Translate / Traduzir

Plástico, Tinta e Cosméticos Emitem Mais Gases Cancerígenos Do Que Carros - diz estudo da revista Science

Sabe o cheiro de tinta que fica em uma sala com paredes recém-pintadas? O perfume de xampu durante o banho? Ou o cheiro de plástico na embalagem da TV novinha? São os COV's (Compostos Orgânicos Voláteis), subprodutos da destilação do petróleo, a matéria-prima de todos esses materiais - excetuando o que não é feito à base do óleo fóssil. Eles são agentes de poluição do ar e prejudiciais à saúde, podendo causar câncer. 

Um estudo publicado na revista Science [Volatile Chemical Products Emerging as Largest Petrochemical Source of Urban Organic Emissions] mostra que o problema é bem maior do que se imaginava. COV's também são emitidos por produtos derivados do petróleo. Mas os compostos que evaporam de produtos que usamos no dia a dia contribuem para a poluição do ar de forma equivalente à queima de gasolina ou diesel pelos veículos, mostra a pesquisa. 

Os COV’s, emitidos tanto pelos combustíveis quanto por produtos industrializados, sofrem reações que geram gases nocivos à saúde, como tolueno, benzeno, propeno. Alguns deles, como o benzeno, são cancerígenos. Os COV’s também são um dos principais precursores de ozônio e formam partículas finas, ambos prejudiciais à saúde.

"O que esse grupo fez e que ninguém tinha feito foi quantificar o impacto de COV's dos produtos do dia a dia", diz o físico Paulo Artaxo, da USP (Universidade de São Paulo). "A emissão por esses materiais é significativa", completa.

Apesar desses produtos de uso diário comporem a menor parte dos derivados de petróleo que utilizamos, eles contribuem com ao menos metade dos COV's lançados na atmosfera, de acordo com os estudo liderado por Brian C. McDonald, da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos.

Clique na imagem para ampliar o gráfico!
A emissão de COV's, no entanto, não está ligada ao aquecimento global, causado por gases estufa, como o gás carbônico, emitido pela queima de combustíveis.

O grupo liderado por Brian C. McDonald utilizou dados de poluição do ar, de química atmosférica e de estatísticas de poluição industrial da cidade de Los Angeles, na Califórnia, para chegar aos resultados.

"A alta fração de emissões de COV's por produtos derivados de petróleo são consistentes com as medições urbanas observadas em ambientes interiores [domésticos] e exteriores", dizem os pesquisadores. Eles mostram que enquanto esses produtos componham menos de 5%  do total de derivados de petróleo usado em Los Angeles, a contribuição para emissão de COV's chega a quase 50%.

Como poluem mais que os carros?

Segundo os pesquisadores, regulamentações que impuseram quantidades limites de emissões de COV's por veículos fizeram com que a participação da queima de gasolina e diesel na poluição do ar urbano diminuísse. Contudo, não havia dados sobre o impacto das emissões por produtos industrializados de uso diário.

"A queima de combustível produz monóxido e dióxido de carbono, além de partículas.A emissão de COV's pelos automóveis é proporcionalmente pequena", explica Artaxo.

Contudo, ele pondera que a participação de carros na poluição por gases nocivos à saúde é grande. " Em São Paulo, por exemplo, há milhões de automóveis circulando. Jamais haverá comparável vinda de produtos industrializados", diz o professor da USP.

O que fazer para evitar poluição?

No artigo, os pesquisadores argumentam que para melhor combater a poluição do ar, é necessário entender quais as fontes mais importantes de COV's. Nesse sentido, o estudo dá maior clareza ao problema.

Segundo estudo, enquanto a regulação das emissões pelos escapamentos criados nos últimos anos nos EUA e na Europa fizeram com que a emissão de COV's por automóveis diminuísse, conter as emissões de pesticidas, revestimentos, tintas, adesivos, produtos de limpeza, de higiene pessoal e plásticos em geral continua sendo um desafio.

"Existem plásticos que emitem menos COV's, como sacolas biodegradáveis", opina Artaxo. "Se mudar o processo produtivo do plástico, é possível diminuir muito [a emissão de compostos voláteis poluentes]", completa.

Contudo, segundo o pesquisador, o novo estudo mostra mais uma faceta da poluição provocada por produtos industrializados derivados do petróleo e a necessidade de diminuição de seu uso.

Por: Fernando Cymbaluk (UOL Notícias).

Partículas Ultrafinas de Aerossol Intensificam as Chuvas na Amazônia

Na floresta tropical, as partículas de poluição emitidas pelas cidades afetam substancialmente a formação de tempestades. Partículas de aerossol são essenciais no processo de formação de nuvens – Foto: GOAmazon e Projeto CHUVA.

Um estudo divulgado no dia 25 de janeiro de 2018 na revista Science revelou como a presença atmosférica de partículas ultrafinas de aerossol – aquelas com diâmetro menor do que 50 nanômetros (ou bilionésimos de metro) – pode intensificar o processo de formação de nuvens e também as chuvas que caem sobre a região amazônica. 

De acordo com os autores do artigo, sempre se acreditou que essas nanopartículas tinham papel desprezível na regulação do ciclo hidrológico – o que, de fato, é verdade em regiões continentais poluídas, como as cidades europeias, norte-americanas ou mesmo São Paulo. Na Amazônia, porém, seu papel é diferente. 

“A descoberta permite compreender melhor como a poluição urbana afeta os processos relacionados à formação de tempestades convectivas na Amazônia e deve aumentar a acuidade dos modelos climáticos e de previsão do tempo”, disse Luiz Augusto Toledo Machado, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coautor do estudo. 

A investigação teve início em 2014 e foi conduzida no âmbito da campanha científica Green Ocean Amazon (GOAmazon). 

O apoio da Fapesp ao trabalho agora publicado se deu por meio de três projetos – um coordenado por Henrique de Melo Jorge Barbosa, professor do Instituto de Física (IF) da USP, outro por Paulo Artaxo, também do IF, e o terceiro por Machado

Como explicou Barbosa, os dados usados no artigo foram coletados durante a estação chuvosa de 2014 – entre os meses de março e abril –, período em que a Amazônia está livre das queimadas e, portanto, em que a única fonte de poluição relevante é a cidade de Manaus

Manaus é uma cidade com cerca de 2 milhões de habitantes, mais de 500 mil veículos e abastecida por termelétricas. É, portanto, uma grande fonte poluidora cercada de floresta pristina. Nosso principal sítio experimental foi instalado em Manacapuru – cidade situada a 80 quilômetros da capital amazônica e que, alternadamente, recebe a pluma de poluição carregada pelos ventos alísios e também ar limpo da floresta”, disse Barbosa

Com o auxílio de instrumentos capazes de medir a concentração de aerossóis na atmosfera e calcular o tamanho das partículas, bem como o de radares que medem o tamanho das gotículas de nuvem, a quantidade de chuva e a velocidade com que o vapor é levado da superfície terrestre para a nuvem, o grupo comparou como ocorria o processo de convecção (movimento vertical dos gases causado pela transferência de calor) e de formação de nuvens quando a pluma de Manaus estava ou não presente sobre Manacapuru

“As partículas de aerossol são essenciais no processo de formação de nuvens porque são elas que oferecem uma superfície para o vapor d’água se condensar. As gotículas formadas pela condensação são pequenas, mas elas acabam colidindo umas com as outras e, assim, crescendo. As gotas aumentam de tamanho e, quando ficam pesadas o suficiente, precipitam”, explicou Barbosa

Normalmente, apenas as partículas maiores do que 50 nanômetros atuam como núcleos de condensação de nuvens (CCN, na sigla em inglês). Segundo os pesquisadores, é mais fácil para o vapor se condensar nas partículas grandes por ser menor a menor tensão superficial, a força de atração entre as moléculas de água que permite aos mosquitos pousar na superfície de um lago. 

