. Desde sua criação a universidade no Ocidente vem sendo marcada por exigências diferentes, contraditórias e até opostas que a levou a se organizar em áreas de conhecimento, a distinguir as disciplinas e a instaurar dentro delas especialidades. Esse processo revelou uma fragmentação que dificulta a reflexão das disciplinas sobre si mesmas e entre elas. Essa realidade tem se mostrado insuficiente para tratar tal complexidade de sistemas pela ótica da sustentabilidade e, de modo semelhante, instiga a formulação de modelos mais apropriados para encaminhar soluções e inovar. 

No âmbito da sustentabilidade é demandada simultaneamente uma mudança de ideias e de estruturas que impulsionem ações que possam atender a legitimidade de um movimento de transformação que não esteja sujeito a interesses políticos ou econômicos que, mesmo apresentados com novas vestimentas e discurso, perpetuam práticas e concepções que se têm mostrado inadequadas para atender a realidade da atualidade. 

Após as múltiplas e louváveis pesquisas e reflexões sobre a necessidade de “transatravessar” as fronteiras e o enclausuramento das disciplinas como registrado na bibliografia nacional e internacional, no âmbito da academia é demandado compreender a natureza disciplinar, pluri, multi, inter e transdisciplinar no processo de concepção, gestação e aplicação de conhecimento. O momento exige que as trajetórias inter e transdisciplinar (ITD) estejam cada vez mais presentes na cotidianidade da vida dinâmica das escolas de negócio e das empresas. 

No âmbito das empresas cresce a necessidade da fertilização cruzada empresa-academia e a adequação contextualizada, visando aprimorar continuamente o agir humano, para que o sucesso dos negócios seja conjugado cada vez mais à dignidade humana e ao bem da coletividade. 

Momento de mudança qualitativa 

A emergência de novos modelos e a mudança intencionada são multifacetadas e estão intrinsecamente ligadas a uma governança que necessariamente levará em conta o crescente reconhecimento da complexidade do desenvolvimento humano, sua relação com o conhecimento e, também, sua interação com seu habitat. Isso implica abrir espaço-tempo para tratar temas como descompartimentalização dos saberes, valorização humana, espaço para a transformação, bem-estar e qualidade de vida, valorização do diálogo e reconhecimento da ação humana no ambiente. 

Grandes desafios se colocam no processo de descompartimentalização dos saberes, dentre eles: a) a religação de saberes no contexto da ciência e do conhecimento geral; b) a verificação das relações existentes entre modalidades de conhecimento inter e transdisciplinar e suas possibilidades de respostas a problemas que não podem ser adequadamente tratados por abordagens monodisciplinares; c) a exploração e a pesquisa conceitual, empírica e metodológica que acessem conhecimentos que não podem ser abordados pelas disciplinas acadêmicas nem pela interdisciplinaridade; d) a religação dos saberes acadêmicos e não acadêmicos; e) e também a religação entre subjetividade e objetividade. 

A questão da valorização humana envolve processos de emergência do sujeito, práticas de reciprocidade, cidadania intelectual e a compreensão do corpo como um fenômeno carregado de cognição, enquanto potência vivente e motriz. Segundo Merleau-Ponty, o corpo reflexiona e a reflexão não é um privilégio nem exclusividade da consciência. A emergência do sujeito é um processo, parte de um movimento cultural visionário que diz respeito à perenidade da dinâmica de transformação do humano e à ampliação de consciência da dimensão que nos faz seres humanos. 

O espaço para a transformação requer minimamente a abertura a mudanças e capacidade para inovar. Isso exige a compreensão de uma nova atitude de progresso que vá além da visão econômica, científica e tecnológica e abarque questões no âmbito pessoal, cultural, social e ambiental. Nessa perspectiva, o professor mais do que transmissor de conhecimento se engaja em um processo coformativo em que suas funções de pesquisador e mediador do conhecimento são significativamente enobrecidas, ampliadas e valorizadas. Sua atitude é a de um aprendiz permanente e de um inspirador de sentido. 

Saúde e cultura e ressignificação do espaço-tempo são temas nucleares no âmbito do bem-estar e qualidade de vida. Fidelização de parcerias, fertilização cruzada academia-academia; academia-empresa e academia-alunos e ex-alunos são vias de diálogo a serem fortemente cultivadas. Finalmente, e nem por isso de menos importância, coloca-se o reconhecimento da ação humana no ambiente como de vital relevância na convivência estético-ética na condução das operações institucionais a curto, médio e longo prazos. 

Inovação 

Sem inovação será impossível tratar as questões de sustentabilidade. Existem algumas condições favoráveis e desfavoráveis para inovar: físicas, psicológicas, afetivas, sociais, econômicas e certamente cognitivas que concernem às nossas percepções, nossas memórias, nossas linguagens. 

A inovação deve estar integrada ao processo de maturação e de domínio progressivo de nossa tripla relação com o mundo: integrada à nossa relação com o contexto (aos objetos, aos acontecimentos, ao espaço-tempo), integrada à nossa relação com os outros, e integrada à nossa relação com nós mesmos. 

Para a filósofa Hannah Arendt, “o homem, se bem que ele deve morrer, não nasceu para morrer, nasceu para inovar”. Os cientistas Humberto Maturana e Francisco Varela, que cunharam a expressão “autopoieses”, trouxeram a confirmação de que uma forma criativa independente existe em todo organismo vivo e constitui a base de uma autonomia mínima. Segundo o pintor Georges Brunon, “o gesto criador está latente em nós”. Para o lógico Stéphane Lupasco e o físico Basarab Nicolescu, a capacidade de inovar indica que existe uma fase potencial, do “ainda não criado”, do “ainda não atualizado”, de nosso potencial de inovação ‒ que concerne a todos nós, a universidade incluída. 

