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Pior Cenário de Mudanças Climáticas é Ainda Pior do que Pensávamos

© Thomas Corzelius / iStock / Getty Images Plus.

A frase "pior do que pensávamos" é um clichê quando se trata de mudança climática. Há muitos estudos sugerindo que estamos aquecendo mais e com consequências piores do que pensamos, e poucos dizem que isso não será tão ruim. Mas adivinhe: é pior do que pensamos. 

Um estudo sobre a economia global futura - publicado pela revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) - concluiu que o pior cenário usado pelos cientistas do clima não é, na verdade, o pior caso. 

O quanto o clima mudará depende de quanto gás de efeito estufa emitimos, o que, por sua vez, depende das escolhas que fazemos como sociedade - incluindo como a economia global se comporta. Para lidar com isso, os climatologistas usam quatro cenários chamados RCPs [Representative concentration pathway], cada um dos quais descreve um futuro possível diferente. 

O cenário RCP8.5 é o pior para o clima. Assume o crescimento econômico rápido e irrestrito e a queima desenfreada de combustíveis fósseis. 

Parece agora que o RCP8.5 pode ter subestimado as emissões que resultariam se seguíssemos o caminho econômico que ele descreve. 

Mais dinheiro, mais emissões 

"Nossas estimativas indicam que, devido a taxas de crescimento econômico mais altas do que presumidas, há uma probabilidade maior do que 35% de que as concentrações de emissões do ano 2100 excedam as dadas pelo RCP8.5", diz Peter Christensen, da University of Illinois, Urbana-Champaign

Em certo sentido, não é tão ruim assim. RCP8.5 assume que nenhuma ação é tomada para limitar o aquecimento, o que é improvável. "Já fixamos uma certa política climática", diz Glen Peters, do Centro de Pesquisas Climáticas Internacionais, na Noruega

Mas a implicação preocupante é que as emissões podem ser muito mais altas do que o esperado, mesmo que a ação climática continue e seja aumentada. "Os resultados também afetarão as estimativas dos caminhos de emissões sob uma variedade de cenários políticos", diz Christensen

Enquanto alguns afirmam que a ligação entre o crescimento econômico e as emissões de gases de efeito estufa foi quebrada - ou "desacoplada" -, ela só foi enfraquecida. As emissões de carbono aumentaram na União Européia nos últimos quatro anos, conforme cresce o crescimento econômico, assinala Peters. Em 2017, as emissões da UE aumentaram 1,8%.

Por: Michael Le Page (New Scientist).

Um Terço das Áreas Protegidas do Mundo Sofrem Intensa Pressão Humana

Floresta Nacional do Jamanxim, Pará, impactada pelo desmatamento e grilagem de terras. Foto: Vinícius Mendonça / Ibama.

Quase um terço das áreas protegidas em todo o mundo estão sob intensa pressão de atividades humanas. No total, uma área maior do que a Amazônia, de aproximadamente 6 milhões de quilômetros quadrados, está degradada por rodovias, pastagens ou urbanização. Para especialistas, esse número ameaça as metas definidas pela Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB). 

O resultado foi apresentado na revista Science [One-Third of Global Protected Land is Under Intense Human Pressure] por pesquisadores da University of Queensland, Austrália, University of Northern British Columbia, Canadá, e Wildlife Conservation Society (WCS). É o primeiro levantamento amplo sobre a situação das áreas protegidas em nível mundial, desde a assinatura da CDB, em 1992, que trata do uso e proteção da biodiversidade. 

"Nós encontramos grande infraestrutura de acesso, como rodovias, agricultura industrial e mesmo cidades inteiras ocorrendo dentro dos limites de locais que supostamente deveriam ser destinados à conservação da natureza", conta o líder do estudo, Kendall Jones, estudante de doutorado na University of Queensland. "Mais de 90% das áreas protegidas, como parques nacionais e reservas naturais, demonstraram sinais de danos provocados por atividades humanas", completa. 

Segundo o estudo, o Brasil é o país com maior extensão de áreas protegidas do mundo, com quase 2,5 milhões de quilômetros quadrados de unidades de conservação e terras indígenas (28,94% do território nacional). Conforme os dados apresentados em material de suporte ao artigo, 86,45% das áreas protegidas brasileiras estão sob baixo impacto de pressões humanas e 13,55% sofrem alta pressão. Um mapa apresentado no artigo indica que as unidades de conservação e terras indígenas sob maior pressão estejam no Sudeste e ao longo do litoral. 

De acordo com o estudo, a extensão de áreas protegidas em todo o mundo dobrou desde 1992. Atualmente elas cobrem 14,7% da superfície terrestre do planeta, mas a meta é chegar a 17% até 2020. Mais da metade das áreas criadas antes de 1992 (55%) têm sofrido aumento da pressão humana, segundo o estudo. Os pesquisadores defendem que os governos reconheçam os benefícios das áreas protegidas e as fortaleçam, com respeito ao modo de vida de populações tradicionais. 

Mangues e savanas estão entre as paisagens com maior proporção de áreas protegidas sob pressão, enquanto florestas localizadas em altas latitudes, como no Canadá ou na Rússia, estão sujeitas a menores impactos por atividades humanas. 

"Nós sabemos que áreas protegidas funcionam", afirma Jones. "Quando bem financiadas, bem gerenciadas e bem implantadas, elas são extremamente efetivas em combater as ameaças que causam perda da biodiversidade e garantir a recuperação de espécies à beira da extinção. Há também muitas áreas protegidas ainda em boas condições, garantindo áreas remanescentes de espécies ameaçadas em todo o mundo".

Por: Vandré Fonseca (O Eco).

Órbita da Terra Muda a Cada 405 Mil Anos, Alterando Clima Global, diz estudo

Analisando elementos radioativos em rochas nas profundezas da Terra, cientistas americanos comprovaram o que os cálculos matemáticos já sugeriam; para eles, porém, mudanças climáticas atuais são mesmo resultado do efeito estufa. 

Um novo estudo demonstra que a influência gravitacional de Júpiter e de Vênus provocam, a cada 405 mil anos, uma alteração na órbita da Terra que tem impactos no clima global. De acordo com os autores da pesquisa Empirical Evidence for Stability of the 405-kiloyear Jupiter–Venus Eccentricity Cycle Over Hundreds of Millions of Years, publicada em 07/05/2018, na revista científica PNAS, esse ciclo já havia sido previsto por cálculos de mecânica celeste, mas até agora ninguém havia apresentado evidências físicas de sua existência. 

Segundo os autores, o estudo, que se baseou em escavações feitas em rochas extremamente antigas do Arizona (Estados Unidos), comprovou que o fenômeno tem ocorrido regularmente há pelo menos 215 milhões de anos - antes do aparecimento dos dinossauros -, deixando a órbita mais "alongada". 

"É um resultado espantoso, porque a existência desse longo ciclo, que já havia sido prevista a partir da análise dos movimentos dos planetas nos últimos 50 milhões de anos, foi comprovada e já ocorre há pelo menos 215 milhões de anos. Agora os cientistas poderão ligar esse ciclo de 405 mil anos, de uma maneira muito precisa, às alterações no clima, no ambiente e na evolução dos dinossauros e dos mamíferos, por exemplo", disse o autor principal do estudo, Dennis Kent, da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos

Extraindo amostras de rochas extremamente antigas das profundezas do Parque Nacional da Floresta Petrificada, no Arizona, os cientistas identificaram sinais de uma variação regular na órbita da Terra, a cada 405 mil anos, que afeta o clima. Foto: Kevin Krajick/Lamont-Doherty Earth Observatory.

Por várias décadas, os cientistas postulavam que a órbita da Terra em torno do Sol sofre uma modificação a cada 405 mil anos, passando de uma forma quase circular para uma forma 5% mais alongada, ou elíptica. 

