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Desmatamento Pode Elevar Temperatura Na Amazônia Em 1,45°C Até 2050

Alertas indicam que pode ter ocorrido um aumento da perda da floresta no último ano. Foto: Lourival Sant’Anna / Estadão

De acordo com o trabalho, a perda de floresta já promoveu em áreas tropicais da Terra um aumento médio de 0,38°C entre 2000 e 2010; em regiões em que a vegetação foi totalmente cortada, o aumento da temperatura durante o dia já passa de 5°C. 

Se o desmatamento na Amazônia continuar como no ritmo atual, a perda da floresta pode levar, até 2050, a um aumento médio da temperatura da região de 1,45°C, o que, além de afetar biodiversidade local, pode ter impactos econômicos e sociais, com o aumento da ocorrência de algumas doenças infecciosas, da demanda por energia elétrica e água e redução de produtividade de alguns cultivos agrícolas. 

O alerta está em um estudo publicado em 20/03/2019 na revista PLoS ONE [Impacts of forestation and deforestation on local temperature across the globe] por pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade da Califórnia em Santa Cruz (EUA). 

O grupo analisou o impacto já sentido da retirada da cobertura vegetal na reflexão da luz solar e na capacidade de evapotranspiração da floresta (perda de água do solo por evaporação e da planta por transpiração) sobre a temperatura do solo em regiões tropicais e o que pode ocorrer no futuro na Amazônia

De acordo com o trabalho, o desmatamento já promoveu em áreas tropicais da Terra, um aumento de 0,38°C entre 2000 e 2010. Mas esse valor é uma média para todas as regiões, considerando um desmatamento também médio para essas de 26% no período. A maioria das áreas analisadas (67% delas) sofreu menos de 20% de desmatamento. Onde a perda florestal foi mais intensa, o aquecimento observado também é maior. 

"Quando olhamos áreas tropicais que sofreram taxas maiores de desmatamento, o aumento de temperatura foi muito maior. Por exemplo, em áreas que perderam 50% de sua cobertura florestal, o aumento médio foi de 1,08°C. Em áreas com 100% de desmatamento, o aumento pode chegar a quase 2°C. Isso provavelmente ocorreu em áreas ao longo do arco do desmatamento da Amazônia", disse ao Estadão o ecólogo Jayme Prevedello, da UERJ e primeiro autor do trabalho. 

O pesquisador explica que esses valores de aquecimento são uma média entre as temperaturas diurna e noturna. "Se considerarmos apenas a temperatura durante o dia, os aumentos são ainda mais dramáticos. Na média, o aumento foi 0,87°C. Para locais com 50% de desmatamento, foi 1,7°C, e para 100% de desmatamento foi de 3°C em média, podendo chegar a 5,1°C", afirma. 

Os autores também mediram os impactos que podem ser sentidos entre 2010 e 2050 especificamente para a Amazônia, em um cenário de taxas de desmatamento de alta semelhantes às atuais e em um em que o Código Florestal seja cumprido. No primeiro cenário, a temperatura pode subir em média até 1,45°C. 

"Este nível de aquecimento é dramático em áreas com alto nível de desmatamento e rivaliza com o aumento de temperatura devido às mudanças climáticas. Honestamente, fiquei surpreso com esses valores. Já sabíamos há muito tempo que nas margens da floresta, próximo a uma área desmatada, é muito mais quente, mas não sabíamos que esse nível de aquecimento penetrava em áreas tão grandes", complementa Barry Sinervo, da Universidade da Califórnia, em entrevista ao Estadão

Os resultados são consistentes com outros trabalhos que compararam áreas florestadas com pastagem e cultivos de soja. Um estudo publicado em 2015 por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e do Centro de Pesquisa Woods Hole, nos EUA, mostrou que quando a floresta é convertida em soja no Mato Grosso ocorre um aumento na temperatura da superfície de mais de 5°C. Quando transforma em pastagem, aquece cerca de 4°C. 

O estudo, publicado na revista Environmental Research Letters, analisou as transições de uso da terra que ocorreram na Bacia do Xingu entre 2001 e 2010, mesmo período analisado na nova pesquisa. 

Políticas futuras 

Sinervo afirma que em outro trabalho já tinha replicado esses resultados em uma medição feita com lagartos – quanto calor eles sentiam na borda da floresta, no meio em campos de soja. "Neste estudo de agora mostra que todo esse excesso de calor ‘sangra’ para dentro da floresta adjacente e dramaticamente eleva sua temperatura para níveis mais altos do que poderíamos imaginar". 

Com base nos resultados, os autores defendem a importância de políticas públicas que contenham o desmatamento e promovam o reflorestamento – o trabalho mostra que a temperatura volta a cair quando árvores são plantadas. 

"As políticas de uso da terra defendidas pela nova administração no Brasil podem ser extremamente perigosas para o futuro do planeta – a Amazônia tem um enorme papel no armazenamento e na fixação de carbono – e para os cidadãos locais. Nosso estudo deixa claro que paisagens desmatadas serão muito mais quentes no futuro, enquanto o reflorestamento [com o cumprimento do Código Florestal] poderia servir como uma proteção contra o aquecimento global", pontua o americano. 

"Nosso estudo, combinado a outros similares, mostra claramente que quanto maior a taxa de desmatamento, maior o aquecimento local. Portanto, qualquer política que não reduza as taxas atuais de desmatamento ou, pior ainda, leve ao aumento dessas taxas no futuro, causará aquecimento, com todos os seus impactos ecológicos, econômicos e sociais associados", complementa Prevedello.

Por: Giovana Girardi (O Estado de S. Paulo).

Pobres Pagam Mais Pela Água Do Que Ricos, informa relatório

Crianças vão buscar água durante um período de seca na Índia

Em todo o mundo, pessoas pobres ou que sofrem discriminação social têm maior probabilidade de ter acesso limitado a água potável e saneamento adequado, afirma relatório da Unesco

A ONU divulgou em 19/03/2019 seu relatório mundial sobre o desenvolvimento dos recursos hídricos, que destacou que mais de 2 bilhões de pessoas não têm acesso a uma fonte adequada de água potável e que um número ainda maior, 4,3 bilhões, não têm saneamento básico. 

"Melhorar a gestão dos recursos hídricos e fornecer a todos o acesso a água potável e saneamento seguros e acessíveis financeiramente são ações essenciais para erradicar a pobreza, construir sociedades pacíficas e prósperas e garantir que 'ninguém seja deixado para trás' no caminho rumo ao desenvolvimento sustentável", afirma o texto divulgado pela Unesco e intitulado Não Deixar Ninguém Para Trás

De acordo com o documento, estudos internacionais mostram bons retornos sociais e econômicos de investimentos em serviços de água, saneamento e higiene.

O relatório alerta que um futuro de crescente escassez é previsível, o que trará efeitos negativos para a economia global. Até o ano 2050, 45% do Produto Interno Bruto (PIB) global e 40% da produção mundial de grãos serão ameaçados por danos ambientais e falta de recursos hídricos. 

O uso de água tem aumentado cerca de 1% ao ano em todo o mundo. A taxa deve se manter estável até 2050, quando a demanda representará um acréscimo de entre 20% e 30% em comparação aos níveis atuais, puxada pelos setores industrial e doméstico. Hoje mais da metade da população mundial não tem acesso a água limpa e saneamento. 

Perspectiva regional 

Na América Latina e Caribe, afirma o relatório, milhões ainda vivem sem fonte adequada de água potável, enquanto um número ainda maior não dispõe de saneamento. Esses grupos estão concentrados nos cinturões de pobreza das periferias de muitas cidades. 

Segundo a Unesco, em muitos países da região, a descentralização deixou o setor de abastecimento e saneamento fragmentado, "composto por inúmeros prestadores de serviço, sem reais possibilidades de alcançar economias de escala ou viabilidade econômica" e sob a responsabilidade de municípios sem recursos e incentivos necessários para abordar a complexidade do problema de forma efetiva. 

Mesmo na Europa e nos Estados Unidos, 57 milhões de pessoas não têm encanamento em casa e 36 milhões não têm saneamento básico, afirmou a diretora-geral da Unesco, Audrey Azoulay, na apresentação do estudo. Entre outros, comunidades do Canadá e da Índia têm desvantagens severas, já que 40% delas possuem apenas água potável de qualidade baixa, o que acarreta consequências para a saúde. 

Além disso, mais de 2 bilhões de pessoas vivem em países com "alto estresse hídrico" – onde mais de um quarto da água disponível é consumida. Estudos recentes apontam que mais de 50 países são afetados por estresse hídrico e que em alguns deles cerca de 70% dos recursos já estão sendo usados. 

