Translate / Traduzir

Clima & Sociedade: Como Alimentar 10 Bilhões de Pessoas em 2050 Sem Detonar o Planeta

No vermelho: diferença entre capacidade de regeneração do planeta e o consumo humano gera saldo negativo. Estudo publicado na prestigiada revista Nature defende mudanças de hábitos à mesa em sintonia com os limites planetários. 

Sabe aquela frase popular que diz que "tudo na vida tem limite"? Pois a cada ano, a humanidade extrapola as fronteiras planetárias que garantem o próprio sustento da vida por aqui. Queima desenfreada de combustíveis fósseis, práticas agrícolas insustentáveis, pesca predatória, atividades industriais poluidoras e a crescente demanda por recursos naturais têm gerado um saldo negativo para o meio ambiente global. 

Hoje já somos sete bilhões de pessoas e em 2050 poderemos chegar a 10 bilhões de seres com um imenso apetite por bens de consumo e recursos básicos, como alimentos. Mas como alimentar tanta gente sem detonar o planeta sob um cenário de mudanças climáticas? A resposta, segundo um novo estudo publicado na revista Nature [Options for keeping the food system within environmental limits], passa pela adoção de dietas saudáveis ​​e mais baseadas em vegetais, além de um esforço para reduzir pela metade a perda e o desperdício de alimentos. 

As mudanças climáticas não serão suficientemente mitigadas sem mudanças de hábitos à mesa, diz o estudo, que é o primeiro a quantificar como a produção e o consumo de alimentos afetam as fronteiras planetárias e um espaço operacional seguro para a humanidade, além do qual os sistemas vitais da Terra podem se tornar instáveis. 

Adotar mais dietas baseadas em vegetais poderia reduzir as emissões de gases de efeito estufa em mais da metade e também reduzir outros impactos ambientais, como a aplicação de fertilizantes e o uso de terras cultiváveis ​​e água doce, de um décimo a um quarto. 

A adoção dessas opções, segundo a pesquisa, reduz o risco de ultrapassar os limites ambientais globais relacionados à mudança climática, o uso de terras agrícolas, a extração de recursos de água doce e a poluição dos ecossistemas. 

Sem a adoção de práticas mais sustentáveis, a pesquisa mostra que os impactos ambientais do sistema alimentar poderiam aumentar de 50 a 90% até 2050, superando todas as fronteiras planetárias relacionadas à produção de alimentos. 

Além das mudanças na dieta, o estudo ressalta que é necessário melhorar as tecnologias e práticas de manejo na agricultura para limitar as pressões no campo. Aumentar a produtividade das terras agrícolas existentes, equilibrar a aplicação de fertilizantes e melhorar a gestão da água poderiam, juntamente com outras medidas, reduzir esses impactos pela metade. 

Por fim, os pesquisadores destacam que é urgente reduzir pela metade a perda de alimentos e o desperdício a fim de manter o sistema alimentar dentro dos limites ambientais. Atualmente, cerca de 1,6 bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçadas a cada ano, o que representa US$ 1,2 trilhão perdidos e 8% das emissões globais anuais de gases de efeito estufa, vilões do aquecimento global. 

Comida desperdiçada é água, terra e outros recursos indo para o lixo. Um estudo recente do Global Footprint Network (GFN), organização de pesquisa que mede a pegada ecológica das atividades humanas no mundo, mostrou que até o fim de 2018, teremos consumido 1,7 planeta Terra, um apetite absolutamente insustentável no longo prazo. Em outras palavras, a humanidade está utilizando a natureza de forma mais rápida do que os ecossistemas do nosso planeta podem se regenerar.

Por: Vanessa Barbosa (Exame).

Sirius: Novo Acelerador de Elétrons Coloca Brasil na Fronteira da Ciência Mundial

Sirius, a nova fonte de luz síncrotron do Brasil, que está próxima de entrar em operação no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). Foto/Divulgação: CNPEM / LNLS. Máquina construída em Campinas (SP) será uma das fontes de luz síncrotron mais poderosas do mundo. 

Por fora, parece um disco voador, do tamanho do estádio do Maracanã. Por dentro, a sensação é de estar caminhando em outro mundo, na fronteira da tecnologia, cercado de inovação por todos os lados. E o mais incrível: quase tudo feito por aqui mesmo, projetado por cientistas brasileiros, desenvolvido por empresas nacionais e construído – a muito custo – no período de maior aperto financeiro da ciência nacional. 

Assim é o Sirius, a nova fonte de luz síncrotron do Brasil, que está próxima de entrar em operação no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas. Orçado em R$ 1,8 bilhão, é o projeto mais grandioso e tecnologicamente complexo da ciência brasileira. O prédio possui 15 metros de altura e 68 mil metros quadrados. 

A máquina propriamente dita – um acelerador de elétrons com mais de 500 metros de circunferência, que produz a luz síncrotron – está em fase final de montagem, e deve entrar em operação no segundo semestre de 2019. Com ela, cientistas poderão fazer imagens 3D de altíssima resolução e investigar a fundo a estrutura molecular de qualquer tipo de material. 

Se o dinheiro não minguar e as milhares de peças que compõem o acelerador funcionarem com a precisão nanométrica necessária, o Sirius será uma das fontes de luz síncrotron mais poderosas do mundo, num país onde os investimentos em ciência só caíram nos últimos anos. 

"Resiliência é o nome do jogo", diz o físico Antônio José Roque da Silva, que pilota o projeto desde 2009, inicialmente como diretor do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) e agora, como diretor-geral do CNPEM

Não foram poucos os momentos em que o projeto esteve ameaçado pela falta de recursos. A construção começou em 2015, em meio à explosão da crise econômica nacional. 

A salvação, segundo Silva, foi a inclusão do Sirius no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a partir de 2016, o que deu ao projeto um status diferenciado dentro da estrutura política e administrativa do governo federal. "Foi o que nos permitiu sobreviver, mesmo com todas as dificuldades". 

Made in Brazil

Clique na ilustração para ampliar e entender como funciona o Sirius!
A concepção do projeto começou em 2009, quando ficou claro que a atual fonte de luz síncrotron do LNLS – chamada UVX, de 1997 – estava tecnologicamente defasada, apesar de funcionar muito bem e até hoje atender mais de 1 mil pesquisadores por ano. 

Inicialmente, seria uma máquina de terceira geração, como tantas outras que estavam sendo construídas no mundo. Em 2012, porém, um comitê recomendou que fosse feito um upgrade, para uma máquina de quarta geração – coisa que ainda não existia no mundo. E o desafio foi aceito. 

"Em vez de começar atrás, era a oportunidade de sair na frente", lembra Silva. Muitos disseram que era impossível, mas o projeto foi em frente. "Reprojetamos tudo, e o Sirius ganhou destaque mundial. Todo mundo começou a desenhar novas máquinas com base na nossa tecnologia". 

Cerca de 85% do projeto está sendo contratado dentro do Brasil, incluindo o desenvolvimento e a fabricação das peças mais sofisticada do acelerador e das estações experimentais, chamadas de "linhas de luz". 

O primeiro feixe de elétrons foi gerado em maio de 2018, no aparelho conhecido como Linac, que agora está sendo conectado ao primeiro anel de aceleração, conhecido como Booster

O anel principal, de onde são extraídos os feixes de luz síncrotron, está em fase inicial de montagem, com conclusão prevista para abril ou maio de 2019. Terá início, então, uma longa fase de testes, até que o Sirius possa ser aberto para uso da comunidade científica. Nessa primeira fase, estão previstas seis linhas de luz, com mais sete planejadas para 2021. Mas o prédio foi construído para abrigar até 40. 

"É uma máquina que será competitiva por muitos anos", diz o diretor científico do LNLS, Harry Westfahl Junior.

Luz vai permitir investigar estrutura interna de materiais 

A complexidade tecnológica de uma fonte de luz síncrotron como o Sirius é imensa. De uma forma geral, porém, essas máquinas podem ser pensadas como grandes microscópios, ou tomógrafos, que os cientistas utilizam para fazer imagens, enxergar a estrutura molecular e estudar as propriedades de materiais. 

Pode ser uma proteína, uma célula, um osso, um grão de areia, uma planta, uma rocha, um plástico, uma liga metálica ou um fóssil. Qualquer coisa. 

Além da pesquisa acadêmica, a técnica é muito usada pelas indústrias químicas, de petróleo, fármacos e cosméticos. 

