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Astrônomos Mostram Por Que Região do Sol na Via Láctea é Habitável

Pesquisa comprovou que o giro do Sol acompanha, em velocidade, o giro dos braços espirais – Foto: Divulgação / ESO.

Desde que Copérnico teorizou que a Terra girava em torno do Sol, aprendemos que nada no universo está parado. Não apenas a Terra gira em torno de si mesma, como ao redor do Sol e o próprio Sol, no centro da Via Láctea, também se move. O que os físicos não compreendiam até então era se esse movimento do Sol atravessaria, eventualmente, o que chamamos de “braços espirais” da Via Láctea, estruturas que circundam a galáxia e berço de incontáveis novas estrelas. 

Ao utilizarem dados precisos de posições de estrelas jovens e cálculos detalhados de órbitas na galáxia, uma nova pesquisa mostrou que o Sol reside permanentemente no meio de dois braços espirais importantes da galáxia, Sagittarius e Perseus. De acordo com a descoberta, o Sol jamais cruza os braços espirais, evitando um evento catastrófico que poderia causar extinções em massa na Terra

O trabalho foi realizado por uma equipe liderada por Jacques Lépine, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP

Nossa galáxia tem a forma de um disco achatado formado de estrelas e de gás. Como muitas galáxias, ela apresenta os tais “braços espirais” – estruturas espiraladas de matéria mais brilhante que contêm estrelas jovens e luminosas. As estrelas do disco galáctico giram em torno do centro da galáxia da mesma forma que os planetas giram em torno do Sol. O Sol não é diferente, e demora 200 milhões de anos para dar uma volta galáctica. 

Observando atentamente os chamados masers, uma amplificação de microondas por emissão estimulada de radiação, especialistas puderam calcular com precisão a distância entre os braços espirais e os demais corpos que constituem a galáxia. “Utilizamos radiotelescópios separados por milhares de quilômetros para medir e observar a velocidade com a qual essas fontes se deslocam no céu”, sumariza Lépine

“Não conseguimos ver os braços porque sua estrutura é bastante plana, mas quando se vê uma outra galáxia, conseguimos enxergar as formas espiraladas”, explica Lépine. Essas estruturas são especialmente muito visíveis por serem o local de nascimento das estrelas, que, dependendo da sua massa, podem ser muito luminosas.

Ilustração (abaixo): braços espirais são estruturas espiraladas de matéria mais brilhante que contêm estrelas jovens e luminosas. 

De forma simplificada, o especialista explica que, ao estabelecer um ponto inicial, astrônomos podem, por meio de cálculos, observar por onde uma estrela já passou ou irá passar. “Qualquer estrela – o Sol, por exemplo – gira em torno do centro da galáxia”, reforça ele. 

Na pesquisa inédita, astrônomos da USP descobriram que o Sol e os braços espirais giram com a mesma velocidade. Isto é algo que só acontece para estrelas que se encontram aproximadamente na mesma distância do centro galáctico que o Sol, cerca de 26.000 anos-luz. Como o Sol anda junto com os braços espirais, ele nunca os cruzará. 

“Sempre se especulou sobre o que acontece cada vez que o Sol atravessa os braços, e se pensava que isso acontecia periodicamente, por exemplo, a cada 150 milhões de anos”, contou Lépine. “Mas de acordo com os nossos cálculos isso não acontece nunca.” 

Para melhor compreender a descoberta, o professor ilustra ao explicar que, se desenharmos uma espiral em um CD e o colocarmos para girar, notaremos que o desenho não se altera, acompanhando o giro do disco. “Na galáxia, os braços também, eles giram como se fossem um desenho constante”, revela. 

Quando não se sabia que o Sol permaneceria sempre entre os dois braços, especialistas acreditavam que, de tempos em tempos, ele atravessaria a estrutura. Como o braço é uma região que contém explosões de supernovas e nuvens de gases moleculares, as hipóteses incluíam uma infinidade de eventos cataclísmicos. A passagem do Sol “poderia causar um grande fluxo de raios cósmicos, que poderia acabar com a vida em episódios de extinção em massa ou provocar mudanças climáticas”, lista o professor. 

Entretanto, de acordo com os cientistas, nos últimos 2 bilhões de anos o Sol não atravessou nenhum dos braços. 

A pesquisa também explica a existência de um pequeno braço anômalo na Via Láctea, chamado de “Braço Local”. De acordo com o grupo de Lépine, o “Braço Local” foi formado por muitas estrelas que, como o Sol, ficam “presas” entre os braços de Sagittarius e Perseus

O trabalho possui apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) via Programa de Excelência Acadêmica (Proex). 

O artigo The Dynamical Origin of the Local Arm, and the Sun´s Trapped Orbit (Jacques R. D. Lépine, Tatiana A. Michtchenko, Douglas A. Barros, Ronaldo S. S. Vieira) foi aceito para publicação na revista Astrophysical Journal e pode ser acessado neste link.

Por: Denis Pacheco (Jornal da USP).

Onde é o limite do Universo?

O que está além do universo conhecido? Onde acaba o universo? Ou melhor, ele acaba? Definir o “além do universo” implicaria que o universo tem uma borda. E é aí que as coisas ficam muito complicadas, porque os cientistas não estão certos se tal borda existe. A resposta depende de como se vê a questão. 

Princípio cosmológico 

Existiria algum lugar ao qual poderíamos ir e “ver” o que está “além do universo”, como se pode espiar além da borda de um penhasco ou para fora de uma janela? Essa questão envolve o “princípio cosmológico”, de acordo com Robert McNees, professor de física na Universidade Loyola em Chicago, nos EUA

O princípio cosmológico dita que a distribuição da matéria em qualquer parte do universo parece praticamente a mesma que em qualquer outra parte, independentemente da direção que você olha. Em termos científicos, o universo é isotrópico. 

“Há muita variação local - estrelas, galáxias, aglomerados etc -, mas, em média, em grandes pedaços de espaço, nenhum lugar é realmente tão diferente do que qualquer outro”, disse McNees

Logo, não há qualquer “borda”; não há nenhum lugar onde o universo apenas termina para que uma pessoa pudesse ver o que está além dele. 

O universo como um balão 

Uma analogia frequentemente usada para descrever este universo sem bordas é a superfície de um balão. Uma formiga em tal superfície pode andar em qualquer direção e ela parecerá “ilimitada” – isto é, a formiga pode voltar para onde começou, mas não haveria fim para a viagem. 

Assim, mesmo que a superfície de um balão tenha um número finito de unidades quadradas, não há nenhuma borda, fronteira ou centro. O universo é como uma versão tridimensional da superfície de tal balão.

Um balão expandindo 

Sabemos que o universo está se expandindo, mas como, se não há fim ou borda nele? 

Usando a analogia do balão novamente, se adicionássemos mais ar para o balão, a formiga observaria as coisas na superfície do balão ficando mais longe. E quanto maior a distância entre a formiga e algum objeto, mais rápido o objeto estaria recuando. 

Mas não importa para onde a formiga fosse, a velocidade com que esses objetos se afastariam dela seguiria as mesmas relações. 

Essa pergunta não deveria ser feita 

Por definição, o universo contém tudo, por isso não há “lá fora”. 

O físico Stephen Hawking, por exemplo, crê que essa questão – se o universo tem uma borda – não faz sentido, porque se o universo veio do nada e trouxe tudo à existência, perguntar o que está além do universo é como perguntar qual é o norte do Polo Norte

O universo observável 

Existe um limite para o tamanho do universo que os humanos podem ver, chamado de universo observável, conforme explicou a Dra. Katie Mack, astrofísica teórica da Universidade de Melbourne, na Austrália

Este tamanho é de 46 bilhões de anos-luz em qualquer direção, mesmo que o universo tenha nascido apenas 13,8 bilhões de anos atrás. Qualquer coisa fora desse raio não é visível para os terráqueos, e nunca será. Isso porque as distâncias entre os objetos do universo continuam ficando maiores a uma taxa que é mais rápida do que os feixes de luz podem chegar à Terra

Em cima disso, a taxa de expansão não é uniforme. Por uma breve fração de segundo após o Big Bang [teoria cosmológica dominante sobre o suposto desenvolvimento inicial do universo], houve um período de expansão acelerada chamado de inflação, durante o qual o universo cresceu a um ritmo muito mais rápido do que está crescendo agora. Regiões inteiras do espaço nunca serão observáveis da Terra por esse motivo. 

