Translate / Traduzir

11 de Setembro: A Surpreendente Tese Que Tenta Explicar Por Que a CIA Ignorou Sinais dos Ataques

O fracasso da CIA em identificar os sinais de alerta dos ataques de 11 de setembro se tornou um dos assuntos mais controversos na história dos serviços de inteligência. Houve comissões, análises, investigações internas e muito mais. 

De um lado, estão aqueles que dizem que a agência de inteligência americana não percebeu sinais de alerta óbvios. Do outro, os que argumentam que é notoriamente difícil identificar ameaças de antemão e que a CIA fez tudo o que era razoavelmente possível. 

Mas e se os dois lados estiverem errados? E se a verdadeira razão pela qual a CIA falhou em detectar o plano de ataque for mais sutil do que ambas as partes imaginam? E se o problema vai muito além do serviço de inteligência e afeta hoje silenciosamente milhares de organizações, governos e equipes? 

Embora muitas das investigações tenham se concentrado em julgamentos específicos sobre os preparativos do 11 de Setembro, poucas deram um passo atrás para examinar a estrutura interna da própria CIA e, em particular, suas políticas de contratação. 

Em determinado nível, os processos eram impecáveis. Os analistas em potencial eram submetidos a uma bateria de exames psicológicos, médicos, entre outros. E não há dúvida de que contratavam pessoas excepcionais. 

"Os dois principais exames eram uma prova no estilo SAT (usadas para admissão em universidades americanas) para analisar a inteligência do candidato e um teste de perfil psicológico para avaliar seu estado mental", conta um veterano da CIA. 

"Eles eliminavam qualquer um que não fosse brilhante nos dois testes. No ano em que me candidatei, eles admitiram um candidato para cada 20 mil inscritos. Quando a CIA falava que contratava os melhores, tinha razão." 

Mesmo assim, o perfil da maioria das pessoas recrutadas também parecia muito semelhante - homens, brancos, anglo-saxões, americanos, de religião protestante. 

Esse é um fenômeno comum nos processos de recrutamento, às vezes chamado de "homofilia": as pessoas tendem a contratar profissionais que pensam (e geralmente se parecem) com elas mesmas. 

É validador estar cercado por indivíduos que compartilhem as mesmas perspectivas e crenças. De fato, tomografias sugerem que, quando outras pessoas refletem nossos próprios pensamentos, isso estimula os centros de prazer do cérebro. 

Em seu estudo sobre a CIA, os especialistas em inteligência Milo Jones e Phillipe Silberzahn escrevem: "O primeiro atributo consistente da identidade e cultura da CIA de 1947 a 2001 é a homogeneidade de sua equipe em termos de raça, sexo, etnia e origem de classe". 

O estudo de um inspetor-geral sobre o processo de recrutamento constatou que em 1964, um braço da CIA, o Escritório de Estimativas Nacionais, "não tinha profissionais negros, judeus ou mulheres, e apenas alguns católicos". 

Em 1967, o relatório informava que havia menos de 20 afro-americanos entre cerca de 12 mil funcionários não administrativos da CIA, e a agência manteve a prática de não contratar minorias entre as décadas de 1960 e 1980. 

Até 1975, a comunidade de inteligência dos EUA "proibia abertamente a contratação de homossexuais". 

Ao falar sobre sua experiência na CIA nos anos 1980, um informante escreveu que o processo de recrutamento "levou a novos oficiais que se pareciam muito com as pessoas que os recrutaram - brancos, sobretudo anglo-saxões; de classe média e alta; graduados em artes liberais". Havia poucas mulheres e "poucas etnias, mesmo de origem europeia recente". 

"Em outras palavras, não havia sequer a diversidade que havia entre aqueles que ajudaram a criar a CIA." 

A diversidade foi reduzida ainda mais após o fim da Guerra Fria. Um ex-oficial de operações afirmou que a CIA tinha uma "cultura branca como arroz". 

Nos meses que antecederam o 11 de Setembro, a revista acadêmica International Journal of Intelligence and Counterintelligence comentou: 

"Desde o início, a Comunidade de Inteligência [era] composta pela elite protestante branca masculina, não apenas porque essa era a classe no poder, mas porque essa elite se via como garantidora e protetora dos valores e da ética americanos." 

Por que essa homogeneidade importava? Se você está contratando uma equipe de revezamento, não vai querer ter apenas os corredores mais rápidos? Por que importaria se são da mesma cor, gênero, classe social etc.? 

No entanto, essa lógica, apesar de fazer sentido para tarefas simples como correr, não se aplica a tarefas complexas como inteligência. Por quê? Porque quando um problema é complexo, ninguém tem todas as respostas. Todos nós temos pontos cegos, lacunas na nossa compreensão. 

Isso significa, por sua vez, que se você reunir um grupo de pessoas que compartilham perspectivas e origens semelhantes, é provável que compartilhem os mesmos pontos cegos. 

Ou seja, em vez de desafiar e abordar esses pontos cegos, é provável que sejam reforçados.


Os atentados

No dia 11 de setembro de 2001, dois aviões de passageiros se chocaram contra as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, como parte de uma série de ataques coordenados contra alvos nos EUA. 

Um outro avião sequestrado por terroristas caiu sobre o Pentágono, na Virgínia, e um quarto, sobre a Pensilvânia, depois que passageiros resolveram enfrentar os sequestradores. 

Os ataques de 11 de Setembro mataram ao todo quase 3 mil pessoas e foram reivindicados pela rede extremista Al-Qaeda, de Osama Bin Laden, morto em 2011 pelos EUA no Paquistão. 

A cegueira de perspectiva se refere ao fato de que muitas vezes somos cegos para nossos próprios pontos cegos. Nossos modos de pensamento são tão habituais que mal percebemos como eles filtram nossa percepção da realidade. 

A jornalista britânica Reni Eddo-Lodge descreve o período em que decidiu ir pedalando para o trabalho: 

"Uma verdade incômoda me ocorreu enquanto carregava minha bicicleta para cima e para baixo pelos lances de escada: a maioria dos transportes públicos não era acessível facilmente... Antes de precisar carregar minhas próprias rodas, nunca havia me dado conta desse problema. Estava alheia ao fato de que essa falta de acessibilidade estava afetando centenas de pessoas." 

Este exemplo não sugere necessariamente que todas as estações devem estar equipadas com rampas ou elevadores. Mas mostra que só conseguimos realizar uma análise significativa se os custos e benefícios forem percebidos. 

Isso depende da diversidade de perspectivas. Pessoas que podem nos ajudar a ver nossos próprios pontos cegos, e a quem podemos ajudar a enxergar os deles. 

Osama Bin Laden declarou guerra aos Estados Unidos a partir de uma caverna em Tora Bora, no Afeganistão, em fevereiro de 1996. As imagens mostravam um homem com barba até o peito. Ele usava uma túnica por baixo do uniforme de combate. 

Hoje, dado o que sabemos sobre o horror que ele provocou, a declaração parece ameaçadora. 

Mas uma fonte da principal agência de inteligência americana afirmou que a CIA "não podia acreditar que esse saudita alto de barba, agachado ao redor de uma fogueira, pudesse ser uma ameaça para aos Estados Unidos da América". 

Para uma massa crítica de analistas, Bin Laden parecia primitivo e não representava um grande perigo. Richard Holbrooke, alto funcionário do presidente Clinton, colocou desta maneira: 

"Como um homem em uma caverna pode alcançar a sociedade líder em informação do mundo?" 

Outro disse: "Eles simplesmente não conseguiram justificar a necessidade de destinar recursos para descobrir mais sobre Bin Laden e a Al-Qaeda, já que o sujeito morava em uma caverna. Para eles, ele era a essência do atraso". 

Agora, pense como alguém mais familiarizado com o Islã teria percebido as mesmas imagens. 

Bin Laden estava de túnica não porque era primitivo em intelecto ou tecnologia, mas porque se inspirou no profeta Maomé. Jejuava nos dias em que o profeta jejuou. Suas poses e posturas, que pareciam tão atrasadas para o público ocidental, eram as mesmas que a tradição islâmica atribui ao mais sagrado de seus profetas. 

Como Lawrence Wright destacou em seu livro sobre o 11 de Setembro, vencedor do Prêmio Pulitzer, Bin Laden orquestrou sua operação "invocando imagens que eram profundamente significativas para muitos muçulmanos, mas praticamente invisíveis para aqueles que não estavam familiarizados com essa fé". 

Jones escreveu: "A anedota da barba e da fogueira é a evidência de um padrão mais amplo, no qual americanos não-muçulmanos - inclusive os consumidores de inteligência mais experientes- subestimaram a Al-Qaeda por razões culturais". 

Já a caverna tinha um simbolismo ainda mais profundo. 

Como quase todo muçulmano sabe, Maomé procurou refúgio em uma caverna depois de escapar de seus perseguidores em Meca. Para um muçulmano, uma caverna é sagrada. A arte islâmica está repleta de imagens de estalactites. 

