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Holanda: Reúso de Água na Terra dos Diques

Estação de tratamento de esgoto (ETE) na Holanda.

A Holanda está enfrentando cada vez mais longos períodos de seca devido às mudanças climáticas. Isso está levando à escassez de água e salinização. Pesquisadores da Wageningen University & Research (WUR) explicam como o sistema de água naquele país pode ser reconfigurado para lidar com períodos de seca. 

Os efeitos do verão excepcionalmente seco de 2018, foram sentidos muito tempo depois de terminado. A chuva que caiu após a seca, não chegou nem perto o suficiente para elevar as águas subterrâneas aos níveis exigidos na primavera de 2019. Normalmente, há um excesso de água na primavera por causa dos rios caudalosos trazendo mais água, mas agora houve uma falha em construir zonas de amortecimento (buffer) necessários para passar o verão, principalmente nas terras arenosas mais elevadas no leste e sul da Holanda

Os níveis de águas subterrâneas estavam acima do normal no oeste da Holanda, mas essas áreas também enfrentam problemas com o abastecimento de água, diz Huub Rijnaarts, professor de Meio Ambiente e Tecnologia da Água na WUR. "Os municípios do oeste estão tendo que lidar com a salinização. As águas subterrâneas estão sendo bombeadas para fora visando manter a terra seca, o que significa que as águas subterrâneas salgadas estão enfrentando menos contrapressão da água doce. O aumento das águas subterrâneas salinas, salinizam o solo". 

"A combinação de mais subsidência, devido, por exemplo, à erosão da turfa e à criação de mais pôlderes, além do aumento do nível do mar, fará com que o mar exerça mais pressão sobre as águas subterrâneas. Por sua vez, isso acelerará o processo nas áreas costeiras". 

Purificação de água não projetada para água salgada

Rijnaarts atestou, que estamos cada vez mais sentindo as consequências das mudanças climáticas em nosso sistema de gerenciamento de água. Ele explica: "A agricultura, indústria e as famílias dependem completamente do suprimento de água. Nosso sistema de água é baseado nisso. Mas esse suprimento é um problema crescente em áreas mais elevadas, enquanto a salinização está causando cada vez mais problemas nas áreas mais baixas". 

"Amsterdã, por exemplo, depende da entrada de água do canal Amsterdã-Reno para o seu abastecimento, mas essa água está se tornando mais salgada. As tubulações levam a água para as dunas entre Zandvoort e Noordwijk, onde a água é purificada naturalmente. Porém, no verão passado, a companhia de saneamento Waternet enfrentou sérios problemas devido à salinização, porque a tecnologia de purificação de água usada atualmente é voltada inteiramente a água doce e não para a água salgada". 

O desafio para a Holanda é tornar a água salobra adequada para reúso em larga escala.

 Os lagos artificiais de água doce no Parque Nacional de Biesbosch estão conectados diretamente ao mar.

Wetlands (jardins filtrantes) para resíduos

Cada vez mais empresas, estão conscientes dos problemas que estão surgindo e desejam mudar para um sistema autossuficiente. Na província de Zeeland, usuários finais, empresas de tecnologia e institutos de ciência, estão trabalhando em soluções locais de economia circular, no projeto Water Nexus. Rijnaarts: "Grande parte da província de Zeeland depende da água retirada na área de Biesbosch. Em períodos de seca, o suprimento de água disponível pode não ser o suficiente para as necessidades das cidades, fazendas e indústria. Neste projeto piloto, estamos criando wetlands para armazenamento em larga escala de água proveniente da indústria, agricultura e cidades. Quando esses efluentes chegam aos wetlands, são primeiramente purificadas usando métodos naturais com plantas e microrganismos", comentou. 

"A biologia não é a solução para alguns materiais, como metais pesados ​​da indústria ou pesticidas da agricultura. Os resíduos de fármacos, também não podem ser removidos da água inteiramente usando processos naturais. Para extrai-los, empregamos técnicas eletroquímicas modernas e tecnologia demembrana", explicou. 

Ampliando soluções para aplicações práticas 

Wilfred Appelman é pesquisador da Wageningen Food & Biobased Research (WFBR), parte da WUR. Ele é solicitado quando os problemas no sistema de água não podem ser resolvidos apenas pela natureza. Esse também é o caso da Water Nexus, diz Appelman. "Huub Rijnaarts e seus alunos de doutorado estão pesquisando as opções para o uso de água salgada na indústria e como armazenar melhor a água doce. O conhecimento fundamental produzido será utilizado na WFBR para desenvolver novas soluções para aplicação prática. Para dar um exemplo, estamos trabalhando no desenvolvimento de melhores processos de membrana eletroquímica, para extrair o sal na água de refrigeração da empresa química Dow, para que possa ser reutilizada".

 Uma eclusa no canal de Amsterdã-Reno.

As técnicas não são novas, mas sua aplicação é mais eficiente agora, graças ao desenvolvimento de novos materiais e equipamentos aprimorados, diz Appelman. Um exemplo é a eletrodiálise, um processo eletroquímico no qual um produto dissolvido pode ser extraído de uma solução usando um campo elétrico e membrana semipermeável. Esse processo de membrana está em uso há algum tempo e é muito bom para filtrar o sal da água. "Atualmente, estamos ampliando essa técnica para uma variedade de aplicações práticas. Um exemplo é a agricultura, que está combatendo o sal que se acumula na água. Estamos colaborando com as empresas na forma de remover íons de sódio e cloreto da água. Essa tecnologia local de purificação de água, permitirá a utilização de água por muito mais tempo". 

Material circular de 25 bilhões de litros de água

A filial holandesa da multinacional química Dow, já utiliza sete bilhões de litros de efluentes domésticos da cidade portuária vizinha de Terneuzen. Agora, planeja usar uma abordagem circular para todos os seus suprimentos de água através do projeto Water Nexus. Rijnaarts: "Você está falando então em 25 bilhões de litros. E isso é apenas uma empresa industrial. Lembre-se de que existem empresas como Cosun, Cargill e Shell na região, que da mesma forma dependem do suprimento de água. E a salinização também é um problema crescente em Zeeland". 

O professor diz, que o desafio para o delta do rio na Holanda é organizar a conversão em larga escala de água salobra em água adequada para reúso. Até recentemente, as técnicas biológicas de purificação de água implantadas no sistema de água holandês, não eram adequadas para isso. Rijnaarts: "As técnicas atuais usam bactérias de água doce no lodo que se unem com a ajuda de polímeros e formam grânulos. Os grânulos precisam permanecer intactos para realizar sua tarefa de purificação. Isso funciona bem em condições de água doce, mas quando mudaram para condições de água salgada, os grânulos de bactérias se separaram e não funcionou mais".

 Sistema em Groningen para regular o nível da água.

Mas a solução acabou sendo simples, diz Rijnaarts. "Procuramos bactérias que ainda eram capazes de funcionar em condições salgadas. Descobrimos então que depois de um tempo, eles formaram grânulos também nessas circunstâncias. Além disso, os grânulos resistiram bem sob a mudança de água salgada para água doce e mantiveram seu efeito purificador". 

"Em princípio, podemos garantir que a água possa ser repetidamente reciclada em qualquer aplicação usando métodos biológicos, além de tecnologias eletroquímicas e de membrana", acrescenta Appelman. "Podemos criar novos sistemas de água de ciclo fechado, usando todas as técnicas combinadas. Com a eletricidade gerada a partir do calor da água usada também, por exemplo". 

Appelman salienta, que nem sempre é necessário impor a qualidade da água potável como norma. Ele dá como exemplo a descarga no vaso sanitário. "É bom usar água salobra ou salgada para isso. Também existem muitas aplicações industriais nas quais você não precisa necessariamente usar água fresca, e isso também é caro. Assim, você poderia escolher a solução mais adequada no sistema de água, dependendo da aplicação". 

Isso prepara o caminho para um sistema circular de água, no qual os efluentes das cidades, terras agrícolas e indústria são purificados e armazenados em reservatórios locais para reutilização. Além disso, o excesso de água dos rios e das chuvas são capturados em vez de fluir para o mar. Em seguida, serve como um tipo de esponja que pode fornecer água à área circundante durante os períodos secos. E bacias com água salobra também podem se tornar parte do sistema circular de água, graças à nova tecnologia de água salgada que foi desenvolvida em Wageningen. Rijnaarts: "A qualidade da água na Holanda é excelente e pode continuar assim". 

Rijnaarts deve viajar em breve para regiões no sudeste asiático, onde os problemas são de três a cinco vezes piores do que na Holanda. "As cidades costumam ter instalações de purificação de água muito limitadas, enquanto os produtores de arroz lutam com a crescente salinização. Se conseguirmos tornar a água da cidade adequada para reutilização no cultivo de arroz, podemos equipar as cidades e aldeias com maneiras de lidar melhor com as mudanças climáticas. Usaremos a mesma tecnologia para isso, como na Holanda".

