Translate / Traduzir

Como As Videiras Contam A História do Aquecimento Recente

Os vinicultores da Europa mantêm um registro cuidadoso das datas das colheitas há séculos. Atualmente, as uvas para vinho são colhidas algumas semanas mais cedo do que no passado. 

O verão de 1540 foi extremamente quente nas colinas cobertas de videiras da Borgonha, França — tão quente que era “quase insuportável”, segundo um relato escrito da época. 

Na verdade, o verão foi intenso em toda a Europa naquele ano. Nos Alpes, as geleiras derreteram, avançando sobre vales escarpados. Foram observadas queimadas da França à Polônia. E, na região vinícola do centro da França, as uvas murchavam até se transformarem em passas na videira, tão doces que o vinho produzido ficava com aspecto meloso e excessivamente alcoólico. 

Normalmente, os produtores de vinho colhiam as uvas no final de setembro ou início de outubro. Mas, naquele ano, eles precisaram se apressar para colher uvas excessivamente maduras semanas antes do previsto. 

Agora, registros de quase 700 anos com datas das colheitas realizadas na cidade de Beaune, na Borgonha, mostram que as colheitas antecipadas, como a de 1540, já são algo normal devido às mudanças climáticas. Cientistas e historiadores compilaram registros das datas de colheitas de uvas que remontam a 1354. Eles descobriram que a temperatura do ar aqueceu tanto — especialmente nos últimos 30 anos — que atualmente as uvas são colhidas com quase duas semanas de antecedência do padrão histórico. 

“Podemos ver claramente a reação das uvas ao aumento de temperatura”, diz Thomas Labbé, historiador da Universidade de Leipzig. E essa reação está mudando o próprio vinho. 

A história do vinho é a história do clima 

Na Borgonha, o vinho faz parte da cultura. As uvas pinot noir e chardonnay que dão fama à região são cultivadas lá e se adaptam às precisas condições climáticas do local há séculos. 

Os vinicultores conhecem intimamente os estágios de crescimento: a aparência das videiras antes de surgirem os primeiros brotos; a aparência das videiras à medida que se desenvolvem por longas temporadas; e o aspecto polpudo, doce e perfumado das uvas quando estão prontas para serem transformadas em vinho. 

O momento da colheita é crucial. Se ficarem tempo demais na videira, as uvas ficam com muito açúcar, o que significa que o vinho será mais alcoólico — deixando de apresentar a sutil sensação que a maioria dos vinicultores da região gosta. Com a colheita tardia, os ácidos que dão ao vinho parte da sensação que ele provoca na boca podem se desintegrar. Se colhidas antes, as uvas podem não ter desenvolvido o equilíbrio correto entre as substâncias que conferem aroma e dão ao vinho seu sabor característico. 

Os vinicultores monitoram cuidadosamente as datas da colheita, com alguns registros que remontam à Idade Média. Nos anos 1800, cientistas e historiadores perceberam que esses detalhados registros poderiam ser usados para monitorar as mudanças climáticas em diferentes partes da Europa ao longo do tempo. 

“Os registros das datas de colheita das uvas são os registros fenológicos mais longos da Europa”, diz Elizabeth Wolkovich, bióloga da Universidade da Colúmbia Britânica que estuda as relações entre vinho e clima. “Temos centenas de anos de registros sobre as temperaturas no verão e podemos usá-los como termômetro.” 

As datas de colheita das uvas refletem a temperatura a que as uvas foram submetidas ao longo da época de desenvolvimento, por volta de abril até a colheita. Se a primavera e o verão forem quentes, as uvas amadurecem mais rapidamente e precisam ser colhidas antes. Se essas estações forem mais frias, ocorre o oposto. 

Historiadores do clima começaram a reunir informações antigas de outras fontes também. Eles relacionaram os padrões observados nas colheitas de uva com os registros feitos a partir dos anéis das árvores e o comprimento das geleiras nos Alpes. Foram esses tipos de registros que eles utilizaram para descobrir que grande parte da Europa Central ficou mais quente durante o Período Quente Medieval, entre 900 e 1300. A região havia resfriado durante a Pequena Era do Gelo, entre os séculos 15 e 19. 

Os historiadores observaram que, nos últimos cem anos, as temperaturas oscilaram, atingindo temperaturas mais altas em curtos períodos e mais baixas em outros. Mas, em geral, o clima oscilava em torno de um valor médio bastante consistente — até recentemente. 

As videiras contam a história do aquecimento recente 

Um dos arquivos mais longos e mais completos que os historiadores conseguiram encontrar era de Dijon, próximo ao centro da distinta região produtora de vinho da Borgonha. Mas quase todos os vinhedos próximos à cidade desapareceram nos anos 1800, quando a cidade se expandiu — o que significa que os registros não alcançaram a era moderna. 

Mas em Beaune, uma cidade a 43,4 quilômetros ao sul de Dijon, a maioria dos vinhedos que já cobriam as colinas locais há centenas de anos ainda produzia vinho ativamente. E a cidade tinha arquivos com inúmeros registros históricos, assim como Dijon. 

Então, Labbé e seus colegas intensificaram as investigações. Para o período mais antigo, encontraram delicados livros com folhas de pergaminho dos anos 1300 da igreja de Notre Dame em Beaune. A igreja possuía um pequeno terreno no qual cultivava uvas para vinho e produzia um vinho de tão boa qualidade que o vendia a comerciantes, que então o forneciam ao rei.

Todos os anos, alguém da igreja registrava detalhadamente a data em que os trabalhadores eram enviados ao campo para colher as uvas — e essa data dependia das condições climáticas do ano. Os pesquisadores analisaram páginas do manuscrito em latim e extraíram a data da colheita, ano a ano. Para a última parte do registro, eles vasculharam anotações de reuniões da câmara municipal e arquivos de jornais, reunindo uma história quase contínua que se estendeu de 1354 a 2018. 

O que eles encontraram foi um rigoroso registro das mudanças climáticas. Durante a Idade Média e posteriormente, os registros mostram curtos períodos de calor e ocasionalmente anos superquentes, como 1540. Mas desde o final da década de 1980, o calor aumentou. Somente nos últimos 16 anos, oito estavam entre as datas de colheita mais precoces já registradas. 

Isso se alinha com as experiências dos enólogos da região. Aubert de Villaine, um dos diretores do célebre Domaine de la Romanée-Conti, trabalha com vinhos desde 1965. Ele afirma que as condições atuais nunca foram registradas antes: os últimos 30 anos foram completamente diferentes de sua experiência inicial. 

“Nós, vinicultores, estamos na linha de frente do monitoramento do clima”, afirma ele. “As flutuações que temos hoje são mais significativas do que nunca.” 

Nathalie Oudin produz chardonnay nos vinhedos que sua família possui há décadas. A colheita costumava cair no aniversário de seu pai — 28 de setembro —, mas agora a agitação da colheita e toda a organização e limpeza terminam antes da festa de aniversário dele, duas a três semanas mais cedo do que na época em que o avô costumava fazer o vinho, explica ela. 

Para salvar o vinho, salve o planeta

Por enquanto, as temperaturas mais quentes não estão prejudicando os produtores de Borgonha. Na verdade, diz de Villaine, os últimos anos de calor resultaram em algumas das melhores safras da história recente. Mesmo este ano, durante a onda de calor que atingiu temperaturas acima de 37ºC em toda a França, as videiras da Borgonha sobreviveram, protegidas pelo habitat em altas colinas e pela posição latitudinal. 

Mais ao sul, os efeitos do calor foram menos benéficos. Neste verão, nas cidades do sudoeste da França, as folhas de uva queimaram na videira e as frutas secaram sob demasiado estresse. 

Esse tipo de calor ainda não chegou à Borgonha, mas provavelmente está a caminho, diz Jean-Marc Touzard, cientista do vinho no Instituto Nacional Francês de Pesquisa Agrícola. 

“Podemos prever, com o uso de modelos, as datas da colheita no futuro”, diz ele. “Podemos dizer que em 2050, em muitas regiões vinícolas francesas, a colheita ocorrerá por volta de 15 de agosto, no ápice das altas temperaturas, no meio do verão.” 

Isso afetará, quase que certamente, o sabor e a sensação dos vinhos, e sua intensidade. Conforme as temperaturas em todo o mundo aumentam, o teor alcoólico dos vinhos já subiu de 12% na década de 1970 para 14% hoje, embora esse número varie de região para região. Parte disso, porém, está relacionada à preferência do produtor, diz Greg Jones, especialista em viticultura e cientista da Linfield College, mas a outra parte ocorre porque as uvas estão amadurecendo mais rapidamente no calor. Quanto mais açúcar elas acumulam, mais é convertido em álcool durante o processo de produção. 

“Se as temperaturas estão muito altas, a quantidade de açúcar também aumenta e a acidez diminui”, diz Oudin. “Por aqui, não gostamos muito das uvas chardonnay muito pesadas, doces e maduras — queremos mantê-las frescas. E isso é mais difícil com os verões mais quentes.” 

As icônicas pinot noir e chardonnay da Borgonha ainda estão ilesas, por enquanto. Mas o futuro está muito mais incerto. 

“Estamos no campo lidando com o solo todos os dias, realizando um manejo adequado, cuidando de tudo, fazendo o que podemos para produzir o nosso vinho. Mas o clima, essa é uma parte do nosso vinho que não podemos controlar. Mesmo se fizermos tudo certo, não podemos controlar esse aspecto”, diz Oudin.

Por: Alejandro Borunda (National Geographic).

