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Cientistas Buscam Saída Contra Derretimento de Geleiras

Os pesquisadores imaginaram vários tipos de artifício para conter o fenômeno, cuja validade foi testada nas geleiras de Thwaites (Foto: Paul Quackenbush).

De acordo com o trabalho publicado em 20/09/2018 na revista The Cryosphere [Stopping the flood: could we use targeted geoengineering to mitigate sea level rise?], projetos de engenharia dedicados a "conter o derretimento das geleiras poderiam diminuir a ruptura das calotas". 

Um muro submarino diante das calotas de gelo: frente à intensificação do aquecimento climático, os cientistas sugerem criar infraestruturas em massa para conter o derretimento das geleiras e, com isso, a elevação no nível dos mares. 

Ainda incomum em meio à profusão de pesquisas climáticas, esse estudo é notável por se tratar de "um plano de socorro" - o que não diminui em nada a necessidade de reduzir as emissões dos gases causadores do efeito estufa, observam os pesquisadores. 

A fragilidade das calotas da Groenlândia e do oeste da Antártica, em especial, é uma grande preocupação dos especialistas. São imensas extensões de água doce retidas pelas geleiras que, se liberadas, podem elevar o nível dos mares em vários metros. 

Para alguns pesquisadores, o aquecimento oceânico também deflagrou o processo de desestabilização ao redor do mar de Amundsen (Antártica Ocidental), sobretudo, pelas geleiras de Pine Island e de Thwaites. Sozinho, esse processo é visto como primeira fonte potencial de elevação dos mares no futuro.

"Thwaites pode, facilmente, causar um colapso da calota da Antártica Ocidental, que elevaria em cerca de três metros o nível mundial dos mares", explica Michael Wolovick, da Universidade de Princeton, um dos autores desse novo estudo. 

O degelo acontece, em particular, quando a base submarina da geleira é tomada pela água mais quente. 

Os pesquisadores imaginaram vários tipos de artifício para conter o fenômeno, cuja validade foi testada nas Thwaites

Entre as alternativas, está a construção de quatro colônias submarinas de 300 metros de altura para reter a geleira, o que demandaria tanto material que seria necessário escavar pelo Canal de Suez. Segundo o estudo, essa opção teria 30% de chance de sucesso. 

Uma obra de dimensões maiores como, por exemplo, um muro de 50 a 100 metros de altura e 80 a 120 quilômetros de extensão seria "mais eficaz", porque teria capacidade de bloquear, em parte, a água mais quente que se encontra no fundo.

Foto da NASA mostra parte da geleira de Thwaites, na Antártida, que é do tamanho da Grã-Bretanha.

Proposta de pesquisa

"A conclusão principal do nosso estudo é que uma intervenção eficaz sobre as calotas polares é da ordem do possível", explicou Michael Wolovick à AFP

"Com algumas décadas de pesquisa, ou mais, parece plausível que a comunidade científica possa propor um plano ao mesmo tempo eficaz e realizável", acrescentou. 

"Porque, se reduzir as emissões continua a ser a prioridade no curto prazo para minimizar os efeitos da mudança climática, no longo prazo, a humanidade pode precisar de planos de urgência para enfrentar a ruptura de uma calota polar", destacam os pesquisadores. 

Essa questão de "planos de urgência" alimenta o debate sobre a luta contra o aquecimento, sobretudo, com projetos de "geoengenharia". Frequentemente polêmicos, esses projetos propõem manipular o clima em maior ou menor medida, como, por exemplo, a manipulação da radiação solar por pulverização de aerossóis. 

"Fazer 'geoengenharia' significa, com frequência, imaginar o inimaginável", afirma John Moore, da Beijing Normal University

"Assim, em vez de tentar modificar o clima, a humanidade pode escolher uma intervenção pontual, sobre lugares específicos", completou. 

Construir essas infraestruturas não seria para agora, ressaltam os cientistas, sobretudo, em um meio tão inóspito quanto a Antártica

"Redigimos esse relatório não porque achamos que esses projetos precisam ser concretizados, mas porque queremos que a comunidade científica pense e trabalhe nisso", disse o pesquisador de Princeton

Para os autores, reduzir as emissões mundiais de gases de efeito estufa continua sendo chave. "Elementos desonestos tentarão, certamente, se aproveitar dos nossos trabalhos como um argumento contra a necessidade de reduzir as emissões. Ora, nosso estudo não apoia em nada essa interpretação", advertem. 

Eles lembram também que essa "geoengenharia glacial" poderá funcionar somente se o aquecimento continuar sob controle. 

E, mesmo que essas construções limitem a elevação do nível das águas, elas não agirão sobre outros impactos tão devastadores quanto a acidificação dos oceanos, as tempestades e a canícula [calor muito forte].


Cânion Submarino Pode Revelar Papel de Corais na Captura de Carbono da Atmosfera

Grupo internacional de pesquisa, com participação de brasileiro, faz mapeamento inédito de fenda de 3 mil metros de profundidade na Irlanda, a fim de entender as mudanças climáticas globais (Foto: University College Cork).

O navio RV Celtic Explorer aportou em 10 de agosto de 2018 em Galway, na costa oeste da Irlanda, trazendo um mapeamento inédito, em alta resolução, de um cânion submarino. 

A expedição foi um dos desdobramentos de um projeto internacional que tem entre seus membros o pesquisador Luis Americo Conti, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Um dos objetivos é entender melhor o papel dos corais que vivem nessas águas frias na captura de carbono da atmosfera. 

"Os corais vivem no topo do cânion e, à medida que morrem, seus fragmentos vão se depositando no fundo. O carbono que eles absorveram ao longo da vida continua nesses detritos e, à medida que se acumulam, esse carbono é transferido para os depósitos sedimentares", disse Conti, cujo estudo teve apoio da FAPESP

A expedição de 15 dias mapeou toda a área do Porcupine Bank Canyon, na Irlanda, de 1.800 quilômetros quadrados, maior que o município de São Paulo. Foram usados um sistema de sonar de alta resolução e um veículo submarino controlado remotamente (ROV, na sigla em inglês). 

Apesar de o cânion ter uma profundidade de até 3 mil metros, o ROV Holland I submergiu até aproximadamente 2 mil metros, onde estão os detritos mais recentes. 

"As amostras colhidas pelo ROV ajudarão a entender a dinâmica desses fenômenos ao longo dos últimos 10 mil anos, que podem nos dar pistas para compreender as mudanças climáticas que estamos vivenciando agora", disse Conti à Agência FAPESP

Além de coletar sedimentos do fundo do cânion, ricos em detritos de corais, o veículo retirou amostras de corais vivos das paredes e do topo, que serão analisados por biólogos a fim de conhecer as espécies que habitam aquela área e seu parentesco com as de outras regiões. 

O ROV fez ainda registros em vídeo das colônias de corais, que complementam o mapeamento de sonar realizado pelo navio. Dessa maneira, foi possível estabelecer uma correlação entre os mapas topográficos do cânion com as áreas colonizadas por corais. 

"O cânion é um vasto sistema submarino, com penhascos quase verticais de até 700 metros e alguns lugares com até 3 mil metros de profundidade. Seria possível empilhar 10 torres Eiffel", disse o chefe da expedição, Aaron Lim, pesquisador da School of Biological, Earth and Environmental Sciences da University College Cork (UCC), na Irlanda, em comunicado da universidade. 

Estoques de gás carbônico 

Diferentemente dos corais de água quente, que obtêm nutrientes por meio de um processo de simbiose com algas que vivem dentro deles (zooxanthelas), os de água fria como os do cânion Porcupine dependem do plâncton morto que desce da superfície. 