Por: Jeroen van den Nieuwenhuizen (Wageningen University & Research). Tradução: Gheorge Patrick Iwaki (Portal de Tratamento de Água).

Ciência no Combate ao Crime: Pesquisadores da UFF Auxiliam Polícia Brasileira Com Novo Material Revelador de Impressões Digitais

Investigar um crime é tarefa que vai além dos muros das delegacias. O trabalho de inteligência é fundamental para a resolução satisfatória dos casos policiais. Essa atividade demanda uma gama de materiais específicos e estudos em perícia. O reconhecimento de impressões digitais - com nome técnico de papiloscopia - é um dos procedimentos fundamentais nas investigações criminais, considerando que através desse método os indícios coletados e analisados por profissionais podem levar ao autor do delito. Esse tipo de procedimento é feito através de uma substância em pó reveladora de impressões digitais, atualmente importada por praticamente todas as polícias do Brasil

Com foco nessa realidade, o professor Wagner Felippe Pacheco juntamente com seu orientando de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Química da UFF, o perito Rômulo Rodrigues Facci, desenvolveram uma pesquisa que resultou na criação de um novo pó para a revelação de impressões digitais. O material, já utilizado pela polícia civil do Rio de Janeiro, teve resultados positivos nas investigações que levaram à prisão de diversos suspeitos. "No momento, além da polícia do Rio, existem quatro outras polícias estaduais utilizando a substância produzida na universidade: Amazonas, Acre, Tocantins e Rio Grande do Norte. A polícia federal também entrou contato conosco para fazer testes com o pó e polícias de outros estados também já demonstraram interesse", complementa o doutorando. 

Facci conta que, ao iniciar o estudo, sua primeira inquietação foi sobre a grande quantidade de uso do pó papiloscópico pelas polícias, em nível estadual e federal, e como, mesmo assim, o país continua importando um produto caro ao invés de produzi-lo. Para a sociedade, Rômulo pontua que a fabricação de um pó com matéria prima barata e reciclável é uma grande conquista. "Chegamos a uma composição que é igual ou melhor do que a importada e a um preço de custo muitíssimo barato. Transformamos a escala da produção de nano [laboratorial, cerca de 1g] para um processo em bateladas de 1kg". 

Considerando as características do material desenvolvido pelos pesquisadores e o importado, Wagner explica que quimicamente são muitos distintas. "A substância sintetizada pela nossa pesquisa é feita principalmente de óxido de ferro, enquanto o outro é majoritariamente de carbono grafítico. Mas a real diferenciação está na aplicação. O nosso é mais escuro e mais aderente às gorduras da impressão digital, produzindo de maneira mais fácil e rápida uma imagem nítida", ressalta. 

"Só concluímos a composição química quando o produto que elaboramos imprimiu uma imagem mais nítida do que a produzida atualmente pela polícia", professor Wagner Felippe

O professor pontua que as pesquisas acontecem no Laboratório Peter Sørensen de Química Analítica e explica como foram feitos os testes do produto. A primeira etapa foi a de composição química, "ou seja, o quanto de matéria prima principal ou de outros componentes químicos seriam usados, e como trabalhar a mistura e trituração destes materiais até obter um produto final suficientemente fino e com cor bastante intensa". O segundo teste foi de repetidas simulações da aplicação final do composto, e consistiu em aplicar o pó, retirar o excesso, em seguida, colar uma fita adesiva e depois retirar a fita, na qual ficava a imagem da impressão digital gravada. "Colamos essa fita em um papel branco e levamos para o computador, onde é escaneado. Em seguida, contamos o número de pontos característicos na impressão digital", explica. 

Ao longo do trabalho, o pesquisador conta que, para fins de comparação, foram realizados exatamente os mesmos procedimentos de verificação com o pó importado e com o composto desenvolvido pelo estudo. "Só concluímos a composição química quando o produto que elaboramos imprimiu uma imagem mais nítida do que a produzida atualmente pela polícia". Sobre os custos de produção e venda do novo produto, o professor explica que ainda estão sob avaliação. "A estimativa que fazemos é que seja no mínimo 70% mais barato que o pó importado, pois todos os insumos que usamos são de baixo custo e o principal componente não tem preço de venda fixado, já que é considerado descarte industrial", completa. 

Do ponto de vista acadêmico, Wagner expõe que o estudo auxilia na consolidação de uma linha de pesquisa aplicada, que é o reaproveitamento de resíduos industriais para aplicações analíticas diversas, destacando que a sustentabilidade deve ser sempre apoiada em todos os níveis. O pesquisador ressalta ainda que o processo de pedido de patente do pó papiloscópico se encontra em andamento através da Agência de Inovação (Agir) da UFF. Rômulo completa afirmando que, para sua formação, esse trabalho foi enriquecedor. "A proposta do professor de fazer o pó papiloscópico, que depende de estudos de síntese de materiais, saiu do meu campo de formação inicial, o que enriqueceu meus conhecimentos. Tive que treinar muito as técnicas papiloscópicas de revelação de impressão digital para testar mais de 50 composições que foram produzidas". 

Os pesquisadores estão iniciando um novo projeto, na área pedagógica. O doutorando conta que o pó papiloscópico será enviado para escolas públicas de base com a intenção de aproximar os alunos das ciências forenses. "Hoje em dia, com acesso a narrativas investigativas em séries de televisão, por exemplo, os jovens estão se sentindo mais interessados por essa área. A ideia do projeto é entrar com as ciências forenses na escola e depois ensinar todas as ciências a partir dela", finaliza.

Por: Fernanda Nunes (Universidade Federal Fluminense).

Como o Comércio Transatlântico de Escravos Explica o Caminho do Óleo Até as Praias do Nordeste

Foto/Divulgação: Governo do Sergipe.

Se o vazamento de óleo que atinge as praias do Nordeste tivesse ocorrido no início do século 19, navegadores que viajavam entre o Brasil e a África seriam capazes de palpitar sobre o local de origem do incidente.

Cartas náuticas daquela época já descreviam as principais correntes marítimas que operam na região — e que explicam o caminho percorrido pelo óleo até as praias brasileiras, no maior acidente a atingir o litoral do país em extensão. 

As correntes permitiram que o Brasil dominasse o tráfico negreiro no Atlântico. Sozinho, o país recebeu 4,8 milhões de africanos escravizados, dez vezes mais do que os Estados Unidos e quase a metade de toda a população transportada à força para as Américas em quatro séculos. 

E, se no passado as correntes favoreceram a economia escravocrata, hoje elas deixam a costa brasileira vulnerável a acidentes que ocorram a milhares de quilômetros, à medida que a extração de petróleo se expande no Golfo da Guiné, no litoral africano. 

A força da Corrente Sul Equatorial

Quando as manchas de óleo já se espalhavam por nove Estados, no início de outubro, o professor de Oceanografia da Universidade de São Paulo (USP) Ilson Silveira fez uma simulação para tentar identificar o local do vazamento. 

O experimento apontou que o óleo havia entrado em contato com o oceano a uma distância entre 400 e 1.000 km da costa brasileira. De lá, teria sido transportado pela Corrente Sul Equatorial, um gigantesco rio que corre no Atlântico Sul no sentido leste-oeste. A corrente, que tem quatro ramos, se inicia no Golfo da Guiné, na costa ocidental da África, e vai até o litoral do Brasil

"Desde o início percebi que a dimensão do acidente só se explicava por um grande sistema de correntes", diz Silveira à BBC News Brasil

A simulação do professor também indicou que o vazamento ocorrera em latitude próxima às dos Estados de Pernambuco e Paraíba. Ao chegar ao litoral brasileiro nessa latitude, a Corrente Sul Equatorial se bifurca. Um ramo dela se torna a Corrente Norte do Brasil e sobe a costa, rumo ao Amapá, enquanto o outro ramo vira a Corrente do Brasil e desce o litoral, rumo ao Rio Grande do Sul

Isso explicaria a chegada do óleo tanto a Estados ao norte da bifurcação (Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão) quanto a Estados ao sul (Alagoas, Sergipe e Bahia). Não por acaso, as primeiras manchas de petróleo apareceram justamente na Paraíba, onde se dá a bifurcação. 

Por essa lógica, se o vazamento tivesse ocorrido um pouco mais ao norte ou um pouco mais ao sul, dificilmente atingiria todos os Estados do Nordeste. E se tivesse acontecido perto da costa, o óleo perderia o impulso da bifurcação e avançaria só para o norte ou para o sul, a depender do local da ocorrência. 

