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O Que é o 'QA' e Por Que Ele Pode Ser Mais Importante Que o 'QI' no Mercado de Trabalho?

Há algum tempo, se você quisesse avaliar as perspectivas de alguém crescer na carreira, poderia considerar pedir um teste de QI, o quociente de inteligência, que mede indicadores como memória e habilidade matemática. 

Mais recentemente, passaram a ser avaliadas outras letrinhas: o quociente de inteligência emocional (QE), uma combinação de habilidades interpessoais, autocontrole e comunicação. Não só no mundo do trabalho, o QE é visto como um kit de habilidades que pode nos ajudar a ter sucesso em vários aspectos da vida. 

Tanto o QI quanto o QE são considerados importantes para o sucesso na carreira. Hoje, porém, à medida que a tecnologia redefine como trabalhamos, as habilidades necessárias para prosperar no mercado de trabalho também estão mudando. Entra em cena então um novo quociente, o de adaptabilidade (QA), que considera a capacidade de se posicionar e prosperar em um ambiente de mudanças rápidas e frequentes. 

"O QI é o mínimo que você precisa para conseguir um emprego, mas a QA é indicador de sucesso a longo prazo", diz Natalie Fratto, vice-presidente da Goldman Sachs em Nova York que se interessou pelo QA enquanto investia em novas empresas de tecnologia. Depois, ela apresentou uma palestra popular na plataforma TED sobre o assunto. 

Fratto diz que o QA não é apenas a capacidade de absorver novas informações, mas de descobrir o que é relevante, deixar para trás noções obsoletas, superar desafios e fazer um esforço consciente para mudar. Esse quociente envolve também características como flexibilidade, curiosidade, coragem e resiliência. 

À medida que a sociedade muda, o QA pode se tornar mais importante do que o QI? Em caso afirmativo, como identificar e aprimorar o seu QA?

Adaptação ou obsolescência

Amy Edmondson, professora de Administração da Harvard Business School, diz que é a velocidade vertiginosa das mudanças no mercado de trabalho que fará o QA vencer o QI.

A tecnologia mudou bastante a forma como alguns trabalhos são feitos, e a tendência continuará — nos próximos três anos, 120 milhões de pessoas nas 12 maiores economias do mundo possivelmente precisarão ser recolocadas por causa da automação, de acordo com um estudo da IBM deste ano. 

Qualquer função que envolva detectar padrões nos dados — advogados revisando documentos legais ou médicos buscando o histórico de um paciente, por exemplo — é fácil de se automatizar, diz Dave Coplin, diretor da The Envisioners, consultoria de tecnologia sediada no Reino Unido. Isso ocorre porque um algoritmo pode executar essas tarefas com mais rapidez e precisão do que um humano. 

Para evitar a obsolescência, os trabalhadores que cumprem essas funções precisam desenvolver novas habilidades, como a criatividade para resolver novos problemas, empatia para se comunicar melhor e responsabilidade. Ou seja, usar a intuição humana para complementar o trabalho das máquinas: "Se algo pode fazer 30% das tarefas que eu costumava fazer, o que posso fazer com essa lacuna não utilizada? Os vencedores são aqueles que escolhem fazer coisas que outros não conseguem." 

Edmondson diz que toda profissão vai exigir adaptabilidade e flexibilidade, do setor bancário às artes. Digamos que você seja um contador. Seu QI te ajuda nas provas pelas quais precisa passar para se qualificar; seu QE contribui na conexão com um recrutador e depois no relacionamento com colegas e clientes no emprego. Então, quando os sistemas mudam ou os aspectos do trabalho são automatizados, você precisa do QA para se acomodar a novos cenários. 

Todos os três quocientes são um tanto complementares, pois todos ajudam a resolver problemas e, portanto, a se adaptar, aponta Edmondson. Um candidato ideal possui todos os três, mas nem todos são assim. 

"Existem gênios rígidos", diz ela. 

Ter QI, mas nenhum QA, pode ser um bloqueio para as habilidades existentes diante de novas maneiras de trabalhar.

Perguntando-se "e se" 

No mundo corporativo, o QA está sendo cada vez mais buscado na hora da contratação. De acordo com o estudo da IBM, 5.670 executivos em todo o mundo classificaram as habilidades comportamentais como as mais críticas para a força de trabalho atualmente, e a principal delas era a capacidade "de ser flexível, ágil e adaptável à mudança". 

Will Gosling, líder em consultoria de capital humano da Deloitte no Reino Unido, diz que não há um método definitivo para medir a adaptabilidade como um teste de QI, mas as empresas acordaram para o valor do QA e estão mudando seus processos de recrutamento para identificá-lo nas pessoas. 

A Deloitte, por exemplo, tem feito simulações online com candidatos em que eles são avaliados quanto à sua adaptabilidade; um dos testes pede que a pessoa mostre como estimularia colegas relutantes a se juntar à equipe de triatlo da empresa. A Deloitte também procura contratar pessoas que demonstraram ter bom desempenho em diferentes funções, setores ou locais de trabalho. 

Fratto, da Goldman Sachs, sugere três formas pelas quais o QA pode se manifestar em possíveis candidatos: se eles podem imaginar versões do futuro fazendo perguntas "e se"; se podem desaprender informações para desafiar pressupostos; e se gostam de explorar ou buscar novas experiências. 

Ela diz que essa não é uma receita definitiva para o QA, mas os recrutadores devem fazer esse tipo de pergunta para buscar evidências dessa habilidade nos candidatos. Na verdade, ela coloca essas questões aos líderes das empresas de tecnologia que estão pleiteando seu investimento. 

'Missão crítica' 

Uma coisa boa do QA é que, mesmo que seja difícil mensurá-lo, especialistas dizem que ele pode ser desenvolvido. 

Penny Locaso, fundadora da BKindred, empresa australiana da área da educação que trabalha com o valor da capacidade de adaptação, diz que algumas pessoas têm personalidades mais curiosas ou corajosas, o que pode explicar por que são naturalmente melhores em se adaptar do que outras. 

"No entanto, se a pessoa não continuar a surfar até o limite do desconforto, a adaptabilidade com a qual nasceu pode diminuir com o tempo." 

Ela sugere três maneiras para aumentar a adaptabilidade: primeiro, limite as distrações e aprenda a se concentrar no mapeamento das adaptações que devem ser feitas; em seguida, faça perguntas desconfortáveis, como pedir um aumento salarial, para desenvolver coragem e normalizar o medo; terceiro, estimule sua curiosidade por coisas fascinantes e busque respostas sobre elas em conversas com outras pessoas, em vez do Google — hábito atual que "faz com que nosso cérebro seja preguiçoso" e diminui nossa capacidade de resolver desafios difíceis. 

Otto Scharmer, professor da Sloan School of Management no MIT, que escreveu livros sobre o aprendizado no futuro emergente, sugere outros métodos. Em uma palestra no TED, ele recomenda permanecer aberto a novas possibilidades, tentando ver uma situação através dos olhos de outra pessoa e reduzindo seu ego para que possa se sentir confortável com o desconhecido. 

Uma coisa que sabemos é que os locais de trabalho do futuro funcionarão de maneira diferente. Podemos nem todos estar à vontade com o ritmo da mudança, mas podemos nos preparar. 

Como diz Edmondson: "Aprender a aprender é uma missão crítica. A capacidade de aprender, mudar, crescer, experimentar se tornará muito mais importante do que o domínio de um assunto."

Por: Seb Murray (BBC Worklife).

Materiais Magnéticos Mostram Potencial Para Tratar Derramamento de Petróleo

Pesquisadores da Unifesp e da UFSCar combinam minerais magnéticos e resíduos de biomassa para formar partículas capazes de remover petróleo pesado e óleos leves da superfície da água com alta eficiência. Imagem: Unifesp.

Pesquisadores das universidades federais de São Paulo (Unifesp) e de São Carlos (UFSCar) estão desenvolvendo materiais magnéticos que poderão auxiliar na remoção de petróleo cru da superfície da água em casos de derramamentos como o que atingiu as praias do litoral brasileiro este ano. 

Em testes de laboratório, esses materiais híbridos – compostos por partículas ferromagnéticas em escala nanométrica (da bilionésima parte do metro) e resíduos de biomassa – mostraram ser capazes de remover petróleo bruto e outros tipos de óleo, como de motor de navios, com mais de 80% de eficácia. 

Os resultados do projeto da Unifesp, desenvolvido com apoio da FAPESP, serão testados em experimentos de campo no Ceará. O objetivo é avaliar a eficiência do material na remoção do óleo presente nas praias do estado nordestino. 

