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Pesquisadores Brasileiros Fabricam Fogão Solar Para Substituir Botijão de Gás

Produzido com sucata, o fogão transforma radiação solar em casa criando efeito estufa para esquentar os alimentos.

Num dos corredores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), um equipamento cheio de espelhos reflete a luz do sol. O objeto, que lembra uma antena parabólica, é um fogão solar. 

Além dele, existem outras peças semelhantes espalhadas no ambiente. São protótipos de fornos, fogões e secadores desenvolvidos no laboratório de máquinas hidráulicas do curso de Engenharia Mecânica, coordenado pelo professor Luiz Guilherme Meira de Souza, que pesquisa a energia solar há 40 anos - 37 deles, na UFRN

Os equipamentos, construídos com sucata, espelhos e outros materiais de baixo custo, podem ser alternativas viáveis para substituir o botijão de gás, assegura o pesquisador. Nos últimos 12 meses, o preço do botijão de gás aumentou muito acima da inflação e já consome até 40% das rendas das famílias mais pobres. 

A ideia do fogão é simples: transformar a radiação solar em calor, criar um efeito estufa e usar esse calor para aquecer água, cozinhar, secar ou assar os alimentos. 

Um dos experimentos, por exemplo, é um forno que teve um custo total de R$ 150 reais - valor equivalente a cerca de duas recargas de botijões de gás. O equipamento assou nove bolos ao mesmo tempo em uma hora e meia, somente com a energia captada da luz solar. Um forno convencional seria vinte minutos mais rápido, mas não teria capacidade para tantas assadeiras. 

Idealizado pelo engenheiro Mário César de Oliveira Spinelli, 31 anos, o forno foi feito com MDF - uma chapa com fibras de madeira - espelhos e uma placa de metal, combinação de resina sintética com malha de ferro. 

"A grande questão era: com essa área tão grande será que a gente vai conseguir assar todos os alimentos? Porque a carga também era muito grande. E a gente colocou e foi perfeito. Vimos que era viável", pontuou Spinelli, que fez da experiência seu objeto de mestrado na UFRN em 2016. 

Sustentabilidade 

Há cinco anos, o engenheiro Pedro Henrique de Almeida Varela também defendeu o tema Viabilidade Térmica de Um Forno Solar Fabricado Com Sucatas de Pneus em sua dissertação de mestrado na universidade potiguar. Além dos pneus, Varela também utilizou latinhas vazias de cerveja e uma urupema, espécie de peneira indígena, para fazer o protótipo solar. 

Durante os testes, foram assados vários alimentos: pizza, bolo, lasanha e até empanados. O resultado foi satisfatório.



Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte conseguiram cozinhar uma série de alimentos no fogão com energia solar.

"Quando eu fiz o primeiro bolo, eu comi e fiquei realizado. Porém, é uma decepção ser mais um projeto que ficou na prateleira da universidade. Mas só em saber que dá certo, deixa a pessoa com a sensação de que é uma alternativa viável feita com produtos que estavam sendo descartados." 

Varela destacou na pesquisa que em países da África e da Ásia o governo tem incentivado o uso de fogões solares pela população para diminuir o consumo de lenha e os impactos ambientais. 

Viabilidade 

De acordo com o professor Luiz Guilherme, no Brasil, a Universidade Federal de Sergipe (UFS) conseguiu levar essa ideia para algumas comunidades pobres. 

Afinal de contas, se há viabilidade econômica, técnica e ambiental, se o país possui condições climáticas favoráveis, por que os experimentos feitos na UFRN não saem das salas acadêmicas e ganham visibilidade e uso doméstico? 

"A energia solar é uma energia social porque está disponível para todos, mas é a que menos tem investimentos porque o modelo de sociedade que nós temos sempre busca concentrar a energia e produzir pra vender e nosso trabalho não está na geração de energia pra vender", justifica o professor Luiz Guilherme

Para o pesquisador, o produto poderia ser fabricado em escala se o Brasil investisse em pesquisas de tecnologia social. Mas os estudos que são realizados esbarram, na opinião dele, no desinteresse político, industrial e até acadêmico.