Mack ainda nota que, assumindo que a inflação aconteceu, o universo é realmente 10^23 vezes maior do que os 46 bilhões de anos-luz que os seres humanos podem ver. Portanto, se há uma borda para o universo, é tão longe que nunca a veremos. 

Um espaço infinito? 

Enquanto isso, há a questão de saber se o universo é na verdade infinito, uma que Mack disse ainda estar em aberto. 

O universo pode “dar a volta” em torno de si mesmo da mesma forma que a superfície de uma esfera 2D envolve-se em três dimensões (isso implicaria uma quarta dimensão espacial). Ou pode ser infinito. 

Alguns pesquisadores estão tentando descobrir se o universo é como uma esfera através da observação de pontos repetidos no céu. Se astrônomos encontrarem dois lugares em lados opostos do céu que são exatamente iguais, isso seria um forte indício de que o universo é curvo. Não há garantias, no entanto. 

Além de existir a possibilidade real de que o universo não tenha um limite, é mais provável que nós nunca descobriremos a resposta a essa pergunta. 

Por: Jesse Emspak (LiveScience).

A 'Peneira' Que Transforma Água do Mar em Água Potável

Segundo uma pesquisa realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), aproximadamente 40% da população mundial sofre com a falta de água. Esse grave problema, além de aumentar consideravelmente a sede no mundo, traz graves consequências para economia e política das nações. 

Foi tentando solucionar esse problema que pesquisadores da Universidade de Manchester, no Reino Unido, desenvolveram uma peneira capaz de transformar água do mar em água potável. 

Os resultados da pesquisa [Tunable Sieving of Ions Using Graphene Oxide Membranes] foram publicados na revista científica Nature Nanotechnology e mostram que a peneira foi criada utilizando o óxido de grafeno (forma cristalina de carbono), substância altamente eficaz na dessalinização. 

O grafeno é uma substância composta por uma camada fina de átomos de carbono ordenada em um tipo de treliça hexagonal. Suas propriedades fizeram dele um dos materiais mais favoráveis para futuras aplicações. Mas, por ser bastante difícil e caro de ser produzido, o professor e pesquisador Rahul Nair resolveu utilizar na criação da peneira o óxido de grafeno, substância que pode ser facilmente feita em laboratório. 

Ele ressaltou, em entrevista ao site da Universidade de Manchester: “Em forma de solução ou tinta, podemos aplicá-lo em um material poroso e usá-lo como membrana. Em termos de custo do material e produção em escala, ele tem mais vantagens em potencial do que o grafeno em uma camada.” 

O material já havia sido testado anteriormente e apresentou um sério problema: quando inserido na água, a membrana feita com esse óxido tinha seu volume aumentado, deixando que as partículas de sais menores passassem junto com as moléculas aquáticas. 

Para resolver essa situação, os pesquisadores implantaram em cada lado da membrana uma espécie de parede feita de resina epóxi. Esse método parou com o inchaço, conseguindo ajustá-lo de forma que os sais passassem corretamente por entre os buracos. 

“A descoberta de membranas ajustáveis com tamanhos uniformes de poros até a escala atômica é um passo à frente significativo e irá abrir novas possibilidades para o desenvolvimento eficaz da tecnologia de dessalinização”, explicou Rahul. Ele ainda afirmou que esse processo poderá ser utilizado também para filtragem de íons. 

Esse estudo é bastante importante para o futuro, pois dados da ONU mostraram que até 2025 cerca de 1,2 bilhão de pessoas no mundo sofrerão com a falta de água. Por isso, o grupo de pesquisadores está aprimorando cada vez mais o estudo, para que essa tecnologia se torne viável para todos os países. 

Hoje são utilizadas duas técnicas de dessalinização: o multiestágio de destilação e a osmose reversa, entretanto, para Ram Devanathan, cientista do Laboratório Nacional do Noroeste do Pacífico, nos Estados Unidos, ambos os métodos são bastante prejudiciais, causando grandes impactos ambientais. O que deixa claro que o óxido de grafeno pode ser a melhor solução, afinal, além de ser mais barato, pode colaborar com o meio ambiente.


Diesel, O Assassino!

Óleo diesel mata, e um estudo publicado em 15/05/2017 calculou quanto: 38 mil mortes precoces tiveram relação com a queima desse combustível fóssil em 2015. As estimativas consideraram apenas os 11 países que mais consomem diesel no mundo, o que inclui o Brasil, e que juntos são responsáveis por 80% das emissões. 

O estudo Impacts and Mitigation of Excess Diesel-Related NOx Emissions in 11 Major Vehicle Markets, publicado no periódico Nature, constatou algo de que já se desconfiava: a diferença enorme que existe entre as emissões registradas em testes de certificação de carros, ônibus e caminhões e nas emissões reais monitoradas por órgãos de controle da poluição. 

Significa dizer que a combustão dos veículos a diesel libera uma quantidade muito maior de gases do que o previsto pelo fabricante ou registrado pela avaliação do agente de controle. Para dar uma ideia do que isso significa, foram 4,6 milhões de toneladas de óxidos de nitrogênio (NOx) além do limite estabelecido pelos órgãos reguladores em 2015 nesses 11 países, um valor 45% acima dos limites previstos. 

Mas por que isso acontece? As fraudes, como a da montadora alemã Volkswagen, que equipou 11 milhões de carros com um dispositivo que controla a liberação de gases apenas quando o carro passa por testes oficiais de emissões, explicam apenas uma parte dessa questão. A outra parte se deve à tecnologia de controle das emissões, que está em evolução. Na Europa, veículos leves liberam sete vezes mais poluentes do que informam seus certificados de emissões, de acordo com o pesquisador Joshua Miller, do ICCT, o Conselho Internacional para o Transporte Limpo, um dos autores do estudo. 

A boa notícia é que novas tecnologias já podem atenuar a diferença entre teoria e prática. A sexta fase do programa de controle de emissões, o Euro 6, como é chamado, permite aos fabricantes ajustar seus propulsores a uma condição de testes mais próxima da realidade. O Brasil ainda está na tecnologia anterior, o Euro 5, mas caminha nesta direção, ainda que com atraso. 

A situação do diesel no Brasil é melhor do que na Europa. O uso de motores a diesel em veículos leves é proibido pela lei brasileira, sendo utilizado apenas em caminhões, ônibus e veículos de tração 4×4 (que incluem as picapes médias, SUVs e crossovers). Mas esta diretriz está na berlinda, com o projeto de lei 1013/2011, do deputado Áureo (Solidariedade - RJ) que propõe liberar a fabricação e comercialização de veículos automotores leves movidos a óleo diesel em todo o território nacional. 

O projeto de lei já foi rejeitado pelas comissões de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio. Mesmo assim, foi tema de debate na Comissão Especial sobre Motores a Diesel para Veículos Leves e poderá seguir para o Senado sem passar por votação plenária. O retrocesso para a saúde, a economia e para o meio ambiente mobilizou a sociedade civil a escrever um manifesto [Um Atentado Contra a Democracia, o Ambiente, a Saúde e a Economia] enviado ao Congresso Nacional em junho de 2016, que reforça os perigos de liberar a produção de veículos leves movidos a diesel no país. 

