Translate / Traduzir

Ceifando a Árvore da Vida

Os pandas vermelhos representam 31 milhões de anos de história evolutiva, que agora está ameaçada. Foto: Gerry Ellis/Minden Pictures/Nat Geo.

Desde a ascensão do Homo sapiens, mais de 300 espécies de mamíferos desapareceram, e, com elas, mais de 2,5 bilhões de anos de história evolutiva. A evolução de um ser vivo na Terra é marcada por ciclos de vida e morte. Nos últimos 450 milhões de anos, cinco grandes extinções em massa levaram ao desaparecimento de milhares de espécies de plantas e animais. Ao que tudo indica, vivemos um novo ciclo de extermínio. Atualmente, uma em cada cinco espécies corre risco de extinção e, até o final do século, metade de todas as espécies animais poderá sumir. 

Mas, diferentemente dos processos anteriores, causados por fortes erupções vulcânicas, eras glaciais e queda de meteoritos (como o que extinguiu os dinossauros há 65 milhões de anos), a chamada sexta extinção em massa não está sendo causada por desastres naturais, mas por uma única espécie – nós, humanos. 

Um novo e preocupante estudo [Mammal diversity will take millions of years to recover from the current biodiversity crisis], publicado na revista da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (PNAS), estima que desde a ascensão do Homo sapiens, mais de 300 espécies de mamíferos desapareceram da face da Terra, e com elas, mais de 2,5 bilhões de anos de uma história evolutiva única. 

História evolutiva? Pois é, a biodiversidade é mais do que o número de espécies presentes na Terra, e representa o conhecimento apreendido pelas espécies ao longo de milhares de anos de evolução. 

A soma desses conhecimentos alimenta o que os cientistas chamam de árvore da vida, cujos galhos representam a história de cada espécie que já passou por aqui. E o que o novo estudo mostra é que as perdas nessa seara são desproporcionalmente grandes nas espécies de mamíferos em comparação com o número de espécies que foram extintas recentemente. 

E isso é preocupante. Quanto mais diferenciada a espécie — como é o caso de grandes mamíferos, que levaram centenas de milhares de anos para evoluir a chegar a sua forma atual — maior é o galho e a perda evolucional quando a espécie some. 

"Grandes mamíferos, ou megafauna, como preguiças-gigantes e tigres-dentes-de-sabre, extintos há cerca de 10.000 anos, eram altamente distintos em termos evolucionários. Como tinham poucos parentes próximos, suas extinções significavam que ramos inteiros da árvore evolutiva da Terra eram cortados" diz o paleontólogo Matt Davis, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, que liderou o estudo em comunicado da instituição.

Recuperação 

Embora a cada extinção em massa, o tecido da vida preencha lentamente suas lacunas com novas espécies, nós humanos estamos exterminando animais tão rapidamente que o mecanismo de defesa embutido na natureza, que é a própria evolução, não consegue acompanhar, alerta o estudo, feito em parceria com a Universidade de Gotemburgo, na Suécia

A queima de combustíveis fósseis, o desmatamento de florestas para o agronegócio, a construção de cidades em áreas sensíveis, o despejo de resíduos no oceano e a caça excessiva, todas essas atividades tornam a Terra mais hostil aos animais e os empurram para a extinção. 

Se os atuais esforços de conservação não forem melhorados, os pesquisadores advertem que muitas espécies de mamíferos serão extintas ao longo dos próximos 50 anos, e será necessário de 3 a 5 milhões de anos para a natureza se recuperar dessas perdas. 

Na prática, isso seria o tempo que mamíferos menores teriam que evoluir e diversificar para compensar a o sumiço dos grandes mamíferos. Em relação às perdas que ocorreram desde que os humanos modernos começaram a andar por aqui, seriam necessários de 5 a 7 milhões de anos, estima o estudo. 

Para o estudo, os pesquisadores vasculharam um extenso banco de dados de mamíferos que inclui espécies existentes e que viveram no passado recente, mas foram extintas nos últimos 130 anos. 

"Estamos começando a derrubar toda a árvore [da vida], incluindo o ramo em que estamos sentados agora", disse Davis, da Universidade de Aarhus, ao jornal britânico The Guardian. "Estamos entrando no que poderia ser uma extinção na escala da que matou os dinossauros." 

De maneira preocupante, algumas dos grandes animais mais icônicos da atualidade estão enfrentando taxas crescentes de extinção. Espécies criticamente ameaçadas, como o rinoceronte negro, correm alto risco de extinção nos próximos 50 anos. Outras, como os elefantes asiáticos, uma das duas únicas espécies sobreviventes de uma notável ordem de mamíferos que incluía mamutes e mastodontes, têm menos de 33% de chance de sobreviver até o final deste século. 

"Apesar de termos vivido em um mundo de gigantes, como os castores, tatus e cervos gigantes, agora vivemos em um mundo cada vez mais empobrecido de grandes espécies de mamíferos selvagens. Os poucos gigantes remanescentes correm o risco de serem eliminados muito rapidamente", disse Jens-Christian Svenning, da Universidade de Aarhus, no comunicado de imprensa. 

A equipe de pesquisa não tem apenas más notícias, no entanto. Seus dados e métodos podem ser usados para identificar rapidamente espécies em risco de extinção. 

Salvar animais com longas histórias evolutivas, como é o caso do grandes mamíferos ameaçados da atualidade, deveria estar no centro dos esforços de preservação dos governos mundiais, defende o principal autor da pesquisa. "É muito mais fácil salvar a biodiversidade agora do que voltar a evoluí-la mais tarde", disse Davis.

Por: Vanessa Barbosa (Exame).

FAO Desenvolve Metodologia Para Mensurar Desperdício de Alimentos no Mundo

A estimativa da FAO é de que cerca de 1,3 bilhão de toneladas de comida seja descartada por ano no mundo. Foto: Pexels.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) está desenvolvendo uma metodologia para criar um novo índice, o Food Loss Index, com o objetivo de mensurar de maneira mais precisa o desperdício de alimentos no mundo, disse o diretor-geral da agência, José Graziano da Silva

Em mensagem de vídeo gravada para o fórum Perdas e Desperdícios de Alimentos: Contribuição da Tecnologia Pós-Colheita e um Olhar Para o Futuro, que aconteceu na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Graziano disse que a FAO também analisa a eficácia de políticas como incentivos econômicos para empresas e consumidores que combaterem o desperdício. 

"A estratégia da FAO está construída sobre quatro pilares: a conscientização sobre o impacto do desperdício; a identificação de onde ocorrem as perdas; a sugestão de soluções viáveis e o apoio ao investimento nos setores público e privado para reduzir as perdas e os desperdícios", explicou. 

Além de considerações econômicas, as perdas e desperdícios de alimentos tem também uma grande dimensão ética e ambiental. Enquanto 821 milhões de pessoas no mundo estão em estado de insegurança alimentar, um terço de toda a produção alimentar do mundo é desperdiçada diariamente. 

A estimativa é de que, anualmente, cerca de 1,3 bilhão de toneladas de comida seja descartada. "O ODS número 12.3 espera reduzir pela metade, até 2030, o desperdício do consumo final de alimentos per capita, bem como reduzir todas as perdas ao longo das cadeias de produção e abastecimento", lembrou o diretor-geral da FAO

No quesito ambiental, em consonância com a ODS 12 (produção e consumo responsáveis) e a ODS 13 (ação contra a mudança global do clima), as perdas também têm um um impacto importante. A emissão de gases dos alimentos desperdiçados é igual à poluição por dióxido de carbono de todo o parque automotivo do mundo, como explicou o representante da FAO no Brasil, Alan Bojanic, que ministrou a conferência na UNICAMP

O óxido nitroso e o metano, resultantes da degradação, são muito mais nocivos à camada de ozônio do que o CO2, nas razões de 300 por 1 e 20 por 1, respectivamente. "Além do forte impacto na saúde pública, com transmissão de enfermidades, o apodrecimento de alimentos tem alto custo. São consumidos recursos e energia na produção e um terço disso se perde", disse Alan Bojanic.