Pesquisadores enfrentam dificuldade financeira para manter estudos em energia solar.

Sem investimentos 

"As bolsas e pesquisas financiadas não existem para tecnologia social. No departamento de Engenharia Mecânica, por exemplo, como chefe do laboratório, eu não recebo verba pra sustentar esse trabalho", diz o professor Luiz Guilherme

O dinheiro para custear os projetos, garante, é tirado do próprio salário e das bolsas de pesquisa dos alunos. 

Há outra sobrecarga no setor. Desencantados com a falta de incentivo, muitos pesquisadores de energia solar redirecionaram seus estudos para outras áreas onde havia incentivo financeiro, como o petróleo. 

Foi o que aconteceu na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que era a maior referência de energia solar no Brasil. "Lá tem pesquisadores de grande nome, de grande potencial nessa linha. Muitos deles migraram para outras áreas. Fazer pesquisa para pobre não dá dinheiro". 

Apesar disso, as pesquisas no setor gerido pelo professor Luiz Guilherme continuam. Uma das últimas criações do laboratório de máquinas hidráulicas é um fogão com quatro focos construído com resíduos industriais e com fibras de juta, fibra têxtil vegetal utilizada nos sacos de estopa. 

O pesquisador garante que é o único no mundo. "Esse fogão é inédito. A literatura não mostra outro. É uma criação nossa, de um aluno de pós graduação. Esse fogão permite cozinhar quatro tipos de alimentos ao mesmo tempo", assegura Guilherme

É importante ressaltar que o fogão ou forno só funcionam satisfatoriamente em boas condições solares, das 09h da manhã às 14h. Alguns cuidados fundamentais também são necessários durante o manuseio, como o uso de óculos escuros para que a luz não reflita nos olhos. 

Nenhum dos pesquisadores tem forno ou fogão solar em casa. Mas todos eles afirmam categoricamente que os produtos são efetivos e se predispõem a implantar projetos-pilotos em comunidades socialmente desassistidas. 

"Um trabalho, um estudo existe. Está aqui a comprovação da viabilidade. Ela existe, está catalogada. A vontade de repassar estas tecnologias também existe. Eu nunca patenteei nada, nunca produzi pra ganhar nada, não é meu interesse. Eu não sou um empresário. Eu sou um professor", finaliza o pesquisador da UFRN.

Por: Josi Gonçalves (BBC).

Brasil Precisa Aumentar em 62% Investimentos em Saneamento Para Universalizar o Serviço até 2033

Segundo números do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), 57% da população nacional dispõe de serviço de coleta e de esgoto, mas somente 50% do esgoto gerado é tratado.

Estudo da CNI revela que serviço das companhias privadas tem mais qualidade que das públicas e que cada R$ 1 investido dá retorno de R$ 2,50 ao setor produtivo. Ampliação das redes vai melhorar a saúde da população. 

O investimento insuficiente continua sendo o maior vilão para a ampliação da cobertura por redes de esgoto no Brasil. Nos últimos oito anos, a média de recursos aportados no setor foi de R$ 13,6 bilhões. Para alcançar a universalização em 2033, conforme estabelece o Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab), seria necessário ampliar em 62% o volume de investimentos para um patamar de R$ 21,6 bilhões anuais. É o que mostra o estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) Saneamento Básico: Uma Agenda Regulatória e Institucional, que integra uma série de 43 trabalhos sobre temas estratégicos que a CNI entregará aos candidatos à Presidência da República

Na avaliação da CNI, a meta do Plansab – que a cada ano tem se tornado mais distante – só se tornará possível caso o próximo governo priorize a agenda de saneamento básico. "Caso sejam mantidos os níveis recentes de investimento, a universalização dos serviços será atingida apenas após 2050, com cerca de 20 anos de atraso", alerta a diretora de Relações Institucionais da CNI, Mônica Messenberg

De acordo com o estudo, a experiência internacional sugere que a parceria com o setor privado tem sido fator fundamental para a expansão e aumento da qualidade dos serviços de saneamento. As concessões e as parcerias público-privadas (PPPs) no setor, no entanto, ainda esbarram em uma série de resistências, a maior parte relacionada aos mitos de que o setor privado só atua em grandes municípios e de que as tarifas privadas são significativamente superiores. 