O ciclo, segundo eles, é resultado de uma complexa interação com as influências gravitacionais de Vênus, Júpiter e outros objetos do Sistema Solar, que em sua viagem em torno do Sol às vezes estão mais próximos e às vezes mais distantes uns dos outros. 

Segundo os astrofísicos, porém, o cálculo matemático desse ciclo só era confiável nos últimos 50 milhões de anos. Para além desse limite, o problema se torna complexo demais, porque há muitas variáveis em jogo. 

"Há outros ciclos orbitais mais curtos, mas quando olhamos para o passado, é muito difícil saber quais deles têm relações entre si, porque eles mudam muito com o tempo. A beleza desse ciclo maior é que ele não muda. Todos os outros ciclos é que mudam em relação a ele", disse Kent

Um dos autores do novo estudo, John Geissman, da Universidade do Texas, puxa um "testemunho de rocha" que acabara de ser extraído no Arizona; a perfuração chegou a 500 metros de profundidade, revelando dados de cerca de 250 milhões de anos. Foto: Kevin Krajick/Lamont-Doherty Earth Observatory.

Escrito nas rochas

A evidência que demonstra a existência do ciclo há pelo menos 215 milhões de anos são amostras de rocha retiradas de até 500 metros de profundidade de uma colina no Parque Nacional da Floresta Petrificada, no Arizona, em 2013. 

As rochas do Arizona que foram estudadas se formaram durante o fim do período Triássico, entre 209 e 215 milhões de anos atrás, quando a área era coberta por rios que carreavam sedimentos. Nessa época, os primeiros dinossauros estavam começando a evoluir. 

Os cientistas determinaram a idade das rochas do Arizona analisando as camadas de cinzas vulcânicas em seu interior que contêm radioisótopos cuja emissão radioativa decai em uma taxa constante. A partir dos sedimentos, eles também detectaram repetidas inversões na polaridade do campo magnético do planeta. 

Antes de escavar o solo no Arizona para obter os "testemunhos de rocha" - como são chamados os "cilindros" de rocha de centenas de metros de comprimento - os cientistas já haviam obtidos testemunhos em Nova Jersey, que mostravam uma alternância entre períodos secos e úmidos ao longo de milhões de anos. 

Eles acreditavam que essas mudanças do clima registradas nas rochas de Nova Jersey eram controladas pelo ciclo de 405 mil anos, mas naquelas rochas não havia camadas de cinzas vulcânicas que permitissem determinar as datas com precisão. 

Combinando os dois conjuntos de dados - obtidos em Nova Jersey e no Arizona -, os cientistas demonstraram que os dois locais se desenvolveram ao mesmo tempo e que o intervalo de 405 mil anos de fato está ligado às variações do clima. 

Os sedimentos que se acumularam nas profundezas da Terra, no local onde fica hoje o Arizona, há mais de 200 milhões de anos, antes do aparecimento dos dinossauros; a foto mostra um "cilindro" de rocha que acabara de ser extraído de uma profundidade de 500 metros. Foto: Kevin Krajick/Lamont-Doherty Earth Observatory.

Profusão de ciclos

Outro dos autores da pesquisa, o paleontólogo Paul Olsen, afirma que o ciclo não muda o clima diretamente, mas intensifica ou enfraquece os efeitos de outros ciclos de duração mais curta, que por sua vez afetam o clima diretamente. Em conjunto, esses ciclos mudam as proporções de energia solar que atingem a Terra em diferentes momentos do ano. 

Ele explica que há um ciclo menor a cada 100 mil anos, ligado à excentricidade da órbita da Terra, um de 41 mil anos, ligado à inclinação do eixo da Terra em relação à órbita em torno do Sol e um ciclo de 21 mil anos ligado a uma oscilação no eixo da Terra. Na década de 1970, cientistas revelaram que esses ciclos menores levaram à alternância entre períodos de aquecimento e resfriamento do planeta, produzindo as glaciações. 

Mas ainda há muita discussão sobre as inconsistências nos dados dos últimos milhões de anos e sobre as relações desses ciclos com o aumento e redução dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera - outro fator que controla o clima global. O que torna os resultados desses fenômenos ainda mais difíceis de entender é a interação constante entre eles. Eventualmente, um ciclo está fora de fase em relação aos outros e uns tendem a neutralizar os outros. Outras vezes, eles podem se combinar provocando mudanças drásticas e súbitas. 

Segundo os autores do novo estudo, a cada 405 mil anos, quando a excentricidade - ou "alongamento" - da órbita está em seu máximo, diferenças sazonais provocadas pelos ciclos mais curtos se tornam mais intensas, deixando os verões mais quentes, os invernos mais frios, os locais secos mais secos e os locais úmidos mais úmidos. Tudo se inverte 202,5 mil anos depois, quando a órbita da Terra se torna mais circular. 

Os cientistas explicam que Júpiter e Vênus exercem forte influência na órbita da Terra por causa do tamanho e da proximidade, respectivamente. Vênus é o planeta mais próximo da Terra, afastando-se dela no máximo 260 milhões de quilômetros. Júpiter está muito mais longe, mas é maior planeta do Sistema Solar, 2,5 vezes maior que a soma de todos os demais. 

Autor principal do novo estudo, Dennis Kent, da Universidade Rutgers, mostra parte de um "testemunho de rocha" de 518 metros de comprimento retirado do Parque Nacional da Floresta Petrificada, no Arizona; ao fundo, pode-se ver as caixas do arquivo de amostras de rochas retiradas de Nova Jersey, para comparação. Foto: Nick Romanenko/Rutgers University.

Efeito estufa é decisivo

Segundo Olsen, o sistema é tão intrincado que ainda há muita pesquisa a ser feita para que se compreenda completamente as relações entre a órbita e o clima da Terra. "É uma coisa realmente complicada. Nós utilizamos basicamente o mesmo tipo de conhecimento matemático que é utilizado para enviar espaçonaves a Marte - e que funciona muito bem na prática. Mas quando começamos a estudar os movimentos interplanetários em um passado mais remoto e a ligá-los a mudanças no clima, temos que admitir que não entendemos todo o funcionamento." 

Neste momento, segundo os cientistas, a órbita da Terra está no momento mais "circular" dos últimos 405 mil anos. "Para nós isso provavelmente não tem nenhum significado muito perceptível. Esse ciclo está bem longe do topo da lista de coisas que podem afetar o clima em escalas de tempo que nos afetem. Neste momento, todo o dióxido de carbono que nós lançamos na atmosfera é um problema muito maior, com efeitos muito mais importantes nas nossas vidas. O ciclo planetário é bem mais sutil", disse Kent.

Por: Fábio de Castro (O Estado de S. Paulo).

#FiquePorDentro - Os Agrotóxicos e Os Produtos Fitossanitários

Agrotóxicos, defensivos agrícolas, pesticidas, praguicidas, desinfectantes, biocidas, agroquímicos, produtos fitofarmacêuticos ou produtos fitossanitários são designações genéricas para os vários produtos químicos usados ​​na agricultura. 

A produção, o armazenamento e o uso de agrotóxicos podem representar significativos riscos ambientais e à saúde humana

Os agrotóxicos podem provocar três tipos de intoxicação: aguda, subaguda e crônica. Na aguda, os sintomas surgem rapidamente. Na intoxicação subaguda, os sintomas aparecem aos poucos: dor de cabeça, dor de estômago e sonolência. Já a intoxicação crônica pode surgir meses ou anos após a exposição e pode levar a paralisias e doenças como o câncer. 

Em passado recente, houve um extensivo uso de agrotóxicos persistentes, os organoclorados. Um organoclorado como o BHC pode resistir na natureza e no organismo humano por muitos anos, tendo se tornado um dos piores poluentes da história. Quando os malefícios e sua persistência foram divulgados, seu uso já estava difundido. Chegou-se ao ponto em que médicos prescreviam o uso de DDT, outro organoclorado perigoso, para o controle de verminoses e piolhos. Um resquício cultural desses tempos está no termo "dedetizar", que usamos quando nos referimos a expurgar baratas, moscas e outras pragas domésticas que ameaçam nossa saúde. 