“Em cidades mais poluídas, ou na época seca na Amazônia, há muitas partículas na atmosfera e, portanto, existe uma forte competição pelo vapor d’água que emana da superfície terrestre. Portanto, a população de gotículas que se forma tem maior número e menor tamanho do que teria se não houvesse poluição. Assim, ela demora mais tempo até crescer o suficiente para chover”, explicou Machado

Por esse motivo, acrescentou o pesquisador, a nuvem acaba se desenvolvendo muito no sentido vertical e, como a parte de cima é mais fria, ocorre a formação de gelo. “A intensa formação de gelo favorece o desenvolvimento de tempestades, ou seja, de nuvens intensas com raios”, disse. 

O processo descrito pelo pesquisador é conhecido pelos especialistas em clima como cloud invigoration, algo como intensificação da nuvem. O trabalho publicado na Science revelou que na região amazônica as nanopartículas também podem influenciar nesse processo, o que era desconhecido. 

Como na floresta tropical a umidade relativa e a temperatura do ar são muito altas, e como há poucas partículas grandes na atmosfera no período chuvoso, o vapor em excesso acaba se condensando também nas nanopartículas e o processo de cloud invigoration ocorre na parte baixa da nuvem, onde a água está no estado líquido. Esse processo de formação de gotas de chuva libera calor latente que acelera o movimento vertical do ar, aumentando a intensidade da tempestade. 

“Para se ter uma ideia, a velocidade do vento dobrava quando havia muitas nanopartículas na atmosfera”, disse Rodrigo Souza, professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) que também participou do estudo. 

Trabalhos de modelagem foram feitos pelo grupo para confirmar a hipótese levantada com base nos dados atmosféricos coletados. O modelo atmosférico usado foi o Weather Research and Forecasting (WRF), um programa de última geração, mas que falhava em representar alguns aspectos importantes do ciclo hidrológico da Amazônia por ter sido desenvolvido com base em observações do hemisfério Norte. 

“Foi preciso adaptar o modelo para a nossa região”, disse o professor Helber Gomes, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). 

Preenchendo lacunas 

“Nunca entendemos como podem ocorrer aguaceiros tão frequentes na Amazônia se a região tem tão poucos núcleos de condensação de nuvens – algo na ordem de 300 ou 350 partículas por centímetro cúbico [São Paulo, por exemplo, chega a ter de 10 mil a 20 mil]. Mas é porque nunca havíamos considerado o papel dessas partículas ultrafinas de aerossol”, comentou Artaxo, coautor do artigo. 

De acordo com o pesquisador, a descoberta mostra que os cientistas que estudam as regiões tropicais não devem se basear apenas em conceitos desenvolvidos em países de clima temperado. “Precisamos olhar para as particularidades da Amazônia. É possível que no passado, quando a atmosfera global ainda não estava poluída pelas emissões humanas, esse fenômeno de intensificação de tempestades também ocorresse em outras regiões do planeta. Mas não sabemos ao certo e precisamos aprofundar as investigações”, disse Artaxo

Na avaliação de Machado, os achados deverão alterar não apenas os modelos climáticos como também o modo como teorias são formuladas e dados atmosféricos são coletados. 

“Agora que foi mostrada a importância das nanopartículas no processo de intensificação da chuva nunca mais vamos estudar as nuvens da mesma maneira. Isso modifica a forma de pensar todo o processo”, comentou. 

O grupo ainda pretende trabalhar em novos dados e modelos para investigar até que ponto as conclusões válidas para a Amazônia podem ser extrapoladas para outras regiões do globo. “Sabemos que é preciso uma energia brutal para levar todo esse vapor d’água para 12 a 14 quilômetros de altura. Essa energia vem do sol e está disponível na Amazônia”, disse Artaxo

O trabalho de coleta e análise dos dados contou com a participação de cientistas do Brasil, Estados Unidos, Israel, China e Alemanha. Parte das medidas foi feita com o avião americano Gulfstream-1 (G1), pertencente ao Pacific Northwest Laboratory (PNNL). 

Também apoiaram a campanha GOAmazon a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e o Departamento de Energia dos Estados Unidos (DoE, na sigla em inglês), além de outros parceiros. 

Realizado em 2014 e 2015, o experimento teve entre seus objetivos investigar o efeito da poluição urbana de Manaus sobre as nuvens amazônicas e avançar no conhecimento sobre os processos de formação de chuva e a dinâmica da interação entre a biosfera amazônica e a atmosfera. Com base nos achados, os pesquisadores pretendem estimar mudanças futuras no balanço radiativo, na distribuição de energia, no clima regional e seus impactos para o clima global (leia mais em: http://agencia.fapesp.br/18691). 

O artigo Substantial Convection and Precipitation Enhancement by Ultrafine Aerosol Particles, de Jiwen Fan, Daniel Rosenfeld, Yuwei Zhang, Scott E. Giangrande, Zhanqing Li, Luiz A. T. Machado, Scot T. Martin, Yan Yang, Jian Wang, Paulo Artaxo, Henrique M. J. Barbosa, Ramon C. Braga, Jennifer M. Comstock, Zhe Feng, Wenhua Gao, Helber B. Gomes, Fan Mei, Christopher Pöhlker, Mira L. Pöhlker, Ulrich Pöschl e Rodrigo A. F. de Souza, pode ser lido em http://science.sciencemag.org/content/359/6374/411.

Por: Karina Toledo (Agência Fapesp).

Muro Vivo em Madeira Tipo 'Cribwall'




Muitas metodologias são utilizadas para a estabilização de taludes, alguns dos mais usuais são: diminuição da inclinação do talude, revestimento do talude, drenagem superficial...

 O cribwall, estrutura de contenção que consiste em um arranjo estrutural de madeira, na forma de gaiola, é preenchido com solo compactado, pedras e mudas;
 Estrutura simples ou dupla, são formados por caixas resultantes da sobreposição de troncos transversais e longitudinais, fixados por cavilhas;
 As caixas de troncos devem ser preenchidas com material vegetal - para garantir o desenvolvimento da vegetação – além de pedras, blocos irregulares e similares;
 Em ecossistemas aquáticos, devem ser cravados os troncos verticais à estrutura em contato com a água;
 Utiliza-se troncos de diâmetro entre 12-40 cm (pinheiro, castanheiro, loureiro), barras de ferro de diâmetro entre 12-14 mm, terra vegetal, estacas, plantas em torrão/raiz, faxinas, malha orgânica de fibra de coco;
A utilização de uma ou mais técnicas, permite melhor estabilização dos locais impactados.



Contra Poluição, China Constrói Megatorre de Purificação de Ar

Imagem da torre de purificação de ar em Xian, na China. (© Academia Chinesa de Ciências / Reprodução).

Na busca por soluções para enfrentar a poluição atmosférica, a China resolveu construir um purificador de ar do tamanho de um prédio na cidade de Xian, província de Shaanxi, no norte do país. A estrutura de 100 metros de altura, inaugurada em 2017, ainda está em fase experimental, mas os primeiros resultados começam a aparecer. 