"A ideia de que o setor privado atua somente em cidades de grande porte é absolutamente equivocada. Cerca de 72% dos municípios em que há participação privada são compostos por até 50 mil habitantes. Assim como também é mito a ideia de que a participação privada gera aumento significativo das tarifas: o setor privado pratica tarifas de cerca de 11 centavos acima das tarifas observadas nas companhias estaduais", destaca o trabalho da CNI

QUALIDADE DA ÁGUA – O estudo revela que as companhias privadas apresentam indicadores de produtividade 5,4% superiores à média nacional e que a qualidade da água é maior que do que a das empresas públicas. Segundo os dados levantados pela CNI, a incidência de coliformes fecais observada na água fornecida pelas companhias privadas é seis vezes menor do que a média nacional. A incidência nas empresas privadas é de 0,27% enquanto a média do país é de 1,76%. 

A reversão do quadro do setor de saneamento no Brasil passa, necessariamente, pela maior participação do capital privado na gestão das companhias de saneamento. Atualmente, as empresas privadas respondem por apenas 6% das empresas do setor e atendem a 9% da população, embora sejam responsáveis por 20% dos investimentos realizados em municípios de diferentes portes. "Essas diferenças no volume de investimentos são refletidas nos níveis de atendimento das localidades atendidas por prestadores de serviços privados, onde tanto o fornecimento de água como a coleta e tratamento de esgoto apresentam indicadores acima da média nacional", diz o estudo da CNI

Segundo números do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), 57% da população nacional dispõe de serviço de coleta e de esgoto, mas somente 50% do esgoto gerado é tratado. "A expansão das redes de saneamento é urgente e um dos principais desafios do país. O aumento da participação privada, assim como um melhor mapeamento de onde a participação do Estado é realmente necessária, precisa ser o foco do desenvolvimento do saneamento brasileiro para os próximos quatro anos", afirma Mônica Messenberg

"É preciso que haja o reconhecimento da prestação dos serviços de água e esgoto não somente como um serviço de alto impacto social, mas também como um mercado dentro de uma lógica econômica, que precisa ter a eficiência e a atratividade como premissas relevantes para a prestação de serviços de qualidade", acrescenta a diretora da CNI

DISPARIDADES REGIONAIS – O levantamento da CNI revela ainda que há grande distorção entre as regiões brasileiras no quesito tratamento de esgoto. Enquanto no Norte apenas 18% do esgoto gerado é tratado, no Centro-Oeste o índice chega a 53%. Em uma análise estadual, foi observado que, com exceção do Rio Grande do Sul, os estados com piores índices de atendimento (pessoas sem acesso à rede de esgoto) são aqueles que menos investem na relação R$/habitante. 

De acordo com os dados, os cinco estados com melhor nível de atendimento estão entre os seis com maior investimento por habitante sem acesso à rede. Para se ter ideia da disparidade, cerca de 60% do total investido em água e esgoto no Brasil são alocados em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná. Na outra ponta do ranking, os cinco piores estados em termos de acesso à rede coletora de esgoto estão entre os oito piores que investem proporcionalmente à população sem acesso.

 Os benefícios do investimento na qualidade da água e na coleta/tratamento de esgoto impactam também na redução da transmissão de doenças causadas pelo mosquito Aedes Aegypti.

