Translate / Traduzir

Biometano Ganha Força Como Alternativa Ao Combustível Fóssil

A emissão de gases de efeito estufa por veículos e atividades como a agropecuária ainda são um desafio para o Brasil, que tem na geração de energia limpa um grande aliado: o biometano. Combustível menos poluente, o biometano é mais econômico que o etanol e ainda é produzido por dejetos e efluentes, o que garante destinação adequada a esses resíduos. 

Assim como o biogás, o biometano é produzido por meio da decomposição de matéria orgânica, na ausência do oxigênio. No entanto, para atingir a quantidade de metano necessária para uso como combustível veicular, o material passa por um processo de purificação. Em 2015, a Agência Nacional de Petróleo (ANP) regulamentou o biometano, reconhecendo o gás como combustível similar ao Gás Natural Veicular (GNV), com a vantagem de não ser de origem fóssil, portanto não renovável. 

Segundo o assessor de Energias Renováveis da Itaipu Binacional, Paulo Afonso Schimidt, mais do que uma tendência, o biometano é uma necessidade. "Há um estudo que demonstra que se a gente considerar todo o potencial de produção de biogás do país, é algo superior ao volume de produção hoje de Itaipu, então, isso demonstra que há um potencial enorme a ser explorado", compara. 

Veículos movidos por biometano 

Em 2014, a empresa integrou à sua frota o uso de veículos movidos por biometano e instalou em suas dependências um posto para abastecimento. Posteriormente, a frota cresceu e, na última semana, a maior produtora de energia hidrelétrica do mundo inaugurou a primeira planta de biometano que usa como matéria-prima a mistura de esgoto, poda de grama e alimentos descartados por restaurantes. 

A tecnologia é totalmente desenvolvida em Foz do Iguaçu e é pioneira. Até então, o biometano do Brasil era produzido unicamente por dejeto de animais. Os resíduos resultantes do processo de produção serão transformados ainda em biofertilizantes. "Retiramos os resíduos que seriam potenciais poluentes da natureza, transformamos em energia sustentável, renovável e devolvemos os nutrientes ao planeta. Então, com isso nós, na verdade, imitamos a natureza com um processo que é absolutamente natural", diz Paulo Schimidt

Para atender parte da demanda de eletricidade gerada pela planta de combustível renovável, a empresa instalou uma micro usina de energia solar fotovoltaica no local. São 12 placas que juntas têm capacidade instalada de 3 quilowatts-pico (KWp) e geram cerca de 350 quilowatts-hora (Kwh) por mês. Segundo o engenheiro eletricista do Parque Tecnológico de Itaipu, Thiago Lippo, o projeto também faz parte das atividades de pesquisa e desenvolvimento da empresa, e será monitorado assim como a planta de biometano. 

A unidade de demostração tem capacidade de produzir 4 mil metros cúbicos de biometano por mês e já abastece 70 veículos, mas pode abastecer até 300 por mês. De acordo com pesquisadores do Centro Internacional de Energias Renováveis-Biogás (CIBiogás), o gasto por quilômetro rodado de combustível biometano é de R$ 0,26, enquanto o do etanol é de R$ 0,36. 

O monitoramento dos resultados obtidos com a nova planta tem como objetivo consolidar um modelo de negócio viável para ser replicado na região e, posteriormente, em todo o país. A proposta da empresa é desenvolver a tecnologia e disponibilizar para os produtores rurais e municípios. "Quando Itaipu chegou aqui, ela inundou terras férteis e essas terras estão fazendo com que a gente produza energia, energia limpa. Então, nada mais justo que a gente devolva um pouco mais para a região", diz o diretor-geral brasileiro de Itaipu, Luiz Fernando Vianna.

Por: Fabíola Sinimbu (Agência Brasil).

Pesquisadores da USP Investigam o Potencial de Uso dos Resíduos Agroindustriais

Transformar resíduos em recursos, substituir matérias-primas tóxicas por insumos saudáveis, migrar de processos impactantes para produção sustentável: estas são algumas das metas que norteiam as reflexões mais avançadas no campo da atividade agroindustrial. São também diretrizes do Projeto Temático Agroindustrial wastes and their potential use as appropriate materials for housing and infraestructure (Agrowaste), coordenado pelo engenheiro Holmer Savastano Junior, professor titular da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo (FZEA-USP), em Pirassununga, SP

Fruto de um acordo de cooperação da FAPESP com a Agence Nationale de la Recherche (ANR), da França, o projeto reúne pesquisadores da USP e do Departamento de Química da Université des Antilles (UA), instalada no departamento ultramarino francês de Guadeloupe (Guadalupe), no Caribe

“Desenvolvemos duas linhas de pesquisa: uma com compósitos de matriz inorgânica, explorando o acréscimo de cinzas de queima de biomassa e de fibras de biomassa em matriz de cimento Portland, para a produção de placas planas ou onduladas de fibrocimento; outra com compósitos de matriz orgânica, explorando a utilização de fibras e partículas de biomassa aglomeradas por resina vegetal, para a produção de placas destinadas à fabricação de embalagens, paletes e mobiliário”, disse Savastano à Agência FAPESP

Na “linha inorgânica”, a solução pesquisada visa obter um produto alternativo ao cimento-amianto. E, na “linha orgânica”, o objetivo é buscar alternativa aos aglomerados baseados em resinas fenólicas. Ambas as matérias-primas – o amianto e as resinas fenólicas – são consideradas cancerígenas. Especialmente no caso da fibra de amianto, existe hoje uma tendência mundial à proibição, já acatada por 69 países, em atendimento a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, vários estados e municípios vetaram o uso, mas o processo de proibição em todo o território nacional se arrasta no Supremo Tribunal Federal (STF). 

Proibidas em diversos países, mas ainda não no Brasil, as resinas fenólicas também estão, por assim dizer, com seus dias contados. E, neste caso, deve-se considerar, além da toxicidade do produto, também a insustentabilidade da produção, petróleo-dependente. 

“O cimento-amianto foi utilizado durante décadas. E, ao longo desse período, a indústria se adaptou perfeitamente a ele. Parecia uma solução técnica imbatível, principalmente pelo baixo custo. Mas o impacto sobre a saúde exige agora a busca de outras fibras de reforço menos tóxicas. Nosso projeto já gerou resultados com potencial de transferência tecnológica para empresas. O fibrocimento pode se prestar à fabricação de telhas onduladas, placas planas para divisórias e outros componentes para a construção civil. O que fizemos não foi a simples substituição da fibra. Foram necessários e realizados vários ajustes ao processo produtivo, em parceria com empresas fabricantes de fibrocimento no Brasil. Por exemplo, em relação a métodos específicos de cura do cimento”, afirmou Savastano

O estudo da tecnologia de cura do fibrocimento, conduzido pelo pesquisador, também é objeto de apoio da FAPESP por meio do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE). 

Para produzir as placas de fibrocimento, foi empregada uma mistura de cimento, fibras plásticas e polpas vegetais. “Nossa perspectiva é utilizar cada vez mais cinzas de biomassa em substituição ao cimento Portland convencional e fibras vegetais em substituição às fibras plásticas”, sublinhou Savastano

Isso configuraria um produto de terceira geração. A primeira geração foi constituída pelo cimento reforçado com fibras minerais. A segunda geração, já viável, é esta com cimento, fibras plásticas e polpas vegetais. A terceira, a ser alcançada passo a passo, com ajustes incrementais, é substituir progressivamente o cimento e as fibras plásticas por cinzas da queima de biomassa e fibras vegetais, tornando o material menos impactante e mais sustentável, de acordo com expectativas ambientais que começam a se disseminar na sociedade. 

“Quanto mais vegetal, mais sustentável”, definiu Savastano. “Por isso, um próximo passo, como sequência do projeto atual que está em fase de encerramento, é exatamente fazer análises de sustentabilidade, calculando como o uso progressivo de fibras vegetais influiria em variáveis como consumo de energia na produção e durabilidade do produto final”. 