De acordo com o pesquisador Cristiano Façanha, do ICCT, um dos revisores do estudo, caso o diesel seja liberado entre os veículos leves no Brasil, estima-se que cerca de 150 mil pessoas possam morrer de doenças relacionadas a estes poluentes nos próximos 30 anos. “O efeito para a saúde da população seria devastador”, disse. Do ponto de vista econômico, a adoção do diesel teria, ainda, efeito negativo nas tarifas de ônibus e no frete de mercadorias. “O aumento da demanda exerceria uma pressão maior no transporte público e no transporte de carga, veículos que funcionam, em sua maioria, à base de diesel”, disse. Sob o viés ambiental, o país passaria a emitir mais gases de efeito estufa – e o etanol perderia espaço para o diesel, um combustível fóssil altamente poluente. 

Mas qual o perigo da queima do diesel para a população? A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos alerta para os riscos da exposição prolongada aos vapores do óleo diesel, relacionados ao câncer de pulmão, doenças do sistema respiratório e cardíaco. Os motores a diesel, no processo de combustão, emitem gases à base de nitrogênio e materiais particulados que podem se transformar em um composto perigoso chamado ozônio, facilmente inalado. 

Para a atmosfera, o diesel é altamente danoso. A concentração de enxofre liberado na combustão pode gerar o ácido sulfúrico (H2SO4), que contribui consideravelmente para a formação da chuva ácida, podendo acidificar o solo e a água, além de contribuir com o aquecimento global e as mudanças climáticas.


Megausina de Energia Solar Encravada no Deserto Pretende Abastecer a Europa

O micro-ônibus atravessa um enorme planalto em uma estrada recém-pavimentada do deserto do Marrocos. O chão é de terra seca e está cheio de rachaduras. Ainda assim, a região não parece tão desolada quanto já foi no passado. Neste ano, ela virou o lar de uma das maiores usinas solares do mundo. 

Centenas de espelhos cruzados, cada um deles maior que um ônibus, estão enfileirados cobrindo 1,4 km² de deserto, uma área do tamanho de 200 campos de futebol. 

O enorme complexo está em um local ensolarado ao pé da cordilheira do Atlas, a 10 km de Ouarzazate, uma cidade cujo apelido significa “porta do deserto”. Com cerca de 330 dias de sol por ano, é o lugar ideal. 

Além de suprir as demandas domésticas de energia, o Marrocos espera um dia poder exportar energia solar à Europa. Essa usina tem o potencial para ajudar a definir o futuro energético da África e do mundo.

No dia da visita da reportagem da BBC, porém, o céu estava coberto de nuvens. “Nenhuma eletricidade será produzida hoje”, disse Rachid Bayed, da Agência Marroquina de Energia Solar (Masen, na sigla em inglês), responsável por implementar o projeto. 

Um dia de “folga” não os preocupa. Atualmente, a energia solar está sendo adotada por vários países que passaram a vê-la como a mais abundante fonte de energia limpa. 

Essa usina marroquina é apenas uma entre várias outras na África, e outras parecidas estão sendo construídas no Oriente Médio, na Jordânia, nos Emirados Árabes Unidos e na Arábia Saudita. O custo cada vez menor da energia solar a tornou uma alternativa viável mesmo nas regiões mais ricas em petróleo do mundo. 

Noor 1, a primeira fase da usina marroquina, já ultrapassou expectativas em termos de quantidade de energia produzida. É um resultado encorajador para o objetivo do Marrocos de reduzir a produção de combustíveis fósseis ao focar em energias renováveis e ainda assim atender às necessidades domésticas, que crescem em 7% todos os anos. 

A estabilidade do governo e da economia do Marrocos ajudou o país a conseguir investimento da União Europeia, que financiou 60% dos custos do projeto Ouarzazate

O país planeja gerar 14% de sua energia através do sol até 2020 e acrescentar outras fontes renováveis como vento e água ao plano com o objetivo de produzir 52% de sua própria energia até 2030. 

Isso torna o Marrocos mais ou menos alinhado com países como o Reino Unido, que quer gerar 30% de sua eletricidade através de energias renováveis até o fim da década, e os Estados Unidos, onde o ex-presidente Barack Obama havia determinado índice de 20% até 2030. 

Donald Trump ameaçou cortar o financiamento às energias renováveis, mas talvez suas ações não tenham grande impacto, já que muitas políticas são controladas por Estados e que grandes companhias já começaram a adotar fontes mais limpas e baratas. 

Os refletores da usina geralmente podem ser ouvidos enquanto eles se movem para seguir o sol como um campo gigantesco de girassóis. Os espelhos filtram a energia do sol e esquenta um óleo sintético que segue por uma rede de canos. 

As temperaturas podem chegar a 350ºC e o óleo quente é usado para produzir vapores de água em alta temperatura, alimentando um gerador movido a turbinas. “É o mesmo processo dos combustíveis fósseis, só que usamos o calor do sol como fonte”, diz Bayed

A usina continua gerando energia mesmo após o pôr do sol, quando a demanda chega ao pico. Parte dessa energia é guardada em reservatórios feitos de nitrato de sódio e potássio, o que mantém a produção por até mais três horas. Na próxima fase da usina, a produção continuará por até oito horas após o sol se pôr. 

Além de aumentar a produção de energia do Marrocos, o projeto Ouarzazate está ajudando a economia local. Cerca de 2 mil funcionários foram contratados durante os dois anos iniciais da construção, sendo que muitos deles são marroquinos. 

Estradas foram construídas para criar acesso à planta e conectá-la às cidades mais próximas, ajudando as crianças a chegar até a escola. Além disso, uma grande quantidade de água foi levada ao complexo através de encanamentos, dando acesso a água para mais 33 vilarejos. 

Masen também ensinou práticas sustentáveis a fazendeiros da área. No pequeno vilarejo de Asseghmou, a 48 km da cidade de Ouarzazate, a forma como ovelhas são criadas mudou. 

A maioria dos fazendeiros ali dependiam apenas de sua experiência, mas agora estão entrando em contato com técnicas mais confiáveis, como simplesmente separar os animais em suas gaiolas, o que está aumentando a produtividade. 

A Masen também doou ovelhas para criação a 25 fazendas. “Agora eu tenho mais segurança nos alimentos”, diz Chaoui, dono de uma fazenda local. E sua amendoeira está prosperando graças às dicas de cultivo. 

Ainda assim, alguns locais se preocupam com a usina. Abdellatif, que vive na cidade de Zagora, 120 quilômetros ao sul dali, onde há taxas mais altas de desemprego, acha que Masen deveria se concentrar em criar empregos permanentes. 

Ele tem amigos que foram contratados para trabalhar lá, mas apenas por alguns meses. Uma vez que entrar em operação total, a usina empregará entre 50 e 100 funcionários, apenas. “Os componentes da usina são feitos no exterior, mas seria melhor produzi-los aqui para gerar trabalho contínuo para os moradores locais”, diz. 

Um problema maior é a enorme quantidade de água que a usina utiliza da represa de El Mansour Eddahbi. Nos últimos anos, a escassez de água tem sido um problema na região semidesértica e houve cortes no fornecimento. 

A agricultura ao sul do Vale Draa depende da água da represa, ocasionalmente despejada no rio local, que geralmente é seco. O coordenador da usina, Mustapha Sellam, diz que a água usada pelo complexo representa 0,05% do abastecimento, pouco comparado à sua capacidade. 

Ainda assim, o consumo da usina é o bastante para fazer uma diferença na vida dos fazendeiros locais, que já enfrentam dificuldades. É por isso que a usina está tentando reduzir a quantidade de água que consome, utilizando ar pressurizado para limpar os espelhos. 

Além disso, a água usada para resfriar o vapor produzido pelos geradores é reutilizada para produzir mais eletricidade. 

Há novas sessões da usina em construção no momento. A Noor 2 será parecida com a Noor 1, mas a 3 terá um design diferente. Em vez de espelhos enfileirados, ela vai capturar e guardar a energia solar através de uma torre única, que acredita-se ser mais eficiente. 

Sete milhares de espelhos retos serão dispostos ao redor da torre para capturar e refletir os raios do sol em direção a um capturador no topo dela, usando menos espaço do que as filas de espelhos exigem hoje. Sais derretidos no interior da torre vão capturar e armazenar o calor diretamente, sem a necessidade do óleo quente. 

