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Abastecimento Brasileiro Depende de Poços Artesianos Sob Risco de Contaminação

Alerta está em relatório do Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas da USP, que liga contaminação à falta de saneamento básico. 

O Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas (Cepas) do Instituto de Geociências (IGc) elaborou, a convite do Instituto Trata Brasil, o relatório A Revolução Silenciosa das Águas Subterrâneas no Brasil: Uma Análise da Importância do Recurso e os Riscos Pela Falta de Saneamento, sobre o uso e a contaminação dos aquíferos brasileiros. O documento relaciona a contaminação dessas reservas com a insuficiência e as más condições do sistema de saneamento básico. Além disso, traz dados inéditos sobre a importância econômica das águas subterrâneas e sugestões para resolver os problemas atuais do cenário brasileiro. 

Um dos autores do estudo, o diretor do Cepas e professor do IGc, Ricardo Hirata, afirma que o trabalho destaca o valor das águas subterrâneas para a sociedade: "Antes desse relatório, não tínhamos uma quantificação da importância desse recurso. Nossos dados mostram que há uma dependência muito maior das águas subterrâneas do que qualquer outra estatística já havia apontado". 

O estudo indicou um total de 17,5 bilhões de m³/ano de água sendo bombeada pelos 2,5 milhões de poços artesianos do País. Isso é o suficiente para abastecer, por ano, a atual população brasileira ou dez regiões metropolitanas do tamanho de São Paulo

Dados de 2010 da Agência Nacional de Águas (ANA) já registravam que 52% dos municípios brasileiros eram total ou parcialmente dependentes da água subterrânea, com uma relação inversamente proporcional ao tamanho dos municípios (quanto menor a cidade, maior o uso do recurso). Em termos econômicos, o Cepas demonstrou que a água subterrânea extraída tem um valor de aproximadamente R$ 59 bilhões por ano e o total de poços instalados no País representa um investimento de mais de R$ 75 bilhões.

 Fonte: relatório A Revolução Silenciosa das Águas Subterrâneas no Brasil: Uma Análise da Importância do Recurso e os Riscos Pela Falta de Saneamento.

Problemas e soluções 

O Cepas também apontou que grande parte dos usuários de águas subterrâneas são proprietários privados. O uso privado das águas é um direito assegurado por lei, entretanto, é necessário que se realize o pedido de outorga, que o poço seja perfurado de maneira adequada e que se realizem avaliações químicas periódicas na água retirada. Segundo Hirata, a realidade ainda é muito distante desse ideal: "O número de pedidos de outorga ainda é muito pequeno frente ao universo de 2,5 milhões de poços. Acreditamos que o governo desconheça a existência de mais de 80% dessas captações no Brasil". 

Formas de se obter águas subterrâneas.
A contaminação das águas subterrâneas pode se dar de diversas maneiras, mas o relatório destaca a degradação relacionada aos problemas com o esgoto. Existem 100 milhões de brasileiros sem acesso à coleta de esgoto, segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento. Nesses casos, esse material é direcionado a fossas e pode se infiltrar no solo e contaminar as águas subterrâneas. Também contribuem com a contaminação os vazamentos em cidades que possuem sistema de esgoto antigo e não realizam a manutenção adequadamente. Segundo o especialista, a situação é preocupante: "Em termos de volume de água degradada, a falta de saneamento é o maior responsável pela contaminação da água subterrânea no Brasil". 

Como resposta a essas questões, o relatório indica a necessidade de uma gestão hídrica participativa e de um manejo integrado dos recursos hídricos. A gestão hídrica participativa consiste em simplificar regras e educar a população para que o próprio usuário entenda e valorize a necessidade de cumprir com as recomendações governamentais. Hirata explica a recomendação: "Em casos como o brasileiro, em que existem milhões de usuários, é necessário que eles participem ativamente dos sistemas de gestão, porque o Estado não tem a capacidade sozinho de monitorar e fiscalizar a todos". 

Já a gestão integrada dos recursos hídricos trata de pensar nas várias fontes de água, integrando as superficiais e subterrânea, bem como considera o uso e ocupação do terreno, a sociedade e as instituições governamentais. Muitas cidades não possuem esse pensamento de integração de recursos e acabam por sofrer de carência de água, sobretudo nos períodos de estiagem. Assim, "a gestão integrada seria pensar integralmente os recursos hídricos inseridos dentro da sociedade, na busca de maior segurança hídrica e resiliência dos sistemas de abastecimento público e privado", explica Hirata.

O relatório está disponível on-line e pode ser lido na íntegra no site do Instituto Trata Brasil.

Por: Rebecca Gomperlz (Jornal da USP).

O Que As Abelhas Podem Ensinar Aos Economistas Sobre O Funcionamento Dos Mercados

A relação entre abelhas, mel e macieiras é - há bastante tempo - uma fonte rica de conhecimento em economia.

Pouca gente sabe, mas economistas adoram abelhas - ou pelo menos a ideia em torno delas. Não por acaso, o inseto ilustra o logotipo da Royal Economic Society, associação britânica que reúne profissionais do setor. 

A Fábula das Abelhas, publicada por Bernard Mandeville no começo do século 18, usa o bichinho como metáfora para o funcionamento da economia - e antecipa conceitos modernos como a divisão do trabalho e a "mão invisível" do mercado. 

Mais de 200 anos depois, quando um futuro ganhador do Prêmio Nobel de Economia, James Meade, procurava um exemplo paupável para ilustrar um conceito complexo da teoria econômica, ele se voltou às abelhas em busca de inspiração. 

Ele queria explicar o que economistas chamam de "externalidades positivas" - efeitos colaterais benéficos de determinados arranjos que mercados sem regulação não produziriam o suficiente e que, portanto, poderiam ser objeto de subsídio por parte do Estado. 

Para Meade, o exemplo perfeito de externalidade positiva era a relação entre maçãs e abelhas.

Pomares e apiários

Imagine, escreveu em 1952 o economista, uma região que reunisse pomares e apiários. Se aqueles que cultivavam maçãs plantassem mais árvores, os apicultores se beneficiariam, porque suas abelhas produziriam mais mel. 

Mas os produtores de macieiras, por sua vez, não compartilhariam desses benefícios - as externalidades positivas - e, por isso, talvez não plantassem o suficiente para que todos tivessem um aproveitamento ótimo da situação. 

Isso se deve, de acordo com Meade, "ao simples e único fato de que o agricultor não pode cobrar o apicultor por estar contribuindo para a nutrição das abelhas". 

Mas há um porém na tese - o economista escolheu a planta errada. A flor da macieira não está entre as que mais estimulam a produção de mel. E essa era uma de muitas coisas que James Meade não sabia sobre as abelhas. 

Para entender seu erro fundamental, precisamos recorrer à história da relação entre os humanos e esses insetos. 

'Nunca mate uma abelha'

No começo de tudo, não existia apicultor - só a coleta de mel, a tentativa de roubar as colmeias de abelhas selvagens. Esses são episódios que encontramos retratados em pinturas rupestres. 

Então, pelo menos 5.000 anos atrás, a atividade foi "formalizada". Gregos, egípcios e romanos se dedicaram à domesticação das abelhas. 

Na Idade Média, os apicultores passaram a usar cestos como colmeias sintéticas - com o formato que acabou se tornando clássico e que muitas vezes aparece nos desenhos animados. 

Mas o problema com os cestos-colmeia era que, para tirar o mel, era preciso se livrar das abelhas - assim, muitas vezes, os apicultores sufocavam os insetos com fumaça sulfurosa, extraíam o mel e depois se preocupavam com a construção da próxima colônia. 

No decorrer do tempo, as pessoas começaram a se preocupar com o desperdício e com o tratamento dispensado aos animais que não apenas forneciam aos humanos mel mas também polinizavam as plantas. 

Na década de 1830, um movimento pelos direitos das abelhas emergiu nos Estados Unidos sob o lema "nunca mate uma abelha". 

Em 1852, por sua vez, o escritório americano de patentes concedeu a patente número 9300A ao sacerdote Lorenzo Langstroth pela invenção de uma colmeia com moldura removível. 