Por enquanto, devido à disponibilidade comercial, as fibras vegetais utilizadas na pesquisa ainda são constituídas por polpa de celulose. “Mas, em um país como o Brasil, temos perfeitas condições de utilizar diversos vegetais fibrosos como fonte de polpa. Uma alternativa, importante no Estado de São Paulo, que é o maior produtor de cana-de-açúcar, poderia ser, por exemplo, o bagaço e a palha da cana, utilizáveis tanto como fonte de fibras quanto como fonte de cinzas. Se considerarmos o território nacional como um todo, há muitas outras alternativas de biomassas não madeireira: sisal, banana e bambu, para mencionar apenas alguns exemplos”, lembrou o pesquisador. 

A substituição da polpa de celulose pelo bagaço de cana, por exemplo, atenderia à diretriz de transformar resíduo em recurso, contribuindo para a otimização do processo agroindustrial. “O que chamamos hoje de rejeitos não podem, de fato, receber essa definição. São matérias-primas mal aproveitadas. Um dos objetivos de nosso projeto é levar este tipo de consideração ao segmento empresarial”, comentou Savastano. 

Sinergia de pesquisa 

O fato de a ilha de Guadalupe localizar-se na zona tropical, como boa parte do território brasileiro, foi um importante fator para a sinergia das equipes de pesquisadores da USP e da Université des Antilles. A agricultura é o motor da economia de Guadalupe. E a cana-de-açúcar, seu principal produto agrícola, juntamente com a banana. A semelhança climática faz com que certas soluções construtivas, especialmente aquelas que se servem da biomassa, estejam incorporadas às culturas tradicionais de lá e daqui. Por outro lado, a complementaridade das aptidões possibilitou que a interação entre os dois grupos não se resumisse a mais do mesmo. “Eles são mais fortes em química, e nós, mais fortes em engenharia”, resumiu Savastano

“Ainda estamos em uma curva de aprendizado”, ressalvou o pesquisador. “Por uma questão de escala, não conseguiríamos hoje disponibilizar para a indústria um material produzido exclusivamente a partir de rejeitos agrícolas. O volume da demanda industrial é muito maior do que seríamos capazes de atender. A menos que fosse para suprir as necessidades de uma indústria de pequeno porte. Por isso o emprego de soluções intermediárias, como a incorporação de fibras plásticas.” 

Na “linha orgânica”, voltada para a produção de placas ou painéis de material aglomerado, os pesquisadores também dependem da compra da resina vegetal utilizada, constituída por óleo de mamona. “Estamos mais focados na biomassa. E há um bom motivo para isso, porque a biomassa compõe pelo menos 85% da massa do material, enquanto a resina compõe apenas 15%. Adquirimos uma resina que atende a todas as especificações técnicas. Mas ainda não dominamos sua produção. Para que nosso projeto tenha futuro, será preciso, na próxima etapa, agregar uma competência em relação a isso, mediante a associação com grupos que dominem essa tecnologia”, ponderou Savastano

Aglomerante orgânico 

Recentemente, o grupo da USP foi procurado por pesquisadores da North Carolina A&T State University, da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, que estão utilizando dejetos da criação de suínos para produzir um aglomerante orgânico. E este é apenas um exemplo das muitas possibilidades a serem exploradas no tocante à resina. 

No que se refere à biomassa agregada, os pesquisadores da USP já trabalharam com casca de coco verde, bagaço de cana, sisal e até sacos vazios de cimento, descartados após o uso. Esses materiais compõem a massa agregada pela resina. Uma utilização bem concreta poderá ocorrer na indústria moveleira, mediante o recobrimento das placas de material aglomerado com lâminas de madeira ou a aplicação de uma película impermeabilizante. 

“O potencial desses painéis é muito grande. Eles poderão ser produzidos em múltiplas camadas, cada qual atendendo a uma demanda específica: mecânica, térmica, acústica, estética e assim por diante. E diferentes tipos de placas poderão ser concebidos para usos específicos: construção civil, movelaria, embalagens etc. Aqui, entra toda um aporte da engenharia, considerando fatores como resistência mecânica, impermeabilização e durabilidade. Dada a escala de produção, a adoção de materiais alternativos não é algo que se faça em um estalar de dedos. Qualquer ajuste no processo industrial tem que ser muito pesquisado para atingir consistência suficiente e confiabilidade por parte da indústria e dos usuários”, finalizou Savastano.

Por: José Tadeu Arantes (Agência Fapesp).

Proatividade e Resiliência: Desafios na Era da Informação

Quanto mais vivemos e somos experimentados pela realidade e pelas transformações do mundo, mais temos a plena consciência de que nada será como antes e que tudo pode mudar, diminuindo as certezas; e quem resiste à inovação tende a ser levado à estagnação, caso não se adapte aos novos tempos. Por causa da celeridade das mudanças da vida, seja da natureza física ou da sociedade, as buscas por mais informação, como algo que se julga absolutamente necessário através de pesquisas, permitiram avanços impressionantes em todas as áreas da ciência, do século XVIII até as primeiras décadas do século XXI. 

Vários fatores de ordem política, econômica e social legitimaram demandas que promoveram revoluções tecnológica, informacional e produtiva no universo do trabalho e também na organização dos trabalhadores diante da atuação do empresariado - que passou a adotar um relacionamento mais ético com seu público de interesse [clientes, funcionários, fornecedores, acionistas, governo e comunidade], a investir em projetos socioambientais e em desenvolvimento sustentável. 

A relação do homem com o habitat em que vive sempre foi permeada pelo trabalho - da Pedra Lascada à Agricultura passando pela Industrialização até chegar à Era da Informação -, o que requereu dele aprimorar técnicas e pôr-se em contiguidade e com o meio para satisfazer suas necessidades materiais abundantes. Na contemporaneidade, a presença 'em todos os lugares simultaneamente' [ubiquidade] das tecnologias digitais e a emergência de novas formas de atividades laborais nos impõem desafios e exigências complexas. 

Ao compreender que o meio ambiente é um pressuposto para o exercício de todos os direitos da humanidade, é dever de cada pessoa estar preparada tanto para as oportunidades quanto às adversidades que nos colocam à prova dia após dia frente ao grau de incertezas das modernas e ambiciosas realizações antropocêntricas. Só os fortes sobrevivem, diz o senso comum, porém, apenas os melhores condicionados às alterações radicias de um ambiente conseguem manter-se flexíveis e perenes, por esse motivo considera-se tão importante uma atitude proativa e ser resiliente perante a vida, a fim de minimizar riscos em situações críticas. 

O intenso fluxo de informações ao qual estamos submetidos - com seu alto poder de influenciar tendências comportamentais  mercadológicas - amplifica a opinião das pessoas, fortalece movimentos, conduz a ascensão e queda das economias, globaliza crises e concorrências potencializando cada vez mais a competitividade, exigindo do indivíduo "aprender a aprender" constantemente em razão das mudanças aceleradas e conforme percebe as ameaças à sua sobrevivência. 

Perseverar rente às dificuldades parte do raciocínio de que eu ou você tem a autoeficácia necessária [alta motivação e capacidade de tomar decisões arriscadas] para empreender o rompimento dos entraves estabelecidos pelas circunstâncias de um momento específico, pois não há turbulência que dure eternamente e ao absorver impactos com inteligência e criatividade, pode-se evoluir e sair revigorado. Além disso, a evolução dos meios de comunicação, mais rápidos e eficientes, exige que sejamos mais 'enérgicos e renováveis' em tempos de crescente ativismo ecológico no mundo.

Em um contexto sociocultural - de acordo com Teoria Social Cognitiva: Conceitos Básicos (2008, p. 69-96), de Albert Bandura -, os sujeitos regulam o padrão de seus comportamentos em função de condições ambientais e cognitivas. Os sujeitos não apenas planejam e antecipam suas ações. Após estabelecerem um plano, eles devem se empenhar em esforços e comportamentos adequados que os levem às metas propostas. Para isso, são necessários processos de autorregulação do pensamento à ação.