"Essas partículas nanomagnéticas permitem não só a limpeza das praias como também a recuperação do petróleo pelas empresas no caso de vazamentos. Outra vantagem é que são ambientalmente amigáveis, pois são feitas de compostos naturalmente encontrados na natureza", disse à Agência FAPESP, Geórgia Labuto, professora da Unifesp, campus de Diadema

As partículas desenvolvidas pelo grupo da Unifesp reúnem em sua composição magnetita (um mineral magnético) e resíduo de biomassa de levedura proveniente de processos de fermentação na indústria de etanol. A associação dá origem a bionanocompósitos – materiais híbridos com escala nanométrica e obtidos de fontes renováveis – e, segundo os pesquisadores, permite reduzir o custo de produção do material e aumentar a quantidade de óleo que pode ser removida. 

Isso porque ao depositar as partículas de magnetita sobre a superfície da biomassa foi possível manter a propriedade magnética e, ao mesmo tempo, aumentar a área superficial de contato entre o material magnético e o óleo. 

"Além de contribuir para a economia, os resíduos agroindustriais permitem produzir uma massa maior de material magnético com menor quantidade de reagentes. Ao aplicar um campo magnético em um meio aquoso em que essas partículas estão dispersas é possível removê-las junto com um fluido aderido a elas, como o petróleo", explicou a pesquisadora.

Capacidade de remoção 

Em um estudo publicado no Journal of Environmental Management, os pesquisadores avaliaram a capacidade dos bionanocompósitos de remover da água manchas de óleo de motor novo, usado e de petróleo com grau API 28 º – classificado como óleo leve e de alto valor comercial segundo escala criada por American Petroleum Institute e National Bureau of Standards (quanto maior a densidade do óleo, menor o grau API). 

Os resultados indicaram que o material foi capaz de remover, após o contato de dois minutos, entre 55% e 89% da quantidade de petróleo e de óleo de motor novo e 69% do óleo de motor usado presente nas amostras. 

Os pesquisadores também constataram que a remoção desses compostos da água pelo material é um fenômeno predominantemente físico, em que a força de atração exercida por um campo magnético, como o produzido por um ímã, é tão intensa que arrasta as partículas e, consequentemente, o óleo aderido à sua superfície. 

No caso de derramamentos, a ideia dos pesquisadores é usar as partículas para remover o petróleo bruto após o óleo ter sido retirado da superfície da água por skimmers – uma espécie de esteira acoplada ao navio que carrega o óleo derramado no mar misturado com água e detritos para o interior da embarcação. 

"Nosso objetivo é usar o material para coletar o óleo já recolhido e separá-lo da água", afirmou Labuto

O grupo de pesquisadores da Unifesp também tem usado cortiça em pó para desenvolver os bionanocompósitos. 

Em outro estudo, também publicado no Journal of Environmental Management, foi avaliada a eficácia dos dois tipos de partículas – um com biomassa de levedura e outro com cortiça em pó – na remoção de petróleo com diferentes graus API, incluindo óleos pesados (API 10) e leves (API 45) da superfície de água doce e marinha, com e sem agitação da superfície aquosa. 

Os nanomateriais magnéticos expostos ao óleo na água foram retirados por um ímã de neodímio. 

Os resultados das análises indicaram que os nanocompósitos magnéticos de biomassa de levedura apresentaram taxas de recuperação de óleo mais altas. Além disso, a remoção do óleo por esse material magnético aumenta à medida que o API diminui. Dessa forma, é possível prever a quantidade possível de ser recuperada de acordo com a densidade. 

"Quanto maior o grau API, mais leve e maior o valor comercial do petróleo", explicou Labuto

Variando a massa de bionanocompósito, foi possível remover 100% de todos os tipos de petróleo estudados, independentemente do grau API. 

"Os compósitos magnéticos podem ser usados em vários ciclos de remoção de óleo, antes da recuperação, e ainda após a recuperação, uma vez que mantêm suas propriedades magnéticas", ressaltou Labuto

Outros materiais 

Outro grupo de pesquisadores da UFSCar tem desenvolvido, no âmbito de um projeto de pós-doutorado apoiado pela FAPESP, matrizes híbridas nas formas de pó e membrana, compostas de ferrita de cobalto também em escala nanométrica. 

Os pós foram sintetizados usando resíduos de mesocarpo de coco, bagaço de cana, serragem e aguapé. Já as membranas foram preparadas usando polímero polietersulfona. 

Em um estudo também publicado no Journal of Environmental Management, em colaboração com colegas da Universidade Federal de Sergipe (UFS), os pesquisadores avaliaram em laboratório a eficácia da remoção de petróleo bruto pesado da superfície da água por atração magnética desses materiais. 

Os resultados das análises indicaram que o material na forma de pó à base de bagaço de cana apresentou maior eficiência na remoção do óleo, com capacidade de adsorção de 85%, e que isso pode ser atribuído à natureza fibrosa da matéria-prima usada. 

Já as membranas foram capazes de remover uma quantidade de óleo equivalente a 35 vezes a sua massa. 

Quando os dois materiais foram usados simultaneamente, foi possível remover uma quantidade de óleo equivalente a 35 vezes a sua massa e aumentar a capacidade de adsorção do pó à base de bagaço de cana em 23%. 

Essa alta capacidade de adsorção está relacionada a uma barreira de retenção formada pelo material em pó, que impediu a propagação da mancha de óleo e permitiu sua remoção homogênea, destacaram os autores. 

"Também observamos que a distribuição das nanopartículas de ferrita de cobalto nos resíduos de biomassa aumentou a velocidade de remoção do óleo", disse Caio Marcio Paranhos da Silva, professor da UFSCar e coordenador do projeto. 

"Os materiais foram capazes de remover o óleo da superfície da água das amostras em apenas dois segundos", afirmou. 

Por meio de um estágio de pesquisa na Universidade de Aveiro, em Portugal, também com apoio da FAPESP, o pós-doutorando José Arnaldo Santana Costa, supervisionado por Paranhos, pretende agora incorporar nanopartículas de ferrita de cobalto em uma partícula obtida a partir de casca de arroz que desenvolveu durante seu doutorado . 

O objetivo é produzir uma nova membrana capaz de remover não só óleo cru da superfície da água como também hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs). Dessa forma, seria possível não só remover o petróleo pesado de derramamentos, mas também diminuir sua toxicidade. 

"Essas substâncias, que estão presentes no óleo pesado, são muito tóxicas, têm potencial carcinogênico e representam um grande risco para as pessoas que têm se voluntariado a remover o petróleo das praias do Nordeste sem proteção adequada", disse Silva. 

O artigo Oil spill cleanup employing magnetite nanoparticles and yeast-based magnetic bionanocomposite (DOI: 10.1016/j.jenvman.2018.09.094), de Karina B. Debs, Débora S. Cardona, Heron D.T. da Silva, Nashaat N. Nassar, Elma N.V.M. Carrilho, Paula S. Haddad e Geórgia Labuto, pode ser lido em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0301479718311046

O artigo A comparison study of cleanup techniques for oil spill treatment using magnetic nanomaterials (DOI: 10.1016/j.jenvman.2019.04.106), de D.S. Cardona, K.B. Debs, S.G. Lemos, G. Vitale, N.N. Nassar, E.N.V.M. Carrilho, D. Semensatto e G. Labuto, pode ser lido em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0301479719305730

E o artigo Removal of heavy crude oil from water surfaces using a magnetic inorganic-organic hybrid powder and membrane system (DOI: 10.1016/j.jenvman.2019.06.050), de Graziele da Costa Cunha, Nalbert C. Pinho, Iris Amanda Alves Silva, José Arnaldo Santana Costa, Caio M.P. da Silva e Luciane P.C. Romão, pode ser lido em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0301479719308527.

Por: Elton Alisson (Agência Fapesp). 

Big Data: Fechando a Lacuna da Informação Ambiental

A disponibilidade de dados de qualidade é essencial para monitorar impactos e resolver os problemas ambientais. Por outro lado, as análises de serviços ecossistêmicos, cada vez mais utilizadas para fazer frente aos desafios da gestão ambiental, frequentemente, contêm uma grande quantidade de dados, o que requer informação de múltiplos setores, em diferentes escalas, com propriedades espaciais e temporais. Infelizmente, a coleção de dados primários resulta no custo e no trabalho, e em consequência em informação escassa. 

Porém, quando existem dados secundários disponíveis, estes podem vir de indústrias e ministérios com diferentes protocolos de intercâmbio e armazenamento que limita o acesso à informação. Do outro lado, o manejo, análise e visualização de dados pode requerer certo nível de especialização, assim como um software próprio. Isso limita a capacidade das instituições em valorizar serviços ecossistêmicos e de como seu fornecimento ou qualidade poderiam mudar diferentes decisões de desenvolvimento e planejamento no cenário de mudanças climáticas. 

Ao mesmo tempo, os telefones celulares, internet e as redes sociais estão se expandindo rapidamente na América Latina e Caribe. Mais da metade da população da região está conectada e o serviço de internet móvel está crescendo com rapidez. Brasil, México e Argentina são alguns dos maiores mercados do Facebook a nível mundial. Além disso, os usuários da rede social desses país recorrem a ela de maneira ativa e constante. As novas tecnologias geraram grandes quantidades de dados que estão frequentemente à disposição do público, proporcionando um rico recurso para a evolução de inúmeras questões ambientais. Por outro lado, as ferramentas de código aberto e inovação tecnológica estão criando novas formas para compartilhar e manipular esses dados para os setores público e privado, assim como para a sociedade civil. 