No âmbito da cognição, o processo de inovação se inscreve pela articulação do sensível ‒nossos sentimentos e imaginação; do experiencial – nossa historicidade e vivências, tanto as passadas como as presentes ou as futuras; e do pensamento formal – ideias, conteúdos, conceitos e lógicas. Referenciais cognitivos e instrumentos de investigação se mostram de grande valor nesse processo de criação, bem como a fundamentação transdisciplinar, a arte e as teorias de sistemas, a Teoria U e a da Resiliência

Vivência e experiência 

É uma tarefa da maior importância e que sempre permanecerá incompleta ilustrar no que consiste uma formação integrada para a sustentabilidade destinada a alunos de uma escola de negócios e a pessoas que atuam em empresas. Articular teoria e prática para tratar dessa questão é essencial quando se propõe pensar o cenário contemporâneo em um mundo político e econômico tão marcado por uma crise de valores, uma crise de modelos e recursos metodológicos e pela ausência generalizada, no ambiente institucional, de um olhar sobre o conhecimento de si mesmo. 

“Não temos dúvidas de que o progresso técnico – a racionalidade instrumental – possui um poder de difusão muito maior do que a criação de valores substantivos. […] O gênio inventivo do homem foi canalizado para a criação técnica. […] No entanto, o desenvolvimento deve ser entendido como um processo de transformação da sociedade não só em relação aos meios, mas também aos fins […].” Celso Furtado em Introdução ao Desenvolvimento: Enfoque Histórico-Estrutural (2000).

Por: Mario Monzoni, Érica Gallucci, Maria de Mello e Ideli Domingues. Texto publicado originalmente pela FGV / Página 22.

Precificação de Carbono Entra no Mercado Brasileiro

Precificar o carbono significa atribuir um preço às emissões de gases de efeito estufa de forma que deixem de representar um custo para toda a humanidade e passem a representar um custo para quem os emite. Aquilo que não é valorado não tem valor e, portanto, não é incluído nas decisões dos agentes econômicos. A precificação do carbono atribui às emissões um valor monetário e gera uma nova lógica econômica em que este valor passa a ser considerado nas decisões de investimentos e de produção. Emerge daí um novo fator de competitividade no mercado, já que emitir menos passa a custar menos. 

Reconhecendo a eficiência deste instrumento, as negociações climáticas já colocaram a precificação do carbono na mesa diversas vezes, mas foi na 21ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (COP-21) que este tema ganhou força em âmbito global. Governos, empresas e investidores reconheceram a importância deste mecanismo, culminando na declaração, no momento em que foi firmado o Acordo de Paris, do presidente francês François Hollande de que é necessário formar uma coalizão global pela precificação de carbono. 

Neste momento, a precificação do carbono é uma realidade para a qual precisamos estar preparados. Segundo o documento State and Trends of Carbon Pricing, do Banco Mundial, se no ano de 2005 havia apenas nove países e jurisdições subnacionais com mecanismos de precificação em vigor, hoje já são 40, incluindo países em desenvolvimento, como a África do Sul, a China e Chile

No âmbito global, o Brasil é um país que possui um enorme potencial para apresentar vantagens competitivas e destacar-se no contexto de uma economia de baixo carbono. Para geração de energia renovável, por exemplo, o Brasil é privilegiado por sua abundante radiação solar. Estudos indicam que se a área de melhor insolação da Alemanha apresenta índices de cerca de 1.300 kWh/m2, a região menos ensolarada do Brasil possui um índice de mais de 1.600 kWh/m2. Isto pode caracterizar, inclusive, uma “oportunidade de requalificar o desenvolvimento nacional”, como analisou o Ministério do Meio Ambiente no documento que explicita os fundamentos para a elaboração da contribuição nacional brasileira. 

É necessário, porém, para nos beneficiarmos deste tipo de vantagem, que o Brasil defenda que o carbono passe a ser valorado e precificado mundialmente. Para isso, devemos incluir o tema em nosso posicionamento em negociações internacionais, a começar pela COP-22, que será realizada em novembro de 2016, em Marrakesh. É preciso ainda que se pense em uma sinalização forte de preço para acelerar a transição do modelo econômico para um modelo condizente com a meta de conter o aquecimento global aos 2°C acordados. 

Atualmente, os países que praticam a precificação observam preços que variam de menos de US$ 1 por tonelada de carbono, nas taxas da Polônia e Japão, a US$ 130, na taxa implementada na Suécia, segundo documento do Banco Mundial. Uma maior coerência entre preços praticados pode abreviar prazos e dar um direcionamento mais claro para a economia de baixo carbono. 

Portanto, um passo crucial para este processo é realizar um trabalho de preparo do setor produtivo brasileiro, capacitando pessoal, sensibilizando as lideranças e apresentando ferramentas para que possam entender e se posicionar frente a um novo marco regulatório que implemente um mecanismo de precificação de carbono no Brasil. O Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) está trabalhando nesse sentido em parceria com o We Mean Business, uma coalizão de organizações globais como o World Business Council for Sustainable Development, na qual empresas de todo o mundo realizam compromissos com a redução das suas emissões, como estabelecer um preço interno de carbono para orientar suas decisões de investimento. Outra coalizão de suma importância para o processo de adoção de um preço global para o carbono é a Carbon Pricing Leadership Coalition, do Banco Mundial, da qual também o CEBDS é membro. 

Este tipo de iniciativa cria um impulso global e dá força aos países que atualmente estudam esta implementação. É o caso do Brasil, que é um dos chamados países implementadores da Partnership for Market Readiness, do Banco Mundial, e que teve seu projeto de implementação de um mecanismo de precificação de carbono aprovado pela assembleia do Banco, em 2014. Esse projeto já está sendo implantado pelo Ministério da Fazenda e entrará, agora, na fase de consulta e engajamento da sociedade. O CEBDS ocupa um assento no Comitê Consultivo do Banco Mundial, que existe justamente para garantir que as empresas brasileiras sejam engajadas e estejam representadas. Com esses engajamentos e avanços, esperamos que a implementação desse mecanismo de precificação de carbono no Brasil tenha sucesso, seja realizada da forma mais eficiente e que maximize oportunidades de desenvolvimento para a economia brasileira.

Por: Marina Grossi; economista e presidente do CEBDS. Fonte: Eco21.

A Dupla Face do Agronegócio Para os Polinizadores

As  abelhas são responsáveis por mais de 70% da polinização das plantas. Foto: Ana Dias/Flickr.