"Em águas profundas como essas, não há luz para que as algas façam a fotossíntese e, como as águas não são ricas o suficiente em nutrientes, os cânions são ideais porque neles as correntes marítimas são mais intensas e carregam bastante dessa matéria orgânica, que é filtrada pelos corais", disse Conti

"Os corais absorvem o carbono do plâncton morto que ‘chove’ da superfície do oceano, logo, da atmosfera", explicou Andy Wheeler, professor da UCC e do Irish Centre for Research in Applied Geosciences (iCRAG), em comunicado da universidade. 

"As crescentes concentrações de CO2 na atmosfera estão causando eventos climáticos extremos. Os oceanos absorvem esse gás carbônico e os cânions são uma rota rápida para bombeá-lo para as profundezas, onde ele é estocado de forma segura", disse Wheeler

Com as amostras coletadas, os pesquisadores poderão eventualmente saber se as concentrações de carbono na atmosfera têm influência no crescimento das colônias de corais e na morte de porções delas. Embora o cânion estivesse estável no momento da coleta, periodicamente há algum evento violento que o faz erodir. 

"É o que se chama de um evento pulsante. Em alguns lugares, como a Noruega, ocorrem verdadeiras avalanches de corais mortos nesses cânions. Em outros, há uma movimentação mais lenta, porém constante", disse Conti

Outro objetivo do pesquisador brasileiro era aprimorar técnicas de mapeamento, a fim de aplicá-las em projetos de pesquisa no Brasil

"A costa brasileira ainda é pouco conhecida. O navio oceanográfico Alpha Crucis, da USP [adquirido com apoio da FAPESP], tem equipamentos adequados para o mapeamento submarino. É pouco, mas é um bom começo. A descoberta dos corais na foz do Rio Amazonas também foi uma conquista importante", disse Conti

No entanto, segundo o pesquisador, faltam projetos de mapeamentos mais detalhados, como um levantamento topográfico sistemático do leito marinho brasileiro. 

"A Irlanda, há 15 anos, realizou um grande programa de mapeamento de seu leito marinho. Graças a ele é que foi possível descobrir e escolher a área desse cânion como um laboratório natural", disse. "Sem algo assim, ficamos dois passos atrás."

Por: André Julião (Agência Fapesp).

Fêmeas, Políticas e Essenciais: A Sociedade das Abelhas das Orquídeas

Ao contrário do que defendia Aristóteles, o homem não é o único animal político. Pesquisas realizadas na Caatinga baiana mostraram que a espécie Euglossa melanotricha, conhecida como "abelhas das orquídeas", forma sociedades de multifêmeas nas quais as dominantes atuam politicamente em relação às subordinadas para manter o controle e o bom funcionamento da colônia. 

As Euglossini são um grupo de abelhas iridescentes e sem ferrão conhecidas popularmente como "abelhas das orquídeas", pois machos e fêmeas polinizam cerca de 30 famílias de plantas, incluindo 2.000 espécies de orquídeas. Os machos do gênero Euglossa coletam óleos perfumados de flores, possivelmente para atrair fêmeas para o acasalamento. Já as fêmeas podem partilhar ninhos com outras fêmeas, mantendo relações de dominância ou subordinação entre si. 

A pesquisadora Aline Candida Ribeiro Andrade, professora voluntária do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Petrolina (PE), vinculada ao CEMAFAUNA, vem estudando a espécie Euglossa melanotricha há cerca de dez anos. Ela e seus colegas descobriram que as colônias são organizadas de forma matrifilial, ou seja, dominados por uma mãe e suas filhas, na qual a fêmea dominante põe a maioria dos ovos, reproduzindo várias vezes por ano e sem sincronia com as estações. São, portanto, organizações eussociais, ou seja, a "socialidade verdadeira", onde há uma casta responsável apenas pela reprodução (a fêmea dominante e suas filhas) e uma outra responsável pelas demais funções da colônia (as subordinadas não-aparentadas), como cuidar da prole e buscar alimento. 

Os pesquisadores também observaram que as fêmeas dominantes, morfologicamente idênticas às subordinadas, mantêm seus status através de comportamentos agressivos e de sinais químicos [os sinais químicos de cada abelha refletem o seu status na colônia], que regulam a divisão de tarefas entre as fêmeas. Numa família, as fêmeas dominantes detêm o controle reprodutivo da colônia, passando o controle de forma hierárquica para as abelhas aparentadas, numa linha de sucessão. As subordinadas não-aparentadas realizam tarefas na colônia mas não ascendem socialmente, a não ser pela força [uma invasora maior pode depor a fêmea dominante]. Um dos resultados interessantes da pesquisa é que a remoção experimental das dominantes não afetou seu monopólio reprodutivo. Entretanto, a remoção das subordinadas reduziu significativamente a produtividade da colônia, mostrando os claros benefícios da divisão de tarefas. Essas descobertas suscitaram outra questão: se as subordinadas não-aparentadas às dominantes são impedidas de procriar e não têm parentesco próximo para ascender socialmente, o que as leva a trabalhar pela colônia? 

Mais recentemente, em uma publicação da revista Nature / Scientific Reports, Aline e seus colegas esclareceram essa questão, demostrando que as fêmeas dominantes fazem concessões reprodutivas para ter o apoio das subordinadas não-aparentadas da colônia para a realização das tarefas, permitindo que estas ponham uma pequena porção de ovos em vez de agredi-las ou comer seus ovos. Já as subordinadas aparentadas têm menos privilégios [podem pôr menos ovos], mas estão na linha de sucessão ao "trono" do ninho e, portanto, são beneficiadas de alguma maneira. 

A publicação explica que há três tipos de ciclos de vida e associações nos ninhos de E. melanotricha, sendo que todos eles iniciam com uma fêmea solitária fundadora do ninho. A partir dela, duas opções para a primeira prole podem acontecer: as fêmeas nascidas podem ficar no ninho e se tornar subordinadas, herdando o ninho quando a fêmea dominante morrer ou desaparecer, ou podem reativar um ninho com as irmãs. As subordinadas realizarão atividades típicas de operárias, como buscar comida e manter o ninho, mas dividirão parcialmente a reprodução com as dominantes. Num outro cenário, abelhas não-aparentadas maiores podem invadir o ninho e derrubar a dominante residente, ou podem se tornar ajudantes subordinadas se forem de menor tamanho. No primeiro caso, a invasora, agora dominante, pode pôr a mesma quantidade de ovos; no segundo caso, a invasora subordinada pode pôr menos ovos que a dominante, mas, ainda assim, em quantidade maior que as parentes da dominante. Com isso, percebe-se que há um "contrato social" entre as fêmeas aparentadas e as não-aparentadas que modulará a reprodução e promoverá cooperação entre elas. A fêmea dominante pode avaliar seu parentesco entre as companheiras de ninho e remover seletivamente mais ou menos ovos das subordinadas, de acordo com seus interesses. 

E. melanotricha é apenas uma das cerca de 400 espécies de abelhas da Caatinga. O manejo ou criação de abelhas é intimamente ligado aos costumes de pequenos agricultores sertanejos e é essencial para a conservação dos ecossistemas onde as abelhas ocorrem. A discussão e propagação desse sistema sustentável se torna ainda mais importante na atual crise de declínios de colônias de abelhas domesticadas em diversos países e do aumento do número de abelhas nativas na lista de espécies ameaçadas de extinção. De acordo com Aline Andrade, a integração produtiva e estável entre produção de alimentos, biodiversidade e qualidade de vida não é uma tarefa fácil. "Incorporar a polinização como fator de produção, da mesma forma que a irrigação, a seleção de mudas, a correção do solo, a adubação e os tratos culturais, é uma questão necessária e urgente", alertou a pesquisadora.

Por: Carolina Lisboa (O Eco).