A hipótese do professor Ilson Silveira foi reforçada na semana passada, quando a Polícia Federal divulgou dados de um relatório produzido pela empresa Hex Tecnologias Geoespaciais. Imagens de satélite coletadas pela empresa mostraram o que seria uma mancha original de petróleo a 733 km do litoral paraibano — dentro, portanto, do perímetro e da latitude calculados pelo pesquisador. 

A influência das correntes na formação do Brasil

A bifurcação da Corrente Sul Equatorial justifica o esforço dos holandeses para controlar o arquipélago de Fernando de Noronha no século 17. No livro O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul - Séculos 16 e 17, o historiador Luiz Felipe de Alencastro diz que o arquipélago "era a ponte para duas estratégicas rotas de ataque" às bases portuguesas nas Américas

Uma dessas rotas ia do norte do litoral nordestino até o Caribe, e a outra descia toda a costa brasileira. A bifurcação também explica a decisão da Coroa portugesa de dividir o Brasil em duas unidades administrativas: ao norte dela ficava o Estado do Grão-Pará e Maranhão, e, ao sul, o Estado do Brasil

As correntes antagônicas tornavam quase impossível realizar viagens marítimas entre os dois Estados. Alencastro cita o isolamento que o padre português Antonio Vieira sentiu durante uma estadia no território ao norte: em uma carta de 1654, ele escreveu que "alguém mais facilmente navega da Índia a Portugal do que desta missão (Maranhão) para o (Estado do) Brasil". 

Missionários e autoridades que quisessem ir da Bahia até São Luís ou Belém costumavam primeiro viajar até Lisboa e só de lá partiam para o Grão-Pará

Tentativas de contornar as condições naturais resultaram em fracassos notáveis. Alencastro conta que, no século 19, um navio da Marinha deixou o Rio de Janeiro carregado de soldados na expectativa de chegar ao Maranhão para conter a Revolta da Balaiada. A embarcação enfrentou fortes correntes contrárias e foi forçada a aportar em Montevidéu, no Uruguai, centenas de quilômetros ao sul do ponto de partida. 

As correntes explicam por que, desde o surgimento das primeiras manchas, o professor Ilson Silveira descartou que o óleo tivesse vazando diretamente de alguma plataforma na Venezuela. Afinal, a Corrente Norte do Brasil vai do Rio Grande do Norte até a Venezuela, no sentido contrário ao da propagação das manchas. 

Trocas entre Brasil e África

A lógica das correntes também influenciou o desenvolvimento econômico dos territórios brasileiros num momento em que o tráfico de africanos escravizados era um dos pilares da economia nacional. 

As viagens dos navios negreiros até o Estado do Grão-Pará e Maranhão eram triangulares. As embarcações costumavam partir de Lisboa rumo à atual Guiné-Bissau e, de lá, viajavam com escravos até o Maranhão, de onde voltavam a Portugal carregados com drogas do sertão (produtos florestais). 

As trocas entre a África e o Estado do Brasil, porém, dispensavam a escala em Portugal. Segundo Alencastro, por causa das condições naturais favoráveis, viagens de ida e volta entre a África e os portos brasileiros ao sul de Recife eram 40% mais curtas do que deslocamentos entre o continente africano e portos no Caribe ou nos Estados Unidos, outros importantes destinos de africanos escravizados. 

Enquanto a Corrente Sul Equatorial facilitava o trajeto África-Brasil, outras condições naturais favoreciam a viagem de volta. Para chegar à costa africana, os navios luso-brasileiros podiam pegar carona no anticiclone de Santa Helena, uma zona de alta pressão atmosférica que opera como uma grande roldana, com os ventos soprando em espiral. Podiam ainda pegar a Contracorrente Sul Equatorial, um canal que corre no sentido contrário à Sul Equatorial, entre os dois ramos austrais da corrente. 

"A relativa segurança e facilidade como se navegava da costa brasileira ao golfo de Guiné ou Angola permitia que navios de pequeno porte, como as escunas de dois mastros que navegavam no rio São Francisco, empreitassem viagens negreiras", escreve Alencastro

Tanto assim que, quando o Brasil se tornou independente, em 1822, comerciantes de escravos em Benguela, na Angola atual, iniciaram um movimento separatista para tentar se integrar ao país do outro lado do Atlântico. Na época, duas das principais rotas no comércio transatlântico de escravos uniam Brasil e África: a maior delas, entre Luanda e Rio de Janeiro, e a rota entre Salvador e o Golfo da Guiné, com escala na ilha de São Tomé

Segundo Alencastro, as correntes também ajudam a explicar por que a escravidão de indígenas nunca alcançou a mesma dimensão que a dos africanos no Brasil

"Mesmo que todos os ameríndios da Amazônia aparecessem acorrentados nas margens do Pará e do Maranhão para se entregar", diz o historiador, os ventos e as correntes continuariam a bloquear seu transporte até os principais mercados em Pernambuco, na Bahia e em São Paulo. "Já as travessias Brasil-Angola eram 'quase sempre acompanhadas por bom tempo ou por muito poucos distúrbios no mar e ventos'", como escreveu em 1799 o governador de Angola

Vazamentos no futuro?

Essas correntes marítimas que favoreceram a navegação entre Brasil e África no tempo da escravidão hoje tornam o Brasil vulnerável a vazamentos de petróleo que ocorram a milhares da costa brasileira, perto do litoral africano. 

A extração do petróleo em plataformas marítimas é atualmente a principal atividade econômica de vários países do Golfo da Guiné, entre os quais Congo, Gabão e Guiné Equatorial. Espera-se que a produção cresça ainda mais conforme tecnologias de extração em águas profundas, como as adotadas pelo Brasil no pré-sal, se expandam pela região. 

O professor Ilson Silveira diz que, em tese, a força das correntes marítimas pode fazer com que o litoral brasileiro seja afetado por vazamentos nessas plataformas no futuro. Nesse caso, porém, diz que o óleo provavelmente chegaria à costa brasileira "bastante intemperizado" (desfigurado pelas intempéries enfrentadas no trajeto). 

Talvez antevendo possíveis problemas desse gênero, a Marinha brasileira tem se aproximado de nações africanas no Atlântico Sul. Desde o início da década, forças navais brasileiras e africanas vêm realizando vários exercícios conjuntos. Oficiais da Marinha costumam dizer que a distância entre Natal e Dacar, a capital do Senegal, é menor que a linha que une os pontos extremos do Brasil, o que tornaria os países africanos tão importantes para a defesa marítima nacional quanto as nações sul-americanas. 

No fim de outubro, a força naval brasileira participou pela primeira vez da Comissão Grand African Nemo, operação que agrega os 16 países do Golfo da Guiné e que, nesta edição, também teve entre os convidados Bélgica, Estados Unidos, França e Espanha

Segundo uma nota divulgada pela Marinha, um dos objetivos do exercício foi justamente "adestrar as Marinhas amigas dos países africanos da costa ocidental" para incidentes no Golfo da Guiné, o que inclui o "combate à poluição no mar".

Por: João Fellet (BBC News Brasil).

Mais de 11 Mil Cientistas Decretam 'Emergência Climática'

Estudo indica seis passos importantes que poderiam resolver a situação. 

Um novo estudo realizado por 11.258 cientistas das mais variadas disciplinas, em 153 países, alerta que o planeta "enfrenta uma emergência climática clara e inequívoca", e delineia seis objetivos amplos de política pública que precisam ser atingidos para enfrentá-la. 

O relatório se afasta consideravelmente das avaliações científicas mais recentes sobre o aquecimento global, como a do Painel Intergovernamental sobre a Mudança do Clima (IPCC, na sigla em inglês), por expressar suas conclusões como certezas e por recomendar políticas. 

O estudo "Alerta dos Cientistas Mundiais sobre a Emergência Climática" representa a primeira ocasião em que um grande grupo de cientistas apoiou formalmente a classificação como “emergência” da mudança no clima, que o estudo aponta ser causada por muitas tendências humanas que, somadas, elevam as emissões dos gases causadores do efeito estufa. 

Publicado no dia 05/11/2019 pela revista acadêmica Bioscience, o estudo foi liderado pelos ecologistas Bill Ripple e Christopher Wolf, da Universidade Estadual do Oregon, e por William Moomaw, cientista do clima na Universidade Tufts, bem como por pesquisadores da Austrália e África do Sul

O estudo expõe com clareza o grande desafio de reduzir as emissões dos gases causadores do efeito estufa. 

"A despeito de 40 anos de negociações sobre o clima, nós, com poucas exceções, estamos nos comportando como se nada tivesse mudado, e fracassamos, de modo geral, em enfrentar esse problema", diz o estudo. 

As conclusões são embasadas por um conjunto de indicadores fáceis de compreender que mostram a influência humana sobre o clima, como 40 anos de dados sobre emissões de gases causadores do efeito estufa, estatísticas de crescimento populacional, produção per capita de carne, perda mundial de cobertura por árvores, bem como as consequências disso tudo, como as tendências mundiais de temperatura e o teor de calor no oceano. 