Bin Laden conduziu seu exílio em Tora Bora como sua própria hégira (fuga de Maomé de Meca para Medina), e usou a caverna como propaganda. 

Como disse um acadêmico muçulmano: "Bin Laden não era primitivo; ele era estratégico. Ele sabia como usar as imagens do Alcorão para incitar aqueles que mais tarde se tornariam mártires nos ataques do 11 de Setembro". 

Os analistas também foram induzidos ao erro pelo fato de Bin Laden frequentemente fazer pronunciamentos em forma de poesia. 

Para analistas brancos de classe média, isso parecia excêntrico, reforçando a ideia de um "mulá primitivo em uma caverna". 

Para os muçulmanos, no entanto, a poesia tem um significado diferente. É sagrada. E os talebãs costumam se expressar em poesia. 

A CIA estudava, no entanto, os pronunciamentos de Bin Laden com um marco de referência enviesado. 

Como Jones e Silberzahn observaram: "A poesia em si não estava apenas em uma língua estrangeira, o árabe; derivava de um universo conceitual a anos luz de Langley (onde está localizada a sede da CIA)". 

'Ralé antimoderna'

Em 2000, a "ralé antimoderna e sem instrução" que seguia Bin Laden havia crescido, chegando a cerca de 20 mil pessoas, a maioria com curso superior e inclinada à engenharia. Yazid Sufaat, que se tornaria um dos pesquisadores de antraz da Al-Qaeda, era formado em química e ciências laboratoriais. Muitos estavam prontos para morrer por sua fé. 

Enquanto isso, o alto funcionário da CIA Paul Pillar (branco, meia-idade, formado em universidade de elite) descartava a possibilidade de um grande ataque terrorista. 

"Seria um erro redefinir o contraterrorismo como uma tarefa para lidar com o terrorismo 'catastrófico', 'grandioso' ou 'superterrorismo'", disse ele, "quando, na verdade, esses rótulos não representam a maior parte do terrorismo que os Estados Unidos provavelmente devem enfrentar'". 

Outra falha nas deliberações da CIA foi a relutância em acreditar que Bin Laden iniciaria um conflito com os EUA. Por que começar uma guerra que ele não seria capaz de vencer? 

Os analistas não deram o salto conceitual necessário para entender que, para os jihadistas, a vitória não seria garantida na terra, mas no paraíso. 

De fato, o codinome dado pela Al-Qaeda ao plano de ataque foi "O Grande Casamento". Na ideologia dos homens-bomba, o dia da morte de um mártir também é o dia do seu casamento, quando ele será recebido por virgens no céu. 

A CIA poderia ter destinado mais recursos para investigar a Al-Qaeda. Poderia ter tentado se infiltrar na organização. Mas a agência foi incapaz de entender a urgência. 

Não alocaram mais recursos, porque não perceberam uma ameaça. Não tentaram se infiltrar na Al-Qaeda porque ignoravam a lacuna em suas análises. 

O problema não foi (apenas) a incapacidade de ligar os pontos no outono de 2001, mas uma falha em todo o ciclo de inteligência. 

A falta de muçulmanos dentro da CIA é apenas um exemplo de como a homogeneidade enfraqueceu a principal agência de inteligência do mundo. 

E dá uma ideia de como um grupo mais diverso teria possibilitado uma compreensão mais rica, não apenas da ameaça representada pela Al-Qaeda, mas também dos perigos em todo o mundo. Como diferentes pontos de referência, perspectivas distintas teriam criado uma síntese mais abrangente, diversificada e poderosa. 

Uma parcela surpreendentemente alta de funcionários da CIA cresceu em famílias de classe média, enfrentou poucas dificuldades financeiras, e questões que poderiam atuar como precursores da radicalização, ou inúmeras outras experiências que poderiam ter enriquecido o processo de inteligência. 

Em uma equipe mais diversa, cada um deles teria sido um ativo valioso. Como grupo, no entanto, eram falhos. 

Esse problema, no entanto, não se restringe à CIA. Basta olhar para muitos governos, escritórios de advocacia, equipes de liderança do Exército, altos funcionários públicos e até executivos de algumas empresas de tecnologia. 

Inconscientemente, somos atraídos por pessoas que pensam como nós, mas raramente percebemos o perigo, porque desconhecemos nossos próprios pontos cegos. 

John Cleese, o comediante, falou uma vez: "Todo mundo tem teorias. As pessoas perigosas são aquelas que não têm conhecimento de suas próprias teorias. Ou seja, as teorias sobre as quais operam são amplamente inconscientes". 

Obter a combinação certa de diversidade em grupos humanos não é fácil. Reunir as mentes certas, com perspectivas que desafiam, ampliam, divergem e polinizam - em vez de papagaios, que corroboram e restringem - é uma verdadeira ciência. 

E deve se converter em uma fonte importante de vantagem competitiva para as organizações, sem mencionar as agências de segurança. É assim que o todo se torna maior do que a soma de suas partes. 

A CIA, por sua vez, deu passos importantes para alcançar uma diversidade significativa desde o 11 de Setembro. 

Mas a questão continua perseguindo a agência - um relatório interno de 2015 foi bastante crítico. 

Como John Brennan, então diretor da agência, afirmou: "O grupo de estudo analisou com atenção nossa agência e chegou a uma conclusão inequívoca: a CIA simplesmente precisa fazer mais para desenvolver o ambiente de liderança diversificado e inclusivo que nossos valores exigem e que nossa missão demanda". 

Por: Matthew Syed; jornalista, autor do livro Rebel Ideas: The Power of Diverse Thinking ("Ideias Rebeldes: o poder do pensamento diverso", em tradução livre). Fonte: BBC.

Manter Vegetação Nativa em Propriedades Rurais Rende ao Brasil R$ 6 Trilhões ao Ano

Artigo endossado por 407 cientistas brasileiros calcula o valor de serviços atrelados à conservação da natureza, como polinização, controle de pragas e segurança hídrica (Reserva Legal na região de Caucaia do Alto, município de Ibiúna / Foto: Jean Paul Metzger). 

Os 270 milhões de hectares de vegetação nativa preservados em propriedades rurais – entre áreas desprotegidas e de Reserva Legal – rendem ao Brasil R$ 6 trilhões ao ano em serviços ecossistêmicos, como polinização, controle de pragas, segurança hídrica, produção de chuvas e qualidade do solo. 

O cálculo foi publicado na revista Perspectives in Ecology and Conservation e endossado por 407 cientistas brasileiros, de 79 instituições de pesquisa. 

"O artigo tem o objetivo de mostrar que preservar a vegetação nativa não é um impedimento ao desenvolvimento social e econômico, e sim parte da solução. É um ativo para o desenvolvimento sustentável do Brasil, de uma forma diferente do que foi feito na Europa há 500 anos – quando o nível de consciência ambiental era diferente", disse Jean Paul Metzger, do Departamento de Ecologia da Universidade de São Paulo (USP) e primeiro autor do artigo. 

O trabalho usou estudos de valoração de serviços ecossistêmicos e aplicou esses valores aos 270 milhões de hectares de vegetação nativa dos biomas brasileiros. Essas estimativas estão consolidadas e vêm sendo aplicadas há anos, inclusive pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês). 

"Esse artigo é importante, pois reúne um conjunto sólido de informações para rebater argumentos que, embora não tenham fundamento, são usados como justificativa para alterações no Código Florestal e nas exigências sobre Reserva Legal", disse Carlos Joly, coordenador do Programa BIOTA-FAPESP e um dos cientistas que endossam o artigo. 

Joly afirma ser importante ressaltar que Reserva Legal e Área de Preservação Permanente têm papel complementar. "Uma não substitui a outra. A Reserva Legal tem uma importância para a manutenção ou restauração de serviços ambientais. Elas são essenciais não só para a questão da biodiversidade, mas também para a proteção e permeabilidade do solo, recarga de aquíferos, proteção de recursos hídricos, estoque de carbono e para manter a população de polinizadores, que é de interesse do próprio agricultor", disse Joly

No Brasil, o tamanho da área que deve ser preservada como Reserva Legal varia de acordo com a região: 80% no caso da vegetação florestal da Amazônia, 35% na transição entre Amazônia e Cerrado e 20% nas demais regiões como Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pantanal e Pampa. Atualmente, a área de Reserva Legal representa quase um terço de toda a vegetação nativa do país. 

"O Brasil preserva bastante, tem mais de 60% de cobertura de vegetação e tem uma legislação rigorosa. Se olharmos o ranking do Banco Mundial, estamos na trigésima posição, atrás da Suécia e Finlândia, com cerca de 70%. Mas é preciso chamar a atenção de que preservar não é ruim", disse Metzger

O artigo foi elaborado em resposta ao Projeto de Lei n° 2.362, de 2019, apresentado no Senado Federal. O texto, posteriormente retirado pelos autores, pretendia alterar ou eliminar a exigência de Reserva Legal. Uma versão do artigo em português será levada ao Congresso e apresentada aos deputados, senadores e auxiliares técnicos. 