Estes avanços representam uma grande oportunidade para mitigar o problema da disponibilidade de dados nos projetos de biodiversidade e serviços ecossistêmicos. Por exemplo, o software de código aberto, como o criado pelo Natural Capital ProjectAvaliação Integrada de Serviços Ecossistêmicos e Compensações (InVEST sigla em inglês), pode ser usado na criação de mapas e na avaliação dos serviços que a natureza oferece à população com a finalidade de informar aos tomadores de decisões. 

De outra maneira, os hackers do bem estão focados em melhorar a gestão de risco de desastres, e encontram ferramentas da web disponíveis para avaliar a vulnerabilidade das inundações e o desmatamento a nível mundial. No que diz respeito às "cidades inteligentes", são utilizados dados de celulares, sensores remotos e outras tecnologias para melhorar o planejamento do transporte e a resposta frente às emergências. 

O enfoque particularmente inovador para o uso de grandes volumes de dados pode se encontrar no setor de turismo, que está estritamente vinculado com o capital natural (as espécies endêmicas e os ecossistemas únicos atraem turistas como diversos especialistas em aves; enquanto os serviços ecossistêmicos, como por exemplo, a proteção costeira e o fornecimento de água, apoiam a infraestrutura dos serviços turísticos). Os pesquisadores do Natural Capital Project estão usando uma grande quantidade de dados a fim de entender melhor a relação entre os diferentes atrativos naturais, os lugares e as formas em que os turistas decidem gastar seu dinheiro. Esta informação pode aliviar a degradação ambiental (ou manter a conservação) que tem um impacto dos benefícios econômicos gerados pelo setor de turismo. 

Igualmente, este enfoque recoloca a informação sobre os lugares de destino e procedência dos turistas por meio de fotos geomarcadas. As análises realizadas a esta nova e enorme fonte de informação mostram que os dados do Flickr, disponíveis de maneira gratuita, podem ser indicadores confiáveis das taxas aproximadas de visitas e que se utilizam de diversas análises estatísticas. Esta aproximação já tem sido empregada para demonstrar o valor recreativo da mudança climática na qualidade de água dos lagos: uma água mais limpa atrai um número maior de visitantes e, de igual maneira, as pessoas estão dispostas a viajar mais em busca de água de melhor qualidade. 

O caso do programa BIO, com a ajuda dos pesquisadores do Natural Capital Project, estão usando fotos geomarcadas com o objetivo de entender a dinâmica e a atividade turística na ilha Andros, nas Bahamas, como parte de uma análise de serviços ecossistêmicos para informar e apoiar um masterplan (projeto arquitetônico) na ilha. Pode-se dizer que a atividade turística é o elemento mais importante para o crescimento atual e o futuro do lugar. Portanto, entender como os planos de desenvolvimento afetam os recursos naturais da ilha e, posteriormente, ao turismo é essencial para a tomada de decisões sustentáveis com respeito ao crescimento econômico da ilha. 

Dada a velocidade exponencial das mudanças tecnológicas, será estratégico usar o poder dos "Grandes Dados" (Big Data) para melhorar nossa capacidade de valorizar a natureza e incorporar esses valores nas tomadas de decisões e de planejamento.

Por: Kelsey Schueler. Especialista em recursos costeiros e marinhos; mestre em Política Ambiental Internacional pelo Instituto de Estudos Internacionais de Middlebury, em Monterey; e é bacharel em Política pela Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill. Fonte: BID.

R$ 7 Trilhões Por Ano: Os Estudos Que Tentam Calcular Quanto a Amazônia, Em Pé, Rende ao Brasil

Quanto vale a Amazônia? Ou melhor, quanto custariam, para o Brasil, os serviços que ela nos oferece gratuitamente?

A Amazônia brasileira possui hoje 340 milhões de hectares de floresta ainda intacta. Ocupando quase a metade do território brasileiro, ela é objeto de debates inflamados entre os que desejam protegê-la, conservá-la e "monetizá-la". 

Em entrevista recente à BBC News Brasil, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse que a Amazônia só será preservada se forem encontradas "soluções capitalistas" que deem dinamismo econômico para a floresta e gerem renda para os cerca de 20 milhões de brasileiros que habitam a região. 

Seguindo essa lógica — a de que é preciso fazer a Amazônia "render" dentro do sistema capitalista —, economistas e ecólogos vêm, há algumas décadas, tentando calcular o valor monetário dos serviços que o meio ambiente oferece aos humanos. 

Eles dizem que com isso querem, primeiro, abrir um diálogo com as várias correntes de pensamento usando uma linguagem que todos entendem: o cifrão. Segundo, querem mostrar que a natureza (e nesta reportagem, a floresta) não é um patrimônio "que está ali à toa, fazendo nada". Já contribui muito para a economia do planeta. 

Terceiro, os pesquisadores propõem que os estudos sirvam como ponto de partida para decisões futuras. 

No caso da Amazônia, a ideia é que esses estudos auxiliem os brasileiros na busca de atividades econômicas sustentáveis baseadas em um conhecimento profundo do potencial da floresta. Para que ela renda ainda mais dólares — em pé. 

Isso não é sonho mirabolante e já foi feito antes, eles argumentam. No auge do ciclo da borracha, a floresta contribuía com mais de um terço das exportações brasileiras e rivalizava com a lavoura do café no período — sem que uma árvore fosse derrubada. 

Estudo mundial e estudo brasileiro 

Em particular, dois estudos revelam números surpreendentes sobre a contribuição financeira atual da Floresta Amazônica para o Brasil. 

Um deles é o estudo global macroeconômico Changes in the Global Value of Ecosystem Services, liderado pelo americano Robert Constanza, professor da Crawford School of Public Policy da Universidade Nacional da Austrália e pioneiro em estudos de precificação dos serviços oferecidos pela natureza. 

Publicado em 2014, esse estudo — que atualiza um trabalho anterior do especialista — calcula o valor de diferentes tipos de biomas, entre eles, as florestas tropicais. Segundo os cálculos, a Amazônia brasileira rende ao país (e ao mundo) cerca de US$ 1,83 trilhão (R$ 7,67 trilhões) por ano em valor bruto. 

O segundo estudo, Valoração Espacialmente Explícita dos Serviços Ecossistêmicos da Floresta Amazônica Brasileira, publicado em novembro de 2018, foi liderado pelo modelador ambiental Britaldo Soares Filho, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e realizado em parceria com o Banco Mundial. A equipe, integrada por pesquisadores de várias universidades brasileiras, precificou, em valores líquidos, um pequeno número de serviços que a Amazônia oferece. 

O estudo concluiu, por exemplo, que o valor somado de diferentes serviços pode chegar, em determinadas áreas, a US$ 737 (R$ 3 mil) por hectare por ano. Esse valor é muito superior à renda gerada pela pecuária de baixa produtividade praticada na Amazônia — cerca de US$ 40 (R$ 167) por hectare por ano, segundo os pesquisadores. 

A BBC News Brasil contactou pesquisadores envolvidos nesses estudos. A seguir, vamos destacar alguns dos números encontrados. 

US$ 1,83 trilhão por ano: contribuição anual da Amazônia

Robert Constanza iniciou suas pesquisas em precificação de serviços ecossistêmicos e praticamente criou, no final da década de 1990, uma nova disciplina, a Economia Ecológica. 

O cientista não é pouco ambicioso. Em 1997, decidiu calcular o valor total dos serviços ecossistêmicos do planeta. Entre eles, regulação climática, gestão da água, controle da erosão, polinização, controle biológico, fornecimento de alimentos, combustíveis e fibras, serviços culturais e recreativos. 

O valor obtido foi US$ 33 (R$ 138) trilhões (em 1997), atualizado, no estudo de 2014, para US$ 125 (R$ 524) trilhões por ano. Coloquemos esse número em contexto: em 1997, o PIB mundial era US$ 18 (R$ 75) trilhões; em 2014, US$ 80 (R$ 335) trilhões. 

O trabalho de Constanza é polêmico, e ele recebe críticas de todos os lados. Os economistas questionam suas metodologias. "Como é possível que a natureza valha mais do que o PIB mundial?", perguntam. 

Já os ecologistas dizem que o cálculo é inútil, porque a natureza não pode ser reduzida a cifrões. Sem ela, não haveria vida humana. Seu valor, portanto, tem de ser infinito, argumentam. 

Mas o pesquisador se defende explicando que seus cálculos são apenas estimativas, cujo objetivo é permitir que países façam sua própria contabilidade. Que percebam que aquela área de floresta, de pântano ou de caatinga que aparentemente está inerte não é patrimômio parado. 