"Dedetizar" se refere ao tempo em que as casas eram pulverizadas com DDT sem que se soubesse do seu risco. Convém lembrar que muitos dos mesmos princípios ativos usados como agroquímicos, e mesmo agrotóxicos, são também usados como medicamentos humanos, diferindo apenas na concentração e forma de apresentação. Milhões de vidas têm sido salvas de verminoses, doenças fúngicas e várias outras por medicamentos que usam exatamente as mesmas moléculas usadas de outra forma para o controle de pragas e doenças agrícolas, pecuárias e também de animais de estimação. 

Os agrotóxicos causam câncer

A Constituição de 1988 não se omitiu ao prever a obrigatoriedade para o Poder Público no combate dos agrotóxicos, tendo sido mais abrangente ao não mencionar expressamente o termo "agrotóxico", mas "substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade da vida e ao meio ambiente" (artigo 225, § 1º, V, da CF). A Lei 7.802/89 abrange "agrotóxicos, seus componentes e afins" (artigo 1º), quando dita que consideram-se agrotóxicos e afins: 

a) os produtos e os agentes de processos físicos, químicos ou biológicos, destinados ao uso nos setores de produção, no armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, nas pastagens, na proteção de florestas, nativas ou implantadas, e de outros ecossistemas e, também, de ambientes urbanos, hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou da fauna, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos; 

b) substâncias e produtos empregados como desfolhantes, dessecantes, estimuladores e inibidores de crescimento (artigo 2º, I, da Lei 7.802, de 11 de julho de 1989, publicada no DOU de 12 de julho de 1989). 

Aliás, consideram-se componentes: os princípios ativos, os produtos técnicos, suas matérias-primas, os ingredientes inertes e aditivos usados na fabricação de agrotóxicos e afins (artigo 2º, II, da Lei 7.802/89). 

Planos de contingência e monitoramentos ambientais não podem ser descartados, em hipótese alguma

Nessa linha de preocupação, surge o projeto de lei da Câmara dos Deputados nº 3200/2015. De autoria do deputado federal Luis Antônio Franciscatto Covatti, o PL institui a Política Nacional de Defensivos Fitossanitários e de Produtos de Controle Ambiental. Entre outras propostas, o projeto pretende alterar a nomenclatura de "agrotóxicos" para "produtos defensivos fitossanitários". O projeto de lei está sendo discutido em comissão especial destinada a debater o assunto. 

Nota de repúdio da Câmara de Meio Ambiente do Ministério Público Federal pontua que o termo "agrotóxicos" expressa a nocividade dos produtos e é amplamente difundido e conhecido da população, "sendo a substituição por termo novo, na prática, ofensa aos princípios da transparência e da informação". 

A alteração também confundirá a distinção entre as substâncias utilizadas nas culturas orgânicas e não orgânicas. A prática "é um verdadeiro greenwashing, ou seja, modificação da imagem mediante métodos que levam a pensar tratar-se de produto ecologicamente responsável", observa o documento. 

A nova denominação não exigirá o registro de herbicidas, como o 2,4D, o paraquat e o glifosato, os mais consumidos no Brasil, já que estes não pertencem ao conceito de defensivos fitossanitários previsto no projeto de lei. No entanto, pesquisas já apontaram a relação entre esses agrotóxicos e a incidência de câncer.

Fonte:

ROMANO, Rogério Tadeu. Os agrotóxicos e os produtos fitossanitáriosRevista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 21n. 4848,9 out. 2016. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/50472>. Acesso em: 15 maio 2018.

Coral Invasor da Costa Brasileira Apresenta Grande Capacidade de Regeneração

Cientistas investigam os fatores que permitem às colônias de coral-sol se multiplicar com rapidez, tomando o lugar de espécies nativas. A partir de um pequeno fragmento, a colônia toda se regenera (foto: divulgação).

Detectado pela primeira vez no país no litoral do Sudeste no fim dos anos 1980 – quando começaram os trabalhos de prospecção de óleo e gás na Bacia de Campos (RJ) – o coral-sol vem se espalhando pelos costões das ilhas brasileiras com grande velocidade e é considerado um invasor biológico. 

"Na região de Ilhabela (SP), os costões submersos da Ilha dos Búzios estão em situação irrecuperável", disse Marcelo Kitahara, professor no Departamento de Ciências do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus de Santos, e pesquisador colaborador no Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (USP). 

Antes biodiversos e multicoloridos, os costões da Ilha dos Búzios se encontram inteiramente rajados de um alaranjado belo e intenso. Há pontos onde não se vê mais outra forma de coral e nem mesmo alguma porção de rocha nua. 

"É preciso conter a expansão do coral-sol e evitar que o mesmo ocorra em outras ilhas. Há locais onde o manejo ainda é possível, mas isso requer a retirada manual completa de todas as colônias", disse Kitahara

Diversos pontos do litoral de São Paulo e do Rio de Janeiro apresentam sinais de invasão pelo coral-sol. É o caso do Arquipélago dos Alcatrazes, em São Sebastião (SP), área de Refúgio de Vida Silvestre

"Uma vez que as plântulas de coral-sol se instalam em um costão, a colônia se multiplica com enorme velocidade. Tentamos entender por que isso acontece", contou Kitahara, que coordena um projeto apoiado pela FAPESP com a finalidade de estudar a filogenômica dos corais, suas relações evolutivas e as mudanças climáticas. 

Os primeiros resultados do estudo, que revelaram a surpreendente capacidade de regeneração do coral-sol, foram publicados no Journal of Experimental Marine Biology and Ecology com o sugestivo título Um pólipo a partir do nada – A extrema capacidade de regeneração do coral-sol invasor no Atlântico

A primeira autora é a bióloga Bruna Louise Pereira Luz, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que atualmente está na Austrália para estudar o coral-sol na James Cook University, em Townsville, diante da Grande Barreira de Coral, como parte de seu programa de doutorado orientado por Kitahara

São sete as espécies que compõem o gênero Tubastraea, todas nativas das águas tropicais dos oceanos Índico e Pacífico. Apenas duas espécies ocorrem no Atlântico Sul Ocidental, as invasoras Tubastraea coccinea e T. tagusensis

Após os primeiros registros feitos na Bacia de Campos, nos anos 1980, foram avistadas colônias em costões do litoral Sul do Rio de Janeiro nos anos 1990. Desde então, o coral-sol tem sido registrado em mais de 3 mil quilômetros da costa brasileira, desde Santa Catarina, ao sul, até ao largo do Ceará, mais ao norte. 

"Caso nada seja feito para deter o seu avanço, acredita-se que o coral-sol tenha potencial para colonizar todo o litoral brasileiro", disse Kitahara

O aparecimento do invasor no exato momento em que começaram os trabalhos de extração de petróleo e gás não é um caso isolado do Rio de Janeiro. No Golfo do México existem vastos campos de extração de petróleo em alto-mar e, desde o início dos anos 2000, o coral-sol tem sido encontrado no litoral mexicano. Há inclusive registros de coral-sol sendo transportado incrustado no casco de navios. 

"Não podemos afirmar que a exploração de petróleo na bacia de Campos resultou na invasão do coral-sol em nosso litoral, mas todos os indícios levam a esta conclusão", disse Kitahara

O coral é um esqueleto calcário construído a partir de colônias de pequenos animais chamados pólipos. Há dois tipos de corais: aqueles que têm uma relação simbiótica com algas, que fazem fotossíntese e liberam compostos orgânicos que auxiliam na alimentação dos pólipos, e aqueles que independem da alga para crescer e proliferar – caso do coral-sol. 