Os resultados são gráficos que, ao menos comparados aos apresentados pelo IPCC, surpreendem pela simplicidade, e ajudam a revelar a direção perturbadora em que o planeta está avançando. 

O estudo também se afasta de outras avaliações importantes sobre o clima ao tratar diretamente do assunto do crescimento populacional, que é politicamente controverso. O estudo aponta que o declínio nos índices de natalidade "se desacelerou substancialmente" nos últimos 20 anos e pede por "mudanças ousadas e drásticas" nas políticas populacionais e de crescimento econômico a fim de reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa. 

Essas medidas podem incluir políticas que reforcem os direitos humanos, especialmente os das mulheres e meninas, e que tornem serviços de planejamento familiar "disponíveis para todos". 

Quanto à energia, o estudo apela pela "implementação de grandes programas de eficiência energética e práticas de conservação", e pela eliminação do consumo de combustíveis fósseis em favor de fontes renováveis de energia, uma tendência que segundo o relatório não está avançando tão rápido quanto deveria. 

Além disso, a pesquisa também pede que os recursos restantes de combustível fóssil, como carvão e petróleo, não sejam extraídos ou queimados para gerar energia, o que representa um dos objetivos essenciais de muitos ativistas do clima. 

Maria Abate, signatária do alerta dos cientistas e professora de biologia no Simmons College, de Boston, diz que espera que o trabalho conscientize o planeta. 

"Como outros organismos, não estamos adaptados a reconhecer ameaças ambientais muito amplas e que se estendem para além do espaço imediato ao nosso redor", ela disse via e-mail. "Os sinais vitais reportados sobre nossa atividade mundial e a resposta climática nos oferecem um relatório tangível, baseado em provas, que, espero, ajude nossa cultura a se conscientizar de maneira mais ampla e mais rápida sobre a necessidade de desacelerar a crise do clima". 

Outros itens na lista de prioridades políticas oferecida pelo estudo incluem um corte rápido nas emissões de poluentes de baixa duração que afetam o clima, como fuligem e metano, o que pode desacelerar o aquecimento em curto prazo. O estudo também sugere a mudança para uma dieta baseada principalmente em vegetais, e pela instituição de práticas agrícolas que elevem a quantidade de carbono absorvido pelo solo. 

Quanto à economia, segundo os autores, melhorar a sustentabilidade em longo prazo e reduzir a desigualdade deveriam ser prioridades, em lugar da ampliação da riqueza, tal como medida pelo PIB (Produto Interno Bruto). Os autores também advogam políticas que reduziriam a perda de biodiversidade e a destruição de florestas, e recomendam priorizar a preservação das florestas intactas, que armazenam carbono, em companhia de outras terras capazes de absorvê-lo rapidamente, assim reduzindo o aquecimento global. 

"Trata-se de um documento que estabelece um registro claro do amplo consenso que existe entre os cientistas ativos neste momento da história, de que a crise do clima é real e é uma grande ameaça, talvez à própria existência das sociedades humanas, ao bem-estar humano e à biodiversidade", disse Jesse Bellemare, professor associado de biologia no Smith College e um dos signatários da declaração de emergência. 

Ele disse, via e-mail, que a presença de tantos biólogos e ecologistas na lista de signatários pode refletir o fato de eles estarem observando grande número de mudanças com base em uma alteração no clima de dimensões muito inferiores à que é projetada para o futuro. 

Ripple, da Universidade Estadual do Oregon, tem experiência na organização de apelos científicos à ação, tendo fundado a Aliança Mundial de Cientistas e organizado o "Alerta à Humanidade: Segunda Notificação", divulgado pela organização em 2017 e também publicado pela Bioscience, que tinha por foco a necessidade urgente de resolver uma ampla gama de problemas ambientais, entre os quais a mudança no clima e a perda de biodiversidade. 

"Estamos pedindo por uma mudança transformadora para a humanidade", disse Ripple em entrevista. Muitos dos signatários do alerta não se descrevem como cientistas do clima, mas sim como biólogos, ecologistas e cientistas de outras especialidades. Ripple disse que isso é intencional, já que os autores buscaram obter o mais amplo apoio possível. 

"A situação que enfrentamos hoje com a mudança do clima", ele diz, "demonstra que essa é uma questão que precisa se expandir para além dos cientistas do clima apenas". 

Moomaw disse que o estudo vinha de pesquisadores que estão vendo as consequências de um planeta que tem mudado rapidamente, e que ele representa em parte "uma declaração de frustração por parte de muita gente na comunidade científica". 

"Os cientistas, e especialmente aqueles que estão estudando o que vem acontecendo com um clima mudado, se alarmaram muito com a rapidez dessas mudanças e com a urgência de tomar medidas muito mais drásticas", disse Moomaw

O termo "emergência climática" vem sendo defendido pelos ativistas do clima e pelos políticos que defendem ação quanto à mudança climática como forma de acrescentar urgência à maneira pela qual respondemos a um problema de longo prazo. 

O grupo ativista Climate Mobilization quer mobilizar governos nos Estados Unidos e em outros países e conseguir que declarem uma emergência climática, decretando medidas de resposta comensuráveis com esse tipo de declaração. 

O legislativo municipal de Nova York declarou uma emergência climática, assim como o de São Francisco. Cidades europeias fizeram o mesmo. Projetos de lei que definem o aquecimento global como emergência estão tramitando na Câmara dos Deputados e no Senado americanos, patronados por liberais conhecidos como o senador Bernie Sanders (independente de Vermont) e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez (democrata de Nova York). 

O movimento juvenil de combate à mudança no clima, que inclui a ativista sueca Greta Thunberg, vem liderando a campanha pela adoção de linguagem mais urgente para descrever o aquecimento global. 

Até o momento, os cientistas vinham relutando em usar esse tipo de linguagem. Mas o novo estudo pode mudar essa postura. 

Phil Duffy, pesquisador do clima e presidente do Woods Hole Research Center, que assinou o relatório em 04/11/2019, disse considerar o termo apropriado, considerada a escala do problema e a falta de ação até o momento. 

"O termo ‘emergência climática’... devo dizer que o considero refrescante, na verdade, porque eu fico muito impaciente com os cientistas que vivem vacilando e resmungando sobre incerteza, aquele papo furado, e essa nova postura com certeza é muito mais ousada do que isso", ele disse. "Creio que seja a coisa certa a se fazer".

Por: Andrew Freedman (The Washington Post). Tradução: Paulo Migliacci (Folha de S. Paulo).

Pesquisa em Cinco Continentes Mostra Diversidade das Minhocas e Sua Distribuição no Planeta

A ocorrência e a distribuição de comunidades de minhocas pelo planeta dependem principalmente do clima, em especial das chuvas. Essa foi uma das principais conclusões do maior estudo já realizado sobre esses animais responsáveis pela estruturação do solo e por boa parte da reciclagem da matéria orgânica nele contida. 

Recentemente publicado na revista Science [Global distribution of earthworm diversity], o trabalho reuniu e analisou enorme base de dados produzidos em 6.928 locais de 57 países, por 134 instituições de pesquisa, entre elas quatro brasileiras: Universidade Estadual do Maranhão (Uema), Universidade Positivo (UP), Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) e Embrapa. O objetivo foi mapear os padrões de distribuição espacial das comunidades de minhocas e identificar os fatores que moldam a riqueza e a quantidade das espécies. 

"Foi uma surpresa perceber que o tipo de solo e suas características, por exemplo, não têm tanta influência sobre a distribuição das minhocas quanto à precipitação", conta o pesquisador da Embrapa Florestas, George Gardner Brown, coautor da pesquisa. Ele revela que já se esperava que a umidade fosse um dos principais influenciadores da ocorrência desses animais, uma vez que sua respiração se dá pela pele e necessitam de solo úmido para estarem ativos. "No entanto, a precipitação mostrou-se mais importante que fatores como temperatura e cobertura vegetal, além das características do solo", admira-se o cientista. 

Mais sujeitas às mudanças climáticas

Uma das consequências da descoberta é que as minhocas podem ser fortemente afetadas pelas mudanças climáticas no planeta. Brown explica que esses animais reduzem suas atividades fisiológicas durante os períodos de seca, quando entram em diapausa ou ficam inativos. Para retomar a rotina biológica mais ativa, elas são "despertadas" pelo retorno das chuvas. "Isso significa que qualquer alteração climática que interfira nesse processo pode prejudicá-las. Um período de estiagem mais longo pode exaurir as populações de minhocas ao longo dos anos. Chuvas isoladas no meio da seca também podem confundi-las e fazê-las voltar à atividade antes do tempo e deixa-las expostas à escassez de água logo depois", exemplifica o pesquisador. 