Em uma palestra, um integrante da equipe de Constanza — o geógrafo Paul Sutton, da Universidade de Denver, nos Estados Unidos — explicou: 

"Queremos que as pessoas tenham estimativas confiáveis dos benefícios que recebemos da natureza, e na moeda que todo mundo entende: o dólar." 

"Nós concordamos, a natureza é infinitamente valiosa. Mas não a tratamos como tal", disse. "Estamos tratando a natureza como se o seu valor fosse zero." 

Precificando a polinização: metodologias

Para fazer seus cálculos, a equipe de Constanza combinou múltiplos métodos e milhares de estudos publicados por cientistas de todo o mundo. 

Para estimar o valor da polinização, por exemplo, o raciocínio foi o seguinte: 

"Se tivéssemos de substituir a polinização feita pelas abelhas por trabalho humano, para polinizar manualmente a lavoura, o custo seria US$ 200 (R$ 838) bilhões por ano", disse Sutton. Portanto, ele explicou, o valor da polinização é o custo que é evitado quando as abelhas fazem esse serviço para nós, gratuitamente. 

Para calcular o valor de serviços como a produção de combustíveis e alimentos, a equipe simplesmente usou os valores de mercado desses serviços. 

O efeito protetor dos manguezais de Fukushima 

Manguezais, como os que estão sendo ameaçados pelo vazamento de óleo no Nordeste brasileiro, prestam serviços valiosíssimos. "Sabemos que os manguezais evitam que marés adentrem e destruam parte das cidades em dias de ressaca", disse o professor de Ecologia Jean Paul Metzger, do Instituto de Biociência da Universidade de São Paulo, USP, à BBC News Brasil. 

"Para Constanza, a pergunta foi: qual seria o prejuízo que teríamos se não houvesse o manguezal?". Para responder a essa pergunta, a equipe estudou o acidente na usina nuclear de Fukushima, no Japão, em 2011. 

"Eles perceberam que o fato de você ter a proteção dos mangues dá uma super-segurança para as usinas. Havia situações com e sem mangue. Foi justamente assim [fazendo a comparação] que eles avaliaram o prejuízo que [o vazamento das usinas] tiveram pela ausência do mangue." 

Em 2014, Robert Constanza revisou o valor dos manguezais. 

"O valor dos mangues aumentou muito", disse Metzger. "São US$ 194 mil (R$ 813 mil) por hectare ao ano." 

Já as florestas tropicais, segundo o estudo de Constanza, podem gerar benefícios estimados em US$ 5,4 mil (R$ 22,5 mil) por hectare/ano. 

Estudo Brasileiro: um mapa dos tesouros da Amazônia 

Mas o estudo de Constanza não leva em conta as especificidades de cada floresta tropical. Ele oferece apenas um valor médio global. E a Floresta Amazônica é única em vários aspectos. Por exemplo, ela é a mais biodiversa do planeta, segundo especialistas. 

Entra em cena o estudo brasileiro, o mais importante desse tipo já feito no país, publicado na prestigiosa revista Nature Sustainability. 

O estudo Valoração Espacialmente Explícita dos Serviços Ecossistêmicos da Floresta Amazônica Brasileira investiga exclusivamente a porção brasileira da Amazônia e precifica, com maior precisão, um número menor de serviços que ela oferece à economia do Brasil — produção de alimentos (castanha-do-pará), produção de matérias-primas (borracha e madeira sustentável), mitigação dos gases do efeito estufa (absorção e retenção do carbono) e regulação climática (produção de chuva e energia hidrelétrica). O estudo também mapeia a biodiversidade da Amazônia, embora sem precificá-la. 

Segundo seus autores, a ideia era criar uma espécie de ferramenta, um mapa que ajudasse tomadores de decisão a desenhar políticas de preservação e uso sustentável dos recursos da floresta. 

"O estudo avalia o potencial hoje da floresta de gerar valor econômico em termos líquidos", disse à BBC News Brasil um de seus autores, o professor da UFMG Raoni Rajão, especialista em gestão ambiental e validação econômica. 

Crucialmente, os vários gráficos e tabelas apontam as áreas em que as autoridades deveriam intervir com maior urgência para evitar a perda de valiosos serviços e produtos florestais que — os pesquisadores ressaltam — beneficiam toda sociedade. 

Trata-se das áreas em que os serviços prestados podem alcançar o valor mais alto estimado, US$ 737 por hectare por ano. 

Ou, fazendo o raciocínio inverso... 

"O desmatamento nessas áreas pode gerar prejuízos de até US$ 737 por hectare por ano", explicou Rajão. 

Os pesquisadores explicam que, nessas regiões, os valores são altos porque, ali, vários serviços se combinam: produção de alimentos e de matérias-primas e também serviços indiretos, como regulação climática e absorção do carbono. 

Segundo Rajão, essas são também as áreas sob maior risco de ocupação ilegal e desmatamento para a pecuária de baixa produtividade (a mais prevalente na Amazônia). 

Isso não é coincidência, explicou. As terras mais valiosas identificadas são as áreas da Amazônia onde o acesso é mais fácil. Por serem de fácil acesso, são também as mais viáveis economicamente. Estamos falando de terras próximas de estradas, de rios e próximas de outras áreas já desmatadas. 

Se é assim, então por que não sair abrindo estradas para aumentar a rentabilidade de toda a Amazônia? — você talvez esteja se perguntando. 

Porque estradas atraem assentamentos ilegais e mais desmatamento, explicou o pesquisador. E isso pode ter consequências catastróficas para a Amazônia. 

Funciona desta forma: a floresta tropical é capaz de gerar sua própria umidade. Mas a floresta desmatada e degradada produz menos umidade, pega fogo mais facilmente, perde a função de transportadora e retentora de umidade. Isso gera um efeito cascata que se alastra por toda a floresta, disse Rajão. 

"Quando você degrada a floresta, você faz com que áreas que não foram desmatadas também se ressequem".

"Então, se fizermos isso [se sairmos rasgando a floresta com estradas], chegaremos ao que os cientistas chamam de 'tipping point'. Um limite de destruição após o qual a floresta inteira morre". 

US$ 737 (estudo brasileiro) X US$ 5.382 (estudo global) 

De volta aos estudos de precificação, como explicar a discrepância tão grande entre os valores encontrados pelos dois estudos? 

Nesse ponto, é preciso lembrar que o estudo de Robert Constanza estimou o valor somado de todos os serviços realizados por florestas tropicais.

O estudo brasileiro mediu apenas quatro serviços da Amazônia. Ficaram de fora, além da biodiversidade, serviços de recreação e turismo, retenção de nutrientes, proteção contra inundações, produção de alimentos pela pesca e benefícios à saúde, entre vários outros. 

Outra diferença: o estudo global traz valores brutos, o brasileiro, valores líquidos. 

E porque buscou valores precisos, o estudo brasileiro acabou trazendo resultados bastante conservadores, explicou Rajão. Tudo aquilo que não pôde ser comprovado na ponta do lápis acabou ficando fora da conta. 

Ainda assim, colocado em contexto na realidade do Brasil, US$ 737 por hectare é um valor altíssimo, explicou o pesquisador. Ele usa os números da pecuária para efeito de comparação. 

"Muitos acham que, se você tira a floresta e põe gado, o valor anual daquele hectare, que era zero, vai passar a fornecer, em média, US$ 40 por hectare", disse. 

"Porém ao considerar todos os serviços e produtos fornecidos pela floresta, vemos que, na verdade, teremos uma perda para sociedade de até U$S 700 [dependendo da área], já considerando o lucro com a pecuária. Acontece que, quanto mais próxima de estradas, e quanto mais ameaçada é a terra, maior é também seu valor potencial para a exploração de produtos madeireiros e não madeireiros — isso porque os custos de transporte são menores". 

Mudança de mentalidade

Nosso estudo informa sobre as alternativas, disse o especialista. 

"Manter [a floresta] protegida produz para a economia até US$ 737 [R$ 3 mil] por hectare por ano. Se você põe pecuária, gerará em média apenas US$ 40 [R$ 167] por hectare ano." 

E oferece um "mapa da mina" da bioeconomia da Amazônia. 

"Com isso, esperamos que os criadores de políticas públicas e o setor privado deixem de ver a floresta como um obstáculo para o desenvolvimento", disse Rajão. "E que a vejam como uma infraestrutura verde crucial para o bem estar e crescimento econômico do país." 

Mineração e soja 

Até agora, os valores encontrados pelo estudo foram comparados aos ganhos da pecuária na Amazônia. Mas por que fazer a comparação com a pecuária, e não com a mineração — atividade favorecida pelo governo? 

"Mais do que 80% das áreas convertidas são para a pecuária, então a comparação é, sim, com a pecuária", argumentou. 

Segundo Rajão, o problema da mineração não é tanto a área minerada. 

"Em teoria, [a mineração] poderia ser até um caminho para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. O problema é que, primeiro, você tem de construir uma estrada até lá. E a gente sabe que 90% do desmatamento acontece a menos de 5 km da estrada". 