A colmeia de Langstroth é uma caixa de madeira com uma abertura na parte superior e molduras móveis, cuidadosamente separadas uma da outra pelo intervalo mágico de 8 milímetros de "espaço abelha" - qualquer coisa maior ou menor que isso faz com que os insetos construam suas próprias estruturas nas molduras e dificultem a extração do mel. 

A rainha fica na parte de baixo, separada por uma grade no "isolamento de rainhas" - uma rede que a impede de circular, mas permite a entrada das abelhas operárias. Isso mantém as larvas distantes dos favos de mel. 

Os favos são retirados com facilidade e colhidos por uma centrífuga que gira e expele a parte líquida, filtrando o mel. 

Industrialização e vida real 

Com esse aparelho, uma maravilha do design e da eficiência, a nova colmeia permitiu a "industrialização da abelha". E foi essa industrialização que escapou a James Meade. A abelha melífera é um animal cuidadosamente domesticado. 

Com as colmeias de Langstroth, as abelhas se tornaram portáteis. A partir de então, nada impedia que produtores rurais chegassem a um acordo financeiro com apicultores para que eles pudessem posicionar as colmeias no meio da plantação. 

Algumas décadas depois do exemplo famoso de James Meade, outro economista, Steven Cheung, ficou curioso sobre o assunto e fez algo que nós economistas talvez não façamos o suficiente: ele chamou pessoas do "mundo real" e perguntou a elas o que de fato acontecia. 

E descobriu que, com frequência, eram os produtores de maçã que pagavam aos apicultores pela polinizavação de suas plantações. 

No caso de outras culturas, os apicultores de fato pagam aos produtores rurais pelo fato de que suas abelhas se beneficiam do néctar das plantações adjacentes. Um exemplo nesse sentido é a hortelã, que não precisa de ajuda das abelhas, mas que rende mel de excelente qualidade. 

Maçãs e abelhas não são, portanto, bons exemplos de externalidades positivas, já que a interação entre elas cria de forma natural um mercado - e grande. 

Atualmente, seu centro de gravidade é a indústria de amêndoa da Califórnia. A oleaginosa ocupa quase 4 mil km² do Estado - e movimenta cerca de US$ 5 bilhões por ano. As amendoeiras precisam de abelhas - mais precisamente de 5 colônias por hectare, alugadas por cerca de US$ 185 cada uma. 

As colmeias de Langstroth são amarradas umas às outras, carregadas em caminhões articulados - 400 por veículo - e levadas para os campos de amendoeiras da Califórnia a cada nova primavera. Isso tudo à noite, enquanto as abelhas estão dormindo. 

Os números impressionam: 85% dos 2 milhões de colmeias comerciais existentes nos EUA são deslocados e, com eles, dezenas de bilhões de abelhas. 

Como descreve a autora Bee Wilson em The Hive: The Story of the Honeybee and Us ('A colmeia: a história da abelha melífera e nós', em tradução livre), os grandes apicultores americanos administram 10 mil colmeias cada um e, da Califórnia, podem viajar milhares de quilômetros até chegarem aos campos de cerejas no Estado de Washington, aos campos de girassóis na Dakota do Norte e Dakota do Sul, às plantações de abóboras na Pensilvânia ou de blueberries no Maine

Dilema das abelhas selvagens 

O Prêmio Nobel de Economia, James Meade, estava equivocado ao imaginar a apicultura como uma espécie de idílio rural. As abelhas foram quase completamente industrializadas e a polinização, amplamente comercializada. 

E isso nos coloca diante de um dilema. 

Ecologistas estão preocupados com a população de abelhas selvagens, que estão em franco declínio em diversas partes do mundo. 

Ninguém sabe ao certo o porquê. Entre motivos aventados estão parasitas, o uso de pesticidas na agricultura e o misterioso "distúrbio do colapso das colônias", em que as abelhas simplesmente desaparecem e deixam a rainha para trás. 

Como as abelhas domesticadas enfrentam as mesmas pressões, entraria em cena um princípio econômico simples - uma redução da oferta de abelhas acabaria pressionando os preços dos serviços de polinização. Mas não é isso que os economistas estão vendo. 

O distúrbio do colapso das colônias tem tido efeito mínimo, considerando-se diversas métricas, sobre o mercado de abelhas. Produtores estão pagando basicamente a mesma coisa pela polinização, e os preços de novas rainhas praticamente não se mexeram. 

Aparentemente, apicultores industriais conseguiram desenvolver estratégias para manter a estabilidade das populações usadas no negócio, seja comercializando e reproduzindo em cativeiro abelhas-rainhas ou dividindo colônias. 

É por isso que não há redução na oferta de mel - ou de amêndoas, maçãs ou blueberries. Pelo menos até agora. 

Deveríamos comemorar a ação de incentivos econômicos na preservação de parte da população de abelhas? Talvez. 

Outra perspectiva é a de que o impulso da economia moderna de controlar e monetizar o mundo natural é justamente o que causou o problema. 

Antes de a agricultura monocultora mudar ecossistemas, não havia a necessidade de levar as colmeias de Langstroth de um lado a outro para polinizar plantações - populações locais de insetos faziam o trabalho de graça. 

Então, se quisermos um exemplo de externalidade positiva - algo que o mercado não regulado não produzirá na quantidade que a sociedade desejaria - talvez devêssemos olhar para um uso da terra que contribuísse para a proliferação de abelhas selvagens e de outros insetos. 

Campos de flores selvagens, talvez - e alguns governos já estão subsidiando esse tipo de iniciativa, assim como James Meade os aconselharia.

Por: Tim Harford; do programa 50 Things That Made the Modern Economy (BBC).

Desmatamento “Exportado” Impõe Desafios à Cadeia de Valor das Commodities

Países que compram produtos obtidos com a derrubada das florestas tropicais são os mesmos que mais protegem ecossistemas e plantam árvores em seus territórios. Foto: Felipe Werneck / Ibama

O paradoxo chama atenção – e não necessariamente significa um modo de compensar impactos às florestas tropicais. De acordo com o estudo Agricultural and forestry trade drives large share of tropical deforestation emissions, divulgado pelo Stockholm Environment Institute (SEI), 87% do desmatamento “exportado” na forma de produtos de largo consumo destinou-se a países que estavam reduzindo a taxa de desmatamento ou aumentando a cobertura florestal em seus próprios territórios, entre 2005 e 2013 – especialmente na Europa e na Ásia (China, Índia e Rússia). 

Os ganhos florestais líquidos nesses países dedicados a recompor a vegetação corresponderam a cerca de um terço do desmatamento “embutido” na importação de commodities agrícolas e demais mercadorias que causam degradação em outros lugares do planeta. No mundo globalizado, sublinha o estudo, o esforço florestal no contexto planetário "será substancialmente mais desafiador do que alcançar avanços nacionais ou regionais". 

Em paralelo, os pesquisadores reforçaram o vínculo cada vez mais estreito entre comércio internacional e aumento do risco florestal. Entre 2005 e 2013, a expansão de terras agrícolas, pastagens e plantações de árvores para fins industriais foi responsável por 62% do desmatamento no mundo. Desta forma, grande parcela das emissões de carbono, entre 29% e 39%, dependendo do modelo comercial, está associada a commodities agrícolas e florestais fora dos países de produção, principalmente óleo de palma, soja, carne bovina e madeira. 

No geral, os consumidores consideraram o desmatamento e a perda de biodiversidade nos trópicos um problema distante. Mas as cadeias de suprimentos – desde a floresta até o mercado – têm papel importante nesta conexão, enfatiza o estudo, publicado na Environmental Research Letters, como parte do projeto PRINCE, que desenvolve novos indicadores de sustentabilidade baseados no consumo para a Suécia

Segundo Javier Godar, pesquisador do SEI, "talvez o resultado mais surpreendente tenha sido que, para muitos países consumidores, principalmente os desenvolvidos, as emissões de gases de efeito estufa embutidas nas commodities importadas rivalizam com as emissões de seus próprios setores agrícolas. Isso ressalta a necessidade de incluir a dimensão extraterritorial na contabilidade ambiental nacional, além do apoio financeiro a práticas agrícolas mais sustentáveis nos países produtores".

Fonte: Página 22.