A física Nathaly Archilha, pesquisadora do CNPEM, por exemplo, utiliza a luz síncrotron para estudar as propriedades de rochas que formam reservatórios de petróleo e gás natural. "Entender essa estrutura é fundamental para otimizar os processos de extração do óleo", explica. 

Com a luz síncrotron do UVX, já é possível enxergar a malha porosa interna das rochas, onde fica estocado o óleo – com o diâmetro de alguns fios de cabelo. Já com o Sirius, será possível fazer uma tomografia 4D dessas amostras, visualizando em tempo real, e condições reais de temperatura e pressão, como o óleo flui por dentro desses poros. 

Além disso, o tamanho das amostras poderá ser muito maior, e o tempo de imageamento será muito menor. Uma imagem que leva horas para ser feita no UVX poderá ser feita em segundos no Sirius.

Por: Herton Escobar (O Estado de S. Paulo).

Camada de Ozônio Pode se Recuperar Por Completo Até 2060

Relatório da ONU comprova que os esforços para recuperar a cobertura atmosférica da Terra vêm finalmente dando resultado. Isso, claro, se não tirarmos o pé. 

A importância dela para a existência humana é algo que você escuta desde a aula de ciências: sem a proteção da camada de ozônio, uma película de gases que envolve a Terra a 18 km de altura, a vida que levamos hoje simplesmente não seria possível. 

Se essa barreira invisível sumisse, abrindo passagem para todo raio ultravioleta ultrapassar a atmosfera, um simples banho de Sol de cinco minutos já seria suficiente para tostar nossa pele – algo que ameaçaria animais, tornaria o solo infértil e extinguiria variedades inteiras de plantas, por tabela. 

O famigerado "buraco", que a cada dia diminuía a proteção de ozônio do planeta, se tornou uma preocupação ambiental tão grave quanto o aumento da temperatura dos oceanos. Em 1974, com uma descoberta que arremataria o Nobel de Química anos mais tarde, os gases CFC (clorofluorcarbonetos) assumiram o posto de grandes vilões a serem combatidos. 

Eliminados para o ar com o borrifo de aerossóis ou pelo funcionamento de ar-condicionados e geladeiras, tais gases eram nocivos à proteção natural da atmosfera. Isso porque os átomos de cloro, presentes nos CFC's, quando em contato com o ozônio (O3) quebram suas moléculas. 

Estava dado o ultimato. Se não quiséssemos virar camarões já a partir das décadas seguintes, tínhamos de frear a utilização de gases do tipo. O chamado Acordo de Montreal, assinado por 24 países em 1987, foi a primeira grande medida que limitou a aplicação dos CFC's. Isso fez a indústria de eletrodomésticos passar a pesquisar alternativas. Em 2010, o uso de químicos do tipo acabou completamente banido – com exceção da China, outro poluidor de peso. 

E foi importante que tenha acontecido exatamente assim. Se o tratado climático não tivesse vingado, o rombo na película protetora poderia ser de 40% até 2013, projetavam os cientistas em um levantamento feito em 2015.

Na linha do que sinalizou uma pesquisa publicada na revista científica Nature em 2016 [Emergence of healing in the Antarctic ozone layer], um relatório elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU) afirma que a camada de ozônio está se recuperando, e já não corre tanto risco. 

Agora, dá até para fazer projeções mais otimistas: os dados estimam que, se não tirarmos o pé das medidas que já vêm dando certo, podemos recuperar por completo a camada de ozônio até a década de 2060. Em certas áreas, como as polares, é possível que a recuperação aconteça até antes. Acredita-se que zonas como o Ártico e latitudes médias possam chegar lá ainda em 2030

Algo que pode jogar água no chope, contudo, é o aumento da emissão de gases de efeito estufa. Como aponta o relatório, tal fator pode alterar a circulação de massas de ar atmosféricas, e causar uma distribuição desigual do ozônio. 

Com o aquecimento global, é possível que haja menor concentração de ozônio em regiões tropicais (o que inclui o Brasil), no Ártico e nas áreas de latitudes médias – onde a camada de ozônio já é menos densa. 

Alegria de terráqueo costuma mesmo durar pouco. O que, no caso, pode até ser um bom sinal. Pelo menos assim, não relaxamos com o ambiente – e jogamos pela janela o que demorou algumas décadas para começarmos a consertar.

Por: Guilherme Eler (Superinteressante).

Na Alemanha, Água de Esgoto é Tratada e Pode Ser Consumida

Estação de tratamento de efluentes em Stavenhagen, no estado de Mecklemburgo - Pomerânia Ocidental.

Um rígido sistema de tratamento de esgoto reduziu a poluição de rios alemães, que hoje são próprios para banho. Estações de tratamento garantem a purificação da água, que se torna própria para consumo humano. 

Até há algumas décadas atrás, os rios alemães estavam extremamente contaminados com resíduos tóxicos industriais. Quem sentia o mau cheiro e via a péssima qualidade da água não poderia imaginar que, alguns anos mais tarde, seria possível nadar e ver peixes em rios que cortam cidades industriais e onde circulam muitas embarcações. 

A criação do Ministério do Meio Ambiente alemão, em 1986, foi crucial para acabar com o círculo vicioso de poluição dos rios alemães. Leis duras foram estabelecidas, forçando empresas do ramo industrial a implementar alternativas ecológicas. 

Mas, para mobilizar as autoridades a tomarem as medidas cabíveis, foram necessários muitos protestos – boa parte organizada pelo Greenpeace – e até desastres naturais, como o incêndio numa empresa química de Basileia que matou peixes ao longo de 400 quilômetros no rio Reno

A indústria passou a tratar os resíduos industriais e a implementar processos de produção que respeitam o meio ambiente. Uma das principais medidas para frear a poluição da água foi a construção de inúmeras estações de tratamento, onde o esgoto é tratado com a ajuda de bactérias. A água residual tratada nas Kläranlage pode até servir para o consumo humano, com alto índice de pureza. 

As estações de tratamento podem ser vistas perto de grandes cidades e até em regiões de plantação de uvas. A água suja e marrom vinda do esgoto residencial e industrial pode ser vista em enormes tanques, onde é limpa, como exige a legislação ambiental alemã. Os resíduos líquidos são purificados e devolvidos aos rios. 

Várias cidades alemãs, como Hamburgo, geram eletricidade por biogás a partir das estações de tratamento de esgoto, o que também reduz os custos operacionais das companhias de saneamento. Os contribuintes pagam altos impostos pelo serviço de tratamento do esgoto, que já estão incluídos na conta de água. 

Na Alemanha, paga-se pela água consumida, pela água de esgoto e também pela água da chuva que não é absorvida no terreno de casa. A cobrança é feita por lançamento de efluentes, ou seja, o contribuinte paga pela água que é direcionada ao sistema público de coleta de esgoto. Quem adota um sistema de reutilização da água da chuva pode ter descontos. 

Por isso, quem vive na Alemanha economiza na hora de usar a água, inclusive na limpeza de casa. Não é à toa que os banheiros não têm ralo.

Por: Karina Gomes (Deutsche Welle).

Biodiversidade é Estratégica Para o Desenvolvimento do Brasil

Uso sustentável dos recursos naturais é fundamental para assegurar o desenvolvimento econômico e social do país, apontam autores do Sumário para Tomadores de Decisão do 1º Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade & Serviços Ecossistêmicos (Foto: Fábio R.S. / Wikimedia).

A biodiversidade e os serviços ecossistêmicos, como o fornecimento de água, ar puro e de alimentos, são fundamentais para a construção de um futuro próspero e sustentável para a população brasileira, com maior geração de emprego e renda e redução das desigualdades sociais e econômicas. 

Essas metas só serão possíveis de serem alcançadas, contudo, se a contribuição da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos para alavancar o desenvolvimento econômico e social do país for reconhecida e incentivada e se forem feitos investimentos em sua conservação e restauração. 