Sucessão de Falhas, Omissão e Jogo de Empurra Deixam População no Escuro Sobre Presença de Agrotóxicos na Água

Mesmo em casos de cidades que burlam a lei ao não enviar dados sobre pesticidas ou que não agem quando resultado sugere contaminação, não houve punições nem medidas para resolver o problema. 
Ilustração: Beto Uechi/Pingado.

Não importa em qual parte do país você mora: pode ser difícil ou mesmo impossível saber se o copo de água que você está bebendo tem ou não agrotóxico e, pior, se a concentração do pesticida está acima do limite considerado seguro no Brasil

O problema veio à tona após a publicação, pela Repórter Brasil e Agência Pública em parceria com a organização suíça Public Eye, da reportagem Coquetel com 27 agrotóxicos foi achado na água de 1 em cada 4 municípios. Nela, um mapa interativo feito com base nos dados do Ministério da Saúde, coletados entre 2014 e 2017, mostrava os pesticidas encontrados nas torneiras do país, destacando quais municípios tinham índices acima do limite considerado seguro. 

O mapa, divulgado em abril deste ano, trouxe pela primeira vez os dados nacionais de forma clara, de modo que o público não especializado pudesse entender. A publicação gerou grande repercussão, com mais de 400 veículos de mídia discutindo os resultados de suas cidades. Além do grande interesse público sobre esses dados, a repercussão revelou também que há uma série de falhas no monitoramento e na responsabilização dos órgãos envolvidos. 

Há cidades, como Brasília e Recife, que descumprem a legislação ao não enviarem ao Ministério da Saúde os resultados dos testes sobre agrotóxicos na água. E outras como Bauru (SP), onde nenhuma providência foi tomada pela Vigilância Ambiental mesmo depois que os dados apontaram concentração de pesticidas na água 160 vezes acima do valor permitido – o que indicaria um risco iminente à população que bebe essa água. Também há empresas de abastecimento que minam a credibilidade do banco de dados ao enviar os resultados dos testes usando parâmetros diferentes dos estabelecidos pelo Ministério da Saúde, caso de São Carlos (SP), Porto Alegre (RS), Viçosa (MG) e Balneário Camboriú (SC). 

"É um ambiente de desregulação total", afirma o procurador do Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul, Marco Antonio Delfino de Almeida, sobre a estrutura que gira em torno do Sisagua, o sistema criado pelo Ministério da Saúde para armazenar dados sobre a água e que funciona com o preceito de que a responsabilidade de alimentá-lo corretamente é dividida entre União, estados, municípios e empresas de abastecimento. "Deveria ser papel do poder público analisar, avaliar e trazer esses dados para população de maneira ampla, irrestrita e transparente. Mas isso não acontece". 

Almeida chama atenção para a gravidade de situações em que, mesmo quando os testes não foram enviados ou os resultados indicavam concentração perigosa à saúde humana, não houve fiscalização, cobrança por providências ou penalidades. 

No escuro

Casos analisados pela reportagem, em diferentes partes do país, ilustram como uma série de omissões vem deixando a população no escuro quanto à presença de agrotóxicos na água que sai de sua torneira, colocando em risco a saúde das pessoas. 

Brasília e Recife, por exemplo, representam um problema que atinge 52% dos municípios brasileiros: os resultados dos testes de 2014 a 2017 não foram enviados ao Ministério da Saúde. Isso significa que os responsáveis não realizaram os testes para medir a presença de agrotóxico na água ou, se fizeram, não enviaram os dados para o Sisagua

"Antes mesmo da divulgação da reportagem, cobramos a inclusão dos números, mas eles não cumpriram", explicou João Suender, da Vigilância Ambiental da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, explicando que a responsabilidade pela coleta e envio dos dados ao Sisagua é da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb). A Caesb confirmou que houve "inúmeras dificuldades para repassar algumas informações referentes a agrotóxicos, sobretudo devido à falta de padronização existente". 

Suender argumenta que nada pode ser feito para punir a empresa que não envia os dados, já que a regulação do sistema é feita por uma portaria, instrumento que não teria poder de responsabilizar infratores. 

Mas esse argumento é rechaçado pelo professor de Direito Administrativo da Universidade Mackenzie, Cecílio Moreira Pires. Ele explica que a portaria é vinculada à lei 6.437 de 1971, que prevê sanções para infrações. "O problema não é ausência de lei e, sim, de fiscalização e monitoramento do que fazem as empresas de abastecimento. O poder público não possui servidores suficientes e habilitados para exercer essa função", sustenta. 

A situação de Brasília se repete nas regiões Norte e Nordeste – onde o mapa publicado em abril pela reportagem revela um grande vazio de dados, já que a maioria dos municípios não envia informações sobre a presença de pesticidas da água. É o caso de Recife, capital pernambucana. A Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) reconheceu o erro e afirmou "que as análises de agrotóxicos estão disponíveis somente até o ano de 2015" e que está em processo de reforma dos laboratórios. 

Já a Secretaria de Saúde Municipal informou que "há uma orientação do Ministério da Saúde que elege municípios prioritários para monitoramento de agrotóxicos e Recife não entra nessa lista por ter um perfil urbano, além de não possuir manancial de água para abastecimento local que possa sofrer esse tipo de contaminação". De fato, segundo a norma do Sisagua, a Vigilância tem a prerrogativa de priorizar em quais cidades confere os dados, mas precisa garantir que todos os municípios enviem os resultados duas vezes ao ano. A nota afirma ainda que a Vigilância Ambiental não testa os agrotóxicos na água, "a não ser que existam evidências epidemiológicas para esse monitoramento". A secretaria, porém, não esclareceu o que seriam "evidências epidemiológicas" e se alguma vez fez algum teste. 

De acordo com o Mapa da Água, porém, nenhuma cidade pernambucana enviou os testes, como prevê a portaria do Sisagua. A Secretaria de Saúde de Pernambuco, por meio de nota, reconheceu a não inserção dos dados e afirmou que eles "foram analisados e serão inseridos no sistema apesar das amostras de vigilância não terem identificado valores que ultrapassassem o limite máximo referente ao padrão [estabelecido pela legislação brasileira]". 

As omissões e o jogo de empurra de Brasília, Recife e de outras cidades que não monitoram a presença de agrotóxicos na água prejudicam o efetivo controle "porque não há uma avaliação crítica ou uma validação dos dados". É o que sustenta a professora Gisela Umbuzeiro do departamento de toxicologia e genotoxicidade da Unicamp, que conduziu um estudo sobre o Sisagua

"Primeiro, não faz sentido tantos municípios brasileiros não alimentarem o sistema. Depois, mesmo em cidades que armazenam os dados, não existe análise técnica aprofundada do que foi informado", pontua. Segunda a professora, sem validar essas informações, não é possível conhecer as particularidades de cada região – o que ajudaria no monitoramento. "A depender do tipo de cultivo que é plantado numa região, é possível saber qual agrotóxico é mais utilizado e fazer testes mais específicos de acordo com a realidade local". 

O alarme soou, ninguém reagiu

Outro problema grave evidenciado após a publicação do mapa é o dos municípios que registraram concentração de agrotóxicos acima do que é considerado seguro no país. Nesses casos, ações deveriam ser tomadas para averiguar se os dados estão corretos e encaminhar medidas para resolver o problema. Mas nem mesmo nesses casos providências foram tomadas. É o que aconteceu em Bauru, no interior de São Paulo, onde os números do Sisagua indicavam que seis agrotóxicos foram detectados em concentração acima do Valor Máximo Permitido, em diferentes datas entre 2014 e 2017, sendo que dois dos pesticidas (Clorpirifós e o Aldrin) foram encontrados em dois pontos de coletas diferentes na cidade.

A reportagem entrou em contato com os órgãos responsáveis e descobriu que nenhuma ação foi tomada. Das oito irregularidades, quatro foram registradas em pontos de coleta de responsabilidade do DAE (Departamento de Água e Esgoto) e as outras quatro em locais particulares, incluindo um poço (em um instituto de pesquisa local) a cargo da Vigilância Ambiental – ligada à Secretaria Municipal de Saúde. Danielle Depicolli Chiuso, chefe de Seção de Análise de Água do DAE de Bauru, enviou à reportagem os laudos referentes aos pontos que, no Sisagua, mostravam um nível de agrotóxico muito acima do máximo permitido. Nos documentos, no entanto, os índices eram diferentes daqueles enviados ao Sisagua e estavam dentro do autorizado. "Esses laudos mostram que a água de Bauru não estava contaminada e comprovam que apenas houve erro na hora de passar os dados no sistema do Sisagua", afirma Chiuso

O erro citado ficaria na conta da Vigilância, que na época era responsável por inserir no Sisagua os dados coletados pelo DAE. Roldão Puci, chefe de Ações de Meio Ambiente da Divisão de Vigilância Ambiental de Bauru, afirmou que os erros podem ter acontecido durante "um mutirão para digitação dos dados" no Sisagua, mas que não havia como confirmar. 

"O Sisagua é muito pesado, complexo e demorado. Por isso, a gente prefere fazer a checagem no laudo em si. Também é mais simples fazer a conferência in loco do que no Sisagua", afirma Puci

Mas a Vigilância Municipal não apresentou os laudos das coletas de pontos de sua responsabilidade que mostravam água contaminada, como uma realizada em dezembro de 2017 no Instituto Lauro de Souza Lima, em que o agrotóxico Clorpirifós, cujo valor máximo permitido é de 30µg/L (micrograma por litro), mostrava um resultado de 5.000µg/L, um índice que, se fosse verdadeiro, ofereceria riscos imediatos à população de Bauru

Quem, então, deveria vigiar a Vigilância, que não percebeu o problema ou percebeu e não foi atrás? Em qual setor das esferas públicas deveria acender um alerta para checar se esses dados altíssimos seriam erros de digitação ou se, de fato, a água estava com alto grau de contaminação? 