Se o projeto de lei fosse aprovado, uma área de 270 milhões de hectares de vegetação nativa poderia ser perdida, sendo 167 milhões em áreas de Reserva Legal, que se somariam aos 103 milhões atualmente não protegidos pela Lei de Proteção da Vegetação Nativa (conhecida como Novo Código Florestal), nem como Reserva Legal, nem como Área de Proteção Permanente (por não serem margem de rio, topo de morro, área de encosta e outros ecossistemas considerados sensíveis). 

Perde-se dinheiro 

Um dos argumentos apresentados no artigo é o impacto de polinizadores na produtividade das lavouras de café. "Um estudo realizado pelo nosso grupo mostrou que a produção dos frutos de café é maior com a presença de abelhas, e que isso representa um ganho de R$ 2 bilhões a R$ 6 bilhões por ano no Brasil. Sem o trabalho das abelhas, continuaria tendo produção de café, mas 20% menor", disse Metzger

O serviço de polinização, no entanto, ocorre apenas em áreas adjacentes à vegetação natural, geralmente a uma distância inferior a 300 metros, o que exige a criação de interfaces entre culturas agrícolas e mata nativa. 

É importante saber que todo ecossistema tem um ponto de equilíbrio. Não adianta perder um Cerrado inteiro para plantar soja e ficar sem esses serviços. Essa é a base da Reserva Legal", disse Paulo Artaxo, membro da coordenação do Programa FAPESP de Mudanças Climáticas Globais, que também endossa o artigo. 

"Quem tem uma visão de curto prazo, como parte do agronegócio, pensa em três ou quatro anos de lucro pessoal, e depois o país fica com um prejuízo enorme. Essa filosofia tem de acabar e o artigo deixa isso bem claro", disse Artaxo

O artigo Why Brazil needs its Legal Reserves (doi: 10.1158/0008-5472.CAN-19-0490), de Jean Paul Metzger, Mercedes M.C. Bustamante, Joice Ferreira, Geraldo Wilson Fernandes, Felipe Librán-Embid, Valério D. Pillar, Paula R. Prist, Ricardo Ribeiro Rodrigues, Ima Célia G. Vieira, Gerhard E. Overbeck, pode ser lido em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S253006441930118X#bib0625.

Por: Maria Fernanda Ziegler (Agência Fapesp).

Hamza, O Rio Que Corre no Subterrâneo da Região Norte do Brasil

Por baixo do maior rio do planeta, o Amazonas, corre um gigante silencioso. A 4 mil metros de profundidade, flui o Hamza, um rio subterrâneo de pelo menos 6 mil quilômetros, que se estende do Acre até o Oceano Atlântico. A descoberta foi divulgada por cientistas do Observatório Nacional (ON), que estudavam poços de petróleo na região e o encontraram por acaso. O desafio, agora, é entender onde nasce e por qual trajeto segue este que pode ser o maior curso d’água localizado debaixo da terra. 

Segundo os cientistas, o fluxo subterrâneo foi formado pelas águas das chuvas, absorvidas por rochas de característica porosa e permeável, que fazem parte da formação geológica da Bacia Amazônica. "É como um vaso de flor que absorve a água e a armazena no fundo", compara o geofísico Valiya Hamza, da Coordenação de Geofísica do Observatório Nacional, orientador do trabalho de doutorado de Elizabeth Tavares, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), que resultou na descoberta. 

Esse sistema de armazenagem, chamado pelos cientistas de área de recarga, é o mesmo dos aquíferos. A diferença, porém, é que a água subterrânea descoberta se movimenta de um lugar para o outro, fato que não acontece com os aquíferos, que são apenas reservatórios de água no subsolo. "Esse fluxo é o que dá a característica de rio", explica o geofísico que batizou o rio descoberto, uma homenagem dos integrantes da pesquisa. 

A descoberta da água subterrânea foi feita quando os pesquisadores estudavam as variações de temperaturas de poços profundos, perfurados pela Petrobras nas décadas de 1970 e 1980, na busca por petróleo na região. Segundo Elizabeth, é possível saber se há água se movimentando no subsolo a partir da variação da temperatura nas camadas das rochas. "Quanto maior a profundidade, maior a temperatura. Se houver variação da superfície até o fundo, quer dizer que há água em movimento", esclarece a pesquisadora. 

Para chegar à conclusão do tamanho do rio subterrâneo, os cientistas analisaram 185 poços nas bacias do Acre, do Solimões, do Amazonas, de Marajó e de Barreirinha. A partir das análises dos dados, eles constataram as gigantescas dimensões do fluxo, bem debaixo do Rio Amazonas. Nas bacias do Acre e do Solimões, o Rio Hamza chega a ter 400 quilômetros de largura e vai afunilando até desaguar no Oceano Atlântico. A área mais profunda, de 4 mil metros, encontra-se no subsolo do estado do Acre, e parte do Amazonas. No restante, até chegar ao mar, varia entre 2 mil e 3 mil metros de profundidade. "É um verdadeiro gigante correndo embaixo da terra, que o torna um bem valioso, que vai trazer interesse do mundo todo", acredita Valiya. "Certamente, ele veio dos Andes, no Peru", completa. 

Devagar e profundo

Além de suas dimensões, o rio subterrâneo tem o mesmo sentido de fluxo que o Amazonas, de oeste para o leste. Contudo, existem diferenças marcantes. A vazão média do Rio Amazonas é estimada em cerca de 133 mil metros cúbicos, enquanto a do subterrâneo é de 3 mil metros cúbicos. "Esse valor é pequeno em relação à vazão do Amazonas, mas é o indicativo de um sistema hidrológico subterrâneo gigantesco se ele estivesse na superfície", defende Elizabeth. Para se ter uma ideia da importância do sistema, basta notar que a vazão subterrânea na Região Amazônica é superior à vazão média do Rio São Francisco, de 2,7 mil metros cúbicos por segundo. 

Os dados do estudo também revelaram as velocidades desse fluxo embaixo da terra. Comparando-se ao Rio Amazonas, as velocidades do Hamza são relativamente pequenas. As águas do Amazonas variam de 0,1 a 2 metros por segundo, já as subterrâneas estão na faixa de 10 a 100 metros por ano. Segundo Elizabeth, o Amazonas é um rio estreito, em relação ao Hamza, com uma grande vazão e com alta velocidade. "Se você tem uma grande quantidade de água num espaço menor, obviamente, a velocidade será maior. O fluxo subterrâneo é mais largo e, com isso, sua velocidade é muita pequena, mas contínua", explica."Porém, ao longo do tempo, o Hamza vai concentrando uma quantidade grande de água, que precisa sair", completa. 

Outra característica interessante é o comportamento do rio que corre embaixo do Amazonas. Nos primeiros 2 mil metros de profundidade, seu fluxo é vertical. Ou seja, nessa camada, a água é absorvida da superfície e se movimenta entre os poros das rochas, no sentido de cima para baixo. Dos 2 mil metros até os 4 mil metros de profundidade, o fluxo se modifica, e a água começa a fluir na horizontal, como ocorre no Rio Amazonas. Isso leva a crer que haja uma rocha, a qual os cientistas chamam de selante, onde a água não é mais absorvida pela terra. "É como se ali fosse o leito do rio. A água não tem como descer, por isso, corre na horizontal até o mar", explica Elizabeth

Segundo a pesquisadora, o curso do Rio Hamza pode explicar também a descoberta de água doce no mar que banha a costa norte do país. "Acreditamos que o fluxo subterrâneo possa contribuir para a baixa salinidade encontrada no Oceano Atlântico até 700 metros da costa terrestre. Afinal, esse desague deve ocorrer há milhares de anos", diz. 

Para os cientistas envolvidos na descoberta, a certeza de um curso d’água com essa dimensão no subsolo da região amazônica pode mudar as análises hidrológicas globais, que levam em conta as águas das chuvas, os lençóis freáticos, os aquíferos e os oceanos. "Acredito que o Rio Hamza deva ser somado ao ciclo hidrológico. Por sua dimensão, ele é peça fundamental para toda essa equação", defende Elizabeth.


O Que o Acordo Comercial União Europeia-Mercosul Diz Sobre Meio Ambiente

Acordo União Europeia-Mercosul diz que países devem combater a retirada ilegal de madeira e seu comércio.

Com capítulo sobre desenvolvimento sustentável, texto vincula comércio a regras ambientais e foi citado por europeus para pressionar governo brasileiro a combater incêndios e desmatamento na Amazônia

Entre os 17 capítulos do acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul, fechado em junho de 2019 [e que ainda não foi ratificado], o que teve mais repercussão até o momento não trata de negócios ou aduanas, mas de desenvolvimento sustentável. Ele foi usado por países europeus para pressionar o Brasil a adotar políticas efetivas contra o desmatamento e queimadas ilegais na Amazônia

As regras ambientais do acordo foram citadas pela ministra da Agricultura da Alemanha, Julia Klöckner – que afirmou que "o Brasil se comprometeu com o manejo florestal sustentável" e que não assistiria ao descumprimento disso "passivamente" – e pelo primeiro-ministro da Irlanda, Leo Varadkar, que afirmou que seu país votaria contra o acordo se o Brasil não honrasse seus compromissos. O presidente da França, Emmanuel Macron, fez declarações no mesmo sentido. 