Assim, grandes reservas são consumidas e a disponibilidade de água chega ao limite. Mais de 20 países são afetados, incluindo Egito e Paquistão

Um fardo maior para os pobres

O título do relatório da Unesco se refere a um aspecto chave do levantamento: a desigualdade do acesso. Pessoas que são pobres ou sofrem discriminação social têm maior probabilidade de ter acesso limitado a água e saneamento adequados, observou o relatório. 

Como exemplo de grupos desfavorecidos e que experimentam desigualdades "na garantia de seus direitos humanos a água potável e saneamento seguro", o documento cita pessoas que sofrem discriminação por causa do sexo, idade, etnia, religião, além de minorias de outra natureza, como indígenas, migrantes e refugiados. No entanto, a pobreza é o fator de destaque. 

Segundo o editor-chefe do relatório, Rick Connor, casas urbanas ricas com água encanada tendem a pagar muito menos por litro de água, enquanto pessoas pobres que moram em favelas muitas vezes precisam comprar água de caminhões, quiosques e outros fornecedores, gastando cerca de 10 a 20 vezes mais. 

"A percepção errada é que eles não têm água porque não podem pagar por ela — e isso está completamente errado", disse Connor à Fundação Thomson Reuters

Quase metade da população que consome água potável de fontes desprotegidas no mundo vive na África Subsaariana, onde apenas 24% dos habitantes têm acesso a água potável segura. 

Alemanha pode fazer mais 

Diante dos resultados do relatório, Ulla Burchardt, do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) e membro da comissão alemã na Unesco, afirmou que a Alemanha pode fazer mais. 

Embora o país esteja no caminho certo no âmbito da garantia dos direitos à água, "somos parcialmente responsáveis pelos grandes problemas em outras regiões do mundo, como a importação de algodão ou de carne bovina, cuja produção pode demandar uso intensivo de água", declarou Burchardt

"A garantia de acesso à água e ao saneamento são direitos humanos", disse ela. "Mas bilhões de pessoas não têm esses diretos concretizados", completou.


Estudo Indica Potencial de Vida em Outros Planetas da Via Láctea

Pesquisadores encontraram indícios da existência de exoplanetas rochosos com alta probabilidade de apresentarem tectonismo, o que aumenta a chance de também serem habitáveis.

Uma das condições que permitiram o surgimento e a manutenção da vida na Terra é o fato de o planeta ser geologicamente ativo, com terremotos e vulcões. 

A atividade vulcânica, gerada pela movimentação das placas tectônicas sobre o manto terrestre (tectonismo) possibilita reciclar gases, como o dióxido de carbono, através do manto, da crosta, da atmosfera e dos oceanos. Dessa forma, contribui para tornar a Terra habitável ao manter a temperatura do planeta em condições ideais para a sobrevivência dos seres vivos, explicam os cientistas. 

Um estudo feito por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sugere a existência de outros planetas rochosos na galáxia em que se encontra a Terra – a Via Láctea – com altas probabilidades de apresentarem tectonismo, o que aumenta a chance de também serem habitáveis. 

Os resultados do trabalho, apoiado pela FAPESP, foram publicados no Monthly Notices of Royal Astronomical Society (MNRAS). O estudo tem a participação de pesquisadores do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e de outras universidades e instituições de pesquisa no Brasil e no exterior. 

"Verificamos que há condições geológicas favoráveis para o surgimento e a manutenção da vida em exoplanetas rochosos, e que ela [a vida] pode estar espalhada por todo o disco da galáxia e ter se originado em qualquer época da evolução da Via Láctea", disse Jorge Luis Melendez Moreno, professor do IAG-USP e um dos autores do estudo, à Agência FAPESP

Os pesquisadores determinaram os parâmetros superficiais, as massas e as idades de 53 gêmeas solares, situadas em diferentes pontos da Via Láctea. Além disso, analisaram a composição química dessas estrelas gêmeas solares – chamadas assim por terem temperatura, gravidade e composição química superficiais parecidas com as do Sol –, a fim de avaliar a possibilidade de existência de outros planetas rochosos em torno delas. 

As análises foram feitas por meio de um espectrógrafo chamado HARPS, instalado no telescópio de 3,6 metros do Observatório de La Silla, do European Southern Observatory (ESO), no Chile. O equipamento registra o espectro eletromagnético de “cores” dos corpos celestes, dos comprimentos de onda mais curtos (ultravioleta) aos mais longos (infravermelho). 

As análises indicaram que as estrelas apresentam grande abundância de tório – elemento radioativo com isótopos instáveis que, ao se romper, em razão da instabilidade atômica, se divide em isótopos menores que emitem energia, processo conhecido como decaimento radioativo. 

A energia liberada pelo decaimento de isótopos instáveis, tanto de tório como de outros elementos radioativos, como urânio e potássio, dá origem à movimentação de magma (convecção do manto) e à atividade tectônica da Terra. Parte do calor interno do planeta é resquício do calor primordial da formação da Terra, mas pelo menos a metade da energia é devida ao decaimento radioativo. 

Dessa forma, as concentrações iniciais desses elementos radioativos em um planeta rochoso contribuem de modo indireto para a habitabilidade em sua superfície, especialmente devido ao longo tempo de decaimento, em escalas de bilhões de anos, explicam os pesquisadores. 

"As concentrações de tório nas estrelas gêmeas indicam que há uma grande quantidade de energia disponível pelo decaimento desse elemento radioativo para manter a convecção do manto e o tectonismo em potenciais planetas rochosos que possam existir em torno de gêmeas solares", afirmou Rafael Botelho, doutorando em Astrofísica no Inpe e primeiro autor do estudo. 

A abundância inicial de tório nas gêmeas solares foi comparada com as de ferro, silício – um indicador da espessura e massa do manto convectivo em planetas rochosos – e mais dois elementos pesados: o neodímio e o európio. As medidas indicaram que a razão tório-silício em gêmeas do Sol aumenta com o tempo, e que foi maior ou, no mínimo, igual ao valor solar desde a formação do disco da galáxia da Terra

"Há indícios de que o tório também é abundante em gêmeas solares velhas. Isso significa que o disco da Via Láctea pode estar repleto de vida", disse André Milone, pesquisador do Inpe e orientador da pesquisa de Botelho. 

O artigo Thorium in solar twins: implications for habitability in rocky planets, de R. B. Botelho, A. de C. Milone, J. Melendez, M. Bedell, L. Spina, M. Asplund, L. dos Santos, J. L. Bean, I. Ramirez, D. Yong, S. Dreizler, A. Alves-Brito e J. Yana Galarza, pode ser lido em academic.oup.com/mnras/article-abstract/482/2/1690/5134163?redirectedFrom=fulltext.

Por: Elton Alisson (Agência Fapesp).

Leites Vegetais Estão em Alta, Mas Qual é Melhor Para o Meio Ambiente?

Janeiro, quando muitos cumprem resoluções de mudanças no estilo de vida, é também o mês em que consumidores se abrem mais para experimentar produtos veganos ou simplesmente mais saudáveis. 

No Reino Unido, isto tem se refletido também nas latas de vendas dos leites vegetais, alternativas ao leite de vaca, à base de aveia, soja, amêndoa ou coco. 

Agora, evidências coletadas por pesquisadores da Universidade de Oxford [Reducing food’s environmental impacts through producers and consumers], na Inglaterra, mostram que o critério de impacto ao meio ambiente pode fomentar ainda mais essa tendência. 

É que eles mostraram, por exemplo, que a produção de um copo de leite de vaca gera quase três vezes mais emissões de gases do efeito estufa do que qualquer alternativa vegetal. 

Considerando o uso de terra necessário para a produção, a diferença é ainda maior. A produção de um copo de leite de vaca para todos os dias de um ano requer 650 metros quadrados de terra – o equivalente a duas quadras de tênis e mais de dez vezes o necessário para a mesma quantidade de leite de aveia, de acordo com o estudo.


O leite de amêndoa requer mais água para sua produção do que soja ou aveia. Um único copo demanda 74 litros – mais do que a quantidade gasta em um banho de chuveiro padrão. O leite de arroz também é relativamente "sedento", demandando 54 litros de água na produção para resultar em um copo. 

No entanto, tanto a bebida à base de amêndoa quanto à de arroz ainda precisam de menos água na produção do que um copo de leite de vaca. 

Impacto sobre o clima 

O impacto da produção de leite de vaca sobre o clima varia de região para região. América Latina, Caribe e África, por exemplo, ficam acima da média global na emissão de gases poluentes para a produção de um copo de leite. 