"Como não possui algas, não está restrito a locais com luz para a realização de fotossíntese. O coral-sol ocorre geralmente a até 20 metros de profundidade, mas já foi registrado aos 110 metros. Uma vez que os pólipos se estabelecem num costão, criam grande número de colônias, dominando 100% do substrato", explicou Kitahara

Ao fazê-lo, tomam o lugar dos corais nativos, devastando as relações ecológicas com a fauna submarina que deles depende ou neles se abriga. 

Kitahara percebeu os primeiros indícios do poder de regeneração do coral-sol durante mergulhos na Ilha dos Búzios. Foi quando o oceanógrafo percebeu algumas colônias com parte do esqueleto quebrado, que podem ter se partido pela ação mecânica do mar ou pela mordida de algum peixe. Semanas mais tarde, ao retornar ao local durante um outro mergulho, o pesquisador se surpreendeu ao notar a colônia completamente regenerada. 

"A partir de um pequeno fragmento, a colônia toda se regenera. O poder de regeneração é assustador. Por isso, qualquer ação de manejo precisa adotar medidas para evitar a fragmentação. É preciso remover todo o esqueleto [a parte calcária morta do coral]", disse. 

Reorganização das células-tronco 

Com o objetivo de entender os mecanismos que permitem a essas espécies se adaptar tão bem e proliferar tão rápido nos diversos ambientes marinhos, os pesquisadores coletaram na Ilha dos Búzios uma colônia de T. coccinea e outra de T. tagusensis

No laboratório, foram retirados de cada colônia 120 fragmentos, compostos por esqueleto com tecido vivo, desprovido de boca, tentáculos e mesentérios. As amostras de cada espécie foram então separadas em dois grupos de 60 fragmentos muito pequenos (de 3,5 a 11 mm2) e pequenos (11 a 53 mm2). Cada um dos 240 fragmentos foi depositado em frascos com água salgada filtrada. 

Para cada combinação de espécies e tamanhos dos fragmentos, os indivíduos foram separados em três grupos de 20 fragmentos, mantidos a uma temperatura constante de 24º Celsius (temperatura média histórica da água superficial na região), 27ºC (temperatura média da superfície do mar no verão) ou 30ºC (como observado durante as ondas de calor na região). 

Finalmente, os efeitos da presença de alimento foram testados pela adição de uma quantidade igual (10 ml) de zooplâncton vivo a cada dois dias para metade dos recipientes. 

Os fragmentos foram fotografados no primeiro dia do experimento e também quando a boca e o pólipo completo foram observados pela primeira vez. Apenas 41 (17,1%) dos 240 fragmentos sofreram necrose dos tecidos e morreram. Os outros 199 fragmentos (86,9%) se regeneraram. Destes, 21 sofreram um padrão alternativo de regeneração, com a formação de dois pólipos, em vez de um só. 

Independentemente da espécie, a sobrevivência dos fragmentos de coral foi afetada apenas pela temperatura, sendo que a taxa de sobrevivência foi maior a 24ºC. Não houve diferença entre os mantidos a 27ºC e a 30ºC. O suprimento de alimentos e o tamanho dos fragmentos não afetaram a sobrevivência. 

A regeneração observada seguiu os seguintes passos: após a retração inicial do tecido, um embrião da boca (às vezes duas bocas para um único fragmento) tornou-se perceptível. Em seguida observou-se a reorganização dos tecidos em torno da boca embrionária, levando à formação de dois pequenos pólipos distintos, ou reabsorção de um dos embriões. Nesse último caso, observou-se uma importante diferenciação dos tecidos em torno da boca embrionária remanescente, resultando em um pólipo maior. 

"Observamos um fenômeno muito interessante. Do ponto de vista celular, houve uma reorganização das células-tronco. O pólipo em formação consumiu tecido como fonte de energia para privilegiar a produção de outras partes do corpo", disse Kitahara

Os resultados gerais do experimento sugerem taxas de regeneração mais rápidas para temperaturas mais altas. As regenerações mais rápidas da boca entre os fragmentos sem contato com alimentos foram de 23 dias, quando mantidos a 24ºC, e de 18 dias, a 30ºC. No entanto, quando em contato com o zooplâncton vivo, indivíduos mantidos a 27ºC tiveram um desenvolvimento da boca 30% mais rápido. Isso indica que o desenvolvimento ótimo da boca ocorreu na temperatura intermediária (27ºC), desde que em presença de alimento. 

A regeneração dos tecidos para ambas as espécies até a formação de um pólipo completo foi de cerca de 25 dias, nas temperaturas de 27ºC e 30ºC. Indivíduos não alimentados da espécie T. coccinea precisaram de 41 dias para formar o pólipo. 

Como explicou Kitahara, o fato de o coral-sol se regenerar mais rapidamente em temperaturas mais elevadas tem grande implicação para seu sucesso invasivo. Geralmente, quando há elevação na temperatura da água superficial, os corais nativos da costa brasileira sofrem branqueamento . 

"Eles perdem a cor. O aquecimento das águas interfere no metabolismo das algas em simbiose com os corais. Embranquecido, o coral sobrevive por alguns dias. Se o aquecimento perdura, ele morre. O branqueamento ou a morte dos corais nativos abre a oportunidade para a invasão do substrato pelo coral-sol", explicou. 

De acordo com Kitahara, os próximos passos da pesquisa envolvem, do lado molecular, o sequenciamento do genoma do coral-sol. Do ponto de vista ecológico, o grupo pretende investigar os aspectos biológicos da invasão e como ela afeta a fauna marinha nativa. 

Na avaliação do pesquisador, o futuro não parece promissor para os corais nativos da costa brasileira. Para o coral-sol, ao contrário, parece brilhante. De um lado, as mudanças climáticas globais e o aquecimento das águas favorecem o invasor, que se regenera melhor em águas mais quentes, enquanto os corais nativos correm o risco de morrer. Além disso, a extração de petróleo nas águas brasileiras tende a se expandir. 

O artigo A polyp from nothing: The extreme regeneration capacity of the Atlantic invasive sun corals Tubastraea coccinea and T. tagusensis (Anthozoa, Scleractinia) (doi: https://doi.org/10.1016/j.jembe.2018.02.002), de B. L. P. Luz, K. C. C. Capel, C. ZilberbergA. A. V. Flores, A. E. Migotto e M. V. Kitahara, está publicado em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0022098117304483?via%3Dihub

Por: Peter Moon (Agência Fapesp).

Upcycling Aplicado a Alimentos Cria Oportunidades na Agroindústria

Foto: Lesly Juarez / Unsplash.

Iniciativa reduz impacto ambiental do descarte de alimentos, gera receita para o produtor e atende aos anseios do mercado consumidor por produtos diferenciados. 

Quando a sustentabilidade e a inovação caminham juntas no setor de alimentos, o resultado são produtos com impactos ambientais positivos e grande apelo para o consumidor urbano. Produtos alimentícios sustentáveis ajudam a solucionar problemas presentes ao longo da cadeia agroalimentar e ainda podem ser mais lucrativos para quem produz e para quem vende no varejo. A tendência do upcycling, termo resultante da junção de "up" com "reciclagem", significa gerar novos usos para matérias-primas ou partes de alimentos que acabariam sendo descartadas no início da cadeia produtiva. 

O upcycling é um exemplo de solução ganha-ganha, porque contribui para reduzir o impacto ambiental do descarte de alimentos, gera receita para o produtor e atende aos anseios do mercado consumidor por produtos diferenciados e sustentáveis. Recentemente, o Wageningen Food & Biobased Research, centro de pesquisa aplicada da Universidade de Wageningen, na Holanda, criou linhas de estudo para fomentar a geração de produtos diferenciados para pequenas agroindústrias. 