As conclusões são de um grupo de pesquisadores autores do Sumário para Tomadores de Decisão do 1º Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade & Serviços Ecossistêmicos. O documento, elaborado pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES, na sigla em inglês), apoiada pelo Programa BIOTA-FAPESP, foi lançado no dia 8 de novembro de 2018 em um evento no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro

"Avaliamos que o Brasil só tem a ganhar do ponto de vista econômico se sair do atual sistema de substituição de vegetação nativa por áreas agrícolas. É muito mais vantajoso para o país ter paisagens multifuncionais, com áreas agrícolas e de conservação, que permitem que os ecossistemas funcionem de forma muito melhor, mantendo serviços ecossistêmicos essenciais, como o de recarga de aquíferos e de retirada de carbono da atmosfera", disse Carlos Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e membro da coordenação da BPBES e do Programa BIOTA-FAPESP, à Agência FAPESP

Os pesquisadores avaliam que no Brasil a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos são percebidos como obstáculos para o desenvolvimento econômico. Na realidade, porém, eles são os elementos fundamentais para o enfrentamento de crises socioeconômicas e ambientais, nacionais e globais, pois trazem novas oportunidades de desenvolvimento. Por isso, precisam estar incorporados às políticas de desenvolvimento do país. 

A biodiversidade conservada gera oportunidades de negócios para indústrias como a de turismo, de cosméticos, de fármacos e a alimentícia. Já a concentração de pobreza em municípios com grande cobertura vegetal nativa remanescente pode se tornar uma grande oportunidade de conciliar conservação da natureza com desenvolvimento humano, indicam. 

Cerca de 40% da cobertura vegetal do Brasil está contida em 400 municípios, que representam 7% do total de municípios no país e onde vivem 13% da população brasileira economicamente mais carente. Em outros municípios similares a remoção da cobertura vegetal e a transformação dessas áreas em plantações agrícolas ou pastagens não se traduziriam na melhoria das condições de vida da população dessas regiões. Estudos mostraram que, historicamente, a substituição da floresta por atividades agropastoris no Brasil nas últimas décadas não resultou em um aumento significativo do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos moradores previamente instalados nessas regiões, ponderam os pesquisadores. 

"Isso ocorre porque essas pessoas não são beneficiadas pela implantação da atividade agropecuária nessas áreas onde havia cobertura vegetal. Elas acabam engrossando o êxodo rural, ao serem empurradas para a periferia das grandes cidades, onde vão viver em condições muito piores do que as que tinham no campo", disse Joly

Por meio da ampliação significativa de políticas de geração de renda a partir da natureza conservada – como a Política de Garantia de Preços Mínimos para os Produtos da Sociobiodiversidade, aplicada a produtos florestais não madeireiros extraídos, em sua maioria, por populações tradicionais e agricultores familiares – seria possível manter essas pessoas assentadas nessas regiões de floresta e melhorar suas condições de vida, estimam os pesquisadores. 

"É preciso possibilitar a exploração de forma sustentável de produtos florestais pelas comunidades locais de modo que a floresta possibilite melhorar suas condições de vida, e não substituir a floresta por um sistema de produção que não irá beneficiar a população local", disse Joly

Janela de tempo limitada

Na opinião dos pesquisadores, o aproveitamento das oportunidades de uso sustentável da biodiversidade brasileira para promover o desenvolvimento econômico e social do país tem janela de tempo limitada e enfrenta obstáculos críticos. Alguns deles são assegurar o cumprimento de leis existentes por meio de mecanismos regulatórios e de incentivo em consonância com os compromissos globais de sustentabilidade assumidos pelo país. 

Entre os acordos internacionais assumidos pelo Brasil estão os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), as Metas de Aichi – voltadas à redução da perda da biodiversidade do planeta no período de 2011-2020 – e o Acordo Climático de Paris, aprovado em 2015. 

"O cumprimento das metas apresentadas pelo Brasil no Acordo de Paris, por exemplo, permitiria ao Brasil diminuir ou zerar o desmatamento, que é de suma importância para o país. A floresta vale muito mais em pé no médio e longo prazo do que ser transformada em um campo de soja, que será produtivo por algum tempo e só beneficiará o proprietário ou um grupo de pessoas, sem dar retorno para a sociedade, como um todo, ou para a população que vivia ali", disse Joly

Internamente, o Brasil dispõe de uma ampla variedade de instrumentos de política e opções de governança socioambiental. A ineficiência no controle, na gestão ou o baixo incentivo ao cumprimento das regras implicam riscos à consolidação de um futuro sustentável do país, apontam os pesquisadores. 

Apesar da redução nas taxas anuais de perda de habitats por desmatamento em biomas brasileiros na última década, especialmente na Amazônia, a conversão dos ecossistemas naturais continua elevada, em especial no Cerrado (236 mil km² entre 2000 e 2015) e na Caatinga (conversão de 45% da cobertura original). Mesmo na Mata Atlântica, a área desmatada – cerca de 29 mil hectares de 2015 a 2016 – supera substancialmente a área restaurada no bioma no mesmo intervalo de tempo. 

Nos últimos anos a perda florestal no país excedeu em pelo menos três vezes todas as promessas de restauração feitas no período, compararam os autores do sumário. 

Nos biomas mais degradados, o cumprimento da Lei de Proteção à Vegetação Nativa (o Novo Código Florestal) deve propiciar a recomposição da vegetação nativa – pela implementação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e do Programa de Regularização Ambiental (PRA) – com benefícios para a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos, incluindo produção e conservação de água e sequestro de carbono. 

A estimativa é a de que o cumprimento da lei gere cerca de 20 milhões de hectares de área restaurada, possibilitando outros ganhos aos proprietários de terra, como maior produtividade e geração de novos negócios e empregos verdes, estimam os pesquisadores. 

"Há uma série de gargalos que fizeram com que a implantação do Novo Código Florestal não avançasse da maneira como gostaríamos e foram perdidos aspectos importantes durante sua discussão, como a largura das áreas de proteção permanente", disse Joly

"Mas se conseguirmos implementar o que foi aprovado, de fato, o país ainda terá condições de atingir o que estamos propondo nesse diagnóstico e cumprir seus compromissos internacionais", disse. 

Protocolo de Nagoya 

O Sumário para Tomadores de Decisão do 1º Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade & Serviços Ecossistêmicos está sendo lançado a pouco menos de uma semana da realização da 14ª Convenção da Diversidade Biológica (COP 14), que ocorrerá no Egito de 17 a 29 de novembro. 

Como o Brasil não ratificou o Protocolo de Nagoya – que entrou em vigor há quatro anos e tem o objetivo de promover a repartição justa e equitativa de benefícios advindos da utilização de recursos genéticos, contribuindo para a conservação e uso sustentável da biodiversidade –, o país não poderá opinar nas decisões tomadas a esse respeito na COP 14

"A não adesão do Brasil ao Protocolo de Nagoya é irracional porque, quando o país resolver eventualmente ratificá-lo, questões importantes para o país, como a repartição de benefícios de áreas transfronteiriças, já terão sido decididas de forma que podem não ser as mais interessantes para nós", avaliou Joly

"O Brasil é o país com a maior biodiversidade mundial e o que tem mais a ganhar em relação à repartição de benefícios. Não ratificar o Protocolo de Nagoya por achar que pode perder alguma coisa em áreas transfronteiriças ou na questão de recursos genéticos que são economicamente importantes, e cuja maioria está fora do protocolo, é de uma miopia extrema", avaliou. 

O Sumário para Tomadores de Decisão do 1º Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade & Serviços Ecossistêmicos pode ser acessado em www.bpbes.net.br/produtos.

Por: Elton Alisson (Agência Fapesp).

Transações Naturais

As contribuições dos ecossistemas para a sociedade estão cada vez mais evidentes e começam a demonstrar seu valor, inclusive de troca. 

O pagamento para extrativistas e produtores rurais que adotam práticas de baixo impacto, além dos avanços envolvendo mecanismos que compensam o déficit de áreas naturais obrigatórias por lei nas propriedades rurais, se apresentam como instrumentos eficientes para a conservação com valor econômico. No primeiro modelo, adotado como estratégia de combate do desmatamento, os exemplos mostram resultados capazes de ser replicados em diferentes regiões da Amazônia

A Ponta do Abunã, na tríplice divisa entre Acre, Rondônia e Amazonas, entrou para a história do Brasil no início do século XX como entreposto de borracha e mão de obra extrativista da lendária ferrovia Madeira-Mamoré, na saga do "ouro branco" em meio à Floresta Amazônica. Hoje, o antigo eldorado, sob forte pressão da expansão pecuária, é território de um novo sonho: a construção de um modelo capaz de viabilizar o uso sustentável, com compensação financeira para quem conserva as árvores em pé, ajuda na conservação da biodiversidade e no controle climático do planeta. 