O gráfico abaixo leva em conta as emissões da agropecuária e, além disso, o transporte, a embalagem e o processamento. Onde a alimentação do gado teve um impacto no desmatamento, essa medida também foi incluída. 

A nível local, a opção por produção local ajuda a reduzir a pegada de carbono.


O custo ambiental 'invisível' do consumo

A produção de alimentos é responsável por um quarto de todas as emissões de gases do efeito estufa produzidas pelo homem, contribuindo para o aquecimento global, de acordo com os estudos liderados por Joseph Poore, da Universidade de Oxford

A pesquisa descobriu também que carne e outros produtos animais são responsáveis ​​pela maior parte das emissões relacionadas à alimentação – apesar de fornecerem apenas um quinto das calorias consumidas.

As pessoas tendem a subestimar a poluição embutida em alimentos e – o leite não é exceção, de acordo com Adrian Camilleri, psicólogo da Universidade de Tecnologia de Sydney, na Austrália

"As emissões de gases do efeito estufa do leite são cerca de 30 vezes maiores do que as pessoas estimam", disse ele à BBC News

Embora não se saiba exatamente o quanto os consumidores estão informados sobre as diferenças no impacto ambiental dos diversos tipos de leite, é fato que a venda de opções alternativas está crescendo muito no Reino Unido, segundo a consultoria de mercado Mintel

As buscas na internet por leite de aveia, por exemplo, dispararam no Reino Unido desde que o produto foi lançado no mercado.


Em 2018 um recorde de 50 mil pessoas se inscreveram para a última campanha Veganuary (uma fusão das palavras "vegano" e "janeiro" em inglês), que propõe a abstinência de produtos de origem animal por um mês. 

Mas como esta tendência se traduz em números reais? 

Existem cerca de 540 mil veganos no Reino Unido, de acordo com uma pesquisa de 2016 da organização Vegan Society. Em 2006, estimava-se que este número era de 150 mil. 

No entanto, alguns representantes do setor agropecuário são críticos à ideia do Veganuary

Segundo a Associação Nacional de Criadores de Ovelha, esta campanha pelo veganismo ignora o fato de que a criação destes animais "trabalha muito em harmonia com o meio ambiente, nossas paisagens e a ecologia humana" no Reino Unido

"Algumas pessoas parecem empenhadas em retratar [a criação de] ovelhas como um inimigo global - mas, na verdade, elas são o máximo de uma tecnologia renovável e uma forma eficiente de gestão da terra produtiva de forma amigável ao planeta", diz Phil Stocker, executivo da associação.

Por: Clara Guibourg e Helen Briggs (BBC News).

Poluição do Ar Mata Mais Que Cigarro, diz estudo

Cientistas consideram limite da União Europeia para partículas finas de poluição alto demais. 

Pesquisa aponta que poluição atmosférica causa quase 9 milhões de mortes por ano no mundo, o dobro do estimado anteriormente. Cientistas pedem redução de limites para concentração de partículas finas no ar. 

A poluição do ar mata anualmente mais pessoas do que o tabagismo, de acordo com uma pesquisa divulgada em 12/03/2019 [Cardiovascular disease burden from ambient air pollution in Europe reassessed using novel hazard ratio functions]. Cientistas da Alemanha e do Chipre estimaram que a poluição do ar causou 8,8 milhões de mortes em 2015 – quase o dobro dos 4,5 milhões anteriormente estimados . 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o tabagismo mate cerca de 7 milhões de pessoas por ano em todo o mundo. 

Os pesquisadores constataram que na Europa – o foco principal da pesquisa da Sociedade Europeia de Cardiologia – a poluição do ar resultou em 790 mil mortes, sendo que entre 40% e 80% delas ocorreram em decorrência de doenças cardiovasculares, como ataques cardíacos e derrames. 

"Como a maior parte do material particulado e de outros poluentes atmosféricos na Europa provêm da queima de combustíveis fósseis, precisamos mudar para outras fontes de geração de energia com urgência", disse Jos Lelieveld, coautor do estudo e membro do Instituto Max-Planck de Química em Mainz, na Alemanha, e do Instituto Cipriota de Nicósia

"Quando usamos energia limpa e renovável, não estamos apenas cumprindo o Acordo de Paris para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, mas também podemos reduzir as taxas de mortalidade relacionadas à poluição do ar na Europa em até 55%", disse Lelieveld

O estudo, divulgado na publicação científica European Heart Journal, se concentrou no ozônio e nas menores partículas poluidoras, conhecidas como PM2.5, que são particularmente prejudiciais à saúde, pois podem penetrar nos pulmões e até mesmo entrar na corrente sanguínea. 

Os cientistas aplicaram o novo Modelo de Exposição Global de Mortalidade a um amplo banco de dados epidemiológico – com números atualizados de densidade populacional, idade, fatores de risco de doença, causas de morte – para simular a maneira como produtos químicos naturais e artificiais interagem com a atmosfera. 

Os pesquisadores relataram que novos dados indicam que o impacto danoso à saúde das PM2.5 – a principal causa de doenças respiratórias e cardiovasculares – foi muito pior do que se pensava anteriormente. Eles defenderam uma redução na União Europeia (UE) do limite máximo para as PM2.5, que atualmente é de 25 microgramas por metro cúbico – 2,5 vezes maior do que recomenda a OMS. 

"Na Europa, o valor máximo admissível é alto demais", disseram Lelieveld e o coautor Thomas Munzel, do Departamento de Cardiologia do Centro Médico Universitário de Mainz, em comunicado conjunto. "Nos EUA, na Austrália e no Canadá, a diretriz da OMS é tomada como base para a legislação, o que também é necessário na UE." 

Em todo o mundo, a poluição do ar vem causando 120 mortes a cada 100 mil pessoas por ano. Na Europa, apesar de haver controles de poluição mais rigorosos do que na maioria das outras regiões, o número é maior – 133 mortes por 100 mil habitantes. 

"Isso é explicado pela combinação de má qualidade do ar e densidade populacional, o que leva a uma exposição que está entre as mais altas do mundo", disse Lelieveld

As taxas são ainda mais altas no Leste Europeu, em países como Bulgária, Romênia e Croácia, onde foram registradas 200 mortes por ano a cada 100 mil pessoas. Tais números foram atribuídas a cuidados de saúde menos avançados. 

"Para colocar isso em perspectiva, isso significa que a poluição do ar causa mais mortes por ano do que o consumo de tabaco", disse Munzel.


A Vida Abre Caminho no Ecossistema Radioativo de Chernobyl

Alces foram localizados na zona de exclusão de Chernobyl. Foto: Valeriy Yurko / Polessye State Radioecological Reserve.

Vários estudos confirmam que, 30 anos depois do desastre, a vida silvestre é abundante na zona de exclusão, embora a radiação também afete alguns organismos. Após o desastre de 26 de abril de 1986, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) estabeleceu uma zona de segurança de 30 quilômetros ao redor da usina nuclear de Chernobyl. Milhares de pessoas foram forçadas a abandonar suas casas, deixando mais de 4.200 quilômetros quadrados livres da influência humana direta. Desse espaço, pouco mais da metade pertence à Ucrânia. O restante é administrado pela Belarus, que o transformou na Reserva Radioecológica do Estado da Polésia, uma das maiores reservas naturais da Europa

James Beasley, ecologista da Universidade da Geórgia, é um dos pesquisadores que está estudando como a vida prolifera em Chernobyl. Junto com uma equipe internacional, ele começou a documentar os animais que habitam a reserva radioecológica, estudando pegadas e fazendo a contagem a partir de helicópteros. Os resultados foram promissores e isso os levou a instalar câmeras-armadilha com odores para atrair animais. Em 2016 publicaram suas descobertas: 30 anos após o desastre, a vida selvagem é abundante na zona de exclusão da Belarus. As câmeras capturaram 14 espécies de mamíferos, incluindo alces, corças, javalis, lobos-cinzentos, raposas e cães-guaxinins. De acordo com Beasley, os dados são o "testemunho da resistência da vida selvagem quando é liberada das pressões humanas diretas". 

O lado ucraniano não fica muito atrás. O projeto TREE (Transferência - Exposição - Efeitos) é uma iniciativa do programa britânico Radioatividade e Meio Ambiente. Seu objetivo principal é reduzir a incerteza que existe na estimativa do risco para seres humanos e animais selvagens quando expostos à radioatividade. Com a ajuda de cientistas ucranianos, entre 2014 e 2015 o projeto TREE instalou 42 câmeras-armadilha em diferentes pontos da ZEC

Aves, cervos, esquilos, linces e lobos foram alguns dos animais que desfilaram diante das câmeras. Além disso, bisões europeus e cavalos de Przewalski, espécies introduzidas em outras áreas para sua conservação. Até mesmo a presença de ursos-pardos foi documentada no território ucraniano. Os ursos retornaram a essas florestas após serem eliminados por humanos há 100 anos. 