Segundo pesquisadores do Instituto de Meio Ambiente da Terra na Academia Chinesa de Ciências, desde que a torre foi ativada no ano passado, foi possível verificar uma melhora na qualidade do ar ao longo de uma área de 10 quilômetros quadrados, relata o South China Morning Post

O ar é sugado para dentro da torre e é aquecido nas estufas localizadas na sua base com ajuda da energia captada por painéis solares. Uma vez aquecido, o ar sobe pela torre e passa por uma série de filtros até ser expelido. 

Depois de passar por esse processo, o ar apresenta uma redução de 15% no nível de partículas PM2,5, as menores e mais nocivas à saúde. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a China é o país mais mortal do mundo no quesito poluição do ar, um flagelo que reivindica um milhão de vidas em todo o país a cada ano. 

CAUTELA

Em face disso, impossível não vibrar com o potencial que a tecnologia guarda. Mas calma lá. Alastair Lewis, professor de química atmosférica no Centro Nacional de Ciências Atmosféricas da Universidade de York, nos Estados Unidos, pondera que o efeito “despoluidor” pode se diluir na atmosfera. 

Isso aconteceria porque o ar que as pessoas respiram no nível da cidade está em constante movimentação dentro de uma camada atmosférica que chega a 1 quilômetro de altura. Um projeto precisa ser robusto o suficiente para dar conta do desafio. Pelos cálculos do pesquisador, a torre chinesa só limparia 0,01% do ar que circula na cidade. 

“Trate com cautela particular qualquer estudo que reivindique uma breve intervenção local que tenha conduzido a reduções atribuíveis na poluição. Muitas vezes, há um forte desejo social e político de ver um efeito, mas a realidade pode ser decepcionante e a evidência muitas vezes não é conclusiva”, escreve Lewis no site de análise científica The Conversation

Ele também sinaliza o fato dos dados do estudo chinês não serem públicos, o que dificulta a checagem dos resultados. Seja como for, os cientistas daquele país estão eufóricos com a torre purificadora e planejam uma nova estrutura de 500 metros de altura e 200 metros de largura, com estufas cobrindo 30 quilômetros quadrados, que segundo eles, poderia melhorar o ar de uma pequena cidade.

Por: Vanessa Barbosa (Exame).

Captura de CO2 Não Será Solução Para a Mudança Climática

Céu poluído na região de Madri, visto a partir da localidade de Paracuellos de Jarama. Foto: Víctor Sainz.

Cientistas europeus advertem para a limitada utilidade das tecnologias de emissão negativa de carbono. Cair nesta tentação climática é bastante fácil. “Achar que a tecnologia virá em resgate se não conseguirmos mitigar [reduzir as emissões de gases do efeito estufa] suficientemente pode ser uma visão atraente”, admite Thierry Courvoisier, presidente do Comitê Assessor Científico das Academias Europeias (EASAC, na sigla em inglês). Mas criar “expectativas pouco realistas” sobre essas tecnologias poderia ter consequências irreversíveis para as gerações futuras, escreve esse astrofísico suíço em um relatório da instituição [Negative Emission Technologies: What Role in Meeting Paris Agreement Targets?]. 

Courvoisier se refere à luta contra a mudança climática e, especificamente, às chamadas tecnologias de emissão negativa – basicamente, capturar e armazenar os gases do efeito estufa da atmosfera, como forma de controlar o aquecimento global. 

O Acordo de Paris, um pacto internacional que deve guiar a luta contra a mudança climática durante este século, definiu como objetivo que o aumento médio da temperatura do planeta até 2100 seja inferior a dois graus Celsius, e que na medida do possível seja limitado a 1,5 grau. Para isso, aponta a necessidade de “um equilíbrio entre as emissões antropogênicas” e “a absorção” dos gases do efeito estufa através de “ralos” na segunda metade do século. Ou seja, abria-se a porta para essas tecnologias de emissão negativas como ferramenta para alcançar as metas de Paris

Mas o EASAC, composto pelas academias nacionais de ciências dos países membros da União Europeia, analisou em um relatório especial elaborado por 12 pesquisadores o impacto potencial dessas tecnologias e concluiu que elas não terão como desempenhar um papel fundamental. “Essas tecnologias oferecem uma limitada possibilidade realista de retirar o dióxido de carbono da atmosfera, e não na escala prevista em alguns cenários climáticos”, diz o texto. 

Embora o relatório reconheça o papel que essas técnicas poderiam desempenhar no futuro, ele acrescenta que isso não ocorreria “nos níveis necessários para compensar medidas de mitigação insuficientes”. Ou seja, os Governos não poderão compensar com a captura de CO2 – o principal gás do efeito estufa – os cortes das emissões que deixarem de ser feitos, fundamentalmente, no setor energético, o qual responde por cerca de 80% do dióxido de carbono expelido pela economia europeia. 

Quando um Estado ratifica o Acordo de Paris, que se foi selado em 2015 na capital francesa, deve apresentar planos nacionais de reduções das suas emissões. Mas os que estão atualmente sobre a mesa, abrangendo o período compreendido entre 2020 e 2030, são insuficientes para alcançar a meta dos dois graus. A ONU estima que, até 2030, as emissões mundiais teriam que estar em torno de 40 bilhões de toneladas de carbono por ano; entretanto, ao aplicar os compromissos nacionais dos signatários do memorando, estima-se que até lá o mundo estará emitindo 55 bilhões de toneladas de CO2 por ano. E o problema é que essa discrepância tenderá a aumentar ao longo das décadas, esgotando rapidamente o chamado “orçamento do carbono” – o volume de gases do efeito estufa que a humanidade pode emitir daqui até o final de século se quiser cumprir a meta dos dois graus. É aí que entrariam em jogo as tecnologias de emissão negativa, para retirar da atmosfera os gases expelidos a mais. 

O EASAC conclui que, com o nível de conhecimento atual, essas tecnologias não poderão salvar o acordo. E adverte que a implantação das medidas de captura do dióxido de carbono em grande escala implicaria “altos custos econômicos e provavelmente importantes impactos sobre os ecossistemas terrestres ou marítimos”. O estudo também alerta que, nos cenários previstos pelo IPCC (um grupo de cientistas que analisa a mudança climática sob a égide da ONU), confere-se um papel fundamental às tecnologias de emissão negativa. De fato, o relatório aponta que, em 344 dos 400 cenários propostos pelo IPCC para o cumprimento da meta dos dois graus, será necessária a captura de CO2 em grande escala. 

O estudo do EASAC conclui, portanto, que os Governos devem “se dedicar a reduzir rapidamente as emissões de gases do efeito estufa” e revisar para cima, conforme estabelece o Acordo de Paris, seus compromissos a cada cinco anos. 

MAIS RENOVÁVEIS E MAIS EFICIÊNCIA ENERGÉTICA 

Entre as técnicas de emissão negativa que o EASAC analisa constam o reflorestamento, a bioenergia gerada a partir de dióxido de carbono capturado e a captura direta do CO2 atmosférico. Entretanto, depois de analisar as diferentes técnicas, o relatório das academias conclui, partindo dos conhecimentos atuais, que seu potencial é muito limitado. 

Por isso ela cobra dos membros da União Europeia e do resto de potências mundiais que se esforcem ao máximo para “mitigar as emissões” dos gases do efeito estufa. E oferece os caminhos a seguir: a eficiência energética e a economia de energia mediante medidas técnicas e regulamentações, a rápida implantação das energias renováveis, a boa gestão dos usos do solo... 

A mensagem do Comitê Assessor Científico das Academias Europeias, entretanto, chega num momento de pouco otimismo. Após três anos seguidos de estagnação nas emissões mundiais de CO2 do setor energético e industrial, elas voltaram a crescer no ano de 2017. As estimativas do grupo Global Carbon Project estabelecem que em 2017 aumentaram 2% e bateram um novo recorde. Paralelamente, o acúmulo de dióxido de carbono na atmosfera também está em níveis inéditos.