A Era dos Vícios Comportamentais

Nas inúmeras vezes em que o biógrafo de Steve Jobs esteve na mesa de jantar com a família do fundador da Apple, jamais viu alguém com um celular ou um iPad ao alcance da mão. Ao mesmo tempo em que exaltava as maravilhas de suas criações nos eventos épicos em que as anunciava, Jobs era rígido em preservar seus filhos do contato cotidiano com estes produtos. Boa parte dos mais talentosos precursores das inovações originárias do Vale do Silício tomaram as mesmas precauções. 

Por que razão algumas das maiores figuras públicas da tecnocracia contemporânea são tecnófobos quando se trata de suas vidas privadas? A pergunta formulada por Adam Alter em seu recém-lançado Irresistible - Why You Are Addicted To Technology And How To Set Yourself Free (Penguim Books) pode ser respondida em duas palavras: vícios comportamentais. 

Vício não consiste em algo que não podemos deixar de fazer. Respirar e comer não são vícios. A palavra se aplica quando envolve obsessão, compulsão e quando nos faz mal. Equipamentos digitais são instrumentos extraordinários de comunicação, conhecimento, orientação e, cada vez mais, contribuem para nossa saúde, nosso conforto e nossa prosperidade. No entanto, sobretudo nos últimos dez anos, com os smartphones e a melhoria das conexões, eles se converteram em ameaça ao bem-estar dos indivíduos e a nossa sociabilidade. A internet das coisas, as roupas e relógios conectados (os wearables) e a realidade virtual vão agravar esta situação já muito preocupante. 

No Brasil, entre os mais jovens (de 16 a 24 anos) 40% ficam mais de cinco horas por dia em conexão, segundo a pesquisa brasileira de mídia. Nos Estados Unidos, em 2008, as pessoas usavam seus celulares durante oitenta minutos diários. Em 2015 este tempo já era de 168 minutos. Um quarto dos adolescentes norte-americanos ficam nada menos que oito horas por dia diante da tela de seus dispositivos digitais. 40% das crianças entre zero e oito anos de idade possuíam um tablet em 2017. Em 2011 esta proporção não chegava a 1%. E 10% das crianças possuem algum tipo de brinquedo "inteligente", ou seja que interage com seu dono a partir de informações transmitidas à nuvem e, na maior parte das vezes com assistentes de voz. 

Jogos eletrônicos levaram os vícios digitais a um nível explosivo. O aumento em seu uso, a partir do início do milênio, foi estimulado por duas inovações fundamentais: o acesso por meio do smartphone e a interação social online. Os resultados são estarrecedores. Em 2017 a indústria norte-americana de vídeo games faturou US$ 36 bilhões, 18% a mais que em 2016, quando o faturamento já tinha aumentado 20% com relação a 2015, segundo a Entertainement Software Association. 75% do faturamento da Apple App Store vem de jogos. World of Warcraft, por exemplo, é jogado por mais de 100 milhões de pessoas, 40% das quais são viciadas. Como a interação social em torno destes jogos é global, seus participantes comprometem com imensa frequência suas noites de sono para manter-se em conexão. 

Mas mesmo quem não pratica jogos eletrônicos padece, com imensa frequência dos vícios comportamentais da era digital. 95% dos adultos usam dispositivos eletrônicos uma hora antes de dormir. Sua luz inibe a produção de melatonina, o que explica boa parte dos distúrbios contemporâneos do sono. 

Examinando os dados que mostram como os norte-americanos usam seu tempo (American Time Use Survey – ATUS) e comparando os anos 2012/2015 com o de 2004/2007, um grupo de economistas mostra que os jovens de 21 a 30 anos aumentaram em média 50% o tempo dedicado a jogos eletrônicos. Os que não estudavam nem trabalhavam (15% do total em 2016, contra 8% em 2000) gastavam 520 horas anuais em atividades computacionais recreativas, com os jogos eletrônicos ocupando 60% deste tempo. Isso era mais que o tempo voltado a trabalhos domésticos ou à interação com amigos. Adam Alter cita vários estudos segundo os quais o hábito contemporâneo de interagir socialmente por meio das teclas do smartphone (no WhatsApp ou no Facebook) é um obstáculo ao surgimento da empatia entre as pessoas. 

Um dos capítulos mais interessantes do livro de Alter é o que mostra que drogas químicas e vícios comportamentais ativam os mesmos centros de recompensa em nosso cérebro. Vícios químicos e comportamentais fazem com que nossa produção de dopamina passe a ocorrer só na presença dos estímulos vindos daquilo em que nos viciamos. E, a satisfação depende, claro, de doses cada vez maiores.

Não é razoável encarar estes dados simplesmente como "externalidades negativas" ou como a contrapartida inevitável da inovação tecnológica contemporânea. Boa parte do que se convencionou chamar de 4ª Revolução Industrial apoia-se nas informações que cada um de nós produz e que alimentam parte importante da computação em nuvem, da inteligência artificial e da aprendizagem das máquinas. O vício, que tem destruído nossa capacidade comunicativa, nossa intuição na relação com os outros, não pode ser o preço dos avanços tecnológicos dos quais depende nosso bem-estar. 

É claro que cada indivíduo tem que procurar o uso responsável destes dispositivos. Mas isso é insuficiente diante do empenho de milhares de engenheiros e programadores que nos oferecem permanentemente dispositivos voltados a ampliar o tempo em que estamos conectados. E o que precisamos neste momento é de uma discussão pública sobre limites, em última análise, os limites cuja ultrapassagem atropela nada menos que a dignidade humana.

Por: Ricardo Abramovay (Valor Econômico).

Gestão de Lixo: Revolução 4.0 e Criatividade Empurram Sociedade Para Um Modelo Circular

Em 2016, mais de 29 milhões de toneladas de lixo urbano foram parar em lixões irregulares ou aterros controlados – locais que não possuem medidas seguras para impedir a poluição e contaminação, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE). Além da grande geração de lixo, o índice de reciclagem ainda é muito baixo e se encontra estagnado há muitos anos. Segundo o Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), o levantamento de 2016 apontava que apenas 31 milhões de brasileiros (15% da população) tinha acesso a programas municipais de coleta seletiva. A aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) em 2010 tentou resolver alguns desses desafios. No entanto, mesmo quando a lei foi implementada em 2014, poucas coisas mudaram de fato quanto ao lixo. 

O que é preciso para mudar a gestão de resíduos sólidos no Brasil? Talvez a tecnologia seja um dos expoentes dessa mudança. Carlos Silva Filho, presidente da ABRELPE, trabalha no setor há 20 anos e recorda que, nos últimos três, houve uma mudança de mentalidade importante. 

"As pessoas estão percebendo que podemos fazer mais. Estamos em uma transição em que a gestão de resíduo deixa de ser gestão de lixo a passa a ser gestão de recursos. É pensar aberto: como que hoje a maior rede de hospedagem do mundo é Airbnb? Ou que existam grandes empresas de transporte urbano como a Uber e Cabify e que não são proprietárias de frota? São esses conceitos que precisamos trazer para a gestão de resíduos. É a criatividade que precisamos despertar, não só em cada um, mas despertar no próprio governo, em parceria com iniciativa privada, para oferecer esses tipos de solução", relata. 

A mentalidade empreendedora pode ser encontrada em alguns cases. Sabrina Gimenes de Andrade, da Coordenação Geral de Resíduos Sólidos do Ministério do Meio Ambiente, lembrou de um case emblemático: a Ecozinha. No começo de 2018, o Distrito Federal aprovou uma lei que transfere para estabelecimentos comerciais, órgãos públicos, terminais rodoviários e aeroportuários a responsabilidade da destinação dos resíduos produzidos. Mesmo pequenos restaurantes e bares poderiam ser considerados grandes geradores, de acordo com a lei. 

Alguns restaurantes então criaram uma logística compartilhada – que serve inclusive para resíduos orgânicos. O modelo instalou caçambas e coletores para a separação do lixo reciclável em cada um dos restaurantes, que são todos recolhidos pelo Sistema de Limpeza Urbana. No caso do vidro, a Ecozinha construiu uma parceria com a ONG Greenn Ambiental para transportar o material até usinas de reciclagem em São Paulo – isso porque o DF não possui nenhuma instalação para o trato do material. 