Olhando para o catálogo de espécies, é tentador argumentar que a radiação poderia ser um escudo para proteger a vida selvagem. Os animais parecem mesmo desenvolver todo o seu esplendor. Os rios ao redor de Chernobyl abrigam o que alguns descrevem como monstruosos peixes mutantes, por seu grande tamanho. Mas na realidade esses peixes não são o resultado da radioatividade nem jamais farão parte do roteiro de um filme da série B. A explicação é muito simples: sem a pressão humana, as espécies crescem desenvolvendo seus verdadeiros tamanhos. Nas palavras de Jim Smith, professor de ciências ambientais na Universidade de Portsmouth, "isso não significa que a radiação seja boa para a vida selvagem, mas apenas que os efeitos da vida humana, incluindo a caça, a agricultura e a silvicultura, são muito piores". 

A ciência tem um bom repertório de papers para provar que viver exposto ao césio-137 também tem efeitos sobre a fauna. Uma meta-análise publicada em 2016 mostrou que a radiação em Chernobyl amplia a frequência e grau de cataratas nos olhos, diminui o tamanho do cérebro, aumenta a incidência de tumores, afeta a fertilidade e promove o aparecimento de anomalias do desenvolvimento nas aves. Este estudo foi realizado por pesquisadores da Chernobyl + Fukushima Research Initiative, um grupo de pesquisa que utiliza uma abordagem multidisciplinar para a compreensão dos efeitos da radiação sobre a saúde humana e o meio ambiente. Seu diretor é Tim Mousseau, da Universidade da Carolina do Sul. Com Anders Møller, da Universidade de Paris-Sud, comandou mais de 35 expedições a Chernobyl e outras 16 a Fukushima

Em uma dessas expedições, eles observaram que nas florestas da ZEC ainda se pode encontrar árvores que morreram no dia do desastre. Depois de tantos anos, seus troncos parecem resistir à passagem do tempo. Para entender o que estava acontecendo eles colocaram centenas de amostras de folhagens não contaminadas em diferentes pontos da ZEC. Depois de nove meses ao ar livre, coletaram amostras e mediram o peso que perderam. O resultado mostrou que nas zonas mais poluídas a decomposição das folhas era 40% menor do que a registrada nas florestas não contaminados. 

A central de Chernobyl vista de Prípiat. Foto: Jason Minshull.

Isto é, a radiação impede que os microrganismos possam realizar a decomposição dos restos mortos das plantas. Isto significa que o ciclo de nutrientes fica mais lento, fazendo com que grande parte dos nutrientes permaneçam inacessíveis às plantas e o restante da cadeia trófica. Mas a falta de decomposição tem uma faceta mais sinistra. A acumulação de matéria vegetal morta favorece os incêndios florestais, que no caso da ZEC pode espalhar, através da fumaça, radiação para outras áreas. Até o momento, o pior incêndio registrado foi em abril de 2015, quando cerca de 400 hectares queimaram a cerca de 20 quilômetros da usina nuclear. 

Então, se a radioatividade também penetra em animais, plantas e micro-organismos, por que a vida ser recupera em Chernobyl? Temos de buscar a resposta na capacidade de algumas espécies para sobreviver. Na década de 90, uma equipe de pesquisadores dos Estados Unidos analisou os genes mitocondriais de ratos-do-campo capturados na ZEC

A taxa de mutação de DNA mitocondrial dos ratos que viviam na zona contaminada era maior do que a daqueles de outras regiões. Mas, ainda assim, estando no limite do que sua espécie pode suportar, os ratos se multiplicam e sobrevivem. Em outros casos, temos de olhar para a dinâmica das populações que constituem uma espécie. Por exemplo, as andorinhas praticamente desapareceram após o acidente. Foi o fluxo constante de novos indivíduos que chegavam migrando de outras áreas que permitiu o estabelecimento de novas populações. A recolonização explicaria a presença de grandes animais, tais como os alces e os lobos. No entanto, ainda é preciso ver como estão sendo afetados pela acumulação de partículas de césio-137 ao longo da cadeia alimentar. 

Mas, além da capacidade de sobrevivência e recolonização, podemos incluir na equação a adaptação das espécies. Voltemos às andorinhas. Em uma das expedições de Mousseau e Møller, eles coletaram penas desses pássaros e as enviaram para o pesquisador espanhol Mario Ruiz-González. Queriam ver que tipo de bactérias viviam nelas e, depois de isolá-las, colocá-las para crescer sob diferentes doses de radiação. Os experimentos mostraram que as colônias que melhor cresciam eram aquelas cujas bactérias vieram de locais com níveis intermediários de radiação. As bactérias de lugares com níveis mais altos ou mais baixos de radiação tinham um crescimento menor. Em outras palavras, as doses intermediárias de radiação pareciam ser uma pressão seletiva, que estava proporcionando às bactérias a capacidade de sobreviver em ambientes contaminados. 

A radiação também pode alterar a taxa de mutação das bactérias e torná-las mais virulentas, promovendo a adaptação das andorinhas nas quais vivem. Em 2017, a pesquisadora espanhola Magdalena Ruiz-Rodríguez publicou na PLoS One, com Mousseau e Møller, um estudo demonstrando que as andorinhas em Chernobyl têm maior capacidade de se defender de bactérias. Nesta pesquisa, o plasma sanguíneo das andorinhas foi exposto a doze espécies de bactérias. Os resultados mostraram que os indivíduos que vivem nas áreas mais contaminadas tiveram maior capacidade de se defender contra bactérias. Essa adaptação é explicada pela seleção natural que vem ocorrendo em Chernobyl desde o desastre. Durante anos, a mortalidade das andorinhas foi alta, deixando apenas indivíduos que poderiam lidar com as bactérias mais virulentas. Segundo Magdalena Ruiz-Rodríguez, "provavelmente havia um processo de seleção muito intenso, e somente aqueles indivíduos que conseguiram sobreviver às novas condições puderam permanecer vivos e se reproduzir". 

Que a vida sobreviva a um desastre nuclear pode parecer incrível. Mas é assim que as espécies funcionam: sobrevivem na base da tentativa e erro.

Por: Ángel L. León (El País).

Mudança Climática Em Curso Pode Alterar Interação Ecológica Entre Espécies

Estudo feito na Unicamp e publicado na revista Nature Climate Change prevê que equilíbrio entre predadores e presas será afetado pela temperatura, com consequências desastrosas para os ecossistemas.

Herbívoros, onívoros, carnívoros, insetívoros, frugívoros, carniceiros e decompositores. Os ecossistemas da Terra funcionam em uma formidável teia de interações entre plantas, animais, insetos, fungos e microrganismos. Uma parte fundamental dessas interações reside no equilíbrio da cadeia alimentar entre predadores e herbívoros, que regula a produção vegetal do planeta. 

Esse equilíbrio entre predadores e presas que se alimentam de plantas pode ser alterado em decorrência das futuras mudanças climáticas. A conclusão é de uma pesquisa apoiada pela FAPESP e publicada na revista Nature Climate Change

"No estudo, traçamos as causas dessas mudanças e demonstramos que elas são explicadas por componentes do clima, especialmente da temperatura, que serão alterados no futuro", disse Gustavo Quevedo Romero, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autor principal do artigo. 

Segundo pesquisador, as mudanças climáticas podem redistribuir a força das interações ecológicas entre as espécies de presas e predadores. Os resultados mostram que temperaturas mais altas e um clima mais estável e menos sazonal levam a uma maior pressão de predação. Porém, a maior instabilidade no clima que acompanha as mudanças climáticas em curso, especialmente nas regiões tropicais, levará a uma diminuição geral na pressão de predação nos trópicos. Em contraste, algumas regiões de zonas temperadas sofrerão aumento da pressão de predação. 

"Essa reorganização das forças de interação entre espécies poderá ter consequências desastrosas para o funcionamento dos ecossistemas terrestres e afetar os serviços ecossistêmicos que eles oferecem, como o controle biológico e o ciclo de nutrientes", disse Romero

Os agricultores orgânicos nos trópicos, por exemplo, dependem do controle biológico exercido pelos inimigos naturais das pragas de lavoura. No entanto, as mudanças climáticas previstas poderão diminuir a efetividade desses predadores no controle de pragas. 