Por: Manuel Planelles (El País).

Edição Genética É Chave Para Segurança Alimentar?

Uma das doenças que ameaçam invadir a Europa é a ferrugem do caule do trigo, causada pelo fungo conhecido como Ug99.

Num mundo afetado por mudanças climáticas, secas extremas e inundações ameaçam produção de alimentos. Cientistas dizem que resposta está em plantas editadas geneticamente, mas ambientalistas pedem cautela. Agricultores no Zimbábue estão lutando para se adaptar às mudanças das condições meteorológicas. No entanto, mal as plantações de milho sobrevivem a uma estiagem, elas logo são castigadas por fortes chuvas. 

Trata-se de um padrão comum em todo o mundo. O aumento das temperaturas e as chuvas irregulares estão dificultando a produção de alimentos. E as coisas parecem que vão piorar nas próximas décadas. 

Se a temperatura global aumentar 2°C, mais de um quarto das áreas terrestres do planeta pode ficar exposto permanentemente a secas, segundo recente estudo publicado na revista científica Nature Climate Change

O aquecimento global também está aumentando a propagação de doenças e infecções de plantas que florescem em condições quentes e úmidas. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) advertiu em seu último relatório, de 2014, que as mudanças climáticas podem afetar todos os aspectos da segurança alimentar, incluindo produção, acesso e preços. 

Pesquisadores do Centro de Pesquisa de Desenvolvimento da Universidade de Bonn calcularam que a produção mundial de alimentos pode cair 20% até 2050 – quando a população global deverá atingir 9,8 bilhões de pessoas. 

Para evitar uma crise alimentar provocada pelo clima, a maneira como se produzem e se distribuem alimentos deve se adaptar a um ambiente mutável. Uma solução poderia ser a edição genética de alimentos para torná-los mais resilientes e aumentar a produtividade das plantações. 

Menos doenças 

Na Universidade Justus Liebig, de Giessen, na Alemanha, o cientista Karl-Heinz Kogler luta contra doenças que afetam o trigo e outras culturas. Sua nova arma é a técnica de edição genética Crispr-Cas9. Ela permite que ele literalmente edite organismos, removendo partes de DNA responsáveis ​​por resultados indesejáveis. 

Recentemente, Kogler e sua equipe editaram o genoma do trigo para criar uma nova variedade que é resistente ao bolor. "É um avanço imenso", disse o cientista à DW. "Isso não teria sido possível por meio do cruzamento natural, porque o trigo tem um genoma muito complexo." 

Cientistas estão aclamando ferramentas de edição de genes como Crispr-Cas9 por permitir mudanças rápidas e precisas no DNA das plantas. A velocidade do processo é especialmente útil por tornar as plantações mais resilientes ao clima, enquanto os pesquisadores podem reagir mais rapidamente a novas doenças, explicou Kogler

Espera-se que infecções fúngicas se alastrem para o Hemisfério Norte à medida que o clima se tornar mais quente e mais úmido. Uma das doenças que ameaçam invadir a Europa é a ferrugem do caule do trigo, causada pelo fungo conhecido como Ug99 – ele foi descoberto em Uganda em 1999 – e que já provocou estragos na África e no Oriente Médio. A enfermidade está avnöando lentamente rumo ao norte e estima-se que ela também venha a destruir colheitas inteiras no continente europeu. 

Adaptar plantas a novas condições através do cruzamento natural pode levar ao menos dez anos. Com o método Crispr, os cientistas podem adaptar plantações dentro de semanas. Considerando o tempo para teste e reteste, uma planta resistente a doenças poderia estar disponível num espaço de dois anos, diz Kogler

Maiores colheitas 

Também em outros países, cientistas estão trabalhando na edição genética com vista à segurança alimentar. Zachary Lippman, pesquisador do laboratório Cold Spring Harbor no estado americano de Nova York, disse querer aumentar a produtividade das colheitas com o Crispr

"As atuais taxas de aumento da produtividade de plantações não atenderão às futuras demandas agrícolas do planeta à medida que cresce a população humana", afirmou Lippman em comunicado. "Uma das limitações mais severas é que a natureza não forneceu variação genética suficiente com a qual se possa trabalhar." 

Os pesquisadores editaram os genes de um tomate de três formas diferentes para fazer três mudanças distintas na forma como a planta cresce: tamanho do fruto, padrão de ramificação e forma geral. Esse método permite aos cientistas adaptar uma planta a necessidades específicas e a condições ambientais, bem como aumentar o rendimento das plantações, disse Lippman

Sua colega Heike Sederoff, pesquisadora na Universidade da Carolina do Norte, utilizou o Crispr para aumentar a quantidade de óleo produzido por sementes. Para Sederoff, a edição genética é o futuro da agricultura. 

"Isso nos permitirá criar plantas com melhor resistência abiótica contra qualquer efeito ambiental – de seca e inundações a alterações de temperatura e mudanças na virulência e mobilidade de pragas", explicou Sederoff à DW

Edição genética versus OGM 

Ambientalistas estão menos entusiasmados. "Novas técnicas de engenharia genética devem ser tratadas como armas carregadas. São imprevisíveis e potencialmente desastrosas", afirma Dana Perls, ativista sênior de tecnologia e alimentos na rede internacional de organizações ambientais Friends of the Earth

Ela alertou para que os novos métodos não sejam tratados de forma leviana, exigindo uma regulamentação rigorosa. 

"Precisamos de governança internacional, de regulação de mercado e meio ambiente, de avaliações de riscos ambientais e de saúde – de longo prazo e revisadas pelos pares – sobre essas novas tecnologias antes mesmo de começar a discussão sobre o papel que elas podem desempenhar no futuro da alimentação", diz Perls

Nos Estados Unidos, o primeiro cogumelo editado geneticamente e que resiste ao escurecimento já pode ser cultivado e vendido. O Departamento de Agricultura dos EUA decidiu não submetê-lo ao seu processo regulatório. 

Na Europa, os alimentos geneticamente modificados são fortemente regulados. Mas os reguladores ainda não têm certeza de como classificar os produtos editados geneticamente. 

Os organismos geneticamente modificados (OGMs) são os que tiveram material genético de outros organismos adicionado a eles. Até agora, o Crispr só foi usado para remover pedaços de DNA. Os defensores dessa técnica dizem que, do ponto de vista científico, a edição genética é uma maneira completamente nova de alterar o genoma. 

"As plantas que foram produzidas com Crispr não podem ser diferenciadas daquelas que foram cultivadas naturalmente", apontou Kogler. "E, ao contrário do cruzamento natural, a edição de genes permite mudanças deliberadas e precisas com riscos extremamente pequenos." 

A União Europeia (UE) ainda está discutindo se deve regulamentar as plantas editadas geneticamente da mesma forma que os OGMs. Em outubro de 2017, a Comissão Europeia se encontrou com o Comitê Europeu de Bioética para abordar o tema, mas ainda não anunciou uma decisão.

Por: Katharina Wecker (Deutsche Welle).

A Relação Entre Degradação Ambiental e o Surto de Febre Amarela

Os surtos da doença que atingem humanos no Brasil estão ligados à saúde das populações de macacos.