O capítulo sobre desenvolvimento sustentável do acordo UE-Mercosul estabelece, por exemplo, que os países não podem enfraquecer seus níveis de proteção ambiental, revogar leis ambientais ou deixar de aplicar suas normas de forma reiterada, por ação ou omissão, com o objetivo de estimular o comércio e investimentos. 

Se um país intencionalmente deixar de mobilizar brigadas de combate a incêndio ou equipes de repressão a desmatamento ilegal para estimular a economia de uma região, por exemplo, poderia ser enquadrado nessa regra. 

O texto também estabelece que os países reconhecem a importância do manejo sustentável de florestas e devem implementar medidas para combater a retirada ilegal de madeira e seu comércio. Além disso, o texto reforça que todos os governos devem implementar o Acordo de Paris, que estipula metas de redução de emissão de gases do efeito estufa. 

O acordo ainda precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu e pelos países-membros tanto do bloco europeu quanto do sul-americano para entrar em vigor. 

Comércio ou meio ambiente? 

O acordo entre a União Europeia e o Mercosul confirma uma tendência de inserir nesses textos a premissa de que o aumento do comércio não deve ocorrer à custa do meio ambiente, segundo Rabih Nasser, professor de direito do comércio internacional na FGV Direito SP.

Todos os acordos comerciais recentes da União Europeia incluem um capítulo sobre desenvolvimento sustentável, com regras sobre meio ambiente e condições de trabalho. O primeiro desse tipo foi o acordo com a Coreia do Sul, em vigor desde 2011. 

A decisão de o Brasil assinar, por meio do Mercosul, o acordo marcou uma guinada na política comercial do país, segundo Nasser

"O Brasil tradicionalmente tinha uma posição defensiva sobre esse tema, na Organização Mundial do Comércio era contrário a incorporar padrões ambientais e trabalhistas em acordos comerciais, para evitar que fossem usados para impor barreiras", afirma. "O acordo com a União Europeia reconhece a ligação entre os dois temas". 

O advogado Werner Grau, sócio do escritório Pinheiro Neto e especialista em direito ambiental, ressalva que a essência do acordo segue sendo econômica. 

"É um acordo comercial, mas um país pode dizer que vai fazer comércio com o outro, de forma benéfica aos dois, desde que determinadas regras sejam cumpridas", diz. 

Como funciona na prática 

A aplicação das regras ambientais se dá por meio de negociação e pressão, pois nenhum bloco ou país pode impor a outro a adoção de uma determinada lei ou de uma política pública. 

O próprio capítulo sobre desenvolvimento sustentável estabelece um mecanismo de solução de conflitos. Se um bloco entender que algum país não está cumprindo seus compromissos, primeiro ele dá início a consultas formais para obter detalhes e tentar chegar a uma solução negociada. Se não houver acordo, é criado um painel com três especialistas independentes, que analisam se o país ou bloco violou alguma regra. Com base nas conclusões do painel, o bloco então decide como agir – por exemplo, impondo barreiras ao comércio a quem desrespeitou normas. 

Nasser afirma que os compromissos ambientais no acordo entre União Europeia e Mercosul não são "meramente retórica" e podem ser cobrados depois. Para ele, o fato de o capítulo estipular um mecanismo específico para solucionar conflitos é positivo e mostra o peso da questão. 

Um exemplo de controvérsia sobre desenvolvimento sustentável ocorreu no acordo entre a União Europeia e a Coreia do Sul. Em dezembro de 2018, o bloco deu início a consultas para pressionar o país asiático a implementar compromissos sobre condições de trabalho, como respeito à livre associação de trabalhadores e ao direito à negociação coletiva. O governo sul-coreano anunciou que realizaria essas reformas no segundo semestre de 2019, mas em julho deste ano a União Europeia decidiu criar um painel de especialistas para examinar o tema. 

Em relação ao acordo com o Mercosul, Grau diz haver "zonas cinzentas" no capítulo sobre desenvolvimento sustentável, e que ainda não está claro como algumas regras seriam aplicadas. Apesar de o texto estabelecer que países não podem deixar de aplicar suas leis ambientais para obter ganhos econômicos, o advogado aponta a dificuldade de provar que um governo tenha agido nesse sentido. 

"As queimadas na Amazônia decorreram do enfraquecimento ou retirada de medidas? Não há prova disso. Há um grupo dizendo que vai acusar o Brasil de ecocídio [perante o Tribunal Penal Internacional]. Mas onde está o ato volitivo [de vontade] do Estado brasileiro? Não basta dizer que 'por que teve a queimada, então não teve proteção'", argumenta. 

Repeito à soberania 

A tentativa de um bloco influenciar como um país administra suas questões internas costuma despertar reações em defesa da soberania. Na crise das queimadas na Amazônia, o governo do presidente Jair Bolsonaro condicionou o recebimento de uma ajuda de 20 milhões de dólares do G7 à autonomia do Brasil para decidir como usar os recursos. 

Para resguardar a soberania das partes, o acordo entre a União Europeia e o Mercosul reconhece que cada país tem direito de determinar as políticas e leis mais adequadas para sua realidade local. O texto também estipula que as partes devem buscar resolver diferenças por meio da cooperação e entendimento recíproco, e reconhece que os diferentes níveis de desenvolvimento dos países devem ser levados em conta. 

Grau afirma ser esse um ponto central no acordo. "Temos que considerar o cenário das responsabilidades comuns e diferenciadas. O Brasil é o país que tem a maior área protegida no mundo. Do ponto de vista legal, ninguém protege áreas como o nosso país. Se há deficiências, temos que discutir mecanismos de auxílio internacional, preservada a nossa soberania", diz. 

Para Nasser, a mera existência das regras ambientais estimula os países a segui-las, para evitar prejuízos nos outros pontos do acordo, como maior acesso a mercados e investimentos. 

"Ninguém vai ter o poder de entrar no país e obrigá-lo a aplicar sua política. Mas um país não pode ignorar as regras, porque senão corre risco de perder os benefícios do acordo, o mais relevante que o Mercosul já fez", diz.

Segundo o especialista, a reação de países europeus à crise das queimadas e do desmatamento na Amazônia "já teve efeito aqui dentro e forçou uma certa mudança de postura do governo".

Por: Bruno Lupion (Deutsche Welle).

Vírus Zika Traz Prejuízos Motores e de Memória a Adultos, diz estudo

Estudo foi conduzido por pesquisadores da UFRJ.

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) descobriu que o vírus zika, além de se replicar no cérebro de pessoas adultas, também causa prejuízos de memória e problemas motores. O estudo foi publicado no dia 05/09/2019, em Londres, no Nature Communications [Zika virus replicates in adult human brain tissue and impairs synapses and memory in mice]. 

O estudo foi iniciado na época do surto de zika no país, nos anos de 2015 e 2016. "[Na época] aumentou o número de casos e, junto com a microcefalia, que foi o que chamou mais a atenção, começaram a aparecer complicações em pacientes adultos", disse uma das coordenadoras da pesquisa, a neurocientista Claudia Figueiredo

Apesar de a doença ser autolimitada, com sintomas leves, muitos pacientes apresentavam quadro mais grave: alguns entravam em coma ou tinham internações por períodos mais longos. "Então, surgiu a nossa pergunta: os pesquisadores têm mostrado que o vírus se replica em células progenitoras, que são aquelas do feto, do nervo central. Será que esse vírus não infecta também o neurônio maduro? Foi aí que começou a nossa abordagem", relatou Claudia

Neurônio maduro

Os pesquisadores da UFRJ usaram tecidos de acesso, ou seja, tecidos sem doença, de pacientes adultos que haviam se submetido a cirurgias do cérebro, mas não tinham zika. Eles fizeram cultura em laboratório e colocaram o vírus zika nesse tecido, que tem neurônio maduro. Observaram então que o vírus infectava aquelas células, principalmente os neurônios desse tecido, e se replicava nesse tecido. Ou seja, produzia novas partículas virais. 

Nesse meio tempo, surgiram achados clínicos de que em alguns pacientes se detectava o vírus no sistema nervoso central, no líquor, que é o líquido que envolve o cérebro. Os pesquisadores da UFRJ decidiram então ver que tipo de efeito aconteceria se infectassem o cérebro de um animal adulto com esse vírus. "A gente fez a administração do vírus dentro do cérebro do camundongo adulto e observou várias coisas", disse Cláudia

Replicação

Constatou-se então que o vírus se replicava no cérebro do animal adulto e tinha preferência por áreas relacionadas com a memória e o controle motor. "E era justamente isso que estava alterado nos pacientes quando eles tinham o vírus em quadros mais complicados. Não só o vírus se replicou, mas ele [camundongo] ficou com prejuízo de memória e prejuízo motor". Isso pode acontecer com pessoas adultas também, confirmou a coordenadora do estudo. "Quando o vírus infecta, em algumas pessoas, não se sabe por que, o vírus chega ao sistema nervoso central, em outras não, depende de vários fatores, e pode causar esse tipo de dano". 

