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Desmatamento da Mata Atlântica em 2018 Foi o Menor Desde 1985

O desmatamento da Mata Atlântica entre outubro de 2017 e outubro de 2018 caiu 9,3% em relação ao período anterior (2016-2017). É a menor área de desmatamento registrada pela série histórica do Atlas da Mata Atlântica, elaborado pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que monitora o bioma desde 1985. 

O relatório mostra que, no último ano, foram destruídos 11.399 hectares (ha), ou seja, 113 quilômetros quadrados (km²), de áreas de Mata Atlântica acima de 3 hectares nos 17 estados do bioma. No ano anterior, o desmatamento foi de 12.562 hectares (125 km²). Já em 2015-2016, o desmatamento chegou a atingir 29.075 ha. 

Além disso, dos 17 estados da Mata Atlântica, nove estão no nível de desmatamento zero, com desflorestamentos abaixo de 100 hectares, o que equivale a 1 km². 

Esses nove estados são o Ceará (7 ha), Alagoas (8 ha), o Rio Grande do Norte (13 ha), Rio de Janeiro (18 ha), Espírito Santo (19 ha), a Paraíba (33 ha), Pernambuco (90 ha), São Paulo (96 ha) e Sergipe (98 ha). Mais três estados estão se aproximando desse índice: Mato Grosso do Sul (140 ha), Rio Grande do Sul (171 ha) e Goiás (289 ha). 

A diretora executiva da Fundação SOS Mata Atlântica, Marcia Hirota, disse que o resultado positivo tem relação com ações de monitoramento e combate ao desmatamento, realizadas por diversos atores nos últimos anos, incluindo órgãos ambientais estaduais, polícia ambiental, Ministério Público e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). 

"Esses dados comprovam como o acompanhamento da sociedade civil e investimentos dos governos no cumprimento da Lei da Mata Atlântica, por meio dos órgãos de conservação, fiscalização e controle, trazem resultados concretos. Esse tipo de ação precisa ter continuidade", afirmou. A Mata Atlântica é o único bioma brasileiro com lei específica. 

Bahia 

Segundo a SOS Mata Atlântica, o estado da Bahia é um exemplo de como as ações de comando e controle são importantes no combate ao desmatamento. 

Há dois anos, a Bahia foi o primeiro estado do ranking, com 12.288 hectares desmatados entre 2015 e 2016. O número foi maior do que o total de desmatamento registrado nesse último relatório 2017-2018. 

"Naquele ano, o então secretário de Meio Ambiente do estado esteve no Encontro das secretarias de Meio Ambiente dos estados da Mata Atlântica, onde se comprometeu com o combate ao desmatamento e realizou operações de fiscalização", disse Marcia

No ano seguinte, a partir das ações, a Bahia teve uma redução de 67% no desmatamento, com 4.050 hectares desmatados. Agora, no período 2017-2018, houve uma segunda queda, de 51%, apesar de o estado ainda ser um dos maiores em área desmatada. 

Resultados negativos 

O Atlas mostra também que restam 16,2 milhões de hectares de florestas nativas mais preservadas acima de 3 hectares na Mata Atlântica, o equivalente a 12,4% da área original do bioma. Dessas áreas remanescentes de floresta, 80% estão em áreas privadas. 

Apesar dos resultados positivos do relatório do último ano, cinco estados ainda mantêm índices inaceitáveis de desmatamento, segundo avaliação da SOS Mata Atlântica. São eles: Minas Gerais (3.379 ha), o Paraná (2.049 ha), Piauí (2.100 ha), a Bahia (1.985 ha) e Santa Catarina (905 ha). 

O diretor de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, Mario Mantovani, acredita que é preciso ficar atento às mudanças propostas pelo atual governo, que podem reverter as conquistas alcançadas até o momento. "Não podemos permitir o enfraquecimento da gestão ambiental e nenhuma tentativa de flexibilização da legislação", disse.

Por: Camila Boehm / Edição: Kleber Sampaio (Agência Brasil).

“Wood Wide Web”: A Intricada Rede de Raízes, Fungos e Bactérias Que Interliga as Plantas Nas Florestas

Debaixo de cada floresta há uma teia subterrânea complexa de raízes, fungos e bactérias que ajudam a conectar árvores e plantas umas às outras. 

Essa rede subterrânea tem quase 500 milhões de anos e ficou conhecida como “wood wide web” (rede global florestal em tradução livre) analogia à world wide web (www), a rede digital que permite usufruir do conteúdo transferido pela internet). 

Agora, um estudo internacional publicado na renomada revista Nature [Climatic controls of decomposition drive the global biogeography of forest-tree symbioses] produziu o primeiro mapa global da rede de fungos micorrizas (como são chamada as associações entre fungos e raízes) que dominam esse mundo “secreto”. 

Pesquisadores do Laboratório Crowther, da Suíça, e da Universidade de Stanford, nos EUA, usaram uma base de dados da Global Forest Initiative, que cobriu 1,2 milhão de árvores de 28 mil espécies em mais de 70 países. 

Por meio de milhões de observações diretas de árvores e suas associações simbióticas no solo, os pesquisadores puderam construir modelos para visualizar essas redes de fungos pela primeira vez. 

Thomas Crowther, um dos autores do estudo, disse à BBC que é a primeira vez que pesquisadores são capazes de entender o mundo debaixo dos nossos pés, mas numa escala global. 

A pesquisa revela quão importante são as redes de micorrizas para limitar as mudanças climáticas – e como elas são vulneráveis aos efeitos dela. 

"Assim como imagens de ressonância magnética do cérebro nos ajuda a entender como ele funciona, esse mapa global dos fungos subterrâneos nos ajuda a entender o funcionamento dos ecossistemas globais", disse Crowther

"O que descobrimos é que certos tipos de micro-organismos vivem em certas partes do mundo. Entendemos que podemos descobrir como restaurar diferentes tipos de ecossistemas e também como o clima está mudando", completou o professor. 

A perda de grandes partes da rede de micorrizas pode aumentar "o ciclo de retroalimentação do aquecimento das temperaturas e das emissões de carbono". 

Os fungos micorrizas são aqueles que formam uma relação simbiótica com as plantas. 

Se não houver redução nas emissões de carbono até 2100, pode haver uma redução de 10% dos fungos ectomicorrizas – e das árvores que dependem deles.

Existem dois grupos principais de fungos: micorrizas arbusculares, que penetram as raízes dos hospedeiros, e ectomicorrizas que circundam as raízes das árvores sem penetrá-los. 

Ectomicorrizas estão presentes, principalmente, em sistemas de clima temperado e ajudam a reter mais carbono da atmosfera. Eles são mais vulneráveis às mudanças climáticas. 

Micorrizas arbusculares, por sua vez, são mais dominantes nos trópicos e promovem o rápido ciclo de carbono. 

De acordo com a pesquisa, 60% das árvores estão conectadas a ectomicorrizas. Quando a temperatura aumenta, esses fungos, e as espécies de árvores associadas a eles, são substituídos por micorrizas arbusculares. 

"Os tipos de fungos que sustentam grandes reservas de carbono no solo estão sendo perdidos e substituídos pelos que emitem carbono para a atmosfera", afirma o professor. 

Segundo cientistas, isso poderia potencialmente acelerar mudanças climáticas. 

Se não houver redução nas emissões de carbono até 2100, pode haver uma redução de 10% dos fungos ectomicorrizas – e das árvores que dependem deles. 

Os resultados dessa descoberta podem embasar esforços de restauração da flora, como a campanha para plantio de um trilhão de árvores da Organização das Nações Unidas (ONU), informando quais tipos de espécies arbóreas, dependendo de sua rede micorriza associada, deveriam ser plantadas em que áreas específicas do mundo. 

Martin Bidartondo, pesquisador associado do Kew Gardens, o Jardim Botânico de Londres, salienta a importância do estudo. "Agora, pela primeira vez, nós temos essa base de dados em larga escala que nos diz o que está acontecendo em todo o planeta". 

"Através de nossas atividades diárias, estamos contando com que o carbono continue no solo e sendo acumulado ali. Se criamos condições por meio da mudança do tipo de fungos que estão interagindo com as plantas no solo, esse solo pode parar de acumular carbono e começar a liberá-lo. Assim, a taxa de emissão vai acelerar mais", diz Bidartondo.

Por: Claire Marshall (BBC News).

Reciclagem de Resíduos é Alternativa Sustentável Para Destinação de Entulhos

Além de reduzir as chances de deposição em locais clandestinos e contribuir para aliviar a pressão sobre aterros de inertes, a reciclagem representa custos menores, e permite o reaproveitamento de materiais antes descartados. 

A construção, indicam estimativas, responde por pelo menos metade do entulho gerado nas cidades brasileiras. E é de responsabilidade do gerador, independe do porte, cuidar para que os resíduos oriundos de demolições, renovações ou obras tenham destinação apropriada. 