Por: Gustavo Nobio. Sustentabilista, comunicador ambiental, articulista e administrador de conteúdo da mídia online #SenhorEco. Técnico em Meio Ambiente pela FUNCEFET (RJ).

Mudança Climática Deve Intensificar Ondas de Calor Fatais

A partir de 37ºC, mecanismos de termorregulação ficam comprometidos, e umidade agrava o perigo. Segundo cientistas do Havaí, mortes por calor podem mais do que dobrar até o fim do século, dependendo dos níveis de CO2. 

Atualmente, cerca de 30% da população mundial já é exposta, durante pelo menos 20 dias por ano, a temperaturas e umidade atmosférica que comprometem significativamente a termorregulação do organismo, com potencial fatal. 

Em artigo para a revista especializada Nature Climate Change [Global Risk of Deadly Heat], a equipe liderada por Camilo Mora, da Universidade do Havaí, em Manoa, Honolulu, alerta que, devido ao aquecimento global, essa taxa poderá crescer nas próximas décadas. 

Devido à mudança climática, até o ano 2100 poderá chegar a 48% da população a porcentagem dos seres humanos ameaçados pela morte devido ao calor, mesmo que haja uma redução drástica das emissões globais de dióxido de carbono. Caso estas se mantenham no nível atual, então até 74% da população poderá estar exposta a ondas de calor extremas. 

Escolha entre o ruim e o horrível 

Mora e sua equipe avaliaram estudos sobre mortes por calor publicados entre 1980 e 2014. Em 783 relatos compilados em 164 cidades de 36 países, sobretudo da Europa Meridional e centro-leste dos Estados Unidos, eles detectaram um incremento do nível de mortalidade relacionada a temperaturas altas. 

Por exemplo, durante uma onda de calor na Europa em 2003, milhares de pessoas morreram na França e na Alemanha. Em 2010, mais de 10 mil sucumbiram ao calor em Moscou. Em Chicago, em 1995, o número de vítimas foi de 740. Também Nova York, Londres, Tóquio e Toronto, entre outras, sofreram com condições meteorológicas extremas. 

A fim de determinar a partir de que ponto extremos de calor passam a ser fatais, os pesquisadores do Havaí analisaram em detalhe as condições climáticas durante as épocas em questão – temperatura, umidade, velocidade do vento e níveis de radiação –, comparando-as com fases moderadas. Sua conclusão é que temperatura e umidade relativa do ar são os fatores decisivos. 

Quando a temperatura externa ultrapassa a média do corpo humano, de cerca de 37ºC, ele não consegue mais liberar calor, hiperaquecendo-se. Além disso, se a umidade atmosférica é alta, deixa de funcionar o principal mecanismo de regulação térmica do organismo, a transpiração. Nesse caso, também temperaturas menos elevadas podem ser mortais. 

A visão de futuro de Camilo Mora é pessimista: "No tocante a ondas de calor, temos a escolha entre ruim e horrível." Já em 2015, pesquisadores divulgaram um prognóstico sombrio para os Estados do Golfo Pérsico: devido à mudança climática, dentro de poucas décadas as temperaturas na região poderão ultrapassar regularmente os 60ºC – mesmo para indivíduos saudáveis, um calor humanamente insuportável.

Fonte: DW.

Regeneração Natural é Estratégia Para a Restauração Florestal de Baixo Custo

Estudos da Agroicone mostram que proprietários de terras com alto e médio potencial de regeneração podem se valer desta alternativa. A agenda de restauração florestal vem ganhando força no Brasil, especialmente por conta da nova lei florestal brasileira – que completa cinco anos em 2017– e que traz um grande desafio aos produtores rurais: manter a sua atividade agrícola combinada com a conservação ou restauração de vegetação nativa em Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reservas Legais (RLs). 

Essa incumbência, que não resulta apenas no cumprimento do Código, mas caminha lado a lado com os objetivos globais em prol do controle da mudança do clima, pode contar com alternativas de baixo custo extremamente efetivas. 

De acordo com o estudo Restauração Florestal em Cadeias Agropecuárias para Adequação ao Código Florestal da Agroicone, as áreas podem ser recompostas pelo plantio de mudas, semeadura direta e regeneração natural, ativa e passiva. “Além de plantar mudas de espécies nativas, o produtor poderá escolher outras formas de restauração, considerando o diagnóstico da área e os recursos disponíveis. Nosso estudo apresenta os custos das diferentes técnicas, em diferentes condições e regiões do País. São informações-chave para desenhar estratégias de fomento à restauração florestal”, afirma Laura Antoniazzi, coordenadora do trabalho. 

As regenerações naturais ativa e passiva são técnicas de baixo custo que podem ser aplicadas somente em áreas com alto e médio potencial de regeneração, ou seja, nos locais com quantidade e riqueza de espécies nativas. “A regeneração natural passiva, que não possui nenhuma intervenção humana, apresenta custo zero. Basta que o produtor realize o cercamento da área, no caso de haver animais ou outros agentes de degradação, e espere a ação da natureza. Já a ativa necessita de investimentos para a contenção de plantas invasoras que impedem o crescimento das espécies que cresceriam naturalmente”, destaca. 

É importante ressaltar que o estudo realizou o levantamento de custos de restauração florestal em quatro regiões do País – Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Bacia dos Tapajós, Matopiba e São Paulo. Nesta última, por exemplo, os valores envolvidos na regeneração natural ativa, semeadura direta e plantio de mudas foi, respectivamente, de R$ 902, R$ 3.585 e R$ 8.349 por hectare, em condições planas. 

Em linhas gerais, o estudo aponta que em comparação com as demais técnicas disponibilizadas para a restauração florestal, a regeneração ativa (em áreas de médio potencial de regeneração) possui um custo médio até quatro vezes menor do que a semeadura direta e até dez vezes menor que o plantio de mudas. 

Como complemento à análise, tendo em vista melhor informar todos os interessados na cadeia agropecuária de restauração, a Agroicone lança o Guia de Plantas da Regeneração Natural do Cerrado e da Mata Atlântica. “A ideia deste guia é despertar o olhar de produtores rurais, técnicos e restauradores de campo para a regeneração natural como mais uma técnica de restauração”, relata o autor Paolo Sartorelli

A publicação apresenta 102 espécies nativas, entre árvores, arvoretas, arbustos, subarbustos e palmeiras, que crescem espontaneamente ao nosso redor. “Pelo menos 12 milhões de hectares precisam ser reflorestados no País. Por isso, análises de custos de restauração florestal e guias de espécies nativas, destacando suas ocorrências e principais características, são contribuições não apenas para ações privadas, mas, principalmente, para o embasamento de políticas públicas”, finaliza Laura

Os estudos estão disponíveis para download gratuito no site do INPUT (Iniciativa para o Uso da Terra). Para mais informações, acesse: 



Sobre a Agroicone 

Fundada em 2013, pela união de um grupo de especialistas do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (ICONE) que, desde 2003, produz estudos e pesquisas aplicadas e promove debates qualificados em temas do agronegócio brasileiro e mundial. A Agroicone atua nas áreas de economia agrícola, bioenergia, conservação ambiental, comércio e negociações internacionais, trabalhando junto ao setor privado brasileiro e com diversas organizações internacionais de pesquisa e de políticas públicas.

Fonte: Agroicone.

'Homo sapiens' Surgiu 100 Mil Anos Antes Do Que Se Pensava, aponta estudo

O Homo sapiens, espécie à qual pertencemos, não data de 200.000 anos como se acreditava até agora, mas de 300.000, segundo os fósseis encontrados no Marrocos de indivíduos extremamente parecidos com o Homem atual. "Esta descoberta representa a origem da nossa espécie, trata-se do Homo sapiens mais velho já encontrado na África e em qualquer outro lugar", explicou o francês Jean-Jacques Hublin, coautor da pesquisa e diretor do Departamento de Evolução Humana do Instituto Max Planck em Leipzig, na Alemanha

"O ninho dos fósseis humanos" encontrado em excelente estado de conservação durante escavações iniciadas em 2004 no sítio de Jebel Irhoud, no noroeste do Marrocos, continha os restos de pelo menos cinco indivíduos: três adultos, um adolescente e uma criança. 

