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7,5 Bilhões e Contando: Quantos Humanos a Terra Pode Suportar?

Os seres humanos, dentre os grandes mamíferos, são os mais populosos da Terra atualmente e provavelmente em toda a história geológica. O número de humanos está nas proximidades de 7,5 a 7,6 bilhões de indivíduos. 

A Terra pode suportar tantas pessoas indefinidamente? O que acontecerá se não fizermos nada para gerenciar o crescimento populacional futuro e o uso total de recursos? Essas questões complexas são ecológicas, políticas, éticas – e urgentes. A matemática simples mostra o por que, esclarecendo a pegada ecológica de nossa espécie. 

A matemática do crescimento populacional

Em um ambiente com recursos naturais ilimitados, o tamanho da população cresce exponencialmente. Uma característica do crescimento exponencial é o tempo que uma população leva para dobrar de tamanho. 

Crescimento exponencial da população mundial

Levou 127 anos para a população mundial dobrar de um bilhão para dois. Por outro lado, foram necessários apenas 47 anos, de 1927 a 1974, para dobrar de dois bilhões para quatro. Desde 1960, a população mundial cresce cerca de um bilhão a cada 13 anos. Cada ponto representa mais um bilhão de pessoas.


Gráfico: The Conversation, CC-BY-ND. Fonte: Nações Unidas.

O crescimento exponencial tende a começar devagar, chegando às escondidas antes de aumentar algumas vezes. 

Para ilustrar, suponha que Jeff Bezos [fundador e diretor executivo da Amazon] em lhe dar um centavo em 1º de janeiro de 2019, dois centavos em 1º de fevereiro, quatro em 1º de março e assim por diante, com o pagamento dobrando a cada mês. Quanto tempo sua fortuna de US$ 100 bilhões, manteria o acordo? Reserve um momento para refletir e adivinhar. 

Após um ano ou 12 pagamentos, seu total de recebimentos do acordo chega a US$ 40,95, o equivalente a uma noite no cinema. Após dois anos, US$ 167,772.15 – substancial, mas insignificante para um bilionário. Após três anos, US$ 687,194,767.35, ou cerca de uma semana da renda de Bezos em 2017. 

O 43º pagamento, em 1º de julho de 2022, pouco menos de US$ 88 bilhões e igual a todos os pagamentos anteriores juntos (mais um centavo) – quebra o banco. 

Crescimento real da população

Para populações reais, o tempo de duplicação não é constante. Os seres humanos atingiram 1 bilhão por volta de 1800, um tempo de duplicação de cerca de 300 anos; 2 bilhões em 1927, um tempo de duplicação de 127 anos; e 4 bilhões em 1974, um tempo de duplicação de 47 anos. 

Por outro lado, projeta-se que os números mundiais cheguem a 8 bilhões por volta de 2023, um tempo de duplicação de 49 anos e, exceto se houver um imprevisto, que deverá atingir 10 a 12 bilhões em 2100. 

Esse nivelamento antecipado sinaliza uma dura realidade biológica: a população humana está sendo reduzida pela capacidade de carga da Terra, à medida que ocorre a morte prematura por fome e doenças, equilibra a taxa de natalidade. 

Projeções da população mundial 

Em 2020, a ONU prevê que haverá 7.795.482.000 pessoas em todo o mundo.

 Gráfico: The Conversation, CC-BY-ND. Fonte: Nações Unidas.

Implicações ecológicas

Os seres humanos estão consumindo e poluindo recursos – aquíferos e calotas polares, solos férteis, florestas, pescas e oceanos – acumulados ao longo do tempo geológico, em dezenas de milhares de anos ou mais. 

Os países ricos e suas populações, consomem desproporcionalmente. Como analogia fiscal, vivemos como se o saldo da nossa poupança fosse uma receita estável. 

De acordo com o Worldwatch Institute, o Planeta tem 1,9 hectares de terra por pessoa para cultivar alimentos e têxteis para roupas, suprir recursos de madeira e absorver resíduos. O americano médio usa cerca de 9,7 hectares. 

Somente esses dados sugerem que a Terra pode suportar, no máximo, um quinto da população atual, ou seja, de 1,5 bilhão de pessoas, com um padrão de vida americano. 

Um homem trabalha reciclando garrafas de plástico nos arredores de Hanói, no Vietnã. Fonte: Reuters / Kham. 

A água é vital. Biologicamente, um ser humano adulto precisa de menos de 1 litro de água por dia. Em 2010, os EUA usaram 355 bilhões de galões de água doce, mais de 1.000 galões (4.000 litros) por pessoa por dia. Metade foi usada para gerar eletricidade, um terço para irrigação e aproximadamente um décimo para uso doméstico: descarga de banheiros, lavagem de roupas e pratos e rega de gramados. 

Se 7,5 bilhões de pessoas consumissem água nos níveis norte-americanos, o uso mundial alcançaria 10.000 quilômetros cúbicos por ano. A oferta mundial total – lagos e rios de água doce – é de cerca de 91.000 quilômetros cúbicos. 

Os números da Organização Mundial da Saúde mostram que 2,1 bilhões de pessoas não têm acesso imediato à água potável e 4,5 bilhões não têm saneamento. Mesmo em países industrializados, as fontes de água podem ser contaminadas com patógenos, escoamento de fertilizantes, inseticidas e metais pesados. 

Liberdade de escolha

Embora o futuro detalhado da espécie humana seja impossível de prever, fatos básicos são certos. Água e comida são necessidades humanas imediatas. Dobrar a produção de alimentos adiaria os problemas das taxas de natalidade atuais em no máximo algumas décadas. A Terra suporta os padrões de vida industrializados apenas porque estamos reduzindo a “conta poupança” de recursos não renováveis, incluindo o solo fértil, água potável, florestas, pesca e petróleo. 

O desejo de se reproduzir está entre os mais fortes, tanto para casais quanto para sociedades. Como os humanos reformularão uma de nossas expectativas mais queridas – “Seja produtivo e multiplique” – no período de uma geração? O que acontecerá se as taxas de nascimento atuais continuarem? 

A população permanece constante quando os casais têm cerca de dois filhos que sobrevivem à idade reprodutiva. Atualmente, em algumas partes do mundo em desenvolvimento, os casais têm em média de três a seis filhos. 

Não podemos desejar a existência de recursos naturais. Os casais, no entanto, têm a liberdade de escolher quantos filhos terão. Melhorias nos direitos, educação e autodeterminação das mulheres, geralmente levam a menores taxas de natalidade. 

Como matemático, acredito que reduzir substancialmente a taxa de natalidade é nossa melhor perspectiva para elevar os padrões de vida globais. Como cidadão, acredito que estimular o comportamento humano, incentivando famílias menores, é a nossa esperança mais humana.

Por: Andrew D. Hwang (The Conversation) / Tradução: Maria Beatriz Ayello Leite (Ambiente Brasil).

Pandemia e Saneamento Básico Escancaram As Desigualdades no Brasil

O vírus Covid-19 é democrático apenas na transmissão, pois, no tratamento e no número de óbitos, acabará escancarando a desigualdade social estrutural do Brasil. Os mais afetados serão os mais pobres. Foto: favela no Rio de Janeiro. Imagem de NakNakNak / Pixabay.

Uma das medidas mais eficazes de combate à Covid-19 é a higienização das mãos com água e sabão. Mas como podemos exigir isso de toda a população, sendo que grande parte dela não possui acesso ao saneamento básico? E mais, geralmente onde há problemas de saneamento há também trabalho precário, acesso restrito à água e dificuldades nos setores de saúde e moradia. 

Esse é um problema mundial. Dados mais recentes do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) indicam que duas em cada cinco pessoas em todo o mundo não têm instalações básicas para nem sequer lavar as mãos, e 40% da população mundial não tem lavatório com água e sabão em casa. 

No Brasil, de acordo com a Lei n° 11.445/2007, que estabelece diretrizes nacionais para o saneamento básico, é definido como o conjunto de serviços, infraestruturas e instalações operacionais de abastecimento de água potável, esgotamento sanitário, limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos e drenagem e manejo das águas pluviais urbanas. Além disso, o abastecimento regular de água potável, o tratamento de esgoto e o manejo de resíduos sólidos são direitos assegurados pela Constituição Federal

Mesmo assim, segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), do Ministério do Desenvolvimento Regional, na média brasileira 83,5% da população possui rede de água e apenas 52,4% tem o esgoto coletado, do qual apenas 46% é tratado. De acordo com o Instituto Trata Brasil, a situação é pior na região Norte, onde apenas 10,24% da população tem acesso a rede de esgoto. No Nordeste são 26,87%; no Sudeste, 78,54%; no Sul, 43,93% e no Centro-Oeste, 53,88%. 