A neurocientista destacou que o prejuízo de memória ocorreu não apenas na fase adulta da infecção. Os cientistas perceberam que os sintomas permanecem mesmo após a infecção ter sido controlada nos camundongos. O vírus se replicou e teve um pico de replicação de vários dias. "Só que até 30 dias depois que o vírus já está com quantidade baixa no cérebro, o animal ainda continua com prejuízo de memória. O prejuízo de memória persiste". A pesquisadora esclareceu que 30 dias na vida de um animal equivalem a dois, três ou quatro anos na vida de um humano. "É muito tempo". 

A pesquisa alerta que talvez seja necessário avaliar a memória dos pacientes infectados após alguns anos. O estudo também concluiu que o vírus induz uma informação importante no cérebro: que esses períodos de memória estão associados a quadros inflamatórios muito intensos. Os pesquisadores usaram um anti-inflamatório e viram que esse tratamento melhora o prejuízo de memória, levando o paciente a recuperar a função prejudicada. Os cientistas acreditam que a descoberta pode contribuir para a elaboração de políticas públicas para tratamento de complicações neurológicas por zika em pacientes adultos. 

Doenças neuropsiquiátricas

A pesquisa agora deverá estudar outras alterações, isto é, se os pacientes que saem de um quadro de infecção de zika ficam mais suscetíveis a outras doenças neuropsiquiátricas. Para isso, estão submetendo um animal que já se recuperou e melhorou do prejuízo de memória, para ver se ele fica mais suscetível, por exemplo, a eventos de estresse que podem levar a um quadro depressivo. Claudia Figueiredo afirmou que a continuidade dos estudos depende de novos apoios financeiros. A Faperj, por exemplo, já ampliou a Rede Zika por mais um ano. 

Os pesquisadores querem avaliar ainda o efeito de outras arboviroses, isto é, os vírus transmitidos por mosquitos, entre os quais a chikungunya, sobre esse tipo de alteração, principalmente na questão da dor. "Que tipo de dor induz. Se é um quadro similar à artrite, se há um componente neurológico nessa dor, algum componente central", informou a pesquisadora. 

A pesquisa contou com financiamento da Rede de Pesquisa em Zika, Chikungunya e Dengue no Estado do Rio de Janeiro, da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Além de Claudia Figueiredo, também coordenou a pesquisa, Sergio Ferreira, do Instituto de Bioquímica da UFRJ. A virolgista Andrea Da Poian, do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ colaborou.

Por: Alana Gandra / Edição: Denise Griesinger (Agência Brasil).

Bactéria em Água Pode Ter Agravado Surto de Microcefalia Associado ao Zika, diz estudo

A microcefalia é uma das más-formações provocadas pelo vírus da zika. 
Foto: Nacho Doce / Reuters

Pesquisa mostra que toxina liberada por bactéria aumenta a velocidade de destruição de células neuronais e que substância estava mais presente em reservatórios de água do Nordeste, o que ajudaria a explicar por que região teve mais casos da má-formação. 

Um novo estudo realizado por pesquisadores brasileiros indica que o vírus zika pode não ter sido o único causador dos severos casos de microcefalia registrados a partir de 2015 no País. Pela primeira vez, cientistas demonstraram que as malformações congênitas, observadas sobretudo no Nordeste, podem ter sido agravadas por uma bactéria presente na água. 

A pesquisa, realizada pelo Instituto D’Or (IDOR), Fiocruz e pelas universidades federais do Rio de Janeiro (UFRJ) e Rural de Pernambuco (UFRPE), demonstrou que a saxitoxina (STX), toxina liberada por um tipo de bactéria encontrada em reservatórios de água, é capaz de acelerar a morte de células neuronais quando expostas à infecção pelo zika, levando, assim, a malformações congênitas mais graves. 

Esse fenômeno foi observado pelos pesquisadores em experimentos realizados tanto em camundongas grávidas quanto em minicérebros humanos. Em ambos os casos, a presença de STX associada ao zika vírus acelerou em mais de duas vezes a destruição das células do cérebro. 

Na mesma pesquisa, os cientistas também descobriram que a prevalência da cianobactéria Raphidiopsis raciborskii e da toxina produzida por ela (a STX) era significativamente maior nos reservatórios de água do Nordeste do que nos recipientes de outras regiões brasileiras. 

Analisando dados do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), do Ministério da Saúde, referentes ao período de 2014 a 2018, os pesquisadores verificaram que metade (50%) dos municípios do Nordeste tinham saxitoxina em seus reservatórios. No Sudeste, o índice verificado foi de 25%. Nas demais regiões, menos de 5% das cidades tinham reservatórios com a presença da toxina. 

O achado ajudaria a explicar por que os Estados nordestinos foram os mais afetados pelo surto. Do total de casos de síndrome congênita do zika (que inclui a microcefalia) registrados no País de 2015 a 2018, 63% ocorreram no Nordeste, segundo dados do Ministério da Saúde

"Começamos a investigar um possível co-fator ao observar que apesar de as regiões Sudeste e Centro-Oeste terem registrado mais casos de infecção pelo zika, o maior número de casos de microcefalia tinha ocorrido no Nordeste, o que parecia contraditório", explica Stevens Rehen, professor da UFRJ e do IDOR e um dos autores do estudo. "Uma das hipóteses é que a saxitoxina deixe as células neuronais mais vulneráveis aos danos causados pelo vírus zika", completa o pesquisador. 

Ele ressalta que novos estudos são necessários para confirmar os achados e destaca que a exposição à saxitoxina não explica todos os casos graves associados ao vírus zika. 

O estudo ressalta que períodos de seca favorecem a proliferação de cianobactérias nos reservatórios e tornam a população das regiões com estiagem mais vulneráveis ao consumo da água contaminada. 

Próximos passos 

Um dos financiadores do estudo, o Ministério da Saúde afirmou que ainda não se pode dizer, nessa fase da pesquisa, que a relação entre toxina, zika e microcefalia observada nos camundongos tenha efeito também em humanos, mas destacou que "os achados científicos são importantes para a próxima fase do estudo, que irá avaliar essa correlação com a água realmente consumida pela população do Nordeste brasileiro". 

Rehen relata que, a partir dos resultados desse estudo, ele e os colegas pretendem investigar agora como a STX deixa as células neuronais mais vulneráveis ao vírus zika; se pesticidas podem levar ao aumento da proliferação de cianobactérias; e se há, de fato, presença de saxitoxina no organismo de moradores do Nordeste. 

O ministério ressaltou que adota "padrões internacionais, incluindo diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), para definir o padrão de potabilidade da água, com obrigatoriedade de os prestadores de serviços de abastecimento de água realizarem o monitoramento constante de substâncias presentes nos mananciais de abastecimento e na água tratada, como cianobactérias e cianotoxinas". De acordo com o ministério, o Brasil foi o primeiro País a inserir a obrigatoriedade do monitoramento de cianotoxinas e estabeleceu valores máximos permitidos. 

O pesquisador da UFRJ e do IDOR destaca que até mesmo os padrões internacionais sobre concentração de toxinas podem ter que ser revistos caso a correlação entre STX e microcefalia seja comprovada. "Por mais que esses valores máximos sejam considerados seguros hoje, de forma isolada, eles podem deixar de ser seguros em uma situação de interação com outro fator, como a circulação do vírus zika", destaca.

Por: Fabiana Cambricoli e Giovana Girardi (O Estado de S. Paulo).

Amazônia Não Produz 20% do Oxigênio do Mundo

Vista aérea da Amazônia perto de Porto Velho, Rondônia, em 21 de agosto de 2019. 
Foto: Ueslei Marcelino / Reuters.

Das muitas razões para se preocupar com os incêndios devastadores na maior floresta tropical do mundo, o suprimento de oxigênio não é uma delas. 

À medida que as notícias sobre os incêndios na Amazônia se espalharam pelo mundo, o mesmo aconteceu com uma afirmação enganosa, mas muitas vezes repetida, sobre a importância da floresta tropical: que ela produz 20 por cento do oxigênio do mundo. 

Essa afirmação apareceu nos noticiários da CNN, ABC News, Sky News, e outras, e em postagens de redes sociais de políticos e celebridades como o presidente francês Emmanuel Macron, a senadora americana e candidata à presidência Kamala Harris, e o ator e ambientalista Leonardo Di Caprio

Alguns acreditam que isso significa que corremos o risco de comprometer o suprimento de oxigênio do mundo. "Precisamos de O2 para sobreviver!", tuitou o ex-astronauta Scott Kelly

Entretanto, esse valor – que rendeu à floresta o título de "pulmões do mundo" – é uma estimativa extremamente grosseira. Como vários cientistas apontaram nos últimos dias, a contribuição real da Amazônia para o oxigênio que respiramos provavelmente gira em torno de zero. 