Poluição Dos Oceanos Por Plástico Custa Ao Mundo US$ 2,5 Trilhões Por Ano

Valor representa impactos negativos sobre importantes serviços ambientais que o mar fornece. Achou salgado? Pois ele é "subestimado", segundo os cientistas. Ecossistema em risco: praia na Indonésia tomada por lixo plástico. 

A poluição marinha por lixo plástico impõe mudanças perigosas ao equilíbrio dos oceanos e para a própria economia mundial. Os custos resultantes dos seus efeitos negativos sobre os ecossistemas marinhos somam impressionantes US$ 2,5 trilhões — por ano — segundo um estudo publicado no Boletim da Poluição Marinha

Na prática, esse valor representa todas as perdas e danos causados aos serviços ambientais importantes que o mar fornece, como a produção de oxigênio e alimentos, armazenamento de carbono e a manutenção do equilíbrio térmico no mundo. Nesta lista entram, ainda, atividades e benefícios inestimáveis ligados a atividades de lazer [contemplar o mar na praia não custa nada e é muito relaxante]. 

Todos esses serviços que os oceanos fornecem aos seres humanos e demais espécies também estão em risco por outras ameaças ambientais, à exemplo das mudanças climáticas e a poluição por despejos ilegais de esgoto e rejeitos químicos industriais. O consumo e descarte massivo e irregular de resíduos plásticos é mais uma fonte de pressão para o ambiente marinho. 

Na ponta do lápis, o estudo estima que cada tonelada de resíduo plástico reduz em US$ 33.000 o valor ambiental dos serviços ecossistêmicos marinhos. Estima-se que 8 milhões de toneladas de poluição plástica entram nos oceanos do mundo a cada ano. A multiplicação dos fatores gera, como se vê, um resultado indigesto. 

O estudo busca aumentar a compreensão dos efeitos holísticos da poluição marinha por plástico e o impacto resultante nos serviços ecossistêmicos, e por sua vez, no bem-estar humano, na sociedade e na economia. O que é conhecido tende a ser baseado em pesquisas locais de pequena escala. 

"Uma compreensão sólida do impacto ecológico, social e econômico do plástico marinho é essencial para fornecer subsídios para uma negociação global eficaz e eficiente em relação ao uso, manejo e descarte sustentável do plástico, um material com muitos benefícios e de amplo uso", defendem os pesquisadores no estudo. 

Para a pesquisa, os cientistas revisaram estudos globais que reúnem mais de 1190 dados sobre poluição marinha por lixo plástico, e estimaram os impactos globais sobre a ecologia, sociedades e economias. As estimativas não levam em conta os impactos diretos e indiretos sobre as indústrias de turismo e transporte, nem sobre a saúde humana [devido, por exemplo, à ingestão de frutos do mar contaminados]. 

"Nossos cálculos são uma primeira tentativa de colocar um preço no plástico. Sabemos que temos que fazer mais pesquisas para aperfeiçoar, mas estamos convencidos de que nossos resultados subestimam os custos reais para a sociedade humana global", disse ao jornal britânico The Guardian, Nicola Beaumont, economista ambiental do Laboratório Marinho de Plymouth, que liderou o estudo. 

Há ainda muita coisa que os cientistas desconhecem sobre a poluição plástica, mas o que eles já sabem é suficiente para indústrias, cidadãos e tomadores de decisão repensarem sua produção e consumo.

Por: Vanessa Barbosa (Exame).

Em Dia Histórico, Cientistas Revelam Primeira Imagem De Um Buraco Negro

Imagem artística de um buraco negro (Arte: Mark A. Garlick / AFP). Fenômeno – considerado um dos mais enigmáticos do universo – foi observado em galáxia a 55 milhões de anos-luz da Terra

Descoberta envolveu mobilização mundial de cientistas e dados captados por 8 radiotelescópios. ‘Vimos o impossível’, diz astrônomo.

Pesquisadores anunciaram no dia 10/04/2019 os resultados de um experimento de grande relevância para a ciência e que provavelmente vai ser lembrado daqui a cem anos: a primeira observação direta de um buraco negro, um dos fenômenos mais enigmáticos do universo. 

O anúncio, feito em cinco países pelos membros da colaboração do Telescópio do Horizonte de Eventos (EHT, na sigla em inglês), foi acompanhado com curiosidade por jornalistas e aficionados por astronomia. O feito só foi possível graças a mais de uma década de esforços coordenados de centenas de cientistas em institutos de pesquisa espalhados pelo globo. 

A imagem mostra um círculo escuro no meio de um disco resplandecente. A observação utilizou a capacidade combinada de oito observatórios situados em algumas das regiões mais inóspitas do planeta, como o deserto do Atacama, o topo de um vulcão dormente no Havaí, e até mesmo o polo sul. 

"Vimos o que parecia ser impossível de ver", comemorou Shep Doeleman, astrônomo do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian e diretor do grupo responsável pela captura da imagem. A existência desse buraco negro é investigada há mais de 25 anos. 

Os dados coletados pelos radiotelescópios foram sincronizados utilizando uma técnica desenvolvida nos anos 1970 chamada Interferometria de Base Muito Longa (VLBI), que permite obter imagens com detalhes iguais ao que seria possível com um telescópio do tamanho da Terra

Ao contrário do que muitos esperavam, a imagem divulgada não veio do buraco negro do centro da nossa galáxia, a Via Láctea, mas de muito mais longe: do coração da galáxia gigante M87, a 55 milhões de anos-luz daqui. A posição dessa galáxia no céu permitiu que ela fosse observada por todos os observatórios de modo a se obter a resolução necessária para conseguir identificar a estrutura.

 A imagem foi feita graças a uma colaboração internacional chamada Event Horizon Telescope. Foto: European Southern Observatory / AFP.

Mas o que a imagem mostra afinal? O buraco negro não emite luz. O que vemos é, na realidade, a sombra que ele provoca na sua vizinhança brilhante. Os raios de luz nas redondezas do buraco negro são desviados e distorcidos pelo seu intenso campo gravitacional. A fronteira do buraco negro, conhecida como horizonte de eventos, que marca o ponto onde nem a luz consegue escapar da gravidade, é 2,5 vezes menor que a sombra que projeta e mede 40 bilhões de km de um lado ao outro. 

A imagem obtida pelo EHT é incrivelmente semelhante às simulações, um belo exemplo de concordância entre teoria e observação. A massa do buraco negro central de M87 é 6,4 bilhões de massas solares, mais de mil vezes a massa do buraco negro no centro da nossa galáxia. 

Os resultados detalhados das observações foram publicados numa série de seis artigos científicos na renomada revista Astrophysical Journal Letters

Cientistas de todo o mundo devem passar os próximos dias analisando os resultados e trabalhando nas suas implicações. "Sabemos que deve haver algo a mais. Buracos negros são locais para procurar por respostas", disse ao The New York Times o físico Avery Broderick, da Universidade de Waterloo, em Ontário, no Canadá

Kip Thorne, astrofísico do Instituto de Tecnologia da Califórnia e um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Física de 2017 por seu trabalho na descoberta das ondas gravitacionais, elogiou o trabalho divulgado. "É maravilhoso ver a sombra quase totalmente circular do buraco negro. Não há dúvida de que realmente se trata de um buraco negro no centro da M87", disse em e-mail ao jornal norte-americano. 

"Einstein deve estar totalmente orgulhoso. Sua teoria foi submetida a testes de grande intensidade e se sustentaram", disse Priyamvada Natarajan, astrofísica da Universidade de Yale

Jovem desenvolveu algoritmo-chave para a descoberta 

Uma personagem importante da descoberta foi a jovem Katherine Bouman, de 29 anos, estudante de pós-doutorado no Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian. Foi ela que desenvolveu o algoritmo que montou a imagem divulgada. Para isso, trabalhou no projeto nos últimos seis anos. Ela foi uma entre os 30 cientistas que processaram os dados reunidos pelo Telescópio do Horizonte de Eventos

"Há um tempo, eu sequer sabia o que eram buracos negros. Meu interesse é sobre como podemos enxergar ou medir coisas que antes eram consideradas invisíveis para nós", disse ao jornal The Washington Post.

Por: Gustavo Rojas (O Estado de S. Paulo).