Sistemas parecidos já estão em uso na África do Sul, na Espanha e em alguns lugares nos Estados Unidos, como no deserto Mojave, na Califórnia, e em Nevada. Mas, com uma altura de 26 metros, a estrutura de Ouarzazate será a mais alta do tipo no mundo inteiro. 

Outras usinas similares estão em construção no Marrocos. O sucesso dessas usinas no Marrocos e na África do Sul podem incentivar outros países africanos a adotar a energia solar. 

A África do Sul já entrou na lista dos dez maiores produtores de energia solar do mundo, e Ruanda tem a primeira usina do tipo no leste africano, criada em 2014. Há também planos de construção de usinas solares em Gana e Uganda

O sol da África pode um dia transformar o continente em um exportador de energia para o resto do mundo. Ao menos Sellam tem grandes expectativas em relação a Noor. “Nosso principal objetivo é a independência energética, mas, se um dia estivermos produzindo a mais, podemos suprir outros países”, diz.

Por: Sandrine Ceurstemont (BBC Future).

Larva Que Come Plástico Pode Ser Arma Contra Poluição

(Foto: CSIC Communications Department).

A traça-do-favo-de-mel não faz cerimônia na hora do almoço: na ausência do alimento que lhe dá nome, come sacos de supermercado.

Na ruínas da usina de Chernobyl, na Ucrânia, já há fungos que se alimentam de radiação. E traças comem livros desde que o mundo é mundo. Agora, a evolução biológica revelou o próximo elo de sua culinária eclética — uma que, de quebra, pode dar uma mãozinha para a espécie humana no combate à poluição. 

A larva da espécie Galleria mellonella, inseto também conhecido como traça-do-favo-de-mel, come sacos plásticos de supermercado no almoço. Ou, para ser mais técnico, é capaz de digerir polietileno, um dos polímeros mais simples da química, e transformá-lo em etileno glicol, uma espécie de xarope adocicado e muito tóxico que é usado como anticongelante nos motores de carros em lugares frios. 

Ela virou notícia após ser descoberta, por acidente, pela bióloga espanhola Federica Bertocchini, que é especialista em desenvolvimento embrionário, mas cria abelhas por hobby. A pesquisadora do Instituto de Biomedicina e Biotecnologia de Cantábria, na Espanha, encontrou uma infestação de mellonellas comendo o mel e a cera de suas colméias no quintal, e precisou limpar a bagunça. 

Sem suspeitar do estômago de ferro das danadas, colocou todas em um saco. Má ideia. Quando voltou à cena do crime, algum tempo depois, o plástico parecia um queijo suíço de tão furado, e as larvas rastejavam felizes pelo jardim. 

Se você não pode vencê-las, junte-se a elas. Bertocchoni, então, ligou para dois colegas da Universidade de Cambridge, e juntos eles descobriram que as mellonellas não estavam só picando o saco para fugir, mas também se alimentando dele. Em um teste de laboratório, 100 larvas engoliram 92mg de plástico em 12 horas — um recorde biodegradável. Bactérias capazes de digerir garrafas PET já haviam sido encontradas no Japão, mas não eram tão rápidas. 

Para garantir que elas não estavam mastigando só por diversão, os pesquisadores também fizeram purê de mellonella, e passaram a massa de larvas esmagadas, repleta de enzimas digestivas, em um pouco de filme plástico. Em 14 horas, 13% da amostra desapareceu. Os resultados foram publicados no periódico Current Biology

Ao The Washington Post, a pesquisadora afirmou que é pouco provável que as traças-do-favo-de-mel tenham desenvolvido a habilidade exótica com o plástico em vista – é mais provável que esse seja só um efeito colateral da capacidade de digerir seu alimento de preferência, que é justamente cera de abelha. 

“A cera em si é uma mistura complexa de moléculas, e contém uma ligação química que também está presente no polietileno”, afirmou. “Deve ser por isso que ela evoluiu um mecanismo molecular para quebrar essa ligação.” 

Agora é só ter calma – o próximo passo ainda não é jogar toneladas dessas minhoquinhas em um aterro sanitário e deixar que elas resolvam o trilhão de sacos plásticos (sim, 1 trilhão mesmo) que descartamos todos os anos. (O número assustador é do Earth Policy Institute). 

O caminho é isolar a enzima, e tentar reproduzir seu efeito em laboratório sem entupir o mundo de toneladas de mellonellas

É possível que a temperatura ideal para ação da substância que degrada o plástico não seja tão fácil de reproduzir fora do organismo do verme – e também pode ser que o responsável pela digestão na verdade seja uma bactéria no interior do animal, e não o animal em si.

Por: Bruno Vaiano (Superinteressante).

Quatro Alegações Falsas de Céticos do Clima

Muitos dizem que as mudanças climáticas são uma mentira. Mas seus argumentos são pseudocientíficos e sem fundamento. A DW elenca algumas das principais alegações e mostra por que elas são falsas. A mudança climática não é apenas uma questão de acreditar ou não: sobre o tema, há pesquisas e fatos. Portanto, é hora de examinar as afirmações dos céticos - e mostrar por que elas estão erradas. 

1 – Se o aquecimento global é real, por que estamos vivendo invernos com recorde de frio? Por que 1998 foi muito mais quente do que a maioria dos anos seguintes? Por que a superfície congelada no Hemisfério Sul está aumentando? O planeta não deveria estar ficando mais quente? 

Sim, os fenômenos são reais. É errado, porém, considerá-los uma prova contra o aquecimento global. Isso porque as temperaturas globais não aumentam de forma linear e uniforme: alguns invernos no hemisfério norte, como no ano 2009/2010, foram particularmente frios, e outros mais quentes. Muitos fatores influenciam o clima: extraterrestres e terrestres, naturais ou antropogênicos [causados pelas atividades humanas], que interagem uns com os outros. 

Por exemplo, há o El Niño, um fenômeno climático que, nos últimos anos, causou frequentemente altas temperaturas. Além de causar inundações em certas partes do mundo e secas em outras, o El Niño acarreta também temperaturas recordes temporárias – como no ano de 1998. A extensão da cobertura de gelo na Antártida aumenta, enquanto no Ártico acontece exatamente o oposto. A principal razão é que a Antártida é afetada de forma diferente, em comparação com o Ártico, por ventos e correntes marítimas que protegem a região contra muitas influências climáticas. Portanto, o caso especial da Antártida não coloca em xeque o aquecimento global. 

Apesar de todas as variações, observa-se, desde o início das medições sistemáticas, em 1880, um aumento das temperaturas médias da atmosfera terrestre e do mar. O ano de 2016 foi o mais quente desde 1880, sendo que o segundo e o terceiro mais quentes foram 2015 e 2014. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a temperatura global média aumentou em 0,85 grau Celsius de 1880 a 2012. Cada uma das últimas três décadas foi mais quente do que todas as anteriores desde 1850. 

2 – A mudança climática é um processo natural e não causado pelo homem. As emissões de CO2 pelos humanos são pequenas demais para influenciar o clima. 

Sim, é verdade. O clima está mudando desde que a Terra existe. No decurso de milhões de anos, os períodos frios e quentes sempre se alternam – um processo natural. A natureza tem também sua parcela nas mudanças climáticas desde a industrialização, ou seja, no aumento da temperatura global, aquecimento dos oceanos e aumento dos gases de efeito estufa na atmosfera. 

Mas a mudança climática dos últimos 50 a 150 anos ocorre muito mais rápido do que quaisquer outras fases de aquecimentos conhecidas na história recente do nosso planeta. 

Em seu último relatório de 2013, o IPCC considera como "muito provável" que a influência humana é a principal causa do aquecimento desde a metade do século 20. O aumento da liberação de gases de efeito estufa como o dióxido de carbono e metano pelo homem levou a uma concentração de gases na atmosfera que não ocorria desde 800 mil anos atrás. Segundo o IPCC, desde 1750, a concentração de CO2 aumentou 40% e, de metano, 150%. 