Os pesquisadores descobriram que "o rosto de um destes primeiros Homo sapiens é [igual] ao de qualquer pessoa com a qual poderíamos cruzar no metrô", afirmou Hublin, cuja pesquisa foi publicada em 07/06/2017 na revista Nature [Oldest 'Homo sapiens' Fossil Claim Rewrites Our Species History] junto com outro estudo que aponta na mesma direção. 

Seu crânio, no entanto, é bastante diferente do visto no Homem atual. "Ainda há uma longa evolução à frente antes de chegar a uma morfologia moderna", afirmou este professor. 

A datação destes fósseis foi obtida por Daniel Richter, especialista do Instituto de Leipzig, por meio da termoluminescência, uma técnica muito comum utilizada desde os anos 1980. 

A equipe de arqueólogos encontrou também neste local, situado a 400 km ao sul de Rabat, fósseis inestimáveis, como uma mandíbula, "provavelmente a mais bela de um Homo sapiens jamais encontrada na África", disse Hublin

Os Homens de Jebel Irhoud destronam assim o Omo I e Omo II, descobertos em Omo Kibish, na Etiópia, e datados de 195.000 anos. 

Também na Etiópia foram encontrados três fósseis de crânios datados de 160.000 anos.

Coexistência com outras espécies 

Estas descobertas realizadas na mesma região fizeram pensar que o Homem atual era descendente de uma população localizada no leste da África. Uma teoria que, com o encontrado em Jebel Irhoud, é completamente questionada. 

Além disso, os utensílios achados nesse local junto com nossos ancestrais - essencialmente pontudos - são típicos do que se conhece como Middle Stone Age ("Idade Média da Pedra", em tradução livre). 

"Já haviam descoberto este tipo de objeto, igualmente datados de 300.000 anos, em várias partes da África, mas não sabiam quem os teria fabricado", explicou Daniel Richter

Agora, os pesquisadores consideram que podem associar a presença dos utensílios da Middle Stone Age à do Homo sapiens

"Com certeza, antes de 300.000, antes de Jebel Irhoud, houve uma dispersão de ancestrais de nossa espécie no conjunto do continente africano", disse Hublin. "O conjunto da África participou desse processo". 

O Homo sapiens arcaico, o Homo erectus e o Neandertal podem ter coexistido não apenas em regiões distantes, mas também em zonas próximas. 

"Portanto, durante muito tempo houve várias espécies de Homens no mundo, que se cruzaram, coabitaram, trocaram genes...", explicou à AFP o paleoantropólogo Antoine Balzeau, que não participou da descoberta no Marrocos

"Nos distanciamos cada vez mais desta visão linear da evolução humana como uma sucessão de espécies", concordou Hublin

A sobrevivência, uma sorte? 

Balzeau advertiu contra a tendência de acreditar que o Homo sapiens sobreviveu ao resto das espécies por ser superior. "Durante muito tempo exageramos as características do Homo sapiens, sobretudo as capacidades de nosso cérebro". 

Mas estudos recentes mostraram que "não havia grandes diferenças em termos de valor, comportamento ou complexidade entre o Homo sapiens e o Neandertal". "É frustrante, mas não sabemos o motivo pelo qual continuamos a existir e os outros desapareceram. Acreditamos muitas vezes que somos uma conquista evolutiva, mas se deve também à sorte de continuarmos aqui!". 

Descoberta sobre Homo sapiens deve revolucionar o estudo da evolução humana 

Abdelouahed Ben-Nce e Jean-Jacques Hublin.
As escavações no noroeste de Marrocos começaram em 2004. A equipe trabalhou com fósseis de ao menos cinco indivíduos: três adultos, um adolescente e uma criança. Por uma tecnologia de datação por termoluminescência em pedras encontradas no sítio arqueológico, conseguiram chegar à idade dos ossos. A mesma técnica ajudou a recontar o tempo de existência de três mandíbulas também descobertas em Omo Kibish. Daniel Richter, especialista em datação do Instituto de Leipzig, concluiu que elas não tinham 160 mil anos, como apontado por ressonância paramagnética eletrônica, mas 300 mil. 

Para os investigadores, a acentuada diferença de tempo e a grande distância entre os fósseis do Marrocos e da Etiópia lançam dúvidas sobre a teoria de que o homem atual é descendente de uma população localizada no leste da África. “Com certeza, antes de 300 mil anos, antes de Jebel Irhoud, houve uma dispersão de ancestrais de nossa espécie no conjunto do continente africano. O conjunto da África participou desse processo”, diz Jean-Jacques Hublin

Ferramentas de pedras encontradas próximas aos fósseis também ajudam a reforçar a tese. Em vez de machados, comumente encontrados em sítios com vestígios do Homo sapiens, havia utensílios pontiagudos. Segundo o paleoantropólogo Shannon McPherron, eles foram feitos de sílex (variedade de quartzo) de alta qualidade. “Os artefatos de pedra de Jebel Irhoud parecem muito semelhantes aos encontrados no leste e no sul da África. É provável que as inovações tecnológicas da metade da Idade da Pedra estejam ligadas ao surgimento do Homo sapiens”, avalia o autor de um dos artigos. 

Encontro possível 

A possibilidade de ligar ferramentas da Idade da Pedra ao Homo sapiens sinaliza ainda uma coexistência de espécies. O Homo sapiens arcaico, o Homo erectus e o Neandertal podem ter coexistido não apenas em regiões distantes, mas também em zonas próximas. “Portanto, durante muito tempo, houve várias espécies de homens no mundo, que se cruzaram, coabitaram, trocaram genes”, explica o paleoantropólogo Antoine Balzeau, não participante do estudo, em entrevista à AFP. Hublin concorda. “Nos distanciamos cada vez mais dessa visão linear da evolução humana como uma sucessão de espécies.” 

Em um comentário publicado na revista Nature, os paleoantropólogos Chris Stringer e Julia Galway-Witham, do Museu de História Natural de Londres, no Reino Unido, ressaltam que análises de DNA indicam que a linhagem dos humanos modernos se diferenciou dos Neandertais e dos Denisovans, nossos parentes mais próximos, há cerca de 500 mil anos, bem antes dos fósseis encontrados no sítio arqueológico marroquino. “Isso pode significar que existiram membros mais recentes da linhagem Homo sapiens que tinham características preponderantemente arcaicas, em vez dos traços modernos. Até agora, tem sido difícil identificar esses fósseis.” 

Para a dupla de especialistas, os fósseis anunciados nesta semana terão impacto marcante no estudo da espécie humana. “(A descoberta) poderá iluminar a evolução da nossa espécie de uma maneira equivalente à que o fóssil de Neandertal encontrado em Sima de los Uesos, na Espanha, fez com o nosso conhecimento sobre o desenvolvimento dos Neandertais”, comparam. 

Abdelouahed Ben-Ncer, do Instituto Nacional de Arqueologia e Patrimônio do Marrocos e participante do estudo, também aposta no surgimento de novos olhares sobre a história humana. “A África do Norte tem sido negligenciada nos debates em torno da origem de nossa espécie. As espetaculares descobertas de Jebel Irhoud demonstram as estreitas conexões do Magrebe com o resto do continente africano no momento da emergência do Homo sapiens.”


A Incrível História do Brasileiro Chamado de Louco Pelos Vizinhos por Plantar a Própria Floresta

Afinal, quem compraria um pedaço de terra a 200 km de São Paulo para começar a plantar árvores? "Quando comecei a plantar, as pessoas me diziam: 'você não viverá para comer as frutas, porque essas árvores vão demorar 20 anos para crescer'", conta Antonio Vicente, 83 anos, ao repórter Gibby Zobel, do programa Outlook, do Serviço Mundial da BBC

"Eu respondia: 'Vou plantar essas sementes, porque alguém plantou as que estou comendo agora. Vou plantá-las para que outros possam comê-las." Vicente, prestes a completar 84 anos, comprou seu terreno em 1973, uma época na qual o governo militar oferecia facilidades de crédito para investimentos em tecnologia agrícola, com o objetivo de impulsionar a agricultura. 