A resposta passa pela Secretaria Estadual já que, segundo a portaria do Ministério da Saúde sobre tema, "compete às Secretarias de Saúde do Estados promover e acompanhar a vigilância da qualidade da água, em articulação com os Municípios e com os responsáveis pelo controle da qualidade da água". 

Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo informou que "a responsabilidade de investigação e análise da qualidade da água é do município e das empresas responsáveis pelo abastecimento. O Estado capacita e orienta as vigilâncias municipais para que a análise de dados seja feita de forma correta". 

Metodologia fora do padrão

Um terceiro grande problema ficou visível quando a publicação do mapa abriu a "caixa-preta" dos agrotóxicos na água: nem todas as empresas seguem corretamente as orientações do Ministério da Saúde para lançar os resultados no sistema. 

Um dos pontos mais delicados foi esclarecido após a divulgação da reportagem, quando algumas empresas de abastecimento reclamaram que estaria errada a interpretação feita pela reportagem – que se baseou na orientação do Ministério da Saúde. O ponto em questão era a leitura de dois códigos: o Limite de Quantificação e o Limite de Detecção. Foram tantos os questionamentos enviados pelas empresas em decorrência da publicação do mapa que, em junho, o Ministério da Saúde convocou uma reunião técnica com representantes das empresas de abastecimento, do Inmetro, dos laboratórios de saúde pública, das Secretarias de Saúde e da Anvisa para elucidar a metodologia para leitura dos dados. 

Algumas empresas alegavam que ao declarar o código "Menor que o Limite de Quantificação" estavam comunicando que não foi possível detectar agrotóxico na água. Mas, segundo Thaís Araújo Cavendish, coordenadora-geral de Vigilância em Saúde Ambiental, o ministério esclareceu que esse resultado na verdade significa que agrotóxicos foram identificados na água, mas em concentrações tão baixas que não puderam ser quantificadas. 

Pode parecer uma conversa técnica de químicos, mas a compreensão correta da metodologia é fundamental para que o sistema de vigilância funcione para monitorar e garantir a qualidade da água. 

Agora, com a esclarecimento da metodologia por parte do Ministério da Saúde, as empresas ou órgãos públicos que interpretavam errado precisarão corrigir os dados daqui para frente e também retroativamente. A pasta informou que deu até o fim do mês de outubro para essa correção acontecer. 

Lista dos 27 ampliada? 

Outra crítica feita ao sistema é a de que os testes buscam apenas 27 ingredientes ativos de agrotóxicos – somente em 2019, o governo aprovou a comercialização de mais de 400 novos produtos agrotóxicos. "É preciso que haja um monitoramento mais amplo, até para se verificar de fato que tipo de agrotóxicos está sendo usado em determinada região", completa a professora Gisela Umbuzeiro, da Unicamp

O Ministério da Saúde estuda aumentar o número de ingredientes que precisam ser testados e os valores de referência. Mas, além da lista mínima fixada em âmbito federal, cada estado deve editar normas complementares à norma nacional a fim de atender às especificidades de seus territórios. Um exemplo é a norma editada pelo Rio Grande do Sul, que estabeleceu a obrigatoriedade do monitoramento de agrotóxicos que não constam na lista nacional, mas que são muito usados nas lavouras gaúchas. Atualmente, o estado testa, além dos 27 exigidos por lei, outros 46 pesticidas na água. 

Especialistas apontam ainda outros problemas que comprometem a credibilidade dos dados armazenados no Sisagua, como a falta de verificação dos dados fornecidos pelas empresas de abastecimento, que podem ser inseridos pelas próprias empresas. 

"Não existe uma avaliação crítica do que é colocado. Se, por um lado, as concessionárias precisam analisar as amostras, por outro é necessário que depois exista a verificação se as normas estão sendo atendidas", reitera Umbuzeiro

O procurador Almeida aponta ainda um conflito de interesses neste sistema. "Como as próprias empresas que são responsáveis por alimentar o sistema vão registrar a presença de agrotóxicos na sua água?", questiona. 

Cadeia de responsabilidades e penalidades

Segundo o procurador Almeida, todos esses problemas "evidenciam como empresas e órgãos públicos nem sempre cumprem seu papel, o que, na prática, faz com que hoje o Sisagua não funcione efetivamente como ferramenta de verificação". 

Para que a complexa engrenagem funcione, a responsabilização administrativa ou judicial dos órgãos envolvidos deveria começar do local (municipal) para o nacional, segundo Marco Antonio Ghannage Barbosa, Procurador do Ministério Público Federal. Ou seja, primeiro, cobra-se das instâncias municipais (empresas de fornecimento e da vigilância sanitária); depois, das estaduais (Secretaria do Meio Ambiente) e, por fim, Ministério da Saúde e Ministério Público Federal podem atuar para cobrar os responsáveis, com sanções que podem variar de advertências a multas e ações indenizatórias. 

Foi esse o caminho trilhado no Mato Grosso do Sul. O procurador Almeida, do Ministério Público, entrou com um pedido na Justiça pedindo que Estado e União garantissem a realização de testes na água de Dourados – por conta da possível relação entre a contaminação da água com o aumento dos casos de câncer na cidade. 

Neste caso, o jogo de empurra está perto do fim: uma sentença determinou em agosto que o governo federal pague uma multa de R$ 90 milhões por descumprimento de uma decisão 2016 que determinava a análise da água consumida pela população. A decisão, da qual ainda cabe recurso, determina que o valor seja usado na construção de um laboratório para que, enfim, os testes sejam realizados. 

Medidas como estas são fundamentais para garantir que os órgãos envolvidos cumpram seu papel, sobretudo em um cenário atual em que o Governo Federal tem ampliado e acelerado o processo de liberação de novos ingredientes ativos de agrotóxicos para uso no país. No entanto, enquanto mais da metade dos municípios brasileiros não realizar os testes definidos em lei, grande parte da população brasileira continuará no escuro sobre a real presença de agrotóxicos nas torneiras da sua cidade.

Por: Luana Rocha e Mariana Della Barba (Repórter Brasil / Agência Pública).

Por Que O Céu É Azul?

Por que o céu é azul? A explicação por trás do fenômeno vem da forma como a luz se espalha pelas moléculas na atmosfera. É a luz azul — que tem o comprimento mais curto — que se espalha mais por essas pequenas partículas, o que leva à coloração azulada que observamos. 

Ao longo da história, muitos cientistas buscaram compreender como a natureza funciona. Diversos pesquisadores se debruçaram sobre as razões por trás de questões bastante elementares, como essa, da coloração do céu. 

Em sua forma mais pura, trata-se apenas disso: do desejo de entender, sem ter como prioridade que as descobertas sejam rentáveis ou aplicáveis amplamente. Essa abordagem dada à ciência se chama "pesquisa motivada pela curiosidade". 

Um dos melhores exemplos de quem seguiu essa linha foi o físico irlandês John Tyndall (1820-1893). Tyndall era um entusiasta de escaladas e passava muito tempo na região dos Alpes. Frequentemente, fazia uma pausa ao entardecer, já que o pôr do sol e sua magnífica gama de cores o deixavam encantado. Por isso, se propôs a compreender o fenômeno e inspirou gerações de cientistas a realizar esse tipo de pesquisa. 

O motivo por trás da beleza 

A curiosidade ilimitada e o interesse pela natureza levaram Tyndall a explorar uma ampla gama de temas e fazer descobertas-chave para a ciência. 

Foi ele quem, por exemplo, demonstrou pela primeira vez que os gases na atmosfera absorviam calor em níveis diferentes. Isso permitiu entender a base molecular do efeito estufa. 

Em busca de respostas para suas perguntas, ele construiu diversos instrumentos para seus experimentos. Alguns deles eram muito sofisticados e requeriam, também, profunda compreensão teórica e destreza. 

Entretanto, quando quis saber por que o céu é azul durante o dia e por que fica avermelhado ao entardecer, os instrumentos usados foram simples. 

Tyndall utilizou um tubo de vidro para simular o céu e uma luz branca para imitar a luz solar. Descobriu que, quando enchia gradualmente o tubo de fumaça, o feixe de luz parecia ser azul em um lado e, no outro extremo, ficava vermelho. 

Assim, ele cogitou que a cor do céu fosse resultado de como a luz do sol se dispersa pelas partículas presentes na atmosfera — o que ficou conhecido como Efeito Tyndall. 

'O céu em uma caixa' 

O procedimento usado por Tyndall começou com um tanque de vidro cheio de água, no qual foram despejadas algumas gotas de leite. 

O leite serviu para introduzir algumas partículas no líquido. Uma vez feita a mistura simples, o cientista acendeu uma luz branca em um dos extremos do tanque. 

Imediatamente, viu que o tanque se iluminava com cores diferentes. O experimento fascinou Tyndall, que descreveu o resultado como "o céu em uma caixa". 

Isso porque, em um lado do tanque, a solução ficou azul. À medida em que se aproximava do outro extremo, ficava mais amarela, até chegar ao laranja, como no entardecer. 

Arco-íris

Tyndall sabia que a luz branca era composta por todas as cores do arco-íris. Pensou que a explicação para o fenômeno, que tanto o deslumbrava, era que a luz azul teria uma maior probabilidade de repelir e dispersar as partículas de leite na água. 

Agora sabemos que isso se deve ao fato de que a luz azul tem um comprimento de onda mais curto que o de outras cores de luz visível. Isso significa que a luz azul é a primeira a se dispersar por todo o líquido. 

É por isso que a parte mais próxima à fonte de luz ficava azulada. E isso também explica por que o céu é azul: porque essa luz tem uma maior probabilidade de se dispersar pela atmosfera. 