É verdade que o CO2 também é liberado por vulcões e está contido no mar, no ar, em plantas e em regiões permafrost. Mas a natureza absorve o CO2 que ela também libera, gerando, assim, um equilíbrio. No entanto, as emissões adicionais dos seres humanos não podem ser totalmente absorvidas: elas são "em excesso" e acabam na atmosfera terrestre. Este processo se torna ainda mais significativo, por exemplo, devido ao desmatamento de florestas e o degelo das regiões permafrost

Cerca de 97% de todos os pesquisadores sobre o clima estão certos de que as atividades humanas influenciam a mudança climática. Portanto, pode-se falar de um consenso científico. De acordo com estudos, os 3% dos cientistas que negam o aquecimento global antropogênico – quer dizer, causados pelo homem – são, muitas vezes, menos especializados na área. Eles vêm geralmente de observatórios conservadores como o Instituto Cato, que é financiado, entre outros, pela Volkswagen e empresas de energia. 

3 – Se não conseguimos prever com exatidão como será o tempo amanhã, como podemos antever o clima daqui a 100 anos? 

Quem não conhece essa situação: a previsão era de um fim de semana com muito sol, mas, no final das contas, ele foi chuvoso. 

Em princípio, as previsões meteorológicas são diferentes dos modelos climáticos. O tempo é referente a um período mais curto, caótico e influenciado por muitos fatores. Por outro lado, o clima é referente a um prazo mais longo, e eventos caóticos são estatisticamente equilibrados. Portanto, reconhecer uma tendência climática ao longo de várias décadas – no caso de um aumento de temperatura causada por gases de efeito estufa – é mais fácil do que prever o tempo com precisão de horas. 

Segundo o IPCC, a confiabilidade das previsões climáticas nos últimos anos melhorou significativamente. Muitos modelos climáticos foram desenvolvidos e são capazes de fazer uma simulação mais completa. 

4 – Ok, então a temperatura está aumentando em todo o mundo em apenas alguns graus Celsius. Isso é realmente tão ruim? Afinal, a Terra já lidou com muitas mudanças. 

Dois ou três graus a mais não parece muito. Algumas pessoas acham até melhor ter mais verão e menos inverno. Mas esses graus Celsius de diferença podem ter consequências extremas para o clima global. 

De acordo com o IPCC, sem uma proteção ambiciosa do clima, a temperatura média global poderia subir 5,4 graus até o final do século 21 em comparação ao período pré-industrial. Isso significaria mais eventos climáticos extremos, como secas e precipitações intensas. 

Assim, as geleiras continuariam a derreter, o nível do mar subiria e muitas regiões habitadas pelos humanos seriam inundadas. Os oceanos se tornariam mais quentes e ácidos, e a flora e fauna sofreriam. 

A Terra é um sistema flexível. No passado, ela e seus habitantes já tiveram que se adaptar a notórias mudanças. Mas a capacidade de mudar também tem seus limites: a mudança climática antropogênica é muito mais rápida do que a capacidade de adaptação da natureza a essas alterações causadas pelos homens.

Por: Ines Eisele (Deutsche Welle).

Relatório Mostra Como as Mudanças Climáticas Favorecem o Terrorismo

As mudanças climáticas não criam terroristas, mas ajudam a criar um ambiente em que os terroristas prosperam e operam mais livremente. Grupos terroristas exploram a escassez de água e alimentos para controlar as populações. A mudança climática destrói os meios de vida tornando as pessoas mais vulneráveis ​​ao recrutamento por parte de grupos terroristas. 

Um novo relatório lançado em 20/04/2017 na Alemanha mostra como os impactos das mudanças climáticas contribuem com o surgimento e crescimento de grupos terroristas, como Boko Haram e o Estado Islâmico. Elaborado pelo think-tank alemão Adelphi, o estudo Insurreição, Terrorismo e Crime Organizado em um Mundo em Aquecimento [Insurgency, Terrorism and Organised Crime in a Warming World] concluiu que as alterações do clima multiplicam e interagem com ameaças, riscos e pressões já existentes, como a escassez de recursos, o crescimento populacional e a urbanização. Segundo Lukas Rüttinger, autor do relatório, a junção desses fatores leva à fragilidade e conflitos violentos nos quais esses grupos podem prosperar. 

Cada vez mais os grupos terroristas estão usando recursos naturais - como a água - como arma de guerra, controlando o acesso a ela, agravando ainda mais e exacerbando sua escassez. Quanto mais escassos os recursos se tornam, maior poder é dado àqueles que os controlam, especialmente em regiões onde as pessoas dependem particularmente dos recursos naturais para sua subsistência. 

Por exemplo, ao redor do Lago Chade, as alterações climáticas contribuem para a escassez de recursos que aumentam a concorrência local por terra e água. Esta competição, por sua vez, muitas vezes alimenta tensões sociais e até conflitos violentos. Ao mesmo tempo, esta escassez de recursos erode os meios de subsistência de muitas pessoas, agrava a pobreza e o desemprego e leva ao deslocamento populacional. Grupos terroristas como Boko Haram ganham poder neste ambiente frágil. 

À medida que as alterações climáticas vão afetando a segurança alimentar e a disponibilidade de água e de terra, as pessoas se tornam mais vulneráveis ​​não só aos impactos negativos do clima mas também ao recrutamento por grupos terroristas que oferecem meios de subsistência e incentivos econômicos alternativos. "As áreas já vulneráveis podem ser colocadas em um ciclo vicioso, que torna mais fácil a operação do terrorismo, o que, por sua vez, leva ao surgimento desses grupos, com conseqüências para todos", resume Rüttinger

Às vezes, os grupos terroristas tentam preencher a lacuna deixada pelo Estado, fornecendo serviços básicos para ganhar apoio da população local. À medida que os impactos do clima se agravarem, alguns Estados terão que lutar cada vez mais para conseguir fornecer serviços e manter sua legitimidade. 

Este relatório coincide com a ameaça da fome, da seca e da guerra sobre milhões de pessoas na região em torno do Lago Chade, na África. Em 31 de março, o Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) aprovou uma resolução sobre essa região, onde o Boko Haram atua, a qual destacada a preocupação com a interação dos fatores que levam à crise e pedindo uma melhor colaboração entre os membros das Nações Unidas para lidar com a situação. A resolução, que também solicita que o Secretário Geral da ONU emita um relatório sobre a crise, veio depois que os embaixadores do CSNU visitaram a região recentemente. 

O relatório confirma algumas das conclusões da ONU: 

● Lidar com a mudança do clima, impulsionar o desenvolvimento e fortalecer os governos reduzirá a ameaça do terrorismo. 

● A ação climática, o desenvolvimento, as estratégias de luta contra o terrorismo e a consolidação da paz devem ser conduzidas de forma holística e não isoladamente, como acontece frequentemente e que gera o risco de agravar cada um dos fatores. 

● Melhorar o Estado de Direito e fortalecer as instituições locais ajudará a reduzir o risco que a mudança climática representa para o crescimento de grupos terroristas, além de ser um componente essencial da adaptação e construção da paz. 

● As pessoas que são vulneráveis ​​ao recrutamento por grupos terroristas dependem frequentemente da agricultura para a sua subsistência, pelo que os esforços de desenvolvimento devem centrar-se na garantia de que esses meios de subsistência são sustentáveis ​​diante de um clima em mudança. 

● As cidades são frequentemente a válvula de pressão quando o clima, conflito e fragilidade ocorrem - a construção de cidades resilientes minimizará as chances de as tensões se derramarem. 

"Uma perspectiva mais ampla ajudará a enfrentar melhor as causas do surgimento e o crescimento de grupos armados não estatais", disse Rüttinger

Sobre a Adelphi - É um dos principais grupos independentes de especialistas e consultores de políticas públicas sobre clima, meio ambiente e desenvolvimento. Sua missão é melhorar a governança global através da pesquisa, do diálogo e da consulta. Outras informações: www.adelphi.de 

Contato para imprensa: Christopher Stolzenberg - stolzenberg@adelphi.de

Fonte(s): AViV Comunicação via e-mail/press release para SenhorEco.org / The Guardian.