A região representa hoje a principal fronteira de desmatamento da Amazônia. No Projeto de Carbono Reca, desenvolvido pela Natura, pequenos agrossilvicultores da localidade, fornecedores de óleo de andiroba à produção de cosméticos, protagonizaram uma iniciativa-piloto de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) – no caso, pela contribuição ao equilíbrio do clima global via práticas produtivas que não desmatam. "Procurávamos uma fórmula segura a ser replicada na Amazônia para aumentar a renda sem derrubar mais árvores", afirma Keyvan Macedo, gerente de sustentabilidade da empresa. 

Além da agricultura de subsistência e do ganho por meio da venda dos ativos da biodiversidade à indústria, cada família passou a receber R$ 1,6 mil por ano pelo suporte à conservação e uso de boas práticas, após capacitação sobre compromissos, regras e critérios contra o desmatamento. Como diferencial, o método prevê receita adicional em função do resultado coletivo, ou seja, há o incentivo financeiro individual para cada um fazer a sua parte e ainda uma remuneração pela performance do todo, que é destinado à Associação Reca – um modo de estimular os produtores a engajar os vizinhos. 

Na primeira fase, de 2013 a 2015, o projeto desembolsou um total de R$ 2 milhões em pagamentos que, a partir de agora, na segunda etapa, serão anuais. Como resultado, a receita das famílias dobrou em relação à venda do produto extrativista, beneficiando 125 propriedades rurais e diminuindo suas taxas de desmatamento. 

Entre os resultados, a iniciativa ajudou na regularização fundiária, o que é essencial à segurança dos produtores e do próprio projeto. Em mutirões promovidos em conjunto com a Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ), foram emitidos 49 títulos fundiários e 205 inscrições no Cadastro Ambiental Rural (CAR) beneficiando os associados e cooperados do Reca

"Desde 2007 temos na empresa um programa de carbono neutro e, após algum tempo, identificamos a necessidade de evoluir no cálculo para aumentar renda e maximizar impacto social com maior consciência dos produtores sobre os benefícios”, explica o executivo. Nas comunidades da Ponta do Abunã, onde a mata se encontra historicamente fragmentada por pastagens e outros impactos à paisagem natural, foi desenvolvida nova metodologia de PSA aplicável a áreas não contínuas. “Isso representa uma inovação, pois em geral o mecanismo tem sido utilizado no Brasil em maiores extensões de florestas conectadas", explica Macedo

O objetivo no longo prazo é fazer com que a derrubada de árvores nas áreas do projeto seja inferior às do entorno, chegando a zero após 25 anos. Desde 2013, o desmatamento evitado na região foi equivalente a 190 campos de futebol por ano ou 74 mil toneladas de carbono que deixaram de ir para atmosfera. Apesar desses resultados, a adesão ao compromisso de práticas sustentáveis, que alcançou 77% das famílias no Abunã, permanece um desafio contra a expansão do gado. Macedo adverte: "O cobenefício da renda via fornecimento de insumos da natureza à indústria é essencial à viabilidade dos projetos de PSA". 

Pontes entre a floresta e o mercado

Criar modelos de relações comerciais justas e transparentes é chave na tarefa de unir as pontas do mercado, aproximando fornecedores extrativistas e indústrias, para promoção do uso sustentável como estratégia de conservação da biodiversidade. "É crescente o interesse dos compradores em saber a origem dos produtos florestais e a forma como são beneficiados", atesta Mariana Faro, diretora da 100% Amazônia, empresa de comércio internacional que hoje absorve a produção de produtos florestais não madeireiros de oito comunidades para exportação. 

A ênfase na valorização dos territórios, com a consequente manutenção das florestas usadas pelas populações locais como fonte de renda e insumos às empresas, é a alma do negócio. Dessa forma, no intuito de gerar benefícios na perspectiva do ganha-ganha e conciliar a lógica do mercado à do conhecimento tradicional, a empresa tem incentivado a organização social e mobilizado novas práticas no Projeto Aryamuru – nome tupi que significa "a força que vem das mães das mães", ou seja, das avós. 

Junto à Cooperativa de Fruticultores de Abaetetuba (PA), o esforço está no desenvolvimento de métodos de rastrear os produtos desde a extração na floresta, comprovando a origem em áreas regularizadas pelo Cadastro Ambiental Rural (CAR). Após diagnóstico social e produtivo, o projeto orientou as comunidades a adotar protocolos de relacionamento comercial com empresas, com consentimento prévio e planos de uso dos recursos: açaí, cupuaçu e cajá, entre outros frutos processados em suas unidades industriais. 

O modelo segue a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho sobre povos indígenas e tradicionais. "Além de qualidade, o mercado exige regularidade, padronização e conhecimento sobre toda a cadeia dos produtos", diz Faro. Na comunidade Monte Herman, em Portel, Ilha do Marajó (PA), a extração de copaíba se dá mediante processos de rastreabilidade que identificam as árvores por GPS e permitem saber de qual delas o óleo comprado teve origem. Mais valorizado, o manejo da espécie pelos produtores com fins comerciais estimula a conservação da floresta, sob constante ameaça dos madeireiros ilegais. 

O acordo firmado pela comunidade para a gestão dos próprios recursos faz o casamento entre o plano de produção local e a demanda das empresas. "Ao mesmo tempo, percebemos uma nova cultura quanto ao lixo, caça e pesca predatória, além da recuperação de áreas degradadas e até mudanças positivas no hábito alimentar", completa Carlos Augusto Ramos, engenheiro florestal do projeto. 

Em Almeirim (PA), o trabalho dá suporte à documentação que comprova o manejo sustentável da castanha-do-brasil, visando o mercado externo. A parceria auxilia as mulheres na produção de artesanato com o ouriço (carapaça) do fruto após a retirada das amêndoas, diversificando opções de renda. Parte da receita alimenta um fundo criado pela comunidade, como capital de giro destinado a investimentos em melhorias locais. "Sob o ponto de vista econômico, é importante não depender de apenas um produto e usar a floresta de forma múltipla", sugere Ramos

O objetivo, diz ele, não se restringe a comercializar produtos com rastreabilidade a partir de frutos e sementes, mas desenvolver o protagonismo das comunidades com base no manejo florestal comunitário e no acesso a mercados, afirmando sua autonomia econômica e seu papel como guardiões da biodiversidade, dos saberes e da cultura amazônica. 

Solução para o déficit de árvores 

Se na Amazônia as vendas prosperam no ritmo da organização social das comunidades e do acesso a mercados, na Mata Atlântica, em São Paulo, novos negócios se desenham na esteira de mecanismos que compensam a falta de reservas ambientais em propriedades rurais já desmatadas, de forma a garantir florestas na proporção imposta pela lei. O novo Código Florestal prevê: dentro de certas condições, quem não tiver mata suficiente para se adequar às exigências pode compensar o déficit pagando para uma outra fazenda com mais áreas conservadas fazer o papel, no mesmo bioma. 

"A vegetação nativa mantida em pé deve ter um valor econômico", ressalta o empresário Leandro Viecili, diretor da Florestec, empresa que ingressou em uma nova fronteira de negócios por meio do projeto Compensação de Passivos Ambientais por meio de Servidão Florestal.


Foto/Divulgação: Florestec.

De início, em 2012, com propósito de resolver o problema de proprietários com insuficiência de área para reserva ambiental, o engenheiro florestal adquiriu um sítio de 73 mil metros quadrados, no município de Piedade (SP). O remanescente florestal da área, que resistiu à pressão imobiliária ao longo das décadas, hoje se destina a compensar passivos ambientais de terceiros, em caráter perpétuo, no conceito de servidão – nesse caso, o serviço prestado por um imóvel para outro. Até o momento, 2 mil metros quadrados da reserva foram negociados para compensações ambientais. 

"A ideia surgiu quando uma transportadora, que veio a se tornar o primeiro cliente, precisava de um imóvel para se adaptar às normas ambientais, mas não queria cuidar dele porque o negócio da empresa era caminhão e não floresta", conta Viecili. A experiência nos meandros do setor, com a percepção de uma tendência que chegava para ficar e poderia se tornar um novo filão, veio quando trabalhava na área de licenciamento da agência ambiental paulista, a Cetesb, e tinha a caneta na mão para autorizar ou não novos empreendimentos. 