Por meio do upcycling, um grande fornecedor de tomates para o McDonald’s, na Holanda, encontrou uma forma de não descartar mais as extremidades dos tomates, que não são utilizadas na produção dos sanduíches da rede de fast-food. Os pedaços de tomates antes descartados viraram uma sopa, comercializada em embalagem transparente e com pegada sustentável. Outras soluções são mais complexas e envolvem mais esforços de pesquisa. 

Suco de maçã produzido com frutas que seriam descartadas.
Também no âmbito do plano de economia circular da Holanda, pesquisadores de Wageningen desenvolveram com parceiros uma cerveja que tem como principal matéria-prima pães que seriam descartados e uma cidra com maçãs que não atendiam ao padrão estético exigido por algumas redes varejistas. Existem ainda os snacks de frutas e/ou legumes desidratados em embalagens práticas, que abrem e fecham facilmente, para consumo individual. 

A Spare Fruit, lançada no Reino Unido, encontrou um destino sustentável para as muitas toneladas de maçãs e peras produzidas e não comercializadas pelos produtores por estarem fora dos padrões estéticos exigidos. As chamadas "frutas feias" também já fizeram novos modelos de negócio surgirem no Brasil, como o Fruta Imperfeita, um sistema de entrega em domicílio de frutas, legumes e verduras não comercializados pelos pequenos produtores ao varejo tradicional. 

As soluções delineadas na Holanda envolvem centros de pesquisa, agroindústrias e o varejo de alimentos. A rede supermercadista Jumbo abraçou a ideia e criou uma sessão para comercializar os produtos upcycled. A aceitação dos consumidores aos novos produtos surpreendeu positivamente e a rede já pensa em ampliar a iniciativa lançada em março de 2018. 

A parceria de Wageningen com a indústria e o varejo faz parte do plano United Against Food Waste, iniciativa holandesa para acelerar o alcance da meta 12.3 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que prevê reduzir pela metade o desperdício de alimentos até 2030. Em vez de punir varejistas que desperdiçam alimentos, as ações holandesas estão mais direcionadas para aproximar os elos da cadeia agroalimentar na busca de soluções conjuntas. 

Nesse aspecto, o Brasil pode seguir caminho semelhante. A pesquisa agropecuária deve aproximar-se do setor produtivo e adotar uma visão mais sistêmica de cadeia agroalimentar, na qual o varejo de alimentos pode ser o elo para aproximar o consumidor urbano das tecnologias desenvolvidas nos centros de pesquisa. Precisamos ainda vencer o desafio de criar mecanismos de fomento às cooperativas de produtores rurais e agroindústrias. Produzir no Brasil é caro e, sem superar alguns entraves inerentes ao custo Brasil, seguiremos fortes apenas como grandes produtores de commodities, mas de baixo valor agregado. 

Para uma iniciativa de upcycling ter sucesso no setor de alimentos, não basta a pesquisa encontrar soluções para o excedente do processo produtivo e transformá-lo em produtos diferenciados. O consumidor precisa perceber a autenticidade dos produtos e o porquê de serem sustentáveis. 

Comunicar a sustentabilidade, contar boas histórias e ter embalagens amigáveis completam o ciclo necessário para que os consumidores percebam mais valor agregado aos produtos alimentícios, uma condição para que a indústria e o varejo possam fazer parte do processo de inovação em conjunto com quem desenvolve as tecnologias no início da cadeia produtiva. 

A comunicação também é eixo importante na estratégia de economia circular implementada pela União Europeia e nos planos nacionais alinhados ao ODS 12, de fomento à produção e ao consumo sustentáveis. Sem consumo circular, não há economia circular. E sem comunicação em nível estratégico, não ocorrem as mudanças comportamentais necessárias para construirmos um mundo com menor desperdício e mais justiça social. 

Para saber mais sobre o tema, acesse: 








Por: Gustavo Porpino (P22). Analista da Embrapa e doutor em Marketing pela Fundação Getulio Vargas (FGV/EAESP).

A Sustentabilidade Está na Moda

Foto: David Chao / Flickr / Creative Commons.

Relatório conclui que não é sensato o esforço de reduzir os impactos do modelo linear atual de produção têxtil – extrair, transformar, usar e descartar. O sistema tem de ser regenerativo por meio do design e isso envolve transformações radicais. 

A mensagem contida na Nova Economia dos Têxteis (relatório lançado no Fórum Econômico Mundial de 2018 pela Fundação Ellen McArthur em evento do qual participou a estilista Stella McCartney) traz promissora novidade com relação ao que o mundo corporativo vem fazendo no tema. Em vez de sugerir corretivos localizados aos quais se chegaria gradualmente, o relatório preconiza a mudança para um "sistema inteiramente novo que não pode ser alcançado por meio meramente de mudanças incrementais". E o passo decisivo para a emergência deste novo sistema é o reconhecimento de que é preciso interromper a lógica de se vender cada vez mais roupa. 

Nos últimos 15 anos, dobrou a quantidade de roupa vendida no mundo. Mas o número de vezes que se usa uma roupa caiu 36% neste período. Na China, a queda foi de 70%. E, nos Estados Unidos, a quantidade de vezes que se usa uma roupa é um quarto da média mundial. Estas constatações já seriam graves se viessem apenas de um conjunto de ONGs ou de trabalhos acadêmicos. O notável é que a Nova Economia dos Têxteis tem como financiadores e apoiadores a Fundação C&A, a multinacional sueca H&M (uma das estrelas da fast fashion, que opera em 62 países, com 4,5 mil lojas, empregando 132 mil pessoas), a Nike e a Sustainable Apparel Coalition (da qual fazem parte empresas como Adidas e Benetton). 

O padrão até aqui consagrado na esmagadora maioria das empresas e dos setores é o de aumentar as vendas, fazendo o possível para reduzir ao mínimo os impactos socioambientais da expansão. Claro que é muito melhor fazer este esforço do que não se preocupar com o tema. Mas esta lógica de lenta transformação é incompatível com a magnitude dos problemas criados pelo crescimento econômico e com a urgência de enfrentá-los antes que se atinjam patamares irreversíveis. E é justamente com tal lógica que o relatório da Fundação Ellen McArthur rompe. Esta ruptura se traduz tanto em seu diagnóstico como em suas propostas. 

Mais da metade da oferta de roupas sob o modelo fast fashion é descartada em menos de um ano. Os consumidores jogam fora, só em roupas (que frequentemente são usadas menos de dez vezes), um total de US$ 460 bilhões por ano. Reciclagem? Menos de 1% do material usado para produzir roupa acaba em novas roupas. A reciclagem para finalidades variadas chega no máximo a 13% do total descartado. 

As emissões de gases de efeito estufa resultantes da produção de roupa equivale a tudo que emitem os transportes aéreos e marítimos. Vinte por cento da poluição industrial da água no mundo vem do tingimento e do tratamento de têxteis. Além disso, meio milhão de toneladas de microfibras plásticas desprendidas durante a lavagem de tecidos como poliéster, nylon ou acrílico acabam anualmente nos oceanos. 

Ao ritmo de crescimento atual, a produção triplicaria até 2050 e nada menos que um quarto do orçamento de carbono necessário para que a temperatura global média se mantenha abaixo de 2 graus seria gasto na produção têxtil. A conclusão do relatório é que não é sensato o esforço de reduzir os impactos do modelo linear atual [extrair, transformar, usar e descartar]. A produção têxtil tem de ser regenerativa por design e isso envolve quatro transformações radicais. 

Em primeiro lugar, o desenho dos produtos não pode conter substâncias que em sua produção e em seu uso sejam nocivos ao meio ambiente e à saúde humana – e isso em todas as etapas da cadeia produtiva. A segunda mudança consiste em "transformar a maneira como as roupas são desenhadas, vendidas e usadas" para que elas passem a ser consideradas como bens duráveis e não como produtos descartáveis. Trocas e aluguel de roupas podem tornar-se negócios prósperos e a durabilidade tem que se tornar um valor propagandeado pelas próprias indústrias. 