A reciclagem é uma alternativa para diminuir o impacto ambiental desses resíduos. A prática é vantajosa em vários aspectos: reduz as chances de deposição em locais clandestinos e contribui para aliviar a pressão sobre aterros de inertes, cada vez mais saturados. Para o gerador, representa custos menores com a destinação, além da possibilidade de reaproveitamento de materiais antes descartados e do emprego, na própria obra, de agregados reciclados, em substituição a novas matérias-primas extraídas do meio ambiente. 

A opção pela reciclagem é atualmente facilitada pela existência de um mercado, em crescimento, com empresas de captação, manejo e valorização dos resultados da construção. E também por novos conceitos que, aos poucos, chegam aos canteiros. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), observa o urbanista Tarcísio de Paula Pinto, da I&T Gestão de Resíduos, inspira uma visão na qual a demolição, por exemplo, passa de geradora de entulho a grande fonte de matéria-prima secundária. 

Mesmo antes da sanção em 2010 da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a construção civil já contava com regulamentação sobre o tema sob a forma de resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). A existência de uma legislação nacional, entretanto, coloca pressão adicional sobre o setor. 

CLASSIFICAÇÃO 

Embora os benefícios da reciclagem sejam abrangentes, a prática ainda é pouco empregada nos canteiros pelo país. De acordo com Levi Torres, coordenador da Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição (Abrecon), o volume de produção de agregados reciclados é pequeno, dado o tamanho do mercado de construção civil brasileiro. Mensalmente, são beneficiados pelas usinas de reciclagem 380 mil metros cúbicos de produtos como rachão, pedrisco, brita, bica corrida e areia. 

Com características muito semelhantes aos agregados naturais, esses produtos têm como matéria-prima resíduos classe A – categorização proposta pela resolução 307/2002 do Conama. Ou seja, são confeccionados a partir do beneficiamento de concretos, cerâmicas, pedras e argamassas. No processo construtivo, informa Levi Torres, tais resíduos chegam a representar metade da geração. Já em demolições, ultrapassam a casa dos 80%. 

Também são passíveis de reciclagem e reaproveitamento de resíduos classe B, tais como vidros, madeiras, metais, papelões e plásticos. Mais recentemente, o gesso foi incluído no grupo. O material pode ser usado como ingrediente na produção de cimento ou transformado em gesso agrícola. 

TRIAGEM 

Uma etapa fundamental quando se fala em gestão de resíduos da construção civil é a triagem. Para executá-la de forma eficiente, o canteiro deve contar com áreas destinadas à separação e acondicionamento dos diferentes materiais. E os trabalhadores devem ser treinados para colaborar no processo. Segundo as recomendações da resolução 307/2002 do Conama, a segregação deve ser feita preferencialmente nos locais de origem dos resíduos, logo após a geração, e transportados internamente para posterior acondicionamento. 

Os cuidados visam assegurar a qualidade do resíduo que será enviado para reciclagem. "Um dos grandes desafios dos gestores de obras é garantir uma triagem que respeite as condições de mercado para valoração. O reciclador precisa operar de maneira ótima, e não consegue fazer isso recebendo materiais misturados", pontua Élcio Carelli, diretor da consultoria Obra Limpa

Esse processo de ordenamento das atividades no canteiro motivada pela reciclagem traz ganhos para o empreendedor, destaca Tarcísio de Paula Pinto. "A atenção gerencial aos resíduos no canteiro faz com que surja à vista material antes afogado em pilhas de entulho e que entra novamente no fluxo de produção, eliminando algo de compra". Traz, ainda, uma percepção sobre a necessidade de diminuir a geração e de aperfeiçoar métodos construtivos. 

AGREGADO RECICLADO 

De acordo com Levi Torres, da Abrecon, diferentes usinas produzem agregados diversos, mas, no geral, o processo de transformação envolve: chegada do caminhão com entulho ao pátio de triagem, checagem para saber se há resíduos de outras classes, britagem e peneiramento. 

A reciclagem dos resíduos pode ser também realizada no próprio canteiro, por meio do emprego de equipamentos móveis. A gestão in loco é vantajosa para empreendimentos de maior proporção e, por isso, com maior volume de produção de resíduos, além de espaço suficiente para receber um britador. Os agregados processados no canteiro são reaproveitados na obra, geralmente como revestimento ou argamassa de assentamento. A redução dos custos envolvidos no descarte do entulho e com a compra de material natural justificam a adoção da prática. 

É BOM SABER 

Os produtos da reciclagem não têm função estrutural. Porém, possuem uma série de outras aplicações. Conheça os usos recomendados pela Abrecon

  • Areia: produção de argamassa de assentamentos, blocos e tijolos de vedação. 
  • Pedrisco: fabricação de artefatos de concreto, como mesas e bancos de praça, pisos intertravados, manilhas de esgoto. 
  • Brita: obras de drenagem e produção de concretos não-estruturais. 
  • Bica corrida: base e sub-base de pavimentação, reforço e subleito de pavimentos e regularização de vias não-pavimentadas. 
  • Rachão: obras de pavimentação, drenagem e terraplanagem. 

As características dos agregados e as condições de uso são dadas pelas normas NBR 15.115:2004 e NBR 15.116:2004

LOGÍSTICA REVERSA 

Um dos instrumentos da Política Nacional de Resíduos Sólidos é a chamada logística reversa. Élcio Careli observa que o conceito não significa necessariamente o retorno de resíduo ao fabricante. A volta à cadeia produtiva, após processos de transformação dos resultados da construção em produtos de valor para o uso do próprio gerador, também é uma forma trabalhar o conceito na prática. E as atividades aí envolvidas – entre elas, a reciclagem – são parte de um circuito de logística reversa. 

Nesse sentido, sugere o coordenador da Abrecon, Levi Torres, o empreendedor pode aproveitar o transporte do resíduo para a usina e solicitar ao caçambeiro que retorne à obra com agregado reciclado. Por um lado, o gerador estará garantindo que a destinação foi adequada e, por outro, adquirindo um material útil na obra e de valor inferior ao agregado natural. "Ele pode aproveitar o reciclado na montagem do canteiro, em pequenas estruturas, muros, valas, no estande de vendas, gastando muito menos". Pôr a ideia em prática exige planejamento e o conhecimento prévio dos resíduos recepcionados pelas usinas de reciclagem mais próximas e dos agregados que são ofertados por estas. 

TRANSPORTE 

O transporte externo é elo frágil da cadeia de transformação dos resíduos da construção. No caminho entre a fonte geradora e o destinatário há risco de desvio do material, que pode parar em locais irregulares. Para que isso não ocorra, algumas providências são recomendadas: 

A primeira é checar se há informações no município sobre transportadores cadastrados. Uma vez contratado o serviço, é preciso exigir do caçambeiro o retorno do documento de Controle de Transporte de Resíduo (CTR) devidamente carimbado e assinando pelo destinatário, comprovando que o material foi entregue na usina de reciclagem (ou em áreas licenciadas para receber entulho da construção, se esta for a opção). 

Para maiores garantias, indica Élcio Careli, é possível atrelar o pagamento do transportador à entrega do CTR ou de um ticket de balança da unidade recicladora. Ou ainda definir previamente o destino dos rejeitos, ficando sobre o caçambeiro apenas a responsabilidade pelo frete.

"O gestor precisa conhecer muito bem quem ele está contratando. Ele deve acompanhar, auditar, criar procedimento para qualificar não só o transportador, mas os destinatários de resíduos. E, preferencialmente, caminhar para estabelecer uma relação comercial direta com o próprio destinatário", recomenda o Élcio.

Por: Graziela Silva (Portal AECweb). Com a colaboração de Levi Torres, Élcio Careli e Tarcíso de Paula Pinto.

Como o Plástico Acelera o Aquecimento Global

Lixão no sul da China: incineração de matéria plástica gera gases do efeito estufa.

Além de contaminar oceanos, animais e até alimentos que ingerimos, o plástico também contribui para as mudanças climáticas. Reciclar o material não basta para reverter tal tendência, apontam especialistas. 

Os habitantes do planeta estão cada vez mais cientes de que o plástico – um dos materiais mais onipresentes na economia global – não é bom para o meio ambiente: ele inunda os oceanos, prejudica a vida selvagem e acaba na comida, comprometendo a saúde humana. 