Para piorar ainda mais esse cenário, um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) previu que quatro em cada dez litros de água são perdidos no Brasil antes de chegar à população. E quase 40% dos recursos hídricos se perdem por desvios e infraestrutura deteriorada. 

Somada à falta de saneamento básico e água, estima-se que aproximadamente 13 milhões de pessoas vivam em favelas em todo o Brasil. Isso significa alta densidade populacional e casas muito próximas umas das outras. 

Todos estes fatores facilitam a existência e a proliferação de diversos tipos de doenças, como a filariose, a esquistossomose, a hepatite infecciosa, a poliomielite, a febre amarela e também a dengue. E claro, a Covid-19. Ainda não sabemos o nível de impacto dessa pandemia nessa parcela significativa da população. Só sabemos que vai atingi-la de forma muito séria e quem sabe catastrófica, porque simplesmente as medidas mais básicas estão fora de alcance dessas pessoas. 

O álcool em gel 70% poderia ser uma saída simples e eficiente para substituir a falta de água. Entretanto, não é acessível em termos financeiros para grande parte dessa população mais vulnerável e requer cuidado porque é inflamável. 

Agora imagina o que significa você ter que decidir a quantidade de água para beber, tomar banho e cozinhar todos os dias e também ter que lavar a mão constantemente para evitar a contaminação pelo coronavírus? Ou ainda, pense como é ter que ficar em isolamento social em uma casa de um ou dois cômodos onde vivem mais de dez pessoas, com saneamento básico precário e quase sem nenhum equipamento de saúde na comunidade? 

Diante desse cenário, acredito que o novo coronavírus seja democrático apenas na transmissão, porque no tratamento e no número de óbitos acabará escancarando a desigualdade social estrutural do Brasil. Sem acesso às medidas básicas de higienização, e tendo historicamente grupos que estão em desvantagem em relação à saúde pública quando comparados ao restante da população, em breve os mais afetados pela Covid-19 será a população de baixa renda. 

Apesar de já ter sido solicitado para o Ministério da Saúde apresentar o planejamento para enfrentar a epidemia de coronavírus nas favelas e nas periferias, ainda não há ações voltadas especificamente para estas populações. O que existe até o momento são iniciativas das próprias comunidades. E isso será insuficiente diante do que está por vir. 

O coronavírus é um problema complexo que exige ações em várias frentes para ser combatido. E uma delas é o saneamento básico. Este tema já está em pauta no Senado sob a proposta do Novo Marco Regulatório do Saneamento Básico, cujo principal objetivo é abrir o mercado para a iniciativa privada, de modo a garantir recursos para a universalização do abastecimento de água e da coleta e tratamento do esgoto. 

Não sabemos se essa será a melhor solução para um problema histórico no Brasil como é o do saneamento básico. Mas, se há uma estratégia que poderia ser adotada desde já para tentar evitar uma tragédia maior, é o Poder Público assumir o protagonismo para ajudar as populações mais vulneráveis, distribuindo, por exemplo, galões de água mineral para a população e kits de higienização e limpeza, contendo álcool em gel 70% e sabonete. 

Por: Deivison Pedroza; empreendedor, youtuber, escritor, palestrante e diretor executivo do Grupo Verde Ghaia.

Do Holoceno Ao Antropoceno: As Bases Conceituais da Mudança de Época

É desafiador descrever o ambiente científico em que emergiu a proposta de uma nova Época Geológica. O livro O Antropoceno e a Ciência do Sistema Terra busca contribuir para essa compreensão. 

Civilizações nem teriam surgido não fosse a invenção da agricultura, por sua vez favorecida por atenuação climática, há doze mil anos. Fim de longo período glacial que já durava uns cem mil anos, o abrandamento meteorológico também marcou ruptura com os muitos milênios em que a evolução humana dependeu de predações, extrativismos vegetais, pescas e caçadas. 

Tudo o que aconteceu desde tão misteriosa virada coincide com a curtíssima Época, batizada pelos geólogos com o prefixo Holo para bem destacar que é a mais recente. Um ínfimo lapso de doze milênios, inteiramente distinto de tudo que o precedeu em 4,5 bilhões de anos de história planetária. 

As principais características do Holoceno foram moderação e constância ecológicas tão formidáveis que propiciaram decisivos avanços sociais impulsionados essencialmente por cooperação e coesão entre os humanos. 

Porém – como ninguém tem mais o direito de ignorar – eis uma vantagem comparativa que passou a ser desregulada por excessivas influências artificiais de atividades humanas. Então, para distinguir essa etapa, em que a durabilidade da vida na Terra tanto passou a depender da conduta de uma única espécie – a humana –, é bem mais apropriado o prefixo Antropo do que Holo

Só que não é nada simples identificar o momento histórico desse grande salto de Holo para Antropo. Há controvérsia sobre a datação desse ponto de mutação, mas tende a haver consenso de que ele ocorreu em meados do século passado, quando as primeiras explosões nucleares coincidiram com o desencadeamento de incomparável surto de progresso material, chamado pelos historiadores ambientais de A Grande Aceleração. Tudo indica que será esse o momento escolhido pelos experts que preparam a proposta de oficialização do Antropoceno

Desde meados do século XX, os humanos passaram a exercer pressões excessivas sobre alguns dos mais relevantes ciclos biogeoquímicos, como os do carbono e do nitrogênio. Ao mesmo tempo em que ocorria inédita escalada geral de outros impactos artificiais (antrópicos) sobre a biosfera. Talvez baste lembrar que, de todo o dióxido de carbono atribuível às atividades humanas hoje estocado na atmosfera, três quartos foram emitidos apenas no curto lapso dos últimos setenta anos. 

No piscar de olhos histórico em que viveram as três últimas gerações, o número de veículos motorizados passou de 40 milhões para 850 milhões. A produção de plásticos de mero milhão de toneladas para 350 milhões de toneladas. A quantidade de nitrogênio sintético (principalmente para fertilização agrícola) foi de 4 milhões de toneladas para mais de 85 milhões de toneladas. Somados à erosão da biodiversidade e à acidificação dos oceanos, esses rapidíssimos saltos caracterizam A Grande Aceleração

Bem mais difícil que relatar esse debate sobre a data adequada é descrever o ambiente científico em que emergiu a proposta de uma nova Época. Quer dizer, a evolução das bases conceituais e das evidências empíricas em que se apoiam os cientistas ao fundamentarem a ideia de passagem de Holo a Antropo

É justamente para facilitar a compreensão desses dois problemas que a Editora 34 lançou o livro O Antropoceno e a Ciência do Sistema Terra [2019; escrito por José Eli da Veiga] com três capítulos, bem diferentes em conteúdo e estilo. 

No primeiro, são apresentados – nos moldes de divulgação científica – quase todos os aspectos que precisam ser conhecidos sobre os mais pertinentes debates. Convida o leitor a primeiro sobrevoar o que há de mais importante sobre o tema, antes de penetrar em seus fundamentos científicos. 

O zoom proposto no segundo capítulo continua a fazer história da ciência para leigos, só que mediante inspeção dos principais documentos e sacrificando o mínimo possível a precisão, em nome de maior eficácia comunicativa. Ao apresentar seleção da literatura científica mais candente, o segundo capítulo é um incisivo convite à reflexão sobre as mais valiosas pérolas do discurso sobre o que tem sido chamado, há três ou quatro décadas, de ‘sistema Terra’. 

Tamanha mineração de evidências científicas provoca uma séria dúvida. Não sobre a proposta básica – de legitimação da nova Época na escala do tempo geológico –, mas sim sobre a retórica dos pesquisadores envolvidos no que seria a nova disciplina Ciência do Sistema Terra. Não por outra razão, os achados do terceiro capítulo tornam-se indagações. Apresentadas em estilo que só não chega a ser tão leve quanto o do primeiro capítulo porque a inevitável dissecação de certas ideias envolve grau mais elevado de abstração epistemológica. 