Há duas versões da febre amarela: uma urbana, transmitida pelo Aedes aegypti (responsável também pela dengue, chikungunya e zika) e uma silvestre, transmitida pelos mosquitos Hemagogos e Sabethes. A febre amarela urbana foi erradicada do país em 1942 com vacinação e combate ao Aedes. A silvestre continua existindo em populações de macacos. Mosquitos fêmeas que picam esses macacos se infectam com o vírus e podem transmiti-lo para humanos quando os picam. 

Christovam Barcellos, líder do grupo de pesquisas Impactos Ambientais Globais Sobre a Saúde, do Instituto de Comunicação e Informação da Fundação Oswaldo Cruz, afirma que há uma diferença preocupante entre o surto atual da doença e os que ocorreram em toda a segunda metade do século XX no país. 

Normalmente, as pessoas infectadas são aquelas que vão até as matas, como é o caso de populações ribeirinhas, pescadores ou ecoturistas. Lá, são expostas aos mosquitos que transmitem a febre amarela dos macacos, o grande reservatório do vírus responsável por ela. Isso resulta em pequenos surtos localizados. 

Desta vez, a infecção está partindo de pequenos fragmentos de matas e chegando a pequenas cidades da zona rural, onde a densidade populacional é maior, e se espalhando por uma ampla região geográfica (...), diz Barcellos. Ou seja, é a doença que está indo até as pessoas. 

“Esse surto é bem diferente, um pouco aterrorizante até, com uma interface rural e urbana. Não é mais uma doença da Amazônia, das grandes massas de florestas, onde tem uma concentração grande de mosquitos e macacos.” 

Segundo Barcellos, é provável que desequilíbrios ambientais ainda não completamente compreendidos estejam afetando as populações de macacos e fazendo com que os indivíduos da espécie migrem, contribuindo para a propagação da doença. 

A relação entre meio ambiente e a febre amarela 

A febre amarela está ligada a problemas ambientais de duas formas principais. A primeira, mais conhecida e estudada, diz respeito ao fato de que quando há desequilíbrios por problemas como poluição, desmatamento ou secas, macacos podem ficar estressados e com fome. Seu sistema imunológico fica mais fragilizado, eles adoecem mais e transmitem mais doenças. 

Essa associação aos macacos é necessária para que a doença chegue aos humanos, a ponto de as secretarias estaduais de saúde acompanharem e divulgarem dados sobre a morte de macacos por febre amarela, já que eles são um indicador do risco para as pessoas. 

Sob estresse, macacos também podem migrar dos locais em que vivem em busca de melhores condições, e isso contribui para a propagação de doenças por uma região geográfica maior. 

De acordo com Barcellos, é possível que exatamente isso esteja acontecendo agora. Os macacos estariam sendo empurrados para fora das regiões que habitam devido a problemas ambientais e partindo para fragmentos de mata atlântica e cerrado junto a pequenas cidades, carregando consigo o vírus. 

“Há apenas hipóteses sobre qual seria a origem desse desequilíbrio no ambiente em que vivem os macacos. Pode ser uma maior fragmentação dessas matas ou uma crise geral, por exemplo, uma seca, que obriga os macacos a se moverem”, afirma o pesquisador. 

A fragmentação de florestas também é um problema porque ela isola populações de macacos, que passam, por esse motivo, a se reproduzir mais com parentes próximos, o que diminui a diversidade genética e as torna mais vulneráveis a doenças. Em entrevista concedida em janeiro de 2017 à Agência Brasil, Servio Ribeiro, biólogo e professor de ecologia da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), afirmou que “quando um vírus alcança um macaco de uma população sem diversidade genética ele rapidamente se dissemina”. 

A hipótese do desastre da Samarco 

Parte dos municípios atingidos pelo surto de febre amarela está na trajetória do Rio Doce, afetado pelo rompimento da barragem do Fundão, em Mariana (MG), em novembro de 2015. Além de ter provocado 19 mortes, os 32 milhões de metros cúbicos de lama despejados deixaram um rastro de destruição pelos 700 quilômetros do rio. 

Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, a bióloga Marcia Chame, coordenadora da Plataforma Institucional de Biodiversidade e Saúde Silvestre na Fundação Oswaldo Cruz, afirmou que a tragédia de 2015 pode ter relação com o aumento anormal no número de casos de febre amarela. 

Ela é, no entanto, cautelosa em relação a uma associação direta. “Não há dados disponíveis que possam correlacionar a tragédia de Mariana aos casos”, afirmou em seu perfil do Facebook.

Por: André Cabette Fábio. (Nexo Jornal).

Soja Contribui Pouco Para Desmatamento na Amazônia, conclui relatório

Fruto de um esforço intersetorial, um relatório, encomendado anualmente pelo Grupo de Trabalho da Soja (GTS), indica que, nos últimos 11 anos, embora a área de semeadura de oleaginosa tenha triplicado, a soja respondeu somente por 1,2% do total desflorestado por corte raso (quando há remoção absoluta da vegetação de um local) na Amazônia

A área de cultivo saltou de 1,14 milhão de hectares (ha) na safra 2006/2007 para 4,48 milhões de hectares durante a safra de 2016/2017, diz o relatório, divulgado 10/01/2018. 

O anúncio foi feito em reunião no Ministério do Meio Ambiente, que, ao lado de entidades como a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais, firmou um compromisso proposto em 2006 pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), para impedir, a partir do segundo semestre de 2008, práticas em desacordo com o Código Florestal relacionadas ao cultivo do produto na região. Chamado de Moratória da Soja, o acordo envolve, além do governo e produtores, representantes da sociedade civil, como Greenpeace, WWF Brasil, The Nature Conservancy, o Earth Innovation Institute e o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola

Foi com base no monitoramento de 89 municípios de sete estados – Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Amapá, Maranhão e Tocantins – que se concluiu que 98,8% do desmatamento não foram causados pela conversão de florestas para a sojicultura e que a redução média dos danos às florestas nos locais da cobertura foi de 85%, passando de 6.847 quilômetros quadrados por ano (km²/ano)n no período de 2002 a 2008, para 1.049 km²/ano, de 2009 a 2016. Além disso, a equipe evidenciou que apenas nove municípios concentravam 62% da soja preparada em uma cadeia irregular. Os sete estados abrangem 97% da área plantada dos sojicultores do bioma. 

Tradicional expoente do grão, Mato Grosso foi o estado que mais se desviou das técnicas que evitam a devastação, com um total de 36,1 mil hectares (76,3%) deteriorados. Em seguida, vieram o Pará, com 7,4 mil hectares (15,7%), e o Maranhão, com 2,2 mil hectares (4,7%). Muito do sucesso considerado pelo grupo foi atribuído à ideia de produtores que souberam aproveitar áreas de pastagens que já haviam sofrido danos em períodos que antecederam o pacto nacional de desmatamento zero. 

Os números, consolidados com o auxílio de imagens obtidas por satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, foram comemorados pelo ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho. Ele disse que esse resultado mostra equilíbrio entre a produção e conservação ambiental. "Praticamente acabou o desmatamento por plantio de soja na Amazônia, nos últimos anos", afirmou Sarney Filho

As imagens captadas mostraram 47,4 mil hectares de plantio de soja, na safra 2016/17, em desflorestamentos realizados no bioma desde 22 de julho de 2008, sinalizando um aumento de 27,5% (37,2 mil ha) em relação à safra passada, de 2015/2016. No decorrer dos oito últimos anos, foram desflorestados 4.107 mil hectares no bioma Amazônia, sendo que nos 89 municípios avaliados, na safra 2016/17, a área desflorestada foi de 839 mil hectares, isto é, 20% desse total. 