Como se isso não bastasse, porém, o setor do plástico é a segunda maior fonte industrial e a que mais cresce de gases do efeito estufa, e 99% do que compõe o produto deriva de combustíveis fósseis. Enquanto subproduto de petróleo, carvão mineral e gás natural, o plástico é um contribuinte-chave de emissões de dióxido de carbono, destaca um novo relatório da ONG Center of International Environmental Law (CIEL), Plastic & Climate: The Hidden Costs of a Plastic Planet (May 2019)

Se a expansão da produção petroquímica e de plásticos prosseguir como atualmente se planeja, até 2050 o produto será responsável por 10% a 13% do "orçamento carbônico" total – a quantidade de CO2 que a humanidade pode emitir globalmente antes de ultrapassar 1,5º Celsius de aumento da temperatura em relação aos níveis pré-industriais, limite estabelecido como meta pelo Acordo de Paris

Não se costuma associar a pegada ambiental do plástico à aceleração do aquecimento global causado por ele; a seguir, alguns fatos sobre seu papel nas mudanças climáticas. 

1- A maior parte do plástico vem de combustíveis fósseis

Os plásticos são um subproduto da extração de combustível fóssil. Como frisa o CIEL, quase todos eles, inclusive resinas, fibras e aditivos, são derivados dessa indústria, e materiais empregados em sua fabricação, como etileno e propileno, provêm de petróleo, gás e carvão mineral. 

Como aponta Carroll Muffett, principal autor do relatório, produzir plástico é a maneira como a indústria de combustíveis fósseis conseguiu "transformar o que seria uma corrente de dejetos, numa corrente de lucro". 

2- Produção, uso e eliminação contribuem para o efeito estufa 

Cada estágio do "ciclo de vida" da matéria plástica produz emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa, constataram os pesquisadores do CIEL. Isso inclui a extração e transporte dos combustíveis, refinamento e manufatura, assim como a gestão e eliminação de resíduos. 

Somente em 2019, a produção e incineração de plástico deverá lançar mais de 850 milhões de toneladas cúbicas de gases do efeito estufa na atmosfera, sendo a incineração especialmente nociva. 

Segundo projeções do CIEL, nos próximos dez anos as emissões do ciclo dos plásticos deverão alcançar 1,34 gigatoneladas por ano, o equivalente ao emitido por 295 usinas de energia movidas a carvão mineral, operando a capacidade total. 

3- A produção está crescendo 

Embora na Alemanha, por exemplo, a produção de plástico tenha caído 3,1% em 2018 (sobretudo graças à diminuição da demanda de automóveis), e outros países tenham imposto restrições ao material, ele está em alta, em escala global. 

Em parte isso se deve ao fato de muitas companhias fabricantes de resinas plásticas serem as mesmas que processam petróleo e gás – por exemplo, a Mobil, Shell, Chevron e Total. Não é coincidência a indústria petroleira estar incrementando o plástico, num momento em que o mundo vai lentamente abandonando a energia a combustíveis fósseis. 

"À medida que veem o mundo se afastando de uma economia energética baseada em petróleo e gás, essas companhias confiam cada vez mais numa transição para o plástico e outros petroquímicos como meio de manter sua força de mercado no longo prazo", comentou Muffett à DW

E, embora a ONU acabe de introduzir regras globais para sustar a exportação irrestrita de lixo plástico – o que, segundo o pesquisador, tornará mais difícil os países ocultarem seu problema com resíduos –, ainda há muito a fazer para, antes de tudo, reduzir o plástico desnecessário no dia a dia. 

4- Lixo plástico pode impactar o reservatório oceânico de carbono 

Hoje o plástico é praticamente inescapável em todos os cantos do globo, tendo recentemente sido encontrado no local mais profundo da Terra, a Fossa das Marianas, durante o mergulho mais fundo realizado por um ser humano dentro de um submarino, a quase 11 quilômetros abaixo do nível do mar. 

E primeiras pesquisas mostram que a matéria plástica pode ter impacto sobre o reservatório de carbono dos oceanos. Segundo o relatório do CIEL, há indícios crescentes de que microplásticos sejam consumidos pelo plâncton – criaturas que não só "formam a base das cadeias de carbono oceânicas", como também fornecem "o mais importante mecanismo para absorver carbono atmosférico e transportá-lo para os reservatórios no fundo do oceano". 

Os oceanos constituem o maior reservatório natural do carbono dos gases do efeito estufa, tendo absorvido de 30% a 50% do CO2 atmosférico produzido desde o começo da era industrial. Se os microplásticos perturbarem a capacidade dos ecossistemas submarinos de absorver o gás, isso poderia comprometer seriamente os esforços para combater o aquecimento global. 

5- Reciclar não basta, o problema é de escala industrial 

A produção e proliferação do plástico é profundamente industrializada. Ele é barato, resistente, leve e transformou nossa forma de consumir. Por isso, eliminá-lo exige algumas mudanças grandes. 

Rick Stafford, professor de Biologia da Universidade de Bournemouth, observa que combater as mudanças climáticas e a crise do plástico exige repensar a mentalidade capitalista de hiperconsumo. "Estamos usando demais, sejam combustíveis fósseis ou só os objetos feitos de plástico. E essa é uma mudança que mais gente tem de entender." 

Por outro lado, como frisa Muffett, o plástico é também um modelo comercial robusto para grandes corporações. Isso não significa que seja inútil tentar cortar o material que usamos em escala cotidiana – o CIEL lista as comunidades "lixo zero" como uma estratégia de alto impacto para sustar o efeito climático do plástico –, mas é realmente necessária uma mudança em escala industrial. 

"Encorajamos a fazer o possível para eliminar o plástico desnecessário de nossas próprias vidas. Mas não se iludam que essas ações individuais sozinhas vão bastar para enfrentar esse problema", alerta Muffett: "Não conseguiremos reciclar o nosso caminho para fora da crise do plástico." 

A única saída, ele acrescenta, é: "A) parar de produzir combustíveis fósseis, que são a matéria-prima para o plástico, e B) parar de produzir plástico descartável de que não precisamos".

Por: Charli Shield (Deutsche Welle).

Plástico nos Oceanos Está Matando Bactérias Fotossintéticas

As bactérias são muito importantes para a própria existência da vida na Terra. Através da fotossíntese, cianobactérias ajudaram a formar a nossa atmosfera bilhões de anos atrás. Ainda hoje, 10% do oxigênio que respiramos vem de apenas um tipo de bactéria no oceano. E, como acontece com todas as formas de vida na Terra, nosso estilo de vida está ameaçando estes seres. Testes de laboratório mostraram que essas bactérias que ajudam a produzir o oxigênio que respiramos são suscetíveis à poluição de plástico, de acordo com um estudo publicado na revista Communications Biology [Plastic leachates impair growth and oxygen production in 'Prochlorococcus', the ocean’s most abundant photosynthetic bacteria]. 

"Descobrimos que a exposição a produtos químicos provenientes da poluição do plástico interferiu no crescimento, fotossíntese e produção de oxigênio do Prochlorococcus, a bactéria fotossintética mais abundante do oceano", diz Sasha Tetu, autora principal e pesquisadora da Universidade Macquarie, nos EUA, em comunicado à imprensa

Estima-se que a poluição por plástico cause mais de 13 bilhões de dólares em prejuízos econômicos aos ecossistemas marinhos a cada ano, e a tendência é que o problema piore, de acordo com estimativas sobre a contaminação de plásticos no oceano até 2050. "Essa poluição pode liberar uma variedade de aditivos químicos em ambientes marinhos, mas ao contrário das ameaças que os animais sofrem ao ingerir ou se emaranhar em detritos plásticos, a ameaça que essas liberações químicas representam para a vida marinha recebeu relativamente pouca atenção", diz Lisa Moore, co-autora do artigo. 

Pensando nessa falta de estudos a respeito do potencial devastador dos elementos químicos que vazam nos oceanos através do plástico, as pesquisadoras analisaram os efeitos que esses produtos têm sobre a menor forma de vida em nossos oceanos, as bactérias marinhas fotossintéticas. "Nós olhamos para um grupo de pequenas bactérias verdes chamadas Prochlorococcus, que é o organismo fotossintético mais abundante na Terra, com uma população global de cerca de três octilhões de indivíduos", diz Sasha

Esses micróbios são grandes responsáveis pela produção de carboidratos e oxigênio no oceano através da fotossíntese. "Esses microrganismos minúsculos são fundamentais para a cadeia alimentar marinha, contribuem para o ciclo de carbono e são responsáveis ​​por até 10% da produção total global de oxigênio", diz Lisa, explicando a importância fundamental desses micróbios para a saúde dos oceanos. "Assim, uma em cada dez respirações que você faz é graças a esses pequenos seres, mas quase nada se sabe sobre como as bactérias marinhas, como o Prochlorococcus, respondem aos poluentes humanos". 

No laboratório, a equipe expôs duas linhagens de Prochlorococcus, encontradas em diferentes profundidades do oceano, a produtos químicos lixiviados de dois produtos plásticos comuns – sacolas de plástico cinza (feitas de polietileno de alta densidade) e esteiras de PVC. Eles descobriram que a exposição a esses produtos químicos prejudicava o crescimento e a função desses micróbios – incluindo a quantidade de oxigênio que eles produzem – além de alterar a expressão de um grande número de seus genes. 