Mas o experimento do tanque também explica as outras cores do entardecer. 

O que há por trás do pôr do sol 

À medida em que a luz penetra mais profundamente na água leitosa, todos os comprimentos de onda mais curtos se dispersam. Restam assim apenas os comprimentos de onda mais longa, laranja e vermelho. 

Então, a água fica progressivamente mais alaranjada e, se o tanque for grande o suficiente, vermelha. É o mesmo que ocorre com o céu. 

À medida que o sol se põe, cada vez mais baixo, sua luz tem de viajar por uma camada mais espessa de atmosfera. Com isso, as ondas azuis com comprimentos mais curtos dispersam-se por completo, deixando apenas as luzes laranja e vermelha. Por isso, vemos o céu avermelhado ao entardecer. 

Hoje, sabemos que a luz se dispersa principalmente nas moléculas de ar, em vez de partículas de poeira, como pensava Tyndall. 

Isso é complementado pelo trabalho de John William Strutt, o Lord Rayleigh. 

O trabalho de Lord Rayleigh ajuda a responder a mesma questão — por que o céu é azul — mas descreve o processo de espalhamento em moléculas menores, como as presentes na atmosfera. 

Nesse caso, a luz solar também se espalha pelas partículas, de acordo com o comprimento da onda. A luz azul, com comprimento de onda mais curto, espalha-se mais do que as longas, como a vermelha. Daí vem a coloração azulada do céu. 

Um recipiente e um pouco de poeira 

Entretanto, ainda que sua explicação tenha sido incorreta em tais detalhes, foi certeira em seu princípio. Na verdade, a má interpretação de seus resultados levou Tyndall a fazer sua descoberta mais importante. 

Sendo um cientista curioso, Tyndall decidiu prosseguir e fazer mais experimentos. Então, usou um recipiente com ar e cheio de poeira, e deixou que o pó se acumulasse por dias a fio. Chamou essa amostra, com toda a poeira já assentada, de "ar opticamente puro". 

Logo começou a inserir mais coisas no recipiente, para observar o que acontecia. Primeiramente, colocou um pedaço de carne. Logo em seguida, de peixe. 

Adicionou ainda amostras de sua própria urina. Então, notou algo interessante. Nem a carne e nem o peixe apodreceram, e sua urina não escureceu. Segundo ele, "continuou tão clara quanto um vinho xerez fresco". 

Descoberta por acidente 

O que ele havia criado não era ar livre de qualquer poeira, ou opticamente puro. 

Sem se dar conta, Tyndall havia esterilizado o ambiente. Deixou que todas as bactérias se acumulassem no fundo do recipiente. Em outras palavras, o ar ficou livre de germes. 

Essa não era sua intenção original, mas Tyndall proporcionou evidência decisiva para uma teoria controversa à época: de que a decomposição de materiais e as doenças eram causadas por micróbios presentes no ar. 

Tyndall era um homem que pesquisava exclusivamente pela busca do conhecimento, sem se vincular a um problema específico do mundo real. 

Ele não se propôs a descobrir as origens de doenças transmitidas pelo ar, quando começou a explorar o que estava por trás das cores do céu. Mas foi exatamente isso que ele fez. 

O caso faz com que a expressão em inglês para descrever esse tipo de pesquisa, guiada pela curiosidade, soe bastante apropriada: "blue-sky investigation" ou "investigação de céu azul".

Fonte: BBC News.

Mudanças Climáticas Pioram Rinite Alérgica e Asma, diz estudo

Segundo cientistas, mudança climática faz com que a primavera seja mais longa, aumentando a quantidade de pólen no ar. Alterações na temperatura: fator é responsável pela maior duração da primavera e a piora de doenças respiratórias. 

Além do prejuízo para o meio ambiente, a mudança climática também pode afetar o bem-estar e a saúde individual dos seres humanos. Segundo uma pesquisa realizada por profissionais de diversos países, as mudanças na temperatura mundial podem ter relação com o agravamento de doenças como asma e rinite alérgica – reação que afeta pessoas do mundo inteiro e pode ser causada pelos grãos de pólen, produzidos pelas flores das angiospermas – como trigo, milho e centeio. 

Por enquanto, a pesquisa está se concentrando na Austrália – onde a produção de pólen está em alta, já que o país entrou há pouco tempo na primavera, estação responsável pela suspensão dos grãos no ar. Segundo os pesquisadores, o aumento das temperaturas faz com que a duração do pólen no ar se prolongue, agravando assim doenças respiratórias e alérgicas como a asma ou a rinite, também conhecida em alguns locais por febre do feno. 

Além disso, os autores do estudo também apontaram que houve um aumento de gás carbônico no ar, o que prejudica ainda mais a situação das pessoas que têm as doenças citadas ou outras similares. Paul Beggs, um dos participantes da pesquisa e cientista da Universidade Macquarie, na Austrália, apontou que o país apresenta tipos de pólen mais complexos do que os conhecidos por outros países. "Se você teve uma seca severa em um local específico, esperaria menos pólen e menos crescimento da vegetação. Mas na Austrália vamos de um extremo ao outro, portanto, mesmo que nos mudemos para um clima mais seco em geral, ainda haverá anos particularmente úmidos que precisamos observar", disse Beggs em comentário no estudo. 

De acordo com dados coletados pelos cientistas, a preocupação de que a "estação do pólen" venha a durar cada vez mais do que o esperado está aumentando. Simon Haberle, professor de história natural da Universidade Nacional da Austrália, acrescentou que a maior necessidade agora é descobrir se este evento é algo passageiro ou algo que irá afetar, gradativamente, o ecossistema do país. O professor complementou dizendo que uma opção a curto prazo é o plantio de plantas novas, que não representam ameaça de alergia. "Algumas novas plantas sendo plantadas por pessoas ou migrando no ambiente podem mudar o risco de uma cidade ou área em relação à febre do feno e à asma", disse Haberle

O estudo ainda prevê que o número de pessoas sensíveis ao pólen se duplique nas próximas décadas, caso nenhuma mudança seja feita. O problema de saúde pública, que pode se tornar um problema a nível nacional, já está sendo monitorado em cidades como Sydney, Canberra, Brisbane e no estado da Tasmânia.

Por: Maria Eduarda Cury (Exame).

5 Equívocos Mais Comuns Sobre Mudança Climática, Corrigidos

A ciência da mudança climática é antiga – existe há pelo menos 150 anos – e uma das mais testadas que existe. Apesar disso, por conta de interesses comerciais e políticos, ela é frequentemente contestada e até completamente negada, o que gera diversos equívocos sobre o que está acontecendo com o clima da Terra e qual o nosso papel nisso tudo. 

Precisamos urgentemente de medidas que diminuam os efeitos nocivos dos gases de efeito estufa no planeta, e para isso precisamos desmitificar algumas ideias erradas que são espalhadas sobre a mudança climática por aí. Por exemplo: 

O aquecimento é devido a manchas solares e raios cósmicos galácticos 

Raios cósmicos galácticos são um tipo de radiação de alta energia que se origina fora do nosso sistema solar. Foi argumentado que eles ajudam a criar nuvens, e uma redução na frequência dos raios que atingem a Terra significaria menos nuvens, menos luz solar refletida de volta ao espaço e um clima mais quente. 

A ciência, no entanto, descobriu que raios cósmicos não são bons em criar nuvens, e que eles têm na verdade aumentado de frequência nos últimos 50 anos, sem ajudar a esfriar o planeta. 

Já manchas solares, originadas do sol, de fato podem alterar o clima na Terra, mas elas não têm colaborado com o aquecimento do planeta. Satélites que monitoram a atividade solar desde 1978 mostram que não tem havido um aumento de manchas solares atingindo a superfície terrestre, por exemplo. 

O dióxido de carbono é uma pequena parte da atmosfera e não pode ter um grande papel na mudança climática 

Números podem ser enganadores. Parece “senso comum” que uma parte muito pequena de algo não pode ter muito efeito sobre ele, mas este nem sempre é o caso. Por exemplo, é necessário apenas 0,1 grama de cianeto para matar um adulto, o que representa cerca de 0,0001% do seu peso corporal. 

O dióxido de carbono atualmente compõe “apenas” 0,04% da atmosfera, mas é um poderoso gás do efeito estufa. O nitrogênio compõe 78% da atmosfera e é basicamente não reativo. 

Diversos experimentos já mostraram que ar com dióxido de carbono preso em um cilindro esquenta muito mais rápido que ar normal. O primeiro desses testes foi realizado em 1856 pela cientista americana Eunice Newton Foote. 

Cientistas mentem sobre a mudança climática 

Esse tipo de acusação já foi feito várias vezes em diferentes contextos. Cientistas são comumente atacados no que diz respeito a dados sobre clima e meio ambiente. 

Se cientistas estão mentindo sobre a mudança climática, estão fazendo isso muito bem e em uma escala invejável – a conspiração teria que envolver milhares de pessoas em mais de 100 países para dar certo. 

A verdade é que o contrário ocorre – os pesquisadores checam e revalidam seus dados frequentemente. Por exemplo, eles precisam levar em conta as alterações na forma de medir o clima durante o passar dos anos, além de levar em conta como as cidades se expandiram e estações meteorológicas se tornaram mais comuns, para chegar a dados mais precisos. 

Se não fizessem essas checagens às suas medições iniciais, então o aquecimento da Terra pareceria ainda pior do que realmente é – no momento, de um grau Celsius globalmente. 

Os modelos climáticos não são precisos e não podemos confiar neles 

Claro, existem muitos modelos diferentes e nenhum deve ser considerado o correto, pois eles representam, em conjunto, um sistema climático global muito complexo. 