Os  quarenta milhões de hectares dominados pela agricultura corporativa, desenvolvida por grandes empresas internacionais, no Brasil e em países da África são, ao mesmo tempo, a principal ameaça ao futuro dos polinizadores e também um caminho para ações que possam protegê-los, segundo um estudo que reuniu um time internacional de 17 pesquisadores, entre eles o engenheiro agrônomo brasileiro Breno Magalhães de Freitas, da Universidade Federal do Ceará

Para a elaboração do estudo, publicado no início de agosto na revista científica Peer J [A Horizon Scan of Future Threats and Opportunities for Pollinators and Pollination], os pesquisadores convocados apresentaram um total de 60 possíveis ameaças e oportunidades para o futuro dos insetos e outros animais responsáveis pela polinização de plantas. Após uma série de rodadas de análises, 15 questões foram selecionadas e, entre elas, seis apontadas como prioritárias. No topo da lista, o controle da agricultura por grandes corporações, que produzem principalmente soja para o mercado chinês. 

“Eles usam técnicas padronizadas em todos os lugares em que atuam”, afirma o professor brasileiro, que há mais de vinte anos estuda abelhas e hoje é uma referência internacional quando se trata de polinizadores. “Essas técnicas não são adequadas aos polinizadores. Mas ao mesmo tempo, se você convence essas empresas a não causar impactos aos polinizadores, podemos ter impactos positivos também”, ressalta. Mas para que essa estratégia funcione, é preciso que essas grandes empresas trabalhem em colaboração com organizações não governamentais e pesquisadores, segundo os próprios autores do estudo. 

Eles destacam que cerca de 35% da produção agrícola mundial e 85% das plantas silvestres com flores dependem de polinizadores. A redução desses agentes têm impactos sobre a agricultura. Freitas cita um estudo publicado por ele e um ex-aluno de doutorado, Marcelo Milfont, que trata da relação entre polinizadores e produtividade da soja. “Se você tem polinizadores, há um aumento de 12% a 18% da produção numa mesma área”, conta. 

O pesquisador brasileiro destaca também a ameaça representada pelo surgimento de uma nova classe de inseticidas sistêmicos, ou seja, que entram no metabolismo das plantas, os sulfurados. De acordo com Freitas, ainda não se conhece bem os efeitos desses venenos para abelhas e outros insetos e o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Novos vírus emergentes e os efeitos de eventos extremos associados às mudanças climáticas também foram destacadas como ameaças. Ao lado, estão também fatores que podem ser aliados à preservação dos polinizadores, como o aumento da diversidade de espécies manejadas e a redução do uso de produtos químicos em ambientes não-agrícolas. 

Diferente da maioria das pesquisas, que segundo os autores do artigo buscam apenas mitigar os impactos, esse novo estudo procura apontar soluções para superar as ameaças. “Estamos adotando, cada vez mais, práticas que afetam essas espécies. Então buscamos infantilmente mitigar essas perdas, ao invés de impedi-las, em primeiro lugar”, afirma o líder do estudo, Mark Brown, da Royal Holloway University of London

Segundo Breno Freitas , o estudo mostra que existem duas opções. A primeira, deixar as coisas continuarem como estão e sempre buscar medidas paliativas e que geralmente não funcionam. A outra, é chamar governos e grandes corporações para assumirem também a responsabilidade e atuar junto com pesquisadores, organizações não governamentais e sociedade. “O foco deve ser na implantação de medidas preventivas, para minimizar ou eliminar os possíveis problemas antes que aconteçam”, afirma.

Por: Vandré Fonseca (O Eco).

Encontrada no Brasil Bactéria Resistente Ao Poderoso Antibiótico 'Colistina'

Recentemente descoberto na China e também encontrado em países da Europa, da Ásia e da África, o gene MCR-1, que causa resistência a uma classe de antibióticos utilizados justamente para tratar infecções por bactérias multirresistentes, foi identificado pela primeira vez no Brasil em cepas da bactéria Escherichia coli isoladas de animais de produção. 

Os pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) responsáveis pela identificação da bactéria também reportaram o primeiro caso de infecção humana no Brasil, em um hospital de alta complexidade em Natal (RN), por uma cepa da bactéria portadora do gene e resistente a Colistina (Polimixina E), um dos mais poderosos antibióticos, considerados como último recurso no tratamento de infecções produzidas por bactérias que não respondem a outras drogas. 

“A aparição desse gene no Brasil pode contribuir para o surgimento de bactérias totalmente resistentes aos antibióticos, com risco de enfrentarmos uma situação similar ao que foi a era pré-antibiótica, quando doenças comuns, como uma infecção urinária ou um ferimento profundo na pele, levavam facilmente a óbito”, alerta Nilton Lincopan, responsável pela pesquisa Monitoramento de Bactérias Gram-Negativas Multirresistentes de Importância Médica (Humana e Veterinária): Impacto Clínico/Ambiental e Desenvolvimento de Alternativas Terapêuticas e Produtos de Inovação Tecnológica, realizada com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo

Os resultados da pesquisa foram publicados nas revistas científicas Eurosurveillance, do European Centre for Disease Prevention and Control, e Antimicrobial Agents and Chemotherapy, da American Society for Microbiology

Superbactéria 

Descoberta em 1949, a produção de Colistina foi descontinuada entre a década de 1970 e o ano 2000 por sua elevada toxicidade, ficando o antibiótico restrito ao uso veterinário. No início do século, entretanto, com a emergência de bactérias produtoras de enzimas responsáveis por provocar resistência a praticamente todos os antibióticos beta-lactâmicos, como as penicilinas, a Colistina voltou a ser utilizada como última alternativa terapêutica no tratamento de infecções produzidas por microrganismos multirresistentes, principalmente associadas a surtos de infecção hospitalar. 

Por muito tempo, conta Lincopan, a comunidade científica internacional acreditou que o desenvolvimento da resistência bacteriana a Colistina seria um processo difícil. “Porém, ao final do ano passado, um artigo alarmante foi publicado na revista Lancet Infectious Diseases, em que pesquisadores chineses descreveram a identificação de um novo gene (o MCR-1) que confere resistência contra Polimixina E e Polimixina B.” 