Fonte: ONU.

8 Coisas Que Você Precisa Saber Sobre o Relatório de Mudanças Climáticas do IPCC

Urso polar no Ártico. O mundo precisa de ações decisivas para evitar o degelo. Foto: Chistopher Michel/Wikimedia Commons.

Todos os países se comprometeram com a meta do Acordo de Paris de limitar o aumento da temperatura global entre 1,5˚C e 2˚C. Mas dúvidas ainda persistem. Como o mundo pode atingir essa meta? E o que acontece se não conseguirmos? 

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que reúne os principais cientistas do clima do mundo, responde essas questões em seu mais recente relatório, lançado no dia 08/10/2018. Cerca de 100 cientistas analisaram como o mundo pode cumprir a meta de 1,5˚C, assim como os impactos associados ao aumento na temperatura. 

Aqui estão oito pontos que o IPCC identificou. 

1. Limitar o aquecimento a 1,5˚C exige transformação imediata 

As emissões globais de gases de efeito estufa estavam em cerca de 52 GtCO2e (gigatolenadas de CO2 equivalente) em 2016. As projeções indicam que será entre 52 a 58 GtCO2e por ano em 2030. Emissões anuais precisam cair pela metade (25-30 GtCO2e por ano) em 2030 para limitar o aquecimento a 1,5˚C. Apesar de ainda ser tecnicamente possível, o comportamento e as tecnologias precisarão mudar para se poder reduzir emissões. Por exemplo, em 2050, as energias renováveis precisarão representar entre 70-85% da eletricidade para que o aquecimento seja limitado. Eficiência energética e medidas de substituição de combustíveis serão cruciais no setor de transportes. Reduzir a demanda por energia e melhorar a eficiência da produção de alimentos, mudando escolhas alimentares e reduzindo o desperdício de alimentos também têm potencial significativo de reduzir emissões

O relatório destaca como uma ação climática ambiciosa pode trazer muitos benefícios para a economia – mais empregos, aumento do acesso à energia, transporte sustentável e melhorias na saúde, para nomear alguns. E apesar de o relatório não citar, a análise do New Climate Economy mostrou que ações climáticas ambiciosas podem gerar US$ 26 trilhões em benefícios econômicos até 2030, criando mais de 65 milhões de postos de trabalho e evitando 700 mil mortes prematuras por poluição do ar.


2. A escala da mudança é sem precedentes 

Apesar de haver exemplos de mudanças rápidas em setores específicos no passado, não há precedentes na nossa história para a rápida mudança necessária para limitar o aquecimento a 1,5˚C. Em outras palavras, nós nunca testemunhamos uma transição tão ampla e veloz quanto a que será necessária nos setores de energia, uso da terra, indústria e cidades. 

Fazer essa mudança monumental vai exigir investimentos substanciais em tecnologias de baixo carbono e eficiência. O relatório mostra que, para atingir a meta de limitar o aquecimento em 1,5˚C, investimentos em tecnologias de baixo carbono e eficiência energética precisarão de cinco vezes mais investimentos do que receberam nos últimos anos. 

3. “Limitar o aquecimento a 1,5˚C” pode significar coisas diferentes, com resultados distintos

Na maioria (81 de 90) dos cenários para limitar o aquecimento, a temperatura do planeta ultrapassa a marca de 1,5˚C num primeiro momento para só depois cair. Os resultados desses cenários são muito diferentes daqueles que nunca ultrapassam o 1,5˚C. Por exemplo, considere o impacto do aquecimento em um ecossistema frágil: se a temperatura passar muitos anos acima de 1,5˚C, impactos irreversíveis podem ocorrer, como a extinção de espécies, mesmo que a média de temperatura caia depois. 

Os impactos de um aquecimento de 1,5˚C também dependem das escolhas de atividades para reduzir emissões. Por exemplo, uma redução mais rápida do carbono negro, uma forma impura de carbono, pode ajudar a controlar o degelo no Ártico. Além disso, é importante notar que a meta de 1,5˚C se refere ao aumento global da temperatura. Aumento da temperatura em partes específicas do planeta pode variar. 

4. Um limite de 1,5˚C não é seguro para todos…

O relatório diz que impactos climáticos significativos já ocorrerão com um aumento de 1,5˚C, especialmente no que diz respeito a áreas baixas, à saúde humana e aos oceanos. Os impactos afetarão de forma mais severa os mais pobres e mais vulneráveis por conta da insegurança alimentar, migrações, efeitos na saúde, entre outros. 

5. Mas os riscos do aquecimento são substancialmente menores com 1,5˚C em vez de 2˚C

Como o Acordo de Paris especifica que os países devem "limitar o aquecimento a bem abaixo de 2˚C, e perseguir esforços para limitar a 1,5˚C", o relatório do IPCC analisou o quão maior são os riscos em um mundo que aqueça 2˚C. Segundo o relatório, com um aquecimento de 1,5˚C, é possível que o planeta tenha um verão completamente sem gelo na superfície do mar uma vez a cada cem anos. Com 2˚C, essa frequência aumenta a uma vez por década.


6. Será preciso ter emissões líquidas zero por volta do meio do século

Além do corte de emissões na próxima década, as emissões precisarão chegar, em média, a zero perto do meio do século. Se a data para zerar emissões for uma década antes, em 2040 – daqui a menos de 15 anos -, a chance em limitar o aquecimento a 1,5˚C aumenta consideravelmente. Se as emissões atingirem um pico antes de 2030 e começarem a cair, o esforço para controlar o aquecimento será menos desafiador. 

Todos os poluentes que absorvem calor na atmosfera precisam ser reduzidos. O relatório nota o papel crucial de poluentes de vida curta, mas com alto impacto, como o metano e os hidrofluorcarbonetos (HFCs). Apesar de o dióxido de carbono ser o principal causador em longo prazo do aquecimento, a redução desses super poluentes pode contribuir no curto prazo, com importantes co-benefícios como a redução da poluição do ar. 

7. Todos os cenários para controlar o aquecimento dependem da remoção do carbono

O relatório mostra claramente que será preciso focar não apenas em redução de emissões, mas também em remover e estocar carbono. A remoção de carbono é necessária para atingir emissões líquidas zero e para compensar caso o planeta aqueça mais do que 1.5˚C. Os cenários analisados no relatório se baseiam em diferentes estimativas de remoção de carbono (indo de 100 a 1.000 GtCO2e), mas todos eles dependem disso. O relatório nota que a remoção de carbono nessa escala nunca foi testada, e que é um risco na nossa capacidade de limitar o aquecimento do planeta. O relatório também afirma que a sustentabilidade de técnicas de remoção de carbono pode ser melhorada. 

8. Todo mundo – países, cidades, empresas, indivíduos – precisam se envolver, sem demora

Sem uma transformação da sociedade e rápida implementação das reduções de emissões, limitar o aquecimento a 1,5˚C será cada vez mais difícil, se não impossível. Mesmo se os países cumprirem suas metas e reduzirem emissões após 2030, o aquecimento ainda poderá exceder 1,5˚C, dados os desafios associados com uma mudança num período de apenas 15 anos. Portanto, todos os países e atores não estatais precisarão agir sem demora. O Acordo de Paris diz que os países precisam submeter novos comprometimentos em 2020, o que será uma importante oportunidade para adotar ações mais ambiciosas. Em uma conferência climática na Califórnia em setembro de 2018, líderes de estados e regiões, cidades, empresas e da sociedade civil reforçaram a mensagem, cobrando de países que ampliem as ambições na próxima rodada de negociações climáticas da ONU, em Katowice, Polônia

Transformando a evidência em ação

Limitar o aquecimento a 1,5˚C será difícil. Realmente difícil. Mas o relatório do IPCC deixa claro que o mundo tem conhecimento científico, capacidade tecnológica e financeira para enfrentar as mudanças climáticas. Agora é preciso ter vontade política para iniciar as mudanças sem precedentes que são necessárias para estabilizar a temperatura. Há benefícios substanciais, econômicos e de desenvolvimento, para uma ação climática ambiciosa. E, mais importante, limitar o aquecimento global é um imperativo. Falhar nos colocaria em um planeta irreconhecível pelos impactos catastróficos. Governos, empresas e outros precisam ter clareza. Agora é o momento para enfrentar esse desafio.