"Então, só ao rasgar a floresta, você já gera toda uma dinâmica de desmatamento para pôr pecuária. E você também atrai muita população. Quando você constrói essas megaobras, atrai dezenas de trabalhadores e, depois que terminam a obra, parte deles continua ali. Essa é uma população que depois também vai desmatar. Vai comprar as áreas griladas para a pecuária e se fixar ali". 

Então não vale a pena desmatar para mineração e pecuária, dizem os cientistas. Mas e a soja? 

"Grande parte das áreas desmatadas na Amazônia não tem condição de receber agricultura de maior valor, não tem favorabilidade climática. Chove demais, algumas são acidentadas, e os custos logísticos são tão altos que inviabilizam o negócio", disse o pesquisador. 

Os números da extração e coleta na Amazônia

O estudo de precificação da Amazônia brasileira foi feito ao longo de três anos e é assinado por 13 pesquisadores, a maioria do Brasil. A equipe foi a campo observar como os locais extraem seu sustento da floresta. 

"Nosso estudo foi olhar valores concretos. O ribeirinho vai lá e vende a castanha. Quantas latas de castanha aquele hectare produz?", explicou Rajão. 

Os pesquisadores usaram o mesmo método para medir a produção de borracha e de madeira sustentável. 

"Nossa equipe foi a diferentes Estados da Amazônia, entrevistou produtores. Estimou custo de produção, receita, a produtividade daquela área específica de floresta. E ao cruzar esses valores com dados de outras áreas, estimamos o valor daquele hectare. Um trabalho que partiu da análise microeconômica do valor da floresta." 

De US$ 40 a US$ 200 por hectare por ano

Feitas as contas, o estudo mostra que, em certas regiões da floresta, um hectare gera ganhos anuais de até US$ 40 (R$ 167) para a produção de castanha-do-pará e US$ 200 (R$ 838) para produção de madeira sustentável. 

Então a castanha rende US$ 40 por hectare por ano? À primeira vista, não parece muito. Mas quando se olha de perto, o valor cresce. 

"Pequenos imóveis na Amazônia chegam a 400 hectares. Multiplicados por US$ 40, são US$ 16 mil, ou RS$ 66 mil por ano", calculou Rajão. "Já são RS$ 5.500 líquidos, por mês, no bolso do produtor." 

Seis milhões de brasileiros tiram sustento da floresta 

A pesquisa revela também que 6 milhões de pessoas se beneficiam hoje da extração sustentável de alimentos e de matérias-primas da floresta. 

"São populações ribeirinhas, populações tradicionais, indígenas e agricultores", explicou Rajão. "Eles coletam castanha, borracha e açaí nas reservas extrativistas, como a [reserva] Chico Mendes, por exemplo." 

"O amazônida é aquele que vive da floresta, sabe do valor e não desmata", continua Rajão. "Quem desmata são os forasteiros que entram ilegalmente". 

Mas ao ressaltar de maneira positiva a contribuição de atividades como a coleta de castanha para a economia do país, estariam os autores ignorando os altos níveis de pobreza e o baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos coletores de castanha? 

"O IDH está ligado fortemente às políticas públicas", respondeu Rajão. "Ele é baixo pois não há escolas, hospitais etc. Com o desmatamento para a pecuária, isso não muda", argumentou. 

"O extrativismo de alguns produtos — como a castanha, a madeira, o açaí — já é mais lucrativo do que a pecuária", disse Rajão. Mas ele reconhece que nenhuma dessas atividades tira o produtor da pobreza. Isso, disse, requer outras medidas. "É necessário agregar valor, ou seja, em vez de vender o produto para um atravessador, é preciso organizar cadeias de valor onde a maior parte do lucro fica no local". 

Rajão disse que é preciso também modernizar a produção. Ele deu exemplos de como isso poderia ser feito: "Transformando a castanha bruta na descascada, que já está pronta para o consumo. Ou o açaí fruta na pasta congelada que consumimos aqui no Sudeste. E [é preciso] fazer isso já na floresta, com energia solar e tecnologias de baixa manutenção e custo", disse. 

"Esse conceito está na base do que chamamos de Amazonia 4.0. É a bioeconomia da Amazônia com aspectos da Indústria 4.0. Mas para chegarmos nessa visão de longo prazo são necessários investimentos em ciência e tecnologia, além de um grande esforço de capacitação".

O pesquisador lembra que, ao longo de sua história, a Floresta Amazônica já sustentou milhões de pessoas. 

"Antes da colonização, havia 50 milhões de pessoas vivendo na Amazônia. O ecossistema tem uma capacidade incrível de sustentar vida. Mas quando você tira a floresta e põe capim, você diminui essa capacidade". 

Os rios voadores e a regulação climática

Até agora, falamos da renda direta que a floresta produz para o Brasil ao gerar alimentos e matérias-primas. Mas a equipe brasileira também mediu a renda que a floresta gera indiretamente ao prestar dois outros serviços: a absorção e retenção do carbono que produz o aquecimento global e a regulação do clima. 

Tente traçar na sua mente um quadrilátero que vai de São Paulo até Buenos Aires, na Argentina, e de Cuiabá até a cordilheira dos Andes, pediu o respeitado climatologista brasileiro Antônio Nobre em uma palestra TED na internet. 

Essa área, ele disse, gera 70% do PIB da América do Sul. E para fazer isso, depende dos chamados rios voadores que fluem da Amazônia transportando umidade. 

Esses fluxos aéreos maciços de vapor de água que vêm de áreas tropicais do oceano Atlântico e são alimentados pela umidade que se evapora da Amazônia viajam mais de 3 mil km pela atmosfera levando chuvas e irrigando o sul do Brasil, Uruguai, Paraguai e norte da Argentina. 

Os rios voadores são, portanto, vitais para a produção agrícola e a vida de milhões de pessoas na América Latina. 

Pois quanto vale a regulação climática que a Amazônia faz para o Brasil — lembrando que os rios voadores também geram energia hidrelétrica para o país? 

Essa foi mais uma pergunta que a equipe brasileira tentou responder, mas um serviço dessa magnitude não é fácil de precificar. 

E de fato, no esforço de calcular valores líquidos, com precisão, nessa categoria de serviço o estudo brasileiro traz números que os próprios pesquisadores consideram conservadores. 

Os mapas e gráficos revelam, no entanto, alguns dados importantes. Um deles diz respeito às chamadas "áreas sem destinação" da Amazônia brasileira:

Estamos falando de 62 milhões de hectares de floresta em áreas públicas que não tiveram seu uso definido pelo governo — por exemplo, não são reservas indígenas e não foram destinadas à conservação ou à reforma agrária. Por conta dessa indefinição, são áreas sob grande risco de ocupação ilegal e desmatamento para dar lugar à pecuária.

O estudo concluiu que a chuva gerada por esses 62 milhões de hectares contribui, anualmente, com US$ 422 milhões (R$ 1,77 bilhão) para a produção agropecuária. Isso equivale a 35% da renda líquida das lavouras de soja no Mato Grosso, principal estado produtor brasileiro. 

Ou seja, se essas áreas forem desmatadas, o setor perderá mais de US$ 400 milhões (R$ 1,68 bilhão) por ano pela queda de produtividade resultante da diminuição nas chuvas. 

Caso o desmatamento atinja áreas de uso sustentável, proteção integral, terras indígenas, não designadas, privadas e militares, as perdas para o setor podem alcançar US$ 763 milhões (R$ 3,2 bi) por ano. 

Outra revelação importante: o desmatamento para a pecuária gerará perdas para os próprios pecuaristas. A redução nas chuvas associada ao desmatamento nas áreas citadas acima pode trazer perdas anuais de US$ 1,4 bilhão (R$ 5,8 bilhões) para a pecuária brasileira. 

Quanto vale a biodiversidade da Floresta Amazônica?

Raoni Rajão e seus colegas não sabem quanto vale a biodiversidade da floresta. Mas o pesquisador explicou que há métodos para se fazer esse cálculo: 

"Existem estudos que estimam o nível de desconhecimento. Olham o esforço de amostragem e o tanto de diversidade que foi descoberta. Aí, estimam a quantidade de espécies desconhecidas e, em cima disso, o valor econômico". 

Fazer isso na Amazônia ainda é um projeto futuro. Mas, para termos uma noção do valor da nossa biodiversidade, basta olharmos na outra direção, para a história do Brasil, disse Rajão. 

A Segunda Revolução Industrial, que ocorreu entre meados dos séculos 19 e 20 — quando foram inventados o automóvel, o avião e o telefone —, não teria sido possível sem a borracha da Amazônia, disse o especialista. 

"Para você ter equipamentos mecânicos, precisa de borracha, algo para amortecer. Você não conseguiria fazer um carro sem a borracha produzida sustentavelmente na Amazônia". 