A rigor, uma Ciência do Sistema Terra só começou a surgir nos anos 1980, com os primeiros esforços de formalização incentivados pela NASA. Praticamente todos os pesquisadores que, desde então, assumiram o desafio (no âmbito do IGBP, da ESSP, do Future Earth e do Planetary Boundaries Research Network), estão hoje em instituições nacionais de primeira linha espalhadas por ao menos uma dezena de países. O que não impede que permaneça bem incipiente a desejada visão transdisciplinar das quatro dinâmicas históricas da Terra: do planeta, da vida, da natureza humana e da civilização. 

Tamanha precariedade depois de quase meio século de pesados investimentos científicos não decorre da qualidade das pesquisas, da clarividência dos pesquisadores que as tocam, ou do ambiente institucional em que trabalham. Ao contrário, tudo aponta para um cenário diametralmente oposto: esforços científicos de fronteira empreendidos em centros de indubitável excelência. 

Não há como fazer, hoje, uma justa avaliação conclusiva da história dos trinta ou quarenta anos em que a Terra passou a ser estudada como sistema singular. Mas já está bem claro o quanto pode ser abusiva, ou mesmo mistificadora, a vinculação da ideia de Antropoceno a um suposto novo paradigma científico que já teria emergido com a dita Ciência do Sistema Terra

A argumentação do livro procura mostrar que a nova Época pode ser muito bem (ou até melhor) definida, no âmbito mais restrito da História da Terra, pela singeleza da combinação de conhecimentos historio e estratigráficos sobre o período da chamada Grande Aceleração.

Por: José Eli da Veiga (Página 22).

As Emissões Globais de CO2 Por Nível de Renda

Existe não só uma correlação, mas também uma causalidade, entre o crescimento da população e o crescimento das emissões de CO2. Todas as pessoas, sem exceção, realizam atividades que emitem gases de efeito estufa (GEE). Não existe pessoa com nível zero absoluto de emissão e quanto mais gente, maiores são as emissões de GEE. Mas as pessoas possuem níveis diferentes de consumo e, portanto, possuem níveis diferentes de emissões. Sem dúvida, populações ricas – com PIB grande – emitem muito e populações pobres – com PIB pequeno – emitem pouco. O nível de renda potencializa as emissões das pessoas. 

O gráfico abaixo, do site Our World in Data, com dados de 2016, mostra como se distribui as emissões globais por nível de renda. Os países ricos, com 1,2 bilhão de pessoas, representando 16% da população total, foram responsáveis por 38% das emissões globais de CO2, emitindo 13,4 bilhões de toneladas no ano (com 11,3 toneladas per capita). Os países de renda média alta, com 2,6 bilhões de pessoas, representando 35% da população total, foram responsáveis por 48% das emissões globais de CO2, emitindo 16,6 bilhões de toneladas de CO2 (com 6,4 toneladas per capita). Estes dois grupos de renda, com 3,8 bilhões de pessoas (51% do total populacional) emitiram 30 bilhões de toneladas de CO2, acumulando 86% das emissões. 

Já os 3 bilhões de pessoas de renda média baixa ou pobres (representando 49% da população total) emitiram 4,7 bilhões de toneladas de CO2 (representando 13% das emissões globais) e tendo uma emissão de 1,6 tonelada per capita. Portanto, não resta dúvida de que os ricos emitem mais do que os pobres. 



Contudo, esta relação está mudando ao longo do tempo. Um estudo da OXFAM, com dados de 2008, mostrava que os 10% mais ricos do mundo eram responsáveis por 49% das emissões globais, os 50% mais ricos eram responsáveis por 90% das emissões e os 50% mais pobres eram responsáveis por somente 10% das emissões. Em 2016, como vimos, os 16% mais ricos eram responsáveis por 38% das emissões (e não 10% responsáveis por 49%). 

Artigo de Alves (23/10/2019) mostrou que os países pobres e de renda média estão liderando as emissões globais de CO2 no século XXI. O gráfico abaixo mostra a participação dos países ricos (da OCDE - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e do restante do mundo (países de renda média e baixa) na emissão de CO2. Nota-se que a OCDE liderava as emissões antes dos anos 1980, apresentou um certo empate nas duas últimas décadas do século XX e houve uma inversão das curvas no século XXI, com os países do Terceiro Mundo aumentando significativamente a participação e a responsabilidade no total das emissões globais. Nota-se, adicionalmente, que os EUA e a União Europeia (28 países) – os dois principais poluidores históricos – tem reduzido a participação no conjunto das emissões. Ou seja, cerca de dois terços das emissões de CO2, em 2017, foram do restante do mundo e um terço dos países da OCDE.

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Em outro artigo (Alves, 13/11/2019), o autor mostra que o grupo BRICS [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul] ultrapassou a OCDE em emissões de CO2. O gráfico abaixo mostra que os 36 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (quase todos eles de renda alta) emitiam 3 vezes mais do que os 5 países do grupo BRICS, mas houve empate em 2010 e, em 2017, o BRICS já emitiram cerca de 20% a mais do que a OCDE. As emissões do conjunto da OCDE estavam em 5,8 bilhões de toneladas de CO2 em 1959, subiram até o pico de 14 bilhões de toneladas em 2007 e começaram a cair depois da crise econômica de 2008/09, até atingir 12,7 bilhões de toneladas em 2017 (um crescimento de 2,2 vezes entre 1959 e 2017). Já as emissões do conjunto do BRICS que estavam em 1,8 bilhão de toneladas de CO2 em 1959 subiram continuamente até 13,8 bilhões de toneladas em 2011 (quando ultrapassaram a OCDE) e atingiram 14,9 bilhões de toneladas em 2017 (um crescimento de 8,2 vezes entre 1959 e 2017). 

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Indubitavelmente, os ricos emitem mais do que os pobres. Porém, o grande paradoxo da atualidade é que existe uma necessidade para reduzir a pobreza e aumentar o bem-estar humano nos países em desenvolvimento e estes países passaram a liderar as emissões de CO2 no século XXI. O fato é que, no modelo hegemônico de produção e consumo, os países ricos “estouraram o orçamento de carbono e ambiental” e o erguimento dos países pobres e de renda média se dá às custas do aprofundamento da degradação ecológica e climática. 

Assim, é necessário promover um “cavalo de pau” na economia global. O mundo precisa romper com o “conto de fadas” do crescimento demoeconômico e começar a enfrentar as injustiças das desigualdades de renda e patrimônio e iniciar o planejamento do decrescimento das atividades antrópicas, para colocar a Pegada Ecológica em equilíbrio com a Biocapacidade da Terra (atualmente o déficit ambiental é de 70%). 

Insistir na permanência do rumo do crescimento demoeconômico continuado é caminhar no sentido do abismo. Abismo gerado pela ultrapassagem da capacidade de carga e pelo desequilíbrio homeostático do clima da Terra. Por conta disto, o grupo Extinction Rebellion (XR) exige que os governos contem a verdade à sociedade declarando uma emergência climática e ecológica. 

Desta forma, sem dúvida, é necessário mudar o estilo de vida da população mundial e reduzir as desigualdades sociais, mas a principal medida de mitigação da crise climática é o planejamento de longo prazo do decrescimento demoeconômico

Em síntese, existem muitas coisas para serem feitas e muita rebelião para enfrentar as ameaças de extinção. Mas também não dá para ignorar a resistência das forças fundamentalistas e dogmáticas, de direita e de esquerda – configurando o pronatalismo antropocêntrico e ecocida – forças estas quer interditam o debate demográfico sobre a necessidade de redução do número de habitantes do Planeta. Porém, fica cada vez mais claro que a reversão do crescimento populacional é uma medida fundamental e essencial tanto para a adaptação, quanto para a mitigação da crise climática e ambiental. 

Felizmente a questão demográfica começa a ser levada em consideração. Mais de 11 mil cientistas de todo o mundo publicaram, no dia 05 de novembro de 2019, na revista BioScience, um alerta sobre a ameaça de uma iminente catástrofe ambiental e declararam que o planeta está enfrentando uma emergência climática. Entre os “sinais vitais” apresentados está a questão do crescimento demoeconômico. O documento diz: “O crescimento econômico e populacional está entre os mais importantes fatores do aumento das emissões de CO2 em decorrência da combustão de combustíveis fósseis”. E afirmam: “Ainda crescendo em torno de 80 milhões pessoas por ano, ou mais de 200.000 por dia, a população mundial precisa ser estabilizada e, idealmente, reduzida gradualmente”. 