Ainda mais preocupante, de acordo com o pesquisador, foi a descoberta de que o gene é facilmente transferível de uma espécie bacteriana a outra por meio de plasmídeos, fragmentos de DNA extracromossômicos que podem se replicar autonomamente e que podem ser transferidos entre diferentes espécies bacterianas por conjugação – processo de reprodução das bactérias por meio do qual pedaços de DNA passam diretamente de uma para a outra. O fragmento de DNA transferido se recombina com o material genético da bactéria receptora, produzindo novas combinações genéticas que serão transmitidas às células-filhas na próxima divisão celular. 

Cepas bacterianas carregando o gene MCR-1 foram encontradas tanto em animais de produção como em seres humanos, levantando suspeitas sobre a existência de uma cadeia na disseminação da resistência a Colistina que começa a partir do uso do antibiótico na alimentação animal, propagando-se para os animais abatidos, os alimentos derivados e o ambiente. 

Diante da ameaça de que muitas infecções poderiam se tornar intratáveis, um alerta mundial foi emitido no início do ano pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos. Segundo Lincopan, papers de pesquisadores de diferentes países reportaram em seguida a identificação do gene MCR-1 em cepas de bactérias clinicamente importantes, como Escherichia coli, Salmonella spp. e Klebsiella pneumoniae

“O aspecto mais assustador sobre o gene é a facilidade com que ele é transferido entre diferentes espécies bacterianas. Consequentemente, algumas bactérias hospitalares têm alinhado este gene junto a outros de resistência a antibióticos, favorecendo que a espécie bacteriana receptora fique resistente a praticamente a totalidade dos medicamentos. Assim, se um paciente estiver gravemente infectado, por exemplo, por uma E. coli, não haverá nada que se possa fazer”, diz o pesquisador. 

Urgência epidemiológica 

De acordo com Lincopan, suspeita-se que a principal razão para o surgimento e a propagação do MCR-1 seja o uso exacerbado de Colistina na produção agropecuária, como promotora de crescimento. Entretanto, a presença do gene também foi descrita em amostras de animais domésticos, alimentos e ambientes aquáticos, evidenciando a disseminação para diversos ecossistemas. 

“No Brasil, no início deste ano, nosso grupo de pesquisa identificou pela primeira vez a presença do gene MCR-1 em animais de produção das regiões Sudeste (São Paulo e Minas Gerais) e Sul (Paraná e Santa Catarina), o que deve ser considerado uma urgência epidemiológica e um alerta para as implicações no agronegócio, visto que o país é um grande produtor e exportador de produtos de origem animal.” 

Para os pesquisadores, os órgãos reguladores do setor deveriam reavaliar o uso de antibióticos como a Colistina

“O impacto real da resistência bacteriana no Brasil também precisa ser avaliado pelo poder público e pela comunidade científica. Além disso, devemos privilegiar a educação sobre o uso racional de antibacterianos. Clinicamente, muitos estudos e reuniões científicas têm alertado que bactérias multirresistentes estão adquirindo um caráter de endemicidade em centros hospitalares, sendo frequentemente associadas a altas taxas de falha terapêutica e subsequente morbimortalidade”, conta Miriam Fernandes, aluna de doutorado da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP e primeira autora dos artigos publicados. “Estes esforços poderiam evitar uma situação irreversível”. 

Um plano de ação global contra o risco do colapso dos antibióticos, avalia Lincopan, deve incluir “o uso racional desses fármacos na saúde humana e animal, o reforço da vigilância epidemiológica e o estímulo de pesquisas na área, a educação da população e dos profissionais da saúde humana e veterinária, assim como fazendeiros e produtores, sobre o uso adequado de antibióticos e o desenvolvimento de novos compostos e ferramentas de diagnóstico”. 

Os resultados da pesquisa podem ser acessados no artigo First Report of the Globally Disseminated IncX4 Plasmid Carrying The MCR-1 Gene in a Colistin-Resistant 'Escherichia coli' ST101 isolated from a Human Infection in Brazil, disponível em aac.asm.org/content/early/2016/07/19/AAC.01325-16.abstract, e no artigo Silent Dissemination of Colistin-Resistant 'Escherichia coli' in South America Could Contribute to The Global Spread of The MCR-1 Gene, em www.eurosurveillance.org/ViewArticle.aspx?ArticleId=22458.

Por: Diego Freire (Agência Fapesp).

Fundo Amazônia - O Verde Deve Financiar O Marrom?

Curvas do Parque Nacional de Anavilhanas, no Amazonas.

O Fundo Amazônia é uma iniciativa pioneira e um estratégico instrumento de captação de recursos de doações voluntárias para investimento não reembolsável em ações de prevenção, monitoramento e combate ao desmatamento, e de promoção do desenvolvimento sustentável da Amazônia Legal. Criado pelo governo federal em 2008 e gerido pelo BNDES, o fundo é considerado instrumento fundamental para o cumprimento dos compromissos assumidos pelo Brasil no âmbito das negociações das ações nacionais no combate à mudança climática. 

Nesse curto tempo de vida, o Fundo Amazônia consolidou-se como um instrumento financeiro inovador na captação de recursos e na gestão de projetos, contribuindo para a implementação de políticas públicas ambientais – sobretudo na região amazônica. Conta com o envolvimento de diversos atores da sociedade civil por meio de um modelo de gestão multissetorial e já captou mais de US$ 1 bilhão do governo da Noruega (96,6%), do governo da Alemanha (2,7%) e da Petrobras (0,7%). A carteira de projetos do Fundo Amazônia conta com 81 projetos apoiados, executados por municípios, estados, União, ONGs e universidades nos diversos estados do bioma amazônico. 

Uma das principais motivações que levaram o governo norueguês a aportar esse expressivo montante é poder transferir os recursos condicionados à apresentação de resultados na comprovação da redução efetiva de emissões de carbono oriundas do desmatamento e degradação florestal em um determinado período. 

Chamado de REDD+ (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal), esse mecanismo objetiva promover incentivos positivos para países em desenvolvimento reduzirem emissões oriundas das mudanças do uso do solo, por meio da gestão sustentável das florestas, da conservação e do aumento dos estoques de carbono florestal. Pagamentos são efetuados por países desenvolvidos (doadores) na medida em que os países em desenvolvimento (receptores) implementam ações e políticas em REDD+ que apresentem redução das emissões de CO2, e que são apresentadas à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês). 