Por: Kelly Levin (WRI.org).

Pesquisa Desenvolve Fertilizante Orgânico a Partir da Biomassa de Plantas

N-verde possui maior concentração de nitrogênio e é de fácil aplicação. Foto: Ana Lucia Ferreira Embrapa.

Produzido a partir da biomassa aérea (parte da planta que fica para fora da terra) de espécies leguminosas, o N-verde é um fertilizante orgânico vegetal rico em nitrogênio (N) e de fácil aplicação. "Ele tem os nutrientes essenciais para as plantas: fósforo, potássio, cálcio, magnésio, enxofre; e micronutrientes, como boro, ferro, manganês, molibdênio e zinco", explica o pesquisador Ednaldo Araújo, da Embrapa Agrobiologia (RJ). 

Comparado a outros materiais orgânicos, a concentração de nitrogênio no N-verde é elevada: cerca de 4%. Por isso, ele é indicado como uma fonte de adubação nitrogenada. 

Estudos científicos mostraram que o fertilizante desenvolvido pelos pesquisadores da Embrapa Agrobiologia reduz as perdas que ocorrem na hora da aplicação na lavoura. Enquanto nos produtos comerciais as perdas por volatização (transformação em gás) chegam a 50%, no N-verde é de no máximo 15%, resultando em economia para o agricultor. 

Sabendo que os fertilizantes farelados apresentam limitações quanto à aplicação no campo, não se adequam ao uso em máquinas distribuidoras de adubos e favorecem as perdas de nitrogênio por volatização de amônia, os pesquisadores desenvolveram um produto em forma de grânulos ou pellets

"A ideia é disponibilizar aos agricultores um fertilizante padronizado quanto aos teores de nutrientes e tamanho das partículas, alta densidade e baixo volume, o que facilita a aplicação na lavoura", complementa Araújo

A princípio, o produto foi desenvolvido para aplicação em hortaliças folhosas, onde os testes de campo apontaram para um produto de excelentes resultados. Mas a resposta também foi boa em lavouras de milho e feijão. A expectativa é que ao ser disponibilizado pela indústria, o produto também tenha boa aceitação para aplicação em plantas ornamentais como uma fonte de nitrogênio. 

Processo de produção

De acordo com os pesquisadores, para produzir o N-verde é necessário uma leguminosa fixadora de nitrogênio com alta capacidade de gerar matéria orgânica com baixo custo de produção. "Nós procuramos aproveitar dois processos biológicos abundantes na natureza, a fotossíntese e a fixação biológica de nitrogênio, que permitem que se acumule carbono e nitrogênio a partir da biomassa vegetal", detalha José Guilherme, pesquisador da Embrapa Agrobiologia

A maioria das plantas leguminosas fixadoras de nitrogênio tem boa concentração de nutrientes e pode ser utilizada para a produção do N-verde. Mas a gliricídia (Gliricidia sepium) é a que vem sendo mais utilizada por ser uma planta perene, que permite poda até quatro vezes ao ano e oferece uma capacidade de produção de biomassa grande, sem altos custos de implantação. 

Com um hectare de gliricídia é possível produzir até 6 toneladas de N-verde por ano. Mas essa quantidade pode variar dependendo do espaçamento em que for feito o plantio. "A partir do momento que possuímos a biomassa, nós temos todo um protocolo para produzir o N-verde, que envolve a melhor forma de secar, de moer e até mesmo de produzir os pellets ou os grãos", pontua Araújo. Após a coleta, a produção do N-verde leva de sete a dez dias. 

Uso na agricultura orgânica

Um dos gargalos para a expansão da agricultura orgânica é a falta de nitrogênio. Para suprir a demanda desse nutriente, os agricultores muitas vezes utilizam resíduos agrossilvipastoris, que apresentam cerca de 3% de N, o que é adequado para uso como fertilizante orgânico. Porém, a variação nesse percentual, além de problemas relacionados a contaminantes químicos e biológicos, limita o seu uso. 

A falta de padronização aumenta também as incertezas quanto aos resultados da utilização desses produtos. Por isso, um dos resíduos mais difundidos é a torta de mamona, que apresenta aproximadamente 5% de nitrogênio. Mas, nesse caso, o limitante é o valor, superior em cerca de 400% em relação ao custo da ureia, que é o fertilizante nitrogenado mais utilizado na agricultura convencional no Brasil

Para Ednaldo Araújo, o N-verde pode suprir essa lacuna no mercado e tende a ter seu custo de prateleira menor que produtos similares. "É importante frisar que não se trata de substituir o uso da adubação verde nas culturas, pois mesmo com o uso de espécies adubadoras, é preciso fazer todo manejo e ainda o aporte de nitrogênio. Essa reposição pode ser realizada pelo N-verde", pontua o pesquisador. Araújo esclarece também que por haver necessidade de grandes áreas para o plantio da leguminosa e de uma fábrica para transformação da biomassa em grãos ou pellets, o N-verde tende a ser um fertilizante produzido por empreendedores por meio de cooperativas ou indústrias. 

N-verde versus estercos

Uma das principais fontes orgânicas de nitrogênio utilizadas na agricultura convencional é o esterco. Porém nem todo produtor tem animais em sua propriedade, o que dificulta a obtenção do insumo. Para esses agricultores, o N-verde também tende a ser uma boa alternativa, pois além de ter uma concentração bem maior de nitrogênio, não precisa ser compostado e possui risco baixíssimo de contaminação, ao contrário dos estercos.

Tipo de fertilizante orgânico: Esterco bovino. Quantidade de N: 1,5%. N-verde: 4%.

Tipo de fertilizante orgânico: Esterco de frango (cama de frango). Quantidade de N: 2,5%. N-verde: 4%. 

Testes avançados aferiram a eficiência do produto

Para os estudos de eficiência do N-verde, os pesquisadores fizeram testes avançados com uso de isótopo estável (variante do elemento químico nitrogênio) que funciona como marcador do caminho do nitrogênio, desde a liberação do fertilizante até a absorção pela planta. 

Os resultados revelam que a eficiência do N-verde é de 10%, ou seja, de cada 100 quilos colocados na planta, ela absorve 10, no primeiro ciclo, o que é similar aos demais fertilizantes orgânicos. A pesquisa avança agora no estudo para a redução de custos de produção e coleta da biomassa. 

Seja na agricultura orgânica, onde o uso de fertilizantes orgânicos vegetais e isentos de contaminantes é uma exigência, ou na agricultura convencional, onde os altos custos limitam o uso de fertilizantes orgânicos, o N-verde pode ser uma alternativa ou um complemento. O pesquisador Ednaldo Araújo enfatiza que um país com dimensões continentais e clima tropical como o Brasil tem uma aptidão natural para produzir biomassa. "E por que não produzir essa biomassa e colocá-la no mercado para suprir a demanda que existe?", finaliza.

Por: Ana Lucia Ferreira (Embrapa).

Como o Aquecimento Global Pode Levar à Falta de Cerveja no Mundo

O problema, conforme apontam os pesquisadores, é que as secas e ondas de calor concomitantes devem levar a declínios bruscos no rendimento das colheitas de cevada, gramínea cerealífera que é o principal ingrediente da apreciada bebida.

Não é que os cientistas estejam botando água no seu chope. Nem é que o aquecimento global vá terminar esquentando também seu copo. Na realidade, conforme mostra estudo publicado em 15/10/2018, os fenômenos climáticos contemporâneos podem acabar com os estoques globais de cerveja. 

A conclusão, publicada no periódico Nature Plants [Decreases in global beer supply due to extreme drought and heat], é que as secas e ondas de calor concomitantes - que andam agravadas pelo aquecimento global provocado pelo homem - devem levar a declínios bruscos no rendimento das colheitas de cevada, gramínea cerealífera que é o principal ingrediente da apreciada bebida. Principalmente se os níveis de emissão de carbono continuarem como estão hoje. 