Impacto na cadeia alimentar 

"Nossos dados mostram que a poluição por plásticos pode ter impactos generalizados sobre os ecossistemas, além dos efeitos conhecidos sobre os macroorganismos, como aves marinhas e tartarugas. Se realmente quisermos entender o impacto total da poluição plástica no ambiente marinho e encontrar formas de mitigá-lo, precisamos considerar seu impacto nos principais grupos microbianos, incluindo os micróbios fotossintéticos", diz Sasha

"Este estudo revelou um novo e inesperado perigo da poluição por plástico. Se a gestão de resíduos plásticos for deixada desacompanhada, as populações de Prochlorococcus poderiam diminuir em alguns locais, o que poderia afetar os outros organismos que dependem de Prochlorococcus para a alimentação. É possível que alguns Prochlorococcus já sejam afetados quando próximos a plásticos", diz Moore em entrevista ao jornal inglês The Independent

A boa notícia é que ainda há tempo de mudar essa realidade. "Seriam décadas até que plástico suficiente se acumulasse nos oceanos para afetar as populações de Prochlorococcus em escala global", diz Moore na mesma entrevista. Segundo as pesquisadoras, o próximo passo é a realização de testes de campo para continuar entendendo o impacto da poluição do plástico nos oceanos.

Por: Jéssica Maes (Hypescience). Fonte(s): The Independent / Eurekalert / Futurism.

A Racionalização do Licenciamento Ambiental

O licenciamento de atividades efetivas ou potencialmente poluidoras, ou licenciamento ambiental, como é comumente conhecido, é um instrumento da Política Nacional de Meio Ambiente, Lei 6.938, de 1981. O objetivo do licenciamento é identificar possíveis impactos ambientais previamente à construção, instalação, ampliação ou funcionamento de uma dada atividade e promover o seu controle de forma a atender aos padrões de qualidade ambiental. Com outras palavras, significa que uma atividade deve ser avaliada previamente de forma a conformar, por meio de aplicação de técnicas e tecnologias, a sua instalação e funcionamento, a fim de não causar poluição ou degradação ambiental. 

Toda atividade altera o ambiente natural, umas com maior intensidade e outras com menor. Esta avaliação é relativizada em função do tipo de empreendimento, do seu tamanho, do local onde ele se instala e das técnicas e tecnologias que ele utiliza para o controle. Um mesmo empreendimento pode causar impactos diferentes se instalado no local A ou no local B. E, ainda, pode causar diferentes impactos se usar a tecnologia de controle X ou Y. Essa é a gênese do licenciamento de uma atividade: impacto x locus x técnica/tecnologia. 

Entretanto, o que constatamos historicamente no Brasil foi um desvirtuamento do instrumento, com ênfase no processo e não no resultado final. Essa afirmação pode ser comprovada pela avaliação dos indicadores ambientais no país: qualidade das águas nos rios, desmatamento, poluição do ar em centros urbanos, para citar alguns. 

Precisamos reinventar o modelo de licenciamento ambiental brasileiro, otimizar processo e potencializar resultado. A palavra é racionalizar, tornar o instrumento eficaz e menos dispendioso. Não faltam regras, nem tecnologia. 

O Banco Mundial recomenda que sejam estabelecidos procedimentos que englobem a seguintes etapas: 

  • A atividade proposta está dentro da lei? 
  • É planejada para uma área na qual o empreendimento é permitido? 
  • A tecnologia proposta é adequada?
  • A operação atende aos padrões e limites ambientais estabelecidos? 
  • Devem ser adotadas medidas de compensação para danos irreversíveis? 
  • Existem considerações de ordem social, como, por exemplo, população vulnerável? 
  • Quais medidas devem ser propostas para restaurar o ambiente após finalizada a operação? 
  • Qual o prazo e os critérios técnicos apropriados para a renovação da licença de operação? 

Tendências internacionais demonstram que com as regras claras as atividades devem se adequar e serão exigidas no seu desempenho. O foco é no resultado e não no processo. 

A sociedade tem que compreender que a sua sobrevivência depende do controle dos impactos que as atividades exercem sobre o ambiente, em última instância do uso racional dos recursos naturais. Não em uma visão romântica, mas pragmática de continuidade de atividades de produção de bens, alimentos ou mesmo de garantia da saúde pública. A responsabilidade deve ser compartilhada, para cada qual, estado e sociedade, assumir de fato o seu papel e a sua responsabilidade.

Por: Marília Carvalho de Mel (Instituto Minere).

Extinção de Espécies Aumenta em Escala Sem Precedentes, alerta relatório do IPBES

Declínio da biodiversidade é resultado direto da atividade humana e representa uma grave ameaça ao bem-estar em todas as regiões do planeta, destacam autores da avaliação. 

As taxas de extinção de espécies animais e vegetais estão aumentando em uma escala sem precedentes. A abundância média de espécies nativas na maioria dos principais habitats terrestres caiu em, pelo menos, 20%, principalmente desde 1900. Mais de 40% das espécies de anfíbios, quase 33% dos corais e mais de um terço de todos os mamíferos estão ameaçados. 

Essa perda é resultado direto da atividade humana e constitui uma grave ameaça ao bem-estar humano em todas as regiões do mundo, alerta um grupo de cientistas de 50 países, incluindo do Brasil. Eles são autores da primeira avaliação global do estado da natureza da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês). 

O sumário para os formuladores de políticas do relatório Nature’s Dangerous Decline ‘Unprecedented’; Species Extinction Rates ‘Accelerating’ foi lançado no dia 06/05/2019, em Paris, após ter sido aprovado por 132 países durante a sétima sessão plenária do órgão, chamado de IPCC para a biodiversidade, que aconteceu na capital francesa. 

"A saúde dos ecossistemas de que toda a humanidade e as espécies dependem está se deteriorando mais rapidamente do que nunca. Estamos erodindo os próprios alicerces de nossas economias, meios de subsistência, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida em todo o mundo", disse Robert Watson, presidente da IPBES

Elaborado ao longo dos últimos três anos por 145 especialistas, com contribuições de outros 310 autores, o relatório avaliou mudanças na biodiversidade e nos serviços ecossistêmicos – como o fornecimento de alimentos e de água – durante as últimas cinco décadas. Para isso, foi feita uma revisão sistemática de cerca de 15 mil fontes científicas, governamentais e de conhecimento indígena e de comunidades tradicionais. 

"Esse é primeiro relatório intergovernamental que foca não só a biodiversidade, mas também suas interações com trajetórias de desenvolvimento econômico e com fatores que afetam a natureza, como as mudanças climáticas", disse Eduardo Sonnewend Brondizio, professor da Indiana University, dos Estados Unidos, à Agência FAPESP

"Nunca tantos dados, de diferentes áreas, como das ciências naturais e sociais, foram reunidos para fazer uma avaliação detalhada da condição do ambiente em escala global e em uma perspectiva integrada de interação com a sociedade", disse Brondizio

Radicado há mais de 20 anos nos Estados Unidos, o cientista brasileiro, que foi um dos três copresidentes do relatório, é um dos pesquisadores responsáveis por um projeto apoiado pela FAPESP em parceria com o Belmont Forum – um consórcio das principais agências financiadoras de projetos de pesquisa sobre mudanças ambientais no mundo. 

Os outros brasileiros autores do relatório são Ana Paula Aguiar, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe); Bernardo Baeta Neves Strassburg, do Instituto Internacional de Sustentabilidade (ISS); Cristina Adams, da Universidade de São Paulo (USP); Gabriel Henrique Lui, do Ministério do Meio Ambiente; Maria Manuela Ligeti Carneiro da Cunha, da USP; Pedro Henrique Santin Brancalion, também da USP; e Rafael Dias Loyola, da Universidade Federal de Goiás (UFG). 

"A contribuição dos autores brasileiros foi excepcional porque todos eles conseguiram trazer uma perspectiva social e ecológica integrada para o relatório. Eles colocaram suas respectivas especialidades, como ecologia, políticas públicas e cenários ambientais, em um contexto interdisciplinar", disse Brondizio

Rede mais desgastada 

O relatório aponta que ecossistemas, espécies, populações selvagens, variedades locais de plantas e de animais domesticados estão encolhendo, deteriorando ou desaparecendo. Dessa forma, a rede essencial e interconectada da vida na Terra está ficando menor e cada vez mais desgastada. 

Pelo menos 680 espécies de vertebrados foram levadas à extinção desde o século 16 e mais de 9% de todas as raças domesticadas de mamíferos usados para alimentação e agricultura foram extintas até 2016. Além disso, estima-se que 1 milhão de espécies animais e vegetais estão agora ameaçadas de extinção. 