Entre os países que receberam doações das nações acima citadas, o Brasil é considerado o que apresenta os melhores resultados no que tange à efetividade da iniciativa, reconhecido como benchmarking internacional para cooperação internacional em REDD+. Esse programa de doação constitui uma iniciativa pioneira ainda na fase de aprendizagem tanto para os países doadores como para os receptores. 

O Acordo de Paris, aprovado em dezembro de 2015 pelos 195 países-membros da UNFCCC para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, e com o objetivo de limitar o aumento da temperatura global abaixo de 2 graus Celsius até 2050, considera o REDD+ um mecanismo central de mitigação (redução de emissões) com foco em florestas. 

O Acordo estabelece que, a partir de 2020, países desenvolvidos devem contribuir com pelo menos US$ 100 bilhões anualmente para financiar ações de mitigação e adaptação em países em desenvolvimento. O Acordo também define o Green Climate Fund – mecanismo financeiro semelhante ao Fundo Amazônia, mas com alcance global, como um dos principais canais de financiamento para operacionalizar acordos multilaterais, incluindo programas nacionais focados em REDD+

Nesse contexto, nos parece inadequada a proposta do atual ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, divulgada durante o seminário Fórum Economia Limpa, em 26 de junho de 2016, promovido na capital paulista pelo jornal Folha de São Paulo. O ministro propõe rever o foco de investimento do Fundo Amazônia para destinar recursos a projetos de saneamento básico e de gestão de resíduos sólidos – a chamada agenda marrom, nas regiões Norte e Nordeste do país. 

Sem dúvida nenhuma o saneamento básico deve ser uma das principais prioridades socioambientais de qualquer país em desenvolvimento, assim como o complexo problema contemporâneo da gestão dos resíduos sólidos urbanos. No entanto, o Fundo Amazônia foi concebido com outro propósito e, como dissemos, é reconhecido internacionalmente como o primeiro e mais bem sucedido programa de REDD+ do mundo. 

O próprio governo federal reconhece que “a implementação de atividades de REDD+ e a permanência de resultados obtidos requerem a provisão contínua de pagamentos por resultados de forma adequada e previsível, em conformidade com as decisões relevantes da Conferência das Partes. Nesse sentido, o fluxo de recursos financeiros provenientes dos pagamentos por resultados de REDD+ serão integralmente considerados como instrumento de implementação da INDC [sigla em inglês para 'Contribuição Nacionalmente Determinada Pretendida'] do Brasil.” 

Por fim, vale a dúvida: será que o ministro combinou com os russos? No caso, os principais doadores noruegueses ou alemães? Uma vez que eles contabilizam este apoio como parte dos compromissos de apoio às ações de mitigação à mudança climática, não poderiam substituir esta meta pela implantação de projetos de saneamento básico e de resíduos sólidos. Não poderiam, e nem a sociedade de seus países apoiaria tal alteração. 

Sendo assim, defendemos que a razão de existir do Fundo Amazônia continue sendo pautada no apoio a iniciativas inovadoras e adicionais com foco principal na gestão sustentável da floresta amazônica, com desenvolvimento territorial, negócios inclusivos e a manutenção da floresta em pé, visando também a preservação da biodiversidade única do bioma.

Por: Vanessa Pinsky, Alexandre Prado e Isak Kruglianskas. Fonte: Página 22.

Aquecimento Ameaça Esportes no Brasil

A mudança climática já está afetando e afetará ainda mais nos próximos anos a prática de esportes no Brasil. Como ficou evidente ainda nos eventos-teste para a Olimpíada do Rio, o calor excessivo tende a prejudicar o desempenho dos atletas, impedindo a quebra de recordes. Em casos extremos, colocará suas vidas em risco. 

Essa é a principal conclusão do relatório Mais Longe do Pódio – Como as Mudanças Climáticas Afetarão o Esporte no Brasil, lançado pelo Observatório do Clima, que coletou dados de pesquisas sobre o tema ao redor do mundo e ouviu médicos do esporte, preparadores físicos e atletas. 

Além da maior atenção e tecnologia voltada à saúde e à adaptação térmica dos atletas antes, durante e depois das competições, as mudanças climáticas estão impondo alterações nos calendários e horários das provas. Nesta Olimpíada, por exemplo, os seis jogos de futebol da Arena da Amazônia, em Manaus, foram remanejados para as 18 horas devido ao forte calor das 13 horas, horário previsto inicialmente. Na Copa de 2014, duas partidas precisaram de tempo técnico quando a chamada temperatura de bulbo úmido nos estádios de Fortaleza e Manaus atingiu 32° Celsius

No caso da Rio2016, os eventos-teste já mostraram o impacto do aquecimento global. Em pleno inverno, triatletas da prova masculina largaram sob um calor de 35°C e uma umidade relativa do ar de 70%. Na prova de marcha atlética, realizada em um final de semana de fevereiro com 41% de umidade do ar e temperatura de 38°C, 11 dos 18 participantes sucumbiram. Em 2015, um jogo de futebol feminino no Piauí precisou ser interrompido depois que nove jogadoras passaram mal por excesso de calor. 

No futuro, caso não se cumpram as metas do Acordo de Paris, essas cenas deverão se tornar mais comuns. O relatório usou dados de modelos globais de clima para montar um mapa do risco à prática esportiva nas capitais brasileiras no final do século. A conclusão é que, no pior cenário de emissões estabelecido pelo IPCC (o painel do clima da ONU), 12 delas terão períodos do ano impróprios à prática de qualquer atividade física ao ar livre – em Manaus, caso extremo, a restrição ocorrerá no ano inteiro. 

“O que esses dados mostram é que o risco de atletas literalmente morrerem de calor, algo que já acontece hoje, será multiplicado no Brasil nas próximas décadas caso não se reduzam dramaticamente as emissões globais”, disse Claudio Angelo, do Observatório do Clima, coordenador do relatório. “É claro, estamos falando de esportes aqui, mas na verdade qualquer trabalho ao ar livre poderá ser impactado, o que demandará um esforço brutal de adaptação do setor de esportes e de outras atividades econômicas.” 