No caso do lixo orgânico, os estabelecimentos construíram um projeto de compostagem, alugando um pátio em que instalam composteiras e destinam ali os restos de alimento. O adubo gerado será destinado a agricultores da região: no fim, o lixo ajuda na produção da comida que será comprada e usada como insumo nos restaurantes. 

Como a inovação e tecnologia estão ajudando nesse processo 

A International Solid Waste Association (ISWA) apontou em uma pesquisa no ano de 2017 que 97% dos respondentes consideravam que as indústrias relacionadas à gestão de resíduos seriam afetadas pela quarta revolução industrial. A expectativa dos entrevistados é que inovações como chatbots sejam usados para auxiliarem pessoas na informação sobre geração de lixo e reciclagem, por exemplo. Além disso, mais de 50% acreditam que robôs automatizarão alguns serviços como a direção dos caminhões de lixo e outros processos que hoje são feitos de maneira mecânica. A maioria espera que, de alguma forma, a tecnologia ajudará a economia a ser mais circular. 

Davi Bomtempo, gerente executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Confederação Nacional da Indústria (CNI), é um dos que concorda com essa visão. Ele lembra que os problemas da gestão de resíduos devem ser pensados desde o início da cadeia. 

"Começamos a perceber que com Internet das Coisas, a parte dos sensores, podemos acompanhar o material desde sua composição até sua destinação, uma abordagem inovadora para a logística reversa, garantindo com que aquele resíduo seja destinado adequadamente. Outra inovação é a impressão 3D. Dado que recursos naturais estão escassos, é útil para produzir menos e com mais eficiência. A gestão de resíduos começa no início da cadeia, usando menos recursos para fazer seu produto. Economia circular não é só reciclagem: é já produzir de maneira modular para, na hora que tiver problema, é só fazer manutenção, trocar peça, não precisa de um novo produto", explica.


Como Indústria da Carne Contribui Para o Aquecimento Global

Juntas, brasileira JBS e quatro principais concorrentes já produzem mais gases do efeito estufa do que Exxon ou Shell. Se consumo de carne aumentar ainda mais, meta do Acordo de Paris está em risco, afirma estudo. 

Um estudo do Instituto de Agricultura e Política Comercial (IATP) e da organização ambientalista Grain [Emissions impossible: How big meat and dairy are heating up the planet], divulgado em 18/07/2018, inclui a indústria de carne e laticínios entre os maiores responsáveis pelo aquecimento global. 

Juntas, as cinco maiores empresas de carne e laticínios do mundo já são responsáveis por mais emissões de gases do efeito estufa do que as empresas petrolíferas isoladas, como Exxon-Mobil, Shell ou BP, segundo o estudo. 

"O relatório mostra o papel fundamental que essas empresas desempenham na mudança climática", diz Shefali Sharma, diretora do IATP. Se a indústria da carne não alterar seu curso e continuar a crescer como previsto, sua participação nas emissões globais de gases de efeito estufa aumentará para 27% em 2030 e para quase 80% em 2050, avaliam os autores do estudo. 

A brasileira JBS, maior empresa de carnes do mundo, lidera a lista dos maiores produtores de CO2 do estudo, seguida por três corporações americanas: Tyson Foods, Cargill e Dairy Farmers. A maior empresa de laticínios da Alemanha, a DMK, está na posição 21, e a empresa de carnes Tönnies – também alemã – está em 24º lugar. 

Contra o Acordo de Paris 

Segundo o estudo, as metas de crescimento da JBS estão em desacordo com o objetivo do Acordo de Paris, de impedir que a temperatura média global suba mais de 2ºC. A gigante brasileira afirmou a seus acionistas que o consumo de carne global aumentará em 30%, de 37 quilos per capita anuais em 1999 para 48 quilos de carne por pessoa em 2030. 

Estimativas do Greenpeace apontam que o consumo mundial de carne teria que cair para 22 quilos anuais por pessoa até 2030 e até 16 quilos por pessoa até 2050 para impedir que as temperaturas mundiais subam para níveis perigosos. 

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) também alerta já há algum tempo para as consequências ambientais negativas do alto consumo de carne e leite.


Sem interesse pelo clima 

A IATP e a Grain acusam as principais companhias do ramo de não se interessarem pela proteção climática. A maioria das 35 maiores empresas de carne e laticínios listadas não revela suas emissões de gases de efeito estufa ou o faz apenas de forma parcial. 

O estudo argumenta que a emissão de gases nocivos ao clima que ocorre, por exemplo, dentro da cadeia de fornecimento (correspondente por 80 a 90% das emissões totais, segundo o estudo) é frequentemente excluída dos cálculos dessas empresas. 

Apenas quatro companhias divulgam estimativas abrangentes de suas emissões: Nestlé (Suíça), Danone (França), Friesland/Campina (Holanda) e NH Foods (Japão), afirma o estudo. 

Já a JBS reporta que suas emissões anuais são equivalentes a 8,9 milhões de toneladas de CO2, mas, considerando toda a cadeia de produção, a cifra real seria 30 vezes maior: em torno de 280 milhões de toneladas, afirma o estudo. 

As emissões humanas de gases do efeito estufa devem ser drasticamente reduzidas para que seja possível atingir a meta de aquecimento de 1,5ºC, estipulada no Acordo de Paris

"A produção de carne e laticínios deve ser reduzida significativamente nos países em que os 35 maiores gigantes da carne são particularmente ativos", afirmou Devlin Kuyek, da Grain, se referindo aos países da União Europeia, Estados Unidos, Canadá, Brasil, Argentina, Austrália, Nova Zelândia e China.


Tecnologia Nos Mares Usa Vento Para Reduzir Emissão de CO2

Um navio de grande porte pode produzir poluição atmosférica equivalente à de milhões de automóveis. A Maersk Tankers está testando velas gigantes de rotor em uma tentativa de reduzir as emissões. 

Içar a vela principal - que parece um tubo vertical gigante - e ligar uma bateria do tamanho de um ônibus pequeno: os armadores* estão tentando abordagens novas e audaciosas para melhorar o desempenho ambiental em um contexto de crescente pressão regulatória. A Maersk Tankers está testando duas velas mecânicas de quase 30 metros de altura em um de seus navios de transporte de combustível, enquanto a norueguesa Golden Energy Offshore Services anunciou que encomendou para seus navios dois sistemas de armazenamento de energia à bateria da Rolls-Royce Holdings.

*Existem três tipos de armadores: o proprietário, que é o dono e explora diretamente o navio; o gerente, que opera uma embarcação que pertence a vários proprietários; e o locatário, que recebe o poder de administrar um navio que não é de sua propriedade. Fonte: A Tribuna

Os armadores, responsáveis por transportar cerca de 90% do comércio mundial, precisam reduzir pela metade as emissões de carbono até 2050. Esse objetivo coloca muita pressão para encontrar inovações bem-sucedidas porque há sinais de que a taxa de melhoria do desempenho ambiental do setor começa a desacelerar. Os testes de velas mecânicas, que usam o vento para substituir até 20% da potência de propulsão de navios, têm sido bem-sucedidos até agora, disse Tuomas Riski, CEO da Norsepower Oy Ltd., que fornece as velas do empreendimento com a Maersk

Os outros parceiros do projeto são o Energy Technologies Institute e a Shell Shipping & Maritime. As velas reduzem comprovadamente 6,8% das emissões dos navios offshore e o objetivo é que as reduções cheguem a 10%. O sistema Rolls-Royce adiciona um gerador à bateria, que pode operar sozinho por horas a fio, se navegando à baixa velocidade, a um motor principal a diesel. A bateria também pode ser usada como motor de reserva durante um período mais curto em caso de emergência. 