De olho nesse problema, Helen Philips, pesquisadora do German Centre for Integrative Biodiversity Research (iDiv), em Leipzig, Alemanha, pretende aprofundar as pesquisas a respeito dos efeitos das mudanças climáticas sobre as minhocas. Philips é a primeira autora do trabalho. Já se sabe, por exemplo, que esses animais são sensíveis não somente à quantidade, mas, principalmente, à regularidade das chuvas. 

A perda ou redução das populações de minhocas significaria o desaparecimento de muitos serviços ambientais valiosos que elas realizam, de acordo com Brown, o que afetaria também a agricultura. Elas estimulam a atividade microbiana e agem como engenheiras, formando a estrutura do solo que permite a aeração e a penetração da água e das raízes. "Não é à toa que agricultores e jardineiros as consideram um importante indicador de qualidade do solo, o que, em boa parte, se confirma em nossos estudos", declara. 

O mistério das latitudes

O número médio de espécies encontradas em cada local avaliado variou entre um e quatro, mas curiosamente houve um aumento da riqueza local de espécies conforme o aumento da latitude. A riqueza de espécies encontradas foi maior em latitudes médias do que em baixas latitudes na região tropical. Isso é o oposto do que ocorre com os organismos da superfície, tanto animais como vegetais, os quais apresentam maior diversidade nas regiões tropicais. Os cientistas ainda não descobriram o motivo dessa peculiaridade, mas especulam que ela pode estar relacionada a fatores climáticos como o potencial de evapotranspiração, ao teor de matéria orgânica no solo, à glaciação que ocorreu no período quaternário e a atividades humanas que promoveram a dispersão de minhocas, especialmente espécies exóticas, na região de clima temperado. 

No entanto, o cientista Brown chama a atenção para o fato de que a diversidade de espécies é maior somente nos locais de coleta e não nas regiões como um todo. Ou seja, na França, por exemplo, pode-se encontrar, comumente, um maior número de espécies de minhocas em um determinado local de coleta do que em um sítio brasileiro. Porém, há uma chance bem maior de essas mesmas espécies francesas se repetirem em outros lugares na Europa. Nos trópicos, por sua vez, apesar de haver menos espécies coabitando uma mesma área, a diversidade de espécies é maior, pois elas se repetem bem menos entre um local e outro, o que é conhecido como diversidade beta. Além disso, nos trópicos o número de espécies endêmicas (encontradas em somente um local, ou áreas reduzidas) tende a ser maior. 

Quantas minhocas?

O estudo mensurou as comunidades de minhocas por meio de três parâmetros: riqueza de espécies (quantas espécies diferentes foram encontradas no local); abundância (quantidade de indivíduos) e biomassa (peso, registrado em gramas, de todas as minhocas encontradas). Brown detalha que esse último parâmetro é importante porque o tamanho dos animais está diretamente ligado à modificação da estrutura do solo. Uma comunidade numerosa de indivíduos pequenos pode ser menos impactante nesse aspecto do que um grupo menor formado por animais maiores, por exemplo. 

Para cada um dos parâmetros foram analisadas as influências de seis variáveis: cobertura vegetal, altitude, tipo de solo, precipitação, temperatura e retenção de água. Foi esse comparativo que revelou a importância das chuvas para a espécie. Enquanto a temperatura e a retenção de água foram determinantes para garantir a abundância das minhocas e a cobertura vegetal esteve fortemente associada à biomassa, a precipitação mostrou-se uma forte influenciadora dos três parâmetros ao mesmo tempo. 

O estudo global originou-se da compilação e análise de 180 trabalhos do mundo todo, 16 deles ainda não publicados. "Trata-se de uma contribuição valiosa da pesquisa, pois hoje sabemos muito pouco sobre os organismos do solo e sua distribuição no mundo", pondera o pesquisador da Embrapa

Brown lembra que o volume de informações produzidas não é homogêneo em todas as regiões do planeta. "Como em diversas áreas de pesquisa, há abundância de dados para as regiões temperadas e lacunas para as tropicais", revela ele, frisando que entre os vários motivos dessa disparidade estão as facilidades de acesso a recursos financeiros, humanos, infraestrutura e materiais presentes em países com climas temperados no planeta. 

Uma minhoca chamada Embrapa 

Além das pesquisas realizadas em seus campos experimentais, a Embrapa abriga uma importante biodiversidade embaixo deles. Pesquisadores brasileiros e estrangeiros já descreveram 13 novas espécies de minhocas em áreas da Embrapa (veja abaixo) e outras 20 aguardam a descrição formal. As mais recentes são a Fimoscolex nivae, a Glossoscolex maschio e a Glossoscolex embrapaensis. As três foram encontradas em áreas da Embrapa Florestas e seus nomes remetem a participantes da descoberta. A F. nivae é uma homenagem a Cíntia Niva, pesquisadora da Embrapa Cerrados; a G. maschio alude a Wilson e Wagner Maschio, pai e filho proprietários de uma área vizinha à Embrapa Florestas na qual a espécie foi encontrada; e a G. embrapaensis homenageia a própria empresa de pesquisa. 

"É bom que o Brasil saiba que a Embrapa também é um importante patrimônio biológico para o País, já que suas unidades de pesquisa, campos e estações experimentais possuem uma enorme riqueza de animais, incluindo insetos e outros invertebrados como a minhoca, por exemplo", afirma o pesquisador George Brown

Veja as espécies de minhocas descobertas nas unidades da Embrapa

1. Righiodrilus amazonius (Zicsi & Csuzdi, 1999) e 
2. Pontoscolex franzi (Zicsi & Csuzdi, 1999), ambas coletadas na estação de Capitão Poço, da Embrapa Amazônia Oriental
3. Righiodrilus moju (Bartz, Santos & James, 2017), coletada na estação experimental de Moju, da Embrapa Amazônia Oriental
4. Cirodrilus righii (Zicsi, Römbke & Garcia, 2001), coletada na área experimental da Embrapa Amazônia Ocidental, em Manaus
5. Righiodrilus ortonae (Righi, 1988);
6. Pontoscolex cuasi (Righi, 1988);
7. Eukerria guamais (Righi, 1971); 
8. Urobenus gitus (Righi, 1971); 
9. Atatina puba (Righi, 1971) e 
10. Liodrilus ipu (Righi, 1975), sendo essas seis últimas espécies coletadas na área experimental da Embrapa Amazônia Oriental, em Belém
11. Fimoscolex nivae (Feijoo & Brown, 2018); 
12. Glossoscolex maschio (Feijoo & Brown, 2018) e 
13. Glossoscolex embrapaensis (Feijoo & Brown, 2018), coletadas na Embrapa Florestas, em Colombo, Paraná.

Fonte: Embrapa.

Com Pesquisa e Desenvolvimento, Brasil Pode Ter Uma Silvicultura de Espécies Nativas Inovadora, Sustentável e Produtiva

A indústria das florestas plantadas é um setor bem estabelecido economicamente no Brasil. Segundo a IBA, esse setor fechou 2017 com um superávit de mais de US$ 9 bilhões, com a expectativa de investimento de R$ 14 bilhões em 2020. 

Essa indústria, porém, é sustentada basicamente por apenas duas espécies de árvores exóticas: o pinus e o eucalipto. Enquanto isso, espécies nativas do Brasil, como castanheira, ipê e muitas outras estão entrando para o mercado de produtos madeireiros e não-madeireiros principalmente pela via ilegal, muitas vezes atrelada ao desmatamento e à degradação da floresta amazônica. 

Plantar espécies nativas brasileiras poderia gerar um benefício duplo: atender à crescente demanda por madeira e produtos da floresta, gerando renda e emprego no campo, e ao mesmo tempo diminuir a pressão sobre as florestas naturais, reduzindo risco de desmatamento. Porém, para que isso aconteça em grande escala, o plantio de espécies nativas precisa estar melhor desenvolvido através de investimento em ciência e tecnologia. 

Um estudo publicado no dia 04/10/2019 pelo WRI Brasil e por parceiros mostra as lacunas para desenvolver uma nova economia florestal com o plantio de espécies nativas – e ajudar o país a cumprir sua meta de restaurar 12 milhões de hectares de florestas até 2030. O estudo, chamado Research gaps and priorities in silviculture with native species in Brazil, mostra que investir em pesquisa e desenvolvimento (P&D) é um bom negócio e a silvicultura de espécies nativas pode ser lucrativa e benéfica para o Brasil e o mundo. 

Seguindo os trilhos do eucalipto

O sucesso da silvicultura de espécies exóticas no Brasil, como o pinus e eucalipto, não aconteceu por acaso. Foram décadas de investimento pesado em pesquisa e desenvolvimento para que essas plantações melhorassem sua produtividade. 