A questão demográfica também foi debatida durante a COP-25 em Madri, Espanha, no dia 6 de dezembro de 2019. Houve um debate sobre a questão da superpopulação humana. Foi uma das poucas vezes que este assunto foi debatido no âmbito das conferências do clima (ver vídeo abaixo). A consciência está crescendo e cada vez mais pessoas percebem que é preciso decrescer a população e o padrão de produção e consumo da humanidade. Caso contrário, todos perdem e teremos um colapso ambiental que também será um colapso civilizacional.


Referências: 
• ALVES, JED. Os países pobres e de renda média lideram a emissão global de CO2 no século XXI, Ecodebate, 23/10/2019. 


• ALVES, JED. BRICS ultrapassam a OCDE em emissões de CO2, Ecodebate, 13/11/2019. 


• Extinction Rebellion (XR): https://rebellion.earth

• RITCHIE, Hannah; ROSER, Max. CO₂ and greenhouse gas emissions. Published online at OurWorldInData.org. This article was first published in May 2017; last revised in December 2019.


• Overpopulation & Climate Change: A Seat at the Table, COP-25, Madri, 03/01/2019. 



Por: José Eustáquio Diniz Alves (EcoDebate).

O Que Mudou da Gripe Espanhola Para a Pandemia do Coronavírus?

Com a crise total não há espaço para a política adversarial. Foto: Arquivo Abrasco.

Já passamos por uma calamidade de proporções ciclópicas. O testemunho ocular de um parlamentar durante a gripe espanhola (1918-1920), na capital da República, aponta para a magnitude da tragédia: "A gripe desembarcara de Dakar uma semana antes, e apoderara-se logo da cidade, espalhando sem dificuldade sobre ela sua dominação assombradora. Quanta gente que não devia morrer tão cedo, moços fortes, moças bonitas quantos não tinham já partido". 

"Cada dia, cada hora chegava uma notícia... noivas com enxovais prontos, esperando o dia do casamento, enroladas as pressas no vestido de noivado e atiradas num montão de outros cadáveres que aguardavam cova no cemitério", (Gilberto Amado, em suas memórias). 

Mas são muitas as diferenças entre a gripe espanhola e a atual crise do coronavírus. Trato aqui apenas de uma delas: dada a intervenção massiva do Estado no setor e seu impacto econômico avassalador, a crise atual é crise total. 

A política de atenção à saúde tal qual a conhecemos hoje em quase todas as democracias (os EUA é a grande exceção) é recente e só se desenvolveu no pós-Guerra. No Brasil, em 1918, nem sequer tínhamos algo chamado Ministério da Saúde, mas apenas campanhas sanitárias esporádicas, com forte participação internacional (Fundação Rockfeller). Em 1930, foi criado um Ministério da Educação e Saúde Pública, mas a saúde só ganha um ministério autônomo em 1953. 

A atenção à saúde pública curativa e não emergencial só se desenvolveu de forma incipiente para os associados dos institutos de aposentadoria e pensões (Iapi, IAPC etc.) até a fusão dos institutos no INPS, em 1966. Seus departamentos de saúde foram amalgamados no Inamps, cujos hospitais continuaram fechados e inacessíveis a não membros até 1985, quando o Suds —rebatizado SUS, em 1990— foi criado. Foi nesse período que se desenvolveu o modelo de planos de saúde privados, produzindo a segmentação público/privada no setor. 

Hoje a área da saúde corresponde ao segundo maior orçamento e ao segundo maior contingente de força de trabalho setorial federal; além de ser a mais complexa, por que tem uma dimensão de provisão de serviços (inexistente na Previdência Social). 

A escala dramática da crise e o cataclismo econômico convertem-na em crise do Estado, crise total. Daí decorrem consequências políticas cruciais. A mais importante é que o ambiente institucional muda radicalmente, o que tem implicações decisivas para lideranças populistas e iliberais. Neste novo ambiente, não há espaço para a política adversarial e "campanhas perpétuas": aumenta brutalmente a demanda por lideranças que tenham capital moral e que promovam coordenação e consenso. 

Por: Marcus André Melo; professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA). Fonte: Folha de S. Paulo.

Como Reorganizar a Rotina Pode Ajudar Sua Saúde Psíquica na Quarentena

De um lado, há quem nunca foi ansioso, mas passe a ter ansiedade, insônia, reações agressivas ou se sinta desorientado; de outro, existem pessoas cujos efeitos da quarentena irão intensificar dificuldades que já estavam presentes antes. Arte sobre silhueta: Flaticon/Pixabay. 

Quebra da rotina pode trazer impactos psicológicos diversos para pessoas diferentes; conheça algumas estratégias para manter a saúde mental diante da pandemia. 

Você acorda, toma café, vive normalmente sua rotina diária. Um dia, um vírus que até pouco tempo estava longe, em outro continente, e você conhecia vagamente apenas pelos noticiários, entra na sua casa sem bater na porta e interrompe, não apenas a sua, mas a rotina de toda uma sociedade. Mas qual o impacto psicológico dessa quebra abrupta que a quarentena e a pandemia trouxeram? E o mais importante: como amenizar o problema? 

Para o professor e psicanalista Christian Ingo Lenz Dunker, do Instituto de Psicologia da USP, o momento exige que todos reorganizem suas rotinas. “Um dos primeiros efeitos da quarentena é a desorientação atencional. A pessoa se sente mais confusa, menos concentrada, muito mais cansada. Ela pensa que vai trabalhar em casa e vai conseguir descansar, mas não é isso que acontece. Porque uma série de apaziguadores que nós temos no trabalho, como a pausa para o cafezinho ou a conversa com o colega, são suspensos”, aponta o psicanalista. 

"É uma crise geral, mas é muito importante a gente ter em mente que isso tudo vai passar. Pode demorar muito tempo, pode demorar mais tempo do que a gente gostaria, mas vai passar”, ressalta. É como uma guerra: uma hora termina. Dunker lembra que é uma situação que vai ter várias fases e agora estamos apenas começando. “Ter consciência disso é muito importante para fazer a travessia deste momento”, aponta. 

Dunker destaca os possíveis efeitos da quarentena em dois grupos de pessoas. O primeiro é de quem nunca foi ansioso, mas passa a ter ansiedade; nunca teve insônia, mas fica com dificuldade de dormir, apresenta reações muito agressivas ou irritadas; ou então começa a se sentir confuso ou desorientado. 

Do outro lado, estão aquelas pessoas cujos efeitos da quarentena irão intensificar as dificuldades e fragilidades que já estavam presentes antes. Por exemplo, para um paciente com uma orientação paranoide (um tipo de transtorno de personalidade), é possível que a quarentena ou incremente o sofrimento ou traga um efeito relativamente apaziguador. Outro exemplo são as pessoas com fobia social e que diariamente lutam para ir ao trabalho. Em casa, elas podem se ver em um ambiente mais protegido, mais favorável. 

Dunker conta que vários de seus pacientes com algum tipo de depressão disseram a ele que agora as coisas estavam melhores, pois antes da quarentena era muito difícil sair da cama ou de casa e agora não precisavam mais se preocupar com isso, podiam passar o dia de pijama, demorar mais para sair da cama, etc. O professor alerta que, no caso dessas pessoas, o que agora está sendo sentido como um relativo alívio, pode se tornar potencialmente mais grave com o passar do tempo. 

Uma atitude preditiva para um mal percurso, de acordo com o psicanalista, são aqueles que negam a gravidade da epidemia. “Esse tipo de negação é muito ruim porque, no fundo, a gente sabe que é uma espécie de autoengano, às vezes, de autoengano coletivo. E tende a produzir uma espécie de ruptura, de violação, de sentimento de traição, de instabilidade psíquica derivada da ruptura das nossas referências simbólicas”, diz. 

Dunker também chama a atenção para a forma como algumas pessoas lidam com o medo, emoção esperada diante da situação: com excessivo compartilhamento de informações. Ele destaca que os dados confiáveis são muito importantes, agem até como medidas protetivas. Mas há quem, em vez de se acalmar, se aquietar e se conter, age com muita compulsividade, seja na obtenção ou na disseminação de informações, sem uma reflexão ou contextualização. 