O novo estudo se baseou em dados previamente coletados em uma pesquisa publicada na revista Science [Higher predation risk for insect prey at low latitudes and elevations] em 2017, sob a coordenação de Tomas Roslin, da Universidade Sueca de Ciências da Agricultura, de Uppsala, na Suécia, e também da Universidade de Helsinque, na Finlândia

Nesse trabalho anterior, os pesquisadores avaliaram a impressão de mordidas em lagartas artificiais para mostrar que, quanto mais aumenta o gradiente latitudinal dos ecossistemas (em direção às regiões temperadas e polares), a probabilidade de um herbívoro ser comido por um predador é apenas uma fração do que ocorre nas regiões equatoriais. 

O estudo foi feito a partir da mensuração do risco de predação de 2.879 lagartas artificiais moldadas com massa de modelar verde. Elas foram monitoradas em 31 locais do planeta ao longo de um gradiente latitudinal que se estendeu desde o paralelo 30,4° sul, na altura do Rio Grande do Sul, da África do Sul e do centro da Austrália, até o paralelo 74,3° norte, na altura do Ártico canadense, da Groenlândia e do extremo norte da Sibéria. Os 31 locais estavam distribuídos em um gradiente de elevação que ia desde o nível do mar até 2.100 metros de altitude, ou seja, pouco abaixo da altitude da Cidade do México (2.240 metros). 

As lagartas artificiais foram coladas na parte superior de folhas inteiras em plântulas ou arbustos com no máximo 1 metro de altura. Com base na análise das marcas de dentadas e bicadas preservadas na massa de modelar, os pesquisadores avaliaram que seis grupos de predadores foram afetados: aves, lagartos, mamíferos, artrópodes e gastrópodes (caracóis ou lesmas). 

Ajuste climático 

No artigo da Science, os autores confirmaram a hipótese de que a pressão de interação biótica aumenta em direção ao Equador e diminui em direção aos polos. No trabalho agora publicado na Nature Climate Change, o que se fez foi confrontar os dados de predação das lagartas e suas localizações com dados bioclimáticos do presente e do futuro, com base em diversos modelos climáticos que preveem as alterações no clima a partir das emissões de dióxido de carbono. 

"Utilizamos modelagem de nicho para estudar interações bióticas, método originalmente desenvolvido para prever a distribuição espacial de espécies", disse. 

Para o novo estudo, os autores usaram a WorldClim 2, uma base de dados de 19 variáveis bioclimáticas aplicadas globalmente em uma grade com resolução espacial de 1 quilômetro quadrado. 

Em seguida, foi aplicado o método de modelagem de equações estruturais para determinar a importância relativa dos efeitos diretos e indiretos da latitude absoluta, elevação e do clima local subjacente (incluindo componentes climáticos da precipitação e temperatura) na pressão de predação. Segundo Romero, esses modelos revelaram que os dados de predação foram mais explicados pelas variações nos componentes da temperatura. 

Projeções futuras 

Os pesquisadores foram capazes de prever a redistribuição da pressão de predação em todo o globo, projetada para o cenário climático de 2070. "De maneira geral, o que pudemos constatar foi que, para 2070, a pressão de predação poderá ser sensivelmente afetada pela variação de temperatura, mas possivelmente não será afetada pelas mudanças na precipitação", disse Romero

Segundo ele, a pressão de predação será afetada tanto pelo aumento quanto pela instabilidade da temperatura (elevações e reduções bruscas) em determinados ecossistemas. 

"A instabilidade de temperatura, mais do que o seu aumento, diminuirá a pressão de predação. E esse impacto será exacerbado em regiões tropicais, onde se prevê que o clima se tornará mais instável", disse Romero

Os dados sugerem que, com a elevação das temperaturas, o nível de pressão de predação se elevará moderadamente nas regiões temperadas, que se espalham por América do Norte e Ásia. Nos países escandinavos, no Reino Unido e no Alasca, o aumento da pressão de predação entre artrópodes será maior. 

A pressão de predação será reduzida justamente nas regiões equatoriais, que concentram os ecossistemas mais biodiversos do planeta, ou seja, a África equatorial, o sudeste da Ásia, a Indonésia e as regiões tropicais da América do Sul, América Central e Caribe

Os dados sugerem que, juntamente com a Colômbia, o Brasil será particularmente afetado. Talvez o Brasil seja o país mais afetado, devido à sua posição nos trópicos e à grande extensão da Floresta Amazônica

"A mudança climática não se reflete apenas nas mudanças de distribuição das espécies, mas também nas mudanças de interação entre elas. Nos trópicos poderá surtir efeitos sobre o rendimento da agricultura tropical, com o consequente aumento das ameaças à segurança alimentar, devido a uma diminuição na eficiência do controle biológico em áreas mais vulneráveis às mudanças climáticas", disse Romero

Além de Romero e de Roslin, também participaram do trabalho o biólogo Thadeu Sobral-Souza, do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro; Thiago Gonçalves-Souza, da Universidade Federal Rural de Pernambuco; Nicholas Marino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro; Pavel Kratina, da Queen Mary University of London, no Reino Unido, e William Petry, do Institute of Integrative Biology, na Suíça

O estudo também contou com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep). 

O artigo Global predation pressure redistribution under future climate change (doi: https://doi.org/10.1038/s41558-018-0347-y) pode ser lido em www.nature.com/articles/s41558-018-0347-y.

Por: Peter Moon (Agência Fapesp).

Brasil é o 4º País do Mundo Que Mais Gera Lixo Plástico

Tartaruga Verde (Chelonia mydas) com um saco de plástico próximo à boca, no recife de Moore, Austrália. A sacola foi removida pelo fotógrafo antes que a tartaruga tivesse a chance de comê-la. Foto: © Troy Mayne / WWF.

A crise mundial da poluição por plásticos só vai piorar, a menos que todos os atores da cadeia de valor dos plásticos se responsabilizem pelo custo real do material para a natureza e para as pessoas, alerta um relatório do WWF (Fundo Mundial para a Natureza) publicado no dia 04/03/2019. O novo estudo, Solucionar a Poluição Plástica: Transparência e Responsabilização, reforça a urgência de um acordo global para conter a poluição por plásticos.

A proposta desse acordo global será votada na Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEA-4), que será realizada em Nairóbi, no Quênia, de 11 a 15 de março. Segundo o estudo do WWF, mais de 104 milhões de toneladas de plástico irão poluir nossos ecossistemas até 2030 se nenhuma mudança acontecer na nossa relação com o material. 

Em fevereiro de 2019, o WWF lançou uma petição para pressionar os líderes globais a defenderem esse acordo legalmente vinculativo sobre a poluição dos plásticos marinhos na UNEA-4, que até agora atraiu 200.000 assinaturas em todo o mundo. Para participar da petição, acesse: http://bit.ly/OceanoSemPlastico 

Segundo o estudo lançado pelo WWF, o volume de plástico que vaza para os oceanos todos os anos é de aproximadamente 10 milhões de toneladas, o que equivale a 23 mil aviões Boeing 747 pousando nos mares e oceanos todos os anos – são mais de 60 por dia. Nesse ritmo, até 2030, encontraremos o equivalente a 26 mil garrafas de plástico no mar a cada km2, revela o estudo conduzido pelo WWF

"Nosso método atual de produzir, usar e descartar o plástico está fundamentalmente falido. É um sistema sem responsabilidade, e atualmente opera de uma maneira que praticamente garante que volumes cada vez maiores de plástico vazem para a natureza", afirma Marco Lambertini, diretor-geral do WWF-Internacional

De acordo com o estudo: "O plástico não é inerentemente nocivo. É uma invenção criada pelo homem que gerou benefícios significativos para a sociedade. Infelizmente, a maneira com a qual indústrias e governos lidaram com o plástico e a maneira com a qual a sociedade o converteu em uma conveniência descartável de uso único transformou esta inovação em um desastre ambiental mundial. Aproximadamente metade de todos os produtos plásticos que poluem o mundo hoje foram criados após 2000. Este problema tem apenas algumas décadas e, ainda assim, 75% de todo o plástico já produzido já foi descartado". 

No Brasil 

O Brasil, segundo dados do Banco Mundial, é o 4° maior produtor de lixo plástico no mundo, com 11,3 milhões de toneladas, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, China e Índia. Desse total, mais de 10,3 milhões de toneladas foram coletadas (91%), mas apenas 145 mil toneladas (1,28%) são efetivamente recicladas, ou seja, reprocessadas na cadeia de produção como produto secundário. Esse é um dos menores índices da pesquisa e bem abaixo da média global de reciclagem plástica, que é de 9%. 