O gráfico abaixo exemplifica isso. A partir do final da década de 1960, quando o eucalipto começou a receber investimentos, a sua produtividade subiu, permitindo produzir mais madeira por hectare. Ao mesmo tempo, a silvicultura de espécies nativas não recebeu investimento, e a produtividade não avançou.

Como o eucalipto, diversas espécies de árvores nativas brasileiras poderiam se beneficiar de um programa de pesquisa e desenvolvimento. O estudo do WRI Brasil e de parceiros identificou 45 espécies com potencial, e refinou em uma lista de 30 espécies – metade da Amazônia, metade da Mata Atlântica, sendo que algumas delas também podem ocorrer no Cerrado. São espécies como araucária, pau-brasil, ipê-felpudo e vinhático, na Mata Atlântica, ou paricá, mogno-brasileiro, ipê-amarelo ou andiroba na Amazônia

Quais os resultados de se investir em P&D para essas espécies nativas? Os autores elaboraram quatro cenários de investimento, considerando número de espécies e anos de pesquisa e desenvolvimento. Os resultados mostram que o Brasil precisa fazer um investimento em P&D relativamente baixo. Uma análise de custo-benefício para um dos cenários (30 espécies) mostra que esse investimento tem retorno positivo: US$ 2,36 para cada dólar investido em um período de 20 anos. 

Uma plataforma para preencher as lacunas

O estudo identificou lacunas no conhecimento científico em oito grandes áreas da silvicultura de nativas. São essas áreas que precisam receber investimento para que a restauração das espécies da Amazônia e da Mata Atlântica possa se tornar competitiva. São elas: 

  • Sementes e mudas; 
  • Clonagem; 
  • Melhoramento genético; 
  • Tecnologia da madeira; 
  • Manejo florestal; 
  • Zoneamento topo-climático; 
  • Mercado para produtos madeireiros; 
  • Políticas e legislações florestais. 

Além disso, os autores fazem uma proposta concreta para direcionar recursos de pesquisa e desenvolvimento de nativas: a criação, em parceria com a Coalizão Brasil Clima, Agricultura e Florestas, de uma Plataforma de P&D. A proposta é que essa plataforma capte recursos públicos ou privados, seja de governos, empresas ou doadores, para destiná-los a uma pesquisa ainda em fase pré-competitiva, suprindo lacunas de conhecimento no desenvolvimento das espécies. A pesquisa permitirá desenvolver melhor o conhecimento científico dessas espécies, a partir de uma melhor seleção de mudas e sementes, técnicas de melhoramento genético ou desenvolvimento de princípios de manejo ainda inexistentes para essas árvores brasileiras e que sejam capazes de reduzir custos. 

Os benefícios da silvicultura de nativas

A silvicultura de espécies nativas brasileiras tem o potencial de atender a demanda doméstica ou internacional por madeira de qualidade e dentro da lei, sem destruir as florestas. Pode gerar emprego e renda no meio rural, além de contar com inúmeros benefícios para o meio ambiente, como reduzir o desmatamento e a degradação, aumentar a biodiversidade local, remover milhões de toneladas de carbono da atmosfera e recuperar solo e nascentes de água. Ao investir em pesquisar e desenvolver a riqueza das espécies brasileiras, o país pode criar uma nova economia da floresta, gerando benefícios para toda a sociedade, e ainda cumprir compromissos brasileiros como a meta de restaurar 12 milhões de hectares de florestas até 2030.

Fonte: WRI Brasil.

Crise Climática Levará À Forte Recessão Econômica na Próxima Década, alerta estudo

Pesquisadores mostram que soluções para frear o aquecimento global estão disponíveis a custo acessível. O que falta às empresas e aos governos é serem proativos. 

Se o combate ao aquecimento global por parte das empresas não se dará pura e simplesmente em prol do bem comum, que se dê então para evitar a bancarrota delas mesmas. Em artigo publicado no dia 20/10/2019, o Boston Consulting Group (BCG) traz um alerta sobre uma forte recessão prevista para as próximas décadas em razão dos efeitos da mudança climática. 

A análise foi feita com base em dados da Universidade de Stanford, que apontam uma queda, em média, de 30% do Produto Interno Bruno per capita no mundo até o fim deste século em decorrência dos efeitos do clima – a se seguir o cenário atual, que levaria as temperaturas globais ao patamar de 4° Celsius até 2100. O IPCC projeta que, se o aumento fosse limitado a 1,5°C, o PIB médio per capita seria apenas 8% menor. 

Os autores do artigo, intitulado Flipping the Script on Climate Action ("Invertendo o Script da Ação Climática"), afirmam que, para muitos setores, os avanços tecnológicos na área de redução das emissões de carbono já são economicamente viáveis. Há apenas uma década, o custo das energias eólica e solar era de fato proibitivo e havia uma preocupação significativa de que sua volatilidade ameaçaria a estabilidade da rede elétrica. 

Atualmente, segundo o BCG, ambas as fontes se tornaram mais baratas do que o carvão, o gás e a nuclear na maioria dos países desenvolvidos. "A possibilidade de se ter um suprimento de energia 100% renovável não parece mais ser uma questão de ‘se’ ou ‘como’, mas sim de ‘quando’, pelo menos em parte da Europa". A pesquisa do BCG mostra ainda que a maioria dos países já pode atender cerca de 80% de suas contribuições ao Acordo de Paris sem recorrer a tecnologias novas ou não comprovadas. 

Há inclusive países que já começam a ver na redução de emissões uma oportunidade de negócio com expectativas até de aumento do PIB. Esses pioneiros na economia sustentável, além de cumprirem os compromissos firmados em Paris, serão futuramente os mais bem sucedidos em termos de crescimento econômico, prevê o estudo. 

Apesar disso, e do aumento da pressão pública em todo o mundo, o debate econômico em torno da ação climática continua dominado pelo ceticismo. "Os reguladores e as empresas seguem relutantes em promover uma redução ambiciosa por medo de prejudicar a competitividade e o crescimento econômico".

Como não há esperança de que um mecanismo global mais eficaz e mais ágil de redução de emissões surja como uma epifania, o Centro para Ações Climáticas (CAC), braço do BCG criado para ajudar setores público e privado a gerir as transformações necessárias para enfrentar os desafios do clima, recomenda: aos governos, que insistam em políticas nacionais de redução de emissões e eliminem gradualmente os combustíveis fósseis; e às empresas, que sejam proativas em tornar os seus modelos de negócios e operações resilientes às alterações climáticas, até para se alinhar aos interesses de investidores – mesmo que isso signifique ter de superar desvantagens comerciais no curto prazo. 

O debate sobre se a mudança climática está mesmo ocorrendo ou se a atividade humana é a causa dominante ficou no passado. A discussão atual gira em torno de quão grave podem ser os impactos que virão. Segundo o artigo, ainda estamos mal equipados para captar e quantificar os efeitos colaterais do clima. "Mas quanto mais os cientistas os compreendem, mais terríveis são suas previsões". Por exemplo: 

Elevação do nível do mar: A velocidade do aumento do nível do mar foi subestimada. O colapso da plataforma de gelo Larsen B, na Antártica Ocidental, tem demonstrado a rapidez com que a desestabilização subaquática já está ocorrendo hoje. 

Incêndios: Este ano houve incêndios em larga escala na taiga russa e na Amazônia brasileira, dois dos maiores ecossistemas globais. O risco de novos incêndios aumenta na mesma proporção que a temperatura sobe, mas os modelos climáticos de hoje dificilmente captam os impactos subsequentes nesses biomas. 

Ondas de calor e secas: Florestas estão morrendo e as terras agrícolas se degradando. No entanto, o que vimos no Oriente Médio, na Europa e em partes da América do Norte nos últimos anos marca apenas o início de um declínio de longo prazo. 

Escassez de água: Em megacidades globais como Chennai, na Índia, e Cidade do Cabo, na África do Sul, a escassez cada vez mais severa de água potável ameaça o bem-estar físico e econômico de milhões de cidadãos. Mais se seguirá, mesmo se limitarmos o aquecimento a 2°C. 

Acesse aqui o artigo completo dos pesquisadores Jens Burchardt, Michel Frédeau, Philipp Gerbert, Patrick Herhold e Cornelius Pieper.

Fonte: Página 22.

Aquecimento Global: Super El Niño, a perigosa versão do fenômeno climático cada vez mais frequente no Pacífico

No oceano Pacífico, próximo à linha do Equador, um padrão climático gere periodicamente as chuvas, as secas, as inundações e as tormentas de todo o planeta. 