Com a moratória, a taxa média de desflorestamento observada nesses municípios foi 6,5 vezes menor do que no intervalo de 2002 a 2008. 

Também membro do grupo, Paulo Adario, estrategista sênior de florestas do Greenpeace, reconheceu que o país está sob ameaça de uma bancada ruralista no Congresso Nacional, que advoga fortemente a favor de seus interesses, os quais frequentemente colidem com o cumprimento da legislação ambiental já existente. E é por essa razão que, em sua opinião, deve-se buscar, ao menos, manter esses dispositivos legais a salvo. 

"Lamentavelmente, não podemos garantir que não haverá retrocessos", ressaltou Adario

Outra preocupação expressa durante a apresentação em 10/01/2018 foi a de amplificar a moratória do bioma Amazônia para o Cerrado, que, segundo os presentes ao encontro, é particularmente complexo. 

Cadastro Ambiental Rural 

Questionado pela Agência Brasil sobre a possibilidade de o adiamento do prazo para adesão dos produtores ao Cadastro Ambiental Rural ser interpretado pelo mercado externo como um fator gerador de insegurança jurídica ou mesmo de descrédito dos preceitos do Código Florestal, o ministro afirmou que não vê problemas. 

Sarney Filho argumentou que o governo federal está fazendo sua parte e que a administração estadual também deve assumir sua cota de responsabilidade para atingirem, juntos, os objetivos relativos à conservação dos recursos naturais, sem prejuízo à produtividade agrícola.

Por: Letycia Bond. Edição: Nádia Franco. Fonte: EBC.

#SenhorEco 5 Anos | Compromisso Ético Com A Realidade Contemporânea

Por definição, cultura é toda forma de intervenção humana na natureza transmitida de geração a geração nas diferentes sociedades; criação exclusiva dos seres humanos, múltipla e variável, no tempo e no espaço, de sociedade para sociedade; e através dela é possível compreender comportamentos sociais e valores cultivados ou mutáveis ao longo da história. 

Logo, a antropogenia - capacidade do homem interferir no ambiente - é fruto da cultura, podendo variar em civilizações distintas que sempre aprendem tudo com seus semelhantes por meio da comunicação oral e escrita e que por questão de sobrevivência também buscam a satisfação das suas necessidades fisiológicas básicas.

Conforme a filosofia contribui para refletir a respeito dos assuntos do nosso tempo, há de se observar a considerável confluência da ética com a moral - esta tão secular quanto às mais antigas sociedades humanas vivendo de forma organizada de acordo com regras estabelecidas culturalmente -; enquanto a moral abrange valores, normas e condutas sociais, a ética consiste no exame dos juízos de valor que qualificam os atos como "bons" ou "maus". 

Diante da complexidade social e biofísica do vasto e grandioso ecossistema que é o planeta, ou da comunidade que habitamos, somos movidos reiteradas vezes a tomar decisões difíceis que têm sérias implicações sobre a vida das pessoas e sobre nossas vidas individuais; decisões estas que não raro suscitam dúvidas em relação ao procedimento moralmente adequado para determinadas circunstâncias.

Os chamados dilemas morais, investigados sob o crivo da ética, fazem parte do nosso cotidiano servindo de balizadores nas diferentes extensões da presença do homem na Terra e provocando importantes debates sobre a relação entre Estado e cidadãos, empresas e sociedade, humanidade e meio ambiente - devido às transformações sociais, políticas, econômicas e culturais ocorridas nas últimas décadas.

No limiar da Era da Informação, eis que surge então o que denomino como compromisso ético com a realidade contemporânea em um mundo regido pelo Homo acceleratus (o homem dos dias atuais estimulado pelas mudanças aceleradas), quando a preocupação com situações que afetam sobremaneira a nossa vida prática torna-se premente.

Direitos humanos, direitos trabalhistas, combate à corrupção, eliminação do trabalho infantil e do trabalho análogo ao escravo, fim da discriminação racial, igualdade de gênero, respeito às diferenças justa distribuição de renda, combate à fome, proteção aos consumidores, direito de ir e vir, acessibilidade digital, preservação ambiental e mitigação das emissões poluentes são algumas das inúmeras conquistas e reivindicações que demonstram uma sociedade mais atenta e exigente junto ao Poder Público e à classe política para o cumprimento de obrigações legais e morais e imposição de modelos éticos de gestão.

Consciente de tudo isso, a responsabilidade, ao ser empregada para o bem, guia as ações de um ou mais indivíduos de modo voluntário no sentido de promover a melhoria da qualidade de vida para o maior número de pessoas, produzindo consequências positivas através do engajamento, da solidariedade e da gratidão.

A teoria do filósofo Immanuel Kant (1724-1804) formula o seguinte pensamento: "Devo proceder sempre de maneira que eu possa querer também que a minha máxima se torne uma lei universal". Ao criar o site SenhorEco.org [fundado em 5 de janeiro de 2013] cujo nome é uma reverência à ecologia terrestre, minha intenção foi difundir o conhecimento científico conciliado à educação ambiental fazendo que haja o aumento da percepção ecológica das pessoas e mudança de postura da sociedade; mas se não é possível mudar o mundo com o conteúdo de uma página virtual, pelo menos sou grato a você que cedeu parte do seu tempo para ler esse artigo e chegou até aqui!





Referências

• ABDALA, Amir. Ética e responsabilidade social. Rio de Janeiro: SESES, 2014.

• LALANDE, André. Vocabulário crítico e técnico de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1999.



Por: Gustavo Nobio. O autor é técnico em Meio Ambiente formado pela FUNCEFET (RJ) e voluntarioso promotor da Sustentabilidade; articulista, comunicador ambiental e fundador do site SenhorEco.org.

O Iminente Desastre Ambiental Que Ameaça Hong Kong

Ao entrar no campus da Universidade Chinesa de Hong Kong é difícil imaginar que a região esteja enfrentando um desastre ambiental. Em uma manhã de primavera no arborizado campus, que fica no setor chamado Novos Territórios, é possível ver o mar reluzindo sob o olhar da cidade e das íngremes montanhas ao fundo. Não há uma única garrafa de plástico à vista. 

Mas as aparências enganam. Hong Kong pode estar limpa na superfície, mas seus serviços públicos estão se esforçando para manter o lixo no lugar. Apesar das tentativas de controlar o problema, a região produziu 3,7 milhões de toneladas de resíduos urbanos em 2015 - a maior quantidade em cinco anos. 

Para lidar com tanto lixo, a cidade conta com 13 aterros sanitários, que agora estão sendo reutilizados como parques, campos de golfe e quadras esportivas. Apenas três ainda estão abertos. Em alguns anos antes eles também começarão a transbordar. 

"Se Hong Kong continuar assim, alcançaremos o ponto de ruptura até 2020", diz Chan King Ming, quem a reportagem da BBC encontrou no campus da Universidade Chinesa. A estimativa citada por ele é apoiada pelo próprio Departamento de Proteção Ambiental de Hong Kong

Chan é cientista ambiental e político do Partido Neo Democrata de Hong Kong, experiência que lhe deu uma visão profunda das dificuldades sociais, econômicas e tecnológicas de solucionar o problema da cidade. 

"Estamos nos movendo em direção à urbanização insustentável", diz Chan. A situação pode servir de aviso para outros países, já que mais e mais pessoas sentem atração pela vida nas cidades. Isso significa que ambientalistas de todo mundo estarão assistindo atentamente os próximos passos da região. 