Mesmo parcialmente passando por usinas de reciclagem, há perdas na separação de tipos de plásticos (por motivos como estarem contaminados, serem multicamadas ou de baixo valor). No final, o destino de 7,7 milhões de toneladas de plástico são os aterros sanitários. E outros 2,4 milhões de toneladas de plástico são descartados de forma irregular, sem qualquer tipo de tratamento, em lixões a céu aberto. 

O levantamento realizado pelo WWF com base nos dados do Banco Mundial analisou a relação com o plástico em mais de 200 países, e apontou que o Brasil produz, em média, aproximadamente 1 quilo de lixo plástico por habitante a cada semana.

PRODUÇÃO E RECICLAGEM DE PLÁSTICO NO MUNDO 
Números em toneladas

Fonte(s): WWF / Banco Mundial (What a Waste 2.0: A Global Snapshot of Solid Waste Management to 2050). 

* Valor total de lixo plástico descartado em resíduos sólidos urbanos, resíduos industriais, resíduos de construção, lixo eletrônico e resíduos agrícolas, na fabricação de produtos durante um ano. 

"É hora de mudar a maneira como enxergamos o problema: há um vazamento enorme de plástico que polui a natureza e ameaça a vida. O próximo passo para que haja soluções concretas é trabalharmos juntos por meio de marcos legais que convoquem à ação os responsáveis pelo lixo gerado. Só assim haverá mudanças urgentes na cadeia de produção de tudo o que consumimos", afirma Mauricio Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil

Impacto socioambiental 

A poluição do plástico afeta a qualidade do ar, do solo e sistemas de fornecimento de água. Os impactos diretos estão relacionados a não regulamentação global do tratamento de resíduos de plástico, ingestão de micro e nanoplásticos (invisível aos olhos) e contaminação do solo com resíduos. 

A queima ou incineração do plástico pode liberar na atmosfera gases tóxicos, alógenos e dióxido de nitrogênio e dióxido de enxofre, extremamente prejudiciais à saúde humana. O descarte ao ar livre também polui aquíferos, corpos d'água e reservatórios, provocando aumento de problemas respiratórios, doenças cardíacas e danos ao sistema nervoso de pessoas expostas. 

Na poluição do solo, um dos vilões é o microplástico oriundo das lavagens de roupa doméstica e o nanoplástico da indústria de cosméticos, que acabam sendo filtrados no sistema de tratamento de água das cidades e acidentalmente usados como fertilizante, em meio ao lodo de esgoto residual. Quando não são filtradas, essas partículas acabam sendo lançadas no ambiente, ampliando a contaminação. 

Micro e nanoplásticos vêm sendo ainda consumidos por humanos via ingestão de sal, pescados, principalmente mariscos, mexilhões e ostras. Estudos indicam que 241 em cada 259 garrafas de água também estão contaminadas com microplásticos. Apesar de alarmante, ainda são pouco conhecidos os impactos desta exposição humana, a longo prazo. 

Apesar de ainda haver poucos estudos sobre o impacto da ingestão de plástico por seres humanos e outras espécies de animais, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou, em 2018, que entender os efeitos do microplástico na água potável é um passo importante para dimensionar o impacto da poluição de plásticos em humanos. 

No caminho das soluções 

O estudo do WWF também aponta as possíveis soluções e caminhos capazes de estimular a criação de uma cadeia circular de valor ao plástico. Pensados para cada elo do sistema, que envolve a produção, consumo, descarte, tratamento e reúso do plástico, os cuidados necessários propostos oferecem uma orientação para os setores público e privado, indústria de reciclagem e consumidor final, de modo que todos consumam menos plástico virgem (o plástico novo) e estabeleçam uma cadeia circular completa. 

Os principais pontos da proposta são: 

● Cada produtor ser responsável pela sua produção de plástico – O valor de mercado do plástico virgem não é real pois não quantifica os prejuízos causados ao meio ambiente e também não considera os investimentos em reúso ou reciclagem. É necessário haver mecanismos para garantir que o preço do plástico virgem reflita seu impacto negativo na natureza e para a sociedade, o que incentivaria o emprego de materiais alternativos e reutilizados. 

● Zero vazamento de plástico nos oceanos – O custo da reciclagem é afetado pela falta de coleta e por fatores como lixo não confiável, ou seja, misturado ou contaminado. As taxas de coleta serão maiores se a responsabilidade pelo descarte correto for colocada em empresas produtoras dos produtos de plástico e não apenas no consumidor final, uma vez que serão encorajadas a buscar materiais mais limpos desde seu design até o descarte. 

● Reúso e reciclagem serem base para o uso de plástico – A reciclagem é mais rentável quando o produto pode ser reaproveitado no mercado secundário. Ou seja, o sucesso desse processo depende de que valor esse plástico é negociado e seu volume (que permita atender demandas industriais). Preço, em grande parte, depende de qualidade do material, e essa qualidade pode ser garantida quando há poucas impurezas no plástico, e quando ele é uniforme – em geral, oriundo de uma mesma fonte. Um sistema de separação que envolva as empresas produtoras do plástico ajuda a viabilizar esta uniformidade e volume, ampliando a chance de reúso. 

● Substituir o uso de plástico virgem por materiais reciclados. Produtos de plástico oriundo de uma única fonte e com poucos aditivos reduzem os custos de gerenciamento desses rejeitos e melhoram a qualidade do plástico para uso secundário. Por isso o design e o material de um produto são essenciais para diminuir esse impacto, e cabe às empresas a responsabilidade por soluções. 

Reduzir o consumo de plástico resulta em mais opções de materiais que sirvam como opção ao plástico virgem, garantindo que seu preço reflita plenamente seu custo na natureza e, assim, desencorajando o modelo de uso único. "Criar uma cadeia circular de valor para o plástico requer melhorar os processos de separação e aumentar os custos por descarte, incentivando o desenvolvimento de estruturas para o tratamento de lixo", afirma Gabriela Yamaguchi, diretora de Engajamento do WWF-Brasil

Biodiversidade 

Estima-se que os resíduos plásticos existentes nos solos e rios seja ainda maior do que nos oceanos, impactando a vida de muitos animais e contaminando diversos ecossistemas, abrangendo agora os quatro cantos do mundo – inclusive a Antártida

"No Brasil, a maior parte do lixo marinho encontrado no litoral é plástico. Nas últimas décadas, o aumento de consumo de pescados aumentou em quase 200%. As pesquisas realizadas no país comprovaram que os frutos do mar têm alto índice de toxinas pesadas geradas a partir do plástico em seu organismo, portanto, há impacto direto dos plásticos na saúde humana. Até as colônias de corais – que são as ‘florestas submarinas’ – estão morrendo. É preciso lembrar que os oceanos são responsáveis por 54,7% de todo o oxigênio da Terra", afirma Anna Carolina Lobo, gerente do Programa Mata Atlântica e Marinho do WWF-Brasil

Criado como uma solução prática para a vida cotidiana e difundido na sociedade a partir da segunda metade do século 20, o plástico há muito vem chamando atenção pela poluição que gera, uma vez que o material, feito principalmente a partir de petróleo e gás, com aditivos químicos, demora aproximadamente 400 anos para se decompor plenamente na natureza. 

Estimativas indicam que, desde 1950, mais de 160 milhões de toneladas de plástico já foram depositadas nos oceanos de todo o mundo. Ainda assim, estudos indicam que a poluição de plástico nos ecossistemas terrestres pode ser pelo menos quatro vezes maior do que nos oceanos. 

Os principais danos do plástico à natureza podem ser listados como estrangulamento, ingestão e danos ao habitat. 

O estrangulamento de animais por pedaços de plástico já foi registrado em mais de 270 espécies animais, incluindo mamíferos, répteis, pássaros e peixes, ocasionando desde lesões agudas e até crônicas, ou mesmo a morte. Esse estrangulamento é hoje uma das maiores ameaças à vida selvagem e conservação da biodiversidade. 

A ingestão de plástico já foi registrada em mais de 240 espécies. A maior parte dos animais desenvolve úlceras e bloqueios digestivos que resultam em morte, uma vez que o plástico muitas vezes não consegue passar por seu sistema digestivo. 

Peso na economia 

A poluição por plástico gera mais de US$ 8 bilhões de prejuízo à economia global. Levantamento do PNUMAPrograma das Nações Unidas para o Meio Ambiente –, aponta que os principais setores diretamente afetados são o pesqueiro, comércio marítimo e turismo. Enquanto o lixo plástico nos oceanos prejudica barcos e navios utilizados na pesca e no comércio marítimo, o plástico nas águas vem reduzindo o número de turistas em áreas mais expostas, como Havaí, Ilhas Maldivas e Coréia do Sul.