Com 16 transações realizadas até a metade de 2018, abrangendo áreas que variam de 630 a 11 mil metros quadrados, a empresa tinha como meta liquidar as cotas disponíveis no terreno e adquirir outro em região diferente, mas esbarrou na crise econômica. A tendência é o negócio crescer na perspectiva de retomada dos novos investimentos em obras que precisarão compensar a falta de floresta para cumprir as normas. Nem sempre a alternativa tradicional de cultivar mudas para resolver o passivo dá certo, não só devido ao alto custo, como também à necessidade de monitoramento e cuidados com o plantio. 

"O olhar é de longo prazo e de atenção para superar períodos de insegurança na área ambiental e econômica, como o atual, sem prejuízos com o custo da manutenção de áreas conservadas para sempre, como prevê os contratos", analisa Viecili, que investiu R$ 70 mil e desde o início do negócio, em 2014, faturou R$ 458 mil. O cliente-padrão, diz ele, é o proprietário que tem lote urbano com floresta e precisa cortar uma parte da vegetação para construir a casa. Mas há diferentes demandas, como indústrias de cerâmica que querem ampliar a produção e precisam de licença de mineração.

Por: Sérgio Adeodato (Página 22).

A Nova História do Povoamento da América do Sul

Reconstituição facial de um individuo da Lapa do Santo (MG). Crédito: Caroline Wilkinson.

Em 1997, em Monte Verde, no sul do Chile, uma reunião dos mais importantes estudiosos do povoamento humano das Américas serviu para consagrar uma mudança de paradigma científico. Desde os anos 1930, a arqueologia norte-americana defendia que o início do povoamento das Américas teria se dado a no máximo 13 mil anos. A defesa desta tese se pautava nas datação radiométrica das pontas de flecha da cultura Clóvis, usadas há 11,5 mil anos por bandos de caçadores-coletores que perseguiam manadas de mamutes no sudoeste do que são hoje os Estados Unidos (as primeiras flechas foram achadas na cidade de Clóvis, Novo México, daí seu nome). 

A narrativa tradicional da arqueologia norte-americana dava conta que os primeiros humanos a adentrar o continente o fizeram cruzando o estreito de Behring, que separa a Sibéria do Alasca, há 12 mil anos, no final da Idade do Gelo. Mil anos mais tarde, seus descendentes diretos, a chamada cultura Clóvis, estariam caçando a megafauna (as preguiças gigantes, gliptodontes e mastodontes hoje extintos) na região central dos Estados Unidos. Seriam necessários ainda outros mil anos para que a expansão humana cruzasse o istmo do Panamá e invadisse a América do Sul e começasse a povoá-la, portanto há no máximo 10 mil anos. 

Esta teoria sobre o povoamento das Américas começou a fazer água a partir do final dos anos 1970, quando foram escavados na América do Sul sítios arqueológicos com datações mais antigas que as de Clóvis. O caso emblemático foi Monte Verde, no sul do Chile, onde caçadores-coletores esquartejavam mastodontes há 14,8 mil anos. Em outras palavras, havia sido descoberto um sítio humano 3 mil anos mais antigo que os de Clóvis, e situado mais de 10 mil quilômetros ao sul dos Estados Unidos, no sul do Chile

Ou as datações para Monte Verde estavam incorretas, ou então o povoamento da América do Norte teria iniciado muito antes do que se supunha. E assim foi. Após quase 20 anos de debate, finalmente os arqueólogos norte-americanos aceitaram as datações sul-americanas e, naquela reunião em Monte Verde em 1997, celebraram a mudança de paradigma. Os primeiros humanos teriam pisado no Alasca há mais de 15 mil anos, quando o frio cortante da Idade do Gelo apenas começava a ceder. 

Existiram três correntes migratórias para as Américas Central e do Sul. Ambas se originaram na América do Norte. A corrente azul, de Lagoa Santa, ocorreu entre 11 mil e 9 mil anos atrás, tem DNA asiático, e desapareceu não se sabe como. A corrente verde se originou a partir de 9 mil anos e também possui DNA asiático. É desta corrente que descendem todos os índios sul-americanos.

Agora, em 2018, acontece algo similar. Uma mudança de paradigma, que só foi possível graças aos avanços da biologia molecular, e particularmente nos avanços no estudo de DNA fóssil. Assim, a história do povoamento da América Central e da América do Sul acaba de ganhar uma nova interpretação − quem sabe, definitiva. O maior e mais abrangente estudo já feito a partir de DNA fóssil, extraído dos mais antigos restos humanos achados no continente, confirmou a existência de um único contingente populacional ancestral de todas as etnias ameríndias, passadas e presentes. 

Há mais de 17 mil anos (não mais 15 mil), os primeiros humanos cruzaram o estreito de Behring para povoar o Novo Mundo. O DNA fóssil indica que os integrantes daquela corrente migratória tinham afinidade com os povos da Sibéria e do norte da China - ou seja, não possuíam DNA africano ou da Australásia, como sugere uma teoria tradicional formulada nos anos 1980, e que acaba de ser descartada. 

Uma vez na América do Norte, é o que revela o novo estudo, os descendentes daquela corrente migratória ancestral se diversificaram em duas linhagens há cerca de 16 mil anos. Os membros destas linhagens acabaram, separadamente, por se expandir para a América Central. Ao cruzar o istmo do Panamá, povoaram a América do Sul em três levas consecutivas e distintas. 

A primeira destas levas ocorreu entre 15 mil e 11 mil anos atrás, e a segunda se deu há no máximo 9 mil anos. Há registros do DNA fóssil de ambas migrações em todo o continente sul-americano. Uma terceira leva é bem mais recente e de influência restrita, pois se deu há 4,2 mil anos, e seus membros se fixaram nos Andes centrais. 

O trabalho Reconstructing the Deep Population History of Central and South America foi realizado por 72 pesquisadores de oito países, e pertencentes a instituições como a Universidade de São Paulo, a Universidade Harvard e o Instituto Max Planck, entre outras. 

Os resultados da pesquisa sugerem que, na primeira linhagem de humanos a executar o trajeto norte-sul entre 16 mil e 15 mil anos atrás, seus membros pertenciam à cultura Clóvis, que está associada à caça da megafauna pleistocênica. Com o declínio e a extinção da megafauna, há 11 mil anos, a cultura Clóvis eventualmente desapareceu. Muito antes disto, entretanto, bandos de caçadores-coletores Clóvis, ao explorar novas áreas de caça cada vez mais ao sul, eventualmente acabaram por ocupar a América Central − como o que comprova o DNA fóssil de 9,4 mil anos de um humano de Belize analisado neste novo trabalho. 

Posteriormente, talvez em perseguição de manadas de mastodontes, bandos de caçadores-coletores Clóvis cruzaram o istmo do Panamá para invadir e se espalhar pela América do Sul, como evidenciam os registros genéticos de enterramentos humanos no Brasil e no Chile agora revelados. Tal evidência genética vem corroborar evidências arqueológicas no sul do Chile, um acampamento de caçadores de mastodontes há 14,8 mil anos. 

Voltando ao oeste norte-americano, entre os diversos sítios Clóvis conhecidos, o único enterramento humano associado às ferramentas da cultura Clóvis fica no estado de Montana. Lá foram achados os restos de um menino chamado Anzick-1, de cerca de 12,6 mil anos. Seu DNA foi o ponto de partida do trabalho. O DNA extraído dos ossos daquele garoto está relacionado ao DNA dos esqueletos do Povo de Lagoa Santa, um grupo de humanos antigos que habitou o Brasil central − mais especificamente as grutas no entorno de Lagoa Santa (MG) − entre 10 mil e 9 mil anos atrás. Em outras palavras, o Povo de Lagoa Santa descende dos migrantes da cultura Clóvis da América do Norte

Outra descoberta agora anunciada dá conta de que os restos humanos de Lagoa Santa não guardam relação genética alguma com hipotéticas migrações humanas provenientes dos estoques genéticos africano ou aborígenes − como sugeria a teoria tradicional da ocupação da América do Sul

"Do ponto de vista genético, o Povo de Lagoa Santa era formado pelos primeiros ameríndios," explica o arqueólogo André Menezes Strauss, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, que coordenou a parte brasileira do trabalho. 