Inovação 

Depois que uma disparada dos preços do petróleo em meados da década passada estimulou inovações para otimizar o desempenho de navios e motores, há sinais de que esses avanços estão começando a atingir o auge. 

A média de emissões de dióxido de carbono por contêiner por quilômetro para as rotas globais de transporte oceânico foram reduzidas em apenas 1% entre 2016 e 2017, segundo um estudo publicado pelo Clean Cargo Working Group [2017 Global Maritime Trade Lane Emissions Factors]. Desde que o grupo começou a divulgar dados do setor em 2009, as emissões por contêiner por quilômetro caíram 37% em média. 

O comércio marítimo vem se expandindo constantemente há décadas, assim como as distâncias que os navios devem percorrer para fazer as entregas. Os envios chegarão a 11,95 bilhões de toneladas de carga neste ano, 38% a mais do que em 2008, segundo dados da Clarkson Research Services, parte da maior corretora de navios do mundo. As milhas por tonelada, ou seja, o volume de carga multiplicado pela distância percorrida, aumentaram 43%, para 59,28 trilhões no mesmo período. "Para o setor, este é um passo significativo na direção certa", disse o CEO da Golden Energy, Per Ivar Fagervoll, sobre os sistemas à bateria. Sua empresa estuda a possibilidade de que mais de seus navios usem os sistemas.

Por: Ellen Milligan (Bloomberg); com a colaboração de Alaric Nightingale, Steve Voss, Tom Hall e Christian Wienberg.

Importância Do Brasil Na Biodiversidade Mundial É Maior Do Que Se Pensava, dizem cientistas

Recifes de coral cobrem apenas 0,1% dos oceanos, mas são responsáveis pela sobrevivência de mais de 200 milhões de pessoas.

Quase um quarto de todos os peixes de água doce do mundo - mais precisamente 23% - estão nos rios brasileiros. Assim como 16% das aves do planeta, 12% dos mamíferos e 15% de todas as espécies de animais e plantas. 

Esses números estão sendo compilados pela primeira vez por cientistas brasileiros após a publicação do estudo O futuro dos ecossistemas tropicais hiperdiversos [The future of hyperdiverse tropical ecosystems], divulgado em 25/07/2018 na revista Nature

"Já imaginávamos que o Brasil tinha essa quantidade de espécies, mas os números exatos estavam espalhados em bases de dados muito diferentes pelo mundo. É uma combinação de dados única", disse à BBC News Brasil a bióloga Joice Ferreira, da Embrapa Amazônia Oriental, que participou do estudo e lidera os esforços para compilar os dados brasileiros. 

"A condição do Brasil é muito única, mas, nas discussões políticas, o papel que o país tem na biodiversidade mundial é pouco considerável. Precisamos de um conjunto de políticas muito mais fortes e atuantes para lidar com essa biodiversidade." 

O estudo, realizado por um grupo de 17 cientistas, incluindo quatro brasileiros, é a maior revisão de dados sobre a biodiversidade nos trópicos, segundo o biólogo marinho, zoólogo e botânico britânico Jos Barlow, da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, que liderou a pesquisa. 

"Sempre soubemos que a região era importante. Mas encontramos números surpreendentes. Mostramos, por exemplo, que 91% de todos os pássaros do mundo passam ao menos parte de suas vidas nos trópicos. Isso é incrível", disse à BBC News Brasil

"Eu também fiquei impressionado com o fato de o Brasil ser responsável por um quarto dos peixes de água doce. Geralmente, esses ecossistemas são ignorados." 

Os ecossistemas tropicais – florestas, savanas, rios e lagos e recifes de coral – concentram mais de três quartos das espécies do planeta.

Perda acelerada de espécies tropicais

No estudo, a equipe internacional de cientistas alerta para o fato de que a falta de ações de conservação e monitoramento dos ecossistemas tropicais pode causar, em breve, uma perda sem precedentes de espécies - muitas das quais sequer são conhecidas. 

Os ecossistemas tropicais - florestas, savanas, lagos e rios e recifes de coral - cobrem 40% do planeta, mas abrigam mais de três quartos (78%) de todas as espécies. 

Além disso, desses ecossistemas dependem as vidas de centenas de milhares de pessoas. Os recifes de coral, por exemplo, são responsáveis pela subsistência e pela proteção de mais de 200 milhões, apesar de só cobrirem 0,1% dos oceanos. 

Em todos esses locais, dizem os pesquisadores, a flora e a fauna sofrem a "ameaça dupla" das atividades humanas, como o desmatamento e a pesca predatória em excesso, e de ondas cada vez mais frequentes de calor, causadas pela mudança climática. 

"A maior parte dos cientistas foca em apenas um bioma. Mas nós mostramos que todos os ecossistemas tropicais estão sofrendo dos mesmos problemas", diz Barlow


Espécies nos trópicos podem ser perdidas em breve por causa da atividade humana e do aquecimento global, mas são menos 'lembradas' do que as de regiões polares, segundo pesquisadores.

"Quando falamos em mudança climática, falamos muito do seu impacto nas regiões polares, mas isso está devastando os trópicos. E o mundo parece ter dado um passo atrás no que se refere ao compromisso com ações relacionadas ao meio ambiente." 

Para Joice Ferreira, da Embrapa, também é preciso considerar que a maior parte dos países tropicais são regiões mais pobres, com menor capacidade de pesquisa. 

"Nossa região alimenta todas as outras do mundo com recursos naturais, mas a maior parte das pesquisas sobre os trópicos é liderada por países desenvolvidos", afirma. 

"Isso nos coloca numa situação de vulnerabilidade, porque temos uma capacidade menor de resposta às mudanças climáticas. Estamos colocando em risco um número muito grande de espécies."

 O Brasil tem 16% das aves de todo o planeta; 91% das aves do mundo passa ao menos parte da vida nos trópicos.

Dificuldade para catalogar dados no Brasil

Segundo Barlow, um dos principais problemas das regiões tropicais é a falta de investimento na coleta e na catalogação de espécies. Ou seja, sequer sabemos tudo o que está em perigo com o aumento das temperaturas globais. 

Atualmente, cerca de 20 mil novas espécies são descobertas no mundo a cada ano. Mas, nesse ritmo, os pesquisadores estimam que seriam necessários pelo menos 300 anos para catalogar toda a biodiversidade do planeta. 

"Descrever novas espécies tem que ser um trabalho colaborativo global, com pesquisadores tendo acessos a recursos e espécimes em muitos museus e coleções. Mas tudo isso é dificultado pela burocracia excessiva - algo que o Brasil conhece muito bem", diz o britânico. 

Ferreira diz que ainda falta no Brasil um programa "abrangente e integrado de avaliação da biodiversidade". A maior parte das pesquisas, ela afirma, é feita em locais de fácil acesso - como a beira dos rios e as margens de estradas - e na região Sudeste, onde se concentra a maior parte dos pesquisadores. 

"Tentamos aos trancos e barrancos cumprir as metas internacionais, mas é tudo muito grosseiro e genérico. Num país muito menor como o Reino Unido, se conhece a fauna e a flora de cada quilômetro do país", compara. 

"Precisamos fazer programas de monitoramento amplo em todos os biomas brasileiros e programas de conservação nos outros biomas, além da Amazônia. Mas o que vemos é justamente o contrário disso, um corte massivo de financiamento para ciência e tecnologia, especialmente nos recursos humanos." 

Em 2014, o governo brasileiro criou o Sistema de Informação Sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr), uma espécie de atlas das espécies do país, ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC). A iniciativa, no entanto, avança a passos lentos na tarefa de catalogar apenas o que já se sabe sobre a fauna e a flora nativas. 