Integração Entre Lavoura e Gado Aumenta Rentabilidade e Diminui Emissões

Resultados de projeto com pesquisadores brasileiros e britânicos mostra que sistema agrícola consorciado melhora a qualidade do solo, aumenta a produtividade na pecuária e favorece o meio ambiente (Fazenda Campina / Foto: André Julião / Agência FAPESP).

A Fazenda Campina, em Caiuá (SP), pertencente ao Grupo Carlos Viacava – um dos maiores produtores de gado nelore mocho do Brasil –, adotou um sistema que integra a criação de gado com o cultivo de grãos. 

Especializado na produção de matrizes, animais altamente selecionados e comercializados para dar origem a outros rebanhos, o grupo vem diminuindo a ocupação das suas propriedades pelo gado e aumentando a participação dos grãos. 

Embora a ocupação da propriedade pelo rebanho tenha caído de 97% para 50% desde 2012 – sendo hoje a outra metade cultivada com milho, sorgo, feijão guandu e, principalmente, soja – a rentabilidade com o gado aumentou. 

Segundo os produtores, o consórcio entre animais, pastagem e grãos tornou o solo tão mais rico que o gado passou a expressar melhor sua genética. Além disso, as vacas passaram a se tornar férteis com apenas 14 meses de idade (a média brasileira é de 24 meses), gerando mais bezerros ao longo da vida. 

A Fazenda Campina é um exemplo de como o sistema Integração Lavoura-Pecuária (ILP) aumenta a disponibilidade de nitrogênio e de outros nutrientes no solo, trazendo ganhos para a pecuária e para o meio ambiente, pois ajuda a mitigar a emissão de dióxido de carbono (CO2) e outros gases de efeito estufa para a atmosfera. 

"O gado hoje expressa muito melhor a sua genética por conta da qualidade do pasto. Nos últimos anos, ganhou em média 500 gramas por dia, enquanto no sistema anterior ganhava 100 gramas por dia", disse Juliano Roberto da Silva, zootecnista do grupo empresarial. 

Silva apresentou os resultados em evento realizado de 26 a 29 de março em Presidente Prudente (SP) no âmbito do projeto Nucleus (Nitrogen Use effiCiency via an integrated SoiL-plant systEms approach for the Uk & BraSil). A iniciativa é financiada por meio de um acordo entre o Biotechnology and Biological Sciences Research Council (BBSRC) e o Newton Fund, ambos do Reino Unido, com a FAPESP e o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap). O projeto também tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) e da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema). No encontro estiveram presentes pesquisadores e estudantes do Reino Unido, São Paulo, Goiás e Maranhão

"Na integração lavoura-pecuária, que pode incluir também a floresta [ILPF], o produtor pode até não ter retorno em todas as atividades praticadas, mas os ganhos na fertilidade e na física do solo são tão grandes que o lucro em um desses fatores compensa uma eventual perda nos demais", disse Juliano Calonego, professor da Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual Paulista (FCA-Unesp), em Botucatu, à Agência FAPESP

Nesse sistema consorciado, uma área fica, em média, dois anos com pastagem e outros dois anos com lavoura. No caso da Fazenda Campina, o crescimento da rentabilidade não veio da receita da venda de grãos. Silva explicou que, apenas para pagar os custos da produção da soja, precisa colher em média 50 sacas por hectare, mas raramente consegue essa produtividade. 

"Essa perda é compensada, e muito, com o ganho de qualidade que temos no solo, com uma pastagem muito mais nutritiva para o gado, que traz mais rentabilidade ao negócio", disse. 

Na fazenda experimental da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), uma das instituições participantes do Nucleus, são criados quatro animais por hectare no terreno em que houve integração de gado com lavoura. A média brasileira de ocupação de pastagem é de menos de um animal por hectare. 

"Se houver adição de nitrogênio no solo, dobramos esse número", disse Paulo Gomes da Silva, professor da Unoeste, durante visita dos participantes do evento à fazenda experimental. 

Com a produção de grãos no Brasil chegando ao pico, especialistas apontam as pastagens degradadas como a próxima fronteira agrícola. Ao implementar a integração lavoura e pecuária nessas áreas, projeta-se um aumento na produção de grãos do país, ao mesmo tempo que se recuperam as áreas para pastagem. 

Conhecimento dos solos 

O foco do projeto Nucleus é buscar a eficiência no uso de nitrogênio em sistemas de produção agrícola. Os pesquisadores têm demonstrado que a melhor forma de aumentá-la é por meio do cultivo de gramíneas forrageiras e grãos no mesmo terreno, seja em rotação ou em consórcio. 

"Ao manter o solo coberto, usando gramíneas com raízes profundas, evitamos que o nitrogênio seja lixiviado para o lençol freático, causando contaminação, ou perdido para a atmosfera", disse Ciro Rosolem, professor da FCA-Unesp e coordenador do Nucleus no Brasil

Na integração da lavoura com a pecuária, outra vantagem é que a cobertura vegetal, ao absorver CO2, compensa em parte as emissões de metano (CH4) do gado, pois mantém no sistema o carbono (C). 

Além de conhecer as dinâmicas de diferentes tipos de solo, seja do Estado de São Paulo, Goiás, Maranhão e de várias regiões do Reino Unido, a parceria gera conhecimento sobre o solo de maneira mais global, com resultados científicos que podem ser aplicados em outros locais além dos estudados. 

"É muito difícil plantar em solos compactados, pois eles oferecem resistência e não deixam as raízes penetrar. Isso se aplica à maior parte dos solos no mundo. Então, se pudermos identificar plantas que sejam melhores para solos compactados, por exemplo, esse conhecimento poderá ser aplicado globalmente", disse Sacha Mooney, professor da Universidade de Nottingham e coordenador do projeto no Reino Unido

Além da troca de experiências, devido às condições totalmente diferentes dos solos britânicos e brasileiros, o projeto propiciou intercâmbio de estudantes e de pesquisadores, além do uso de novos equipamentos e técnicas. 

Camila Grassmann, doutoranda da FCA-Unesp, contou sua experiência de quatro meses na Universidade de Nottingham. Em um dos experimentos, ela usou equipamentos de tomografia por raios X para solo, que não existem no Brasil, como parte de seu trabalho de doutorado. 

Grassmann estuda como diferentes tipos de gramíneas interagem com a cultura do milho, a fim de entender qual delas faz um uso mais eficiente de nitrogênio na plantação consorciada. O processamento das imagens ainda não foi finalizado, mas resultados preliminares indicam não haver tanta diferença entre as espécies de forrageiras para o propósito estudado. 

"Usar os laboratórios e equipamentos deles foi muito importante para a condução dos experimentos e da minha pesquisa, de modo geral, além da convivência com outros pesquisadores", disse Grassmann

Fim de um ciclo 

O projeto, que se encerra este ano, teve mais de 40 cientistas envolvidos, 12 instituições, 12 artigos científicos já publicados e mais de 20 em preparação, além do intercâmbio de mais de uma dezena de estudantes de pós-graduação e pesquisadores seniores. 

"Há muitos resultados interessantes emergindo nesse campo em termos de otimização de estratégias de cultivo consorciado, especialmente no que se refere às melhores gramíneas forrageiras", disse Mooney

Ele contou ainda que o grupo aprendeu muito sobre como a estrutura do solo influencia a arquitetura das raízes, como isso se desenvolve sob diferentes sistemas e de que forma pode ser melhorado pelo uso de plantas e de aplicação de calcário. 

"Mostramos ainda, como grande promessa, o uso de drones para verificar a saúde das plantas, além do potencial de sensores in situ para medir o nitrato no solo. Esperamos continuar essa parceria. Os frutos dela estão começando a aparecer agora", disse Mooney.

Por: André Julião (Agência Fapesp).

Falta de Água e Saneamento Deixa Milhões de Vidas em Risco no Mundo, diz OMS

Criança lava o rosto no Sudão do Sul em 2018. Foto: UNICEF/Meyer.