O terceiro ponto é melhorar a reciclagem para que o setor possa capturar o valor dos materiais dos produtos não mais utilizados. Isso exige mudança nos modelos de negócios e melhorias tecnológicas nos vários tipos de reciclagem. Por fim, o relatório preconiza que as matérias-primas (cujo uso deve ser reduzido em função deste novo modelo) venham de fontes renováveis. 

Não há qualquer garantia de que o pequeno (mas expressivo) grupo empresarial reunido no apoio a estas propostas consiga alterar os rumos do setor têxtil global. O importante é a inspiração que o trabalho da Fundação Ellen McArthur oferece. Este mesmo raciocínio tem que se ampliar para o setor agroalimentar, para os transportes – em suma, para toda a produção social. Produzir cada vez mais sob o pretexto de que há necessidades a serem preenchidas não passa de cortina de fumaça sob a qual se esconde um modelo destrutivo e com o qual não podemos mais conviver.

Por: Ricardo Abramovay. Professor titular do Departamento de Economia da FEA-USP, autor do livro Muito Além da Economia Verde e coautor de Lixo Zero: Gestão de Resíduos Sólidos Para Uma Sociedade Mais Próspera.

Ártico é Ralo Global de Lixo Plástico, dizem cientistas alemães

Gelo marinho no Ártico. Foto: S. Hendricks/Instituto Alfred Wegener.

O Polo Norte frequenta o imaginário das pessoas como um lugar selvagem, inóspito e inacessível. Pesquisadores alemães acabam de acrescentar mais um adjetivo a essa lista: emporcalhado por lixo plástico. Eles descobriram que o gelo marinho em todo o Ártico contém concentrações de microplásticos três vezes maiores do que se imaginava. E parte desse lixo está sendo cuspida de volta ao mar à medida que o gelo derrete por conta da mudança climática. 

A lista é extensa: por ali existe PET de garrafas, polietileno e polipropileno de embalagens, EVA, PVC de origens diversas, acetato de celulose de bitucas de cigarro, poliéster de tecidos e muito, muito acrílico de verniz de navios e nylon de redes de pesca. Cada litro de gelo marinho contém 12 mil partículas microscópicas dos resíduos da nossa civilização industrial, que foram parar no oceano mais isolado da Terra

A presença de plástico degradado no mar polar é conhecida pelo menos desde o começo da década. Este jornalista testemunhou uma das primeiras detecções de microplásticos em 2011 no mar de Barents, entre a Noruega e a Groenlândia, feita por uma pesquisadora britânica de carona num navio do Greenpeace. A dimensão do problema e o papel do Oceano Ártico no "ciclo do plástico" oceânico, porém, permanecem desconhecidos. Um pouco menos agora. 

Num estudo publicado em 24/04/2018 no periódico Nature Communications [Arctic Sea Ice is an Important Temporal Sink and Means of Transport for Microplastic], o grupo de Ilka Peeken, do Instituto Alfred Wegener, sugere que o Oceano Ártico é uma espécie de "ralo" para parte das 8 milhões de toneladas de plásticos que a humanidade despeja todo ano no mar. Os resíduos são levados das grandes cidades pelos rios e pelo esgoto até o oceano, e transportados por correntes marinhas até lugares como a Mancha de Lixo do Pacífico, uma região contaminada três vezes maior que a França

No mar o plástico é degradado pela água e pela luz do sol e se quebra em pedacinhos muito, muito pequenos. É o chamado microplástico, que consiste em partículas com milésimos de milímetro de diâmetro e cujos efeitos sobre a biodiversidade marinha e a saúde das pessoas ainda não são conhecidos. Campanhas vêm sendo feitas nos últimos anos, especialmente na Europa, para banir o uso de plásticos descartáveis justamente por causa de seu impacto no mar. 

Apesar da quantidade colossal de plástico que entra no oceano, os cientistas só conhecem o destino de 1% desse lixo. Peeken e colegas sugerem que parte dele está sendo empurrada para o Ártico e armazenada no gelo, ao menos por alguns anos. 

Os pesquisadores coletaram amostras de gelo de cinco regiões diferentes do Ártico, em expedições do quebra-gelo alemão Polarstern entre 2014 e 2015. Elas foram comparadas a amostras coletadas em 2005 e 2010. 

A quantidade, a variedade e a onipresença de microplásticos no gelo marinho sugere que o lixo está penetrando o Polo Norte por meio de correntes no estreito de Bering, no setor do Pacífico, e no estreito de Fram, no setor do Atlântico. As primeiras podem estar carregando resíduos da Grande Mancha de Lixo do Pacífico diretamente para o domínio dos ursos polares. 

"Ninguém sabe ao certo quão danosas essas micropartículas são para a vida marinha ou, em última análise, para os seres humanos", afirmou Peeken em comunicado do Instituto Alfred Wegener

Depois de passar alguns anos estocado no gelo e circulando pelo Ártico, o microplástico é empurrado pelas correntes para o estreito de Fram, no leste da Groenlândia, para onde escoa boa parte do gelo marinho que derrete no verão. Com a aceleração do degelo, esse "reservatório" global de microplástico devolve o lixo ao mar cada vez mais rápido. 

Mas não é só isso: analisando a concentração de partículas e seu tipo no setor atlântico do oceano Ártico, os cientistas também inferem que o aumento das atividades humanas na região – como pesca, transporte marítimo e exploração de óleo e gás –, que vêm sendo facilitadas nos últimos anos pelo degelo, também está contribuindo para a sujeira. "A alta concentração no gelo marinho não pode ser atribuída somente a fontes de fora do Oceano Ártico. Elas também apontam para poluição local", diz a oceanógrafa.

Por: Claudio Angelo (Observatório do Clima).

6 Tendências de Sustentabilidade Para Pequenos Negócios

Estudo do Sebrae apresenta seis tendências alinhadas com a Agenda 2030 da ONU, que podem gerar lucro para micro e pequenas empresas brasileiras. As seis tendências são:

• Empreendedorismo como propósito; 

• Diversidade como vantagem competitiva; 

• Inovação e tecnologia em favor de negócios mais sustentáveis; 

• Economia colaborativa como fonte de crescimento; 

• Economia circular como oportunidade de negócio; 

• Cidades sustentáveis, ambientes para o empreendedorismo. 

Contribuir com os empreendedores que desejam aplicar a Sustentabilidade nos micro e pequenos negócios é o objetivo do livro digital 6 Tendências de Sustentabilidade Para Pequenos Negócios, lançado pelo Centro Sebrae de Sustentabilidade (CSS). 

A pesquisa foi desenvolvida por Ricardo Voltolini, consultor em Sustentabilidade Empresarial e presidente da empresa de consultoria Ideia Sustentável

Baixe gratuitamente o livro: https://bit.ly/2HM7BNi

Livro Ajuda a Compreender Economia de Baixo Carbono

Foto: Jacinta Lluch Valero / Flickr.

Reduzir as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera requer um esforço não só das autoridades públicas como também das corporações. Para isso é preciso incentivar as empresas a adotarem a economia de baixo carbono implementando novas tecnologias no processo produtivo. 

Para entender melhor o que é a economia de baixo carbono, os conceitos da Economia Verde e as tendências do mercado para a redução de emissões de gases do efeito estufa, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) lança o livro 4 Passos Para Entender a Economia de Baixo Carbono exclusivamente no formato digital e disponível para download gratuito no site da instituição. 

O livro digital, destinado a empresários, estudantes e estudiosos sobre o tema, é derivado da publicação Estratégia de Desenvolvimento de Baixo Carbono Para o Longo Prazo, também desenvolvida em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (iCS) e disponível no site do CEBDS, que trata de maneira mais profunda o tema, e é voltado para público já iniciado nas questões que envolvem o mercado de carbono. 