Mas sua ideia era exatamente a oposta. Criado em uma família numerosa de agricultores, ele via com preocupação como a expansão dos campos destruía a fauna e a flora locais, e como a falta de árvores afetava os recursos hídricos. 

"Quando era criança, os agricultores cortavam as árvores para criar pastagens e pelo carvão. A água secou e nunca voltou", explica. "Pensei comigo: 'a água é o bem mais valioso, ninguém fabrica água e a população não para de crescer. O que vai acontecer? Ficaremos sem água."

As florestas são fundamentais para a preservação da água porque absorvem e retém esta matéria-prima em suas raízes. Além disso, evitam a erosão do solo.

A primeira árvore que Vicente plantou foi uma castanheira. 

Recuperação da floresta 

Quando tinha 14 anos, Vicente saiu do campo e passou a trabalhar como ferreiro na cidade. Com o dinheiro da venda de seu negócio, pôde comprar 30 hectares em uma região de planície perto de São Francisco Xavier, distrito de 5 mil habitantes que faz parte de São José dos Campos, no interior de São Paulo

"A vida na cidade não era fácil", lembra ele. "Acabei tendo de viver debaixo de uma árvore porque não tinha dinheiro para o aluguel. Tomava banho no rio e vivia debaixo da árvore, cercado de raposas e ratos. Juntei muitas folhas e fiz uma cama, onde dormi", diz Vicente

"Mas nunca passei fome. Comia sanduíches de banana no café da manhã, almoço e jantar", acrescenta.

Após retornar ao campo, começou a plantar, uma por uma, cada uma das árvores que hoje formam a floresta úmida tropical com cerca de 50 mil unidades. 

'Nadando contra a corrente' 

Vicente nadava contra a corrente: durante os últimos 30 anos, em que se dedicou a reflorestar sua propriedade, cerca de 183 mil hectares de mata atlântica no Estado de São Paulo foram desflorestados para dar lugar à agricultura. 

Segundo a Fundação SOS Mata Atlântica e o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a mata atlântica cobria originalmente 69% do Estado de São Paulo. Hoje, a proporção caiu para 14%. 

E, ainda que esteja distante do pico de 2004, quando 27 mil hectares foram destruídos, o ritmo de desmatamento voltou a aumentar. Entre agosto de 2015 e julho de 2016, por exemplo, foram destruídos 8 mil hectares de floresta - uma alta de 29% em relação ao ano anterior e o nível mais elevado desde 2008, segundo dados do INPE

Animais e água 

Um quadro pendurado na parede da casa de Vicente serve de lembrança das mudanças que ele conseguiu com seu próprio esforço. "Em 1973, não havia nada aqui, como você pode ver. Tudo era pastagem. Minha casa é a mais bonita de toda essa região, mas hoje não se pode tirar uma foto desse ângulo porque as árvores a encobrem, porque estão muito grandes", brinca Vicente.

Com o replantio, muitos animais reapareceram. 

"Há tucanos, todo tipo de aves, pacas, esquilos, lagartos, gambás e, inclusive, javalis", enumera. "Temos também uma onça pequena e uma jaguatirica, que come todas as galinhas", ri. 

O mais importante, contudo, é que os cursos de água também voltaram a brotar. Quando Vicente comprou o terreno, só havia uma fonte. Agora, há cerca de 20.

Fonte: BBC Brasil.

Estudo Reforça Importância da Amazônia na Regulação da Química Atmosférica

Medições aéreas feitas no âmbito da campanha científica Green Ocean Amazon Experiment (GOAmazon) revelaram que a floresta amazônica emite pelo menos três vezes mais isopreno do que estimavam os cientistas. 

De acordo com Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e coautor do estudo, a substância é considerada um dos principais precursores do ozônio na Amazônia e, de forma indireta, interfere no balanço de gases de efeito estufa na atmosfera. 

Os resultados da pesquisa foram divulgados no dia 23 de maio de 2017 na revista Nature Communications

“A descoberta explica uma série de questões antes não compreendidas, por exemplo, as altas concentrações de ozônio encontradas vento abaixo de Manaus, que não podiam ser explicadas pela ação antrópica”, disse Artaxo, coordenador do Projeto Temático GOAmazon: Interação da Pluma Urbana de Manaus com Emissões Biogênicas da Floresta Amazônica, financiado pela FAPESP

As estimativas anteriores eram baseadas em medidas feitas por satélites ou em torres de até 60 metros de altura. Durante a campanha científica GOAmazon, porém, foi possível obter novos dados com o avião de pesquisa Gulfstream-1, que pertence ao Pacific Northwest National Laboratory (PNNL), dos Estados Unidos, e atinge até 6 mil metros de altitude. 

As medições com a aeronave foram feitas nos anos de 2014 e 2015 – tanto na estação chuvosa como no período de seca – e foram comparadas com dados obtidos no nível do solo. 

“Com medidas feitas a 4 mil metros de altitude, foi possível calcular uma emissão média referente a uma área muito maior do que a considerada em trabalhos anteriores. Assim, pudemos perceber que as emissões biogênicas naturais são muito maiores do que se imaginava”, disse Artaxo

Outra descoberta considerada pelos pesquisadores como “surpreendente” foi que as emissões de isopreno variam fortemente de acordo com a elevação do terreno – sendo maiores nas regiões mais altas. Para uma elevação de 30 metros, por exemplo, o fluxo de isopreno foi de 6 miligramas por metro quadrado por hora (mg/m2/h), enquanto para uma elevação de 100 metros foi de cerca de 14 mg/m2/h. 

“A região amazônica é, de modo geral, de baixa elevação. Nas áreas sobrevoadas pelo avião, havia pequenas oscilações no terreno e pudemos notar que nas regiões mais altas as emissões eram bem maiores”, disse Artaxo

Os pesquisadores ainda não sabem ao certo explicar o motivo dessa variação das emissões – observada tanto no período seco como no chuvoso. Duas hipóteses são apontadas no artigo e vão requerer novos experimentos para serem testadas. 

Uma das possibilidades é que a população de plantas existente em áreas alagadas (mais baixas) seja diferente da encontrada em regiões de maior altitude – e o nível de emissão de isopreno varia de acordo com a espécie biológica. 

Outra hipótese é que as plantas de áreas mais elevadas, por apresentarem maior dificuldade para obter água, liberariam mais isopreno em resposta a um estresse hídrico. 

“Embora chova muito na Amazônia, já foi mostrado que, em algumas regiões, o lençol de água desce bem abaixo do solo na estação seca. Há plantas com raízes muito profundas, capazes de coletar água a 10 ou 20 metros abaixo do nível do solo”, comentou Artaxo

Interações atmosféricas 

O isopreno é um dos compostos orgânicos voláteis (VOCs, na sigla em inglês) emitidos naturalmente pela vegetação amazônica. É uma das fontes dos aerossóis orgânicos secundários que servem de núcleo de condensação de nuvens – ajudando a regular o ciclo hidrológico na região. 

Ao se decompor, o isopreno dá origem a diversos subprodutos – entre eles o radical hidroxila (OH). Essa molécula, em certas condições, quando encontra com o oxigênio atmosférico (O2), dá origem ao ozônio (O3), um dos gases responsáveis pelo efeito estufa. Em altas concentrações, o ozônio pode irritar os estômatos das plantas, que são os canais usados na troca de gases e na transpiração, dificultando a fotossíntese e a assimilação de carbono pela vegetação. 