A perda de produtividade nas colheitas de cevada pode chegar a 17%, o que deve fazer o preço da cerveja dobrar ou até mesmo triplicar em alguns lugares do mundo. 

"Embora esse não seja o impacto futuro mais preocupante da mudança climática, extremos climáticos relacionados a isso podem ameaçar a oferta e a acessibilidade econômica da cerveja", diz o estudo, desenvolvido por cientistas da Universidade da Califórnia, da Universidade Chinesa de Pequim, da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas, do Centro Internacional Mexicano para Melhorias do Milho e do Trigo e da Universidade de East Anglia (Inglaterra).

A primeira consequência dessa queda de produção, segundo os modelos matemáticos do estudo, será um intenso aumento nos preços da bebida. A pesquisa avaliou a situação de 34 regiões produtoras de cevada, antes e depois do ano de 2050.

"Chegamos a essa conclusão integrando em nossa pesquisa as informações das mudanças climáticas, das safras de cevada, do comércio internacional e de condições socioeconômicas", explicou à BBC News Brasil o economista Dabo Guan, professor de Economia das Mudanças Climáticas da Universidade de East Anglia. "Com todos esses dados juntos, pudemos estimar o impacto que o cenário terá na cerveja, um produto essencial para uma quantidade significativa de pessoas no mundo." 

"Nosso estudo não quer dizer que as pessoas vão beber mais cerveja hoje do que amanhã, tampouco que precisaremos nos adaptar para um novo consumo de cerveja", prossegue Guan. "Na realidade, pretendemos alertar as pessoas, especialmente nos países desenvolvidos, que a segurança alimentar é importante - e que a mudança climática vai afetar seu dia a dia e sua qualidade de vida." 

Ele lembra que, no cenário de aquecimento global, todas as culturas serão afetadas. "Mas neste estudo, utilizamos a cevada para ilustrar esse problema". 

O que priorizar?

Pelas projeções dos cientistas, o cenário considerou como estará o planeta no futuro próximo considerando os níveis atuais de queima de combustíveis fósseis e emissões de dióxido de carbono. Na pior das hipóteses, as regiões do mundo onde mais se cultiva cevada - como pradarias canadenses, regiões da Europa e da Austrália, e a estepe asiática - devem experimentar secas e ondas de calor cada vez mais frequentes. 

É importante lembrar que apenas 17% da cevada produzida no mundo é usada para a fabricação da cerveja. O restante é colhido e se torna alimento para gado. Os pesquisadores se perguntam como será o conflito no futuro, diante da escassez da cevada: os produtores deverão priorizar animais com fome ou humanos com sede? 

Aplicando o modelo matemático que considera sazonais produções históricas um pouco mais baixas, a conclusão dos cientistas foi que, sim, nessa queda de braço quem costuma ganhar é o gado, e não o homem. Os produtores tendem a privilegiar a cadeia estabelecida do negócio bovino, em vez de destinar os grãos para a cerveja. 

Plantação em Qinghai (China), a 3,000 metros acima do nível do mar.

O mesmo modelo ainda aponta como diferentes regiões do mundo devem reagir a seu modo diante da redução da produtividade de cerveja. Países mais ricos e amantes da bebida, como Bélgica, Dinamarca, Polônia e Canadá, por exemplo, devem resolver a equação subindo o preço final. 

Nesse cenário, um pacote de seis cervejas comuns pode chegar a custar o equivalente a US$ 20 (R$ 75, na cotação atual), conforme estima o estudo - mesmo assim, populações de nações desenvolvidas talvez conseguissem absorver tal custo. Na média, conforme aponta o estudo, o preço da cerveja deve dobrar. A pesquisa considera que em casos de queda de 4% da produção de cevada, a bebida acaba custando 15% a mais. 

Por outro lado, em países de população mais pobre, como a China e o Brasil, o consumo de cerveja tende a cair. 

As projeções indicam que o fornecimento de cerveja em todo o mundo deve cair cerca de 16%. Segundo os pesquisadores, isso equivaleria a todo o consumo de cerveja dos Estados Unidos

O que fazer a respeito?

A cerveja é considerada a terceira bebida mais consumida no mundo - e a primeira entre as alcoólicas -, só perdendo para a água e para o café. São 182 bilhões de litros por ano. 

Se na média global, a produção de cerveja responde por 17% das lavouras de cevada, essa parcela varia muito conforme a região. No Brasil, por exemplo, onde não é comum alimentar gado com cevada, 83% do cereal cultivado é destinado para a produção da bebida. Na Austrália, esse número é de apenas 9%. 

As projeções indicam que o fornecimento de cerveja em todo o mundo deve reduzir em cerca de 16%. Segundo os pesquisadores, isto equivaleria a todo o consumo de cerveja dos Estados Unidos.

"Nosso estudo se concentrou na cevada, que é o principal ingrediente da cerveja. Analisamos a frequência com que vemos condições precárias para cultivar cevada em todo o mundo - anos com calor extremo e seca severa. Esses eventos extremos são muito mais difíceis para os agricultores se adaptarem do que as mudanças médias no clima", disse à BBC News Brasil o pesquisador Nathan Mueller, professor do Departamento de Ciências da Terra da Universidade da Califórnia

"Descobrimos que a incidência e a gravidade dos eventos extremos aumentam substancialmente à medida que as temperaturas médias globais sobem. Combinando um modelo de safra e um modelo da economia global de alimentos, podemos estimar as mudanças nos preços e no consumo de cerveja em todo o mundo resultantes desses eventos extremos." 

Mueller dá uma solução para que a estiagem não chegue aos nossos pobres copos: conscientização ambiental. 

"Se conseguirmos diminuir nossas emissões de gases de efeito estufa e limitar a magnitude geral das mudanças climáticas, ajudaremos a evitar os piores cenários que simulamos nesta análise", vislumbra. "Note que, enquanto os aumentos de preço em uma garrafa de cerveja são modestos em uma perspectiva de baixas emissões de carbono, eles realmente aumentam substancialmente em um mundo de alta emissão."

Por: Edison Veiga (BBC News).

“Fatberg”, Um Problema Crescente e Invisível nas Redes de Esgoto

As obstruções devido a gorduras e óleos de cozinha (fat, oil and grease, FOG) são a fonte de um problema global crescente nos sistemas de esgoto, que surge como resultado de mudanças em nossos hábitos alimentares, de higiene e domínio da cultura atual em utilizar e descartar. 

A sua acumulação na rede de esgotos deu origem ao termo "Fatberg", que foi admitido pelo dicionário Oxford em 2015 e significa literalmente "bloco de gordura". 

Essas gorduras originárias da descarga de efluentes residenciais, restaurantes e indústrias alimentícias, causam obstruções no sistema de esgoto das cidades, que podem levar ao transbordamento ou inundação. A liberação desses efluentes não tratados podem entrar em contato com a população, águas superficiais, etc., causando sérios riscos à saúde e ao meio ambiente. 

A agência ambiental americana [1] (Environmental Protection Association, EPA), estimou que nos Estados Unidos, pelo menos 36.000 transbordamentos de efluentes não tratados ocorrem anualmente, procedentes dos sistemas de esgoto, dos quais aproximadamente 47% são devido aos FOGs

Do mesmo modo, no Reino Unido, dos 25.000 incidentes deste tipo que são registrados por ano, 50% são devido aos depósitos de FOGs. Além disso, em países como a Malásia e Indonésia, onde ocorre a produção em massa de óleo de palmeira, gerando descarga de efluentes com alto teor de FOG, este problema é agravado [2-4]

O debate social sobre este tipo de contaminação foi lembrado recentemente após a detecção do chamado "fatberg" de Whitechapel, a leste de Londres em setembro de 2017

É considerado o maior depósito de gordura identificado até agora no Reino Unido, com um comprimento de 240 metros e 130 toneladas de peso, já conhecido entre os britânicos como o monstro de Whitechapel [5]

Para promover a conscientização social sobre esses resíduos, o museu de Londres abriu de 9 de fevereiro a 1° de julho de 2018, a exposição "Fatberg!", com amostras do mesmo [5-6]. 