Aquecimento Vira Ecossistemas do Avesso

Arraia nada entre corais mortos por calor excessivo do mar na Austrália (Foto: The Ocean Agency/XL Catlin Seaview Survey).

Um amplo estudo divulgado em 30/03/2017 [Biodiversity Redistribution Under Climate Change: Impacts on Ecosystems and Human Well-being] revela como as alterações no clima estão modificando de maneira acelerada os ecossistemas da Terra, a ponto de mudar radicalmente suas características originais e aumentar a vulnerabilidade da nossa própria espécie. Cientistas de universidades brasileiras, americanas, europeias e australianas previram um número maior de epidemias, devido ao deslocamento dos mosquitos; um novo desenho da geografia agrícola, pela falta de polinizadores; e migrações de comunidades tradicionais inteiras, em busca de alimentos. 

Todos os seres vivos, sem exceção, são sensíveis às mudanças climáticas. A história da vida na Terra está intimamente ligada a essas alterações. Ao longo de milhares de anos as espécies se remodelaram em resposta a eventos tectônicos, oceanográficos e climáticos. As mudanças projetadas para o século XXI, no entanto, com a emissão excessiva de gases de efeito estufa, já se comparam às maiores mudanças globais dos últimos 65 milhões de anos. “Significa dizer que a resposta biológica vai acontecer em ritmo mais violento e em escala global”, diz Raquel Garcia, pesquisadora brasileira da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, e uma das autoras do estudo. 

As mudanças, de fato, já acontecem em larga escala. Registros recentes mostram que dezenas de espécies de peixes de águas rasas se deslocaram para águas mais profundas à procura de temperaturas amenas. Mamíferos que viviam em encostas de montanhas migraram para regiões mais elevadas. “São alterações aparentemente sutis, mas que geram uma reação em cadeia poderosa”, diz Garcia, especialista na relação entre biodiversidade e mudanças climáticas. De acordo com ela, em um novo ambiente, as espécies passam a apresentar novas respostas biológicas a essa interação. E as mais sensíveis entram, rapidamente, em um processo que leva à extinção. 

Embora pareça improvável, o deslocamento das espécies e a transformação do ecossistema nos afeta diretamente. O aquecimento global tem facilitado, especialmente, a proliferação de agentes patogênicos pelo planeta. Vetores que causam epidemias como a malária, a dengue e a zika devem se tornar ainda mais comuns e atingir populações inteiras – suspeita-se que a epidemia de zika de 2015, por exemplo, tenha relação direta com o aquecimento anormal agravado pelo El Niño. Além disso, a cultura de alguns alimentos sensíveis, como o café, também está sob forte ameaça, à medida que as distribuições de polinizadores migram e as pragas das plantas perdem os predadores. Imagem: Mosquito “Anopheles”, transmissor da malária, cuja área de distribuição cresce com o calor (Foto: Anders Lindström’SVA).

As consequências podem afetar regiões turísticas do Mediterrâneo, que devem receber uma grande quantidade de águas-vivas, inviabilizando os banhos de mar. Comunidades indígenas dos extremos da Terra terão de encontrar alternativas à falta de peixe, já que os cardumes vêm sendo deslocados devido ao aquecimento da água. “Haverá consequências culturais, sociais e econômicas a uma parcela representativa da população mundial, algo que ainda não experimentamos, e nem sempre as soluções possíveis terão efeito a curto prazo”, disse a pesquisadora australiana Gretta Pecl, que liderou o estudo Redistribuição da Biodiversidade sob Alterações Climáticas: Impactos nos Ecossistemas e no Bem-Estar Humano

O próprio clima sofre as consequências das mudanças climáticas. O rearranjo das espécies transforma os processos de sequestro de carbono. O aumento da temperaturas associado às secas aumenta o estresse das plantas, contribuindo para surtos de pragas e de árvores mortas. Estes processos, por sua vez, aumentam a quantidade de material inflamável nas florestas, facilitando incêndios e jogando ainda mais carbono de volta ao ambiente. 

O próprio Atlântico Norte, que armazena cerca de 25% do CO2 antropogênico do oceano, pode sofrer alterações do fitoplâncton (microrganismos que produzem oxigênio e sequestram gás carbônico) devido ao recuo do gelo marinho do Ártico. Com isso a tendência é que a bomba biológica perca eficiência. Bomba biológica é um processo através do qual o carbono da atmosfera terrestre é incorporado e armazenado no oceano profundo, por meio de processos como fotossíntese, respiração, alimentação e decomposição. 

Só há uma forma de evitar que essas transformações se tornem ainda mais dramáticas: é preciso reduzir a emissão de gases de efeito estufa. O processo já desencadeado pelo aumento da temperatura global está em curso. O clima vai mudar nos próximos cem anos e além, mesmo que as emissões se estabilizem, devido à inércia do processo. As espécies continuarão a responder, muitas vezes, com consequências imprevisíveis. Mas sem controle de emissões, as consequências serão ainda piores. É por isso que se diz que algumas regiões devem sofrer alterações mais intensas do que outras. “As nações em desenvolvimento, particularmente as mais próximas ao equador, provavelmente sofrerão maiores extinções locais relacionadas ao clima e nem sempre terão os recursos ideais para lidar com a mudança”, diz Pecl

O aumento da conscientização e uma governança integrada é a única chance de minimizar as consequências negativas e criar oportunidades a partir do movimento de espécies, concluem os autores. A Finlândia, pioneira na mitigação desse fenômeno, introduziu medidas de adaptação para ajudar a sobrevivência do salmão no Atlântico, devido ao aquecimento das águas. A humanidade aguarda mais ações como esta.

Por: Luciana Vicária (Observatório do Clima).

Brasil Tem Maior Diversidade de Árvores do Planeta

Há 8.715 espécies de árvores no território brasileiro, 14% das 60.065 que existem no planeta. Em segundo na lista vem a Colômbia, com 5.776 espécies, e a Indonésia, com 5.142. Publicado no periódico Journal of Sustainable Forestry, o estudo foi realizado pela Botanical Gardens Conservation International (BGCI na sigla em inglês), uma organização sem fins lucrativos, com base nos dados de sua rede de 500 jardins botânicos ao redor do mundo. A expectativa é que a lista, elaborada a partir de 375,5 mil registros e ao longo de dois anos, seja usada para identificar espécies raras e ameaçadas e prevenir sua extinção. 

Ameaça 

A pesquisa mostrou que mais da metade das espécies (58%) são encontradas em apenas um país, ou seja, há países que abrigam com exclusividade, certas espécies - podem ser centenas ou milhares -, o que indica que estão vulneráveis ao desmatamento gerado por atividade humana e pelo impacto de eventos climáticos extremos. 

Trezentas espécies foram consideradas seriamente ameaçadas, por terem menos de 50 exemplares na natureza. Também foi identificado que, com exceção dos polos, onde não há árvores, a região próxima do Ártico na América do Norte tem o menor número de espécies, com menos de 1,4 mil. 

O secretário-geral da BGCI, Paul Smith, disse que não era possível estimar com precisão o número de árvores existentes no mundo até agora porque os dados acabam de ser digitalizados. "Estamos em uma posição privilegiada, porque temos 500 instituições botânicas entre nossos membros, e muitos dos dados não estão disponíveis ao público", afirma. 

"A digitalização destes dados é o auge de séculos de trabalho." Uma parte importante do estudo foi estabelecer referências e coordenadas geográficas para as espécies de árvores, o que permite a conservacionistas localizá-las, explica Smith

"Obter informações sobre a localização dessas espécies, como os países em que elas existem, é chave para sua conservação", diz o especialista. "Isso é muito útil para determinar quais devemos priorizar em nossas ações e quais demandam avaliações sobre a situação em que se encontram." 