Fonte: WWF-Brasil.

Carne Produzida em Laboratório Não é Panaceia Contra Mudanças Climáticas

Trocar a carne de boi pela versão sintética reduziria as emissões de metano, mas também provocaria a geração de CO2, diz estudo. 

A criação do primeiro bife de laboratório, em 2013, empolgou muita gente – dos maiores entusiastas de churrasco aos veganos mais militantes. Usando células-tronco de animais ao invés de cortar um pedaço deles na faca, é possível criar carne e dar a ela um gosto próximo da versão convencional. Tudo, é claro, com uma boa dose de engenharia genética. O processo consiste, basicamente, em coletar células-tronco animais e fazê-las se diferenciar em fibras musculares. As fibras são matéria-prima para criar tecido muscular – a parte do boi que efetivamente comemos. Junte 20 mil dessas fibras e estará pronto um belo hambúrguer sintético. 

A carne artificial traz como grande promessa reduzir o impacto ambiental da pecuária. Se fosse possível matar nosso apetite por carne sem precisar confinar tantas vacas, pouparíamos a vida de milhões de animais. Criando menos bichos, diminuiríamos os níveis de metano (CH4), gás eliminado pelo pum (flatulência) das vacas que é 20 vezes mais nocivo, para o aquecimento global, do que o gás carbônico (CO2). 

Hoje, os gases de efeito estufa produzidos pelo agronegócio são responsáveis por um quarto do aquecimento global. Boa parte dessa conta cai na dos rebanhos bovinos. Estima-se que manter os atuais 1,5 bilhão de bois e vacas significa emitir tanto CO2 quanto todos os carros do mundo. 

A quantidade de metano poupada pela produção de carne em laboratório, porém, pode ser superada a longo prazo pelas emissões de CO2 que resultam do processo. É o que argumenta um artigo científico feito por pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido. Ainda que a pecuária convencional seja mais prejudicial de imediato, graças à alta emissão de metano, suprir a demanda mundial por carne dentro do laboratório poderia fazer com que a emissão de CO2 não compensasse o esforço. 

Em suma: dependendo do tipo de energia utilizada nos laboratórios onde se produz carne sintética – quer ela seja mais ou menos poluente – o ambiente também poderia sofrer muito. Isso acontece porque fontes energéticas de origem fóssil, como o carvão mineral e o gás natural, por exemplo, são muito poluentes. No caso dos Estados Unidos, onde estão a maioria das iniciativas de produção de carne in vitro, 62,9% da energia é gerada por combustíveis fósseis.

O metano tem um impacto no ambiente muito maior que o dióxido de carbono, é verdade. Apesar disso, ele permanece na atmosfera por apenas 12 anos, enquanto o CO2 pode se acumular ao longo de um milênio. "Isso significa que o impacto a longo prazo do metano não é cumulativo [como o do carbono] e pode apresentar diferenças caso as emissões aumentem ou diminuam com o tempo", explica em comunicado Raymond Pierrehumbert, co-autor do estudo Climate Impacts of Cultured Meat and Beef Cattle

Para analisar o impacto de cada método, cientistas recorreram a dados sobre três diferentes métodos de se produzir carne do modelo convencional e quatro tipos de carne sintética. A partir desses dados, eles estimaram a influência que cada forma de produção teria na temperatura do planeta nos próximos 1.000 anos. Suprir a demanda de carne no laboratório, como vimos, se mostrou mau negócio ambientalmente falando. 

A chave para que a técnica de fato sirva para aliviar o peso atual que a pecuária tem ao planeta está, portanto, no uso de fontes de energia renováveis. Afinal, de nada adianta salvar a atmosfera do metano das vacas se não fizermos uma forcinha para diminuir a fumaça que sai de nossas chaminés, fábricas ou do escapamento dos carros.

Por: Guilherme Eler (Superinteressante).

Embrapa Analisa Relação Entre Agropecuária e Conservação de Bacias Hidrográficas

Grupos de pesquisadores da Embrapa atuam nos diferentes biomas brasileiros para estudar microbacias e bacias hidrográficas de diferentes tamanhos em ambientes rurais para monitoramento, caracterização dos recursos hídricos e aumento do conhecimento científico, relacionando-as com as atividades agropecuárias. 

Cada bioma ou ecorregião possui bacias cujas características apontam para maiores cuidados na qualidade ou na quantidade de água. Conforme o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, Ricardo Figueiredo, "obviamente, a Amazônia precisa de maior atenção no tocante à qualidade, enquanto no semiárido brasileiro a quantidade é o fator de maior preocupação". 

Figueiredo explica que aspectos ambientais são diferentes, assim como a vocação agrícola, nas diferentes bacias brasileiras. "Generalidades não são recomendadas em diagnósticos dessa natureza. Tem-se aqui apenas alguns exemplos desses estudos, cujo conhecimento é indispensável para a prática de uma agricultura sustentável, que assegure bons índices de produtividade, mas com a conservação dos recursos hídricos na região em questão. Por fim, os resultados das pesquisas confirmam a importância do setor rural para a conservação dos recursos hídricos nas bacias, os quais são indispensáveis para as demandas não apenas da agricultura, mas também das áreas urbanas e industriais do país", salienta. 

Essas ações e estudos realizam análises do estado atual dos recursos hídricos, seus problemas e desafios num contexto de cenários futuros de mudanças do uso da terra e do clima. Dessa maneira, o intercâmbio de informações é potencializado, cujas análises e diagnósticos podem apoiar tomadas de decisão no gerenciamento dos recursos hídricos, com destaque para o conjunto das atividades agrícola, pecuária, pesca e de extração vegetal. 

Para tais análises de dados é fundamental a caracterização de vários aspectos da paisagem do meio rural, como clima, geologia, topografia, tipos de solo, rede de drenagem, vegetação original e mudanças no uso e cobertura da terra, incluindo os sistemas agropecuários presentes. Além disso, a mensuração das vazões fluviais precisa ser feita junto com outras quantificações, como precipitação, evapotranspiração, infiltração, recarga de estoques subterrâneos e escoamento superficial. Paralelamente, são realizadas medidos in situ parâmetros de qualidade de água e coletadas amostras dos cursos d'água para serem analisadas em laboratório, onde são determinadas, além da presença de potenciais contaminantes das ações antrópicas, as suas características químicas. 

Figueiredo explica que "é importante que parâmetros indicadores sejam estabelecidos para subsidiar a compensação por serviços ambientais, a adoção de políticas públicas de pagamentos por serviços ambientais, a otimização do monitoramento da água em áreas de características similares e apoio a inovação de tecnologias que atentem para a sustentabilidade na agricultura. Os resultados dos diagnósticos realizados promovem contribuições seguras para o planejamento do manejo conservacionista das terras, que proporcionem água em quantidade e quantidade adequadas para a agricultura e para as demais demandas da sociedade, mas sempre considerando-se as fragilidades, peculiaridades e potencialidades de cada bioma brasileiro". 

Resultados e recomendações para algumas das bacias estudadas 

Na Amazônia, a mudança progressiva da paisagem no Estado do Pará acarretou em áreas degradadas e retração dos remanescentes florestais, reflexo do uso inadequado e da ocupação desordenada, incluindo a implementação de áreas de cultivos agrícolas. Observou-se maiores impactos na qualidade da água nas cabeceiras das bacias hidrográficas e nas zonas de recarga dos aquíferos. Em virtude da grande fragilidade desses locais, sua recomposição florestal é urgente, tanto no âmbito da propriedade rural quanto da bacia. 

No Centro-Oeste brasileiro foram organizados dados de qualidade de água de bacias que drenam para o Cerrado e para tributários para as áreas alagadas do Pantanal para avaliar o estado ecológico e o nível de impacto, além do desenvolvimento de recomendações para melhoria do monitoramento do sistema fluvial Cerrado-Pantanal. Constatou-se que a intensificação do uso agrícola nas porções superiores das bacias resultam em concentrações maiores de nitrogênio em córregos e até no rio Paraguai, quando considerado o período de 1995 a 2009. A partir desse diagnóstico foi realizada recomendação para que as instituições responsáveis pelo monitoramento hidrológico aumentem a frequência das amostragens nas bacias contempladas pelo estudo. 