"Há uma série de razões pelas quais você gostaria de manter a Amazônia inteira, mas o oxigênio não é uma delas", observa o cientista de sistemas da Terra, Michael Coe, que dirige o programa da Amazônia no Woods Hole Research Center em Massachusetts, Estados Unidos

Para Coe, a afirmação "simplesmente não faz nenhum sentido físico" porque não há dióxido de carbono suficiente na atmosfera para que as árvores fotossintetizem um quinto do oxigênio do planeta

Consideremos os fatos: para cada remessa de moléculas de dióxido de carbono que as árvores retiram do ar, elas liberam um número semelhante de moléculas de oxigênio. Como a atmosfera contém menos de meio por cento de dióxido de carbono, mas 21% de oxigênio, não é possível para a Amazônia gerar tanto oxigênio. 

Vários cientistas já apresentaram estimativas mais precisas. Nadvinder Malhi, um ecologista do ecossistema do Instituto de Mudança Ambiental da Universidade Oxford, baseia seus cálculos em um estudo de 2010 que avalia que florestas tropicais são responsáveis por cerca de 34 por cento da fotossíntese que acontece em terra. Com base em seu tamanho, a Amazônia responderia por metade disso. Isso significaria que ela gera cerca de 16 por cento do oxigênio produzido em terra, explica Malhi, que detalhou seus cálculos em uma recente postagem em seu blog

Essa porcentagem cai para 9 por cento quando se considera o oxigênio produzido pelo fitoplâncton nos oceanos. (O cientista climático Jonathan Foley, que dirige o Projeto Drawdown, sem fins lucrativos, que pesquisa soluções para as mudanças climáticas, chegou a uma estimativa mais conservadora de 6 por cento). 

Mas essa não é toda a história. As árvores simplesmente não exalam oxigênio – elas também o consomem durante o processo conhecido como respiração celular, onde convertem os açúcares que acumulam durante o dia em energia, usando oxigênio para alimentar o processo. Assim, durante a noite quando não há sol para a fotossíntese, elas absorvem somente oxigênio. A equipe de pesquisa de Malhi calcula que as árvores inalam um pouco menos da metade do oxigênio que produzem dessa forma. O resto é provavelmente usado pelos incontáveis micróbios que vivem na Amazônia, que inalam oxigênio para decompor a matéria orgânica morta da floresta. 

"O efeito real [do oxigênio] da Amazônia, ou de qualquer outro bioma, é próximo de zero", ele explica. 

Por causa desse equilíbrio entre produção e consumo de oxigênio, os ecossistemas modernos quase não alteram os níveis de oxigênio na atmosfera. Na verdade, o oxigênio que respiramos é o legado do fitoplâncton nos oceanos que há bilhões de anos acumula constantemente o oxigênio que tornou a atmosfera respirável, explica Scott Denning, cientista atmosférico da Colorado State University

Esse oxigênio só pôde se acumular porque o plâncton ficava preso no fundo do oceano antes que pudesse apodrecer – caso contrário, outros micróbios teriam usado esse oxigênio para a decomposição do plâncton apodrecido. Os processos que determinam quanto oxigênio é encontrado na atmosfera, em média, ocorrem ao longo de vastas escalas de tempo geológicas e não são muito influenciados pela fotossíntese que acontece agora, explica Denning em um artigo na revista The Conversation

Berço da biodiversidade

Todavia, o mito dos 20 por cento está circulando há décadas, mas não é claro saber de onde se originou. Malhi e Coe calculam que isso deriva do fato de que a Amazônia contribui com cerca de 20 por cento do oxigênio produzido pela fotossíntese no planeta – que deve ter caído erroneamente no conhecimento público como "20 por cento do oxigênio na atmosfera". 

É óbvio que isso não é para dizer que a Amazônia não é importante. Em seu estado primitivo, ela faz uma contribuição significativa para retirar o dióxido de carbono da atmosfera. Coe não a compara com um par de pulmões, mas com um ar condicionado gigante que resfria o planeta – um dos mais poderosos em atenuar as mudanças climáticas, juntamente com outras florestas tropicais no centro da África e Ásia

A Amazônia também tem um papel importante em estabelecer os ciclos de chuvas na América do Sul, e é o lar de povos indígenas, assim como de incontáveis espécies de animais e plantas. 

"Pouquíssimas pessoas falam sobre biodiversidade, mas a Amazônia é o ecossistema mais biodiverso da Terra, e as mudanças climáticas e o desmatamento estão colocando essa riqueza em risco", observa o cientista climático Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo

Por sua importância para o mundo, a Amazônia pode também ser um par metafórico de pulmões, e essa analogia pode ter sido útil para estimular ações em torno do desmatamento. Mas, para a maioria dos pesquisadores, não faz muito sentido – também porque um pulmão real inala oxigênio em vez de exalá-lo. 

"Se as pessoas quiserem relacioná-la simbolicamente a uma parte fundamental de seu corpo que mantém a estabilidade, a vida e o bem-estar, é possível fazer algum tipo de associação",  diz Nobre. "Mas, falando fisicamente, ela realmente não é o pulmão do mundo".

Por: Katarina Zimmer (National Geographic).

De Fordlândia a 'Bem Comum': As Contradições na História do Interesse Estrangeiro na Amazônia

Em telegrama diplomático, embaixador americano disse que militares brasileiros têm "paranoia" em relação à Amazônia

Criticado pelos incêndios na Amazônia, o governo Jair Bolsonaro diz ser vítima de uma campanha no exterior, na qual o discurso ambientalista serviria de pretexto para interesses econômicos de outros países na região e buscaria enfraquecer o agronegócio brasileiro diante de competidores. 

Um dos objetivos dessa campanha, segundo o governo, seria questionar a soberania do Brasil sobre a Amazônia, abrindo o caminho para a sua internacionalização ou para a criação de Estados autônomos em terras indígenas.

A tese, que ecoa antigas preocupações das Forças Armadas, teve bastante projeção na ditadura militar (1964-1985). Ela se ampara, em parte, em momentos históricos em que estrangeiros cobiçaram as riquezas da Amazônia e nos discursos de agricultores europeus e americanos que defendem a preservação da floresta por temerem a expansão da produção brasileira.

Mas o argumento não leva em conta as várias ocasiões em que estrangeiros investiram na Amazônia com a concordância do Brasil – como o próprio governo Bolsonaro tem estimulado – e o crescente movimento que vê a proteção de florestas tropicais como crucial para mitigar o aquecimento global. 

A posição também tende a ignorar o papel que brasileiros – entre os quais indígenas e geólogos – tiveram no arranjo legal que resultou na demarcação de grandes terras indígenas na Amazônia, várias delas em áreas ricas em minérios. 

Cooptação de indígenas

Na tese de doutorado Amazônia: Pensamento e Presença Militar, a cientista política Adriana Aparecido Marques, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), conta que os temores das Forças Armadas quanto à cooptação de indígenas por estrangeiros remontam à época em que a Amazônia teve suas fronteiras demarcadas, no Brasil Colônia

Marques diz que "os fardados temem que os indígenas contemporâneos ajam como alguns de seus antepassados, que, no passado, aliaram-se a ingleses, holandeses e franceses que pretendiam conquistar terras na região". 

Há ainda o receio de que indígenas busquem alianças com grupos não estatais que queiram mudar a ordem política local, como a que uniu indígenas Mura a revoltosos na Cabanagem (1835-1840), no Pará

"A percepção de que a soberania brasileira sobre a região está ameaçada", escreve Marques, "não é recente e nem pode ser reduzida a uma mera resposta dos militares brasileiros aos constrangimentos impostos pelo sistema internacional".


Discurso sobre manipulação de indígenas por ONGs os trata como 'inocentes frágeis', diz antropóloga.

Líderes estrangeiros

"A ameaça à soberania brasileira na Amazônia de fato existe e, de vez em quando, ela floresce", diz à BBC News Brasil o general de reserva Humberto Madeira, hoje chefe de gabinete do deputado federal Coronel Armando (PSL-RJ). 

O general, que passou a maior parte de sua carreira militar na região, diz que os temores se justificam pelos conflitos e revoltas do passado e por declarações de líderes estrangeiros que veem a floresta como um bem global. "Isso nos deixa bastante preocupados", afirma. 

Quando foi presidente da França, entre 1981 e 1995, François Miterrand defendeu a visão de que a Amazônia era um "patrimônio da humanidade". A tese foi reciclada pelo atual presidente francês, Emmanuel Macron, que se referiu à Amazônia como "nosso bem comum" ao criticar os incêndios na floresta nas últimas semanas. 

Macron lembrou que a França também é um país amazônico por meio da Guiana Francesa – território francês que faz fronteira com o Brasil. Em 25/08/2019, ao retomar o tema na reunião do G7, o presidente francês disse respeitar a soberania dos demais países amazônicos. 

Segundo Anthony Pereira, diretor do Brazil Institute da Universidade King’s College, em Londres, a tese de que a Amazônia "pertence ao mundo" não é nova. 