“Os atletas já estão sentindo os efeitos das mudanças climáticas na prática. Daí a importância da campanha ‘1,5° C: o recorde que não devemos quebrar’, a qual chama a atenção para o limite máximo de aquecimento global que podemos suportar. Acima disso, o risco é grande demais”, alerta Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima

Associada à saúde, a prática de esportes pode se tornar exatamente o oposto por conta da poluição atmosférica, problema que tem a mesma origem do aquecimento global: a queima dos combustíveis fósseis. Como o volume respiratório aumenta durante os exercícios, o atleta – profissional ou amador – pode tragar mais dióxido de enxofre, particulados finos e outros compostos que provocam danos imediatos aos pulmões. Especializado em atividade física adaptada, Luzimar Teixeira, da Escola de Educação Física e Esporte da USP, prevê uma geração relativamente jovem de ex-atletas com problemas respiratórios graves, como se fossem doenças laborais. E, sarcástico, avisa que em dias quentes e locais poluídos, é mais saudável sair para beber cerveja (à sombra) do que fazer esportes ao ar livre. Ou seja, não são só os atletas de elite que participam das grandes competições que precisam se cuidar: esportistas amadores e de final de semana precisam igualmente rever onde e quando praticam atividades físicas.


A Floresta Negociada na Bolsa de Valores

O novo Código Florestal, aprovado em 2012, trouxe a novidade das Cotas de Reserva Ambiental (CRAs), que possibilitam a adequação ambiental das propriedades rurais em mecanismo similar ao do mercado de crédito de carbono, que permite que países que emitem muito CO2 comprem cotas daqueles que emitem menos. A diferença é que, no caso das CRAs, o negócio se dá entre as áreas de Reserva Legal dos imóveis rurais. 

Uma Reserva Legal é uma área coberta por vegetação natural dentro do imóvel rural que pode ser explorada somente com manejo florestal sustentável, respeitando-se o bioma em que está a propriedade. Funciona assim: os proprietários ou posseiros dos imóveis que possuírem um excedente de Reserva Legal ou vegetação nativa declarado nos seus Cadastros Ambientais Rurais (CARs) poderão vender, quando as CRAs forem regulamentadas, essas áreas excedentes em forma de cotas, também chamados de “títulos representativos”, para os imóveis que não estiverem com o nível de Reserva Legal exigido pela legislação ambiental. Por lei, esse nível de Reserva Legal varia de 20% a 80% da área do imóvel e leva em conta o bioma e a região do país no qual está inserido. 

Uma Espanha disponível 

É a Bolsa de Valores Ambientais do Rio de Janeiro (BVRio) a responsável por mediar o futuro mercado das CRAs. Hoje, a BVRio já registra numa plataforma os interesses de compra e venda de CRAs para imóveis rurais situados em todos os biomas do país. “Já temos mais de 5 milhões de hectares em disponibilidade. E os compradores de áreas já podem consultar esses valores”, afirma Maurício de Moura Costa, diretor de operações da BVRio. Cinco milhões de hectares equivalem a uma área territorial do tamanho da Espanha. “A gente criou um modelo contratual, uma espécie de contrato promessa em que as partes acertam o negócio, que fica só dependente da emissão da cota. Algumas secretarias de Meio Ambiente já se demonstraram receptivas a aceitar um contrato desse tipo como um início de regularização”, diz. No caso, a bolsa lucra com um percentual da negociação entre os proprietários rurais. Também já é possível pagar por cotas referentes a imóveis passíveis de desapropriação que estão dentro de Unidades de Conservação (UCs). 

A iniciativa é vista com restrição segundo especialistas entrevistados pela Agência Pública. “O mecanismo de compensação de Reserva Legal foi durante muito tempo uma enorme esperança de conseguir equacionar a permissão de uma regularização ambiental com ganhos ambientais. Agora, da forma como o Código Florestal foi definido, esse mecanismo perdeu completamente o poder de trazer benefícios ambientais”, avalia o professor Gerd Sparovek, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP). Segundo ele, a oferta de cotas é maior do que a demanda, o que fragiliza os CRAs como medida eficiente para a regularização ambiental. O professor calcula que há uma oferta de 13 milhões de hectares no país. “Na prática, inviabiliza a proteção”, diz. 

As críticas de Sparovek se referem, por exemplo, aos imóveis abaixo de quadro módulos fiscais – unidade de medida agrária que corresponde à área mínima necessária a uma propriedade rural para que sua exploração seja economicamente viável. Essas propriedades, segundo ele, poderiam usar como CRAs a totalidade de vegetação natural fora de Área de Proteção Permanente (APP). “Isso gera uma cota de uma área já protegida, ou seja, não tem custo de oportunidade. É uma área que não se pode mexer”, esclarece. Além disso, Sparovek afirma que em 80% das transações de CRAs não haveria benefício ao meio ambiente. “A CRA não é um recurso que vai atender o objetivo finalístico do Código, que é a proteção à vegetação, e muito menos um benefício social”, avalia. O professor calcula que o passivo de Reserva Legal nos imóveis rurais do país é de 174 mil km², algo como o estado do Paraná

Vantagens econômicas 

“A cota traz vantagens do ponto de vista econômico. Ela permite que você compense a sua Reserva Legal nas áreas em que a terra é mais barata. Mas, do ponto de vista ambiental, essa compensação nem sempre é equivalente”, diz Victor Ranieri, professor doutor da Universidade de São Paulo (USP), engenheiro agrônomo e mestre em engenharia ambiental. “Está se perdendo a proteção em áreas que já perderam muito de sua cobertura original”, avalia. Ele critica a flexibilização trazida pelo novo Código Florestal, que permitiu que essa compensação por CRAs fosse feita com amplos parâmetros. “A lei permite a compensação entre estados dentro do mesmo bioma. Mas um bioma é muito diverso, o que pode permitir uma falsa compensação”, corrobora a bióloga e mestre em engenharia ambiental Jéssica Santos da Silva, também da USP

O pesquisador Raoni Rajão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), autor da pesquisa sobre a viabilidade econômica e os efeitos ambientais das CRAs, exemplifica: “Você pensa, por exemplo, no caso da Amazônia. Tem um produtor em Sorriso, no Mato Grosso, que planta soja e precisa compensar sua Reserva Legal. Ele compra uma cota numa região longínqua do norte do Amazonas, onde a cota é mais barata. Lá é uma região que não seria desmatada nem se levasse a tora de helicóptero, porque muitas vezes não há viabilidade econômica para fazer esse desmatamento. Ou seja, você não está gerando ganho ambiental”, avalia.