Mais de 2 bilhões de pessoas enfrentam riscos graves à saúde porque serviços básicos de água não estão disponíveis em um a cada quatro hospitais no mundo, afirmaram as Nações Unidas no dia 03/04/2019 em apelo para países fazerem mais para prevenir a transmissão de doenças infecciosas evitáveis

Em primeira avaliação sobre o assunto, o relatório Higiene, Saneamento e Água em Instalações de Assistência de Saúde, da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), também mostra que um em cada cinco centros de assistência de saúde não possui banheiro ou latrina. O problema afeta ao menos 1,5 bilhão de pessoas, o que provavelmente reflete uma falta de instalações em comunidades como um todo. 

"A principal coisa que é preciso fazer é lavar as mãos, independentemente do que for", disse Bruce Gordon, coordenador do trabalho da OMS sobre água e saneamento. "Não é uma questão de doença diarreica, é uma questão de qualquer infecção oportunista que pode viver na pele ou entrar em machucados ou no corpo e provocar sepse. Precisamos quebrar a transmissão com a lavagem das mãos". 

Populações dos países pobres são mais vulneráveis, à medida que os serviços básicos de água estão disponíveis apenas em pouco mais da metade de todas as instalações de saúde nos Países Menos Desenvolvidos (LDCs, na sigla em inglês), de acordo com o estudo da OMS e do UNICEF

O déficit de serviços de água nesses países é significativo especialmente para mães e recém-nascidos. Estima-se que um em cada cinco nascimentos aconteça nos 47 países mais pobres do mundo. Isso significa que, a cada ano, 17 milhões de mulheres nestes países dão à luz em centros de saúde com suprimentos inadequados de água, saneamento e higiene. 

Desigualdades perigosas dentro de países 

O relatório também revela desigualdades dentro de países. Comunidades em áreas rurais têm menos chances de ter instalações decentes de assistência de saúde, em comparação com pessoas que vivem em cidades, disse Tom Slaymaker, especialista sênior do UNICEF para estatísticas e monitoramento de Água, Saneamento e Higiene. 

"Pessoas estão dependendo de centros de saúde sem qualquer tipo de banheiro", disse. "Pessoas doentes deixam muitos patógenos em suas fezes e, sem banheiros, funcionários e pacientes – incluindo mães e bebês – estão em maior risco de doenças causadas e propagadas por dejetos humanos". 

Enquanto um a cada dez hospitais no mundo não tem banheiro, o número cresce para um a cada cinco para centros de saúde menores, disse Slaymaker

Instalações do governo também fornecem um nível menor de assistência do que clínicas e hospitais particulares. O relatório mostra que há um grande fracasso em alcançar as diferentes necessidades sanitárias para homens e mulheres – sejam eles pacientes ou profissionais médicos. 

Em apelo para que mais países invistam em serviços de água e saneamento, Gordon, coordenador da OMS, disse que compromisso político é essencial. 

"Sabemos que água, saneamento e higiene geralmente precisam de fortes financiamentos públicos através de impostos, sim, há um grande movimento para conseguir fundos privados… mas se quisermos realmente alcançar os mais vulneráveis, aqueles que têm poucos recursos, gastos públicos e impostos precisam ser uma grande parte da equação". 

O impacto destrutivo do ciclone tropical Idai no sul da África, em março de 2019, exacerbou a falta de infraestruturas básicas em muitos países da região, explicou Slaymaker, acrescentando que o UNICEF está "fortemente envolvido" na resposta em Moçambique

"Obviamente neste tipo de situação e demanda por serviços de assistência de saúde é ainda maior, mas a capacidade de fornecê-los é intensamente comprometida", explicou Slaymaker. Um dos objetivos do relatório, segundo ele, é recomendar como construir estas instalações, "para que sejam capazes de manter serviços de saúde funcionando no futuro, no contexto de desastres como os que vimos". 

Além de dar um panorama geral da situação de água e saneamento na assistência à saúde, relatórios futuros irão monitorar progresso, em linha com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Fonte: ONU.

Cerrado Conectou os Andes com a Mata Atlântica

Ave da espécie Syndactyla rufosuperciliata / Foto: Gustavo Cabanne. Análise genética e computacional em aves sugere que florestas tropicais andina e atlântica, hoje separadas por quase mil quilômetros de áreas mais secas e vegetação aberta, tiveram períodos de conexão no passado.

As florestas tropicais dos Andes e a Mata Atlântica estão separadas por quase mil quilômetros de áreas mais secas e de vegetação aberta, nos biomas Chaco, Cerrado e Caatinga. Apesar de atualmente não terem conexão, essas florestas tropicais compartilham espécies e linhagens intimamente relacionadas, o que sugere ter havido uma ligação entre essas matas no passado. Há, por exemplo, 23 espécies de aves tropicais presentes nos dois biomas. 

Diversos estudos publicados reforçam tal hipótese. O que ainda não se sabia era se a ligação se dava por meio das florestas de galeria que, no passado, acompanhavam os cursos dos rios na região do Chaco (que abrange o sul da Bolívia, o norte da Argentina e o Paraguai), ou pelo Cerrado (parte da Bolívia, Centro-Oeste do Brasil e norte do Paraguai). 

De acordo com uma nova pesquisa, que analisou dados genômicos e biogeográficos de aves das espécies Syndactyla rufosuperciliata e Syndactyla dimidiata, a conexão entre as florestas andina e atlântica no passado ocorreu pelo Cerrado. A ligação teria se formado diversas vezes durante o Pleistoceno, período geológico ocorrido entre 2,5 milhões e 11,7 mil anos atrás. 

A investigação foi conduzida pelo ornitólogo Gustavo Cabanne, do Museo Argentino de Ciencias Naturales, em colaboração com Cristina Yumi Miyaki, professora no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP). Os resultados foram publicados na revista Molecular Phylogenetics and Evolution

A equipe teve apoio da FAPESP, por meio do Programa FAPESP de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOTA), do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet), na Argentina, e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). 

Participaram pesquisadores de diversas instituições no Brasil (Universidade Federal de Minas Gerais, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Universidade de Brasília e Museu Paraense Emílio Goeldi), Bolívia (Universidad Mayor de San Andrés e Museo Nacional de Historia Natural), Estados Unidos (American Museum of Natural History e Cornell University) e Canadá (Royal Ontario Museum). 

A biogeografia é a ciência que estuda as relações entre os seres vivos, a geografia, o relevo e o clima. A paleobiogeografia parte dessas mesmas relações para entender, por exemplo, como era a distribuição das espécies no passado e as relações existentes entre elas. Entender a paleobiogeografia de diversas espécies que habitam áreas específicas no presente pode ajudar a inferir como era a distribuição desses biomas no passado. 

"O grande desafio dos estudos de biogeografia é integrar e interpretar as informações obtidas de diversas fontes, como componentes biológicos, dados genômicos das espécies analisadas, informações geológicas, dados paleoclimáticos, dados palinológicos [de pólen e esporos] ou dados de sensoriamento remoto obtidos a partir de imagens de satélite", disse Miyaki

"Foi preciso coletar e analisar vários desses dados a fim de investigar a hipótese da existência de uma antiga conexão entre as florestas tropicais andina e atlântica e testar se isso ocorreu via Cerrado ou via Chaco. Pode ter sido por meio de florestas de galeria que, no Pleistoceno, seriam remanescentes de vegetação úmida que atravessam biomas mais áridos", disse. 

De acordo com Cabanne, a conexão entre as florestas úmidas andina e atlântica é apoiada por estudos palinológicos, entre outros, segundo os quais ambas se expandiram transitoriamente em algumas regiões (por exemplo, no Cerrado) em direção aos Andes durante os últimos máximos glaciais – os períodos mais frios das diversas idades do gelo (foram identificadas ao menos 11 delas) que ocorreram nos últimos 2,5 milhões de anos. 

"Sob esse cenário biogeográfico histórico, as florestas andina e atlântica poderiam ter funcionado como refúgios. Sua história dinâmica [ciclos de conexão e isolamento] poderia ter sido um importante impulsionador da especiação nos neotrópicos [região que compreende a América Central, incluindo parte do México e dos Estados Unidos, todas as ilhas do Caribe e a América do Sul]", disse. 

No presente período interglacial, explica Cabanne, esses biomas florestais representam refúgios onde se espera que organismos se diferenciem. Durante as idades do gelo do Pleistoceno, as florestas teriam sido conectadas, permitindo, assim, o fluxo gênico entre as regiões. 