"No livro a Diplomacia na Construção do Brasil 1750-2016, o ex-embaixador Rubens Ricupero escreve sobre o conflito entre Brasil, de um lado, e Estados Unidos, França e Reino Unido, do outro, sobre o acesso ao rio Amazonas nas décadas de 1850 e 1860. Essas três potências argumentavam que, sob o espírito do livre comércio e do liberalismo, suas embarcações deveriam ter o direito de navegar pelo rio. O governo brasileiro finalmente abriu o rio à navegação internacional em 1866", disse. 

Colonização da Amazônia

Adriana Aparecido Marques, da UFRJ, afirma em sua tese que os militares brasileiros se veem como sucessores dos colonizadores portugueses em relação à Amazônia e compartilham da crença de que a região precisa ser ocupada por não indígenas para que o país não a perca. 

Porém, a destruição causada por essa ocupação – que historicamente inclui a abertura de estradas, a construção de hidrelétricas e a expansão da agropecuária e da mineração – acaba alimentando no exterior a polêmica tese de que a Amazônia deve ser tratada como um "bem comum" da humanidade, e não apenas um território do Brasil

Christopher Sabatini, especialista em América Latina no centro de pesquisas Chatham House, em Londres, disse à BBC que países ricos tratam a Amazônia com "arrogância". 

"Os países que, em seu processo de desenvolvimento, contribuíram com as emissões de gás carbônico agora querem proteger a Amazônia. Eles poluíram nos últimos dois séculos. É uma visão colonialista", afirmou à BBC News Brasil.

Trecho da rodovia Transamazônica no Amazonas; obra foi planejada pela ditadura militar para integrar Amazônia ao resto do país. 

Política indigenista

A visão de que a estratégia de colonização da Amazônia segue válida ainda tem defensores nas Forças Armadas

Em 2008, o então comandante militar da Amazônia e hoje ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, general Augusto Heleno, disse que a política indigenista brasileira deveria ser revista por estar "completamente dissociada do histórico de colonização do nosso país". 

Heleno se referia à demarcação de terras indígenas, que impediria a ocupação de partes do território nacional por não índios. "Como um brasileiro não pode entrar numa terra porque é terra indígena?", questionou o general. 

É preciso de autorização da Funai para entrar em uma das 567 terras indígenas, embora nem sempre a norma seja respeitada. Entre as principais justificativas estão impedir o contágio por doenças que poderiam dizimar as comunidades e evitar invasões por grileiros. A restrição não vale para as Forças Armadas, que podem entrar em qualquer terra indígena. Muitos pelotões do Exército ficam inclusive dentro dessas áreas. 

Apesar da persistência dessas visões, Marques afirma que a desconfiança das Forças Armadas em relação às comunidades nativas vem diminuindo nas últimas décadas à medida que o Exército passou a recrutar mais indígenas como soldados. Hoje vários pelotões do Exército em regiões de fronteira são compostos, em sua maioria, por indígenas.

"A necessidade de aprender com os nativos para combater um possível invasor estrangeiro faz com que o Exército procure incorporar, cada vez mais, indígenas em seu efetivo (…). O fato é que o desempenho dos soldados de origem indígena nos exercícios de sobrevivência na selva fez com que os militares revissem algumas de suas visões acerca da cultura nativa", escreve a professora.

 Transporte de borracha pelo rio Acre; presença do material na Amazônia despertou grande interesse estrangeiro pela região no século passado.

Interesse pela borracha 

Os temores quanto à soberania brasileira sobre a Amazônia cresceram no século 20, ao longo do qual várias comissões parlamentares foram criadas para investigar o tema, segundo um artigo do cientista social João Roberto Martins, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar-SP). 

Na primeira metade do século, governos e investidores estrangeiros passaram a mirar o potencial da região para a produção de borracha, cuja principal matéria-prima advinha de uma árvore local, a seringueira. 

Atento ao interesse, o governo Getúlio Vargas negociou com os EUA em 1940 um acordo para fornecer látex para as Forças Armadas americanas durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e interromper as exportações para os países do Eixo (Alemanha, Japão e Itália). 

Anos antes, em 1927, o empresário americano Henry Ford havia fechado um acordo com o então governador do Pará para a construção de um complexo agroindustrial que suprisse a demanda da montadora por pneus. O empreendimento, batizado de Fordlândia, quebrou e foi abandonado em 1945. 

Outra tentativa estrangeira com aval governamental de instalar um complexo industrial na Amazônia foi o projeto Jari, que ocupava uma área equivalente à de Sergipe em partes do Pará e do Amapá. Liderado pelo empresário americano Daniel Keith Ludwig, o empreendimento envolvia atividades industriais, agrícolas e a extração de minérios e madeira. 

O projeto começou em 1967 com o apoio da ditadura militar, mas os fracos resultados fizeram Ludwig abandoná-lo em 1982. 

A Amazônia foi cobiçada também pelo magnata Nelson Rockefeller, que posteriormente se tornaria vice-presidente dos EUA e via na floresta uma "reserva gigante de matérias-primas" para suas indústrias. 

Mas ele abriu mão dos planos de investir na região após ser desencorajado pela Casa Branca, para quem o empreendimento poderia incomodar o governo Vargas e prejudicar a relação entre os dois países. 

O caso, narrado no livro Thy Will Be Done: The Conquest of the Amazon ("Seja feita a Vossa vontade: a conquista da Amazônia", de Gerard Colby e Charlotte Dennett), indica que o governo dos EUA sabe há muito tempo que a Amazônia é um tema sensível para brasileiros. 

Em 2009, o então embaixador americano no Brasil, Clifford Sobel, disse em um telegrama diplomático revelado pelo Wikileaks que militares brasileiros têm o que ele chamou de "paranoia" em relação a ONGs que atuam na região, vendo-as "como ameaças potenciais à soberania" do país. 

Bush e Thatcher

Episódios posteriores à Segunda Guerra ampliaram o receio dos militares sobre interferências estrangeiras na Amazônia, conforme atestam várias monografias publicadas pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército

Uma delas, escrita em 2000 pelo coronel reformado Alei Salim Magluf, lista ocasiões em que líderes de outros países teriam agido para proteger seus interesses na região. 

Magluf cita a pressão que o então presidente dos EUA, George W. Bush, fez para impedir que o Japão financiasse a pavimentação da rodovia BR-364. A obra abriria uma nova rota para a exportação de grãos, o que aumentaria a competitividade da produção brasileira frente a agricultores americanos. 

Ele também menciona no trabalho o apoio da então premiê britânica Margaret Thatcher à vinculação da dívida externa de países emergentes – entre os quais o Brasil – à venda de recursos naturais, o que reduziria o poder do Brasil em decidir o que fazer com as riquezas amazônicas. 

Mais recentemente, entraram na lista de temores sobre a ingerência indevida na Amazônia atos e discursos de agricultores que competem com produtores brasileiros. 

Em 2017, começou a circular no Brasil um relatório produzido por uma consultoria a pedido da National Farmers Union, um dos principais sindicatos de agricultores dos EUA

Intitulado Farms here, forest there (fazendas aqui, florestas lá), o documento diz que a destruição de matas tropicais provocou uma "expansão dramática na produção de commodities que competem diretamente com produtos americanos". 

O relatório defende que os EUA promovam a conservação de florestas tropicais por meio de políticas climáticas, o que favoreceria agricultores e madeireiros americanos. Segundo a publicação, o fim do desmatamento nessas áreas faria com que agricultores americanos ganhassem entre US$ 190 bilhões e US$ 270 bilhões adicionais de 2012 a 2030. 

Para o engenheiro agrônomo Luis Fernando Guedes Pinto, gerente de certificação agrícola do Imaflora, não existe nenhuma aliança entre ambientalistas pró-Amazônia e agricultores americanos – ainda que a agenda ambiental possa ser usada por competidores do agronegócio nacional. 

"O Brasil tem uma importância enorme no comércio global de commodities e nossos competidores podem, sim, usar questões ambientais para tentar diminuir nossa competitividade. Mas isso não tem nada a ver com a motivação de ambientalistas, que baseiam sua atuação em argumentos científicos sobre a importância de preservar a floresta", afirma. 

A causa amazônica transcende questões comerciais e mobiliza muitos outros países que não disputam com a agricultura nacional, caso, por exemplo, da Alemanha e da Noruega, os principais doadores do Fundo Amazônia

Além de abrigar a maior biodiversidade do mundo, a floresta é vista com um imenso depósito de carbono num momento em que o mundo tenta reduzir suas emissões de CO². Preservar a Amazônia significa impedir que se injete ainda mais carbono na atmosfera, pois a derrubada de matas tropicais é uma das principais fontes dessas emissões. 

Barreiras não tarifárias

Nas últimas semanas, após a União Europeia e o Mercosul concluírem negociações para um acordo comercial, agricultores europeus endossaram as críticas ao agronegócio brasileiro, associando-o a práticas sanitárias, trabalhistas e ambientais pouco rigorosas. 