"Estranhamente, os membros daquela primeira linhagem de sul-americanos não deixaram descendência identificável entre os povos ameríndios atuais. Em torno de 9 mil anos atrás, seu DNA desaparece completamente das amostras fósseis, sendo substituído pelo DNA de uma segunda leva migratória, não relacionada à cultura Clóvis, da qual descendem todos os ameríndios vivos. Ainda não sabemos os motivos que levaram ao desaparecimento do estoque genético do povo de Lagoa Santa," explica Strauss

Uma possibilidade para o sumiço do DNA da primeira migração, encontrado no DNA do Povo de Lagoa Santa, é que este tenha se diluído em meio ao DNA dos ameríndios descendentes dos integrantes da segunda leva populacional, tornando-se assim não identificável através dos métodos atuais da pesquisa genética.


O trabalho dos pesquisadores brasileiros contribuiu de forma fundamental para a pesquisa. Entre 49 indivíduos dos quais se extraiu DNA fóssil, sete esqueletos com idades entre 10,1 e 9,1 mil anos são provenientes da Lapa do Santo, um abrigo rochoso em Lagoa Santa. Aqueles sete esqueletos, ao lado de dezenas de outros, foram achados e desenterrados em campanhas arqueológicas sucessivas no local, lideradas primeiramente pelo antropólogo físico Walter Alves Neves, do Instituto de Biociências (IB) da USP, e desde 2009 por André Menezes Strauss

Ao todo, o estudo investigou o DNA fóssil de 49 indivíduos, provenientes de 15 sítios arqueológicos situados na Argentina (2 sítios, 11 indivíduos com idades entre 8,9 mil e 6,6 mil anos), Belize (1 sítio, 3 indivíduos, idades entre 9,4 mil e 7,3 mil anos), Brasil (4 sítios, 15 indivíduos, idades entre 10,1 mil e 1 mil anos), Chile (3 sítios, 5 indivíduos, idades entre 11,1 mil e 540 anos) e Peru (7 sítios, 15 indivíduos, idades entre 10,1 mil e 730 anos). 

Os esqueletos brasileiros são provenientes de cinco sítios arqueológicos: a já citada Lapa do Santo (7 indivíduos com cerca de 9,6 mil anos), o sambaqui Jabuticabeira 2 (5 indivíduos com cerca de 2 mil anos), que fica em Santa Catarina, e dois sambaquis fluviais no estado de São Paulo, do Vale do Ribeira: Laranjal (2 indivíduos com cerca de 6,7 mil anos) e Moraes (1 indivíduo com cerca de 5,8 mil anos). 

As pesquisas nos sambaquis fluviais paulistas foram feitas pelo arqueólogo Levy Figuti, do MAE-USP. Segundo ele, "o artigo representa um grande avanço na pesquisa arqueológica, aumentando exponencialmente o que sabíamos há poucos anos sobre a arqueogenética do povoamento da América." 

Nem todos os restos humanos fósseis achados em alguns dos mais antigos sítios arqueológicos das Américas Central e do Sul pertencem a indivíduos geneticamente descendentes da cultura Clóvis. Há diversos sítios cujos habitantes não tinham DNA associado a Clóvis. Apesar disto, nestes mesmos sítios já foram desenterradas ferramentas de pedra lascada que carregam a assinatura característica da cultura Clóvis

"Isto mostra que, muito além da contribuição genética, a primeira leva migratória para a América do Sul, e que era relacionada à Clóvis, também transmitiu a sua tecnologia a outros grupos humanos que aqui encontraram," diz Strauss

Um novo rosto para Luzia

Até hoje não se sabia quantas correntes migratórias humanas originárias da Ásia teriam adentrado as Américas no final da Era do Gelo, há mais de 16 mil anos. A teoria tradicional, formulada nos anos 1980 por Walter Neves e outros pesquisadores, dava conta de que teria havido uma primeira leva de humanos, cujos membros possuíam características africanas ou semelhantes aos aborígenes da Austrália

Foi de acordo com essa hipótese que foi modelada a famosa reconstrução facial da Luzia, nome dado ao crânio de uma mulher que viveu em Lagoa Santa há 12.500 anos e, por isto, carinhosamente chamada de a primeira brasileira. O busto de Luzia com feições africanas foi composto a partir a morfologia de seu crânio, num trabalho realizado pelo especialista britânico Richard Neave na década de 1990. 

"Entretanto, a forma do crânio não é um marcador confiável de ancestralidade ou de origem geográfica. A genética, por outro lado, é a técnica que se presta por excelência a esse tipo de inferência," explica Strauss

"Os resultados genéticos deste estudo mostram de forma categórica que não existiu nenhuma conexão entre as populações de Lagoa Santa e grupos da África ou da Austrália. Portanto, a hipótese de que o Povo de Luzia representaria uma leva migratória anterior aos ancestrais dos indígenas atuais não se confirma. Pelo contrário, o DNA mostra que o Povo de Luzia tem genética totalmente ameríndia." 

A reportagem procurou, sem sucesso, entrar em contato com o biólogo Walter Alves Neves, a fim de colher sua opinião sobre os resultados deste trabalho. 

Mas se as feições de Luzia não são mais consideradas corretas, há um novo busto que veio substituir o de Luzia no panteão científico brasileiro. Caroline Wilkinson, pesquisadora da Liverpool John Moores University, na Inglaterra, especialista em reconstrução forense e discípula de Richard Neave, realizou a reconstrução facial de um dos indivíduos desenterrados na Lapa do Santo. O trabalho foi feito a partir do modelo digital do crânio. 

"Por mais acostumados que estejamos com a tradicional reconstrução facial de Luzia, com traços fortemente africanos, essa nova reconstrução facial reflete de forma muito mais precisa a fisionomia dos primeiros habitantes do Brasil apresentando traços generalizados e indistintos a partir dos quais, ao longo dos milhares de anos, a grande diversidade Ameríndia se estabeleceu," explica Strauss

Reconstrução do rosto de Luzia se perdeu no incêndio do Museu Nacional, mas o crânio sobreviveu. Melhor assim, já que a reconstrução estava incorreta. Foto: Guilherme Braga Alves.

De acordo com o arqueólogo brasileiro, o estudo publicado na renomada revista científica Cell também apresenta os primeiros dados genéticos para os sambaquis da costa brasileira. "Esses monumentais montes de conchas foram construídos há cerca de dois mil anos por sociedades populosas que ocupavam a faixa costeira do Brasil. O estudo do DNA fóssil de enterramentos sambaquis de Santa Catarina e de São Paulo mostram que esses grupos têm uma relação de proximidade genética com os indígenas atuais do sul do Brasil, especialmente os grupos Kaingang." 

Os primeiros restos humanos de Lagoa Santa, cerca de 30 esqueletos, foram encontrados em 1844 no fundo de uma gruta inundada pelo naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund (1801-1880). Quase todos estes fósseis se encontram hoje no Museu de História Natural de Copenhagen, na Dinamarca. Um único crânio ficou no Brasil, doado por Lund ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro

Ao longo do século 20, outros fósseis foram coletados, entre eles o crânio de Luzia, nos anos 1970. Quase uma centena de crânios escavados por Neves e Strauss nos últimos 15 anos se encontram atualmente na Universidade de São Paulo. Outros tantos fósseis estão guardados na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

Mas a grande maioria destas preciosidades osteológicas e arqueológicas, talvez mais de 100 indivíduos, estava depositada no Museu Nacional do Rio de Janeiro, e foi presumivelmente consumida no incêndio que devastou aquela instituição no dia 2 de setembro de 2018. 

Luzia sobreviveu

O crânio estava exposto no Museu Nacional ao lado do busto com suas feições feito por Neave. Temia-se que o crânio tivesse sido destruído no incêndio, mas felizmente foi uma das primeiras peças do museu recuperadas dos escombros. Mesmo que fragmentado, o crânio de Luzia sobreviveu. 

Já o busto original (do qual há várias cópias), este se perdeu no fogo.

Por: Peter Moon (O Eco).

A Terra Possui Duas Outras “Luas” Escondidas

Uma ilustração (sem escala) demonstra a posição de uma das nuvens de poeira Kordylewski em relação à Terra, à Lua e ao Sol. Descobertas na década de 1960, as enormes nuvens de poeira foram recentemente confirmadas — e podem afetar os planos de exploração do espaço no futuro. Foto/Ilustração: Gábor Horváth.

A Lua da Terra pode não estar sozinha. Após mais de meio século de especulação e controvérsia, astrônomos e físicos húngaros afirmam ter finalmente confirmado a existência de duas "luas" na órbita da Terra, inteiramente compostas de poeira. 