Genética e análise computacional 

No trabalho publicado na revista Molecular Phylogenetics and Evolution, os pesquisadores elegeram como objeto de estudo uma ave popularmente conhecida como trepador-quiete (Syndactyla rufosuperciliata). Trata-se de um passarinho (ordem Passeriformes) da família dos furnariídeos, a mesma do joão-de-barro (Furnarius rufus) e de outras 230 espécies encontradas na Argentina, Bolívia, Brasil, Equador, Paraguai, Peru e Uruguai. Existem cinco subespécies reconhecidas desse táxon. 

"O trepador-quiete é um modelo apropriado para explorar a conexão das florestas andina e atlântica porque a espécie habita tanto os principais domínios dessas matas como as áreas que poderiam ter sido diretamente envolvidas na sua ligação: as florestas de galeria do Chaco oriental e algumas regiões no sul do Cerrado", disse Cabanne

Os pesquisadores exploraram a conectividade histórica entre os dois biomas por meio de modelagem de nicho. A seguir, eles usaram sequências de DNA de 71 indivíduos e análises genômicas de outros 33 pássaros para avaliar a estrutura genética da população e o fluxo gênico dentro da espécie. Por fim, foi realizada a seleção do modelo populacional com auxílio de computação bayesiana aproximada, método de inferência com base em estatísticas sumárias. 

Segundo os pesquisadores, a análise genômica evidenciou que os trepadores-quiete habitantes das florestas tropicais andinas pertencem hoje a linhagens diferentes daquelas dos trepadores-quiete da Mata Atlântica. Mas nem sempre foi assim. No passado, há centenas de milhares de anos, a distribuição original da espécie parece ter sido muito maior do que a atual, e também suas linhagens eram menos diferenciadas do ponto de vista genômico. 

Porém, com a sucessão de períodos glaciais e o avanço e recuo da vegetação de Cerrado, os passarinhos andinos e atlânticos foram ficando isolados uns dos outros por dezenas de milhares de anos, o que levou à diversificação em duas linhagens. 

Os dados sugerem inclusive que, durante os períodos interglaciais do Pleistoceno, quando a temperatura se elevou e houve avanço das florestas úmidas, ocorreram novos contatos entre trepadores-quiete do leste e do oeste, o que permitiu cruzamentos e novas trocas genéticas entre as duas linhagens. 

Aliada aos dados paleoclimáticos, a análise da diversidade genômica dos trepadores-quiete andinos e atlânticos sugere que tais trocas gênicas ocorreram via Cerrado, ao norte, e não via Chaco, mais para o sul. 

"Nossos resultados indicam que as florestas andina e atlântica atuaram como refúgios e que as populações das espécies de ambas as regiões entraram em contato por meio da região do Cerrado, sugerindo que a dinâmica histórica desses dois biomas é importante para a evolução das aves florestais", disse Cabanne

"Os resultados estão de acordo com estudos de outros organismos e podem indicar um padrão mais geral de conectividade entre os biomas nos neotrópicos", disse Miyaki

Além disso, segundo Cabanne, o novo estudo e outros anteriores do mesmo grupo "sugerem a existência de altos níveis de diversidade críptica [de espécies morfologicamente semelhantes e geneticamente distintas] entre os Andes e a Mata Atlântica e também sugerem considerar a população andina de trepadores-quiete como uma espécie plena". 

O artigo "Phylogeographic variation within the Buff-browed Foliage-gleaner (Aves: Furnariidae: Syndactyla rufosuperciliata) supports an Andean-Atlantic forests connection via the Cerrado" (https://doi.org/10.1016/j.ympev.2019.01.011), de Gustavo S. Cabanne, Leonardo Campagna, Natalia Trujillo-Arias, Kazuya Naoki, Isabel Gómez, Cristina Y. Miyaki, Fabricio R. Santos, Giselle P. M. Dantas, Alexandre Aleixo, Santiago Claramunt, Amanda Rocha, Renato Caparroz, Irby J. Lovette e Pablo L. Tubaro, está publicado em: www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1055790318302847.

Por: Peter Moon (Agência Fapesp).

Os Impactos Ambientais da Tecnologia da Informação e Comunicação

Em vez de ajudar a economia global na transição para o baixo carbono, a digitalização dos setores econômicos pode contribuir para aumentar as emissões e intensificar a mudança do clima. O alerta vem do think tank The Shift Project

A tecnologia da informação e comunicação (TIC) sempre foi vista como uma aliada importante no esforço global contra a mudança do clima por sua capacidade disruptiva de transformação de processos e práticas em quase todos os setores econômicos. Com a internet e os diversos dispositivos digitais que nos cercam hoje, por exemplo, muitas pessoas conseguem trabalhar de suas próprias casas, sem se locomover para escritórios e, consequentemente, sem emitir gases de efeito estufa que contribuem para o aquecimento global. 

No entanto, esse potencial ainda não está sendo aproveitado. Pior: a infraestrutura e os produtos digitais de alto consumo energético estão crescendo além de nosso controle. O consumo de energia de TIC representou em 2018 cerca de 3,7% das emissões globais de gases de efeito estufa e segue aumentando ao ritmo de 9% ao ano. Se isso se mantiver nas próximas décadas, em vez de ajudar a economia global na transição para o baixo carbono, a digitalização dos setores econômicos pode contribuir para aumentar as emissões e intensificar a mudança do clima. 

Este é o alerta do relatório Lean ICT – Towards Digital Sobriety ("TIC Enxuto – Rumo à Sobriedade Digital", em tradução livre), publicado pelo think tank francês The Shift Project. O estudo foi elaborado por um painel de especialistas que avaliou os impactos ambientais das tecnologias digitais, no contexto da digitalização, e o crescimento rápido nos fluxos de dados e nas bases de terminais instaladas. 

O setor de TIC é considerado estratégico para viabilizar esforços de mitigação das causas e adaptação aos efeitos da mudança do clima. No entanto, geralmente os impactos ambientais diretos e indiretos relacionados ao uso crescente de equipamentos digitais são constantemente subestimados devido à miniaturização dos dispositivos e a invisibilidade da infraestrutura relacionada. Os impactos ambientais da digitalização podem ser administráveis se o consumo excessivo que existe em diversos mercados hoje for reduzido, o que ajudaria a limitar o aumento do consumo energético de TIC em 1,5% por ano. 

Assim, mudanças nos padrões de consumo rumo a uma sobriedade digital, particularmente nos países desenvolvidos, podem viabilizar uma transição digital em linha com as preocupações globais com a mudança do clima. 

Uma transição digital comedida consiste basicamente na compra de equipamentos de baixo consumo energético, que não precisam ser recarregados sucessivas vezes, e reduzir o uso desnecessário de equipamentos de alto consumo energético. 

O relatório traz quatro conclusões centrais nessa análise: 

A intensidade energética da indústria digital cresce em todo o mundo à taxa de 4% ao ano, em contraste com a tendência global, que declina 1,8% por ano. 

O consumo energético direto de cada US$ 1 investido em tecnologias digitais aumentou 37% desde 2010. As emissões de dióxido de carbono equivalente (CO2e) do setor digital aumentaram em cerca de 450 milhões de toneladas desde 2013 nos países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), na medida em que as emissões gerais caíram 250 milhões de toneladas em todo o mundo no mesmo período. 

A tendência de um consumismo digital não é sustentável por conta da energia e das matérias-primas necessárias para a produção e operação desses equipamentos. 

A transição digital atualmente gera um aumento forte na pegada de carbono do setor de TIC, que inclui a energia necessária para a produção e o uso dos equipamentos (como servidores, redes e terminais), que vem crescendo rapidamente ao ritmo de 9% por ano. 

A parcela de emissões de GEE correspondentes às tecnologias digitais aumentou pela metade desde 2013, passando de 2,5% para 3,7% das emissões globais. A demanda por matéria-prima, especialmente metais raros e críticos, para produção de equipamentos também vem crescendo. 

O consumo digital atual é altamente desigual. 

Em 2018, o consumidor norte-americano médio possuía 10 dispositivos conectados e consumia 140 gigabytes de dados mensalmente; já o indiano contava apenas com um dispositivo e dois gigabytes de dados – uma diferença de 70 vezes entre os dois mercados. 