No livro A Luta Pela Borracha no Brasil: Um Estudo em História Ecológica, o historiador Dean Warren dá uma pista do valor econômico que a floresta já rendeu ao país: 

"O comércio da borracha tornou-se um sustentáculo da economia brasileira. Em seu auge, proporcionou quase 40% das receitas de exportação, quase igualando o café em importância", escreveu o historiador. 

"Hoje, depois de desmatar uma área de quase cem milhões de hectares, a agropecuária na Amazônia contribui com menos de 10% da produção brasileira", comparou Rajão. 

Os anestésicos amazônicos que revolucionaram a medicina

Há milhares de anos, indígenas na Amazônia usam um conjunto de plantas que têm extratos venenosos para anestesiar a caça, contou Rajão. 

"A flecha penetra na caça, o animal fica paralisado mas logo na sequência o veneno é processado, não envenena quem come a caça". 

As plantas, conhecidas como curare, deram origem aos poderosos anestésicos que transformaram a medicina. 

"No século 20, cientistas da Universidade de Leipzig, na Alemanha, foram lá, roubaram esse conhecimento, isolaram o princípio ativo e isso contribuiu para a revolução anestesiológica". 

Quanto valeriam, em moeda de hoje, o ciclo da borracha e os anestésicos produzidos pelas plantas curare

E qual seria o valor, para o Brasil e o mundo, de outras preciosidades ainda desconhecidas, ou quem sabe conhecidas e protegidas pelos povos tradicionais da floresta? 

Esse preço, difícil de estimar, é o valor da biodiversidade da Amazônia. 

O Valoração Espacialmente Explícita dos Serviços Ecossistêmicos da Floresta Amazônica Brasileira está disponível na plataforma web interativa amazones.info

Por: Mônica Vasconcelos (BBC News Brasil).

Afinal, Zumbi dos Palmares Realmente Tinha Escravos?

Zumbi e a Guerra dos Palmares / Crédito: Wikimedia Commons.

Hoje, fala-se que Palmares era uma nação escravocrata cujo principal líder tinha escravos. Mas será que isso procede? 

Nos dias atuais, surgiu uma tese sobre a memória do Quilombo dos Palmares onde é afirmado que Zumbi, último líder do maior quilombo da história, seria dono de escravos e até que Palmares era, assim como a colônia portuguesa, uma sociedade escravista. 

Essa noção sobre Palmares vem ganhando cada vez mais adeptos, que dizem poder afirmar com certeza categórica que Zumbi tinha sim escravos. Porém, poucos sabem argumentar as razões para acreditar nisso. 

Essa ideia de defender firmemente a escravidão em Palmares é um revisionismo histórico que foge do método histórico e se permite concluir respostas que são, ao mesmo tempo, ideologicamente convenientes e plenamente compreensíveis dentro do famoso senso comum. 

Ao mesmo tempo, a teoria vai de encontro com outra leitura imprecisa e idealista de Palmares que, ao fazer uso simbólico deste momento histórico e da figura de Zumbi, decai em uma visão quase onírica dos Palmares. Obviamente que a União dos Palmares não era o paraíso na terra, em que a felicidade e o prazer reinavam unanimemente. 

Mesmo considerando o comparativo entre a nação dos negros fugidos e a vida no engenho escravocrata, em que o primeiro era realmente uma condição de vida melhor, não é possível pensar a Palmares do século 17 como uma plena democracia, pois se tratava de uma monarquia — nos moldes do mundo subsaariano, claro — em que os regimes de trabalho e a dureza da vida não eram equivalentes por natureza. 

Não havia lá plena horizontalidade, como se pretende o anarquismo, a democracia atual ou as relações de reciprocidade dos nativos americanos. Mas não se tem relatos da instituição de posse humana como regime de trabalho, que define a escravidão. 

O principal argumento da teoria de que Zumbi tinha escravos é a comparação com a sociedade que o rondava. Segundo essa lógica, Palmares era mais um reino (uma verdadeira nação, de proporções próximas a Portugal) que vivia em interação com a sociedade escravista lusitana. 

Faria sentido, portanto, que Palmares tivesse uma lógica escravista. Não à toa, na maioria dos discursos que defendem essa tese, o "provavelmente" é uma palavra constante. Ou seja, o argumento não se sustenta para uma tese historiográfica. 

Isso porque não há fundamentação para essa tese na documentação de época, o que é central numa dissertação em história. Se cada ciência humana tem sua base, a da história é o documento. 

As possíveis fontes que alguns outros historiadores apontam que podem reforçar essa tese são ainda bastante questionadas e não possuem muito prestígio entre os pesquisadores. 

É relevante destacar que boa parte da aceitação dessa tese nasce de alguns conhecimentos equivocados sobre Palmares e Zumbi. Por exemplo, Zumbi, que sempre foi entendido como ícone do fim da escravidão, nasceu, viveu e morreu livre em seu reino. Nunca foi escravo, pois essa não é a condição natural de um negro no Brasil

Ao mesmo tempo, não é intrínseca à tradição africana a captura de escravos de guerra. Isso ocorria, sim, na África nessa época, mas não era algo que aparecia em todas as comunidades africanas. Além do mais, Palmares não era uma nação africana, mas um reino novo composto por africanos sequestrados e fugidos. 

Hoje, há o crescimento dos estudos sobre Palmares a partir de uma metodologia adequada para esse recorte, sendo possível compreender melhor as desigualdades e os regimes de trabalho em Palmares, para averiguar com precisão a tese da escravidão, que ainda vive entre suposições e crenças. 

Na memória social, também se destaca o conhecimento que temos dos textos do tempo de Zumbi (ou seja, da destruição de Palmares) para a disseminação da tese da Palmares escravista. Isso porque muito se falou sobre os relatos do bandeirante Domingos Jorge Velho, se seria possível concluir que Zumbi tinha escravos. Porém, a maioria dos historiadores concorda que a leitura de Jorge Velho era mais uma interpretação do luso-brasileiro sobre Palmares do que propriamente um relato do que ocorria no quilombo. 

O que seria relatado como uso de mão-de-obra escrava em Palmares na verdade seria uma lógica de trabalho na terra em que a liberdade e a participação na sociedade de Palmares estariam diretamente atreladas ao trabalho e à participação na sobrevivência da comunidade (ou, como aparece na peça Arena conta Zumbi: "Que liberdade é essa se é preciso trabalhar? [...] Ser livre não é encostar o corpo não, ser livre é trabalhar, vigiar, continuar a ser senhor de si"/ "Palmares tá grande, Palmares cresceu da força do braço do negro que sabe que é seu"). 

É impossível negar que o tema é polêmico. É igualmente inconsequente afirmar que a resposta já está fechada. Porém, a tese que diz que "é óbvio que Zumbi tinha escravos" é não só cientificamente irresponsável como também pesa, na balança da argumentação, para o lado com menos evidências para defender suas afirmações.

Por: Jânio Oliveira Freime (Aventuras na História).

Terras 'Griladas' Representam 35% do Desmatamento na Amazônia, diz análise

Apropriação de áreas públicas historicamente é perdoada pelos governos federal e estaduais. 

Mais de um terço (35%) do desmatamento registrado pelo sistema de monitoramento Prodes, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), ocorreu em áreas públicas não designadas, revela análise do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) divulgada no dia 20/11/2019. A destruição é motivada pela grilagem de terras, historicamente regularizada pelos governos federal e estaduais. 

Entre agosto de 2018 e julho de 2019 foram perdidos 2.551 km² de floresta dentro de terras públicas federais sem destinação específica, ou seja, não se trata de áreas protegidas nem de projetos de assentamento. A floresta perdida equivale a dois municípios do Rio de Janeiro

Essa área representa um aumento de 61,3% com relação à mesma medida do ano de 2018, quando foi detectada uma perda de 1.581 km² de terras federais não destinadas. O percentual é o dobro do crescimento da taxa de desmatamento, 29,5%. 

Do total desmatado em terras públicas, 93% pertencem ao governo federal. As demais áreas desmatadas não destinadas pertencem a estados amazônicos (281 km²) ou não têm informação sobre a propriedade (952 km²), de acordo com o cálculo do Ipam

"Essas florestas são públicas, patrimônio de todos os brasileiros, dilapidado ilegalmente para ficar na mão de alguns poucos", afirma o diretor-executivo do Ipam, André Guimarães

Os números do Prodes (Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite) de 2019 não incluem a área de floresta perdida a partir de agosto do mesmo ano, quando uma onda de incêndios atingiu várias regiões da Amazônia, gerando uma onda de críticas ao governo Jair Bolsonaro

Para analistas, o desmatamento ilegal de terras públicas é incentivado pela regularização de grilagens. No caso do governo federal, a anistia mais recente se deu em julho de 2017, no governo Michel Temer (MDB), que ampliou de 1.500 hectares para 2.500 hectares o tamanho de áreas públicas passíveis de regularização fundiária e ampliou a anistia de área grilada de 2004 para 2011. 