Entre os fatores responsáveis por esse declínio de espécies estão, em ordem decrescente, as mudanças no uso da terra e do mar, a exploração direta de organismos, as mudanças climáticas, a poluição e espécies tóxicas invasoras. 

Desde 1980, as emissões de gases do efeito estufa dobraram, elevando a temperatura média global em pelo menos 0,7ºC. O aquecimento global já tem afetado a natureza, do ecossistema à genética das espécies, e os impactos devem aumentar nas próximas décadas, em alguns casos, superando o impacto da mudança do uso da terra e do mar e outros fatores, apontam os autores. 

"O sumário mostra que a situação da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos, essenciais para a qualidade de vida, é ainda mais crítica do que a do aquecimento global", disse Carlos Joly, professor da Unicamp e coordenador do programa BIOTA-FAPESP

Joly coordenou o Painel Multidisciplinar de Especialistas da IPBES nos seus primeiros anos de existência, ao lado do australiano Mark Londsdeale, da Organização de Pesquisa Científica e Industrial da Commonwealth (CSIRO), e é membro da coordenação da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES, na sigla em inglês), cuja criação foi inspirada na IPBES

O relatório também destaca que três quartos do meio ambiente terrestre e 66% do ambiente marinho foram significativamente alterados pelas ações humanas. Em média, essas tendências foram menos severas ou evitadas em áreas mantidas ou geridas por povos indígenas e comunidades locais. 

Mais de um terço da superfície terrestre do mundo e quase 75% dos recursos de água doce são agora dedicados à produção agrícola ou pecuária. O valor da produção agrícola aumentou em cerca de 300% desde 1970, a extração de madeira aumentou em 45% e aproximadamente 60 bilhões de toneladas de recursos renováveis e não renováveis são extraídos globalmente a cada ano – número que quase duplicou desde 1980. 

A degradação da terra, contudo, reduziu a produtividade de 23% da superfície terrestre global. Até US$ 577 bilhões em safras globais anuais estão em risco de perda de polinizadores e entre 100 e 300 milhões de pessoas estão em risco aumentado de inundações e furacões devido à perda de habitats costeiros e proteção, ressaltam os autores do relatório. 

A poluição plástica cresceu 10 vezes desde 1980 e entre 300 e 400 milhões de toneladas de metais pesados, solventes, lama tóxica e outros resíduos de instalações industriais são despejados anualmente nas águas do mundo. 

Os fertilizantes usados na agricultura e que entram nos ecossistemas costeiros produziram mais de 400 "zonas mortas" oceânicas, totalizando mais de 245 mil quilômetros quadrados (km2) – uma área combinada maior que a do Reino Unido, calcularam os pesquisadores. 

"O relatório mostra que as populações mais ricas ou privilegiadas se acostumaram a ignorar os problemas ambientais porque não convivem com os impactos no dia a dia. São as populações mais pobres ou menos privilegiadas que estão sofrendo o impacto desse padrão de vida, na forma de poluição, desmatamento e atividades de mineração em lugares longe dos olhos do resto do mundo", disse Brondizio

Segundo os pesquisadores, as tendências negativas na natureza continuarão até 2050 e, além desse período, persistem em todos os cenários de política explorados no relatório, exceto aqueles que incluem mudanças transformadoras – devido aos impactos projetados de mudanças crescentes no uso da terra, exploração de organismos e mudança climática, embora com diferenças significativas entre regiões. 

Apesar do progresso nas políticas de preservação, os autores consideram que as metas globais para conservar e usar a natureza de forma sustentável e para alcançar a sustentabilidade não podem ser alcançadas nas trajetórias atuais. As metas até 2030 e para além desse período podem ser alcançadas apenas por meio de mudanças transformadoras e de fatores políticos e tecnológicos, ponderam. 

Uma das ações indicadas é a adoção de abordagens integradas e intersetoriais de gestão que levem em conta as compensações da produção de alimentos e energia, infraestrutura, manejo de água doce e costeira e conservação da biodiversidade. 

"Ainda não chegamos a um ponto de irreversibilidade na perda de biodiversidade e a consequente degradação dos serviços ecossistêmicos essenciais para a qualidade de vida. Se tomarmos decisões agora, para, em conjunto e de forma coordenada e cooperativa, promovermos mudanças transformativas integradas, inclusivas e baseadas no melhor conhecimento científico disponível, é possível reverter a velocidade da degradação", disse Joly

"Isso passa, obrigatoriamente, por conseguir cumprir as metas do Acordo de Paris, pois o aquecimento global já é um dos principais impulsionadores da perda de biodiversidade e degradação dos serviços ecossistêmicos", ressaltou. 

Os autores também identificam como um elemento-chave de políticas futuras mais sustentáveis a evolução dos sistemas financeiros e econômicos globais, visando a construção de uma economia global sustentável, afastando-se do atual paradigma limitado de crescimento econômico. 

"O relatório mostra que é preciso mudar a narrativa de que o desenvolvimento econômico é um fim em si mesmo e que todos os custos para alcançá-lo, como a degradação ambiental e a desigualdade social, são inevitáveis e justificáveis", disse Brondizio

Mais informações: www.ipbes.net

Por: Elton Alisson (Agência Fapesp).

Como a IA Pode Gerar Oportunidade de US$ 127 Bi ao Reduzir o Desperdício de Alimentos

Com uma visão de economia circular, a Inteligência Artificial pode revolucionar a maneira como os alimentos são cultivados, projetados, adquiridos e degustados. 

A economia global é impulsionada por um modelo “pegue, faça e descarte”, que depende da extração e do consumo de grandes quantidades de materiais finitos e combustíveis fósseis. Esse pensamento linear gerou prosperidade sem precedentes nos últimos 200 anos – mas também prejudicou nosso meio ambiente. Por exemplo, cada US$ 1 gasto em produção de alimentos significa US$ 2 em custos econômicos, sociais e ambientais. Dada a pressão sobre solos já gravemente esgotados para fornecer alimentos para uma população global em constante crescimento e o fato de que cerca de um terço dos alimentos produzidos nem chega a ser consumido, a inovação em nosso sistema agrícola industrial é imprescindível. 

A inteligência artificial (IA), grupo de tecnologias que realiza funções cognitivas semelhantes às humanas, como raciocínio e aprendizado, tem o potencial de ajudar a remodelar o sistema alimentar do mundo. Um relatório recente da Fundação Ellen MacArthur e do Google, com pesquisa e apoio analítico da McKinsey [Artificial intelligence and the circular economy: AI as a tool to accelerate the transition], descobriu que a IA pode criar – em vez de extrair – valor e até mesmo proteger e regenerar sistemas biológicos. 

O relatório identificou três áreas em que a IA pode ter o maior impacto na transição para um sistema alimentar circular: suprir alimentos cultivados de forma regenerativa e localizada (quando fizer sentido), evitar o desperdício de alimentos e projetar e comercializar produtos mais saudáveis. 

A IA é um dos grandes desenvolvimentos tecnológicos do nosso tempo, e usar seu poder para fazer a transição da economia alimentar de um modelo linear para um modelo circular é, em grande parte, uma oportunidade inexplorada. 

Atualmente, a maioria das culturas é cultivada de uma forma que retira mais dos sistemas naturais do que retorna, deixando esgotados os cursos de água poluídos e os solos e a agrobiodiversidade. Com a ajuda da IA, práticas agrícolas convencionais, como a monocultura, a aplicação generalizada de fertilizantes químicos sintéticos e o uso intensivo da terra podem ser substituídos por práticas agrícolas mais regenerativas. 

Dados de drones, sensores remotos, satélites e equipamentos agrícolas inteligentes fornecem aos agricultores informações valiosas em tempo real sobre o solo, a saúde das culturas e as condições climáticas. Essa inteligência ajuda os agricultores a tomar decisões mais inteligentes sobre onde plantar, como otimizar as rotações das culturas e quando plantar, compostar e colher essas lavouras. 

Por exemplo, algumas soluções ag-tech analisam imagens para determinar quando a fruta está pronta para ser colhida. Outros incluem algoritmos que identificam micróbios que promovem o crescimento das culturas sem fertilizantes sintéticos. Softwares e soluções de inteligência artificial podem ajudar os agricultores a gerenciar seu trabalho de forma mais eficaz, fornecendo resultados para práticas agrícolas regenerativas sem testes de campo caros e demorados. 

A IA também pode ajudar os agricultores desde o início, para impedir desperdícios e evitar que os alimentos em bom estado sejam jogados fora. Cadeias de fornecimento de alimentos baseadas em fazendas podem se tornar mais eficientes usando a tecnologia de imagens visuais durante as inspeções de alimentos. O rastreamento habilitado por IA pode ajudar os varejistas a vender alimentos antes que os produtos pereçam, e os algoritmos permitem que restaurantes e varejistas conectem mais a oferta à demanda ao encomendar alimentos. 