O consumo digital excessivo não é um fenômeno global: ele é causado por países de alta renda, que consomem mais dispositivos digitais e mais energia para sua operação. 

O impacto ambiental da transição digital pode ser melhor administrável se o consumo for mais comedido. 

Se mudarmos nossa relação com as tecnologias digitais, do consumo excessivo para um uso mais racional, podemos limitar o aumento de consumo de energia de TIC em 1,5% por ano. No entanto, o comedimento apenas previne uma situação mais grave: não é suficiente sozinho para reduzir os impactos ambientais da tecnologia digital. 

"Nosso relatório traz evidências para as empresas de que sua transição digital não é automaticamente compatível com suas metas de mitigação da mudança do clima", explica Hugues Ferreboeuf, diretor do grupo de trabalho responsável pela publicação do The Shift Project

Para Françoise Berthoud, pesquisadora da Universidade de Grenoble e diretora do grupo EcoInfo do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), devemos nos libertar do mito de que um mundo totalmente digital poderia limitar o aquecimento global e nos conscientizar sobre os impactos ambientais dessas tecnologias "Neste relatório, descrevemos maneiras para limitar o esgotamento de recursos não renováveis, metais em particular, e limitar a enorme quantidade de energia desperdiçada pela digitalização de nossa sociedade". 

"Frequentemente, consideramos que, quando um determinado processo é digitalizado, ele foi ‘desmaterializado’. O problema é que, por trás de cada byte, temos mineração e processamento de metais, extração de petróleo, fabricação e transporte, obras públicas (como enterramento de cabos) e geração de energia com carvão e gás", aponta Jean-Marc Jancovici, presidente do think tank

"Por isso, a pegada de carbono do sistema digital global já representa 4% das emissões em todo o mundo e está aumentando no ritmo de 9% ao ano. Precisamos fazer o que for necessário para reverter esse cenário o quanto antes". 

O relatório está disponível na íntegra, acompanhado por um resumo executivo.

Fonte: Página 22.

Água é Considerada Boa em Apenas 6,5% dos Rios da Mata Atlântica

Foto: Fred Loureiro / Secom ES.

Em apenas 6,5% dos rios da bacia da Mata Atlântica a qualidade da água é considerada boa e própria para o consumo, de acordo com relatório divulgado em 22/03/2019 pela Fundação SOS Mata Atlântica. Dos 278 pontos de coleta de água monitorados em um total de 220 rios, 74,5% apresentam qualidade regular, 17,6% são ruins e, em 1,4%, a situação é péssima. Nenhuma amostra foi considerada ótima. 

A conclusão do relatório O Retrato da Qualidade da Água nas Bacias da Mata Atlântica é que os rios estão perdendo lentamente a capacidade de abrigar vida, de abastecer a população e de promover saúde e lazer para a sociedade. 

"Os rios brasileiros estão por um triz, seja por agressões geradas por grandes desastres ou por conta dos maus usos da água no dia a dia. Nossos rios estão sendo condenados pela falta de boa governança", disse a especialista em água Malu Ribeiro, assessora da SOS Mata Atlântica

A qualidade de água péssima e ruim, obtida em 19% dos pontos monitorados, mostra que 53 rios estão indisponíveis - com água imprópria para usos - por conta da poluição e da precária condição ambiental das suas bacias hidrográficas, segundo a fundação. 

O relatório traz o balanço das análises feitas nos 220 rios, de 103 municípios dos 17 estados abrangidos pela Mata Atlântica. Nos 278 pontos monitorados, foram feitas 2.066 análises de indicadores internacionais que integram o Índice de Qualidade da Água (IQA), composto por 16 parâmetros físicos, químicos e biológicos na metodologia desenvolvida pela SOS Mata Atlântica

Comparativo

A SOS Mata Atlântica considera que houve poucos avanços na gestão da água dos rios da bacia. Com o relatório deste ano, foi possível mensurar, pela primeira vez, a evolução dos indicadores de qualidade da água em todos os 17 estados abrangidos pela Mata Atlântica, comparando com o ciclo de monitoramento anterior, no ano passado, quando foram coletadas amostras em 236 pontos. 

Considerando apenas os mesmos 236 pontos de coleta, os índices considerados regular (78% em 2018 e 75,4% em 2019) e ruim (17,4% em 2018 e 16,9% em 2019) não apresentaram diferenças significativas. Já os pontos péssimos passaram de zero para três e os considerados bons de 11 para 15. 

"[As contaminações] refletem a falta de saneamento ambiental, a ineficiência ou falência do modelo adotado, o desrespeito aos direitos humanos e o subdesenvolvimento", disse Cesar Pegoraro, biólogo e educador ambiental da Fundação SOS Mata Atlântica

Para melhorar o índice de qualidade das águas da Mata Atlântica, a entidade avalia ser fundamental que a Política Nacional de Recursos Hídricos seja implementada em todo território nacional, de forma descentralizada e participativa, por meio dos comitês de bacias hidrográficas. 

A fundação ressalta que os rios que se mantiveram na condição boa ao longo de anos, comprovam a relação direta com a existência da floresta, de matas nativas e as áreas protegidas no seu entorno. "O inverso também está demonstrado por meio da perda de qualidade da água, nos indicadores 'ruim' e 'péssimo' obtidos quando se desprotege nascentes, margens de rios e áreas de manancial, com o uso inadequado do solo e o desmatamento", avalia a SOS Mata Atlântica

São Francisco

Entre os principais alertas feitos pela entidade a partir do resultado do estudo das amostras, está o fato de que o rio São Francisco já está contaminado com rejeitos da barragem Córrego do Feijão, da empresa Vale, que se rompeu em 25 de janeiro de 2019, no município de Brumadinho (MG). 

Dos 12 pontos analisados no São Francisco, nove estavam com condição ruim e três, regular, o que torna o trecho a partir do Reservatório de Retiro Baixo – entre os municípios de Felixlândia e Pompéu – até o Reservatório de Três Marias, no Alto São Francisco, com água imprópria para usos da população. 

Nesses pontos de coleta, a turbidez – transparência da água – estava acima dos limites legais definidos pela Resolução 357 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), para qualidade da água doce superficial. Em alguns locais, esse indicador chegou a alcançar duas a seis vezes mais que o permitido pela resolução. 

Segundo a entidade, as concentrações de ferro, manganês, cromo e cobre também estavam acima dos limites máximos permitidos pela legislação, o que evidencia o impacto da pluma de rejeitos de minério sobre o Alto São Francisco

"Os dados comprovam que o Reservatório de Retiro Baixo está segurando o maior volume dos rejeitos de minério que vêm sendo carreados pelo Paraopeba. Apesar das medidas tomadas no sentido de evitar que os rejeitos atinjam o rio São Francisco, os contaminantes mais finos estão ultrapassando o reservatório e descendo o rio e já são percebidos nas análises em padrões elevados", divulgou a SOS Mata Atlântica

Indicador ANA

A Agência Nacional de Águas (ANA) afirma que os rios brasileiros têm Índice de Qualidade das Águas (IQA) – indicador que analisa nove parâmetros físicos, químicos e biológicos – considerado bom na maioria dos pontos monitorados, mas que o índice cai perto das regiões metropolitanas, sendo que várias delas coincidem com o bioma Mata Atlântica, e em alguns reservatórios do semiárido. 

"Vários fatores podem contribuir para a melhoria da qualidade da água. Ações de controle da poluição hídrica influenciam para a melhora do IQA, especialmente por meio do tratamento de esgotos, controle da poluição industrial e das práticas agrícolas. Variáveis climáticas, tais como mudanças prolongadas no regime de chuvas e no escoamento superficial, também têm o potencial de influenciar o indicador", informou, em nota, a ANA

O Atlas Esgotos, lançado pela ANA em 2017, mostrou que os esgotos domésticos não tratados são uma grande fonte de poluição pontual no país, que influencia negativamente os níveis de oxigênio das águas.

Por: Camila Boehm / Edição: Talita Cavalcante (Agência Brasil).