Promulgado no governo Dilma Rousseff (PT), o novo Código Florestal promoveu uma ampla anistia para desmatadores ilegais e grileiros. Segundo cálculo da ONG Imazon, o perdão chegou a 41 milhões de hectares, mais que o dobro da área do estado do Paraná

O levantamento do Ipam mostra que os assentamentos que concentram 27% do desmatamento é a segunda maior área dentro das categorias fundiárias. 

A análise revela uma concentração do desmatamento em 6% dos assentamentos dos 917 projetos que registram supressão de floresta. Para o Ipam, esse padrão revela que o desmate tem pouca relação com a produção familiar. 

"O desmatamento em assentamentos aumentou, mas se mantém o padrão de que 2% dos assentamentos representam 50% do desmatamento", afirma Ane Alencar, diretora de ciência do Ipam.

Por: Fabiano Maisonnave (Folha de S. Paulo).

Mudanças Climáticas Já Afetam a Saúde das Novas Gerações

Com sistema imunológico ainda em desenvolvimento, crianças podem adquirir problemas de saúde que as acompanharão até a vida adulta. 

Doenças infecciosas, enchentes, incêndios florestais e escassez de alimentos pintam futuro sombrio para uma criança nascida hoje caso o ritmo de emissão de carbono continue nos níveis atuais. 

Ninguém mais duvida que as mudanças climáticas trazem consequências catastróficas para o meio ambiente. Agora, um estudo elaborado por 120 especialistas de diferentes países estima quais são os efeitos dessas mudanças para a saúde dos seres humanos, e mostra que um grupo é especialmente atingido: as crianças. 

Publicado na revista científica The Lancet, o relatório Countdown on Health and Climate Change 2019 (Contagem Regressiva sobre Saúde e Mudanças Climáticas), lançado no dia 13/11/2019, aponta que uma criança nascida hoje terá prejuízos ao longo de toda a vida caso o ritmo de emissão de carbono continue nos níveis atuais. Com sistema imunológico ainda em desenvolvimento, elas são mais vulneráveis aos impactos. 

O estudo também teve colaboração de pesquisadores brasileiros. Da USP, são coautores o professor Paulo Saldiva, da Faculdade de Medicina (FMUSP), e Carlos Nobre, presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas e pesquisador do Instituto de Ciências Avançadas (IEA) da USP. 

Nascer hoje no Brasil

Além do relatório geral, o estudo também levantou dados específicos de alguns países, de acordo com o impacto para cada região. No caso do Brasil, por exemplo, as mudanças climáticas tornam o ambiente mais propício para a proliferação da dengue e de outras doenças infecciosas, que afetam mais as crianças. Desde os anos 1950, os mosquitos têm aumentada em 11% sua capacidade de transmitir dengue no País. 

Outro efeito diz respeito à alimentação. Com a elevação da temperatura média do planeta, a produção agrícola é diretamente atingida. No Brasil, o potencial médio de produtividade da soja caiu mais de 6% desde a década de 60. Dessa forma, os bebês estarão mais vulneráveis ao aumento do preço dos alimentos e à desnutrição . 

Durante a adolescência, o impacto da poluição do ar piorará. O fornecimento de energia derivada do carvão triplicou no Brasil nos últimos 40 anos e os níveis perigosos de poluição atmosférica ao ar livre contribuíram para 24 mil mortes prematuras em 2016. 

Eventos climáticos extremos, como enchentes e tufões, se intensificarão na idade adulta de quem nasce hoje. No Brasil, 1,6 milhão de pessoas foram expostas a incêndios florestais desde 2001/2004, e em todo o mundo houve um aumento recorde de 220 milhões de pessoas acima de 65 anos expostas a ondas de calor em 2018 em comparação com o ano 2000. Em relação a 2017, a alta foi de 63 milhões. 

Para que uma criança nascida hoje cresça em um mundo que atingirá emissões zero até seu 31º aniversário, em 2050, é preciso seguir as diretrizes do Acordo de Paris e limitar o aquecimento a um nível bem abaixo de 2° Celsius. Na avaliação dos autores, só isso pode garantir um futuro mais saudável para as próximas gerações. 

O que é mais sustentável também é mais saudável

Para o professor Saldiva, o relatório é importante porque destaca as consequências diretas para o ser humano, chamando maior atenção da sociedade e das lideranças políticas para a necessidade de políticas ambientais mais efetivas. "É possível divergir do ponto de vista político e econômico, mas existem poucos argumentos para se contrapor à saúde", coloca. 

Conforme ele explica, existe uma diferença entre Gases de Efeito Estufa (GEE), como metano e gás carbônico, e os chamados poluentes locais, como monóxido de carbono, fuligem, hidrocarbonetos e outros. Os GEE têm baixa toxicidade local, mas longa permanência na atmosfera, e por isso influenciam no aquecimento global. Já os poluentes locais têm curta permanência na atmosfera, mas causam efeitos diretos à saúde. 

A questão central, aponta Saldiva, é que tanto os GEE quanto os poluentes locais têm a mesma origem de emissão. Um dos principais argumentos levantados para barrar a adoção de políticas que combatam as mudanças climáticas é o ônus financeiro que elas trazem, porém, quando estimados o custos dos problemas de saúde causados pela poluição, fica evidente que a economia também seria beneficiada por políticas favoráveis ao meio ambiente. 

"Os benefícios da redução dos poluentes locais são imediatos e ao mesmo combatem o aquecimento global. Ou seja, o que é mais sustentável também é mais saudável", diz o professor. 

Dentre as principais recomendações feitas no estudo estão o investimento em transporte público de baixa emissão de carbono, migração para fontes de energia sustentáveis e uso de biocombustível, recomposição das áreas verdes no espaço urbano e, sobretudo, o comprometimento com as metas firmadas no Acordo de Paris.

Por: Matheus Souza (Jornal da USP).

Brasil Deve Elevar Mistura de Biodiesel Para 15% Até 2023; Impulsionando Demanda Por Soja

O Brasil deverá aumentar pela segunda vez em menos de um ano a quantidade mínima de biodiesel a ser misturada no diesel do país, prosseguindo com elevações de 1 ponto percentual por ano até 2023 e impulsionando, com isso, a demanda por soja. 

Analistas, produtores e autoridades do governo preveem que o país ampliará a mistura mínima do biocombustível na composição do diesel para 12% no mês de março de 2020, após elevação de 10% para 11% em setembro de 2019. Eles veem o Brasil atingindo uma mistura de 15% até 2023 e discutem o caminho para que maiores misturas sejam alcançadas na sequência. 

Misturas mais altas de biodiesel reduzirão as importações do óleo diesel, combustível fóssil com base no petróleo. Além disso, também vão alavancar a demanda local por soja, já que 80% do biodiesel brasileiro é produzido a partir do óleo de soja. 

"O B15 é algo que vemos como certo, estamos testando maiores misturas agora", disse Fabio Vinhado, que comanda o laboratório da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), acrescentando que os testes estão sendo conduzidos com misturas de 20% e 30% de biodiesel. 

A oferta de biodiesel no Brasil avançou de 4,62 bilhões de litros em 2016 para projetados 6,69 bilhões de litros em 2019, de acordo com a consultoria BiodieselBR, que estima uma demanda de cerca de 9,7 bilhões de litros em 2023. 

"Há uma forte demanda por vir, e ela será atendida com a expansão da produção", disse Miguel Angelo Vedana, analista-chefe da BiodieselBR

A União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), associação que reúne produtores de biodiesel, informou que atualmente há 11 plantas trabalhando em expansões e dez novas unidades em construção. A entidade espera que a capacidade produtiva avance para 12,6 bilhões de litros uma vez que esses projetos entrem em operação. 

"Quando chegarmos ao B15, a indústria local de soja terá de processar 8 milhões de toneladas a mais de grãos, indo dos atuais 44 milhões de toneladas por ano para cerca de 54 milhões de toneladas", disse André Nassar, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). 

Uma peculiaridade da política de biodiesel do Brasil é a de que ela determina a mistura mínima, mas permite que distribuidoras de combustíveis façam misturas mais altas, que vão até o B15, caso desejem. 

"Algumas distribuidoras já estão vendendo maiores misturas, especialmente em lugares onde o biodiesel é mais barato que o diesel, como Mato Grosso", disse Vedana

Outra iniciativa para que as distribuidoras sigam esse caminho é o RenovaBio, nova política federal que visa impulsionar os biocombustíveis no país, cujo início ocorrerá em 2020. 

A política fornece às distribuidoras alvos para a redução de emissões, que são baseados nos volumes de combustíveis fósseis vendidos no ano anterior. Se elas venderem mais biocombustíveis, as metas são reduzidas para o ano seguinte, e assim as empresas terão de adquirir menos créditos de carbono.

Por: Marcelo Teixeira (Reuters).

Holanda: Reúso de Água na Terra dos Diques

Estação de tratamento de esgoto (ETE) na Holanda.