Agricultores e pecuaristas brasileiros refutam as críticas e dizem seguir padrões tão ou mais rigorosos que os europeus. 

Para o general Eduardo Villas Bôas, que comandou o Exército entre 2015 e 2019 e hoje é assessor do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, as objeções à agricultura brasileira buscam legitimar a adoção de barreiras não tarifárias contra produtos nacionais. 

"Quando a inteligência brasileira, englobando a imprensa, universidade e partidos políticos, entenderá que essas são as ferramentas empregadas pelo moderno imperialismo?", questionou o general no Twitter, no dia 11/08/2019. 

As críticas ao acordo comercial uniram agricultores e ambientalistas europeus. A aliança reforçou a tese – difundida por parte do governo brasileiro – de que ONGs estrangeiras que pregam a preservação da Amazônia e a demarcação de terras indígenas estariam, no fundo, defendendo interesses econômicos de seus países de origem. 

Para o general de reserva Humberto Madeira, ambientalistas que defendem a preservação da Amazônia podem até "estar legitimamente preocupados com a floresta". "O sujeito que está lá na ponta pode ser tão idealista quanto nós [militares], mas acaba sendo manipulado pelos dirigentes das ONGs, que decidem suas estratégias alinhadas com os interesses econômicos de seus países e financiadores". 

O general não quis citar nomes de ONGs que atuariam dessa forma nem apresentou provas. 

Para o Greenpeace, uma das principais ONGs ambientalistas estrangeiras em ação no Brasil, os argumentos são falsos. 

"Desde que Bolsonaro tomou posse, ele vem tomando atitudes que estão promovendo um desmonte da política ambiental do Brasil", diz Luiza Lima, da campanha de Políticas Públicas do Greenpeace

"Quando ele busca encontrar outros culpados para as críticas que vem recebendo, ele está tentando esconder a verdade, que são seus interesses em relação à destruição da floresta". 

Lima diz que as políticas de Bolsonaro para a Amazônia têm sido criticadas não só por ambientalistas e governos estrangeiros, mas até mesmo por partes do agronegócio brasileiro, que temem as consequências do desmatamento para seus negócios e a imagem do país. 

‘Instrumentos de estrangeiros’

Em sua tese de doutorado, a cientista política Adriana Aparecido Marques diz que as Forças Armadas acreditam que as ONGs estariam contribuindo com a desnacionalização da Amazônia, pois suas denúncias poderiam ser utilizadas como pretexto para intervenções militares na região. 

Para ela, os militares veem os indígenas como "instrumentos de estrangeiros mal intencionados" e não reconhecem a participação que eles tiveram na demarcação de suas terras. 

A hipótese de intervenções militares na região foi, inclusive, tema do artigo Quem vai invadir o Brasil para salvar a Amazônia?, do professor de Relações Internacionais da Universidade de Harvard, Stephen M. Walt, no site da revista Foreign Policy, no início de agosto de 2019. 

"Os países têm o direito – ou até a obrigação – de intervir numa nação estrangeira para evitar que ela cause dano irreversível e potencialmente catastrófico ao meio ambiente?", questionou Walt no texto, que causou grande polêmica. 

Ele cita um cenário hipotético no qual, em 2025, os EUA ameaçariam atacar o Brasil por ampliar a exploração da Amazônia e pôr em risco "um recurso global" crucial. Walt diz ter levantado essa hipótese baseado na postura de Bolsonaro quanto à Amazônia

Indígenas como ‘inocentes frágeis’

Artionka Capiberibe, professora de Antropologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), diz à BBC News Brasil que o discurso sobre a manipulação de indígenas por ONGs erroneamente os apresenta como "inocentes frágeis", ignorando seu papel no processo histórico que abriu o caminho para a demarcação de grandes reservas. 

Capiberibe diz que, durante a Assembleia Constituinte, líderes como Ailton Krenak, Mário Juruna, Paulinho Paiakã e Raoni Metuktire tornaram a causa indígena um assunto nacional, angariando apoios para que a Constituição de 1988 reconhecesse uma série de direitos que até então eram negados aos grupos. 

Antes da aprovação da Carta, o Estado brasileiro tinha a perspectiva de que os indígenas se misturariam com outros brasileiros e acabariam assimilados pela sociedade, logo, não seria necessário lhes demarcar grandes áreas. 

Mas a Constituição impôs um novo entendimento. Ao reconhecer o direito dos indígenas à reprodução física e cultural, a Carta abriu o caminho para a demarcação de terras extensas na Amazônia, onde as comunidades pudessem manter tradições como a caça, a pesca e a abertura de roças, além de mudar suas aldeias de lugar periodicamente. 

Adriana Marques, da UFRJ, escreve em sua tese que os militares não são totalmente contrários à demarcação de terras indígenas, mas questionam a chamada "demarcação em área contínua". 

"Os principais argumentos dos fardados para se contrapor a este tipo de demarcação são a extensão das terras reivindicadas, sua localização, já que algumas das reservas demarcadas estão próximas à faixa de fronteira, e a possibilidade dessas terras de tornarem o embrião de um estado autônomo". 

Há ainda críticas à demarcação de terras indígenas em áreas ricas em minérios. Em 2017, o general Villas Bôas afirmou no Senado que o Exército tem levantamentos sobre o que ele chamou de "estranha coincidência" entre terras indígenas e reservas minerais. 

Para ele, outros países seriam os principais interessados nessas demarcações. "Eles trabalham no sentido de neutralizar áreas, amortecer, já que não têm a capacidade de explorar imediatamente. E ficam esperando certamente momentos oportunos para buscar essas oportunidades", disse o general. 

Mineradoras canadenses

Villas Bôas afirmou que grande parte da pressão internacional pela preservação da Amazônia vem do Canadá, país que é sede de grandes mineradoras e que abriga uma Bolsa de Futuros para o setor. 

Mineradoras canadenses têm tentado expandir a atuação na Amazônia e, em alguns casos, vêm enfrentando dificuldades justamente por causa da demarcação de terras indígenas na região. 

É o caso da mineradora Belo Sun, que tenta instalar a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil na região da Volta Grande do Xingu, no Pará. Em 2017, a Justiça suspendeu o licenciamento da mina em meio à pressão de ONGs ambientalistas, indígenas e ribeirinhos contrários ao empreendimento. 

Se uma ala do governo vê com reserva os interesses do Canadá em relação à Amazônia, outra ala quer que as mineradoras canadenses e de outros países explorem minérios no Brasil – inclusive dentro de terras indígenas. 

Em março, o ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, viajou para o Canadá para um congresso de mineradoras. No evento, ele disse a executivos canadenses, em um episódio que gerou forte reação no Brasil, que o governo pretende legalizar a exploração mineral em terras indígenas. A medida – rejeitada pelas principais associações indígenas brasileiras – depende da aprovação de um projeto de lei pelo Congresso

O presidente Jair Bolsonaro também quer parcerias com estrangeiros para explorar minérios em áreas indígenas. Ao se referir à indicação de seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), ao cargo de embaixador em Washington, ele citou as riquezas da Terra Indígena Yanomami, em Roraima

"Se junta com a [Terra Indígena] Raposa-Serra do Sol, é um absurdo o que temos de minerais ali. Estou procurando o ‘Primeiro Mundo’ para explorar essas áreas em parceria e agregando valor", disse. 

Para Artionka Capiberibe, da Unicamp, a postura do governo é contraditória. "Por um lado, eles dizem que as demarcações de terras indígenas atendem aos interesses de estrangeiros. Por outro, propõem abrir essas terras para a exploração por estrangeiros", ela diz à BBC News Brasil

‘Estranha coincidência’

Um depoimento da professora de Antropologia da USP, Manuela Carneiro da Cunha ao livro Os índios e a Constituição, lançado em agosto, sugere que, ao contrário do que afirma o general Villas Bôas, a presença de reservas minerais em terras indígenas demarcadas não é uma "estranha coincidência". 

Em 1987, Carneiro acompanhou na Constituinte a negociação do capítulo sobre direitos indígenas. Ela afirma que mineradoras faziam um forte lobby para impedir que terras pudessem ser demarcadas em cima de reservas minerais. 

Mas a antropóloga diz que a Coordenação Nacional de Geólogos se opunha à entrada das empresas nessas áreas, temendo que as riquezas fossem rapidamente esgotadas sem que a população se beneficiasse. 

Segundo Carneiro, os geólogos, imbuídos de um sentimento nacionalista, se aliaram aos indígenas para que as terras demarcadas pudessem coincidir com as reservas minerais. Assim, ambas seriam preservadas. 

Ela diz que a aliança facilitou a aprovação do capítulo constitucional sobre os direitos indígenas. Após 1988, foram feitas grandes demarcações – várias em territórios ricos em minérios. 

Hoje terras indígenas ocupam 13% do território nacional, muito menos do que antes da chegada dos portugueses, mas mais do que muitos imaginavam ser possível num passado não tão distante.

Por: João Fellet (BBC News Brasil).