Esse fenômeno meteorológico, cujo nome completo é El Niño-Oscilação Sul (Enos), surge do aquecimento das águas oceânicas e castiga com frequência o clima da Terra

"O Enos altera os padrões de circulação da atmosfera e causa eventos extremos pelo mundo. De inundações na Índia ou na Austrália a inundações na costa oeste da América do Sul", explica Bin Bin Wang, chefe do Departamento de Meteorologia da Universidade do Havaí (EUA), em entrevista à BBC News Mundo (serviço da BBC em espanhol). 

Mas segundo o especialista, esta oscilação atmosférica mostrou nos últimos 40 anos seu lado mais trágico: o chamado Super El Niño, uma versão mais intensa do fenômeno com consequências ainda mais devastadoras. 

"O 'Super El Niño' é uma forma extrema do Enos, na qual a intensidade pode fazer com que as águas do Pacífico subam até 3ºC ou 4ºC em relação à temperatura normal do oceano", afirmou Bin

De acordo com especialista, só foram registrados três Super El Niño nos últimos 130 anos: em 1982, 1998 e 2015. 

Um estudo realizado por Bin e outros especialistas, publicado recentemente na renomada revista americana Proceedings of the National Academy of Sciences, indica que esse fenômeno extremo deverá ser cada vez mais frequente e destruidor. 

Para o grupo de cientistas, há um responsável por trás disso: o aquecimento global induzido pela ação humana. Segundo Bin, esse fator é chave para determinar a frequência e a intensidade do Super El Niño no futuro. 

Um relatório da Agência Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, também publicado recentemente, indica que hoje há condições para um El Niño neutro, isto é, que não manifeste seus efeitos nos próximos meses. 

No entanto, Bin lembra que a ativação do fenômeno é periódica e isso não descarta que nos próximos anos ele possa retornar com força total. 

O que os pesquisadores identificaram?

O estudo do grupo de cientistas, que se estendeu por mais de dois anos, analisou pela primeira vez os registros climáticos do El Niño de 1901 a 2017. 

"Durante esse período, houve 33 eventos do El Niño e analisamos quando eles começaram, como se desenvolveram, o que causou seu desenvolvimento e qual foi seu impacto", lembra Bin

"A principal descoberta foi que o local de origem do Enos mudou do leste do Pacífico para o oeste desde a década de 1970 e coincide com os eventos mais extremos", acrescenta o acadêmico. 

Segundo o estudo, antes de 1970, o fenômeno se originou no extremo leste do Pacífico, mas no último meio século seu foco mudou para uma região mais quente: o oeste do oceano. 

Quais são as causas e as consequências do fenômeno? Para Bin, o estudo indica que, em razão de ações humanas, as águas do Pacífico ocidental foram, de modo desproporcional, mais rapidamente aquecidas do que as do Pacífico central. 

Esse aquecimento foi responsável pelos eventos mais extremos do El Niño registrados nas últimas décadas e deve ser o fator-chave no futuro próximo, segundo o especialista. 

Na opinião dele, o estudo mostra como a ação humana pode levar a maiores eventos extremos de El Niño no futuro. 

Os pesquisadores identificaram que esse fenômeno extremo pode elevar de forma acentuada a temperatura global, gerar mais furacões e tufões e inclusive afetar ciclos naturais do planeta. 

Seus danos incluem a destruição de arrecifes de corais, inundações, deslizamentos e secas. "Esses eventos climáticos afetam milhões de pessoas e causam danos de milhões de dólares. Há uma série de consequências socioeconômicas profundas", afirma Bin.

Fonte: BBC.

As Cidades de Todo o Mundo Querem Ser Resilientes, Mas o Que Isso Significa?

Caruaru, Pernambuco.

População urbana global deve crescer rapidamente nas próximas décadas, o que obriga prefeitos e cidadãos a olhar com mais atenção para questões como clima, espaços verdes e gestão de resíduos sólidos.

Pequenas ou grandes, as cidades de todo o mundo têm desafios comuns, em especial os trazidos pela rápida urbanização e pelas mudanças climáticas. As Nações Unidas estimam que 4 bilhões de pessoas — mais da metade da população global — vivem nos centros urbanos. Até 2050, mais de dois terços da população mundial viverá nas cidades, o que gerará uma demanda crescente por moradias acessíveis, sistemas de transporte bem conectados e outras infraestruturas e serviços, além de empregos. 

Além disso, o aumento da temperatura global intensifica os riscos de elevação do nível das águas, deslizamentos de terra, secas, furacões e outros desastres, que podem levar 100 milhões de pessoas à extrema pobreza. 

A boa notícia é que, com conhecimento e criatividade, os centros urbanos estão encontrando formas de enfrentar novos e antigos problemas com menos perdas e maior capacidade de recuperação. Em outras palavras, criando resiliência. 

Esse foi um dos principais temas da recente conferência Catalisando Futuros Urbanos Sustentáveis, promovida pela Prefeitura de São Paulo, pelo Programa Cidades Sustentáveis e a Plataforma Global para Cidades Sustentáveis (GPSC), do Banco Mundial, com apoio do Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF, em inglês). 

Na troca de experiências — da qual participaram representantes de quatro continentes —, três assuntos estiveram presentes, sempre tendo a resiliência e a sustentabilidade como panos de fundo: 

1. A mudança do clima, tema de que nenhum prefeito conseguirá mais fugir. Segundo o Banco Mundial, as cidades consomem cerca de 2/3 da energia mundial e são responsáveis por mais de 70% das emissões globais de gases de efeito estufa. 

2. Mais espaços verdes, como parques com árvores, pássaros, abelhas e outras espécies. Hoje, cerca de um milhão de espécies animais e vegetais estão em perigo de extinção, prejudicando a capacidade de a natureza armazenar carbono. Os espaços verdes não apenas ajudam as cidades a mitigar e se adaptar às mudanças climáticas, mas também servem como lugares de convivência entre pessoas e natureza, e para a conservação da biodiversidade urbana. 

3. Finalmente, o debate sobre o gerenciamento dos resíduos sólidos foi constante. Sem ele, rios transbordam e substâncias nocivas poluem o ar, entre outros malefícios. Com ele, é possível gerar oportunidades para milhões de pessoas, como as que trabalham na cadeia da reciclagem. Saiba mais a seguir. 

Prontas para as mudanças do clima

Hoje, 90% da expansão urbana se dá nos países em desenvolvimento. Grande parte dela ocorre em áreas próximas a riscos naturais, rios e regiões litorâneas, por meio de assentamentos informais e não planejados. A falta de infraestrutura e de planejamento do uso da terra exacerba os riscos aos quais os moradores estão expostos, em especial com as mudanças do clima. Por isso, diversas cidades já estão elaborando seus planos de mitigação e adaptação. São Paulo, por exemplo, espera lançar o seu em junho de 2020. 

Recife já tem um, de olho na comemoração dos 500 anos da cidade, em 2037. Um terço da população local mora em áreas de morro, portanto sujeitas a tragédias; e outro terço fica no nível do mar, o que significa alagamentos. 

"Fizemos um plano estratégico baseando num conjunto de planos urbanos e ambientais, com participação da sociedade civil e da população, prevendo uma série de ações de mitigação, resiliência e adaptação a todas as consequências da crise climática", disse na conferência o prefeito Geraldo Júlio

Nos países desenvolvidos, planos ainda mais ambiciosos estão em curso. Paris se comprometeu a ser uma cidade de emissões zero até 2050 e, para isso, estabeleceu 500 medidas em diversos setores (construção civil, transportes, energia, alimentação, etc.). Entre elas, está o objetivo de usar somente energias verdes (biomassa, eólica e solar) e banir carros a diesel até 2024 e todos os carros movidos a petróleo até 2030.


Menos asfalto, mais florestas e parques 

"Com menos carros na rua, não precisamos de tantos estacionamentos ou asfalto", disse a vice-prefeita de Paris, Pénélope Komitès. "É possível, por exemplo, usar os prédios de garagem para plantar florestas urbanas, que ajudam a regular a temperatura", continuou. 

Da China ao Paraguai, passando por Paris, o aumento de espaços verdes é uma tendência. Entre outros benefícios, eles capturam carbono e melhoram a qualidade do ar. Tudo isso é bem-vindo em cidades chinesas como Ningbo, que consegue manter mais de 40 quilômetros quadrados de áreas protegidas, mesmo com uma população de 8 milhões de pessoas. 

Na América Latina, Assunção, no Paraguai, pretende estabelecer um corredor urbano verde, com pelo menos 35 mil hectares, para cuidar melhor de sua biodiversidade, em especial dos pássaros. O projeto está em fase preliminar. 

Parques também ajudam a amenizar o calor, algo necessário em uma cidade como Caruaru, Pernambuco, onde será construído um parque linear (mais comprido do que largo) com uma ciclovia integrando 14 bairros e com potencial para beneficiar 140 mil pessoas. 