Com uma linguagem objetiva, o e-book discorre sobre os acordos mundiais que incentivam a economia de baixo carbono e apresenta exemplos práticos de como o empresariado pode colaborar para uma transição para a Economia Verde

"Precisamos alavancar a economia de baixo carbono no Brasil e, para isso, é necessário que o setor empresarial compreenda que a partir da adoção de métodos mais eficientes na linha de produção e do investimento em tecnologias disruptivas é possível colaborar com o meio ambiente e ao mesmo tempo diminuir custos", diz a presidente do CEBDS, Marina Grossi


Por: Sabrina Rodrigues (O Eco).

Recifes de Corais da Amazônia São Seis Vezes Maiores do que Estimado

Peixes, corais e uma rica variedade de esponjas são apenas algumas das espécies encontradas por pesquisadores no sistema recifal da foz do Rio Amazonas, os 'Corais da Amazônia' (GARS, na sigla em inglês). A região deve ter um tamanho quase seis vezes maior do que inicialmente estimado, compreendendo uma área de 56 mil quilômetros quadrados, de acordo com estudo publicado, em 23/04/2018, pela revista científica Frontiers in Marine Science [Perspectives on the Great Amazon Reef: Extension, Biodiversity, and Threats]. Após a revelação pelo Greenpeace de que o recife de corais se estende até um dos blocos de exploração da empresa Total E&P do Brasil, o Ministério Público Federal (MPF) no Amapá recomendou ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) que negue a licença para a empresa. 

A alta complexidade do fundo e uma grande diversidade de habitats foram registradas no GARS, incluindo estruturas de algas, leitos de rodolitos, que é uma espécie de alga calcária, um tipo de solo chamado de laterita, além de jardins de esponja, coral mole e coral negro. "Uma grande parede de recife foi registrada na plataforma externa do setor central do GARS, com uma altura média de 80m (115m a 195m de profundidade) e uma extensão linear mapeada de pelo menos 12km", afirma o estudo. 

O estudo, desenvolvido por especialistas de universidades federais e instituições científicas brasileiras, além do Greenpeace, aponta que há um imenso corredor de biodiversidade entre o Oceano Atlântico e o Mar do Caribe, com espécies de fauna de ambas as regiões. Os Corais da Amazônia foram encontrados durante expedição científica realizada no passado. 

O texto também destaca que menos de 5% da área do recife foi pesquisada até agora e, por isso, o conhecimento sobre a área ainda é inicial e que explorar petróleo e gás é arriscado ao meio ambiente. "A exploração de petróleo no âmbito do GARS representa sérias ameaças à biodiversidade e sustentabilidade da região e os dados mínimos alcançados até agora indicam que é necessária precaução antes de iniciar qualquer atividade com grande potencial de degradação do recife", indica a pesquisa. 

Os pesquisadores voltaram à região este ano, quando foram captadas as imagens inéditas do setor norte dos Corais da Amazônia, a 135 quilômetros da costa do Oiapoque, no Amapá, e a 90 metros de profundidade. Em 19/04/2018, uma equipe fez um mergulho de 1h30 com um veículo remotamente operado (ROV, na sigla em inglês). A descrição da barreira de corais indica a existência de ecossistema singular, com características ainda não encontradas no planeta. 

O setor norte do recife é o local que recebe a maior influência das águas repletas de sedimentos do Rio Amazonas e o menos estudado pelos cientistas, devido às fortes correntes marinhas na região. "Também é a área mais ameaçada, pois nas suas proximidades estão os blocos que as petrolíferas querem explorar", afirmou o Greenpeace em nota. 

Mapa do sistema recifal da foz do Rio Amazonas. A área cinza denota a área potencial coberta por recifes mesofóticos, de 56 mil km².
Impasse ambiental sobre exploração de petróleo

O Ministério Público Federal (MPF) no Amapá alega que perfurar a área pode "resultar na destruição em larga escala do meio ambiente, configurando ecocídio – crime contra a humanidade sujeito à jurisdição do Tribunal Penal Internacional". Na recomendação, expedida em 18/04/2018, o MPF diz considerar "insuficiente o Estudo de Impacto Ambiental (EIA)" na região onde foram identificados recifes de corais e ecossistema ainda desconhecido. Em nota, o órgão afirma que, no caso de a recomendação não ser atendida, pode adotar medidas judiciais cabíveis, "com a finalidade de corrigir as eventuais ilegalidades constatadas." 

O Ibama afirma que tem conhecimento das informações técnicas do Greenpeace relacionadas ao sistema recifal da foz do Rio Amazonas (“Corais da Amazônia”), que foram anexadas ao processo de licenciamento ambiental em curso. O órgão ressalta que uma equipe técnica deve avaliar o documento e só deve se manifestar após a conclusão de todas as análises, assim como sobre a recomendação do MPF

Também por meio de nota, a empresa Total E&P do Brasil esclareceu que adquiriu cinco blocos em águas ultraprofundas na Bacia de Foz do Amazonas em 2013, na 11ª Rodada organizada pelo governo brasileiro e pela Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP). "A Total tem um programa inicial de perfuração de dois poços exploratórios situados em águas ultra profundas (entre 1.800m e 2.500m)." Afirmou também que o processo de licenciamento ambiental para perfuração de poços nos blocos operados pela empresa na Bacia da Foz do Amazonas está em andamento.

Por: Jacqueline Saraiva (Correio Braziliense).

Cientistas Desenvolvem Enzima Que "Come" Plástico

Enzima descoberta acidentalmente poderá facilitar reciclagem de plástico. Pesquisadores produzem por acidente proteína capaz de degradar plásticos PET e que pode ajudar a reduzir poluição causada pelo material. Mais de oito milhões de toneladas de plástico são despejadas nos oceanos por ano. 

Pesquisadores nos Estados Unidos e no Reino Unido produziram por acidente uma enzima que consome plásticos, revelou um estudo divulgado em 16/04/2018. A descoberta poderá ajudar a reduzir o grave problema da poluição causada pelo produto derivado do petróleo. 

Cientistas da Universidade de Portsmouth e do Laboratório de Energias Renováveis do Departamento de Energia dos EUA decidiram concentrar seus esforços numa bactéria de ocorrência natural descoberta no Japão há alguns anos. 

Pesquisadores japoneses acreditam que a bactéria Ideonella sakaiensis se desenvolveu nas últimas décadas num centro de reciclagem, uma que vez até os anos 1940 o plástico ainda não tinha sido inventado. O organismo parece se alimentar exclusivamente de um tipo de plástico conhecido como Politereftalato de etileno (PET), amplamente utilizado na fabricação de garrafas. 

Os cientistas buscavam compreender o funcionamento de uma das enzimas dessa bactéria, denominada PETase, analisando sua estrutura. "Eles acabaram avançando um passo à frente e acidentalmente desenvolveram uma enzima que consegue desmembrar ainda melhor os plásticos PET", afirma o relatório divulgado na publicação científica americana Procedimentos da Academia Nacional de Ciências (PNAS)

Utilizando um raio-X de brilho dez bilhões de vezes mais forte do que o Sol, eles conseguiram elaborar um modelo tridimensional de alta resolução da enzima. 

Cientistas da Universidade de Campinas (Unicamp) e da Universidade do Sul da Flórida desenvolveram através de computadores um modelo que demonstrava que a PETase era bastante semelhante a outra enzima, a cutinase, encontrada em fungos e bactérias. 

Uma área da PETase, porém, apresentava algumas diferenças, levando os cientistas a deduzir que esta seria a parte que permitiria a degradação do plástico. Ao modificar essa enzima, tornando-a mais semelhante à cutinase, os pesquisadores descobriram acidentalmente que a enzima mutante conseguia degradar o plástico com eficácia ainda maior do que a PETase

Os cientistas trabalham agora em melhorias nessa enzima, para que possa, no futuro, ser desenvolvida em grande escala e utilizada no setor industrial. O objetivo ao quebrar o plástico em partes menores seria permitir que ele seja reutilizado de maneira mais eficiente. 