“Além disso, o radical OH controla a oxidação do metano na atmosfera, outro importante gás de efeito estufa. Dependendo da situação, o radical OH pode prolongar ou reduzir a meia-vida do metano, com implicações para o balanço de gases de efeito estufa”, explicou Artaxo

Segundo o professor do IF-USP, a Amazônia já era considerada a maior fonte mundial de isopreno mesmo antes das novas descobertas. “Esses resultados reforçam a relevância desse ecossistema na regulação da química atmosférica tropical do planeta. Agora, precisamos incluir os resultados nos modelos climáticos globais para saber exatamente qual é o efeito climático desses novos valores de emissões.” 

Iniciada em 2014, a campanha científica GOAmazon tem entre seus objetivos investigar o efeito da poluição urbana de Manaus sobre as nuvens amazônicas e avançar no conhecimento sobre os processos de formação de chuva e a dinâmica da interação entre a biosfera amazônica e a atmosfera. Com base nos achados, os pesquisadores pretendem estimar mudanças futuras no balanço radiativo, na distribuição de energia, no clima regional e seus impactos para o clima global. 

O consórcio conta com financiamento do Departamento de Energia dos Estados Unidos (DoE, na sigla em inglês), da FAPESP e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), entre outros parceiros (leia mais em: http://agencia.fapesp.br/18691). 

O artigo Airborne Observations Reveal Elevational Gradient in Tropical Forest Isoprene Emissions (doi:10.1038/ncomms15541), de Dasa Gu, Paulo Artaxo, Alex Guenther Hu e outros, pode ser lido em: www.nature.com/articles/ncomms15541).

Por: Karina Toledo (Agência Fapesp).

A Desconstrução das Marcas

Os novos tempos requerem estratégias empresariais mais sintonizadas com a sustentabilidade e menos comprometidas com o consumismo. 

“Quando me aposentar da Madison Avenue, fundarei uma sociedade secreta de vigilantes mascarados que viajarão pelo mundo em silenciosas bicicletas motorizadas, arrancando pôsteres à luz tênue da lua.” David Ogilvy, um dos ícones da história da Propaganda em Confessions of an Advertising Man (1963) 

Incomodada pela exagerada invasão das marcas no meu dia-a-dia, depois de ter trabalhado com comunicação e branding por mais de dez anos em grandes empresas, no fim dos anos 90 entrei em profundo questionamento. 

Já como futurista, em 2002, escrevi um artigo que pensei, quando publicado, iria afastar amigos publicitários de minha rede entre mais afetuosos relacionamentos e provocar protestos. 

Questionei o porquê das marcas e sinalizei mudanças em curso. A surpresa foi enorme quando depois de escrever e publicar O Futuro Além das Marcas comecei a receber telefonemas e elogios dos amigos publicitários pelo gesto, além de saber tempos depois que o texto estava sendo utilizado em salas de aula das escolas de marketing

Passados quinze anos, volto ao tema, dessa vez revisitado à luz de um novo tempo esperando novamente que meus amigos publicitários não me condenem. 

Era uma vez o branding 

Os anos 80 marcaram o apogeu do branding, que pela definição coletiva da Wikipedia significa o processo de produção de imagens e ideias representativas de um produtor econômico. 

Na sua real origem a palavra branding não é tão charmosa. Vem de uma atividade antiga dos proprietários rurais que estampavam com ferro em brasa as peles dos seus rebanhos para identifica-los caso se perdessem do seu dono. 

O branding foi durante 40 anos poderoso instrumento de demarcação de territórios mercadológicos, criando vínculos entre consumidores e fabricantes através de identidades produzidas por imagens e mensagens. Os anos 80 e 90 marcaram o fim das ideologias. 

Foram tempos de desencanto, do sonho que acabou, das quedas dos muros e como recurso paliativo passamos a consumir marcas através de sofisticados mecanismos do branding produzidos pelas empresas. 

As narrativas eram vazias e irrelevantes porém muito sedutoras entre os desencantados em busca da felicidade instantânea, atraindo investimentos milionários. 

Nossas mentes passaram a ser colonizadas por sensações mais leves e prazerosas como por exemplo sentir o poder de ter um carro novo, o charme de fumar o novo cigarro com filtro, assistir ao protagonista da novela recomendando uma marca de presunto, ou sentir-se “livre” ao usar o creme dental que o comercial vendia com imagens de ondas do mar. 

As marcas na berlinda 

Atualmente é gigantesco o capital movimentado pelas marcas na economia. São US$600 bilhões de investimentos por ano (orçamento global de 2015). Isso representa 6 vezes o que poderia custar para salvar o planeta do aquecimento global. Explico. Durante a COP21 (Conferencia do Clima) realizada em Paris em 2015, os países ricos decidiram levantar um fundo de US$100 bilhões para combater os efeitos das mudanças climáticas. 

Desde o começo do século, começaram a surgir autores iconoclastas que trouxeram questionamentos profundos à existência das marcas. 

Entre eles, destaco a canadense Naomi Klein que em seu livro Sem Logo – A Tirania das Marcas em um Planeta Vendido não mede palavras para denunciar o excessivo valor das marcas responsáveis pela cultura de consumo. 

A americana Juliet Schor se destacou nos debates anticorporativos com o que escreveu sobre a influência das marcas no comportamento das crianças que segundo ela, “nascem para comprar” num dos seus livros Born to Buy

Aqui no Brasil, entre excelentes vozes críticas destaco o economista Ladislau Dowbor, que sem anestesia e com bom humor vocifera contra a lógica do marketing e revolta-se por ser identificado como “público-alvo” no vocabulário do marketing, ou seja, bombardeado pela propaganda. 

Entre os escritos de Dowbor, recomendo o artigo acessível livremente na internet A Captura do Poder Pelo Sistema Corporativo

Novas relações de poder 

A onipresença das marcas começa a perder força com o apogeu da sociedade em rede e pela busca da individualidade representada por movimentos como por exemplo os makers, os “do-it-yourself” que se potencializam com os milagres das impressões 3D, pouco a pouco acessíveis a todos os que podem se tornar fabricantes caseiros e individuais com a própria identidade. 

As novas economias (colaborativa, compartilhada, entre outras) dão novo sentido às relações sociais e ao resgate de nossas individualidades, que orquestradas em rede, constituem um novo poder, dessa vez distribuído e horizontal. A internet pôs fim aos territórios. 

Não estamos mais querendo ser representados por marcas. Queremos nos despir delas e resgatar nossas próprias identidades. Mais que consumidores, somos cidadãos e líderes de opinião. Diante dessa transformação, as empresas se vêem diante de desafios sem precedentes. 

Como as marcas poderão se sustentar com o crescimento do nosso poder individual mediado pela tecnologias móveis? Que mecanismos do marketing podem compreender nossa individualidade genômica se nem os sistemas Big Data nem pesquisas de mercado não conseguiram captar? 

Como seduzir pessoas a comprar este ou aquele produto se os microuniversos conversam entre si para trocar experiências, reciclar ou trocar produtos, se retroalimentam de ideias e opiniões e se constituem em poderosos pólos de influência em tempo real e em escala global? 

As tecnologias que nos empoderaram ficaram ainda mais poderosas pela crise financeira de 2008, a que engatilhou o início do desmoronamento desse modelo econômico. Diante desse fenômeno, emergem alternativas que pautam o novo marketing e que horizontalizam relações de poder entre produtores, vendedores e compradores. 

O mundo do marketing precisa repensar modelos para sobreviver ao resgate dessas identidades. Algumas empresas já começaram a responder a essa nova direção de poder, se antecipando aos concorrentes há mais de dez anos. 

São elas que estão melhor preparadas para o futuro, as que abriram suas portas digitais para promover diálogos, polinizar conversações e acolher ideias, reconhecendo as pessoas como coautoras de produtos, serviços e até de campanhas publicitárias. Natura, P&G, Fiat, Promon, Eli Lilly, Embraer, Unilever e Philips estão entre os destaques. 