O mecanismo de compensação pelas CRAs foi alvo de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) movida em 2013 [clique aqui para ler na íntegra], ainda não votada no plenário do Supremo Tribunal Federal. “A possibilidade de transformar uma reserva ambiental, ainda que particular, num título nominativo de valor monetário fará com que apenas aquelas áreas de menor valor econômico sejam utilizadas como reservas ambientais, estimulando a especulação imobiliária. Assim, muitos proprietários rurais contarão com esse instrumento para promover desmatamentos em áreas de maior valor econômico, pagando um valor menor pela cota de reserva ambiental”, afirma a ação, que critica também a flexibilização da compensação ambiental pelo novo Código Florestal.

Moura Costa, da BVRio, rebate as críticas dos especialistas, por exemplo, com relação à ampliação da área passível de compensação por CRAs. “[No antigo Código Florestal], de tão específico que era esse instrumento, ele jamais foi usado. Você estava restringindo um mecanismo de compensação, basicamente, entre vizinhos. Não tinha uma utilidade real”, argumenta. Ele avalia que a determinação legal de só realizar compensações por CRAs em áreas prioritárias de um mesmo bioma garante o retorno ambiental das cotas, mesmo quando a transação for feita entre estados. “O estado vai reservar essas áreas em lugares ambientalmente relevantes. Esse risco é mitigado”, diz.

Para Jéssica Santos, da USP, o valor ambiental das CRAs dependerá muito de sua regulamentação futura, que depende do Ministério do Meio Ambiente. “É preciso ter procedimentos muito bem estabelecidos, funções muito bem definidas entre os entes federativos. Se o imóvel com déficit de reserva está em São Paulo e está compensando sua reserva na Bahia, como esses entes irão proceder? Quem fiscaliza o quê?”, pergunta. “Essas funções e procedimentos precisam ser compatíveis, a base de dados precisa ter boa qualidade. São vários aspectos que influenciam na eficiência do sistema de gestão que, hoje, se configuram como um desafio”, finaliza.

Por: Ciro Barros e Iuri Barcelos. Fonte: Agência Pública.

Desastres Climáticos Aumentam Risco de Conflito Armado Entre Grupos Étnicos

Cidade de Kobanî (ou o que sobrou dela), na Síria.

Muito já se ouviu falar dos desastres naturais que acabaram com civilizações inteiras no passado da humanidade, como se acredita ter influenciado a queda da Civilização Maia, por exemplo. No entanto, não são os eventos climáticos em si, mas a vulnerabilidade às suas consequências juntamente com outros fatores que levam à desintegração social, conflitos armados e até o colapso de sociedades tanto no período pré-histórico quanto recentemente. 

Um estudo publicado na revista PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences) revelou que, embora não haja uma evidência de que os desastres climáticos provoquem diretamente conflitos armados, eles têm um papel trágico para o início dessas guerras principalmente em sociedades divididas etnicamente. 

No mundo inteiro, Carl-Friedrich Schleussner e colegas do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto do Clima, na Alemanha encontraram uma taxa de correlação de 9% entre conflitos e desastres como ondas de calor ou seca, etc. A pesquisa [Armed-Conflict Risks Enhanced by Climate-Related Disasters in Ethnically Fractionalized Countries] também revela que cerca de 23% dos conflitos armados entre 1980 e 2000 em países com muitas diferenças étnicas coincidem com calamidades climáticas. 

Análises recentes das consequências de secas na Síria e na Somália indicam que os eventos climáticos já contribuíram para o conflito armado ou guerra civil em ambos países. Seca prolongada também contribuiu negativamente para os conflitos que continuam acontecendo no Afeganistão. No Iraque e na Síria, por exemplo, as divisões étnicas são acentuadas. 

Essa observação tem implicações importantes para políticas de segurança nas regiões mais propensas a conflito, como norte da África, África Central e Ásia Central - áreas vulneráveis tanto à ação humana sobre o clima quanto marcadas por divisões étnicas. Nos conflitos em geral, a relação com o clima não é direta, mas age como fator desestabilizador em regiões já propensas ao conflito por terem tensões sociais. 

Hipótese das mudanças climáticas ganha força 

Muitos fatores de risco que têm o potencial de gerar um conflito já foram identificados, como pobreza, desigualdade de renda, governança fraca ou conflitos históricos pré-existentes. Hipóteses como ligação com ativos financeiros ligados à explosão de recursos naturais também têm sido discutidas. No entanto, vem crescendo o número de trabalhos que indicam que a divisão étnica é um dos fatores-chave para determinar o risco de conflito armado em uma sociedade. 

Embora não tenham exatamente raízes em tensões étnicas, cerca de dois terços de todas as guerras civis desde 1946 tiveram algum componente étnico. O papel proeminente da etnia nos conflitos pode estar relacionado ao acesso seletivo ao poder político ou a recursos que frequentemente são divididos seguindo a etnia, assim como o potencial rápido de mobilização étnica que emerge da concentração geográfica de grupos e dos laços sociais fortes entre pessoas da mesma etnia. 

Esses dois fatores podem contribuir para fraturas sociais em fronteiras étnicas em caso de tensão social rápida gerada por eventos como desastres naturais. Além disso, parece que os grupos étnicos podem ser impactados de maneira bastante diferente por desastres naturais. 

A concentração geográfica pode ser reforçada por outros fatores como modos de vida específicos como os de comunidades ribeirinhas e pastoris ou discriminação socioeconômica que os faz mais vulneráveis a desastres. 

Na pesquisa, são especificados os impactos dos desastres em termos de prejuízo econômico ao Produto Interno Bruto (PIB), usando uma base de dados de alta qualidade desenvolvida para propósitos comerciais do setor de resseguros. Para testar as correlações estatísticas entre eventos climáticos e o momento dos conflitos armados, foi usado um método chamado análise de coincidência de eventos, conceitualmente relacionado à sincronização de eventos e abordagens parecidas que são usadas em neurociência.