No bioma Mata Atlântica, na bacia do Ribeirão da Onça, localizada no Primeiro Planalto Paranaense, situada em zona rural, mas próxima a um grande centro urbano, foram investigadas em quais áreas seria mais urgente a restauração da floresta ciliar nas Áreas de Preservação Permanente (APPs). Os resultados indicaram que, em 51% da área da bacia não há conflito de uso das APPs. Por outro lado, para os 49% restantes, em 40%, o impacto é classificado como sendo médio, em 8% como sendo alto e, em 1%, o impacto é considerado baixo. As áreas de alto impacto e médio impacto foram então apontadas como prioritárias para recuperação das APPs. Ficou demonstrado nessa pesquisa a eficiência da utilização de ferramentas intrínsecas ao Sistema de Informações Geográficas (SIG) em análises desse tipo. 

No sudeste brasileiro, na chamada Serra da Mantiqueira, também bioma Mata Atlântica, foi realizada avaliação de bacias contempladas por programa de Pagamento por Serviços Ambientais nas bacias do Ribeirão das Posses (PS) e do Ribeirão Salto de Cima (SC), no município de Extrema (MG). Em ambas microbacias, embora em estágios diferenciados de recuperação (PS mais impactada, mas com práticas de intervenção iniciadas dois anos antes em relação à SC) apresentaram certa similaridade no tocante à qualidade de suas águas. 

Considerando que as duas microbacias contribuem para o rio Jaguari e consequentemente para o Sistema Cantareira, que abastece grande população no Estado de São Paulo, pode-se concluir que a recuperação ambiental executada através da política pública municipal adotada está contribuindo para a melhoria dos recursos hídricos relacionados, resultado do manejo da propriedade rural onde ocorrem as nascentes e a água é armazenada em seus solos. 

Já no bioma Mata Atlântica, porção nordeste, estudou-se o caso da bacia do rio Siriri, uma das principais contribuintes do rio Japaratuba, localizado no Estado de Sergipe. Trata-se de bacia com alterações significativas nos recursos hídricos, com processos erosivos importantes, assoreamento dos leitos dos rios, poluição hídrica e modificações nos regimes hidrológicos. Foi diagnosticado que a origem desses impactos está diretamente relacionada às intensas alterações no uso e cobertura da terra, com retiradas significativas das florestas ciliares e substituição de pastagens por cultivos agrícolas, além de deficiente coleta de esgotos domésticos nos centros urbanos. 

Alguns parâmetros de qualidade de água apresentaram indicativos desses impactos, como valores de oxigênio dissolvido abaixo do limite mínimo estabelecido para a Classe 2 da Resolução do Conama 357/2005, provavelmente devido ao uso inadequado de fertilizantes agrícolas e ao lançamento de esgoto urbano no rio, sem o seu devido tratamento, fato este em geral ocasiona ainda mais impactos sobre a qualidade da água do que o desmatamento e a adoção de práticas agrícolas inadequadas.

Por: Cristina Tordin (Embrapa).

Transformando Resíduos de Dessalinização em Recurso Útil

O processo desenvolvido pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, pode transformar a salmoura concentrada em produtos químicos úteis, tornando a dessalinização mais eficiente. Na foto, homem observa máquinas de dessalinização (skids). 

A indústria de dessalinização em rápido crescimento produz água potável para a agricultura nas regiões costeiras áridas no mundo. Mas deixa para trás como resíduo uma grande quantidade de salmoura altamente concentrada, que é descartada geralmente despejando-a de volta ao mar, um processo que requer sistemas de bombeamento caros e que deve ser cuidadosamente gerenciado para evitar danos aos ecossistemas marinhos. Agora, engenheiros do MIT dizem que encontraram uma maneira melhor. 

Em novo estudo, eles mostram que, através de um processo bastante simples, o efluente pode ser convertido em produtos químicos, incluindo aqueles que podem tornar o processo de dessalinização em si mais eficiente. 

As usinas de dessalinização à beira-mar, como esta, normalmente descarregam grandes volumes de salmoura concentrada de volta ao mar. Pesquisadores do MIT mostraram que, em vez disso, grande parte desses resíduos poderia ser transformada em produtos químicos úteis. Foto: MIT News.

A técnica pode ser usada para produzir hidróxido de sódio, entre outros produtos. Também conhecido como soda cáustica, o hidróxido de sódio pode ser usado para pré-tratar a água do mar que entra na usina de dessalinização. Isso altera a acidez da água, o que ajuda a evitar o fouling (incrustação) das membranas usadas para filtrar a água salgada, uma das principais causas de interrupções e falhas, típicas em usinas de dessalinização por osmose reversa. 

O conceito é descrito hoje na revista Nature Catalysis [Direct electrosynthesis of sodium hydroxide and hydrochloric acid from brine streams] e em outros dois trabalhos do cientista do MIT, Amit Kumar, do professor de engenharia mecânica John. H. Lienhard V dentre outros. Lienhard é professor e diretor do Laboratório de Segurança Alimentar e Hídrica Abdul Latif Jameel

"A própria indústria de dessalinização usa muito disso", diz Kumar sobre o hidróxido de sódio. "Eles estão comprando, gastando dinheiro. Então, se você puder fazer isso in situ nas usinas, pode ser uma grande vantagem". A quantidade necessária nas próprias usinas é muito menor do que o total que poderia ser produzido a partir da salmoura, então também há potencial para que o produto seja comercializado. 

O hidróxido de sódio não é o único produto que pode ser produzido a partir da salmoura: Outro produto químico importante utilizado pelas usinas de dessalinização e outros processos industriais é o ácido clorídrico, que também pode ser facilmente produzido no local a partir de salmoura usando métodos estabelecidos de processamento químico. O produto químico pode ser usado para limpeza na usina de dessalinização, sendo também amplamente usado na produção química e como fonte de hidrogênio. 

100 bilhões de litros por dia de água dessalinizada 

Atualmente, o mundo produz mais de 100 bilhões de litros por dia de água dessalinizada, que deixa um volume semelhante de salmoura concentrada. Grande parte é bombeada de volta para o mar, e os regulamentos atuais exigem sistemas de emissários caros para garantir a diluição adequada dos sais. A conversão da salmoura pode, assim, ser econômica e ecologicamente benéfica, especialmente porque a dessalinização continua crescendo rapidamente em todo o mundo. "A descarga de salmoura ambientalmente segura é gerenciável com a tecnologia atual, mas é muito melhor recuperar os seus recursos e reduzir a quantidade de salmoura liberada", diz Lienhard

O método de conversão da salmoura em produtos úteis utiliza processos químicos bem conhecidos e padronizados, incluindo inicialmente a nanofiltração para remover compostos indesejáveis, seguidos por um ou mais estágios de eletrodiálise para produzir o produto final desejado. Embora os processos sugeridos não sejam novos, os pesquisadores analisaram o potencial de produção de produtos químicos a partir da salmoura e propuseram uma combinação específica de produtos e processos químicos que poderiam ser transformados em operações comerciais para aumentar a viabilidade econômica do processo de dessalinização, diminuindo seu impacto ambiental. 

"Esta salmoura muito concentrada tem que ser manuseada com cuidado para proteger a vida marinha, é um desperdício de recursos e custa energia para bombeá-la de volta ao mar, transformá-la em uma commodity útil é vantajoso. O hidróxido de sódio é uma substância química indispensável, todos os laboratórios no MIT possuem, para encontrar mercados não deve ser difícil", explicou Kuma

Os pesquisadores discutiram esse estudo com as empresas que podem estar interessadas na próxima etapa, a construção de uma fábrica de protótipos para viabilizar na prática esse processo. "Um grande desafio nessa fase é o custo, tanto da eletricidade quanto do equipamento", disse Kumar

A equipe continua analisando a possibilidade de extrair outros materiais com baixa concentração no fluxo da salmoura, incluindo vários metais e outros produtos químicos, o que poderia tornar o processamento da salmoura um empreendimento ainda mais economicamente viável. 

"Um aspecto mencionado e que me motivou foi a proposta das tecnologias para apoiar uma produção mais localizada ou descentralizada desses produtos químicos no ponto de uso", diz Jurg Keller, professor de gestão hídrica, na Universidade de Queensland, Austrália, que não esteve envolvido neste trabalho. "Isso pode ter alguns benefícios importantes em termos de energia e custo, já que a concentração e o transporte desses produtos químicos geralmente aumentam as despesas e demanda de energia, além da produção real dessas substâncias em concentrações normalmente utilizadas". 

A equipe de pesquisa também incluiu a pós-doutoranda do MIT, Katherine Phillips, e a universitária Janny Cai, e Uwe Schroder, da Universidade de Braunschweig, na Alemanha. O trabalho foi apoiado pela Cadagua, subsidiária da Ferrovial, através do MIT Energy Initiative.

Por: David L. Chandler (MIT News). Tradução: Gheorge Patrick Iwaki (Portal Tratamento de Água).