SAÚDE – Nesse sentido mercadológico, os números do estudo apontam que a cada R$ 1 investido em saneamento haveria retorno de R$ 2,50 ao setor produtivo. A ampliação das redes de esgoto impactaria também na valorização de imóveis, no aumento da produtividade dos trabalhadores e nos ganhos diretos na saúde da população. Entre eles podem ser listados à queda da mortalidade infantil, redução da incidência de doenças como diarreia e vômitos, e diminuição dos gastos com médicos, internações e medicamentos. Os benefícios do investimento na qualidade da água e na coleta/tratamento de esgoto impactam também na redução da transmissão de doenças causadas pelo mosquito Aedes Aegypti, como dengue, zika vírus, chikungunya e febre amarela. 

RECOMENDAÇÕES DA CNI 

1 - Definir diretrizes regulatórias claras e efetivas e realizar convênios entre os titulares dos serviços e agências reguladoras para reduzir a pulverização da regulação do setor. 

2 - Regulamentar o reuso da água para segurança jurídica dos produtores e consumidores. 

3 - Revisar o Plano Nacional de Saneamento Básico com projeções mais realistas que considerem o atual contexto fiscal e a heterogeneidade dos municípios brasileiros. 

4 - Avaliar a efetividade, definir prazos realistas e recusar o adiamento generalizado da conclusão dos planos municipais. 

5 - Criar meios para que o planejamento do setor seja realizado com qualidade (com fiscalização, capacitação e definição de parâmetros). 

6 - Criar um Conselho Nacional de Política de Saneamento sob a Presidência da Casa Civil, com participação paritária dos setores regulados e da sociedade civil. 

7 - Criar um sistema de verificação dos dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento - SNIS. 

8 - Expandir o programa de concessões do BNDES, com a análise dos mercados do setor para mais estados e municípios. 

9 - Simplificar o processo de licenciamento ambiental para o setor de água e esgoto. 

10 - Simplificar o processo de liberação dos recursos do FGTS para o saneamento. 

11 - Regulamentar o Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento do Saneamento Básico - REISB. 

AÇÕES PARA O BRASIL CRESCER MAIS E MELHOR - Os 43 documentos com propostas da Confederação Nacional da Indústria CNI para o novo governo foram elaborados com base no Mapa Estratégico da Indústria 2018-2022, que aponta os caminhos para o Brasil construir, nos próximos quatro anos, uma economia mais produtiva, inovadora e integrada ao mercado internacional. Os estudos sugerem ações em áreas como eficiência do estado, segurança jurídica, infraestrutura, tributação, educação, meio ambiente, inovação, financiamento e segurança pública. 

As propostas serão discutidas com os presidenciáveis durante o Diálogo da Indústria com os Candidatos à Presidência da República, que reunirá cerca de 1.500 líderes empresariais em 4 de julho, no Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB), em Brasília. A CNI apresenta as propostas da indústria aos presidenciáveis desde a eleição de 1994.

Por: Diego Abreu (CNI).

Novo Tipo de Fotossíntese é Descoberto

Um novo estudo conduzido por pesquisadores do Imperial College London (Reino Unido) mudou nossa compreensão do mecanismo básico da fotossíntese e deve reescrever os livros didáticos. 

A grande maioria da vida na Terra usa luz vermelha visível para realizar o processo de fotossíntese, mas os cientistas descobriram um novo tipo de fotossíntese que usa luz infravermelha próxima. 

Essa forma alternativa foi detectada em uma ampla gama de cianobactérias (algas verde-azuladas) quando crescem em luz infravermelha, como em condições sombreadas encontradas em Yellowstone, nos EUA, e em rochas de praia na Austrália

A descoberta também pode moldar a forma como procuramos por vida alienígena e fornecer insights sobre como podemos projetar culturas agrícolas mais eficientes que aproveitam os comprimentos de onda mais longos da luz. 