Tarefas a cumprir 

Quem está na quarentena tem algumas tarefas a cumprir, de acordo com o psicanalista. A primeira é a reorganização cotidiana, pensar em horários para fazer cada coisa. A segunda tarefa é cuidar da higiene e manter a salubridade corporal, pois vamos entrar em um período de baixa atividade física e isso nos fragiliza. Dunker diz que o YouTube é o melhor canal para encontrar a técnica mais adequada para cada pessoa. Mas é preciso selecionar bem as fontes de informação, também neste caso. 

Ele também recomenda a prática da meditação e lembra que o Conselho Regional de Psicologia autorizou o tratamento psicológico online. Se os sintomas de ansiedade e depressão passarem da conta, o psicanalista sugere procurar ajuda de um profissional da área e pensar em um tratamento via internet. 

Para o equilíbrio mental, o psicanalista sugere fazer pausas ao longo do dia e encontrar atividades que não sejam exatamente produtivas, mas sim restaurativas: pode ser uma leitura, a jardinagem, o cuidado com os animais, ou a arrumação de armários e da casa, mudar os móveis de lugar, etc. “Eu acho a leitura uma boa prática para isso, diferente das telas [televisão, celular, computador], porque a leitura convoca uma reestruturação da atenção da pessoa. Você precisa entrar no livro, seguir o personagem.” 

Outra coisa muito importante é a recuperação dos laços afetivos e sociais. Aquele avô ou avó talvez precise de alguns empurrões para, finalmente, entrar no mundo digital, e conversar, por exemplo, via Skype (um comunicador de voz e imagem via internet). 

Dunker lembra que há lugares onde o Skype fica ligado durante o dia, continuamente, e não apenas durante as ligações, assim podem ouvir e partilhar a rotina diária com pessoas que estão em outra residência. São usos diferentes para recursos que já estamos acostumados. 

Sobre as crianças, elas demandam, segundo o professor, uma atenção especial, pois terão mais dificuldades em substituir os laços físicos pelos digitais. É um momento para acompanhar o filho mais de perto, contar histórias, participar das brincadeiras, interações que foram perdidas ao longo do tempo. 

“Para os pais que vivem dizendo ‘eu não tenho tempo pra isso’, agora chegou o momento de fazer esses ajustes. Também é necessário observá-las, se pararam de brincar, se se isolaram demais, se estão comendo e dormindo direito, porque a quarentena é uma situação muito adversa e elas são muito sensíveis para captar a preocupação dos adultos”, informa o psicanalista. 

Os pais precisam falar a verdade sobre a quarentena porque, em geral, mentir nesse momento aumenta a problemática. A criança vai ter de lidar com pensamentos como “por que será que os meus pais estão me escondendo alguma coisa?”, além de todas as outras pressões que atingem a todos neste momento. Os idosos também demandam muita atenção pois geralmente mantêm uma relação muito específica com o cotidiano e são muito sensíveis às reformulações mais radicais 

Para Dunker, é um momento para cultivarmos a solidariedade, o altruísmo e também a humildade, pois estamos diante de algo maior e mais poderoso que nós. 

É preciso fazer essa travessia em conjunto e não viver esse momento de forma excessivamente individualizada. 

O pior e o melhor de cada um 

É uma situação limite, inédita, que está trazendo o melhor e o pior do ser humano. De um lado, o aumento abusivo do preço do álcool em gel e as pessoas estocando comida e papel higiênico. Do outro, exemplos de solidariedade, amizade e empatia, como os daqueles que se oferecem para fazer as compras dos vizinhos idosos. Para Dunker, isso traz respostas criativas, mas também respostas egoístas e destrutivas. Um bom conselho é ficarmos mais tolerantes com nós mesmos e com os outros. Ao mesmo tempo, poderão surgir oportunistas, que se aproveitarão desse momento delicado e da fragilidade alheia para enganar pessoas.  

A tendência é os preconceitos aumentarem. 

Na história da humanidade, as pestes sempre foram associadas com o estrangeiro. Isso às vezes se entranha nos delírios de perseguição que já estão aí funcionando no nosso lado social. Acho que o Brasil está em uma situação muito desvantajosa em relação a outros lugares pela situação de polarização”, opina. 

Segundo o professor, outra coisa bastante complexa, mas necessária de ser trazida à discussão, é que todos nós vamos ficar mais pobres. Temos menos produção e as pessoas que vivem na informalidade viverão um perigo maior, inclusive de sofrer efeitos secundários da quarentena, como dificuldades de se alimentar, e isso pode levar a um aumento da violência. “Esse é o lado pior. Mas, no aspecto positivo, quero crer que essa situação possa nos ajudar a reformular completamente nossos pactos de trabalho e financeiros”, sugere. 

Dunker diz que estamos vivendo em uma anomia (suspensão da ordem normal) e isso deve afetar e deve valorizar as novas formas de contratos que podemos estabelecer com funcionários, patrões, ciclos produtivos, etc. E isso não se resume a trabalhar ou dar aulas de casa. Vai muito além, pois é uma situação que vai durar muito tempo e vamos ter de nos preparar para isso, inclusive, reduzindo nossas expectativas de gastos e de ganhos, e entender isso como um processo comum a todos. 

Para o professor, vamos ter a oportunidade de ver a civilidade e a incivilidade da barbárie que já estava aí no País. Ele lembra que os esforços civilizatórios ainda podem ser tomados e as guerras – uma boa metáfora para o enfrentamento ao coronavírus – sempre trouxeram grandes avanços tecnológicos, inicialmente, na área da defesa, mas que depois foram integrados à sociedade. 

Dunker destaca que, atualmente, há um esforço para disciplinar a população, de fazer ela obedecer as orientações das autoridades de saúde e incorporar a ideia de que a quarentena está sendo feita para o bem coletivo e não individual. Para ele, estamos em uma circunstância que pode ser educativa para o nosso país. 

Como diz Freud, [Sigmund Freud (1856-1939), médico psiquiatra austríaco criador da psicanálise] é uma situação que pode convocar os nossos fantasmas para a gente bater um papo com eles e resolver assuntos pendentes.” 

Ebola, SARS e quarentena 

No dia 14 de março de 2020 revista científica The Lancet publicou a revisão The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence. Dentre 3166 artigos das bases Medline, PsycINFO e Web of Science analisados por pesquisadores do King’s College (Reino Unido), foram selecionados 24 estudos realizados em dez países sobre pessoas que passaram por quarentena em função da SARS, ebola, influenza H1N1, síndrome respiratória do Oriente Médio, e de influenza equina. 

A revisão mostrou que a quarentena pode trazer impactos psicológicos negativos, como estresse pós-traumático, confusão e raiva, entre outros. Dentre os fatores que levam ao estresse, os artigos destacam uma maior duração da quarentena, medos de infecção, frustração, tédio, suprimentos inadequados, perdas financeiras e estigmas. O texto destaca a importância de uma comunicação rápida e eficaz, de as pessoas em quarentena entenderem o porquê da situação, e os benefícios do isolamento, entre outras considerações. 

Dunker ressalta a qualidade dos artigos, mas aponta algumas diferenças em relação ao que está ocorrendo na sociedade brasileira, pois estamos enfrentando algo completamente distinto. Uma delas é o tempo de duração da quarentena. Um ou outro artigo da revisão citava períodos de 20 ou 30 dias. Aqui no Brasil, há estimativas de que a quarentena deve ultrapassar esse período. 

Outro ponto são as doenças analisadas, entre elas SARS e ebola, muito diferentes da covid-19. No caso da ebola, cuja letalidade é muito alta, Dunker lembra da variável cultural, pois os casos ocorreram em países africanos, onde a sociabilidade é diferente, e o agrupamento, a presença e o convívio com a família são bem distintos do restante do mundo.

Por: Valéria Dias (Jornal da USP).

Estudo Conclui Que Coronavírus SARS-CoV-2 Só Pode Ter Evoluído Naturalmente

Cientistas provam que novo coronavírus evoluiu naturalmente (Foto: Divulgação). Análise do genoma do vírus mostra que não é possível que o agente causador da Covid-19 tenha sido produzido em laboratório ou manipulado de outra forma. 