Conservação 

Entre as espécies em extinção identificadas pela BGCI está a Karoma gigas, nativa em uma região remota da Tanzânia. No fim de 2016, uma equipe de cientistas encontrou apenas um único conjunto formado por seis exemplares. Eles recrutaram habitantes da área para proteger essas árvores e monitorá-las para que sejam alertados caso produzam sementes. 

Assim, as sementes poderão ser levadas para jardins botânicos da Tanzânia, o que abre caminho para que sejam reintroduzidas na natureza depois. A BGCI diz esperar que o número de árvores da lista cresça, já que cerca de 2 mil novas plantas são descritas todos os anos. A Global Tree Search, uma base de dados online criada a partir do levantamento, será atualizada toda vez que uma nova espécie for descoberta.

Por: Mark Kinver (BBC).

Qual é a Indústria Que Mais Polui o Meio Ambiente Depois do Setor do Petróleo?

É fácil citar a indústria do petróleo como principal vilã da poluição. Mas poucos talvez saibam que o segundo lugar nesse ranking pertence à indústria da moda. Se você veste calças ou malhas de poliéster, por exemplo, fique sabendo que a fibra sintética mais usada na indústria têxtil em todo o mundo não apenas requer, segundo especialistas, 70 milhões de barris de petróleo todos os anos, como demora mais de 200 anos para se decompor. 

A viscose, outra fibra artificial, mas feita de celulose, exige a derrubada de 70 milhões de árvores todos os anos. E, apesar de natural, o algodão é a uma fibra cujo cultivo é o que mais demanda o uso de substâncias tóxicas em seu cultivo no mundo - 24% de todos os inseticidas e 11% de todos os pesticidas, com óbvios impactos no solo e na água. Nem mesmo o algodão orgânico escapa: uma simples camiseta necessitou de mais de 2.700 litros de água para ser confeccionada. 

Usar e jogar fora 

Mas talvez o maior dano causado pela indústria da moda seja a tendência da "moda rápida", marcada especialmente pelos preços baixos. O consumo multiplica os problemas ambientais. 

O custo da "moda rápida": uma peça de roupa que usamos menos de 5 vezes e jogamos fora após 1 mês produz mais 400% de emissões de carbono que uma usada 50 vezes e mantida por 1 ano (Fonte: HBS). 

O chamado "segredo sujo" da moda deu origem a iniciativas que buscam uma maior responsabilidade ambiental. Na Argentina, a Industry of All Nations foi fundada como uma "empresa de design e desenvolvimento com o compromisso de repensar métodos de produção". O objetivo é produzir "roupa limpa". "Eu e meus irmãos nos demos conta de que, em um mundo tão grande, quase todos os produtos são feitos em dois ou três países asiáticos. E a única razão é porque é mais barato produzi-los lá", explica Juan Diego Gerscovich, fundador da empresa familiar. 

"A IOAN, como diz o nome, existe para que voltemos à produção e aos produtores originais, para que voltássemos à fonte". Os hermanos Gerscovich, que são argentinos e vivem Los Angeles, começaram produzindo sandálias, usando os serviços de uma fábrica há 120 anos no ramo. 

"Era uma empresa sustentável sem saber, pois as sandálias eram de juta e algodão. A empresa produzia um milhão de unidades. A única coisa que fizemos foi mudar as tiras, que eram de material sintético, para algodão". Mas foi um segundo produto que soou o "alarme da contaminação". Os irmãos queriam produzir jeans, mas abandonaram a ideia quando "se deram conta de que se tem uma questão muito tóxica". Decidiram resgatar o método tradicional de produção do tecido, com o uso de algodão orgânico e índigo - uma tintura obtida da planta Indigofera tinctoria

Gerscovich encontrou um pequeno vilarejo no sul da Índia, Auroville, onde levaram anos investigando como reviver a indústria local. "Era uma indústria muito importante e conectada à cultura indiana, mas a Revolução Industrial trouxe os corantes químicos, e a indústria do tecido natural desapareceu... era muito mais econômico e rápido com os métodos modernos." 

O processo natural requer ainda mais tempo e investimento, mas o empresário argentino diz que ele é muito menos agressivo para o meio ambiente. O desaparecimento da indústrias fez com que fosse necessário treinar tecelões, pois ninguém na comunidade sabia fazer jeans. 

Mais que um negócio 

A empresa depois se dedicou à produção de suéteres com lã de alpacas bolivianas. "E sem corantes", ressalta Gerscovich. "A cooperativa que produz os suéteres na Bolívia conhece nossa filosofia e montou um pequeno laboratório para começar a desenvolver tintas naturais." A ideia original dos irmãos Gerscovich é não apenas fazer a roupa, mas empoderar comunidades. "O mais importante é que, como seres humanos, mudemos de mentalidade: precisamos consumir menos", diz o empresário. 

A IOAN, assim como outras iniciativas do gênero, produzem suas peças em mais tempo e a um custo maior. Um par de jeans, por exemplo, custa US$ 170, valor bem superior ao de muitas marcas no varejo mundial. "Vamos reduzir custos à medida que as vendas cresçam. Mas jamais chegaremos aos níveis das grandes cadeias [de lojas de roupa]. Seus preços são uma invenção. Estão desrespeitosos 100% com seus produtores."

Fonte: BBC.

Cientistas Desvendam 600 Plantas Amazônicas

Nem tudo são florestas e árvores gigantes, quando se fala na vegetação amazônica. Na Serra de Carajás, no sudeste do Pará, no topo de morros de 800 metros de altitude, se espalha uma vegetação rasteira que recobre os campos ferruginosos, também conhecidos como cangas. Uma pesquisa que reúne 74 botânicos de 22 instituições do país e do exterior propõe revelar parte dessas espécies, algumas em risco de extinção. 

O grupo descreveu 600 espécies, entre samambaias, musgos, flores. O estudo, parceria do Museu Paraense Emílio Goeldi e do Instituto Tecnológico Vale (ITV), será publicado em três volumes da Rodriguésia, prestigiada publicação do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. O primeiro, lançado em março de 2017, descreve 235 espécies. 

“O bioma da floresta amazônica é o mais desconhecido do país. São 11 mil espécies descritas. A Mata Atlântica, uma tripa na parte leste do país, tem 15 mil espécies conhecidas, mais do que na floresta amazônica. Só tenho uma conclusão: falta conhecimento da flora amazônica”, afirma a botânica Ana Maria Giuliette, uma das coordenadoras do projeto, ao lado do botânico Pedro Viana

A dificuldade de acesso e o escasso financiamento para esse tipo de pesquisa estão entre as causas para o pouco conhecimento da região. Para alcançar as áreas de cangas, muitas vezes só é possível chegar de helicóptero. “É muito difícil subir no ponto mais alto. Estradas são péssimas e há muitas árvores caídas. E é quando floresce que mais chove, o que dificulta ainda mais o trajeto”, diz ela. 

A Floresta Nacional de Carajás tem 400 mil hectares. Entre 2% e 3% da região é de cangas. O Museu Goeldi fez as primeiras pesquisas sobre as plantas locais nos anos de 1970, no início da mineração em Carajás. Nos afloramentos de minério de ferro, onde não crescem árvores, pesquisadores iniciaram a coleta de pequenas plantas que recobriam a região. 

Em 2015, botânicos voltaram às áreas de canga para nova coleta sistemática. “É preciso ter ideia de como são as plantas na natureza. Quando florescem? Quando produzem frutos? Tudo isso é importante quando a gente pensa em recuperação da área. A legislação diz que temos de usar sementes da mesma área para recuperar um trecho de mata. semente? Só saberemos fazendo esse acompanhamento”, afirma Ana Maria. “A União Internacional para Conservação da Natureza recomenda que esse monitoramento dure 10 anos. Estamos só começando”. 