Ao usar essas técnicas para lidar e evitar o desperdício de alimentos, descobrimos que a IA pode gerar uma oportunidade econômica estimada de até US$ 127 bilhões por ano em 2030, calculada como um crescimento na receita de primeira linha. 

Até mesmo alimentos práticos e processados podem ser desenhados de maneira mais circular. As ferramentas de IA ajudam no desenvolvimento de ingredientes renováveis, reduzindo o desperdício de processamento e aditivos inseguros. As empresas já estão usando algoritmos de IA para criar maioneses sem ovos e alimentos à base de plantas para substituir carne, peixe e laticínios, que dependem mais dos recursos naturais. 

O McKinsey Global Institute previu que a IA poderia acrescentar um extra de US$ 13 trilhões à atividade econômica global até 2030, mas há questões que podem restringir sua aplicação para o bem social. A transição para uma economia circular requer cadeias de valor e toda uma rede de parceiros confiáveis – isso não pode ser feito por uma única empresa. A colaboração entre as partes interessadas em todo o ecossistema, incluindo empresas, governos e ONGs, é primordial quando se trata de geração, coleta e compartilhamento de dados. 

Da mesma forma que o cérebro humano, a IA processa os dados e aprende com eles para tomar melhores decisões ao longo do tempo. A produção de IA exige uma compreensão clara do problema real que se pretende resolver. Só então poderá completar com sucesso estas quatro etapas: coleta de dados, engenharia de dados, desenvolvimento e refinamento de algoritmos.

Por: Clarisse Magnin-Mallez; ela lidera a iniciativa de economia circular da McKinsey globalmente. Fonte: Página 22.

Máquina Imita Nuvem e Transforma Ar em Água Com Energia Limpa

Em um contêiner de metal, máquina produz água potável a partir do vapor do ar. O sistema usa 100% de energia renovável e recebeu prêmio de US$ 1,5 bilhão. 

Dentro de um grande contêiner de metal, fica protegida uma máquina capaz de fazer “mágica”: o equipamento transforma ar em água potável. O sistema, desenvolvido pela empresa californiana Skysource/Skywater Alliance, foi batizado de Wedew e recebeu em outubro de 2018 um prêmio bilionário para se expandir pelo mundo. 

A organização internacional Water Abundance XPrize procurava um projeto que tivesse a capacidade de gerar pelo menos 2 mil litros de água diariamente a um custo máximo de US$ 0,02 por litro e que, ainda por cima, usasse energia 100% renovável. 

E encontrou: o Wedew foi, então, agraciado com uma premiação de US$ 1,5 bilhão para cumprir uma missão de oferecer de forma sustentável água potável a populações necessitadas. 

Cada caixa produz, aproximadamente, 300 galões de água todos os dias, o suficiente para atender o consumo de uma comunidade de 100 pessoas. Após o recebimento do prêmio, os responsáveis pela iniciativa afirmaram que o objetivo agora é implementá-la em várias partes do mundo, em parceira com organizações sem fins lucrativos. 

Como funciona a máquina que fabrica água? 

Dentro dos contêineres, as máquinas desenvolvidas pela Skywater simulam o funcionamento das nuvens. O mecanismo comprime o ar e, assim, condensa o vapor de água da atmosfera; deste processo, formam-se gotículas de água potável que são armazenadas em um tanque – e este pode ser conectado a uma torneira. 

"A fonte mais abundante de água doce é a atmosfera da Terra. Quando a umidade atmosférica se condensa, cai como chuva. A Skywater replica esse processo natural de condensação ao simular o ponto de orvalho, o que permite que ela faça água continuamente, mesmo em condições de baixa umidade", resume a empresa, em comunicado. 

De acordo com David Hertz, um dos líderes da companhia, há cerca de "37,5 milhões de bilhões de litros de água" na atmosfera e que isto é uma quantidade de água doce maior do que a soma de todos os rios da Terra. Por isso, afirma Hertz, isto garante a possibilidade de produzir milhões de galões de água todos os dias. 

E o que garante esta água como potável é o próprio processo no qual é produzida: o fenômeno gera ozônio, que é um gás natural capaz de eliminar bactérias e outras impurezas do líquido – e, ao contrário do cloro, não deixa sabor. 

O sistema é alimentado por dois tipos de energia, ambas renováveis. O modelo pode ter matriz baseada em energia solar fotovoltaica ou baseada em um sistema gaseificador movido a biomassa. Assim, afirmam seus desenvolvedores, não produz qualquer gás de efeito estufa.


Brasil Foi País Que Mais Perdeu Florestas Tropicais Nativas Em 2018

Pasto em área desmatada da Amazônia.

Estudo aponta que mundo perdeu uma área do tamanho da Bélgica de florestas tropicais primárias no ano passado, tipo de vegetação que têm maior impacto em termos de emissões de carbono e biodiversidade. 

O mundo perdeu 12 milhões de hectares de florestas tropicais em 2018, o equivalente ao território da Nicarágua, afirmou a ONG ambientalista World Resources Institute (WRI). 

O ano de 2018 foi o quarto pior em termos de desmatamento de florestas tropicais, depois dos anos de 2016, 2017 e 2014, desde que o WRI começou sua cartografia, em 2001, acrescentou o relatório anual, elaborado pelo projeto Global Forest Watch, com base em dados compilados pela Universidade de Maryland a partir da análise de imagens de satélite. 

"É tentador saudar um segundo ano de declínio após o pico de 2016", com 17 milhões de hectares de perdas, disse Frances Seymour, pesquisadora do WRI. "Mas, se olharmos para os últimos 18 anos, está claro que a tendência geral ainda é de aumento", ressalvou. 

Dos 12 milhões de hectares perdidos, 3,64 milhões de hectares são de florestas tropicais primárias, também chamadas de florestas nativas ou virgens, o equivalente ao território da Bélgica

O Brasil foi o país que perdeu a maior área dessas florestas no ano passado – mais de 1,4 milhão de hectares –, à frente da República Democrática do Congo (481,2 mil hectares) e da Indonésia (339,8 mil hectares). 

Segundo o WRI, a perda de floresta nativa no Brasil em 2018 foi menor do que seu pico, relacionado a incêndios em 2016 e 2017, mas maior do que foi entre 2007 e 2015, período em que o país tinha reduzido sua taxa de desmatamento em 70%. 

A perda de florestas virgens é "especialmente preocupante", segundo a ONG. "Estas são as florestas que têm o maior impacto em termos de emissões de carbono e biodiversidade", disse a especialista do WRI, Mikaela Weisse, já que armazenam carbono e abrigam uma grande fauna e flora. 

A taxa de destruição de florestas nativas também é preocupante na República Democrática do Congo. Porém, ela diminuiu 63% na Indonésia, em comparação com o pico de 2016, de acordo com o estudo. A Indonésia se beneficiou de medidas do governo e de dois anos relativamente úmidos, desfavoráveis à deflagração de incêndios, mas o fenômeno El Niño pode mudar a situação em 2019. 

A situação pode piorar no Brasil, segundo a organização não governamental Imazon, porque o desmatamento na Amazônia brasileira aumentou 54% entre janeiro de 2018 e janeiro de 2019, mas também devido à alteração de políticas ambientais defendida pelo presidente Jair Bolsonaro

Segundo o Global Forest Watch, ainda é muito cedo para avaliar o impacto de eventuais medidas do governo Bolsonaro sobre a cobertura florestal brasileira. 

Na vizinha Colômbia, a perda de florestas nativas aumentou 9% entre 2017 e 2018, uma vez que o acordo de paz entre o governo e as Farc ajudou a tornar algumas áreas mais acessíveis, afirma o estudo. 

"O desmatamento causa mais poluição climática do que todos os carros, caminhões, navios e aviões do mundo juntos", disse Glenn Hurowitz, executivo chefe da Mighty Earth, uma organização ambientalista. "É vital proteger as florestas que ainda temos".


Amazon Anuncia Três Novos Parques Eólicos Para Apoiar Sua Infraestrutura Global de Serviços na Web

A Amazon.com (NASDAQ: AMZN) anunciou três novos parques de energia eólica como parte de sua meta de longo prazo para alimentar toda a infraestrutura global da Amazon Web Services (AWS) com energia renovável. Esses projetos – localizados na Irlanda, Suécia e nos Estados Unidos – fornecerão mais de 229 megawatts (MW) de energia, com geração esperada de mais de 670.000 megawatts-hora (MWh) de energia renovável anualmente. Os lançamentos fazem parte da estratégia da AWS para que 100% de sua infraestrutura utilize energia renovável. Em 2018, a AWS ultrapassou 50% de energia renovável para sua infraestrutura global. 