Definição e composição dos FOGs

Os chamados FOGs são subprodutos de cozinha gerados em restaurantes e indústrias de alimentos, que incluem principalmente resíduos alimentares e óleo de cozinha. 

Correspondem a um grupo heterogêneo de compostos formados principalmente por tri-, di- e glicéridos (glicerol e ácidos graxos), esteróis, hidrocarbonetos não voláteis, ceras e outros lipídios complexos [4]

Os efluentes lançados em áreas residenciais que contêm, além de resíduos humanos, lenços umedecidos, produtos de higiene pessoal, etc., favorecem o acúmulo e a formação desse bloco de gordura ou "fatberg" no esgoto. 

A análise laboratorial da composição de amostras de "fatbergs" identificadas em Londres [5] revelou que 90% de sua composição, além dos dejetos humanos, correspondem às gorduras utilizadas nas cozinhas; e os outros 10% são resíduos de plástico, cotonetes, seringas, fraldas, lenços umedecidos e até mesmo algumas marcas rotuladas como descartáveis, que não podem ser biodegradáveis no esgoto. 

Isso está relacionado a mudanças nos hábitos alimentares, uma vez que o consumo de frituras e de refeições em restaurantes estão se tornando mais frequentes. De fato, as concentrações máximas de FOG em efluentes tradicionalmente correspondiam a valores de 50-150 mg/L [7]; no entanto, esses valores foram significativamente ultrapassados [8]

Note que esta análise também identificou uma alta concentração de suplementos esportivos, como hordenina e ostarina, proibidos pela Agência Mundial Antidoping. Bactérias potencialmente infecciosas, como Listeria monocytogenes, Escherichia coli e Campylobacter jejuni também foram observadas. 

O mais preocupante é que bactérias potencialmente infecciosas foram detectadas com resistência a antibióticos [5]

Origem dos FOGs na rede de esgotos

Esses compostos são introduzidos na rede de esgotos por descarga direta, como ocorre em áreas residenciais, ou pelo descarte de óleo e gordura das unidades de remoção instaladas em muitos restaurantes. 

Essas caixas de gordura, são projetadas para remover por gravidade a maioria dos FOGs na água antes da descarga. No entanto, sua eficiência depende da frequência de manutenção. 

A eficácia destes separadores também depende do tamanho das gotas de gordura. A eficiência da separação é alta quando o tamanho é maior que 150 μm [um micrômetro equivale à milésima parte de um milímetro]. No entanto, nas fases de limpeza de restaurantes ou indústrias alimentícias com base no uso de detergentes ou lavagens de alta temperatura, os FOGs são emulsificados, resultando em tamanhos de gotas inferiores a 150 μm, e não podem ser retidos por essas caixas de gorduras [4] 

Investigações realizadas pela empresa Thames Water, em Londres, relacionou os locais do "fatberg" identificados com as áreas onde há um elevado número de restaurantes na cidade, apontando este tipo de estabelecimento como os principais focos de geração e acumulação de óleo e gordura [5]. Portanto, um cliente pode exigir não só a qualidade da sua alimentação, como também tem o direito de saber se a cozinha de um restaurante é "amiga do esgoto" antes de pagar pela refeição. 

Uma vez que os FOGs atingem as tubulações, eles se encontram em ambiente alcalino reagindo com lenços umedecidos, fraldas, etc., através do processo de saponificação, formando uma massa (sais de ácidos graxos) calcificada insolúvel em água devido à presença de cálcio nos efluentes. 

Estes correspondem aos depósitos de FOGs [2-4, 8-9]. Esta reação de saponificação, pode ser favorecida devido ao uso de detergentes e desinfetantes que contêm uma alta quantidade de hidróxido de sódio (NaOH). 

Outros estudos sugerem, que o aumento na concentração de cálcio em efluentes poderia ser devido à corrosão nos tubos de concreto [4], uma consequência possível dos sistemas de esgoto antigos, como em Londres ou com baixa manutenção. No entanto, um número maior de estudos é necessário para entender claramente os fatores e mecanismos que afetam a formação de FOGs nas tubulações da rede de esgoto. 

Efeitos dos depósitos de FOGs

Esses depósitos estão causando problemas consideráveis à atual infraestrutura de efluentes nas cidades, gerando perdas econômicas milionárias por ano, devido à rápida deterioração da rede de esgotos. O problema é agravado se estes efluentes não tratados, com poluentes potencialmente nocivos, conseguem ascender através das tubulações domésticas ou comerciais através de obstrução das tubulações principais da rede de esgotos. Este fato levaria a situações de risco à saúde da população e à contaminação de águas superficiais (rios, lagos), que poderiam gerar a eutrofização, que afetam os ecossistemas aquáticos. 

Efluentes com alta concentração de FOGs também podem afetar a tubulação das estações de tratamento de esgoto e, portanto, também a eficácia de suas operações de tratamento. Além disso, os FOGs eventualmente seriam depositados no lodo, tornando-os mais viscosos e reduzindo a eficiência dos processos de desidratação de lodo [4]

Depósitos de FOGs são acumulados principalmente em aterros de resíduos sólidos, o que poderia levar a problemas ambientais adicionais, uma vez que a condutividade hidráulica do solo poderia ser reduzida [4]

Métodos de controle

Atualmente, como método de controle dos depósitos de FOGs, apenas as caixas de gordura são utilizadas em restaurantes, como um passo anterior à descarga de seus efluentes no sistema de esgoto, conforme dito anteriormente. No nível doméstico, existem caixas separadoras para depositar óleo de cozinha usado. 

A revisão no projeto de rede de esgotos, poderia ser uma alternativa [10] para reduzir o acúmulo de FOGs

Em relação ao tratamento biológico dos FOGs uma vez formados, (I) existem estudos de compostagem que alcançaram uma redução de 70% nos lipídios após 10 dias, enquanto o conteúdo de sólidos voláteis foi reduzido em apenas 20% [4]

Outros estudos que obtiveram eficiência na eliminação de FOGs elevados são baseados em bioaumento (II). Foram utilizados microrganismos que produzem lipases, enzimas responsáveis pela desintegração das gorduras, que poderiam ser adicionados em áreas específicas ou diretamente na tubulação [4]

A reutilização de FOGs para transformar esse resíduo em biodiesel já está acontecendo. Como exemplo, a empresa Argent Energy, na costa noroeste da Inglaterra, é uma das pioneiras. 

No entanto, apenas 24-40% das conversões são obtidas [11]. O alto conteúdo de FOGs em ácidos graxos livres (mais de 15%), como consequência do processo de fritura do óleo de cozinha, favorece a formação de sais de ácidos graxos na presença de catalisadores básicos, inibindo a separação entre o biodiesel e o glicerol, dificultando assim o processo de transesterificação para obtenção de biodiesel [4]

Assim, mais esforços devem ser direcionados para desenvolver principalmente métodos de prevenção, bem como métodos de controle, tratamento e reutilização de FOGs, ambientalmente e economicamente eficientes.

Bibliografia

[1] United States Environmental Protection Agency (EPA), Report to Congress (EPA 833-R-04-001): Impact and Control of CSOs and SSOs. www.epa.gov/npdes (Consultado en Mayo, 2018). 

[2] Southerland R., 2002. Sewer fitness: cutting the fat. Am. City Country 117 (15), 27-31. 

[3] Iasmin M., Dean L.O., Lappi S.E., Ducoste, J.J., 2014. Factors that influence properties of FOG deposits and their formation in sewer collection systems. Water Res. 49, 92-102. 

[4] Husain I. A. F., Alkhatib M. F., Jammi M. S., Mirghani M.E.S., Zainudin Z.B., Hoda A., 2014. Problems, Control, and Treatment of Fat, Oil, and Grease (FOG): A Review. J. Oleo Sci. 63 (8), 747-752.