Do branding ao debranding 

O branding tão consagrado pelos executivos de marketing está sendo desconstruído. Alcançou seu limiar e enfrenta um paradoxo Mesmo que ainda sobreviva na tentativa de nos envolver transferindo nossas próprias vozes para ícones da moda ou celebridades não pode perder de vista as fraturas que estão se abrindo pela sociedade em rede na busca de sua autoexpressão. 

As marcas começam a perturbar e se tornar invasivas. Precisam bater na porta antes de entrar. Quando se desesperam por atenção são rejeitadas. 

O que antes era esvaziado pelos símbolos na fusão de identidades entre pessoas e marcas está mudando de direção e se voltando para o preenchimento das individualidades pessoais em sua riqueza e complexidade. 

Não queremos mais nos ver retratados nas marcas; queremos que as marcas nos retratem e nos valorizem. Pouco a pouco estamos reassumindo e reconhecendo nossa força que se sustenta na beleza de ser o que somos. 

O novo modelo que está surgindo é o debranding que, num sentido mais técnico, se refere à remoção das marcas promovidas nas campanhas de marketing e dá destaque às pessoas e aos públicos com que se relacionam. 

Isso não é de hoje. Já em 1995 a Nike na tentativa de se recompor depois do escândalo que relacionou sua marca ao trabalho escravo, foi a primeira a se lançar nessa aventura. 

Muito tempo depois foi a vez de um exemplo brasileiro com a campanha de aniversário do Banco do Brasil que em 2007 ilustrou nas fachadas em que antes se lia o nome do Banco com nomes de clientes como “Banco da Ana”, “Banco da Maria” ou “Banco do João”. 

Em 2011 a Starbucks também optou por remover o seu nome deixando apenas a arte do logotipo. Nesse caso a ideia era passar uma imagem mais local e menos corporativa do café comercializado em suas lojas. Em 2013 foi a vez da Coca Cola que substituiu sua marca nas embalagens por nomes de pessoas. 

O futuro além das marcas Há quem diga que o futuro do branding está no debranding. Entre as novas abordagens do debranding, apela-se para o “branded content” – novos conteúdos que mesclam propaganda com editorial, na tentativa de suavizar o discurso e atrair a atenção de leitores. 

Algo que inegavelmente, se mal conduzido, pode confundi-los e afastá-los, principalmente os mais desconfiados e críticos. Por isso, a transparência deve nortear essa mudança e todo o cuidado é pouco a todas as empresas que desejam se aventurar nesse novo caminho. 

Sem informação relevante e transparência não vai funcionar. As marcas não mais sustentam produtos e serviços sem qualidade, os quais por muitos anos tentaram se esconder atrás de um universo imaginário. 

O futuro do branding talvez não seja o debranding ou qualquer nome que se relacione ao marketing. Existem espaços e oportunidades para novos modelos os quais podem trazer novas nomenclaturas que não sejam anglicismos acadêmicos distantes das nossas realidades. 

Os novos tempos requerem estratégias empresariais mais sintonizadas com a sustentabilidade e menos comprometidas com o consumismo. Até porque o elogio à vida simples e o incentivo a comprar o suficiente tem transformado as relações de consumo. 

Parece um propor que o marketing não incentive o consumo mas é nas frestas do discurso que reside o futuro. Isso não significa acabar com o consumo mas ressignificá-lo de forma a criar modelos econômicos mais equilibrados, menos excessivos e mais respeitosos às nossas sagradas identidades.

Por: Rosa Alegria. Futurista, pesquisadora de tendências e Mestre em Estudos do Futuro pela Universidade de Houston (EUA). Fonte: Diário do Comércio.

Astrônomos Mostram Por Que Região do Sol na Via Láctea é Habitável

Pesquisa comprovou que o giro do Sol acompanha, em velocidade, o giro dos braços espirais – Foto: Divulgação / ESO.

Desde que Copérnico teorizou que a Terra girava em torno do Sol, aprendemos que nada no universo está parado. Não apenas a Terra gira em torno de si mesma, como ao redor do Sol e o próprio Sol, no centro da Via Láctea, também se move. O que os físicos não compreendiam até então era se esse movimento do Sol atravessaria, eventualmente, o que chamamos de “braços espirais” da Via Láctea, estruturas que circundam a galáxia e berço de incontáveis novas estrelas. 

Ao utilizarem dados precisos de posições de estrelas jovens e cálculos detalhados de órbitas na galáxia, uma nova pesquisa mostrou que o Sol reside permanentemente no meio de dois braços espirais importantes da galáxia, Sagittarius e Perseus. De acordo com a descoberta, o Sol jamais cruza os braços espirais, evitando um evento catastrófico que poderia causar extinções em massa na Terra

O trabalho foi realizado por uma equipe liderada por Jacques Lépine, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP

Nossa galáxia tem a forma de um disco achatado formado de estrelas e de gás. Como muitas galáxias, ela apresenta os tais “braços espirais” – estruturas espiraladas de matéria mais brilhante que contêm estrelas jovens e luminosas. As estrelas do disco galáctico giram em torno do centro da galáxia da mesma forma que os planetas giram em torno do Sol. O Sol não é diferente, e demora 200 milhões de anos para dar uma volta galáctica. 

Observando atentamente os chamados masers, uma amplificação de microondas por emissão estimulada de radiação, especialistas puderam calcular com precisão a distância entre os braços espirais e os demais corpos que constituem a galáxia. “Utilizamos radiotelescópios separados por milhares de quilômetros para medir e observar a velocidade com a qual essas fontes se deslocam no céu”, sumariza Lépine

“Não conseguimos ver os braços porque sua estrutura é bastante plana, mas quando se vê uma outra galáxia, conseguimos enxergar as formas espiraladas”, explica Lépine. Essas estruturas são especialmente muito visíveis por serem o local de nascimento das estrelas, que, dependendo da sua massa, podem ser muito luminosas.

Ilustração (abaixo): braços espirais são estruturas espiraladas de matéria mais brilhante que contêm estrelas jovens e luminosas. 

De forma simplificada, o especialista explica que, ao estabelecer um ponto inicial, astrônomos podem, por meio de cálculos, observar por onde uma estrela já passou ou irá passar. “Qualquer estrela – o Sol, por exemplo – gira em torno do centro da galáxia”, reforça ele. 

Na pesquisa inédita, astrônomos da USP descobriram que o Sol e os braços espirais giram com a mesma velocidade. Isto é algo que só acontece para estrelas que se encontram aproximadamente na mesma distância do centro galáctico que o Sol, cerca de 26.000 anos-luz. Como o Sol anda junto com os braços espirais, ele nunca os cruzará. 

“Sempre se especulou sobre o que acontece cada vez que o Sol atravessa os braços, e se pensava que isso acontecia periodicamente, por exemplo, a cada 150 milhões de anos”, contou Lépine. “Mas de acordo com os nossos cálculos isso não acontece nunca.” 

Para melhor compreender a descoberta, o professor ilustra ao explicar que, se desenharmos uma espiral em um CD e o colocarmos para girar, notaremos que o desenho não se altera, acompanhando o giro do disco. “Na galáxia, os braços também, eles giram como se fossem um desenho constante”, revela. 

Quando não se sabia que o Sol permaneceria sempre entre os dois braços, especialistas acreditavam que, de tempos em tempos, ele atravessaria a estrutura. Como o braço é uma região que contém explosões de supernovas e nuvens de gases moleculares, as hipóteses incluíam uma infinidade de eventos cataclísmicos. A passagem do Sol “poderia causar um grande fluxo de raios cósmicos, que poderia acabar com a vida em episódios de extinção em massa ou provocar mudanças climáticas”, lista o professor. 

Entretanto, de acordo com os cientistas, nos últimos 2 bilhões de anos o Sol não atravessou nenhum dos braços. 

A pesquisa também explica a existência de um pequeno braço anômalo na Via Láctea, chamado de “Braço Local”. De acordo com o grupo de Lépine, o “Braço Local” foi formado por muitas estrelas que, como o Sol, ficam “presas” entre os braços de Sagittarius e Perseus

O trabalho possui apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) via Programa de Excelência Acadêmica (Proex). 