Existem mais de 20 grandes centros internacionais de pesquisa dedicados a compreender tal sistema climático. Os diversos modelos são testados continuamente em relação a dados históricos, bem como a eventos individuais, como grandes erupções vulcânicas. 

Ter tantos modelos diferentes sendo estudados, checados e validados de forma independente significa que podemos confiar neles, sem dúvida, ainda mais porque eles concordam entre si. A escala do aquecimento previsto permaneceu semelhante nos últimos 30 anos, apesar do aumento na complexidade dos modelos, o que indica que tais previsões são resultados científicos robustos. 

Não há nenhuma polêmica ou desacordo. Toda a comunidade científica concorda com os modelos e o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), criado pela Organização das Nações Unidas, tenta resumir e divulgar todos os dados obtidos pela ciência de forma aberta e transparente. 

Não, a mudança climática não é parte de um ciclo natural

Você já deve ter ouvido esse argumento: a Terra esquenta e esfria, passa por diferentes épocas climáticas, é tudo muito normal. Por exemplo, o planeta estaria agora se recuperando de temperaturas mais baixas da última Pequena Idade do Gelo (1300 a 1850), e estaria portanto agora com temperaturas comparáveis às do Período Quente Medieval (900 a 1300). 

Mas não é bem assim. Esses “períodos” climáticos mencionados são regionais, não globais (dizem respeito ao noroeste da Europa, leste da América, Groenlândia e Islândia). O estudo de climas passados – paleoclimatologia –, por outro lado, indica que as mudanças dos últimos 150 anos são globais e excepcionais. Desde a Revolução Industrial, os modelos ditam que um aquecimento como o visto agora pode não ter precedentes nos últimos 5 milhões de anos. 

Uma revisão de 700 registros climáticos apoia esses modelos: nos últimos 2.000 anos, a única época em que o mundo todo mudou de temperatura ao mesmo tempo foi nos últimos 150 anos, quando 98% da superfície terrestre esquentou.

Por: Mark Maslin (The Conversation). Tradução: Natasha Romanzoti (Hypescience).

Aumento do Nível do Mar Acelerou e Já é Incontrolável, advertem especialistas

Imagem aérea de povoado da região de Kivalina, no Alasca, ameaçado pelo aumento do nível do mar. Foto: Joe Raedle (AFP).

É incontrolável e está se acelerando. O aumento do nível do mar disparou por causa do degelo nos extremos norte e sul do planeta, conclui o IPCC, o painel de cientistas que, sob o guarda-chuva da ONU, analisa os impactos da mudança climática geradas pela ação do homem. Os gases de efeito estufa emitidos pelo ser humano até agora fazem que o degelo e o aumento do nível do mar continuem além deste século, conclui o IPCC em um relatório apresentado no dia 25/09/2019 [Special Report on the Ocean and Cryosphere in a Changing Climate]. 

O dilema que esta geração enfrenta agora tem a ver com o tamanho da hipoteca — que também inclui fenômenos meteorológicos extremos mais frequentes, ameaça à segurança alimentar e impactos na biodiversidade — que deixará para as futuras gerações. Que seja uma carga menor, destacam os especialistas, dependerá da rapidez com que a humanidade pare de emitir esses gases que superaquecem o planeta e estão vinculados principalmente aos combustíveis fósseis.

Ao apresentar o relatório, Hoesung Lee, presidente do IPCC, conclamou os países a reduzirem suas emissões de gases, para que os impactos, embora não possam mais ser eliminados, pelo menos sejam atenuados e se tornem "mais manejáveis para as pessoas mais vulneráveis". Porque, como destaca o IPCC, "as pessoas mais expostas e vulneráveis são frequentemente aquelas que contam com menor capacidade de resposta". 

O relatório especial do Painel Intergovernamental para a Mudança Climática sobre o aquecimento e os oceanos é parte de uma série de análises temáticas. Este grupo internacional de especialistas revisa e compila o conhecimento sobre a mudança climática partindo dos estudos científicos publicados. Nesta ocasião participaram mais de 100 autores de 36 países, que revisaram 7.000 publicações. 

"O aumento do nível do mar se acelerou devido ao aumento combinado da perda de gelo das camadas da Groenlândia e da Antártida", conclui o estudo. A perda de gelo na Antártida por causa do aumento da temperatura no período entre 2007 e 2016 triplicou com relação à década anterior; na Groenlândia, duplicou. 

Esse degelo acelerado levou a uma taxa de aumento do nível do mar também mais rápido, até 2,5 vezes mais veloz na última década em relação à média do século passado. Mas as projeções do relatório falam de um problema que se agravará, mesmo que seja cumprido o Acordo de Paris, que determina que o aumento médio da temperatura do planeta não deve superar os dois graus em relação aos níveis pré-industriais.

No cenário mais otimista, com esse limite em dois graus estipulado em Paris, o IPCC prognostica um aumento do nível do mar de 43 centímetros até 2100 (entre 1902 e 2015 foi de 16 centímetros).

No cenário mais adverso, em que as emissões continuem crescendo como até agora, a elevação do nível do mar chegaria a 84 centímetros e poderia superar um metro. Além disso, durante os próximos séculos esse ritmo continuará ganhando velocidade e intensidade. 

A análise destaca os "perigos relacionados ao clima" que ameaçam as populações costeiras: ciclones tropicais, níveis extremos do mar, inundações e perda de gelo. E recorda que nas zonas costeiras baixas vivem atualmente cerca de 10% da população mundial (680 milhões de pessoas). Além disso, 65 milhões de outras pessoas habitam pequenos Estados insulares. E quase outros 10% da população (670 milhões) vivem em regiões de alta montanha, outra das áreas analisadas no relatório. 

Aumento de eventos extremos 

Esses quase 1,5 bilhão de indivíduos estão na zona vermelha dos impactos climáticos relacionados aos oceanos e à água. São impactos que ocorrem, por exemplo, pela combinação do aumento do nível do mar com tormentas ou ciclones. O relatório alerta que até 2050 "os eventos extremos do nível do mar", até agora considerados excepcionais, que costumavam ocorrer uma vez a cada século, irão se tornar habituais e ocorrerão "pelo menos uma vez por ano" em muitos lugares do planeta. "Especialmente em regiões tropicais", embora também em zonas como a mediterrânea. O IPCC prognostica, além disso, uma maior frequência das ondas de calor marítimas e dos eventos extremos do El Niño e La Niña

O estudo analisa também as ações de adaptação (fundamentalmente investimentos) necessárias para enfrentar a elevação do mar, que pode engolir cidades costeiras. E explica que esses investimentos podem ser rentáveis para as áreas urbanas densamente povoadas (Nova York, por exemplo, tem um plano para investir dez bilhões em defesas). Mas é muito difícil que áreas rurais e mais pobres, como os pequenos Estados insulares, possam arcar com isso. 

O problema não é só o aumento do nível do mar. Associados aos fenômenos meteorológicos há também a elevação da temperatura da água – que desde 1970 subiu sem cessar – e outros problemas decorrentes da mudança climática. A análise mostra que durante o século XXI os oceanos alcançarão "condições sem precedentes" pelo aumento da temperatura, uma maior acidificação e a diminuição do oxigênio. Isto terá um impacto, por exemplo, na pesca, o que afetará "os meios de vida e a segurança alimentar" das comunidades que dependem dos recursos marítimos para sobreviver. 

"As populações de peixes se moverão em direção aos polos para localizar suas temperaturas preferidas; isto afetará particularmente os países tropicais em termos de pesca, mas na Europa vimos a cavala e o bacalhau já se afastando para o norte", explica por e-mail o professor de Biologia Alex Rogers, da Universidade de Oxford. "Os peixes também se tornam menores à medida que aumentam as temperaturas", acrescenta esse especialista, referindo-se aos efeitos para a indústria pesqueira. 

Acidificação dos oceanos

Entre 20% e 30% do dióxido de carbono emitido pelo homem foi absorvido pelos oceanos desde 1980, algo que deverá aumentar durante este século. Ao absorver mais CO2 "o oceano experimentou uma crescente acidificação" e ocorreu "uma perda de oxigênio". "A mudança climática está impactando os oceanos não só no aumento do nível do mar", observa Gladys Martínez, membro da Associação Interamericana para a Defesa do Ambiente (AIDA). "O oceano está colapsando, e o tempo está se esgotando para nós", alerta esta especialista, que pede mais atenção também aos efeitos da perda de biodiversidade. O relatório do IPCC observa, por exemplo, o alto risco a algumas espécies e ecossistemas sensíveis, como os corais. 

Impactos nas geleiras

A perda das geleiras também influi no aumento do nível do mar. Mas, além disso, tem consequências além das costas. Essa perda representa, segundo o IPCC, uma alteração da "disponibilidade e qualidade da água doce", que tem implicações na agricultura e na produção de energia hidrelétrica. 

Outro dos fenômenos analisados é o desaparecimento do permafrost (a camada de solo permanentemente congelado) devido ao aquecimento. Os especialistas prognosticam que ele continuará diminuindo, e que isso, por sua vez, permitirá a liberação dos gases do efeito estufa que vinham sendo guardados nesse tipo de terreno. 

Todas estas mudanças longe da costa levarão a um aumento significativo dos incêndios florestais durante o século XXI na maioria das regiões de tundra e boreais, e também em algumas regiões montanhosas, adverte o IPCC.

Por: Manuel Planelles (El País).

Futuro do Consumo: Quais São as Principais Tendências?

Já parou para pensar em como consumimos de forma muito diferente do que as pessoas faziam 10 ou 20 anos atrás? Hoje, no entanto, os hábitos de consumo, ou seja, como compramos produtos e serviços, mudam de acordo com o tempo graças a vários fatores, como a própria cultura e os avanços tecnológicos. E qual é o futuro do consumo? 