Conforme descrito pela equipe responsável pela pesquisa na revista científica Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, foi possível tirar fotos das nuvens misteriosas a apenas 402 mil quilômetros de distância, quase a mesma distância da Lua

Pesquisadores já sugeriam a existência de diversos companheiros naturais para a Terra, mas as nuvens de poeira foram somente avistadas em 1961, quando o astrônomo polonês Kazimierz Kordylewski — cujo nome também serviu para batizar as nuvens — as observou de relance. Até mesmo na época, a presença das nuvens foi questionada. 

"As nuvens de Kordylewski são dois dos objetos mais difíceis de encontrar, e embora estejam tão próximos da Terra quanto a Lua, são amplamente ignorados pelos pesquisadores no campo da astronomia", diz Judit Slíz-Balogh, coautora do estudo e astrônoma da Universidade Eötvös Loránd, na Hungria. "É intrigante constatar que em nosso planeta orbitam, junto com o nosso vizinho lunar, pseudosatélites compostos por poeira". 

De acordo com as novas descobertas, cada nuvem de Kordylewski possui largura aproximada de 15 por 10 graus, o equivalente a discos lunares de 30 por 20 no céu noturno. Isso significa uma área de cerca de 104 mil por 72 mil quilômetros no espaço, em tamanho real — quase nove vezes a largura da Terra

As nuvens em si são enormes, mas estima-se que as partículas individuais que as compõem tenham apenas um micrômetro de largura [um micrômetro equivale à milésima parte do milímetro]. A luz do Sol que reflete essas partículas as faz brilhar de forma ainda mais fraca — assim como o brilho em formato de pirâmide da luz zodiacal resultante da poeira espalhada entre as órbitas dos planetas. 

Contudo essas nuvens-satélite permaneceram escondidas na escuridão do espaço até agora simplesmente porque são extremamente fracas.

De cometas a chuvas de meteoros na faixa zodiacal, o nosso sistema solar é um lugar bem empoeirado. Nuvens de partículas espalhadas entre os planetas podem ser vistas por observadores treinados, em céus escuros e limpos. Entretanto as nuvens de Kordylewski não são tão estáveis quanto essas outras estruturas de poeira localizadas no espaço profundo. As partículas das nuvens são continuamente trocadas e isso faz com que as nuvens estejam em constante mudança, sem assim perderem o caráter de antigas. 

Partículas de poeira ficam presas nas nuvens devido ao equilíbrio gerado pelos pontos de Lagrange e, posteriormente, escapam devido a discretos puxões provocados pela Terra ou pela Lua. Para repor o estoque de poeira, as nuvens buscam partículas interplanetárias em todos os tipos de fontes, incluindo eventos anuais como a chuva de meteoros Perseidas. Desta forma, ao passo que as partículas podem não ficar nas nuvens por muito tempo (considerando a cronologia astronômica), acredita-se que as nuvens existam desde o nascimento do sistema Terra-Lua.


Objetos cósmicos em movimento

Esses perigos em forma de poeira são como objetos cósmicos em movimento e podem acabar tendo certa relevância para a exploração futura do espaço. 

Por exemplo, certas missões espaciais envolvem estacionar satélites nos pontos de Lagrange, onde consumem menos combustível para se manter em órbita. Isso inclui o Telescópio Espacial James Webb, que deve aparecer no ponto de Lagrange L2 em algum momento na década de 2020. Agências espaciais também já fizeram planos para usar os pontos de Lagrange como estações de transferência em grandes estradas interplanetárias para missões a Marte, afirma o cientista Gábor Horváth

"A investigação da dinâmica das nuvens de Kordylewski pode muito bem se tornar relevante do ponto de vista da segurança da navegação no espaço", complementa ele. 

E se as hipóteses de Horváth e Slíz-Balogh estiverem certas, pode haver mais dessas nuvens de poeira itinerantes perseguindo a Terra, apenas esperando para serem descobertas em pontos de Lagrange vizinhos.


Partes do Fundo do Oceano Estão se Dissolvendo Rapidamente, diz estudo

A grande quantidade de carbono que os seres humanos emitem na atmosfera está sendo, em parte, absorvida pelos oceanos. Estudo mostra que os humanos são os grandes culpados pelo fenômeno.

Um estudo publicado no periódico Proceedings of National Academy of Sciences [Current CaCO3 dissolution at the seafloor caused by anthropogenic CO2] descobriu que as mesmas emissões de gases de efeito estufa que estão causando o aquecimento global também podem dissolver o fundo dos oceanos. Pesquisas apontam que em algumas regiões o fundo dos oceanos tende a derreter mais rápido do que em outras. 

O processo funciona da seguinte forma: o oceano absorve o carbono da atmosfera e acidifica a água. No fundo, onde a pressão é alta, essa água acidificada reage com o carbonato de cálcio proveniente de criaturas mortas, e a reação neutraliza esse carbono, originando então o bicarbonato. 

Ao longo dos milênios, essa reação tem sido uma maneira prática de armazenar carbono sem prejudicar a química do oceano. No entanto, nós queimamos muitos combustíveis fósseis, o que gerou mais carbono para as águas marinhas. 

De acordo com a NASA, cerca de 48% do excesso de carbono que os seres humanos despejaram na atmosfera foram absorvidos pelos oceanos. Isso significa 525 bilhões de toneladas de dióxido de carbono e carbonato de cálcio se misturando nas águas marinhas. Toda essa substância representa mais acidez no mar e, consequentemente, resulta em uma dissolução mais rápida do carbonato de cálcio do fundo dos oceanos. 

A fim de descobrir a rapidez que a humanidade acelera o processo de dissolução, pesquisadores estimaram uma provável taxa de dissolução em todo o mundo, usando dados de corrente de água, medições de carbonato de cálcio em sedimentos do fundo do mar e outros indicadores como a salinidade do oceano, bem como a sua temperatura. Eles compararam os resultados com dados da época da revolução industrial. 

As descobertas foram um misto de boas e más notícias: a boa é que a maioria das áreas dos oceanos ainda não mostra uma diferença dramática na taxa de dissolução de carbonato de cálcio antes e depois da revolução industrial. No entanto, existem vários lugares onde as emissões de carbono causadas pelo homem estão fazendo uma grande diferença. 

O ponto mais crítico é o Atlântico Norte ocidental onde, segundo a pesquisa, o carbono antropogênico é responsável por entre 40% e 100% de carbonato de cálcio dissolvido, uma camada de 300 metros de profundidade. O Oceano Índico e o Atlântico Sul também chamaram a atenção dos cientistas: nessas regiões, generosos depósitos de carbono aceleram a taxa de dissolução. 

A acidificação dos oceanos está ameaçando os corais e as criaturas marinhas de casca dura, como mexilhões e ostras, mas os cientistas ainda não sabem como isso afetará as muitas outras espécies que vivem no fundo do mar. 

Se eventos anteriores de acidificação são alguma indicação, a perspectiva não é muito boa. Cerca de 252 milhões de anos atrás, enormes erupções vulcânicas dispararam grandes quantidades de dióxido de carbono no ar, causando a rápida acidificação dos oceanos do mundo. Mais de 90% da vida marinha foi extinta durante esse período. 

Futuros geólogos poderão ver mudanças climáticas provocadas pelo homem nas rochas eventualmente formadas pelo leito oceânico de hoje. Alguns pesquisadores atuais já apelidaram essa era de Antropoceno, definindo-o como o ponto em que as atividades humanas começaram a dominar o meio ambiente.


Uma Forma de Reconhecer o Valor da Natureza

Para a nova economia avançar, será preciso incorporar o capital natural na estratégia das empresas. Foto: Keith Bremmer / Unsplash

Na Economia, o capital pode ser entendido como um conjunto de bens que geram produção, rendimentos e riquezas. Ao transpor essa linguagem para a natureza, chegamos à expressão "capital natural", usada para representar o estoque de recursos renováveis e não renováveis que se combinam e geram um fluxo de benefícios para as pessoas – como ar limpo, água fresca, abrigo, alimentos, regulação do clima, remédios, recreação e assim por diante. 

Para Herman Daly e Joshua Farley, autores de obras referenciais como Ecological Economics: Principle and Applications, capital natural significa o "estoque ou reserva provida pela natureza (biótica ou abiótica) que produz um valioso fluxo futuro de recursos ou serviços naturais”. Enquanto os ecossistemas são um exemplo de “estoque”, os serviços ecossistêmicos prestados pela natureza podem ser considerados como “fluxo". 