O novo coronavírus SARS-CoV-2 surgiu como resultado de uma evolução natural, segundo um artigo publicado na Nature Medicine [The proximal origin of SARS-CoV-2]. A análise de dados públicos da sequência do genoma do vírus causador da Covid-19 comprovou que o organismo não foi produzido em laboratório ou manipulado de outra forma. 

"Ao comparar os dados disponíveis da sequência do genoma para cepas conhecidas de outros coronavírus, pudemos determinar firmemente que o SARS-CoV-2 se originou a partir de processos naturais", disse Kristian Andersen, um dos autores do estudo, em comunicado. 

Os cientistas analisaram o modelo genético de proteínas spike, um tipo de "espinho" que fica do lado de fora do vírus e é usado para agarrar e penetrar nas paredes externas das células de humanos e animais. Mais especificamente, a equipe se concentrou em duas características importantes da proteína spike: o domínio de ligação ao receptor (RBD, na sigla em inglês), espécie de "gancho" que prende as células hospedeiras ao organismo, e o local da clivagem, que funciona como um "abridor de latas" molecular, permitindo que o vírus se abra e entre nas células hospedeiras. 

Os cientistas descobriram que o RBD das proteínas spike do SARS-CoV-2 evoluiu para atingir o ACE2, um receptor localizado no exterior das células humanas envolvido na regulação da pressão arterial. Segundo a equipe, a proteína é tão eficaz na ligação com as células humanas que ela só pode ser resultado da evolução natural. 

Essa evidência é apoiada por dados da "espinha dorsal" do SARS-CoV-2 — sua estrutura molecular geral. Para os especialistas, se alguém estivesse tentando projetar um novo coronavírus como patógeno, ele o teria construído a partir da espinha dorsal de um vírus já conhecido por causar doenças. O novo coronavírus, entretanto, difere substancialmente dos microrganismos já conhecidos — e se assemelha principalmente a vírus encontrados em morcegos e pangolins

"Essas duas características do vírus, as mutações na porção RBD da proteína spike e sua espinha dorsal distinta descartam a manipulação de laboratório como uma origem potencial para o SARS-CoV-2", afirmou Andersen

A origem do novo coronavírus

Com base em sua análise de sequenciamento genético, Andersen e seus colaboradores concluíram que há dois cenários possíveis que explicam as origens do SARS-CoV-2. No primeiro, o vírus evoluiu para seu estado patogênico atual por meio da seleção natural de um hospedeiro não humano e, então, pulou para os seres humanos. No outro cenário, uma versão não patogênica do vírus saltou de um hospedeiro animal para o homem e depois evoluiu para seu estado patogênico atual na população humana. 

Por enquanto, os especialistas dizem que é difícil determinar como, de fato, o novo coronavírus surgiu. Ainda assim, descobrir que ele é resultado da evolução natural é muito importante "para trazer uma visão baseada em evidências aos rumores que circulam sobre as origens do vírus (SARS-CoV -2) causador da Covid-19", disse Josie Golding, coautora do estudo.


Remédio Japonês Avigan Tem Efeito Positivo Em Teste Contra Coronavírus

Cerca de 80 pacientes tiveram melhora mais rápida e eliminaram o vírus do organismo mais rápido. 

Testes preliminares feitos com um pequeno grupo de pacientes na China sugerem que um medicamento desenvolvido para combater outras doenças virais também poderia ter efeitos positivos contra a atual pandemia de Covid-19, informa a agência de notícias Reuters

Trata-se do favipiravir, produzido comercialmente no Japão com o nome de Avigan. O fármaco ainda não tem registro na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), não podendo, portanto, ser vendido no Brasil. Hoje, ele é produzido apenas sob demanda no país onde foi desenvolvido. 

Segundo Zhang Xinmin, funcionário do Ministério da Ciência e Tecnologia da China, cerca de 80 pacientes da região de Shenzhen que receberam o remédio tiveram melhora mais rápida de seus sintomas respiratórios e demoraram menos tempo para eliminar o vírus de seu organismo. De acordo com o Nikkei Asian Review, jornal japonês de língua inglesa, essas melhoras se deram após 4,6 dias (no caso da tosse) e quatro dias (no caso dos testes sobre a presença do material genético do vírus), contra uma média de seis e 11 dias dos pacientes que não tomaram o remédio. 

Os dados disponíveis até o momento indicam que o favipiravir atrapalha o processo de cópia do RNA, molécula “prima” do DNA que serve de material genético para muitos vírus, como o novo coronavírus, ou Sars-CoV-2, e também os causadores da febre amarela, da gripe e do Ebola

Ao impedir que esses vírus produzam novas cópias de seu genoma, a droga seria capaz de barrar a reprodução viral nas células humanas. 

Durante o surto de Ebola de 2014, que matou mais de 11 mil pessoas, o medicamento japonês chegou a ser testado contra o vírus da doença, mas mostrou efeitos positivos apenas em pacientes que tinham quantidade relativamente baixa do parasita em seu organismo. 

O governo do Japão considera que ele poderia ser uma linha de defesa possível contra novas variantes perigosas de vírus da gripe. 

Os resultados ambíguos da droga no combate ao Ebola, bem como a dificuldade geral de produzir medicamentos antivirais altamente eficazes, sugerem que ainda é cedo para considerar remédios como o favipiravir uma opção viável para tratar a Covid-19. Além disso, é preciso considerar o risco de efeitos colaterais, ainda não detectados por não ter ocorrido uso em massa. 

Apesar disso, as ações da Fujifilm, cujo braço farmacêutico fabrica a droga, subiram 15%. A empresa, porém, ressaltou que sua licença para produzir o medicamento na China expirou em 2019. Isso deve abrir espaço para que, caso necessário, os chineses produzam uma versão genérica do remédio.

Por: Reinaldo José Lopes (Folha de S. Paulo).

As Pandemias: Uma Questão de Política Ambiental

A partir do momento em que animais silvestres são extraídos dos seus habitats e inseridos no ciclo alimentar humano de forma ilegal e sem qualquer controle fitossanitário, uma cadeia causal de doença, contágio e pânico se estabelece nos sistemas sociais. 

O trajeto do novo coronavírus (Covid-19) é ilustrativo da vulnerabilidade ambiental em que se encontra a população mundial. Caso as teses sobre a origem do vírus sejam comprovadas, encontramos um rastro predatório e ilegal, que envolve redes de tráfico de animais silvestres e espécies ameaçadas de extinção. A trajetória ecológica do vírus revela essa cadeia e tem início nas populações de morcegos como seu hospedeiro original. 

As pesquisas recentes mostram, no entanto, que o Manis pentadactyla ou “pangolim”, uma espécie de tatu, como o hospedeiro intermediário do vírus, o qual é consumido de forma ilegal por certos estratos da população asiática. É a partir daí que o vírus segue para o sistema digestivo e depois respiratório do Homo sapiens. A cadeia ecológica do vírus, portanto, inicia em animais silvestres restritos a ambientes específicos da Ásia e termina se reproduzindo e se disseminando em escala global. 

O que é notório no caso do Covid-19 não é apenas a evolução dessa pandemia, mas a forma como a caixa de pandora foi aberta. O Manis pentadactyla é um dos animais silvestres mais comercializados de forma ilegal no continente asiático. Uma espécie em extinção que, por ventura, tornou-se hospedeiro intermediário do vírus, após, à procura de pequenos insetos, ingerir ocasionalmente as fezes de uma população de morcegos, que detinha o Covid-19 de forma estacionada em sua população e habitat. No entanto, é sobretudo pela existência do tráfico ilegal desse animal silvestre nos mercados clandestinos, situados na cidade chinesa de Wuhan, que o vírus encontrou o hospedeiro mais apropriado para sua reprodução e disseminação, o Homo sapiens

A trajetória do vírus revela a relação desequilibrada e disfuncional dos assentamentos humanos com o ambiente natural; a demanda pelo consumo de animais silvestres; e a inerente incapacidade de contenção dos impactos de uma endemia, em qualquer uma das metrópoles urbanas globais. 