[5] The Guardian, disponible en: https://www.theguardian.com/uk-news/2018/apr/24/fatberg-autopsy-reveals-growing-health-threat-londoners (Consultado en Mayo, 2018). 

[6] The Guardian, disponible en: https://www.museumoflondon.org.uk/discover/exhibiting-fatberg-monster-whitechapel (Consultado en Mayo, 2018). 

[7] Metcalf & Eddy, 2003. Wastewater Engineering: Treatment and resource Recovery (4th edit.). Mc Grow Hill, EE.UU. 

[8] Mattsson J., Hedström A., Ashley R.M., Viklander M., 2015. Review Impacts and managerial implications for sewer systems due to recent changes to inputs in domestic wastewater: A review. J. Environ. Manage. 161, 188-197. 

[9] He X. de los Reyes F.L., Ducoste J.J., 2017. A critical review of fat, oil, and grease (FOG) in sewer collection systems: Challenges and control. Crit. Rev. Env. Sci. Technol. 47 (13), 1191-1217.

[10] Dominic C.C., Szakasits M., Dean L.O., Ducoste, J.J., 2013. Understanding the spatial formation and accumulation of fats, oils and grease deposits in the sewer collection system. Water Sci Technol. 68 (8), 1830-1836. 

[11] Independent, disponible en: https://www.independent.co.uk/news/long_reads/fat-powered-buses-are-coming-to-a-street-near-you-a7882171.html (Consultado en Mayo, 2018).

Por: Cristina Pablos (Madri+D). Tradução: Gheorge Patrick Iwaki (Portal Saneamento Básico).

Diversidade de Árvores é Três Vezes Maior nas Áreas Úmidas da Amazônia


Lago colonizado por mungubeiras (Pseudobombax munguba), que no período das cheias dos rios perdem todas as suas folhas e ficam repletas de frutos. Essa árvores toleram ficar até seis meses por ano em local alagado. Foto: Thiago Silva.

Pesquisa revela que regiões da Amazônia que passam cerca de metade do ano embaixo d'água têm muito mais espécies de árvores do que se imaginava.

Entre as muitas fisionomias que existem na Floresta Amazônica, as chamadas áreas úmidas, que passam cerca de metade do ano embaixo d'água e a outra metade praticamente na seca, sempre foram consideradas locais de situação limite, que somente abrigariam espécies capazes de tolerar essas condições. Um novo trabalho científico revela que são locais muito mais ricos, com três vezes mais espécies de árvores do que se imaginava antes. 

O estudo, realizado por pesquisadores da Unesp de Rio Claro (SP), aponta que habitats como igapós, pântanos, campinas alagadas, mangues, além das várzeas ao longo de planícies inundáveis e que margeiam nascentes contam com pelo menos 3.615 espécies de árvores, configurando a maior diversidade em áreas úmidas no mundo. 

O número é resultante de um amplo trabalho de revisão de inventários florestais e dados de coleções biológicas que nunca tinham sido contabilizados juntos. Até então, eram contadas apenas espécies encontradas ao longo das planícies dos chamados rios de água branca, como Solimões e Amazonas

O novo trabalho incluiu várias outras paisagens e rios e seus afluentes como Purus, Juruá e Madeira. E surpreende porque revela que muito mais árvores da Amazônia têm essa capacidade de adaptação ao difícil regime hidrológico imposto. 

O trabalho, publicado no periódico PLoS One [The tree species pool of Amazonian wetland forests: Which species can assemble in periodically waterlogged habitats?] e destacado pela Agência Fapesp, calcula que o total de espécies das áreas úmidas amazônicas compreende 53% das 6.727 espécies confirmadas em estudo mais recente da flora arbórea da Amazônia.


Flor e fruto em desenvolvimento de Gustavia augusta (cachimbo ou catoré-mucura), uma das espécies da familia Lecythidaceae que forma as florestas em áreas úmidas da Amazônia. Foto: Bruno Luize.

Isso chama a atenção porque as áreas úmidas compreendem apenas 30% dos 7 milhões de km² da Amazônia, o que indica que há um intercâmbio entre as espécies de terras secas com as de terras úmidas. 

Não é um comportamento homogêneo, porque o regime de inundação também varia em cada região. Alguns locais passam muito mais tempo embaixo d'água do que outros, de modo que as espécies também variam conforme a tolerância em relação a esses regimes. 

"Ninguém esperava que metade de todas as espécies de árvores da Amazônia estivesse em ambientes mais restritivos, que requerem mais adaptações", comenta Thiago Sanna Freire Silva, professor no Departamento de Geografia da Unesp e coordenador da pesquisa.

 Interior da floresta após a enchente. O solo ainda encharcado e as plântulas (embriões das árvores) voltam a encontrar o sol após meses submersas Foto: Bruno Luize.

"As florestas de áreas úmidas são importantes para a Amazônia como um todo. Um grande número de espécies listadas em nosso estudo produz frutos que servem de alimento para os peixes, mantendo saudável o estoque pesqueiro. Estas árvores também são importante recurso madeireiro para a população da região", explica Bruno Garcia Luize, primeiro autor do artigo e doutorando no Instituto de Biociências da Unesp

"Não menos importante, as árvores que formam as florestas em áreas úmidas auxiliam a manter a dinâmica fluvial dos rios da Amazônia, reduzindo a sedimentação e assoreamento dos rios e possibilitando a infiltração da água para as camadas subterrâneas", continua o pesquisador. "Estas áreas úmidas apresentam um desafio importante para a conservação ao permitir que haja uso e conservação da biodiversidade integrando a riqueza cultural e natural que há." 

Ameaças

A riqueza de espécies nessas áreas lança um alerta porque, em um cenário futuro de mudanças climáticas, pode haver inundações mais prolongadas, assim como secas mais intensas, o que pode causar um colapso entre as espécies que se adaptaram ao delicado equilíbrio que existe hoje. 

"As simulações têm mostrado que a amplitude vai aumentar: vai encher mais e secar mais. Se a estação seca aumentar muito, pode começar a favorecer somente as espécies que ainda vivem em terra firme e toleram um pouco de inundação, mas não muita. Isso pode ter um impacto enorme, ao promover uma homogeneização da biodiversidade de árvores", afirma Silva

Outra ameaça que essas vegetações já vêm sentido é com as mudanças de regime hídrico promovidas pelas hidrelétricas. "As barragens modificam o pulso da inundação. Pesquisadores do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) já têm visto uma mortalidade enorme de algumas espécies, porque se muda o curso da inundação. Vai alterando a composição da biodiversidade", complementa. 

Segundo o pesquisador, isso acaba tendo impacto também sobre as populações que dependem de recursos como peixe, por exemplo. "Grande parcela da população da região depende da várzea para subsistência. A colonização da Amazônia se deu por via fluvial. São áreas muito particulares, então merecem atenção."

Por: Giovana Girardi (O Estado de S. Paulo).

Títulos Minerários Em Áreas Protegidas São Risco Potencial

Área danificada pela mineração no Parque Nacional do Tumucumaque, no Amapá. Foto: Zig Koch/WWF.

Estudo do WWF-Brasil divulgado em 09/10/2018 - Relatório Mineração na Amazônia Legal - identificou nas Terras Indígenas e Unidades de Conservação (UC's) de proteção integral na Amazônia 5.675 processos de exploração mineral ativos, que vão de pedidos de pesquisa a autorizações de lavra. A sobreposição de um volume grande de títulos minerários em áreas protegidas dá a dimensão da pressão por redução de tamanho ou de status de proteção que essas áreas enfrentam, além da pressão por liberar a atividade, restrita hoje ao garimpo ilegal. 

O estudo cruzou dados dos títulos minerários ativos da Agência Nacional de Mineração (ANM) com as poligonais das Terras Indígenas e das Unidades de Conservação na Amazônia Legal. O trabalho levou em conta informações constantes nas bases da ANM, da Fundação Nacional do Índio e do Ministério do Meio Ambiente

Apenas uma parcela dos títulos minerários encontra-se bloqueada pela ANM, responsável por autorizar a atividade mineral em todo o país. A legislação atual proíbe a exploração mineral em Terras Indígenas sem expressa autorização do Congresso e em Unidades de Conservação de proteção integral, Reservas Extrativistas ou Reservas Privadas do Patrimônio Natural. Nas demais UC's de uso sustentável do país, a exploração de minérios depende de previsão nos planos de manejo. 