"Nunca chegamos numa amostragem de toda a biodiversidade espacial. O território brasileiro é grande demais, nunca tivemos investimento com regularidade suficiente e os programas de pesquisa nunca se preocuparam em traçar uma estratégia que abrangesse o território todo", disse à BBC News Brasil a bióloga Andrea Nunes, coordenadora de biomas do MCTIC e diretora geral do SiBBr.

 Sistema de catalogação da biodiversidade brasileira tem cerca de 15 milhões de registros, mas falta financiamento e cultura de compartilhamento de dados, diz bióloga.

O principal obstáculo encontrado pelo sistema é justamente a dificuldade de convencer os pesquisadores a registrarem, uma por uma, todas as espécies que já pesquisaram. 

"O Brasil não tem cultura de compartilhamento de dados. Esse problema começa pela própria academia, que usa dados de biodiversidade para a publicação de teses de mestrado, doutorado, e quase joga esses dados fora. Muitos pesquisadores acham que faz parte desse trabalho deles compartilhar esses dados primários", afirma a diretora. 

"Além disso, o MCTIC apoiava as instituições de pesquisa pagando bolsistas para estruturar os dados e alimentar o sistema. Há cerca de um ano e meio, não podemos mais oferecer essa ajuda." 

Nunes estima que, atualmente, o SiBBr tenha cerca de 15 milhões de espécies em sua base de dados. Mas só nas seis principais coleções do Brasil - ou seja, nas instituições como a Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o Museu de Zoologia de São Paulo - pode haver até 40 milhões de registros. 

"Imagine que essas coleções ainda não foram completamente catalogadas no nosso sistema, e que o Brasil tem mais de 300 coleções do tipo. Ninguém sabe o número total de registros de espécies que temos. Até porque pode haver muita coisa duplicada", diz.

Por: Camilla Costa (BBC).

Calor Deve Aumentar Reprodução de Insetos e Afetar Produção de Alimentos no Mundo

Número de insetos deve aumentar conforme as temperaturas se elevarem nas áreas temperadas do planeta, aumentando a perda de arroz, milho e trigo. 

Estudo divulgado pela revista científica Science mostra que as perdas podem ser maiores do que o inicialmente estimado; além de favorecer reprodução de insetos, calor deve deixá-los ainda mais famintos. 

Cientistas já alertaram para o impacto das mudanças climáticas na produção de alimentos. A elevação das temperaturas médias e o aumento dos chamados eventos extremos, como secas e inundações, terão um impacto negativo no cultivo de grãos responsáveis por alimentar boa parte da crescente população mundial. 

Mas um estudo publicado em 30/08/2018, na revista científica Science [Ravenous insects may be coming for our crops in a warming world] revela que essas perdas podem ser ainda maiores do que o inicialmente estimado, por causa da atividade de um outro grupo de criaturas famintas: os insetos. A nova pesquisa, coordenada pela Universidade de Washington, nos EUA, mostra que as populações de insetos devem aumentar nas regiões temperadas - onde a elevação das temperaturas favorecerá sua reprodução. E o calor favorece sua taxa metabólica, tornando-os mais famintos. 

O trabalho científico estima que as perdas nos cultivos de arroz, milho e trigo serão de 10% a 25% para cada grau Celsius de aumento da temperatura média do planeta. Ou seja, um aumento de 2°C (que já é praticamente dado como certo) pode levar as perdas desses cultivos a aproximadamente 213 milhões de toneladas por ano. 

"Esperamos ver um aumento das perdas de produção por duas razões básicas", explicou um dos autores do estudo, Curtis Deutsch, professor de Oceanografia da Universidade de Washington. "Em primeiro lugar, as temperaturas mais elevadas aumentam a taxa metabólica dos insetos exponencialmente; em segundo lugar, com exceção dos trópicos, temperaturas mais altas favorecem a taxa reprodutiva dos insetos. Ou seja, teremos mais insetos e eles vão comer mais." 

Em 2016, as Nações Unidas estimaram que pelo menos 815 milhões de pessoas em todo o mundo não se alimentavam adequadamente. Milho, arroz e trigo são os cultivos essenciais para cerca de 4 bilhões de pessoas e respondem por dois terços das calorias ingeridas na forma de alimentos, de acordo com a agência. 

"Os impactos do aquecimento global nas infestações por pragas vão agravar os problemas da insegurança alimentar e danos ambientais em todo o mundo", disse outra autora do estudo, Rosamond Naylor, da Universidade Stanford, e diretora do Centro de Segurança Ambiental e Meio Ambiente, em comunicado sobre o trabalho. 

"O aumento do uso de pesticidas, o uso de organismos geneticamente modificados e outras práticas agrícolas como a rotação das culturas podem ajudar a controlar as perdas. Mas, sob praticamente todos os cenários das mudanças climáticas, as pragas vencem, sobretudo nas regiões temperadas de alta produtividade, causando aumento nos preços e insegurança alimentar." 

A Europa será a região mais atingida, segundo o estudo. Atualmente considerada a maior produtora de trigo do mundo, a Europa pode perder até 16 milhões de toneladas do cultivo por conta dos insetos. Onze países europeus podem registrar um aumento de até 75% nas perdas de trigo, como Reino Unido, Dinamarca e Irlanda

Os insetos podem ainda provocar grandes impactos nos cultivos de milho e arroz na América do Norte e na Ásia. Os Estados Unidos - os maiores produtores de milho do mundo - podem registrar um aumento de 40% nas perdas ocasionadas por insetos, uma redução de mais de 20 milhões de toneladas anualmente. Na China, que é responsável pela produção de um terço de todo o arroz consumido no mundo, as perdas anuais podem alcançar 27 milhões de toneladas. 

"Espero que nosso trabalho demonstre a importância de reunirmos mais dados sobre como as pragas vão impactar as perdas dos cultivos num mundo cada vez mais quente", disse Deutsch. "Porque, coletivamente, nossa escolha, agora, não é se vamos permitir ou não que o aquecimento global aconteça, mas quanto aquecimento somos capazes de tolerar."

Por: Roberta Jansen  (O Estado de S. Paulo).

Um Vulcão Indonésio e a Derrota de Napoleão em Waterloo

A Batalha de Waterloo, de William Sadler. Estudo relaciona o fim do imperador francês às chuvas provocadas pela erupção do Tambora, em 1815.

Os historiadores sabem que a chuva e a lama ajudaram o Exército britânico e seus aliados a derrotarem Napoleão Bonaparte na Batalha de Waterloo, em 18 de junho de 1815. Agora, o doutor Matthew Genge, do Imperial College de Londres, afirma que as condições climatológicas que influíram naquele episódio histórico foram consequência da erupção do monte Tambora, na Indonésia, dois meses antes. 

Esse vulcão da ilha de Sumbawa entrou em erupção e matou 100.000 pessoas antes de desencadear o chamado ano sem o verão, 1816. Genge sugere que a erupção desse vulcão causou um “curto-circuito” na ionosfera, o que finalmente conduziu a um impulso de formação de nuvens. Isso levou fortes chuvas para toda a Europa, que contribuíram para a derrota de Napoleão, conforme conclui em sua pesquisa, publicada na revista Geology [Napoleon’s defeat at Waterloo caused in part by Indonesian volcanic eruption]. 

Assim descrevia o fenômeno Brian Fagan, catedrático emérito de Antropologia na Universidade da Califórnia, em um artigo no El País: "Em 5 e 10 de abril de 1815, o monte Tambora, um vulcão situado em Sumbawa, no arquipélago indonésio, entrou repentinamente em erupção. A eclosão atirou imensas nuvens de poeira e cinzas à atmosfera. Mais de 12.000 pessoas morreram nas primeiras 24 horas, sobretudo por causa da chuva de cinzas e pelo fluxo piroclástico. Outras 75.000 pessoas morreram de fome e doenças depois da maior erupção em mais de 2.000 anos. Milhões de toneladas de cinzas vulcânicas e 55 milhões de toneladas de dióxido de enxofre se ergueram a mais de 32 quilômetros na atmosfera. As fortes correntes de vento arrastaram para o oeste as nuvens de gotas em dispersão, de forma que deram a volta à Terra em duas semanas. Dois meses mais tarde, estavam no Polo Norte e no Polo Sul. As finíssimas partículas de enxofre permaneceram suspensas no ar durante anos. No verão de 1815-1816, um véu quase invisível de cinzas cobria o planeta. O manto translúcido refletiu a luz do sol, esfriou as temperaturas e causou estragos climáticos em todo o mundo. Assim nasceu o tristemente famoso ‘ano sem verão’: 1816". 