Vamos falar sobre o futuro do consumo, para que você possa fazer o seu planejamento financeiro de longo prazo consciente e, mesmo com o mundo de compras mudando, consiga manter um bom nível de qualidade de vida. Ficou interessado? Então continue lendo! 

O que define o consumo? 

Como falamos na introdução, são vários os fatores que implicam na mudança dos hábitos de consumo, que é um processo não só econômico, mas também cultural. Por isso, tentar definir um único motivador para as mudanças que acontecem no mercado é uma tarefa complicada, para não dizer impossível. 

A seguir, listamos os três principais eixos que influenciam a mudança das práticas de consumidores, empresas e até governos: economia, ética e tecnologia. Saiba o papel de cada um na forma como você escolhe os produtos para a sua família. 

Economia 

Foi-se o tempo em que bastava ter um diploma de faculdade para garantir um emprego longevo e renda suficiente para lidar com todos os gastos de uma família. 

A tendência para os próximos anos é que os empregos considerados tradicionais (fixos e duradouros) sejam cada vez mais raros e que grande parte das pessoas precise exercer diferentes atividades, para obter rendas de várias fontes. 

Ou seja, será cada vez mais comum vermos profissionais atuando como freelancers, investindo no próprio negócio ou, ainda, as duas coisas ao mesmo tempo! As carreiras, assim como as jornadas de trabalho, serão cada vez mais flexíveis. 

Se o mercado de trabalho sofre mudanças bruscas, os hábitos de consumo também. Isso explica, por exemplo, por que a economia colaborativa atrai tantos jovens: o consumo via troca de experiências e serviços não apenas cabe no bolso desses compradores, mas também faz parte de sua ética. 

Ética 

Se existe um bom exemplo de pauta que avançou nas últimas décadas é a do ambientalismo. Esforços globais para a tomada de ações contra o buraco na camada de ozônio ou pela preservação de espécies em risco de extinção encontraram apoio em vários governos, empresas e, claro, pessoas. 

A tendência é que esse tipo de responsabilidade seja cada vez mais importante também no consumo. Ou seja, as pessoas estarão mais dispostas a comprar de empresas com forte compromisso ambiental, como aquelas que utilizam recursos renováveis ou desenvolvem técnicas para diminuir o seu impacto negativo na natureza, como a redução de emissão de gás carbônico. 

As implicações éticas do consumo, no entanto, não se restringem ao cuidado com o meio ambiente. A responsabilidade social também vem ganhando peso junto aos consumidores. É por isso que grandes empresas de tecnologia, como a Apple, têm programas para evitar a contratação de fornecedores que utilizem mão de obra em más condições de trabalho. 

Por fim, vale lembrar da opção por experiências com impactos menos nocivos à natureza ou à sociedade. O sistema de bicicletas compartilhadas, por exemplo, estimula a adoção de um veículo não poluente, que é benéfico para a saúde das pessoas e ainda auxilia a diminuição de problemas de trânsito nas grandes metrópoles. 

Tecnologia 

Por fim, não podemos ignorar o impacto dos avanços tecnológicos na mudança de hábitos de consumo. E podemos começar com exemplos já bastante corriqueiros, como a simples pesquisa de preços via sites ou aplicativos. Hoje, não é preciso ir ao centro comercial da cidade para encontrar o que você precisa: tudo está a um clique de distância. 

E estamos falando de tudo e de qualquer lugar: nunca foi tão fácil importar produtos da China, por exemplo, ou encomendar um pôster do seu artista favorito de... Cabo Verde. A tecnologia diminui distâncias, enfim, grande parte por conta da internet. 

A internet também tem um impacto em como as empresas atendem as pessoas: agora, é possível utilizar dados de navegação e históricos de compras para oferecer produtos personalizados de acordo com cada cliente. 

Saem de cena as propagandas voltadas para um público massivo e ganha espaço a publicidade mais pessoal. É claro que isso levanta dúvidas sérias sobre o uso de informações privadas, mas vamos falar disso ainda neste post

Quais são as principais tendências para o futuro do consumo? Agora que você já sabe que as mudanças dos hábitos de consumo são causadas por fatores complexos que se influenciam mutuamente, chegou a hora de entender quais são, afinal, as tendências para o futuro do consumo. 

Como você notará, algumas dessas mudanças já começam a fazer parte do nosso dia a dia e até movimentam uma parcela significativa da economia. Outras, no entanto, ainda são incipientes e podem ser consideradas quase uma aposta. 

Consumo sustentável 

Se a ética é um dos eixos que ajudam a explicar as transformações nas relações entre empresas e pessoas, não podemos ignorar que ela é, em grande parte, relativa ao cuidado com o meio ambiente. Você conhece o motivo: se não otimizarmos a forma como extraímos recursos da Terra, podemos acabar com graves crises, que vão de mudanças climáticas à falta de matéria-prima. 

O consumo sustentável começa com a cobrança de pessoas e regras governamentais que pressionem as empresas a adotar práticas sustentáveis. Regras para impedir o desmatamento em áreas como a Amazônia ou o estabelecimento de multas para quem polui o meio ambiente são exemplos legislativos. 

Além da cobrança sobre processos produtivos cada vez mais limpos, a própria ideia de compra também é impactada pela sustentabilidade. Ou seja, a utilização de produtos reutilizados, reciclados ou mesmo compartilhados são uma alternativa para quem sabe que cada compra tem um impacto ambiental, ainda que pequeno. 

Isso ajuda a explicar, por exemplo, por que os brechós físicos e virtuais ganham cada vez mais espaço e expressões como slow fashion começam a ganhar força diante das práticas tradicionais de fast fashion, ou seja, quando grandes empresas renovam as suas coleções em ritmo frenético para impulsionar novas vendas. 

Economia colaborativa 

Podemos dizer que, na economia colaborativa, as relações de consumo saem de compra/venda para trocas e, bem, colaboração. Hoje, já existem pessoas que preferem apostar em um serviço de caronas compartilhadas, como o Uber, do que investir na compra de um carro próprio. A ideia é eliminar custos com manutenção, combustível e impostos e, de quebra, ajudar a melhorar o trânsito das cidades, já que estamos falando de menos carros nas ruas. 

A economia colaborativa, no entanto, pode criar redes ainda mais complexas entre empresas e, assim, impactar o consumidor. Pequenos produtores rurais que se unem em cooperativas podem ter força para montar o próprio banco de crédito ou capacidade de investir em conjunto em novas tecnologias, inclusive comprando equipamentos ou contratando terceirizadas por meio de permutas. 

A ideia da economia colaborativa, portanto, é trocar esforços de trabalho para um objetivo em comum, ainda que isso não exija uma troca direta de dinheiro ou acúmulo de bens. Aqui, o foco está na troca de experiências, compartilhamento de recursos e até mesmo de espaços (como nos coworkings) tanto para diminuir os custos envolvidos em processos industriais ou comerciais quanto, veja só, para diminuir o desperdício e o impacto ambiental do consumismo desenfreado. 

Multicanalidade

Multicanalidade é mais um conceito que já está entre nós, mas que deve ser cada vez mais importante com o passar dos anos. Sabe quando você procura um produto por meio de um app de celular e finaliza a compra no site de um e-commerce

Isso só é possível porque a empresa é multicanal, ou seja, permite que transações sejam feitas por vários meios, como os citados celulares, sites ou mesmo por telefonemas ou dispositivos com Internet das Coisas (IoT, na sigla em inglês). 

A tendência do consumo é que todas as relações de compra sejam cada vez mais omnichannel, o que envolve o mundo virtual e o real. Um cliente pode realizar uma compra na loja física, ter o seu histórico registrado e, assim, receber novas promoções via internet de acordo com o seu gosto pessoal ou perfil. 

Da mesma forma, um comprador pode ter a comodidade de realizar uma compra pelo celular e, caso não queira esperar a entrega ou pagar o frete, retirar o produto pessoalmente em uma loja física. 

No futuro, os dispositivos com IoT vão fazer esse trabalho com ainda mais velocidade: a geladeira pode detectar que a família vai ficar sem leite e enviar um alerta para o usuário ou até mesmo fazer uma encomenda diretamente com um varejista! 

Foco em experiência 

"Consumir" é um termo que sempre sugere a compra de algo, numa relação quase fria e bastante prática. No entanto, nós não somos robôs e, portanto, nos implicamos de forma pessoal em cada relacionamento das nossas vidas, inclusive com empresas. 

Já falamos algumas vezes sobre a importância da sustentabilidade: comprar um produto 100% verde não é apenas uma escolha pragmática, mas também participar de uma experiência conjunta de esforço múltiplo para a preservação do planeta. 

A experiência no consumo também está em outros fatores, como se sentir parte de uma comunidade engajada. Lançamentos de produtos culturais, como jogos ou filmes, parecem ser a ponta mais evidente desse aspecto: eles reúnem milhares de fãs que comentam na internet, fazem filas nas bilheterias ou nas portas de loja e compartilham impressões sobre determinado produto ou serviço. 

Mais uma vez, vamos dar o exemplo da Apple: cada novo iPhone é apresentado ao mundo em conferências transmitidas ao vivo pela internet, e jornalistas vão às lojas da empresa para verificar quem comprou a primeira unidade. É evidente que há um aspecto relativo a status na compra de um produto da "maçã". Afinal, o consumo também é cultural. 

Mas não é possível negar que a empresa estabelece uma rede de experiências positivas para o seu usuário, que começam na compra de um produto com interface simples e que dá acesso a uma série de outros serviços que valorizam o seu uso, notadamente uma loja de aplicativos extensa ou mesmo de experiências conjugadas, como comprar música pelo iTunes ou utilizar o celular para realizar pagamentos em lojas físicas, como se ele fosse um cartão de crédito. 