"O acaso muitas vezes tem um papel significativo na pesquisa científica fundamental, e nossa descoberta não é exceção", afirmou o autor do estudo, o professor John McGeehan, da Faculdade de Ciências Biológicas de Portsmouth

"Ainda que modesta, a descoberta inesperada sugere que há espaço para desenvolver ainda mais essas enzimas, nos aproximando de uma solução para reciclar as montanhas de dejetos de plástico que não param de crescer", observou. 

Mais de oito milhões de toneladas de plástico são despejadas anualmente nos oceanos, enquanto aumenta a preocupação com os problemas causados à saúde humana e ao meio ambiente. Apesar dos esforços globais para reciclar essa matéria-prima, a maior parte dos produtos plásticos sobrevive durante centenas de anos.

Fonte: Deutsche Welle.

A Sociedade Residual (Do Que Você Precisa Realmente?)

Wall-E - personagem do filme homônimo - ilustra a degradação ambiental como resultado de décadas de consumismo em massa, tendo ele a missão de coletar vários artefatos do lixo em um planeta tóxico. © 2008 - Pixar Animation Studios / Walt Disney Studios Motion Pictures.

O Brasil teve um enorme crescimento populacional desde a realização da Copa do Mundo da FIFA em 1970, quando ainda éramos 94 milhões de torcedores vivendo sob a batuta de um regime de exceção, época em que a seleção canarinho conquistou o tricampeonato no México e o mundo era dividido entre os blocos comunista e capitalista. Hoje somos mais de 204 milhões de brasileiros, geramos 215 toneladas de resíduos sólidos urbanos diariamente ou 78 milhões de toneladas por ano - de acordo com dados demográficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e dados sobre resíduos sólidos da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE). 

Os costumes, as ações e as atividades humanas ao longo do tempo muito contribuíram para a contaminação dos solos e dos corpos hídricos e para a poluição atmosférica por falta de planejamento - ou ineficiência deste para gerenciamento adequado de resíduos - frente à explosão demográfica  e à expansão das cidades em todo o planeta [de 2 bilhões de pessoas em 1927 para 7 bilhões de pessoas em 2012]. O impacto das escolhas e dos atos de cada indivíduo e o que isso pode acarretar é algo que merece um olhar atento e crítico à luz do nosso tempo.

As premissas da Sustentabilidade (o equilíbrio para atender ao desenvolvimento econômico, social e ambiental) - tão importantes para a coexistência e a equidade - começaram a ser percebidas a partir do momento em que sinais de graves alterações nas esferas ecológicas (atmosfera, hidrosfera, litosfera e biosfera) tornaram-se mais claros e evidentes, despertando globalmente uma consciência voltada para a preservação do meio ambiente, do uso sustentável dos recursos naturais e da proteção da dignidade humana. Investir em educação e capacitação das pessoas para a vida é um recurso louvável que só traz solução para compreender e tratar problemas de origem antrópica.

Diante dessa realidade é que se faz necessária a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos que consumimos - da extração da matéria-prima, passando pela produção até a última etapa do seu descarte - e um dos instrumentos mais eficazes para enfrentar desafios no século XXI é a logística reversa - "conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final ambientalmente adequada" (SINIR). 

Sancionada em 2 de agosto de 2010, a lei número 12.305 instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos que incorporou conceitos modernos à gestão ambiental e tem como objetivos:

 A não geração, redução, reutilização, reciclagem e tratamento de resíduos sólidos;

 A disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos;

 A racionalização do uso dos recursos naturais (água, energia, insumos) no processo de produção de novos produtos;

A intensificação das ações de educação ambiental;

 O aumento da reciclagem de materiais no Brasil;

 A promoção da inclusão social;

 A geração de emprego e renda para catadores de materiais recicláveis.

Tais diretrizes, notadamente, orientam boas práticas socioambientais ao Poder Público, à iniciativa privada e também aos cidadãos.  

E aí vem a urgência de uma pergunta emblemática carregada de valores subjetivos..., do que você precisa realmente??? Enfatizar esse questionamento provoca uma profunda reflexão acerca do poder de consumo individual que somado a milhões de outros tende a elevar uma determinada região à condição de próspera e, consequentemente, maior será a sua capacidade de gerar os mais variados tipos de resíduos cuja origem pode ser domiciliar, de limpeza urbana, de estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços, de serviços públicos de saneamento básico, industriais, de serviços de saúde, da construção civil, agrossilvopastoris, de serviços de transportes e de mineração. 

O aumento da expectativa de vida da humanidade está diretamente relacionado aos progressos da ciência e aos avanços da tecnologia, algo providencial, mas na contramão da qualidade de vida que se adquiriu, pelos esforços e pela genialidade de inúmeras mentes brilhantes, o padrão alcançado pelo consumismo e a demasiada exploração dos ecossistemas pende um dos lados da balança, o que já causa danos irreparáveis em 75% da superfície terrestre, número que deve chegar a 90% em 2050 - segundo a Plataforma Intergovernamental Sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos.

Pensar e propor mudanças de paradigmas em benefício da coletividade muitas vezes chocam-se com resistências culturais ou ceticismo, ainda que se apresente justificativas embasadas por estudos e evidências científicas, fato é que gerenciar a sustentação da quantidade exponencial de bens duráveis e descartáveis produzidos em escala planetária dependerá da adoção da economia circular em todos os níveis da sociedade, onde haja programas de incentivo à reciclagem e coleta seletiva de materiais.

Prudente esclarecer que, do ponto de vista técnico, resíduos sólidos reversos são materiais residuais reaproveitáveis que devem ser destinados a processos de reuso, reciclagem [de papéis, plásticos, metais, vidros], compostagem [restos de alimentos] ou geração de energia; rejeitos ou lixos englobam os materiais residuais sem possibilidade de reaproveitamento e que devem receber disposição final ambientalmente adequada em aterros sanitários.

A agenda a se cumprir a partir desse entendimento é promover intensamente a cultura do não desperdício [Brasil desperdiça 40 mil toneladas de alimentos por dia] e fazer entender que o acúmulo das coisas deixadas pelo rastro da compulsão consumista é um caso sério e não uma mera causa, pois entope bueiros e galerias pluviais e super lotam vazadouros a céu aberto.

Da sociedade residual, ainda resta um pouco de esperança ou sobram boas intenções que precisam traduzir-se em ações efetivamente ostensivas face à degradação ambiental que acomete sem nenhuma distinção qualquer ser humano. Porque se quisermos concentrar esforços trabalhando estrategicamente para uma economia de baixo carbono [baseada na redução das emissões de CO2 na atmosfera através da produção mais limpa de bens e serviços], teremos que redefinir o nosso papel no mundo e a pressão que exercemos sobre as fontes de recursos de toda natureza em favor do clima, da água e da segurança alimentar a fim de conter conflitos entre povos e crises migratórias.

Considerando que a renovação de certos recursos não acompanha a curta perspectiva de vida humana em razão da extração desmedida, o caráter imediatista dos hábitos de consumo - seja nos países desenvolvidos ou nos países em desenvolvimento - segue a lógica da "liquidação enquanto há promoção", mas nenhum poder aquisitivo será suficiente o bastante para restaurar ou compensar o capital natural quando este colapsar.



Referência

• FIGUEIRA, Ana Cecília Bulhões. Gerenciamento de resíduos sólidos. Rio de Janeiro: SESES, 2016.



Por: Gustavo Nobio. O autor é técnico em Meio Ambiente formado pela FUNCEFET (RJ) e voluntarioso promotor da Sustentabilidade; articulista, comunicador ambiental e fundador do site SenhorEco.org.