Depois de concluídos e combinados com outros nove projetos, a geração de energia renovável deve superar 2.700.000 MWh por ano, o equivalente ao consumo anual de eletricidade de mais de 262.000 residências nos EUA, aproximadamente o tamanho da cidade de Nashville, no estado americano do Tennessee

"Cada um desses projetos nos aproxima do nosso compromisso de longo prazo de usar 100% de energia renovável para impulsionar a infraestrutura global da AWS", disse Peter DeSantis, vice-presidente de infraestrutura global e suporte ao cliente da Amazon Web Services. "Esses projetos estão bem posicionados para atender aos 'data centers' [centros de processamento de dados] da AWS na Irlanda, na Suécia e nos EUA. Esperamos mais projetos em 2019 à medida que continuamos em direção à meta de alimentar toda a infraestrutura global da AWS com energia renovável". 

A Amazon se comprometeu a comprar a energia de um parque eólico em Donegal, na Irlanda, de 91.2 MW. Espera-se que o projeto do parque eólico de Donegal forneça energia limpa até o final de 2021. 

"O investimento da AWS em projetos de energia renovável na Irlanda demonstra seu compromisso contínuo de adicionar energia limpa à rede e dará uma contribuição positiva para as metas de energia renovável da Irlanda", disse Leo Varadkar, primeiro ministro da Irlanda. "Como um empregador significativo na Irlanda, é muito encorajador ver a Amazon liderando essa questão. Estamos ansiosos para continuar a trabalhar com a Amazon enquanto nos esforçamos para tornar a Irlanda um líder em energia renovável". 

A Amazon também comprará 91 MW de energia de um novo parque eólico em Bäckhammar, na Suécia, que deverá fornecer energia renovável até o final de 2020. 

"A Suécia é conhecida há muito tempo por metas ambiciosas de energia renovável, e este novo parque eólico mostra tanto a liderança de nosso país quanto o compromisso da AWS com energia renovável", disse Anders Ygeman, ministro de Energia e Desenvolvimento Digital da Suécia. "Este é um passo significativo na produção de energia renovável da Suécia, enquanto trabalhamos em direção a nossa meta de 100 por cento de energia renovável até 2040".

A Califórnia lidera nos Estados Unidos na geração de energia renovável a partir de fontes não-hidrelétricas e as montanhas Tehachapi, onde o parque eólico da AWS está localizado, abrigam alguns dos maiores parques eólicos do país. O projeto em Tehachapi deverá gerar até 47 MW na capacidade de energia renovável até o final de 2020. 

"Este anúncio da AWS é uma ótima notícia, não apenas para a Califórnia, mas para todo o país, pois reafirma nosso papel de líder em energia renovável e nos permite dar um passo importante na implantação da energia limpa que precisamos para responder à mudança climática", disse o senador Jerry Hill, do condado de San Mateo e Santa Clara, membro do Comitê Permanente do Senado para Energia, Serviços Públicos e Comunicações. 

Além das iniciativas de sustentabilidade focadas em potencializar a infraestrutura global da AWS, a Amazon anunciou recentemente o Shipment Zero – a iniciativa da Amazon para zerar a emissão líquida de carbono de envios de produtos, que deve abranger 50% de todos os envios até 2030. Programas adicionais de sustentabilidade em toda a empresa incluem Amazon Wind Farm Texas, que adiciona mais de 1 milhão de MWh de energia limpa a cada ano. 

No total, a Amazon possibilitou 53 projetos eólicos e solares em todo o mundo, que produzem mais de 1.016 MW e deverão entregar mais de 3.075.636 MWh de energia anualmente. Esses projetos apoiam centenas de empregos, enquanto fornecem dezenas de milhões de dólares de investimento em comunidades locais. A Amazon também estabeleceu uma meta para hospedar sistemas de energia solar em 50 centros de atendimento até 2020. 

Essa implantação de sistemas solares em telhados é parte de uma iniciativa de longo prazo que começará na América do Norte e se espalhará pelo mundo. A Amazon também implementou o Projeto de Energia do Distrito, que usa energia reciclada para aquecer os escritórios da Amazon em Seattle.


Abastecimento Brasileiro Depende de Poços Artesianos Sob Risco de Contaminação

Alerta está em relatório do Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas da USP, que liga contaminação à falta de saneamento básico. 

O Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas (Cepas) do Instituto de Geociências (IGc) elaborou, a convite do Instituto Trata Brasil, o relatório A Revolução Silenciosa das Águas Subterrâneas no Brasil: Uma Análise da Importância do Recurso e os Riscos Pela Falta de Saneamento, sobre o uso e a contaminação dos aquíferos brasileiros. O documento relaciona a contaminação dessas reservas com a insuficiência e as más condições do sistema de saneamento básico. Além disso, traz dados inéditos sobre a importância econômica das águas subterrâneas e sugestões para resolver os problemas atuais do cenário brasileiro. 

Um dos autores do estudo, o diretor do Cepas e professor do IGc, Ricardo Hirata, afirma que o trabalho destaca o valor das águas subterrâneas para a sociedade: "Antes desse relatório, não tínhamos uma quantificação da importância desse recurso. Nossos dados mostram que há uma dependência muito maior das águas subterrâneas do que qualquer outra estatística já havia apontado". 

O estudo indicou um total de 17,5 bilhões de m³/ano de água sendo bombeada pelos 2,5 milhões de poços artesianos do País. Isso é o suficiente para abastecer, por ano, a atual população brasileira ou dez regiões metropolitanas do tamanho de São Paulo

Dados de 2010 da Agência Nacional de Águas (ANA) já registravam que 52% dos municípios brasileiros eram total ou parcialmente dependentes da água subterrânea, com uma relação inversamente proporcional ao tamanho dos municípios (quanto menor a cidade, maior o uso do recurso). Em termos econômicos, o Cepas demonstrou que a água subterrânea extraída tem um valor de aproximadamente R$ 59 bilhões por ano e o total de poços instalados no País representa um investimento de mais de R$ 75 bilhões.

 Fonte: relatório A Revolução Silenciosa das Águas Subterrâneas no Brasil: Uma Análise da Importância do Recurso e os Riscos Pela Falta de Saneamento.

Problemas e soluções 

O Cepas também apontou que grande parte dos usuários de águas subterrâneas são proprietários privados. O uso privado das águas é um direito assegurado por lei, entretanto, é necessário que se realize o pedido de outorga, que o poço seja perfurado de maneira adequada e que se realizem avaliações químicas periódicas na água retirada. Segundo Hirata, a realidade ainda é muito distante desse ideal: "O número de pedidos de outorga ainda é muito pequeno frente ao universo de 2,5 milhões de poços. Acreditamos que o governo desconheça a existência de mais de 80% dessas captações no Brasil". 

Formas de se obter águas subterrâneas.
A contaminação das águas subterrâneas pode se dar de diversas maneiras, mas o relatório destaca a degradação relacionada aos problemas com o esgoto. Existem 100 milhões de brasileiros sem acesso à coleta de esgoto, segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento. Nesses casos, esse material é direcionado a fossas e pode se infiltrar no solo e contaminar as águas subterrâneas. Também contribuem com a contaminação os vazamentos em cidades que possuem sistema de esgoto antigo e não realizam a manutenção adequadamente. Segundo o especialista, a situação é preocupante: "Em termos de volume de água degradada, a falta de saneamento é o maior responsável pela contaminação da água subterrânea no Brasil". 

Como resposta a essas questões, o relatório indica a necessidade de uma gestão hídrica participativa e de um manejo integrado dos recursos hídricos. A gestão hídrica participativa consiste em simplificar regras e educar a população para que o próprio usuário entenda e valorize a necessidade de cumprir com as recomendações governamentais. Hirata explica a recomendação: "Em casos como o brasileiro, em que existem milhões de usuários, é necessário que eles participem ativamente dos sistemas de gestão, porque o Estado não tem a capacidade sozinho de monitorar e fiscalizar a todos". 

Já a gestão integrada dos recursos hídricos trata de pensar nas várias fontes de água, integrando as superficiais e subterrânea, bem como considera o uso e ocupação do terreno, a sociedade e as instituições governamentais. Muitas cidades não possuem esse pensamento de integração de recursos e acabam por sofrer de carência de água, sobretudo nos períodos de estiagem. Assim, "a gestão integrada seria pensar integralmente os recursos hídricos inseridos dentro da sociedade, na busca de maior segurança hídrica e resiliência dos sistemas de abastecimento público e privado", explica Hirata.

O relatório está disponível on-line e pode ser lido na íntegra no site do Instituto Trata Brasil.

Por: Rebecca Gomperlz (Jornal da USP).

O Que As Abelhas Podem Ensinar Aos Economistas Sobre O Funcionamento Dos Mercados

A relação entre abelhas, mel e macieiras é - há bastante tempo - uma fonte rica de conhecimento em economia.