Novas tecnologias

É impossível falar de mudanças nos hábitos de consumo sem que a palavra "tecnologia" apareça. O comércio online é a parte mais evidente disso, e um bom exemplo vem do Brasil: mesmo em meio a uma das crises mais graves da sua história, o e-commerce do país movimentou mais de R$ 23 bilhões apenas no primeiro semestre de 2018, um crescimento de 12,1% em relação ao mesmo período de 2017. 

Mas não é apenas o varejo online que vem impulsionando os hábitos de consumo. As próprias estratégias de marketing e venda das empresas estão cada vez mais atreladas ao uso de sistemas de informação, seja para perfilar melhor os seus clientes, seja para encontrar maneiras mais efetivas de fidelização ou mesmo para aperfeiçoar de forma contínua os processos de gestão e produção interna. 

Se, por um lado, a tecnologia permite que empresas adotem práticas de marketing, vendas e gestão mais eficientes, do outro, temos clientes com mais chances de ser ouvidos pelas organizações. Com a ubiquidade da internet, foi facilitado o envio de críticas, reclamações e sugestões para empresas que, se quiserem se manter relevantes, precisarão ouvir os seus compradores e dar respostas adequadas rapidamente. 

Avanços como a citada Internet das Coisas vão deixar as compras ainda mais práticas e menos burocráticas. Até mesmo os tradicionais cartões de débito e crédito podem ser substituídos por celulares com a tecnologia adequada, e ainda há quem aposte que até o dinheiro como conhecemos hoje vai perder espaço para criptomoedas como o BitCoin

Privacidade 

Todo mundo já conhece as mil e uma maravilhas de um mundo conectado à internet: informações circulam mais rapidamente, podemos interagir com mais pessoas e de forma cada vez mais profunda. No entanto, a rede mundial de computadores também apresenta alguns pontos fracos, e o principal deles diz respeito à privacidade. 

As maiores empresas do mundo de tecnologia, como o Facebook e o Google, utilizam as informações pessoais dos usuários para vender anúncios. A ideia é simples: sabendo mais sobre você, uma empresa pode oferecer o produto de que você precisa. O problema é que o uso dessas informações ainda é bastante nebuloso, e não se sabe ao certo a extensão da coleta de dados. 

No entanto, há uma pressão cada vez maior para que as empresas tenham transparência no uso de dados privados dos usuários e, principalmente, que essas informações sensíveis não estejam disponíveis para fins escusos, como o escândalo nas eleições norte-americanas que levou Mark Zuckerberg, dono do Facebook, a depor no Senado daquele país. 

É preciso lembrar, ainda, que o avanço da tecnologia também favorece a segurança dos consumidores, seja por meio de programas de segurança que combatem fraudes em cartões de crédito ou de opções para não rastreamento ou apagamento de dados pessoais durante o uso de serviços online

De que forma é possível se adequar a tais tendências? 

Os novos hábitos de consumo não estão em um futuro distante: pouco a pouco, já podemos experienciá-los no nosso dia a dia. Consumo sustentável e economia colaborativa, por exemplo, já fazem parte da vida de milhares de pessoas que usam papel reciclado ou alugam uma casa via Airbnb

Outras tendências, como o uso de objetos com Internet das Coisas ou mesmo experiências de Realidade Virtual, ainda são incipientes, mas não há motivos para acreditar que elas não vingarão, ao menos no longo prazo. 

A melhor maneira de se adequar a essas tendências é adotá-las o quanto antes. Veja bem, ninguém será obrigado a deixar de ter um carro para andar de Uber, mas conhecer e apostar em serviços de economia colaborativa como esse já pode ser uma boa ideia, principalmente para entender os custos, vantagens e desvantagens. 

Continuar pesquisando sobre as novas tendências também é uma boa ação, e a leitura deste artigo já é um bom exemplo disso. Afinal, sabendo o que te espera no futuro, fica mais fácil planejar um bom caminho até lá. 

Quais erros devem ser evitados nessa transição?

A mudança dos hábitos de consumo é quase inevitável, mas isso não significa que, em breve, viveremos uma verdadeira ruptura na forma como nos relacionamos com empresas. As mudanças, em geral, são graduais e podem ser mais ou menos rápidas. 

Por isso, mesmo olhando para o futuro, convém deixar os pés bem firmes na realidade de agora para fazer o seu planejamento financeiro de longo prazo. Para tanto, não cometa os seguintes erros: 

• Ter apenas uma fonte de renda 

Ainda no primeiro tópico, mostramos como o mercado de trabalho vem sofrendo grandes transformações nas últimas décadas que devem se aprofundar nas seguintes. Isso significa que um emprego único durante toda a vida vai ser cada vez mais raro. 

A tendência é que profissionais tenham múltiplas fontes de renda, sendo capazes de atuar diretamente para organizações já estabelecidas, trabalhar de forma autônoma ou mesmo de investir na própria empresa. Ou seja, em breve, todo mundo vai ser, ao menos em parte, empreendedor de si mesmo. 

Vale lembrar que a renda também pode ser oriunda de operações financeiras, que vão de investimentos em títulos públicos, participação no mercado de ações ou mesmo em um grupo de investidores, seja para ganhos no curto, médio ou longo prazo. 

• Não se preocupar com o longuíssimo prazo 

O foco deste artigo é a mudança dos hábitos de consumo, principalmente os mais tradicionais, como a compra de produtos e serviços de varejistas. Vale lembrar, no entanto, que não é apenas esse tipo de consumo que impacta as finanças da família, já que é preciso bancar educação, saúde e segurança. 

Por isso, é importante que algumas atitudes bem tradicionais continuem no horizonte da sua família. Investir em previdência privada, ainda mais com as incertezas que cercam a previdência pública no Brasil, é o tipo de atitude que pode ser tomada hoje pela qual o seu "eu" do futuro agradecerá imensamente. 

Da mesma forma, não espere que a colaboração ou troca resolva todas as necessidades agora. Contratar seguros para proteger o patrimônio da família ou mesmo a sua renda é outra ação de planejamento financeiro que não envelheceu, nem envelhecerá. Aliás, você pode fazer qualquer uma dessas coisas pela internet, o que é um grande avanço. Certo? 

• Ignorar as mudanças tecnológicas 

Por fim, fique de olho nas mudanças de tecnologia! Elas impactam cada vez mais o nosso consumo, mas também nosso modo de vida e de trabalho. Ficar por dentro das novidades do mercado é essencial para não ser deixado para trás e perder oportunidades de crescimento pessoal ou profissional. 

Continue se informando em blogs de qualidade — como você acaba de fazer! —, não se afaste dos noticiários e tenha fontes diferentes de informação.

Assim, você fica sabendo das novas tendências relativas ao relacionamento entre clientes e empresas, sobre o mercado de trabalho e também como levar adiante valores importantes nesta nova era do consumo, como a necessidade de responsabilidade social e ambiental, além da importância da colaboração. 

Além disso, ficar atento aos avanços tecnológicos é ficar a par das novas necessidades e medidas de segurança, especialmente aquelas relativas à sua vida digital. Entender como funcionam senhas, logins e outros modos de acesso, bem como certificados ou sistemas antifraudes, pode te ajudar a proteger informações sensíveis sobre você e a sua família agora e sempre. 

Gostou de conhecer as tendências para o futuro do consumo e entendeu como elas já estão impactando a sua vida hoje? Então não deixe de multiplicar todo esse conhecimento! Compartilhe o post nas redes sociais com os seus amigos, colegas de trabalho e familiares. Eles também vão se interessar!


Brasil Desperdiça o Potencial de Sua Biodiversidade, Um Ativo Único e Inigualável

Benefícios são muitos, porém pouco aproveitados e muito ameaçados, segundo documento preparado por 85 pesquisadores brasileiros.
Fotomontagem: Jornal da USP

O Brasil tem a maior biodiversidade do mundo — isso, todo mundo já sabe. Mas e daí? O que o País ganha com isso? Maior segurança alimentar, energética, hídrica e climática; proteção contra erosão, enchentes, deslizamentos e outros desastres socioambientais; proteção natural contra pragas no campo e doenças nas cidades; potencial para a descoberta de novos fármacos, cosméticos e outros produtos naturais; preservação de culturas, saberes e costumes de populações tradicionais; paisagens belíssimas; incontáveis oportunidades de negócios ligadas ao ecoturismo, lazer e bem-estar social. Tá bom, ou quer mais? 

Esses são alguns exemplos dos serviços prestados gratuitamente pela natureza à sociedade, descritos no primeiro diagnóstico da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES, na sigla em inglês), divulgado no início deste mês. 

Produzido por um grupo de 85 pesquisadores ao longo de quatro anos, o documento, de quase 200 páginas, traz um resumo contextualizado do melhor conhecimento disponível sobre o patrimônio natural brasileiro e os serviços que ele presta à sociedade, desde o nível de espécies individuais (como as abelhas, que produzem mel e polinizam plantações) até o de ecossistemas inteiros (como as florestas, que produzem chuva e estocam carbono, ou os manguezais, que protegem a costa da erosão e servem de berçário para diversos peixes e crustáceos de importância social e comercial). 

Clique aqui para baixar a íntegra do documento: Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos

Clique na imagem para ampliar.
Um resumo do estudo, chamado Sumário para Tomadores de Decisão, já havia sido divulgado em novembro de 2018, mas faltava a publicação do diagnóstico completo — com todas as informações e referências científicas que embasam as conclusões dos pesquisadores. A ideia é que o sumário sirva como um guia de consulta rápida, e o relatório, como uma enciclopédia de informações sobre biodiversidade e serviços ecossistêmicos no Brasil. Em ambos os casos, o objetivo final é o mesmo: fornecer embasamento científico para orientar a tomada de decisões econômicas, sociais e políticas sobre o tema. 