O artigo The Dynamical Origin of the Local Arm, and the Sun´s Trapped Orbit (Jacques R. D. Lépine, Tatiana A. Michtchenko, Douglas A. Barros, Ronaldo S. S. Vieira) foi aceito para publicação na revista Astrophysical Journal e pode ser acessado neste link.

Por: Denis Pacheco (Jornal da USP).

Onde é o limite do Universo?

O que está além do universo conhecido? Onde acaba o universo? Ou melhor, ele acaba? Definir o “além do universo” implicaria que o universo tem uma borda. E é aí que as coisas ficam muito complicadas, porque os cientistas não estão certos se tal borda existe. A resposta depende de como se vê a questão. 

Princípio cosmológico 

Existiria algum lugar ao qual poderíamos ir e “ver” o que está “além do universo”, como se pode espiar além da borda de um penhasco ou para fora de uma janela? Essa questão envolve o “princípio cosmológico”, de acordo com Robert McNees, professor de física na Universidade Loyola em Chicago, nos EUA

O princípio cosmológico dita que a distribuição da matéria em qualquer parte do universo parece praticamente a mesma que em qualquer outra parte, independentemente da direção que você olha. Em termos científicos, o universo é isotrópico. 

“Há muita variação local - estrelas, galáxias, aglomerados etc -, mas, em média, em grandes pedaços de espaço, nenhum lugar é realmente tão diferente do que qualquer outro”, disse McNees

Logo, não há qualquer “borda”; não há nenhum lugar onde o universo apenas termina para que uma pessoa pudesse ver o que está além dele. 

O universo como um balão 

Uma analogia frequentemente usada para descrever este universo sem bordas é a superfície de um balão. Uma formiga em tal superfície pode andar em qualquer direção e ela parecerá “ilimitada” – isto é, a formiga pode voltar para onde começou, mas não haveria fim para a viagem. 

Assim, mesmo que a superfície de um balão tenha um número finito de unidades quadradas, não há nenhuma borda, fronteira ou centro. O universo é como uma versão tridimensional da superfície de tal balão.

Um balão expandindo 

Sabemos que o universo está se expandindo, mas como, se não há fim ou borda nele? 

Usando a analogia do balão novamente, se adicionássemos mais ar para o balão, a formiga observaria as coisas na superfície do balão ficando mais longe. E quanto maior a distância entre a formiga e algum objeto, mais rápido o objeto estaria recuando. 

Mas não importa para onde a formiga fosse, a velocidade com que esses objetos se afastariam dela seguiria as mesmas relações. 

Essa pergunta não deveria ser feita 

Por definição, o universo contém tudo, por isso não há “lá fora”. 

O físico Stephen Hawking, por exemplo, crê que essa questão – se o universo tem uma borda – não faz sentido, porque se o universo veio do nada e trouxe tudo à existência, perguntar o que está além do universo é como perguntar qual é o norte do Polo Norte

O universo observável 

Existe um limite para o tamanho do universo que os humanos podem ver, chamado de universo observável, conforme explicou a Dra. Katie Mack, astrofísica teórica da Universidade de Melbourne, na Austrália

Este tamanho é de 46 bilhões de anos-luz em qualquer direção, mesmo que o universo tenha nascido apenas 13,8 bilhões de anos atrás. Qualquer coisa fora desse raio não é visível para os terráqueos, e nunca será. Isso porque as distâncias entre os objetos do universo continuam ficando maiores a uma taxa que é mais rápida do que os feixes de luz podem chegar à Terra

Em cima disso, a taxa de expansão não é uniforme. Por uma breve fração de segundo após o Big Bang [teoria cosmológica dominante sobre o suposto desenvolvimento inicial do universo], houve um período de expansão acelerada chamado de inflação, durante o qual o universo cresceu a um ritmo muito mais rápido do que está crescendo agora. Regiões inteiras do espaço nunca serão observáveis da Terra por esse motivo. 

Mack ainda nota que, assumindo que a inflação aconteceu, o universo é realmente 10^23 vezes maior do que os 46 bilhões de anos-luz que os seres humanos podem ver. Portanto, se há uma borda para o universo, é tão longe que nunca a veremos. 

Um espaço infinito? 

Enquanto isso, há a questão de saber se o universo é na verdade infinito, uma que Mack disse ainda estar em aberto. 

O universo pode “dar a volta” em torno de si mesmo da mesma forma que a superfície de uma esfera 2D envolve-se em três dimensões (isso implicaria uma quarta dimensão espacial). Ou pode ser infinito. 

Alguns pesquisadores estão tentando descobrir se o universo é como uma esfera através da observação de pontos repetidos no céu. Se astrônomos encontrarem dois lugares em lados opostos do céu que são exatamente iguais, isso seria um forte indício de que o universo é curvo. Não há garantias, no entanto. 

Além de existir a possibilidade real de que o universo não tenha um limite, é mais provável que nós nunca descobriremos a resposta a essa pergunta. 

Por: Jesse Emspak (LiveScience).

A 'Peneira' Que Transforma Água do Mar em Água Potável

Segundo uma pesquisa realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), aproximadamente 40% da população mundial sofre com a falta de água. Esse grave problema, além de aumentar consideravelmente a sede no mundo, traz graves consequências para economia e política das nações. 

Foi tentando solucionar esse problema que pesquisadores da Universidade de Manchester, no Reino Unido, desenvolveram uma peneira capaz de transformar água do mar em água potável. 

Os resultados da pesquisa [Tunable Sieving of Ions Using Graphene Oxide Membranes] foram publicados na revista científica Nature Nanotechnology e mostram que a peneira foi criada utilizando o óxido de grafeno (forma cristalina de carbono), substância altamente eficaz na dessalinização. 

O grafeno é uma substância composta por uma camada fina de átomos de carbono ordenada em um tipo de treliça hexagonal. Suas propriedades fizeram dele um dos materiais mais favoráveis para futuras aplicações. Mas, por ser bastante difícil e caro de ser produzido, o professor e pesquisador Rahul Nair resolveu utilizar na criação da peneira o óxido de grafeno, substância que pode ser facilmente feita em laboratório. 

Ele ressaltou, em entrevista ao site da Universidade de Manchester: “Em forma de solução ou tinta, podemos aplicá-lo em um material poroso e usá-lo como membrana. Em termos de custo do material e produção em escala, ele tem mais vantagens em potencial do que o grafeno em uma camada.” 

O material já havia sido testado anteriormente e apresentou um sério problema: quando inserido na água, a membrana feita com esse óxido tinha seu volume aumentado, deixando que as partículas de sais menores passassem junto com as moléculas aquáticas. 

Para resolver essa situação, os pesquisadores implantaram em cada lado da membrana uma espécie de parede feita de resina epóxi. Esse método parou com o inchaço, conseguindo ajustá-lo de forma que os sais passassem corretamente por entre os buracos. 

“A descoberta de membranas ajustáveis com tamanhos uniformes de poros até a escala atômica é um passo à frente significativo e irá abrir novas possibilidades para o desenvolvimento eficaz da tecnologia de dessalinização”, explicou Rahul. Ele ainda afirmou que esse processo poderá ser utilizado também para filtragem de íons. 

Esse estudo é bastante importante para o futuro, pois dados da ONU mostraram que até 2025 cerca de 1,2 bilhão de pessoas no mundo sofrerão com a falta de água. Por isso, o grupo de pesquisadores está aprimorando cada vez mais o estudo, para que essa tecnologia se torne viável para todos os países. 

Hoje são utilizadas duas técnicas de dessalinização: o multiestágio de destilação e a osmose reversa, entretanto, para Ram Devanathan, cientista do Laboratório Nacional do Noroeste do Pacífico, nos Estados Unidos, ambos os métodos são bastante prejudiciais, causando grandes impactos ambientais. O que deixa claro que o óxido de grafeno pode ser a melhor solução, afinal, além de ser mais barato, pode colaborar com o meio ambiente.