Aumento da pressão 

Com cerca de sete milhões de pessoas, amontoadas em uma área de 2 mil quilômetros quadrados, Hong Kong é atualmente o quarto lugar mais densamente povoado do globo (depois de Macau, Cingapura e Mônaco). Com espaço tão escasso, não há muitas áreas disponíveis para construir novos aterros sanitários. 

O turismo apenas aumentou a pressão. À medida que as indústrias da região se mudaram para a China continental, Hong Kong se esforçou para atrair mais visitantes do continente e, assim, movimentar sua economia. 

A culinária local e os shoppings centers estão entre as atrações principais, o que estimula os turistas a gerar resíduos adicionais de alimentos e embalagens. 

"Precisamos deles para impulsionar nossa economia, mas também há inconvenientes", admite Chan

Além dessas questões, está o status de Hong Kong como "economia livre" dentro da China, o que leva o governo a relutar para impor regulações que possam ameaçar o comércio. 

"A região é tida como a economia mais livre do mundo, então os funcionários governamentais tentam fazer o máximo para não intervir nas linhas de produção ou nos comportamentos do consumidor", afirma o cientista ambiental. 

Por isso, hoje há poucas normas sobre uso de embalagens ou qualquer outra medida que possa reduzir o desperdício. 

Assim como muitos outros países, Hong Kong enviava parte de seu lixo à China continental para reciclagem. As empresas chinesas podiam aproveitar a sucata, o plástico e os metais presentes em produtos eletrônicos, mas o país também recebia resíduos inutilizáveis e contaminados (incluindo restos de comida e materiais médicos), o que criava problemas ambientais para suas cidades. 

Como resultado, o governo chinês decidiu proibir a importação de resíduos não processados - um movimento conhecido como Green Fence (cerca verde, em tradução livre) - na esperança de que outras nações higienizassem seu lixo antes de vendê-lo. 

No entanto, Hong Kong ainda não desenvolveu suas próprias plantas de reciclagem o suficiente para compensar a atitude da China. "Então, coisas que teriam sido enviadas para a China para serem processadas estão apenas sendo colocadas no aterro", diz Doug Woodring, ativista ambiental e cofundador da ONG Ocean Recovery Alliance

Como se os próprios resíduos não fossem suficientemente graves, as praias de Hong Kong enfrentam uma crescente chegada de lixo pelo mar. Os ambientalistas não têm certeza de sua origem, mas a onda de resíduos parece ocorrer periodicamente com a mudança dos padrões climáticos. 

"Temos coisas de Taiwan descendo e das Filipinas e do Vietnã subindo", diz Woodring. O material também pode estar saindo da China continental - possivelmente por meio de despejos ilegais ou inundações sazonais que levam o lixo para o mar. "Muitos dos objetos têm escrita chinesa, mas não sabemos onde entraram na água". 

Medidas de controle 

Apesar das constantes advertências, os resíduos municipais de Hong Kong continuaram a crescer nos últimos cinco anos - e o governo precisará agir rapidamente antes que todos os aterros do território transbordem. 

Um grande passo será a introdução de uma "taxa de resíduos", o que forçará os moradores a pagar cerca de 0,11 dólares de Hong Kong (cerca de R$ 0,04, na cotação atual) por cada litro de lixo coletado. A nova legislação, anunciada no início deste ano, deverá entrar em vigor até 2019, e o jornal South China Morning Post estima que a taxa deve custar entre 33 e 54 dólares de Hong Kong (cerca de R$ 14 a R$ 23) por domicílio, por mês. 

Os defensores da legislação citam as experiências de Taipei em Taiwan, e de Seul, na Coreia do Sul, que conseguiram reduzir resíduos em mais de 30% aplicando ações similares. 

O Departamento de Proteção Ambiental de Hong Kong também está avançando nos planos para ter um incinerador de US$ 10 bilhões em Lantau (a maior das ilhas do território, no sudoeste da região). Queimar o lixo pode encolhê-lo até cerca de um décimo de seu tamanho original. Mesmo assim, só é possível queimar uma parte do desperdício - cerca de 30% da produção total da cidade, de acordo com as estimativas de Chan

A solução está longe de ser popular entre os habitantes, que estão preocupados com o aumento da poluição atmosférica que o incinerador pode trazer.

Chan, por sua vez, está mais entusiasmado com os planos para a construção de uma fábrica de processamento de alimentos em Lantau, que reciclaria resíduos das cozinhas comerciais localizadas ao redor do aeroporto. Ele ressalta que horticultores importam muito de seu adubo de países distantes, como a Holanda, enquanto o desperdício de alimentos seria uma fonte local e natural. Tais estruturas também poderiam produzir biogás para abastecer carros. 

"Segundo uma estimativa grosseira, precisaríamos de 20 fábricas desse tamanho para lidar com nossos resíduos alimentares", diz Chan. "Mas acho que vale a pena fazermos isso, porque precisamos reciclar o máximo possível de material utilizável." 

Além disso, o território pode se beneficiar de futuras fábricas de reciclagem de componentes eletrônicos, permitindo aos fabricantes extrair matérias-primas valiosas para exportação - um movimento que poderia impulsionar ainda mais a economia de Hong Kong

Mas esses esquemas precisam de mais apoio governamental, incluindo um sistema eficiente que leve famílias e empresas a separar os diferentes tipos de resíduos - alimentos, plásticos, vidro - na fonte, antes de serem coletados. "No momento, isso está faltando", afirma o cientista. 

O grande volume de resíduos torna difícil separar o aproveitável do descartável após a coleta. "O problema é que agora tudo é colocado em um saco só - comida, graxa e, em seguida, papel, depois plástico - e isso neutraliza o valor de todos os itens", diz Doug Woodring. "Mesmo se você só isolar o lixo molhado do seco, já é mais fácil conseguir algum valor com isso." 

Woodring gostaria que pessoas e empresas calculassem suas "pegadas plásticas" - semelhante à "pegada de carbono" para emissões de gases do efeito estufa -, para que estivessem mais conscientes da sua produção de lixo. "Porque se você não sabe o que produz, não sabe como gerenciá-lo." 

Como mostram Chan e Woodring, medidas ecológicas não precisam desafiar os negócios de Hong Kong, mas podem oferecer novas formas de gerar receita. Woodring, por exemplo, cita o exemplo do Pacific Coffee (um dos muitos cafés em estilo norte-americano da cidade), que recentemente implementou seu próprio esquema de reciclagem, no qual o cliente pode retornar as tampas usadas em troca de um refil gratuito. 

Segundo o ativista, a medida ajuda a empresa a acumular material reciclável ao mesmo tempo em que fideliza o consumidor. Até agora, essas estratégias são raras em Hong Kong, porém é um movimento na direção certa, diz ele. 

A impaciência de Chan é clara ao longo da conversa com a reportagem: o problema tem sido evidente há pelo menos uma década, ele afirma, mas o progresso é lento, com discussões intermináveis em vez de uma política efetiva. "Desperdiçamos todo esse tempo", conclui. Com a inundação de lixo tornando-se iminente, a falta de ação parece não ser mais uma opção.

Por: David Robson (BBC Future).

Brasil Pode Ser Líder na Restauração Florestal

Caso de sucesso, o Corredor ecológico no Pontal do Paranapanema, na Mata Atlântica do oeste paulista, é exemplo de como o Brasil pode avançar na restauração. Na foto à esquerda, a situação em 2011, antes do corredor; e à direita, como ficou depois da restauração, com o corredor de 800 hectares margeando o rio e unindo os fragmentos de floresta. Clique para ampliar!