Catálogo

Entre as espécies estudadas está a flor de Carajás, espécie em perigo de extinção. A planta, uma trepadeira, pode atingir três metros. Os pesquisadores viajaram por dez dias na área da Serra Norte da Floresta Nacional de Carajás, único local em que a planta foi achada. Após a coleta, exames de DNA revelam quais plantas são filogeneticamente próximas, ou “aparentadas”. A partir daí são identificadas família, gênero e espécie. Cada uma ganha ilustração a bico de pena e algumas têm fotografias de campo. Todas são georreferenciadas para permitir que pesquisadores as encontrem na natureza, no caso de nova coleta. E a flora é armazenada no Museu Goeldi

“Com esse contingente de pesquisadores foi possível fazer a flora correta, autenticada, em pouco tempo como fizemos. Em nenhum lugar se produz flora em dois anos, como estamos fazendo com Carajás, com 600 espécies. Só pudemos fazer isso porque tivemos essa base coletada anteriormente pelo Museu Goeldi e porque contamos com todos os especialistas. Esse estudo permite que sejam recuperadas áreas afetadas pela mineração”, diz Ana Maria.

Por: Clarissa Thomé (Estadão).

Cidades e Meio Ambiente - Uma Relação Conturbada

A modernidade não significa o abandono da relação entre as pessoas e o meio ambiente. O desenvolvimento tecnológico não irá resolver todos os problemas ambientais do planeta Terra. 

O século 20 consolidou o apartheid entre a humanidade e as dinâmicas próprias dos ecossistemas e da biosfera. Até o final do século 19, quando nasceu meu avô, a vida na terra, em qualquer que fosse o país, tinha estreitos laços com os produtos e serviços da natureza. 

O homem dependia de animais para a maior parte do trabalho, para locomoção e mal começava a dominar máquinas capazes de produzir força ou velocidade. 

Na maioria das casas o clima era regulado ao abrir e fechar as janelas e, quando muito, acender lareiras, onde madeira era queimada para produzir calor. 

Cem anos depois a vida é completamente dominada pela tecnologia, pela mecânica, pela química e pela eletrônica, além de todas as outras ciências que tiveram um exponencial salto desde o final do século 19. 

Na maior parte dos escritórios das empresas que dominam a economia global a temperatura é mantida estável por equipamentos de ar condicionado, as comunicações são feitas através de telefones sem fio e satélites posicionados a milhares de quilômetros em órbita, as dores de cabeça são tratadas com comprimidos e as comidas vêm em embalagens com códigos de barra. 

Não se trata aqui de fazer uma negação dos benefícios do progresso científico, que claramente ajudou a melhorar a qualidade de vida de bilhões de pessoas, e também deixou à margem outros bilhões, mas de fazer uma reflexão sobre o quanto de tecnologia é realmente necessário e o que se pode e o que não se pode resolver a partir da engenharia. 

As distâncias foram encurtadas e hoje é possível ir a qualquer parte do mundo em questão de horas, e isso é fantástico. No entanto, nas cidades, as distâncias não se medem mais em quilômetros, mas sim em horas de trânsito. E isso se mostra um entrave para a qualidade de vida. 

Computadores, internet e telecomunicações tornaram o mundo menor e abriram as portas de um universo de conhecimento inimaginável poucos anos atrás. 

Ainda na década de 1990 fiz uma entrevista com o pensador norte-americano Alvin Toffler , autor de A Estrada do Futuro e perguntei porque o futuro que se desenhava era tão diferente do que havia sido previsto poucos anos atrás, da década de 1970. “Simples”, respondeu ele. 

“Ninguém foi capaz de prever que os computadores se tornariam eletrodomésticos, e mais ainda, que eles seriam ligados em rede possibilitando comunicação universal entre pessoas e bancos de dados”, concluiu. Ou seja, a web, a internet como conhecemos hoje, 20 anos depois daquela entrevista, não foi uma evolução previsível. 

Romantismo pragmático 

Há um certo romantismo em pensar na vida em comunhão com a natureza, onde as pessoas dedicam algum tempo para o contato com plantas, animais e ambientes naturais. 

Eu pessoalmente gosto e faço caminhadas regulares em praias e trilhas. Mas não é disso que se trata quando falo na ruptura entre a engenharia humana e as dinâmicas naturais. 

Há uma crença que está se generalizando de que a ciência, a engenharia e a tecnologia são capazes de resolver qualquer problema ambiental que surja. 

E esse é um engano que pode ser, em muitos casos, crítico para a manutenção do atual modelo econômico e cultural das economias centrais e, principalmente, dos países que agora consideramos “emergentes”. 

Alguns exemplos de que choques entre a dinâmica natural e o engenho humano estão deixando fraturas expostas. A região metropolitana de São Paulo enfrentou uma das maiores crises de abastecimento de água de sua história. 

As nascentes e áreas de preservação que deveriam proteger a água da cidade foram desmatadas e ocupadas, no entanto a mídia e as autoridades em geral apontam a necessidade de mais obras de infraestrutura para garantir o abastecimento, como se a produção de água pelo ecossistema não tivesse nenhum papel a desempenhar. 

No caso da energia também existe uma demanda incessante por mais eletricidade, mais combustíveis e mais consumo. Isso exige o aumento incessante da exploração de recursos naturais e não renováveis. 

Pouco ou nada se fala na elaboração de programas generalizados de eficiência energética, de modo a economizar energia sem comprometer a qualidade de vida nas cidades. 

Outro ponto de descolamento é a gestão de resíduos. Grande parte dos ambientes naturais está contaminada por plásticos e outros resíduos produzidos pelo descarte de produtos usados e embalagens. 

A gestão de resíduos tem sido encarada como um problema de engenharia, fala-se muito em aterros sanitários e em “queima energética” dos resíduos, o que levaria a agravar outro problema presente na agenda ambiental do século 21, as mudanças climáticas, causadas principalmente pelas emissões de gás carbônico das atividades humanas. Pouco ainda se faz em direção a uma eficaz redução da geração de resíduos ou da utilização maior de materiais reciclados e/ou biodegradáveis. 

Serviços Ambientais 

Há também o desmatamento em todos os biomas brasileiros e ao redor do mundo. Monitora-se muito os dados sobre a Amazônia, mas há problemas sérios na Mata Atlântica, cujos dados recentes mostram aumento da área desmatada, no Cerrado, onde estão as nascentes de alguns dos grandes rios brasileiros, e até na Caatinga, que sofre periodicamente com longos períodos de estiagem. 

Todos esses dilemas, porém, parecem alheios ao cotidiano das grandes cidades, onde o trânsito e o tempo (medido em horas) ocupam os espaços de preocupação. Não há no imaginário de pessoas que vivem em ambientes artificiais de edifícios, automóveis e espaços urbanos degradados uma clara noção dos vínculos existentes entre suas vidas e os serviços ambientais prestados pelos ecossistemas. 

A desconexão vai além da simples percepção, nas cidades as pessoas se recusam a mudar comportamentos negligentes como o descarte inadequado de resíduos ou desperdícios de água e energia. Há muito a mudar. 

Pessoas, empresas, governos e organizações sociais são os principais atores de transformação, mudanças desejáveis e possíveis, mas que precisam de uma reflexão de cada um sobre o papel do meio ambiente na vida moderna. 

É um equívoco pensar que civilização e meio ambiente são departamentos estanques. O moderno modo de vida das sociedades de consumo depende da resiliência dos ecossistemas em oferecer água, alimentos e todo o tipo de produtos minerais e vegetais necessários para a manutenção da sociedade do século 21. 

A profunda descrença na capacidade humana em mudar é, na verdade, uma atitude inconsequente de uma geração acomodada no individualismo e no consumismo, onde as relações sociais se dão mais em redes cibernéticas do que no bom e velho calor humano. 

As sociedades humanas vivem em constante mutação, como mostra a história. Negar a possibilidade de que o futuro seja um bom lugar para se viver é violentar os direitos de nossos filhos e netos de ter uma existência digna.

Por: Dal Marcondes (Envolverde).