O confronto de 18 de junho de 1815, a não muitos quilômetros de Bruxelas, entre tropas de várias nacionalidades – de um lado a França; do outro, aliados ingleses, prussianos, holandeses, belgas, e alemães – foi o fim do sonho imperial de Bonaparte, que tinha campeado vitorioso pela Europa até começar a sofrer reveses na Espanha. Tudo o que cercou aquela jornada desperta um fascínio compartilhado tanto pelo mundo científico como pelos aficionados da história militar. "Em Waterloo, Napoleão poderia ter ganhado, e talvez seja por isso que nunca deixarão de ser escritos livros sobre aquela jornada", dizia o historiador italiano Alessandro Barbero ao El País numa reportagem por ocasião do bicentenário da batalha. 

Fome, frio e protestos

A erupção provocou um frio que gelou as lavouras da América do Norte, onde ainda nevava em junho de 1816, e reduziu de forma notável as temperaturas na Europa, que chegaram a três graus negativos na Espanha em pleno verão. Na França, enquanto seu imperador era derrotado, multiplicavam-se os distúrbios pelo aumento do pão, por causa da falta de grãos. 

Os resultados experimentais deste novo estudo são consistentes com os registros históricos de outras erupções. Dado que os registros meteorológicos de 1815 são escassos, para provar sua teoria o pesquisador examinou os registros meteorológicos posteriores à erupção de outro vulcão indonésio, o Krakatoa, em 1883, e do Monte Pinatubo, nas Filipinas, em 1991.


Acidificação dos Oceanos Deve se Intensificar nas Próximas Décadas

Assunto deverá ganhar destaque no próximo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU. Foto: Marshall Arts Studio / Pixabay.

Considerado um dos fenômenos que mais afetam os oceanos atualmente, a acidificação oceânica só foi mencionada pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) em seu quinto relatório de avaliação (AR5), publicado em 2013 – o primeiro relatório é de 1990. 

O órgão da ONU destaca no Sumário para formuladores de políticas públicas do AR5 que o oceano tem absorvido cerca de 30% do dióxido do carbono atmosférico (CO2) emitido pela ação humana (antropogênico). 

O aumento da concentração e da dissolução de CO2 tem diminuído o pH da água superficial dos oceanos desde o início da era industrial e aumentado sua acidez, afirmaram os autores do relatório. A partir de então, a acidificação dos oceanos passou a integrar todos os cenários de mudanças futuras do clima. 

O tema deve ganhar ainda mais destaque no AR6 – previsto para ser finalizado em 2021 – e no Relatório Especial sobre o Oceano e a Criosfera em um Cenário de Mudanças Climáticas, que deve ser finalizado pelo IPCC em setembro de 2019, estimou Jake Rice, membro do grupo de especialistas da Avaliação Mundial dos Oceanos da ONU

Especialista em ecologia e biologia marinha, conselheiro e cientista-chefe do Departamento de Pesca e Oceanos do Canadá, Rice é um dos pesquisadores convidados da São Paulo School of Advanced Science on Ocean Interdisciplinary Research and Governance. O evento, realizado pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), com apoio da FAPESP, ocorre até 25 de agosto no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. 

"Há uma confiança muito alta de que a acidificação dos oceanos tem aumentado e têm sido bastante documentado os efeitos desse fenômeno em organismos marinhos que dependem de carbonato de cálcio para seus processos de calcificação", disse Rice

"As séries temporais de observação dos oceanos, que permitiriam estimar a taxa e a trajetória desse fenômeno ao longo das últimas décadas, contudo, são muito curtas. As de acidez oceânica em águas costeiras, por exemplo, datam de pouco antes de 2005", disse. 

De acordo com o pesquisador, os modelos de sistemas terrestres projetam um aumento global na acidificação e diminuição no pH oceânico em todos os cenários de emissão e concentração de gases de efeito estufa, mas com grandes e incertas variações regionais e locais. 

Os países em desenvolvimento e as pequenas ilhas dos trópicos, que dependem de recursos marinhos, serão os mais afetados diretamente ou indiretamente pelo fenômeno. 

Os impactos negativos da acidificação oceânica devem variar de mudanças na fisiologia e comportamento dos organismos (como moluscos) e na dinâmica populacional e afetarão os ecossistemas marinhos (como os recifes de corais), durante séculos se as emissões de CO2 continuarem no ritmo atual. Mas há uma série de outros impactos, muitos dos quais ainda não compreendidos, ponderou Rice

"A acidificação dos oceanos ilustra vários dos desafios que temos enfrentado em ciência do oceano. É preciso mais dados que nos permitam estabelecer relações entre as propriedades físicas de sistemas dinâmicos, com impactos biológicos nos ecossistemas e na sociedade", disse. 

Na opinião do canadense, um dos fatores que tornam mais difícil fazer ciência dos oceanos em comparação com as ciências da terra é a maior facilidade em entender a dinâmica terrestre porque vivemos em terra. Dessa forma, é possível ver e analisar diretamente como o sistema terrestre funciona. 

"Nossa compreensão do oceano precisa prestar mais atenção às evidências e menos à percepção de que é possível entendê-lo por analogia ou inferência do conhecimento sobre a terra e seus sistemas biofísicos", disse Rice

Mais informações sobre a São Paulo School of Advanced Science on Ocean Interdisciplinary Research and Governance: http://espca.fapesp.br/escola/72.

Por: Elton Alisson (Agência Fapesp).

Como as Reações Químicas Ajudam Seu Carro a Poluir Menos?

Catalisador é fundamental na transformação de gases tóxicos em substâncias inofensivas ao meio ambiente.

Você sabia que a química auxilia na redução da poluição produzida pelos veículos automotores? Isso acontece graças à ação do catalisador automotivo, um componente capaz de transformar até 98% dos gases tóxicos provenientes da combustão em substâncias inofensivas à saúde humana e à qualidade do ar. 

De acordo com a Umicore, principal fabricante de catalisadores no país, isso acontece porque a peça possui uma combinação de óxidos e metais preciosos, como platina, paládio e ródio que, incorporados a uma estrutura porosa, entram em contato direto com os gases de exaustão. As reações químicas, que têm origem com esse contato, convertem os poluentes em compostos não tóxicos. 

Os catalisadores automotivos mais utilizados atualmente em veículos leves movidos à gasolina e etanol são conhecidos como catalisadores de três vias, pois convertem os três principais poluentes simultaneamente. Através de reações de oxidação, o componente transforma os hidrocarbonetos (HC) e o monóxido de carbono (CO) em gás carbônico (CO2) e água. Já por meio de reações de redução, os óxidos de nitrogênio (NOx) são convertidos em nitrogênio (N2). 

Na prática, como isso contribui para a saúde e qualidade do ar? 

Durante sua vida útil (entre 10 e 15 anos), o catalisador tem por missão reduzir de cinco a dez vezes a poluição emitida pelos veículos automotores. Se o produto não existisse, o meio ambiente receberia cerca de uma tonelada de poluentes, por veículo, ao longo do referido período. Ou seja, cada carro deixa de emitir 300 gramas de gases por dia e 110 quilos por ano. 