Muito se fala em reflorestamento, mas menos em restauração florestal. Por trás disso, organizações e movimentos ambientais já se articulam para desenvolver projetos para restaurar florestas e áreas verdes. Na opinião de especialistas ouvidos pelo site ((o))eco, o Brasil pode ser um líder na área de restauração. 

Na opinião do diretor do Programa de Pessoas e Ecossistemas do World Resources Institute (WRI), Craig Hanson, a restauração florestal é uma das estratégias deixada de lado na hora de discutir o combate às mudanças climáticas. 

O assunto foi tema de um encontro promovido pelo BNDES para reunir projetos apoiados pela iniciativa Mata Atlântica do banco e pela Linha Florestal Mata Atlântica, nos dias 21 e 22 de novembro de 2017. 

“As nações se desenvolvem, cortam suas florestas para abrir zonas para a agricultura e o setor industrial, mas a sociedade passa a reconhecer o valor que as florestas oferecem como a água potável e começam a restaurar suas florestas. Não há uma lei, mas há um padrão. A cobertura florestal recua, se estabiliza e depois se restaura”, disse Hanson. São muitas as definições de restauro florestal, mas o grande significado é restaurar os processos ecológicos de uma floresta. “É dar vazão para o processo natural e de resiliência. Em alguns lugares, é preciso acabar com as queimadas, retirar o gado ou abrir espaço para florestas próximas se expandirem. Algumas vezes, é preciso de fato plantar espécies e deixar a natureza tomar o controle. Não há uma única resposta. Mas é preciso dar tempo e uma chance para a floresta recuperar-se”. 

Em busca de um plano nacional 

O Brasil ainda está em fase de elaboração de seu rascunho zero de um plano nacional de restauração de paisagens florestais. O esforço está em fase inicial com encontros de ONGs que ajudam membros do governo a delinear estratégias para serem incluídas neste rascunho. Mesmo com ano de eleições, membros da sociedade civil e governo se mostram otimistas para lançar a política nacional até final de 2014. 

Na opinião de Miguel Calmon, gerente sênior do programa de restauração florestal da IUCN, sediada em Washington, o plano brasileiro deve conter estratégias, diretrizes e formas de implementação a serem postas em prática ao longo de uma década. “O Estado deve liderar esse processo. O plano é pensado para 10 anos, com revisão a cada cinco para se ter resultados concretos”, disse a ((o))eco. 

A restauração tem uma função múltipla na paisagem e pode armazenar carbono reduzindo em 25% ou mais a emissão de gases de efeito estufa. 

(da esq para dir) Carlos Alberto Scaramuzza, diretor de conservação da biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente; Márcio Macedo Costa, área de meio ambiente do BNDES; Miguel Calmon, IUCN; Craig Hanson, World Resources Institute.

Alto custo 

No entanto, restaurar não sai barato. Se existem florestas isoladas nas proximidades de uma área degradada, é possível recuperar a mata facilmente e com baixo custo. “É mais caro plantar cada uma das árvores, mas alguns países tiveram que fazer isso”, afirmou Calmon. O Brasil desenvolve um processo misto, em alguns lugares o solo é bom, há chuva suficiente e às vezes há florestas nas proximidades. “Assim é possível expandir e ter uma regeneração natural. Mas há outros lugares, como na Mata Atlântica, nos quais não há muita floresta e existe alta fragmentação. Nesses casos, é preciso replantar”. 

Na opinião de Calmon da IUCN, a restauração pode se tornar um bom negócio para os proprietários de terra antenados na necessidade de conservar as suas áreas verdes. 

“O Brasil tem milhões de áreas degradas de terras que não geram nenhum tipo de riqueza, degradam o meio ambiente, deixam as áreas mais vulneráveis, impactam na qualidade da água. Precisa-se de um investimento grande, mas que traz rendimentos e benefícios de longo prazo”, disse Calmon. 

Para ele, a restauração tende a ser um novo vetor de desenvolvimento nas áreas que em que é realizada, pois é capaz de alavancar uma economia florestal de geração de emprego e renda. “Falta acreditar que a restauração é um bom negócio. Se isso ficar claro, todo o resto vem atrás”, disse Calmon. 

Para quem vê de fora, o Brasil está seguindo na direção certa. Hanson afirma que o país já reúne pensadores sobre o tema da restauração de florestas tropicais e o conhecimento técnico existe. 

Corredor florestal da Mata Atlântica 

A Mata Atlântica figura como um dos biomas mais ameaçados, do qual resta menos de 10% de sua cobertura original. A conservação da biodiversidade é um desafio ainda mais difícil quando se trata da floresta semidecidual do extremo oeste do estado de São Paulo, o Pontal do Paranapanema. Lá restam apenas 1,4% da floresta remanescente na região. 

É uma área onde assentados da reforma agrária e sem-terras, grandes latifundiários pecuaristas, indústria da cana de açúcar e hidrelétricas no rio Paraná e no rio Paranapanema disputam espaço e criam pressões formidáveis sobre as Unidades de Conservação locais. 

“Lá temos fragmentos florestais que ficaram isolados nessa paisagem hostil”, disse a ((o))Eco Laury Cullen, coordenador de projetos e pesquisas ecológicas do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ). Somente a UHE Engenheiro Sérgio Motta, também conhecida como Porto Primavera, no rio Paraná, tem uma barragem gigante de mais de 10 km de comprimento e um reservatório de 2.250 km2 (quilômetros quadrados). 

Há uma década o IPÊ decidiu lançar-se ao desafio de criar um corredor florestal que reconectasse duas UCs, a Estação Ecológica do Mico Leão Preto (com 6 mil hectares) e o Parque Estadual do Morro do Diabo (com 37 mil hectares). 

Um mapa ideal 

O projeto de corredores florestais é conhecido como o “mapa dos sonhos” para a região onde a meta inicialmente era formar um corredor de 800 hectares. “A gente quer ver essa paisagem que hoje é isolada religada. Dentro de um modelo de conservação de longo prazo, queríamos montar uma equação que pudesse colocar na paisagem todos os atores”, disse Cullen. 

Hoje as duas ilhas de biodiversidade já estão reconectadas. A última árvore foi plantada em outubro deste ano. As equipes do IPÊ e da comunidade local aproveitaram os cursos de água e ampliaram as áreas de conservação ao longo dos rios, assim como utilizaram as áreas de reserva legal, pastagens degradadas e áreas de baixa aptidão agrícola. 

No meio do caminho entre uma UC e outra havia pastagens. “Usamos solos diferentes que, somados, permitiram esse corredor ecológico. O eixo principal passava por duas grandes propriedades”, disse Cullen. 

Restaurar não foi barato e para que a ambição do IPÊ se concretizasse foi necessário concorrer a inúmeros editais e conquistar parceiros como o BNDES, a Duke Energy, a Companhia Energética de São Paulo (CESP) e a Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (ITESP). 

Só o BNDES financiou R$ 3,6 milhões para a recuperação de 200 hectares e o plantio de 400 mil mudas de espécies nativas. 

O custo médio de restauração florestal do programa variou entre R$ 10 a 15 mil por hectare. Ao longo de 800 hectares, a conta saiu entre R$ 8 e 12 milhões. 

Este é considerado o maior corredor florestal restaurado já implementado na Mata Atlântica brasileira, orgulha-se Cullen. O desafio será manter a fiscalização nos próximos anos e monitorar queimadas e tentativas de invasão. 

A ambição não para por aí. O passivo ambiental na região é de quase 70 mil hectares, isto é, 70 mil campos de futebol. Agora Cullen e seus colegas do IPÊ querem reconectar todos os fragmentos florestais ali existentes.

Por: Fabíola Ortiz (O Eco).