Pouca gente sabe, mas economistas adoram abelhas - ou pelo menos a ideia em torno delas. Não por acaso, o inseto ilustra o logotipo da Royal Economic Society, associação britânica que reúne profissionais do setor. 

A Fábula das Abelhas, publicada por Bernard Mandeville no começo do século 18, usa o bichinho como metáfora para o funcionamento da economia - e antecipa conceitos modernos como a divisão do trabalho e a "mão invisível" do mercado. 

Mais de 200 anos depois, quando um futuro ganhador do Prêmio Nobel de Economia, James Meade, procurava um exemplo paupável para ilustrar um conceito complexo da teoria econômica, ele se voltou às abelhas em busca de inspiração. 

Ele queria explicar o que economistas chamam de "externalidades positivas" - efeitos colaterais benéficos de determinados arranjos que mercados sem regulação não produziriam o suficiente e que, portanto, poderiam ser objeto de subsídio por parte do Estado. 

Para Meade, o exemplo perfeito de externalidade positiva era a relação entre maçãs e abelhas.

Pomares e apiários

Imagine, escreveu em 1952 o economista, uma região que reunisse pomares e apiários. Se aqueles que cultivavam maçãs plantassem mais árvores, os apicultores se beneficiariam, porque suas abelhas produziriam mais mel. 

Mas os produtores de macieiras, por sua vez, não compartilhariam desses benefícios - as externalidades positivas - e, por isso, talvez não plantassem o suficiente para que todos tivessem um aproveitamento ótimo da situação. 

Isso se deve, de acordo com Meade, "ao simples e único fato de que o agricultor não pode cobrar o apicultor por estar contribuindo para a nutrição das abelhas". 

Mas há um porém na tese - o economista escolheu a planta errada. A flor da macieira não está entre as que mais estimulam a produção de mel. E essa era uma de muitas coisas que James Meade não sabia sobre as abelhas. 

Para entender seu erro fundamental, precisamos recorrer à história da relação entre os humanos e esses insetos. 

'Nunca mate uma abelha'

No começo de tudo, não existia apicultor - só a coleta de mel, a tentativa de roubar as colmeias de abelhas selvagens. Esses são episódios que encontramos retratados em pinturas rupestres. 

Então, pelo menos 5.000 anos atrás, a atividade foi "formalizada". Gregos, egípcios e romanos se dedicaram à domesticação das abelhas. 

Na Idade Média, os apicultores passaram a usar cestos como colmeias sintéticas - com o formato que acabou se tornando clássico e que muitas vezes aparece nos desenhos animados. 

Mas o problema com os cestos-colmeia era que, para tirar o mel, era preciso se livrar das abelhas - assim, muitas vezes, os apicultores sufocavam os insetos com fumaça sulfurosa, extraíam o mel e depois se preocupavam com a construção da próxima colônia. 

No decorrer do tempo, as pessoas começaram a se preocupar com o desperdício e com o tratamento dispensado aos animais que não apenas forneciam aos humanos mel mas também polinizavam as plantas. 

Na década de 1830, um movimento pelos direitos das abelhas emergiu nos Estados Unidos sob o lema "nunca mate uma abelha". 

Em 1852, por sua vez, o escritório americano de patentes concedeu a patente número 9300A ao sacerdote Lorenzo Langstroth pela invenção de uma colmeia com moldura removível. 

A colmeia de Langstroth é uma caixa de madeira com uma abertura na parte superior e molduras móveis, cuidadosamente separadas uma da outra pelo intervalo mágico de 8 milímetros de "espaço abelha" - qualquer coisa maior ou menor que isso faz com que os insetos construam suas próprias estruturas nas molduras e dificultem a extração do mel. 

A rainha fica na parte de baixo, separada por uma grade no "isolamento de rainhas" - uma rede que a impede de circular, mas permite a entrada das abelhas operárias. Isso mantém as larvas distantes dos favos de mel. 

Os favos são retirados com facilidade e colhidos por uma centrífuga que gira e expele a parte líquida, filtrando o mel. 

Industrialização e vida real 

Com esse aparelho, uma maravilha do design e da eficiência, a nova colmeia permitiu a "industrialização da abelha". E foi essa industrialização que escapou a James Meade. A abelha melífera é um animal cuidadosamente domesticado. 

Com as colmeias de Langstroth, as abelhas se tornaram portáteis. A partir de então, nada impedia que produtores rurais chegassem a um acordo financeiro com apicultores para que eles pudessem posicionar as colmeias no meio da plantação. 

Algumas décadas depois do exemplo famoso de James Meade, outro economista, Steven Cheung, ficou curioso sobre o assunto e fez algo que nós economistas talvez não façamos o suficiente: ele chamou pessoas do "mundo real" e perguntou a elas o que de fato acontecia. 

E descobriu que, com frequência, eram os produtores de maçã que pagavam aos apicultores pela polinizavação de suas plantações. 

No caso de outras culturas, os apicultores de fato pagam aos produtores rurais pelo fato de que suas abelhas se beneficiam do néctar das plantações adjacentes. Um exemplo nesse sentido é a hortelã, que não precisa de ajuda das abelhas, mas que rende mel de excelente qualidade. 

Maçãs e abelhas não são, portanto, bons exemplos de externalidades positivas, já que a interação entre elas cria de forma natural um mercado - e grande. 

Atualmente, seu centro de gravidade é a indústria de amêndoa da Califórnia. A oleaginosa ocupa quase 4 mil km² do Estado - e movimenta cerca de US$ 5 bilhões por ano. As amendoeiras precisam de abelhas - mais precisamente de 5 colônias por hectare, alugadas por cerca de US$ 185 cada uma. 

As colmeias de Langstroth são amarradas umas às outras, carregadas em caminhões articulados - 400 por veículo - e levadas para os campos de amendoeiras da Califórnia a cada nova primavera. Isso tudo à noite, enquanto as abelhas estão dormindo. 

Os números impressionam: 85% dos 2 milhões de colmeias comerciais existentes nos EUA são deslocados e, com eles, dezenas de bilhões de abelhas. 

Como descreve a autora Bee Wilson em The Hive: The Story of the Honeybee and Us ('A colmeia: a história da abelha melífera e nós', em tradução livre), os grandes apicultores americanos administram 10 mil colmeias cada um e, da Califórnia, podem viajar milhares de quilômetros até chegarem aos campos de cerejas no Estado de Washington, aos campos de girassóis na Dakota do Norte e Dakota do Sul, às plantações de abóboras na Pensilvânia ou de blueberries no Maine

Dilema das abelhas selvagens 

O Prêmio Nobel de Economia, James Meade, estava equivocado ao imaginar a apicultura como uma espécie de idílio rural. As abelhas foram quase completamente industrializadas e a polinização, amplamente comercializada. 

E isso nos coloca diante de um dilema. 

Ecologistas estão preocupados com a população de abelhas selvagens, que estão em franco declínio em diversas partes do mundo. 

Ninguém sabe ao certo o porquê. Entre motivos aventados estão parasitas, o uso de pesticidas na agricultura e o misterioso "distúrbio do colapso das colônias", em que as abelhas simplesmente desaparecem e deixam a rainha para trás. 

Como as abelhas domesticadas enfrentam as mesmas pressões, entraria em cena um princípio econômico simples - uma redução da oferta de abelhas acabaria pressionando os preços dos serviços de polinização. Mas não é isso que os economistas estão vendo. 

O distúrbio do colapso das colônias tem tido efeito mínimo, considerando-se diversas métricas, sobre o mercado de abelhas. Produtores estão pagando basicamente a mesma coisa pela polinização, e os preços de novas rainhas praticamente não se mexeram. 

Aparentemente, apicultores industriais conseguiram desenvolver estratégias para manter a estabilidade das populações usadas no negócio, seja comercializando e reproduzindo em cativeiro abelhas-rainhas ou dividindo colônias. 

É por isso que não há redução na oferta de mel - ou de amêndoas, maçãs ou blueberries. Pelo menos até agora. 

Deveríamos comemorar a ação de incentivos econômicos na preservação de parte da população de abelhas? Talvez. 

Outra perspectiva é a de que o impulso da economia moderna de controlar e monetizar o mundo natural é justamente o que causou o problema. 

Antes de a agricultura monocultora mudar ecossistemas, não havia a necessidade de levar as colmeias de Langstroth de um lado a outro para polinizar plantações - populações locais de insetos faziam o trabalho de graça. 

Então, se quisermos um exemplo de externalidade positiva - algo que o mercado não regulado não produzirá na quantidade que a sociedade desejaria - talvez devêssemos olhar para um uso da terra que contribuísse para a proliferação de abelhas selvagens e de outros insetos. 

Campos de flores selvagens, talvez - e alguns governos já estão subsidiando esse tipo de iniciativa, assim como James Meade os aconselharia.

Por: Tim Harford; do programa 50 Things That Made the Modern Economy (BBC).