"O conhecimento está aí, os tomadores de decisão estão aí, e a gente precisa aproximar essas duas coisas. Esse espaço entre existência e aplicação do conhecimento precisa ser preenchido", diz o ecólogo Jean Paul Metzger, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, um dos 11 editores do relatório. "Se ainda há lacunas de informação que precisam ser preenchidas, certamente não falta conhecimento para a tomada de decisões". 

O diagnóstico deixa claro que o Brasil é um país extremamente privilegiado em termos de biodiversidade e recursos naturais — tem o maior número de espécies de fauna e flora, a maior reserva de água doce, a maior floresta tropical, e por aí vai —, com enorme potencial para o desenvolvimento de um modelo econômico sustentável. 

Clique na imagem para ampliar.
"O gigantesco capital natural nacional confere as condições necessárias para transformar a conservação e o uso sustentável dos ativos ambientais brasileiros em oportunidades para um desenvolvimento capaz de enfrentar, no futuro, um clima alterado e, ao mesmo tempo, promover prosperidade socioeconômica", escrevem os pesquisadores, no resumo executivo. "Essa combinação incomum resulta do fato de que o elevado potencial de produção econômica [presente e futuro] depende da manutenção dos recursos da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos associados". 

Por outro lado, e ao mesmo tempo, é um país que se aproveita e cuida muito mal desse patrimônio natural único, com taxas elevadas de perda, degradação e fragmentação ambiental. Estudos indicam, por exemplo, que o Brasil poderá perder entre 20% e 25% de sua biodiversidade até 2050, comparado a 1970, "dependendo da trajetória de desenvolvimento considerada". 

"O cenário atual de degradação dos sistemas naturais, sejam eles terrestres ou aquáticos, representa uma séria ameaça à provisão de serviços ecossistêmicos essenciais para a manutenção da qualidade de vida e da saúde da população humana", diz o relatório. "Isso inclui o suprimento de alimentos, organismos medicinais, experiências físicas e psicológicas, regulação da quantidade e da qualidade da água, controle da qualidade do ar, regulação de ameaças e eventos extremos e de organismos prejudiciais a humanos".

Clique na imagem para ampliar.


Fase nefasta 

O diagnóstico surge num momento especialmente preocupante, de aumento do desmatamento na Amazônia, negação de evidências científicas e fragilização das estruturas de defesa ambiental no Brasil

"Estamos passando por uma fase nefasta, mas temos que continuar trabalhando na expectativa de que haja uma mudança de comportamento dos nossos governantes", diz o biólogo Carlos Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e um dos coordenadores do BPBES

Uma das principais mensagens do relatório, segundo ele, é que “é muito mais barato conservar do que restaurar”; e que muito do que se perde com a degradação ambiental não pode ser recuperado. "Você pode até recuperar alguns serviços ecossistêmicos, mas não a biodiversidade". 

Os principais vetores de ameaça à biodiversidade, segundo o diagnóstico, são as mudanças climáticas, que alteram a configuração e o funcionamento dos ecossistemas, e as mudanças de uso do solo — em outras palavras: desmatamento, ou qualquer atividade que envolva a conversão de áreas de vegetação nativa para outros usos, como agricultura, pecuária ou mineração. 

"Um dos principais desafios do Brasil para os próximos anos é o alinhamento de políticas de desenvolvimento – principalmente a política agrícola – com o uso e a conservação da biodiversidade. A integração entre as políticas ambientais e agrícolas é fundamental para o cumprimento das metas e dos acordos de conservação firmados internacionalmente, bem como para evitar o desaparecimento de espécies nativas de importância ecológica, medicinal e alimentícia e com potencial intrínseco para a agropecuária, a indústria e o desenvolvimento de biotecnologia", diz o relatório. 

Desafio e oportunidades 

Clique na imagem para ampliar.
Joly vê com preocupação o recrudescimento de um discurso político considerado ultrapassado, que tende a ver a conservação ambiental como inimiga do desenvolvimento econômico. O diagnóstico deixa claro que a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos — que o Brasil tem em abundância — devem ser vistos como um ativo diferencial de promoção do desenvolvimento, e não como um obstáculo ou um apêndice meramente decorativo. 

"O diagnóstico mostra claramente os ativos que o País tem, as oportunidades que isso traz, e como a gente tem feito mau uso disso", resume o ecólogo Fabio Scarano, da Universidade Federal o Rio de Janeiro (UFRJ), também coordenador do BPBES e coautor do documento. "O que nos preocupa é o discurso que está posto agora, com agravamento dos riscos e a perspectiva de que essas oportunidades continuarão não sendo aproveitadas, ou até mesmo perdidas". 

Além de proteger, é preciso incentivar a pesquisa científica e o uso econômico sustentável desses ativos ambientais, ressaltam os cientistas. Um dos dados mais destacados do relatório é que 40% da cobertura vegetal do País está concentrada em apenas 7% dos municípios, que abrigam 13% da população economicamente mais carente do Brasil. "Historicamente a substituição da vegetação nativa por outras coberturas não tem resultado em um aumento significativo do bem-estar local. A geração de renda a partir da natureza conservada será essencial para conciliar prosperidade socioeconômica com a conservação de recursos naturais", diz o documento. 

"Uma das maiores e mais desafiadoras lacunas é a de transformar a megabiodiversidade do país em soluções para a sociedade brasileira, ou seja, fazer uma inserção abrangente da biodiversidade nas cadeias produtivas", diz, ainda, o relatório. "Isso requer políticas de fomento à pesquisa em catalogação e prospecção da biodiversidade em diferentes escalas e setores da economia. Apesar de seus 500 anos de exploração, a Amazônia gerou apenas quatro commodities amplamente comercializadas no Brasil e no exterior: a borracha, a castanha-do-pará, o açaí e o guaraná. O potencial de exploração sustentável de outras espécies vegetais – dentre as cerca de 10 mil existentes na região – permanece latente". 

Lacunas 

Muitas lacunas também existem no entendimento dos ecossistemas oceânicos, que são ainda menos conhecidos do que os ecossistemas terrestres — lembrando que o Brasil tem um território marítimo do tamanho da Amazônia, com 3,6 milhões de quilômetros quadrados, e um quarto de sua população concentrada na zona costeira. 

"Os oceanos são a grande fronteira do conhecimento da humanidade", destaca o professor Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da USP, especialista em ecologia marinha e gerenciamento costeiro, e também coautor do relatório. "Sabemos mais sobre a superfície da Lua do que sobre o fundo do mar". 

Para Turra, o relatório "evidencia de forma muito clara a importância da ciência para a tomada de decisão"; não só no que diz respeito à elaboração de políticas públicas, mas também à capacidade de avaliar e monitorar a eficácia dessas políticas. "Para combater a erosão costeira, você precisa de um diagnóstico muito preciso sobre o que está causando essa erosão", exemplifica ele. "O gestor precisa ter um entendimento mínimo de como esses ecossistemas funcionam para tomar as decisões que oferecem o melhor custo-benefício como solução". 

O relatório foi produzido principalmente com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) — cerca de R$ 1,5 milhão —, principal agência de fomento à ciência do governo federal, que vive sérias restrições orçamentárias e pode ter seus recursos de fomento reduzidos a quase zero em 2020. Com esses recursos, além do Diagnóstico principal, o BPBES já produziu quatro relatórios temáticos (sobre restauração ambiental, água, polinizadores e mudanças climáticas) e tem um quinto a caminho (sobre povos indígenas e comunidades tradicionais). 

Áreas protegidas

Uma estratégia que tem se mostrado eficaz para a proteção e uso sustentável da biodiversidade é a criação de áreas protegidas, incluindo terras indígenas e unidades de conservação (UCs) geridas pelo poder público, como os parques nacionais. Segundo os dados compilados pelo diagnóstico, o turismo nessas unidades gera 43 mil empregos e movimenta R$ 4 bilhões por ano – com potencial para crescer muito mais. 

Considerando todas as categorias, o Brasil tem cerca de 2,2 mil UCs. Na Amazônia, a área de cobertura chega a 27%; mas nos outros biomas terrestres, não chega a 10%. No bioma marinho, a criação de duas gigantescas áreas de proteção oceânica elevou esse índice, em 2018, para mais de 26%; mas sem elas, a cobertura é de apenas 1,5%. 

"O Brasil cumpriu a meta de conservação de áreas marinhas, no que diz respeito ao percentual, graças a essas duas áreas. Mas a conservação efetiva, segundo a própria meta 11 de Aichi, é muito mais que isso", diz o professor Antonio Carlos Marques, do Instituto de Biociências da USP, também coautor do relatório. "Deveríamos ter áreas protegidas que fossem geográfica e ecologicamente diversas, representativas de todos nossos ecossistemas e conectadas genética e ecologicamente, o que não ocorre. Além disso, grande parte dessas UCs permite usos múltiplos, onde a conservação é pouco efetiva e tem fiscalização deficiente ou nula. Elas são o que a literatura chama de parques de papel". 

Alguns dados do relatório podem já estar defasados, por conta do tempo que levou para preparar o documento. Mas o diagnóstico não muda: "Este [relatório] deixa claro que o Brasil tem o potencial de ser líder mundial por meio de um desenvolvimento sustentável. Basta que sejam feitas as escolhas que privilegiem práticas de produção mais ecologicamente sustentáveis", escrevem os pesquisadores.

Por: Herton Escobar (Jornal da USP).