A agência informou que o bloqueio de pedidos de pesquisa ou mesmo autorizações de lavra já concedidas em Terras Indígenas e UC's de proteção integral é automático em seu banco de dados. Mas o estudo identificou que o bloqueio alcança 24% dos títulos nas UC's de proteção integral federais, 46%, nas UC's estaduais e 76% dos títulos nas Terras Indígenas. Há muitos requerimentos de pesquisa e lavra ativos e áreas consideradas de futura disponibilidade para mineração. 

Análise complementar nas áreas protegidas vedadas à mineração onde o estudo detectou autorizações de lavra ativas revelou que os títulos não correspondiam à exploração legal de recursos minerais. É o caso, por exemplo, do Parque Nacional Mapinguari, criado em 2008 numa área de quase 18 mil quilômetros quadrados na divisa do Amazonas com Rondônia, numa área de pressão por desmatamento. O estudo identificou autorizações para a exploração de minério de ouro e cassiterita concedidas a três empresas. O gestor do parque informou que os títulos caducaram, mas revelou a pressão sofrida pela exploração mineral na borda da UC

A Funai reconhece que há várias autorizações de concessão de pesquisa mineral e autorizações de lavra dentro de Terras Indígenas. Mas alega que a efetiva exploração ou mesmo a pesquisa dependem da regulamentação do artigo 231 da Constituição. Esse artigo diz que a pesquisa e a lavra de minérios em Terras Indígenas só podem ser feitas mediante autorização do Congresso Nacional e ouvidas as comunidades na forma como a lei definir. 

A área mais extensa sob ameaça em Unidades de Conservação é o Parque Nacional do Monte Roraima, na fronteira do Brasil com a Venezuela e a Guiana. A área impactada por títulos minerários em diferentes estágios é de 477 quilômetros quadrados, equivalente a 40% da área total da UC de proteção integral. 

No ranking, é seguido pelos parques nacionais do Jamanxim e Serra do Pardo, no Pará, onde foram registrados requerimentos e processos de pesquisa autorizada para a exploração de ouro, minério de ouro e cobre e minério de platina. 

A área indígena mais ameaçada em extensão é a Terra Indígena Yanomami, na fronteira com a Venezuela. Quase cem pedidos alcançam uma área de 11 mil quilômetros quadrados, pouco mais de 10% do território homologado em 1992 e onde já foi detectada a presença de garimpo ilegal. A lista de minérios cobiçados nessa área é grande. A Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, aparece na sequência no ranking das mais ameaçadas. 

"Num momento em que aumentam as pressões para impedir a criação e reduzir o tamanho e o status de proteção de Unidades de Conservação no país, a existência de pedidos de pesquisa e autorizações de lavra, ainda que suspensas, representam um risco potencial", destaca o diretor executivo do WWF-Brasil, Maurício Voivodic

A abertura de Terras Indígenas à exploração mineral também é uma ameaça latente, objeto de projeto de lei que tramita no Congresso Nacional desde 1996, de autoria do senador Romero Jucá (MDB-RO). "Se aprovado, o projeto colocará em risco a floresta e os modos tradicionais de vida dos povos indígenas", prevê Jaime Gesisky, especialista em Políticas Públicas do WWF-Brasil, coordenador do estudo. 

Garimpo 

Completa o quadro de ameaça apontado pelo WWF-Brasil, um estudo recente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), segundo o qual o garimpo ilegal se transformou num dos principais vetores de desmatamento nas Unidades de Conservação, inclusive no Parque Nacional Mapinguari

Ainda que não seja objeto desse estudo, o garimpo ilegal já é oficialmente reconhecido como um importante vetor de desmatamento das áreas protegidas na Amazônia. A indicação da presença de minérios em seus territórios pode estimular a expansão do garimpo ilegal, que cada vez mais exige esforços na área de fiscalização e controle. 

"Por esse motivo, recomendamos o rápido indeferimento e caducidade dos requerimentos e títulos no âmbito das áreas protegidas, visando minimizar a corrida por minérios e expansão da atividade ilegal nessas áreas", sugere Jaime Gesisky

Além dos danos ambientais e do risco de contaminação, o garimpo ilegal financia a grilagem de terra e episódios de violência, como os registrados em 2017 em Humaitá (AM), após a fiscalização ambiental coibir o garimpo no Rio Madeira.

Fonte: WWF-Brasil.

Proteína de Planta Brasileira Inibe Progressão do Câncer de Mama Triplo-Negativo

Um dos tumores mais agressivos e para o qual houve menos avanços no desenvolvimento de terapias nos últimos anos, o câncer de mama triplo-negativo ainda não conta com um tratamento específico e um agente que consiga combatê-lo. 

Uma proteína extraída de sementes de árvores da espécie Enterolobium contortisiliquum – conhecida popularmente como tamboril ou orelha-de-macaco – pode ser a esperança para o tratamento dessa doença, no futuro. 

Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) constataram durante um estudo, apoiado pela FAPESP, que a proteína é capaz de inibir a migração e a metástase de câncer de mama triplo-negativo e de outros tipos de tumor, como o gástrico e o de pele (melanoma). 

Os resultados foram apresentados por Maria Luiza Vilela Oliva, professora da Unifesp e coordenadora da pesquisa, em palestra na FAPESP Week Belgium. O encontro, que está sendo realizado em Bruxelas, de 8 a 10 de outubro de 2018, reúne pesquisadores brasileiros e belgas com o objetivo de estreitar parcerias em pesquisa. 

"Constatamos que a proteína inibe a invasão, a proliferação e a metástase de tumor de mama triplo-negativo em testes in vitro [em células] e, no caso do melanoma, tanto em modelo in vitro como in vivo [em animais]", disse Oliva à Agência FAPESP

Denominada Enterolobium contortisiliquum inibidor de tripsina (EcTI, na sigla em inglês), a proteína foi isolada por Oliva durante seu doutorado, no final da década de 1980. 

A partir daquela época a pesquisadora começou a tentar isolar de sementes de leguminosas da flora brasileira outras moléculas inibidoras de proteases – enzimas capazes de quebrar as ligações peptídicas de outras proteínas. 

Essas enzimas estão envolvidas em diversos processos biológicos, como inflamação, hemostasia (prevenção e interrupção de sangramentos e hemorragias), trombose e desenvolvimento tumoral, além de outros processos que envolvem microrganismos patológicos, explicou Oliva

Pesquisadores da Unifesp constataram que molécula isolada do tamboril é capaz de inibir a migração e metástase desse tumor agressivo, além do gástrico e o de pele; estudo foi apresentado na FAPESP Week Belgium (foto: Steve Hurst/USDA-NRCS PLANTS Database/Wikimedia Commons).

"Temos estudado os efeitos fisiopatológicos dessas proteínas isoladas de leguminosas em alguns tipos de câncer na tentativa de descobrir novos agentes que possam, se não curar, ao menos ajudar a entender a patologia dessas doenças", afirmou. 

Além de isolar, os pesquisadores têm conseguido determinar a estrutura dessas proteínas, modelá-las e obter peptídeos sintéticos a partir delas. 

As análises dessas moléculas em diferentes modelos fisiopatológicos, como de inflamação, trombose e tumor, tanto in vivo como in vitro, indicaram que, além de antitumoral, elas apresentam propriedades anti-inflamatória, antimicrobiana e antitrombótica. 

"O tumor, a inflamação e a trombose são patologias que estão de certa forma interligadas, porque às vezes o paciente com câncer pode morrer não por causa da doença, em si, mas em decorrência de um quimioterápico que pode levar ao desenvolvimento de uma trombose", avaliou. 

Além de ter ação antitumoral, a proteína EcTI, que foi patenteada, também demonstrou ser capaz de inibir a trombose arterial e a venosa, afirmou a pesquisadora.