Por: Paula Moura (UOL Notícias).

Por Que Comparar-se Aos Outros é Normal?

O julgamento das pessoas sobre si mesmas está ligado a suas percepções dos outros. Um jogo de basquete contra alguém muito mais alto e mais qualificado do que você pode deixá-lo a se sentir um pouco inferior, mas integrar a equipe da pessoa provavelmente dará à sua auto-estima um impulso, sugere uma nova pesquisa. 

Isso porque as pessoas automaticamente comparam seu próprio desempenho com o de outros, de acordo com o estudo publicado em 20/07/2016 na revista Neuron. Quando eles estão cooperando com outra pessoa, eles percebem o desempenho dessa pessoa como uma reflexão sobre o seu próprio: um parceiro melhor faz as pessoas se sentirem melhor sobre suas próprias habilidades, enquanto um parceiro pior os faz sentir incompetente, também. 

Durante a competição, o oposto também acontece: um competidor qualificado faz as pessoas julgarem seu próprio desempenho como pior e um oponente trapalhão as faz se sentirem melhores. 

A região do cérebro responsável por essa chamada "fusão auto-outro" [self-other mergence] na competição e cooperação é a área 9, uma tira do córtex que atravessa o lóbo frontal [imagine-o bem atrás de sua testa]. A área 9 mostra-se muitas vezes em estudos da cognição social, disse o pesquisador Marco Wittmann, um estudante de doutorado em neurociência cognitiva na Universidade de Oxford, na Inglaterra, por isso não foi muito surpreendente ver que desempenha um papel na aferição de seu desempenho em relação aos outros. 

O que foi mais surpreendente é que ele trabalhou em ambos os sentidos, ele disse que as comparações acontecendo no cérebro não apenas avaliam suas próprias habilidades com base em como você percebe os outros, mas também suas avaliações de habilidades da pessoa com base em sua percepção de si próprio. 

"É realmente um novo tipo de representação aqui que poderia estar no centro de uma série de diferenças individuais" entre as pessoas, disse Christian Ruff, um neuroeconomista na Universidade de Zurique, na Suíça, que não está envolvido no estudo. 

Comparações sociais 

No estudo, Wittmann e seus colegas pediram 24 participantes para jogar jogos de tempo de reação [reaction-time games] dentro de uma máquina de ressonância magnética funcional (fMRI). Esta máquina rastreou o fluxo sanguíneo e indicou que áreas do cérebro foram mais ou menos ativas num dado momento. 

Aos participantes foram, por vezes, dada a opção de jogar os jogos cooperativamente com outro jogador e, por vezes, dada a opção de jogar os jogos em concorrência com outro jogador. Mas eles também podem optar por ignorar a competição ou cooperação, e obter um pequeno número de pontos para si automaticamente. 

Após cada rodada, à pessoa foi dado um feedback, tanto ao seu desempenho e desempenho do outro jogador, e foi solicitado que avaliasse as habilidades do outro jogador, bem como o seu próprio. Na realidade, o feedback - bem como o do outro jogador - era falso, e os pesquisadores poderiam variar se a uma pessoa foi dito se ela estava indo bem ou mal. 

As classificações permitiram ao pesquisador avaliar como a pessoa levou em conta o feedback sobre o outro jogador ao avaliar a si mesmo, e vice-versa. 

"O efeito é relativamente intuitivo", disse Wittmann. "Em cooperação, você de alguma forma ajusta o quão bom você pensa que é para os seus colegas, e em concorrência, você faz o oposto." 

“É intuitivo, talvez, mas também complicado”, disse Ruff. O estudo destaca como julgamentos de si mesmo e das pessoas estão intimamente ligados às suas percepções dos outros, disse ele. 

"Este é um estudo que destaca que os sinais neurais que representam nós mesmos ou outras pessoas são muito mais complexos do que se pensava anteriormente, e precisamos pensar sobre estes sinais de outros ângulos", disse Ruff. "Precisamos tomar o contexto social específico em que esses sinais são gerados, pois conta muito." 

Área 9 do cérebro 

Os dados da ressonância magnética revelou que duas regiões do cérebro eram particularmente ativas durante essas tarefas. Na primeira, o córtex cingulado anterior pregenual está localizado no fundo da barriga do cérebro. Mas a atividade nesta região está correlacionada com a melhor classificação nos jogos de tempo de reação. 

Em contraste, a segunda área, a área 9, foi ocupada durante as avaliações de outras pessoas, e mais atividade aqui significou uma avaliação mais generosa do outro jogador. A atividade na área 9 também se correlacionou com o efeito "fusão auto-outro" [self-other mergence]. Quanto mais forte o sinal do cérebro na área 9, Wittmann disse, mais forte a "fusão auto-outro". 

As descobertas podem significar que as pessoas simplesmente têm dificuldade em acompanhar a sua própria performance, bem como o desempenho dos outros, portanto, as estimativas tendem a sangrar juntas, disse Wittmann. Ou talvez o enquadramento de si mesmo em competição ou em cooperação com outra pessoa reforça o efeito, disse ele. 

Provando causalidade entre um sinal do cérebro e um comportamento é notoriamente difícil com a ressonância, disse Ruff. Por essa razão, o próximo passo na pesquisa deve ser para estudar o efeito em pessoas com lesões cerebrais na área 9, para ver se elas são menos propensas a levar o desempenho de outras pessoas em conta ao avaliar a sua própria, disse Ruff

As pessoas no estudo foram relativamente precisas e racionais ao fazer suas avaliações, Wittmann observou; o efeito "fusão auto-outro" não cancela o senso comum e os fatos apresentados aos participantes. Ainda assim, ele disse, é um olhar interessante a forma como as pessoas fazem julgamentos quando eles são o assunto. 

"Seria interessante ver, por exemplo, se por pacientes deprimidos, as suas estimativas de quão bem eles estão fazendo são de alguma forma diferente e de como as outras pessoas se julgam", disse Wittmann

Por: Stephanie Pappas (Live Science).