Porém, para seu perfeito funcionamento, é importante que os motoristas mantenham as revisões do veículo em dia. Cabe salientar que falhas em outras peças e uso de combustível de má qualidade afetam diretamente o catalisador, fazendo com que o componente não entregue 100% de sua eficiência.

Fonte: RMAI.

Governo Desenha Plano Nacional de Eletromobilidade

Documento prometido para novembro de 2018 trará diretrizes para a expansão do segmento no Brasil

Depois de anunciar o Rota 2030 e definir a redução do IPI para carros híbridos e elétricos, o governo trabalha agora na elaboração do Plano Nacional de Eletromobilidade, proposta de diretrizes para estimular o mercado do segmento no Brasil, reduzindo o abismo que separa a frota brasileira da presente em países desenvolvidos. 

O projeto foi anunciado pelo ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), Marcos Jorge de Lima. No dia 1º de agosto de 2018 ele participou da abertura do Simea, evento promovido pela AEA, Associação de Engenharia Automotiva. A promessa dele é apresentar o programa em novembro de 2018 com visão para os próximos quatro anos. 

A pasta identificou a demanda por estruturar um plano durante as discussões do grupo de trabalho de veículos híbridos e elétricos, o GT7, formado para desenhar as medidas para o Rota 2030. Entre os integrantes do time estavam montadoras, entidades ligadas ao setor de energia, além de fornecedores de tecnologia e componentes. "Percebemos esta necessidade e decidimos trabalhar em uma proposta dentro do governo", contou Ricardo Zomer, analista da secretaria de desenvolvimento e competitividade industrial do MDIC, que também participou do Simea. Segundo ele, o ministério é o órgão que capitaneia a iniciativa. 

Política públicas e visão de longo prazo 

Zomer conta que o documento pretende unificar o debate sobre eletromobilidade, que hoje está disperso entre os vários elos que podem ser impactados pela expansão do setor. Além disso, o plano pretende desenhar estratégias de longo prazo e propor políticas públicas que viabilizem a expansão deste mercado. 

"Nenhum país maduro conseguiu desenvolver um mercado interessante de veículos elétricos sem oferecer incentivos. Vamos ter de resolver isso no nosso contexto de restrição fiscal", diz. Além de reunir empresas e entidades envolvidas no tema, a iniciativa engloba também o Promob-e, projeto de coordenação técnica entre Brasil e Alemanha desenhado para que o país europeu transfira a sua experiência no setor e contribua para o surgimento de um mercado nacional de carros elétricos. A ideia é entender assim aspectos como quais incentivos são mais efetivos e quem deve assumir a responsabilidade de desenvolver a infraestrutura de recarga. 

As respostas para cada problema serão esboçadas por subgrupos de trabalho, cada um deles focados em um assunto: viabilidade econômica da tecnologia, baterias, regulamentação da energia e do produto, desenvolvimento da cadeia produtiva e capacitação e o desenho de um segmento de veículos elétricos levíssimos, para um ou dois ocupantes. "É algo muito positivo para a mobilidade urbana, mas que ainda não tem presença no Brasil", diz Zomer. Ele acredita que é justamente nas grandes cidades onde que a eletrificação vai avançar de forma consistente. 

Brasil combinará elétricos com tecnologia flex 

A Anfavea, entidade que representa as montadoras, calcula que foram vendidos 3,2 mil veículos eletrificados no Brasil em 2017, volume pífio, que responde a apenas 0,2% do mercado total do ano. Segundo Zomer, para aumentar esta participação será preciso desenhar atuação ampla e conjunta. 

"Precisamos trabalhar para que o Brasil não seja expectador dos avanços globais, mas assuma papel de protagonista com o desenvolvimento de soluções interessantes localmente", avalia. 

O analista entende que o Brasil terá fórmulas próprias para a eletromobilidade, combinando a propulsão com energia elétrica ao carro flex, que já é uma matriz mais limpa do que os combustíveis fósseis que dominam a maior parte do mundo. 

"A eletrificação será gradual, com o avanço dos sistemas elétricos nos veículos e a coexistência entre a nova tecnologia e os veículos bicombustíveis tão presentes na nossa frota", resume.

Por: Giovanna Riato (Automotive Business).

Rota 2030: Como o Programa Vai Funcionar na Prática e Influenciar os Carros Vendidos no Brasil?

Linha de montagem da fábrica da FCA em Goiânia (GO). Programa ainda está vago, mas presidente da Anfavea afirma que consumidor brasileiro terá acesso a carros mais modernos e eficientes.

No dia 05/07/2018 foi anunciado o programa Rota 2030, que estabelece as bases de uma política industrial do setor automobilístico pelos próximos 15 anos. O objetivo de um programa como esse é estimular a modernização do setor a longo prazo e também estabelecer as regras para isenção de impostos. Para conseguirem benefícios fiscais, as montadoras deverão se comprometer a investir em pesquisa e desenvolvimento de veículos mais eficientes e seguros. Mas como essas regras vão funcionar na prática e beneficiar os consumidores? 

Quais são as metas a serem atingidas pelo Rota 2030? 

Para ganharem incentivos fiscais de até R$ 1,5 bilhão por ano, as fabricantes de veículos deverão investir até R$ 5 bilhões na área de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) por ano e melhorar a eficiência energética de seus veículos em 11% até 2022. Ou seja, as montadoras habilitadas serão obrigadas a reduzir o consumo de combustível de seus veículos nos próximos três anos. 

Se a redução no consumo de combustível e emissões for maior do que a meta de 11%, as empresas poderão ganhar benefícios adicionais. "As empresas que se habilitarem poderão ganhar um desconto adicional no IPI, que vai de 1% a 2%, se elas superarem as metas obrigatórias", afirma Antonio Megale, presidente da Anfavea

Mas para esse benefício valer, os veículos também deverão possuir uma etiquetagem, que trará todas as informações sobre a eficiência energética e os itens obrigatórios de segurança, o que é bom para o cliente, de acordo com Megale

Mas de que forma o Rota 2030 vai beneficiar o consumidor? 

Os carros vão ficar mais baratos no Brasil? Não necessariamente. "O foco do programa não é esse. O foco é assegurar que os investimentos em pesquisa e desenvolvimento sejam feitos no Brasil", explica o presidente da Anfavea. O discurso do porta-voz do setor é que o consumidor brasileiro terá acesso a carros mais tecnológicos, no mesmo padrão de mercados desenvolvidos. 

Megale, no entanto, afirma que o Rota 2030 pode sim favorecer a queda nos preços de veículos híbridos e elétricos, produtos hoje pouco acessíveis. O programa determina a redução de impostos para os veículos equipados com essas tecnologias. A alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para esses produtos que hoje é de 25% deverá cair para patamares entre 7% e 20%. Para veículos híbridos que combinarem à tecnologia flex, algo ainda em desenvolvimento, haverá um bônus de 2% de desconto no IPI. Mas esta implementação está prevista para começar apenas em novembro de 2018, segundo Megale

Megale ainda afirma que o avanço tecnológico e nos equipamentos de segurança vêm para o bem do consumidor. As informações sobre esses itens também constarão na rotulagem do veículo, o que garante ainda mais que este esteja dentro das exigências do programa. 

O Rota 2030 exige a produção de carros mais seguros?

Sim, mas apenas no médio prazo. O programa ainda está vago em vários aspectos, mas deve ser complementados nos próximos meses. Por enquanto, o texto prevê um cronograma para a indústria oferecer novos itens de segurança obrigatórios em seus automóveis. Mas a previsão de inclusão desses novos equipamentos está sendo verificada pelo Contran, juntamente com o Denatran, e deve ser determinada nos próximos meses. "Estamos trabalhando junto com os órgãos governamentais na implementação de legislações obrigatórias para esses novos itens e as empresas terão que cumprir", afirmou Megale.

Por: Tabatha Benjamin (Revista Auto Esporte).