Por: Elton Alisson (Agência Fapesp).

Pesquisas Sobre Crescimento Econômico Sustentável Levam Nobel de Economia

Os americanos William Nordhaus e Paul Romer estudam como a economia de mercado interage com a natureza e com o conhecimento. 

Para equilibrar o desenvolvimento econômico e a conservação ambiental no planeta, a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento definiu, em 1987, o crescimento sustentável como "o desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender às necessidades das gerações futuras". 

Basicamente, crescimento sustentável é o avanço econômico que garante a preservação do meio ambiente e preza pelo desenvolvimento social da população mundial. Aplicado às inovações tecnológicas, esses princípios estão mudando o mercado. E, nos 50 anos do Nobel de Economia, a Academia Real Sueca de Ciências dá o prêmio para dois economistas americanos que propuseram modelos inovadores para essa área. 

"Os laureados deste ano desenvolveram métodos para abordar uma das questões mais básicas do nosso tempo: como criamos um crescimento econômico sustentável a longo prazo", afirmou a Academia no comunicado divulgado em 08/10/2018, em Estocolmo

William Nordhaus, de 77 anos, é pioneiro em estudos sobre economia ambiental desde os anos 1970. Ele foi reconhecido por seu trabalho na aplicação de análises econômicas e previsões de mudanças climáticas. 

O premiado foi a primeira pessoa a criar um modelo que descreve a interação global entre a economia e o clima, em meados da década de 1990. O modelo utiliza conhecimentos de química, física e economia – para explorar possíveis efeitos da política em questões climáticas. 

Enquanto seu próprio país está fora de medidas internacionais para reduzir a emissão de dióxido de carbono, como o Acordo de Paris, foi Nordhaus que criou o método da taxação de carbono (as empresas pagam impostos sobre o carbono emitido na atmosfera). Hoje, a tributação já é generalizada em toda a Europa

"Suas descobertas ampliaram significativamente a análise econômica, ao criar modelos que explicam como a economia de mercado interage com a natureza e o conhecimento", disse a Academia

Já o outro laureado é Paul Romer. Com 62 anos, ele conseguiu demonstrar que o conhecimento pode funcionar como um impulsionador do crescimento econômico a longo prazo. 

O trabalho mais influente de Romer, publicado em 1990, lançou as bases da Teoria do Crescimento Endógeno. A tese dele mostra como políticas que promovem pesquisa, desenvolvimento e educação estimulam o desenvolvimento tecnológico – e como isso interfere diretamente na melhoria do mercado. Seus estudos demonstram a importância do investimento em pessoas e idéias para promover o crescimento econômico, numa época em que economistas acreditavam que era impossível influenciar a taxa de inovação tecnológica. Não era. 

E isso se aplica diretamente às teorias de crescimento sustentável: "Muitas pessoas acham que proteger o meio ambiente será tão caro e tão difícil que apenas querem ignorar o problema", disse ele por telefone na cerimônia de premiação. "Espero que o prêmio hoje possa ajudar a todos a ver que os seres humanos são capazes de realizações incríveis." 

Um fato curioso é que Romer está há anos cotado para ganhar o prêmio. Em 2016, ele chegou a receber o Nobel por engano — à la Miss Colômbia [coroada equivocadamente no Miss Universo 2015] –, mas a Academia logo se retratou informando o erro. Dessa vez não teve erro, ele foi merecidamente premiado.

Por: Ingrid Luisa (Superinteressante).

Chega De Ilusão, O Clima Só Vai Piorar

Nordeste: seca histórica já dura seis anos e ameaça tornar-se regra no semiárido. Foto: Avener Prado / Folhapress.

Chance de aquecimento ficar abaixo de 1,5° é nula, indica relatório, mas não dá para relaxar. O Acordo de Paris (2015) definiu que o ideal seria o aumento da temperatura média da atmosfera terrestre não ultrapassar 1,5°C. Decidiu-se então que o IPCC (Painel Intergovernamental Sobre Mudança do Clima, na sigla em inglês) faria um relatório acerca desse limiar de risco, documento publicado em 08/10/2018.

Sem entrar em detalhes científicos enfadonhos, a conclusão dos 86 especialistas, depois de examinar mais de 40 mil comentários sobre o texto: vai ser muito difícil ficar aquém disso, um limite considerado menos ameaçador que os 2°C adotados como teto.

Observar esse limite inferior faria com que o nível do mar subisse 10 centímetros a menos, até o ano 2100, que foi previsto antes (98 cm, no pior cenário, mas há estudos falando em até 6 metros ao longo de séculos). A diferença poderia significar até US$ 1,5 trilhão a menos de prejuízos com enchentes e ressacas, segundo compilação da iniciativa Carbon Brief.

Não é o caso de levar muito a sério esses números, porque se baseiam numa enormidade de suposições sobre a economia mundial, mudanças de tecnologia e sua interação complexa com o sistema climático. Mas são os únicos à mão e servem para dar ideia da escala do problema à frente.

Uma possibilidade alarmante para o Brasil e boa parte da América do Sul seria o ressecamento da Amazônia, com a floresta chuvosa revertendo a formações mais secas, semelhantes ao Cerrado. Baixar a zero o desmatamento, uma das maiores fontes de emissões brasileiras de gases do efeito estufa, preservaria essa biodiversidade e daria contribuição importante para suavizar a mudança climática.

O setor de energia mundial teria de dar um triplo twist carpado nos próximos 15 ou 20 anos. Seria preciso abandonar o investimento em combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural) em favor de energia eólica e solar, com armazenamento em mega instalações de baterias e eletrificação dos transportes.

A hipótese de isso acontecer, a julgar pela trajetória atual, parece nula. A demanda global por petróleo vem subindo à taxa de 1,5% ao ano, quando deveria diminuir. Após três anos mais ou menos estacionada, a emissão de dióxido de carbono pela queima de combustíveis fósseis voltou a crescer em 2017.

As fontes renováveis alternativas são as que mais avançam, inclusive aqui, mas não em ritmo suficiente. Pelas projeções do IPCC, há alta probabilidade de revelar-se imprescindível o recurso a tecnologias ainda não comprovadas para retirar carbono da atmosfera, e não só deixar de emiti-lo.

Por exemplo, fazer uso intensivo de biomassa e biocombustíveis para gerar energia e ainda filtrar o CO2 do ar e enterrá-lo nas profundezas do solo. Ou mesmo, como propõem os fãs de ficção científica, lançar artefatos em órbita para bloquear radiação solar.

Há experiências localizadas bem-sucedidas nessa direção, mas o mundo segue fora da rota capaz de generalizá-la. Mesmo cumpridas todas as promessas feitas em Paris, a atmosfera ainda iria aquecer-se algo em torno de 3°C, talvez 4° - uma temeridade.

Nem as metas de Paris estão garantidas. Alemanha e Reino Unido, até há pouco paladinos do combate ao aquecimento global, arriscam não cumprir suas metas.

Nos Estados Unidos, maior poluidor climático da história, Donald Trump mandou o acordo às favas, coisa que seu imitador menos bem-dotado [Jair Bolsonaro] também promete fazer por aqui. Na China, maior emissor de CO2 do presente, o consumo de carvão mineral segue em alta.

Por ironia, o próximo encontro de negociação internacional sobre o Acordo de Paris, COP24, ocorrerá em Katowice, no coração carbonífero da Polônia. Mas quem sabe ainda vai ficar pior: um presidente brasileiro aloprado pode levar a reunião seguinte, COP25, para Novo Progresso (PA), onde reinam grileiros, garimpeiros e incendiários.

Chegou a hora de pôr a conversa mole de lado e encarar a realidade: não há chance de o clima melhorar tão cedo. Mas também não é motivo para abater-se, cruzar os braços e deixar de fazer o que for possível para minimizar os danos: 4°C serão muito piores que 2°C, assim como oito anos de um governo desastroso sempre serão piores que quatro.

Por: Marcelo Leite (Folha de S. Paulo).