Juntas, essas medidas criam oportunidades para as cidades gerarem crescimento verde, de baixo carbono e competitivo, e para construir sociedades resilientes, inclusivas e habitáveis. 

Resíduos ainda pouco sustentáveis

Segundo o relatório Que Desperdício 2.0: Um Retrato Global da Gestão de Resíduos Sólidos até 2050, do Banco Mundial, a taxa global de produção de lixo se tornará duas vezes maior que a de crescimento populacional nos próximos 30 anos. "Cidades e países estão se desenvolvendo rapidamente, sem sistemas adequados para comportar a mudança nos resíduos jogados fora pelos cidadãos", diz o estudo. 

Na contramão dessa tendência, São Paulo vem aos poucos adotando metas e ações que podem aliviar o problema. Por exemplo, a Prefeitura aderiu neste ano ao Compromisso Global da Nova Economia de Plástico, com o objetivo de que 100% das embalagens plásticas possam ser recicladas ou reaproveitadas até 2025. 

Outra medida é a ampliação dos pátios de compostagem: atualmente, são cinco, que recebem resíduos dos mercados públicos e têm capacidade para até 10 toneladas/dia. Para o fim de 2020, a administração municipal promete 17 pátios, a fim de tratar 100% dos resíduos das mais de 800 feiras livres que ocorrem a cada semana na capital. 

Pátios de compostagem, ecopontos para entrega de entulho (a exemplo dos de São Paulo e Caruaru) ou a simples melhora dos sistemas de limpeza urbana (como nos bairros mais precários de Abidjan, Costa do Marfim) estão entre as várias soluções que podem ser adotadas por cidades do mundo todo. 

Nem sempre são ideias fáceis de implementar e podem custar caro, mas o custo da inércia tende a ser bem maior, tanto para o meio ambiente quanto para os mais pobres, segundo o relatório do Banco Mundial.

Por: Mariana Kalpper Ceratti (El País).

O Desafio de Conter as Manchas de Óleo no Nordeste

Manchas e vestígios de óleo já atingiram mais de 200 praias do Nordeste. 

Especialistas criticam resposta do governo a desastre ambiental e citam procedimentos adotados por outros países em casos semelhantes. Uma das medidas recomendadas é treinar moradores da costa para lidar com o problema. 

O mais recente balanço do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) sobre o vazamento de óleo nas praias do Nordeste, divulgado em 23/10/2019, indica a ocorrência de manchas e vestígios em 204 praias, distribuídas em 78 municípios de nove estados: Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. 

Até o momento, a origem do maior desastre ambiental já registrado na costa brasileira é desconhecida, e ainda não é possível apontar responsáveis. À medida que as manchas de óleo se alastram, somam-se críticas à maneira como o governo vem lidando com o desastre. 

Para especialistas ouvidos pela DW Brasil, a resposta do governo tem sido precária. Uma evidência disso seria a falta de condições básicas para dar suporte aos mutirões voluntários da população local nas praias do Nordeste. Em 23/10 a Polícia Federal solicitou ao governo 50 mil luvas e 10 mil botas. 

Embora critiquem a inação do governo atual ante o desastre, os analistas apontam que o problema central é a falta de preparo no longo prazo para lidar com situações desse tipo, especialmente em um país que explora, produz e transporta petróleo em alto mar. 

Na última década, os estados produtores foram inundados com royalties referentes a essa atividade, mas pouco ou nenhum recurso foi investido na prevenção de acidentes – real finalidade dessa contrapartida financeira. 

“As soluções que buscam mitigar os efeitos de eventos trágicos como este devem sair de iniciativas com proatividade, e não reatividade”, avalia o meteorologista Luiz Paulo Assad, coordenador do Núcleo de Modelagem Ambiental na Coppe/UFRJ, o Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com uma simulação de computador. 

“Está mais do que na hora de podermos desenvolver efetivamente um sistema nacional integrado de identificação e monitoramento de óleo no mar, para que estejamos preparados para dar respostas à sociedade em eventos como este. Temos expertise e conhecimento de métodos para isso”, assegura. 

A pedido da Marinha, Assad e o pesquisador Luiz Landau, coordenador do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia, cruzaram dados meteoceanográficos com o mapa de manchas de óleo encontradas na costa nordestina. 

Pela inversão do sentido temporal do modelo rodado em computador, a partir dos pontos de destino do óleo fragmentado, os pesquisadores chegaram a uma estimativa sobre a origem do material poluente: uma área entre 600 quilômetros e 700 quilômetros da costa brasileira, numa faixa de latitude com centro entre Sergipe e Alagoas. Agora, os cientistas se dedicam a analisar os prováveis destinos do óleo. 

Berçários do mar ameaçados 

Enquanto isso, as manchas continuam a se espalhar. Mais do que prejudicar a economia da região, por afetar o turismo e a atividade pesqueira, o dano à vida marinha deverá ser trágico. 

O oceanógrafo David Zee, professor na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), explica que a área afetada até aqui compreende uma extensão de aproximadamente 2.355 quilômetros de costa. Dessa porção, cerca de 1.200 quilômetros abrigam manguezais e recifes de corais, biomas extremamente sensíveis. 

“Temos um dilema. Se essa borra de óleo encosta no recife e gruda, a melhor alternativa é deixar como está. O produto dispersante é muito mais venenoso para a vida marinha do que o próprio óleo cru. É como um chiclete grudar no cabelo, a única forma de tirar é arrancar. Como queremos preservar o ecossistema, o melhor é deixar como está”, expõe o pesquisador. 

Nesse caso, o óleo poderia permanecer nos recifes e manguezais por um período de 20 a 40 anos, tempo que leva para se decompor. Como os ecossistemas marinhos são muito integrados, o impacto se estende a toda cadeia desses biomas. “Os recifes são os berçários do mar. É onde a vida tem proteção, abrigo e alimento para a procriação”, comenta Zee. 

A principal medida para evitar o avanço do óleo e proteger esses pontos sensíveis tem sido a utilização de barreiras de contenção. Governadores do Nordeste têm cobrado do governo federal a compra de novas estruturas. 

Em nota técnica recente, no entanto, o Ibama afirma que as barreiras podem ter um efeito reverso em áreas que já estão contaminadas, impedindo a depuração natural do ambiente. 

Anna Carolina Lobo, gerente do Programa Marinho da organização internacional WWF, explica que há protocolos internacionais a serem seguidos em desastres desse tipo, extraídos de acordos dos quais o Brasil é signatário. 

“É fundamental a identificação do óleo, para identificar de onde vem e acionar o responsável para arcar com recursos financeiros para a mitigação emergencial dos impactos. Além disso, tem que haver o treinamento das comunidades e pessoas que vivem na costa para lidar com um problema desse tipo, bem como a compra de equipamentos de proteção individual para as pessoas que atuam nos mutirões”, detalha. 

Os procedimentos descritos já foram adotados em outros episódios de vazamento de óleo no mar, como o do poço de Macondo, no Golfo do México, em 2010, e o do navio Exxon Valdez, no Alasca, em 1989. No entanto, nestes e em outros casos, a fonte do vazamento era conhecida. 

Criticando a inação do governo brasileiro, a porta-voz do WWF acrescenta que também seria fundamental uma ação coordenada entre Marinha, Ibama, Ministério do Meio Ambiente e Agência Nacional do Petróleo, para lidar com o caso na urgência requerida. “É um cenário caótico. A gente nunca ouviu falar de algo semelhante ocorrido em outro país que passou por isso”, afirma. 

Receio sobre os leilões do pré-sal 

No dia 18/10/2019, o presidente Jair Bolsonaro ventilou a possibilidade de o vazamento de óleo ter sido cometido intencionalmente para prejudicar o megaleilão da Cessão Onerosa de áreas do pré-sal da Bacia de Santos, a ser realizado no dia 6 de novembro. 

O leilão é considerado essencial para as contas do governo, já que as expectativas oficiais mensuram um bônus de arrecadação de R$ 100 bilhões. No dia seguinte, será realizada a sexta rodada de leilão do pré-sal. 

Há uma grande expectativa do governo e de investidores sobre como o desastre poderá impactar os novos leilões. Na última edição, em outubro, os quatro blocos da Bacia de Camamu-Almada, localizados no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, não receberam nenhuma oferta de petroleiras. A região detém a mais rica biodiversidade do Atlântico Sul. 

A insegurança dos investidores se deveu à sensibilidade ambiental da região, mas também à experiência recente da empresa francesa Total, que adquiriu cinco blocos exploratórios na Bacia da Foz do Amazonas em 2013, no Amapá, mas até hoje não obteve a licença do Ibama para perfurar na região. Na ocasião, o Greenpeace anunciou a existência de um recife de coral naquela área.

Por: João Soares e Felipe Salgado (Deutsche Welle).