A Holanda está enfrentando cada vez mais longos períodos de seca devido às mudanças climáticas. Isso está levando à escassez de água e salinização. Pesquisadores da Wageningen University & Research (WUR) explicam como o sistema de água naquele país pode ser reconfigurado para lidar com períodos de seca. 

Os efeitos do verão excepcionalmente seco de 2018 foram sentidos muito tempo depois de terminado. A chuva que caiu após a seca não chegou nem perto o suficiente para elevar as águas subterrâneas aos níveis exigidos na primavera de 2019. Normalmente, há um excesso de água na primavera por causa dos rios caudalosos trazendo mais água, mas agora houve uma falha em construir zonas de amortecimento (buffer) necessários para passar o verão, principalmente nas terras arenosas mais elevadas no leste e sul da Holanda

Os níveis de águas subterrâneas estavam acima do normal no oeste da Holanda, mas essas áreas também enfrentam problemas com o abastecimento de água, diz Huub Rijnaarts, professor de Meio Ambiente e Tecnologia da Água na WUR. "Os municípios do oeste estão tendo que lidar com a salinização. As águas subterrâneas estão sendo bombeadas para fora visando manter a terra seca, o que significa que as águas subterrâneas salgadas estão enfrentando menos contrapressão da água doce. O aumento das águas subterrâneas salinas salinizam o solo". 

"A combinação de mais subsidência devido, por exemplo, à erosão da turfa e à criação de mais pôlderes, além do aumento do nível do mar, fará com que o mar exerça mais pressão sobre as águas subterrâneas. Por sua vez, isso acelerará o processo nas áreas costeiras". 

Purificação de água não projetada para água salgada

Rijnaarts atestou que estamos cada vez mais sentindo as consequências das mudanças climáticas no sistema de gerenciamento de água holandês. Ele explica: "A agricultura, indústria e as famílias dependem completamente do suprimento de água. Nosso sistema de água é baseado nisso. Mas esse suprimento é um problema crescente em áreas mais elevadas, enquanto a salinização está causando cada vez mais problemas nas áreas mais baixas". 

"Amsterdã, por exemplo, depende da entrada de água do canal Amsterdã-Reno para o seu abastecimento, mas essa água está se tornando mais salgada. As tubulações levam a água para as dunas entre Zandvoort e Noordwijk, onde a água é purificada naturalmente. Porém, no verão passado, a companhia de saneamento Waternet enfrentou sérios problemas devido à salinização porque a tecnologia de purificação de água usada atualmente é voltada inteiramente à água doce e não para a água salgada". 

O desafio para a Holanda é tornar a água salobra adequada para reúso em larga escala.

 Os lagos artificiais de água doce no Parque Nacional de Biesbosch estão conectados diretamente ao mar.

Wetlands (jardins filtrantes) para resíduos

Cada vez mais empresas estão conscientes dos problemas que estão surgindo e desejam mudar para um sistema autossuficiente. Na província de Zeeland, usuários finais, empresas de tecnologia e institutos de ciência estão trabalhando em soluções locais de economia circular no projeto Water Nexus. Rijnaarts: "Grande parte da província de Zeeland depende da água retirada na área de Biesbosch. Em períodos de seca o suprimento de água disponível pode não ser o suficiente para as necessidades das cidades, fazendas e indústria. Neste projeto piloto estamos criando wetlands para armazenamento em larga escala de água proveniente da indústria, agricultura e cidades. Quando esses efluentes chegam aos wetlands, são primeiramente purificadas usando métodos naturais com plantas e microrganismos", comentou. 

"A biologia não é a solução para alguns materiais, como metais pesados ​​da indústria ou pesticidas da agricultura. Os resíduos de fármacos também não podem ser removidos da água inteiramente usando processos naturais. Para extrai-los, empregamos técnicas eletroquímicas modernas e tecnologia de membrana", explicou. 

Ampliando soluções para aplicações práticas 

Wilfred Appelman é pesquisador da Wageningen Food & Biobased Research (WFBR), parte da WUR. Ele é solicitado quando os problemas no sistema de água não podem ser resolvidos apenas pela natureza. Esse também é o caso da Water Nexus, diz Appelman. "Huub Rijnaarts e seus alunos de doutorado estão pesquisando as opções para o uso de água salgada na indústria e como armazenar melhor a água doce. O conhecimento fundamental produzido será utilizado na WFBR para desenvolver novas soluções para aplicação prática. Para dar um exemplo, estamos trabalhando no desenvolvimento de melhores processos de membrana eletroquímica para extrair o sal na água de refrigeração da empresa química Dow para que possa ser reutilizada".

 Uma eclusa no canal de Amsterdã-Reno.

As técnicas não são novas, mas sua aplicação é mais eficiente agora graças ao desenvolvimento de novos materiais e equipamentos aprimorados, diz Appelman. Um exemplo é a eletrodiálise, um processo eletroquímico no qual um produto dissolvido pode ser extraído de uma solução usando um campo elétrico e membrana semipermeável. Esse processo de membrana está em uso há algum tempo e é muito bom para filtrar o sal da água. "Atualmente, estamos ampliando essa técnica para uma variedade de aplicações práticas. Um exemplo é a agricultura, que está combatendo o sal que se acumula na água. Estamos colaborando com as empresas na forma de remover íons de sódio e cloreto da água. Essa tecnologia local de purificação de água permitirá a utilização de água por muito mais tempo". 

Material circular de 25 bilhões de litros de água

A filial holandesa da multinacional química Dow já utiliza sete bilhões de litros de efluentes domésticos da cidade portuária vizinha de Terneuzen. Agora, planeja usar uma abordagem circular para todos os seus suprimentos de água através do projeto Water Nexus. Rijnaarts: "Você está falando então em 25 bilhões de litros. E isso é apenas uma empresa industrial. Lembre-se de que existem empresas como Cosun, Cargill e Shell na região, que da mesma forma dependem do suprimento de água. E a salinização também é um problema crescente em Zeeland". 

O professor diz que o desafio para o delta do rio na Holanda é organizar a conversão em larga escala de água salobra em água adequada para reúso. Até recentemente, as técnicas biológicas de purificação de água implantadas no sistema de água holandês não eram adequadas para isso. Rijnaarts: "As técnicas atuais usam bactérias de água doce no lodo que se unem com a ajuda de polímeros e formam grânulos. Os grânulos precisam permanecer intactos para realizar sua tarefa de purificação. Isso funciona bem em condições de água doce, mas quando mudaram para condições de água salgada, os grânulos de bactérias se separaram e não funcionou mais".

 Sistema em Groningen para regular o nível da água.

Mas a solução acabou sendo simples, diz Rijnaarts. "Procuramos bactérias que ainda eram capazes de funcionar em condições salgadas. Descobrimos então que depois de um tempo eles formaram grânulos também nessas circunstâncias. Além disso, os grânulos resistiram bem sob a mudança de água salgada para água doce e mantiveram seu efeito purificador". 

"Em princípio, podemos garantir que a água possa ser repetidamente reciclada em qualquer aplicação usando métodos biológicos, além de tecnologias eletroquímicas e de membrana", acrescenta Appelman. "Podemos criar novos sistemas de água de ciclo fechado, usando todas as técnicas combinadas. Com a eletricidade gerada a partir do calor da água usada também, por exemplo". 

Appelman salienta que nem sempre é necessário impor a qualidade da água potável como norma. Ele dá como exemplo a descarga no vaso sanitário. "É bom usar água salobra ou salgada para isso. Também existem muitas aplicações industriais nas quais você não precisa necessariamente usar água fresca, e isso também é caro. Assim, você poderia escolher a solução mais adequada no sistema de água, dependendo da aplicação". 

Isso prepara o caminho para um sistema circular de água, no qual os efluentes das cidades, terras agrícolas e indústria são purificados e armazenados em reservatórios locais para reutilização. Além disso, o excesso de água dos rios e das chuvas são capturados em vez de fluir para o mar. Em seguida, serve como um tipo de esponja que pode fornecer água à área circundante durante os períodos secos. E bacias com água salobra também podem se tornar parte do sistema circular de água, graças à nova tecnologia de água salgada que foi desenvolvida em Wageningen. Rijnaarts: "A qualidade da água na Holanda é excelente e pode continuar assim". 

Rijnaarts deve viajar em breve para regiões no sudeste asiático, onde os problemas são de três a cinco vezes piores do que na Holanda. "As cidades costumam ter instalações de purificação de água muito limitadas, enquanto os produtores de arroz lutam com a crescente salinização. Se conseguirmos tornar a água da cidade adequada para reutilização no cultivo de arroz, poderemos equipar as cidades e aldeias com maneiras de lidar melhor com as mudanças climáticas. Usaremos a mesma tecnologia para isso como na Holanda".

Por: Jeroen van den Nieuwenhuizen (Wageningen University & Research). Tradução: Gheorge Patrick Iwaki (Portal de Tratamento de Água).