A existência de organismos como o Covid-19, ou mesmo de outros tipos de vírus da família dos coronavírus, como é o caso do Sars-cov de 2002, tem o morcego como hospedeiro original. Ambos vírus e suas respectivas epidemias derivadas, 2002 e 2020, revelam o potencial de disseminação de doenças contidas em animais silvestres. E, justamente, são ecossistemas naturais que mantêm esses animais reservados aos seus ambientes originais. A partir do momento em que esses animais são extraídos dos seus habitats e inseridos no ciclo alimentar humano de forma ilegal e sem qualquer controle fitossanitário, uma cadeia causal de doença, contágio e pânico se estabelece nos sistemas sociais. 

Em segundo lugar, a demanda pelo consumo de animais silvestres, em geral, proibidos pelas legislações ambientais nacionais, indica como certos estratos da população ainda mantêm hábitos de consumo predatórios com o tempo presente, além de representar uma ameaça para toda população humana. Foi o tráfico ilegal do pangolim que abriu a caixa de pandora do Covid-19. E esse só existe pela demanda pelo consumo de animais silvestres. 

Em terceiro lugar, a incapacidade de contenção de endemias globais dos governos nacionais, sejam quais forem. Seria injusto atribuir a responsabilidade desse combate à Organização Mundial da Saúde, um órgão de coordenação de políticas de saúde e não de combate ao tráfico internacional de animais silvestres. 

Em síntese, as pandemias têm menos relação de causalidade com as políticas de saúde e mais com a política ambiental global. E essa retoma a crise sistêmica pela qual passa a população mundial no século XXI, uma crise entre o homem e sua relação com o ambiente natural.

Por: André Frota (Página 22).

Cuba Tem Antiviral Para Tratar Coronavírus e Pode Exportá-lo

Cuba produz o Interferon Alpha 2B, um medicamento usado pela China para tratar pacientes com coronavírus e que gerou interesse de compra em cerca de 15 países, informaram especialistas médicos da ilha no dia 13/03/2020. 

É um antiviral que repõe as defesas humanas. "O Interferon é um produto terapêutico, não é uma vacina", disse Eduardo Martínez, presidente do grupo industrial estatal BioCubaFarma, negando publicações nas redes sociais que informavam que havia uma cura para essa pandemia no país. 

Ele lembrou que, segundo a associação farmacêutica chinesa, "entre as propostas [para combater o coronavírus], o primeiro produto de ação antiviral recomendado é o Interferon", entre trinta opções. 

Martínez explicou que, além de Cuba, o medicamento também é fabricado por uma joint venture na China, o que facilitou o tratamento. 

"É um medicamento que temos todas as capacidades para fornecer ao sistema nacional de saúde em Cuba e na China". 

Como mais tarde especificou o diretor do Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia de Cuba (CIGB), Eulogio Pimentel, existem cerca de 15 países interessados em adquirir o produto na América Latina, Europa, África e Ásia

Temos um "inventário de Interferon, de produto acabado, para os casos que em um horizonte de três a seis meses podem aparecer em Cuba. E, em processo, temos um inventário equivalente para tratar todos os infectados que ocorreram na China", acrescentou. 

Nos surtos de outros coronavírus e Sars, os interferons foram usados para prevenção e tratamento, explica a vice-presidente do CIGB, Marta Ayala

"Os interferons são moléculas que o próprio corpo produz contra ataques virais. É uma primeira defesa natural do sistema imunológico para combater a entrada do vírus e inibi-lo", acrescenta. 

Mas o coronavírus, em vez de induzir a produção de interferons, diminui. "De alguma forma, administrar o Interferon de fora pode ser uma abordagem correta em meio à variedade de tratamentos utilizados", avalia. 

O medicamento é administrado através de injetáveis, mas na China foi aplicado por nebulização "porque é uma via rápida de chegada aos pulmões e atua no estágio inicial da infecção", afirmou Ayala

Até agora, quatro casos de coronavírus foram registrados na ilha. 

O governo está produzindo 1 milhão de máscaras. O turismo é um importante motor da economia cubana. No momento, o governo não previu o fechamento de suas fronteiras e reforçou o controle de entrada.



Gripe Espanhola: O Que Podemos Aprender Com a Pandemia Que Matou Milhões Há 100 anos

Estima-se que entre 50 e 100 milhões de pessoas tenham morrido por causa da gripe espanhola.

Há 100 anos, o mundo ainda se recuperava de uma guerra que havia matado cerca de 20 milhões de pessoas quando teve de enfrentar algo ainda mais mortal: uma pandemia de gripe. 

Acredita-se que a gripe espanhola tenha começado a se disseminar nos lotados campos de treinamento militar no front ocidental da 1ª Guerra Mundial. As condições insalubres, especialmente nas trincheiras ao longo da fronteira francesa, ajudaram a fazer com que o vírus se espalhasse. 

A guerra terminou em novembro de 1918, mas, quando os soldados voltaram para casa, levaram o vírus com eles. Estima-se que entre 50 e 100 milhões de pessoas tenham morrido emtre 1918 e 1920. O mundo passou por muitas pandemias desde então — houve pelo menos três de gripe —, mas nenhuma pandemia foi tão mortífera ou tão abrangente. 

Enquanto o mundo combate a disseminação da covid-19, como é chamada a doença causada pelo novo coronavírus, devemos nos perguntar: o que aprendemos com a gripe espanhola, uma das enfermidades mais devastadoras da história recente? 

Medidas para conter o vírus 

Muitas das pessoas que morrem de covid-19 estão sucumbindo a uma pneumonia que ocorre quando o sistema imunológico é enfraquecido pelo combate ao novo coronavírus. 

Isso é um ponto em comum com a gripe espanhola. As pessoas idosas e com sistema imunológico comprometido, que são a maioria das que foram mortas pela covid-19 até agora, são mais suscetíveis a infecções que causam pneumonia. 

Por outro lado, as viagens aéreas estavam apenas começando quando a gripe espanhola ocorreu. Mesmo assim, poucos lugares na Terra escaparam de seus efeitos terríveis.


Isolamento de pacientes e restrições de circulação são um dos maiores legados da gripe espanhola.

A gripe espanhola se espalhou pelo mundo de forma mais lenta, especialmente por meio de navios e trens de passageiros, e não por aviões. Alguns lugares permaneceram meses ou até mesmo anos sem serem afetados. 

Mas aqueles que conseguiram manter a gripe afastada por um certo tempo geralmente empregaram técnicas básicas que ainda são usadas um século depois. 

No Alasca, uma comunidade na Baía de Bristol escapou da gripe quase incólume ao fechar escolas, proibir reuniões públicas e impedir o acesso à vila pela estrada principal. 

Foi uma versão mais simples das restrições de viagem que foram usadas em algumas áreas em meio à atual pandemia, como a Província de Hubei, na China, e na Itália, em um esforço para impedir a propagação do coronavírus. 

'Maior holocausto médico da história' 

Os médicos descrevem a gripe espanhola como o "maior holocausto médico da história" não apenas pelo fato de ter matado tantas pessoas, mas porque muitas de suas vítimas eram jovens e saudáveis. 

Normalmente, um sistema imunológico saudável pode lidar razoavelmente bem com uma gripe, mas a gripe espanhola sobrecarregava tão rapidamente nossas defesas naturais que causava uma reação imune exagerada conhecida como tempestade de citocinas, inundando os pulmões com fluido e o transformando no ambiente perfeito para o desenvolvimento de doenças secundárias.


Voluntários da Cruz Vermelha no combate à gripe espanhola.

Curiosamente, os idosos não eram tão suscetíveis, talvez porque tinham sobrevivido a uma cepa de gripe muito semelhante, que começou a se espalhar pelas populações humanas na década de 1830. 

Com o novo coronavírus, idosos e pessoas com doenças pré-existentes são considerados sob maior risco, e sua letalidade costuma ser maior entre aqueles com mais de 80 anos. 

Sistemas de saúde pública 

A gripe espanhola eclodiu em um mundo que havia acabado de sair de uma guerra global, com recursos públicos vitais desviados para os esforços militares. 

A ideia de um sistema de saúde pública era ainda incipiente. Em muitos lugares, apenas a classe média ou os mais ricos podiam se dar ao luxo de se consultar com um médico. 

A gripe matou muitos em favelas e outras áreas urbanas pobres, entre segmentos da população com má nutrição e saneamento ruim e, frequentemente, entre quem tinha outros problemas de saúde. 