Artigo: “Água Para Produção de Alimento”

Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) - World agriculture 2030: Global food production will exceed population growth (2002) - indicam que, para atender ao crescimento populacional e às novas demandas por alimentos, a produção mundial de cereais terá que aumentar cerca de um bilhão de toneladas até o ano 2030. Esse aumento previsto dependerá prioritariamente da disponibilidade hídrica para suprir as demandas de irrigação, que será responsável por atender cerca de 80% dessa produção adicional que ocorrerá entre 2001 e 2025. 

No mundo, a agricultura irrigada é responsável por cerca de 40% de toda produção, viabilizando produzir fisicamente, em uma mesma área, até quatro vezes mais que a agricultura de sequeiro. Para evidenciar a importância da agricultura irrigada na produção global de alimentos seria necessário expandir a área de sequeiro em cerca de 250 milhões de hectares para se obter uma produção equivalente à produção média adicional que é proveniente de áreas irrigadas. 

Embora o Brasil detenha cerca de 12% da água doce superficial disponível no planeta, 28% da disponibilidade nas Américas e possua, ainda, em seu território, a maior parte do Aquífero Guarani, a principal reserva de água doce subterrânea da América do Sul, o país tem enfrentado problemas hídricos em várias regiões. Segundo relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) - Governança dos recursos hídricos no Brasil (2015) - a água se tornou um fator limitante para o desenvolvimento econômico do Brasil e fonte de conflitos em várias regiões. 

A água é um recurso de grande importância para todos os setores da sociedade e atender a todos os usos e usuários requer um trabalho coordenado de planejamento e gestão de recursos hídricos. Não se pode pensar em segurança alimentar dissociada da segurança hídrica, pois para produzir alimento uma quantidade significativa de água deve ser mobilizada. 

Neste contexto, é importante aprender com os erros do passado e aproveitar o momento para planejar um futuro melhor, que consiste necessariamente em tratar a água como um bem estratégico para país. Para isto, é preciso integrar a Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH) com as demais políticas públicas. É fundamental definir as prioridades de uso da água, levando-se em consideração as necessidades básicas do país e as especificidades de cada região. 

Não se pode pensar em agricultura e desenvolvimento sustentável sem que haja um equilíbrio entre oferta e demanda de água. O Brasil é um país de dimensões continentais com grandes diferenças sociais, ambientais e econômicas, o que faz da gestão uma atividade muito mais desafiadora. Fazer a gestão de forma igualitária em todo país, pode levar a conflitos em bacias hidrográficas que já se encontram em estado crítico em termos de disponibilidade hídrica. A gestão deve considerar as desigualdades hídricas regionais e ter um olhar diferenciado para as bacias hidrográficas críticas, onde a disponibilidade hídrica já está comprometida, assim como onde já é realidade a ocorrência de conflitos pelo uso da água. 

A vazão média anual de todos os rios do mundo é da ordem de 40.000 a 50.000 km³/ano. No Brasil, os recursos hídricos de superfície correspondem a uma vazão média da ordem de 5.676 m³/ano, ou cerca de 12% do total mundial, podendo chegar a mais de 16% se as vazões dos rios provenientes de países vizinhos forem contabilizadas. O desafio é gerenciar adequadamente essa água, que implica em alocar os recursos entre os diversos usuários, reduzindo os conflitos e trazendo segurança hídrica. 

Atender as demandas atuais e futuras por alimento requererá um rápido aumento de produtividade, que precisa ser feito sem danos adicionais ao ambiente. Para que isso ocorra, é fundamental que os princípios de sustentabilidade sejam parte central das políticas agrícolas. Produzir de forma sustentável não é uma tarefa simples. É necessário reduzir o crescimento horizontal (aumento do uso dos recursos naturais), aumentar o crescimento vertical (aumentar a eficiência) e considerar o fato que as tomadas de decisão estão cada vez mais complexas e que a agricultura está cada vez mais pressionada na direção da multifuncionalidade, principalmente, na produção de alimentos, fibras e energia. 

Com estimativa atualizada de cerca de sete milhões de hectares irrigados, o Brasil é um dos poucos países do mundo, se não o único, com capacidade de triplicar a sua área irrigada com sustentabilidade, trazendo contribuições efetivas para o meio ambiente, para o desenvolvimento social e econômico do país, com geração de empregos estáveis e duradouros. 

A irrigação, principal usuária de recursos hídricos, apresenta características de uso bastante diferente dos demais usos. A demanda de irrigação é muito variável de ano para ano. Isso dificulta a gestão e deixa o irrigante com a impressão de que a alocação de água não está sendo feita de forma correta. Essa falsa impressão ocorre pelo fato de as outorgas serem fixas e as demandas serem variáveis, fazendo com que, nos anos de baixa demanda, haja água em excesso nos rios, trazendo ao irrigante a percepção de que ele poderia ter mais água para sua irrigação. 

O desenvolvimento de uma agricultura sustentável passa, necessariamente, pelo uso sustentável dos recursos hídricos, que por sua vez, depende de uma gestão que incorpore os usos múltiplos da água e considere os fundamentos e diretrizes da PNRH. É importante fortalecer os mecanismos que contribuem para aumentar a oferta hídrica na bacia hidrográfica. 

O desafio atual da agricultura irrigada é garantir um suprimento adequado e regular de alimentos para a sociedade com o menor consumo de água possível. A alocação de água para fins agrícolas gera benefícios sociais, econômicos e ambientais que não são apropriados somente por um usuário, mas por toda a sociedade. É importante que os agricultores estejam atentos aos avanços tecnológicos, uma vez que as novas tecnologias podem contribuir para melhorar a eficiência do sistema, facilitar o manejo e beneficiar o ambiente. 

A irrigação precisa de uma gestão com olhar ampliado. O produtor precisa ter uma visão além de sua propriedade e de sua área de produção. É preciso, sempre, uma visão macro da bacia hidrográfica. A irrigação tem que ser feita olhando a bacia hidrográfica. O rio é na verdade reflexo daquilo que acontece na bacia como um todo. Ou seja, é preciso olhar a bacia de forma mais integrada, considerar estratégias de conservação de água e solo, que vão refletir diretamente na quantidade e na qualidade das águas. 

A agricultura irrigada terá que se adaptar a uma sociedade cada vez mais dinâmica, exigente quanto à alimentação e quanto às questões sociais e ambientais e que, para isso, terá que enfrentar desafios institucionais, políticos, ambientais, estruturais, científicos, de capacitação, de comunicação, técnicos, tecnológicos e climáticos. 

São vários os desafios a serem enfrentados para se produzir alimento com sustentabilidade, mas sem dúvida alguma os principais e de mais difíceis soluções são aqueles que não dependem somente do agricultor, tais como: (I) a gestão de recursos hídricos, que é peça-chave no processo de ordenamento do uso de recursos hídricos e de segurança hídrica. Uma gestão adequada deve ser capaz de considerar as especificidades inerentes a cada setor usuário e as estratégias a serem adotadas para se alcançar o uso sustentável; (II) integração efetiva e verdadeira das ações institucionais e das políticas públicas setoriais. 

Essa integração parece simples de ser feita, mas é muito difícil de ser operacionalizada. Como, por exemplo, pensar em segurança alimentar sem se pensar em segurança hídrica e energética? Como pensar em segurança alimentar sem considerar, por exemplo, um trabalho integrado dos Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente? Como pensar em segurança alimentar sem que o produtor tenha segurança na sua atividade? 

O fato é que utilizamos muito pouco dos nossos recursos hídricos. É preciso criar mais valor e bem-estar com os recursos disponíveis. Isso não significa, é claro, incentivar a cultura do desperdício de água. É importante definir as prioridades de uso nas bacias e lançar um olhar mais atento para aquelas bacias que já enfrentam problema de disponibilidade hídrica.

Com uma gestão de recursos hídricos competente, é possível trazer segurança hídrica e atender a todos os usos e usuários sem comprometer a disponibilidade. Água é sinônimo de dialogar, de compartilhar e de integrar. Não é geradora de conflitos, mas sim de oportunidade para produzir alimento e desenvolvimento. 

Por: Lineu Neiva Rodrigues; pesquisador da Embrapa Cerrados. O artigo Água Para Produção de Alimento foi publicado originalmente no site da Embrapa.