Conservar a natureza, por princípio, deveria ser uma prática incondicional, da qual não se espera nada em troca. Bastaria compreender que toda forma e estrutura de sustentação da vida são dignas de amor, respeito e proteção simplesmente pelo fato de existirem. Razões éticas e morais também seriam suficientes para justificar políticas de conservação. 

Mas, nos sistemas econômicos que veem a natureza como um conjunto de recursos a ser explorado ou sumidouro de recursos descartados em benefício da espécie humana, partindo de uma visão antropocêntrica, torna-se crucial reconhecê-la como um capital dotado de imenso valor que sustenta todos os demais – humano, social, financeiro, de infraestrutura etc. Esse reconhecimento passa a ser um forte argumento para que a natureza não seja espoliada, mas vista como oportunidade de gerar e distribuir ganhos econômicos e sociais. 

Atualmente uma importante fonte do conhecimento sobre capital natural são os trabalhos de sistematização de informação feitos pela iniciativa The Economics of Ecosystems and Biodiversity (TEEB), ou economia dos ecossistemas e da biodiversidade, liderada pelo economista Pavan Sukhdev e lançada em 2007 pela Alemanha e Comissão Europeia. O intuito é demonstrar a importância econômica da perda de biodiversidade e da degradação ecossistêmica, considerando os efeitos prejudiciais sobre o bem-estar humano. 

Quando trabalhava no setor financeiro nos anos 1990, Sukhdev ficou inconformado com a desconexão entre o notável desempenho econômico dos chamados Tigres Asiáticos, que levou à formação de fortunas pessoais, e a destruição a olhos vistos das bases naturais da economia (no final da década de 1990, a Ásia entraria em crise). 

"O Rio Amarelo ficou seco durante nove meses em 1997 e, em 1998, houve a enchente do Yang-tsé. Densas nuvens de fumaça vindas da queima de turfeiras na Sumatra prejudicaram a qualidade do ar em Cingapura, onde eu vivia. Mas as manchetes em todo mundo relatavam a crise financeira da Ásia, o colapso do mercado mobiliário da Tailândia, as manifestações na Indonésia, a desvalorização da moeda local na Malásia e sua substituição pelos controles de câmbio", escreveu Sukhdev no primeiro relatório TEEB

E, então, questionou: "Por qual motivo a riqueza pessoal é perseguida e sua perda é objeto de interesse, mas não a riqueza pública?". 

Segundo ele, percebia-se que, em algumas vezes, bastava o reconhecimento do valor intrínseco, espiritual ou social dos ecossistemas e da biodiversidade para estimular a formulação de políticas públicas. Mas, em outras situações, os formuladores de políticas precisavam antes demonstrar o valor econômico de um serviço para justificar práticas de conservação. 

Um exemplo clássico disso – ilustrado no capítulo 4 do relatório TEEB – foi a demonstração, por meio de números, de que conservar os mangues próximos à cidade de Kampala, capital de Uganda, seria mais vantajoso que usar as áreas para cultivo agrícola, pois os mangues agem como um tratamento natural do esgoto, economizando recursos em saneamento. 

Falando a mesma língua 

Seria mais eficaz, portanto, lançar mão das mesmas expressões usadas do modelo econômico e político dominante no mundo. Em outras palavras, falar a mesma língua do business as usual para apresentar novos paradigmas. 

Ainda hoje, o uso de expressões originárias da Economia, tais como capital natural, estoque, fluxo e recursos naturais, é criticado por algumas correntes ambientalistas e socioambientalistas. No entanto, valorar o capital natural é diferente de atribuir um caráter comercial. Não significa que a natureza esteja à venda, e sim que possui um valor tangível e, muitas vezes, intangível – que não pode ser monetizado, como o afetivo, o espiritual, o cultural. 

O problema de não reconhecer valores tangíveis e intangíveis é passar justamente um sinal contrário aos mais desavisados: de que os bens naturais são gratuitos e estão totalmente disponíveis para serem explorados por todos a qualquer momento, ampliando o risco de levá-los à exaustão. 

Fábio Scarano, coordenador do Painel Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ambientais (IPBES), alerta para o viés antropocêntrico que a expressão capital natural sugere e afirma que o desafio é saber manter bem separadas as noções de preço e de valor. "A natureza não tem preço", pontua. A seu ver, o risco de uma confusão entre esses conceitos cresce quando o capital natural é incorporado na gestão empresarial. 

Esse assunto é tratado no relatório TEEB, segundo o qual estabelecer um valor para os serviços ecossistêmicos não significa que devam ser convertidos em valores mobiliários, passíveis de troca no mercado aberto: "O TEEB não propõe uma confiança cega na capacidade dos mercados de otimizar o bem-estar social, privatizando os bens ecológicos e deixando que os mercados estabeleçam seus preços. O que o TEEB oferece são as ferramentas para a adoção da boa gestão por ser uma boa prática econômica". 

Em busca da melhor gestão 

Há motivos sobrando para se perseguir a melhor gestão empresarial, econômica e dos recursos naturais. Como mostra seguidamente o Dia de Sobrecarga da Terra, divulgado pelo WWF, a cada ano esgotamos os recursos mais rapidamente do que os sistemas naturais são capazes de regenerar no período de 12 meses, o que nos mantém em um explosivo cheque especial – para usar também uma expressão financeira. 

Enquanto isso, o capital financeiro cresce, em boa parte, às custas do uso, da exploração e da degradação dos capitais natural e humano, segundo a Natural Capital Coalition. Essa coalizão, que reúne organizações e especialistas sobre o tema em todo o mundo, produziu um protocolo, usado pelas empresas como guia de implementação de práticas ligadas ao capital natural. 

A Natural Capital Coalition lembra que toda empresa impacta e depende do capital natural em algum grau e, por conta disso, sofrerá riscos, mas também poderá se beneficiar de oportunidades. "Todos os impactos e dependências afetam não apenas os negócios, mas também a sociedade", afirma a coalizão. 

Com o intuito de investigar a importância que as empresas, no Brasil, dão ao capital natural e de que forma lidam com esse assunto em sua gestão, foi lançada em maio de 2018 a chamada de casos Gestão Empresarial de Capital Natural

Trata-se de uma iniciativa, inédita no Brasil, que nasceu da parceria entre o Ministério do Meio Ambiente (MMA), a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Cooperação Alemã para o Desenvolvimento Sustentável (GIZ), no âmbito do Projeto TEEB Regional-Local, com o Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV/Eaesp (FGVces). Contou também com o apoio da Fundação Grupo Boticário

O ideal é que a preocupação com o capital natural seja internalizada na estratégia e na gestão cotidiana da empresa. Ou seja, não basta ter um projeto isolado que busca a conservação do capital natural enquanto os negócios principais são movidos pela "velha economia". 

Esse é um risco alertado por Carlos Eduardo Frickmann Young, professor associado do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento. "No setor de agro, por exemplo, existem iniciativas muito bacaninhas de conservação, mas o grosso do investimento vai no sentido da ‘competitividade espúria’, como dizia o Fernando Fajnzylber", afirma. 

A mensagem de Young é para que as iniciativas empresariais de conservação do capital natural não sejam pontuais, e sim sistêmicas – especialmente considerando o contexto de "reprimarização" da economia brasileira como um todo. Essa tendência busca a competitividade a baixos custos, calcada fortemente em commodities, como grãos in natura e minério bruto, em geral com baixa criação de emprego e alta geração de externalidades negativas. 

Reflexos negativos ou positivos de uma atividade que são sentidos por aqueles que pouco ou nada contribuíram para gerá-los. No caso de externalidades negativas, os prejuízos impostos à sociedade não são arcados por aqueles que os provocam, e sim pagos por todos. 

Segundo ele, o fenômeno da reprimarização intensificou-se nas últimas duas décadas (ver gráfico abaixo) e é protagonizado por setores que muitas vezes tentam se libertar do que veem como amarras do ponto de vista ambiental, como controle de agrotóxicos, condicionantes de licenciamento e combate ao desmatamento. 

Sem que as empresas incorporem o capital natural em suas estratégias de gestão, será muito difícil o país avançar na agenda do desenvolvimento sustentável. Reconhecer as que inserem o capital natural em sua estratégia de negócios é a grande motivação desta edição

Evolução do PIB Trimestral por atividade, 1996-2018 (média de 1996 = 100)

Por: Amália Safatle (Página 22).