A gripe espanhola estimulou o desenvolvimento de sistemas de saúde pública em todo o mundo, à medida que cientistas e governos perceberam que as pandemias se espalhariam mais rapidamente do que no passado. 

Tratar as pessoas caso a caso não seria suficiente. Para lidar com pandemias em ambientes urbanos, os governos teriam de mobilizar recursos como se estivessem em uma guerra, colocando em quarentena aqueles com sintomas da doença e mantendo os casos mais leves separados dos mais graves e limitando a circulação das pessoas. 

As medidas de saúde pública que vemos sendo empregadas hoje em todo o mundo para conter a disseminação do novo coronavírus são um dos efeitos mais duradouros da gripe espanhola.

Por: Stephen Dowling (BBC Future). Título original em português: Coronavírus: o que podemos aprender com a gripe espanhola, pandemia que matou milhões há 100 anos. Fonte: BBC News Brasil.

Coronavírus e Mudança Climática: Quando Duas Crises Se Encontram

O surto de covid-19 gerou retração das atividades econômicas na China e uma consequente redução das emissões. Há quem veja aí a confirmação de que seria possível conter a produção global em favor do clima. 

A China, maior emissora de gases de efeito estufa do mundo, não planeja cortar suas emissões num futuro próximo. No contexto do Acordo do Clima de Paris, o país prometeu atingir seu pico de emissões até 2030. Portanto, ao longo da próxima década elas só vão aumentar. 

Agora, de repente, essa colossal economia movida a carvão mineral cortou em 25% os gases emitidos, segundo números compilados por Lauri Myllyvirta, do Centro de Pesquisa sobre Energia e Ar Limpo da Universidade de Helsinque (Finlândia). Não por causa da crise climática, mas devido à emergência de saúde pública causada pela doença covid-19: "É bastante inédito uma coisa assim acontecer praticamente do dia para a noite", comentou à DW

Desde o fim de janeiro de 2020, Wuhan, a cidade da província de Hubei com 11 milhões de habitantes no centro do surto do novo coronavírus, está isolada. Com os negócios e fábricas da província fechados e centenas de milhões de cidadãos por todo o país paralisados pelas abrangentes restrições de viagem, as imagens de satélites da Nasa mostram uma China praticamente limpa de óxido nitroso. 

Por todo o mundo, a aviação está prevendo perdas significativas: a companhia britânica Flybe entrou em colapso, eventos esportivos e conferências internacionais foram cancelados, e escolas, fechadas. Economistas advertem contra possível recessão na Alemanha e no Japão, importantes parceiros comerciais da China. Há previsões de que o crescimento global desacelerará, enquanto a demanda por petróleo tem caído mais rápido do que em qualquer outra época, desde o crash financeiro de 2008. 

Bom para o planeta, bom para a economia? 

Tudo isso parece ser boas novas para o planeta – pelo menos no curto prazo. "Suponha que você seja um tomador de decisões e esteja pensando no que fazer para reduzir as emissões: você acabou de receber uma ótima instrução", comenta Amy Jaffe, diretora do programa de Segurança Energética e Mudança Climática do Conselho de Relações Exteriores (CFR, na sigla em inglês), em Nova York

A seu ver, o vírus está exigindo que a humanidade mude seus hábitos de maneiras que poderão constituir uma contribuição de mais longo prazo para a proteção climática: trabalhar de casa, videoconferências, jornadas semanais mais breves ou horários de escritório alternados para reduzir o tráfego. 

As companhias também poderão concluir que o que é bom para o planeta – a produção localizada – é um modo sensato de proteger suas cadeias de abastecimento de todo tipo de risco, tais como os eventos meteorológicos extremos relacionados à mudança climática. 

"Elas realmente precisam pensar sobre todos esses eventos, que poderiam realmente arruinar suas cadeias de abastecimento, e sobre o que vão fazer para torná-las mais resistentes", observa Jaffe

Ainda assim, a principal parcela das reduções de emissões das últimas semanas na China vem de uma desaceleração da manufatura, e isso é algo que poucos políticos defenderiam como política oficial, fora de uma crise imediata. 

Myllyvirta, da Universidade de Helsinque, relata que na China a pressão para retomar os negócios normalmente é tão grande que há notícias de governos locais ordenando que fábricas sem empregados coloquem suas máquinas para funcionar – na esperança de que seus superiores vejam o consumo de eletricidade como um sinal de recuperação. 

Depois da crise, a intensificação 

Após a crise financeira de 2008, "que também resultou numa queda dramática das emissões na China e numa melhora significativa da qualidade do ar, pois os setores exportadores também despencaram", Pequim lançou um gigantesco programa de estímulo centrado em construções, provocando um salto nas emissões. 

Histórias como essa não são um bom sinal para o clima num cenário pós-crise, quando o país está ansioso para colocar a economia de volta em andamento. Myllyvirta antecipa que o investimento estatal nas chamadas "indústrias de chaminés", visando manter a meta nacional de crescimento, poderá gerar emissões que mais do que cancelarão as reduções das últimas semanas. 

Ele espera que, em vez disso, a China opte por um caminho de crescimento mais lento, "de alta qualidade", baseado em serviços, consumo doméstico e investimento em tecnologia verde e fontes de energia renováveis. Outros argumentam que fomentar o consumo sempre representa um custo para o planeta, e que a obsessão global pela expansão do PIB faz pouco mais sentido do que botar fábricas vazias para funcionar só para manter as cifras no alto. 

"A única hora em que vemos as emissões se reduzirem significativamente é quando os países – ou o globo – entram em recessão", diz Jon Erickson, do Instituto Gund da Universidade de Vermont (EUA), que estuda vetores de doenças infecciosas emergentes em relação à mudança climática. "Esses momentos realmente indicam a que ponto as emissões de gases de efeito estufa estão atadas ao crescimento econômico", completa. 

Embora sejam boas para o clima, recessões são terríveis para a população, sobretudo para aqueles que menos se beneficiam das economias baseadas em combustíveis fósseis. Entre os mais duramente atingidos pela reação de Pequim ao coronavírus, estão os trabalhadores migrantes de baixa renda que já levam vidas precárias. 

Coronavírus como oportunidade 

No entanto, os defensores de uma contração controlada da atividade econômica a fim de proteger o clima creem que choques como o atual surto servem para ilustrar as alternativas radicais que a humanidade tem diante de si. 

"Não queremos nunca ter que agir em modo de crise", diz Erickson. Em vez disso, temos "uma janela de cinco a dez anos para transformar completamente a economia, de forma a poder reduzir o pior lado da contração, para protegermos os mais vulneráveis". 

Caso isso soe ridiculamente otimista, as últimas semanas sugeriram que o mundo é capaz de agir rápido e em grande escala quando uma crise é considerada suficientemente urgente. "Se tratarmos verdadeiramente o clima como emergência – como estamos tratando esta pandemia – precisamos ter um nível semelhante de coordenação internacional, a começar com a rápida redução dos investimentos em combustíveis fósseis", aconselha Erickson

Transmitindo-se de pessoa a pessoa e enviando tremores econômicos por todos os seis continentes, o coronavírus enfatizou quão estreitamente interconectada é nossa comunidade global. 

A reverberação ao longo das cadeias de abastecimento também revela nossa responsabilidade coletiva pelas emissões, uma vez que as fábricas da China suprem negócios e consumidores do Ocidente. Negligenciar essa responsabilidade pode acarretar crises muito mais dolorosas do que qualquer outra já vista até o momento. 

Contando mais de 3 mil vítimas mortais em todo o planeta, a covid-19 ainda parece muito menos letal do que os combustíveis fósseis, os quais – segundo um estudo para o Greenpeace, do qual Myllyvirta é coautor – são responsáveis, a cada ano, por 4,5 milhões de mortes relacionadas à poluição atmosférica, sem considerar os impactos climáticos. 

No entanto os cientistas alertam que condições climáticas mais quentes e úmidas estão elevando a probabilidade de tais epidemias, e ninguém sabe quão mortal será o próximo surto. "Esta é uma oportunidade para falar de estabilização econômica e redução planejadas", propõe Jon Erickson. "A economia vai se contrair, bater em seus limites, cair em colapso por si só. Isso é o que vai doer mais."

Por: Ruby Russell (Deutsche Welle).