Limite vermelho

O tipo de fotossíntese padrão e quase universal usa o pigmento verde, clorofila-a, tanto para coletar luz quanto para usar sua energia para produzir bioquímicos e oxigênio úteis. A maneira como a clorofila-a absorve a luz significa que apenas a energia da luz vermelha pode ser usada para a fotossíntese. 

Como a clorofila-a está presente em todas as plantas, algas e cianobactérias que conhecemos, era de ampla aceitação que a energia da luz vermelha estabelecia uma espécie de “limite vermelho” para a fotossíntese, isto é, a quantidade mínima de energia necessária para fazer a química que produz oxigênio. 

O limite vermelho é inclusive usado em astrobiologia para julgar se a vida complexa poderia ter evoluído em planetas em outros sistemas solares. 

No entanto, quando algumas cianobactérias são cultivadas sob luz infravermelha, os sistemas padrão contendo clorofila-a são desativados e diferentes sistemas contendo um tipo diferente de clorofila, clorofila-f, assumem o controle. 

Além do limite vermelho

Até agora, pensava-se que a clorofila-f apenas colhesse a luz. A nova pesquisa mostra que, em vez disso, a clorofila-f desempenha um papel fundamental na fotossíntese sob condições sombreadas, usando luz infravermelha de baixa energia para fazer a química complexa. Esta é a fotossíntese "além do limite vermelho". 

"A nova forma de fotossíntese nos fez repensar o que pensávamos ser possível. Também muda a forma como entendemos os principais eventos no coração da fotossíntese padrão", disse um dos principais pesquisadores do estudo, Bill Rutherford, do Departamento de Ciências da Vida no Imperial College London

No novo tipo de fotossíntese, mais detalhes puderam ser observados e muitas clorofilas denominadas "acessórias" foram vistas realmente realizando a etapa crucial da química. Isso indica que esse padrão pode valer para os outros tipos de fotossíntese, o que mudaria a visão de como funciona até mesmo a forma dominante de fotossíntese. 

Categorização

Anteriormente, a cianobactéria Acaryochloris já era conhecida por fazer fotossíntese além do limite vermelho. No entanto, porque este tipo parecia ocorrer apenas nesta espécie, com um habitat muito específico, foi considerado uma “exceção”. A Acaryochloris vive debaixo de animais marinhos que passam a maior parte da vida anexados a superfícies como rochas e docas, e isso bloqueia a maior parte da luz que recebe, exceto pelo infravermelho próximo. 

A fotossíntese baseada em clorofila-f relatada pelos pesquisadores neste estudo representa um terceiro tipo de fotossíntese que é bem mais difundido. 

No entanto, é usado apenas em condições especiais sombreadas ricas em infravermelho; em condições normais de luz, a forma padrão de fotossíntese é usada. 

Culturas mais eficientes 

Até agora, os cientistas pensavam que os danos causados pela luz seriam mais severos além do limite vermelho, mas o novo estudo mostrou que não é um problema em ambientes estáveis e sombreados. 

Isso muda a nossa compreensão dos requisitos de energia da fotossíntese, e pode ser útil para pesquisadores que tentam projetar culturas para realizar fotossíntese mais eficiente usando uma faixa mais ampla de luz. 

Como essas cianobactérias se protegem de danos causados por variações no brilho da luz pode ajudar os cientistas a descobrir o que é possível projetar nas plantas cultivadas. 

A descoberta foi publicada na prestigiada revista Science [Photochemistry beyond the red limit in chlorophyll f–containing photosystems].

Por: Natasha Romanzoti (HypeScience).

Energia Nuclear Segura, Limpa, Barata e Quase Infinita Pode Estar a Caminho

Uma das grandes preocupações para quem ama ciência e tecnologia é onde conseguir fontes energéticas que supram a necessidade de pesquisa e produção enquanto asseguram um mundo mais sadio e limpo para as gerações que virão. As energias renováveis, como a eólica e solar, encontram cada vez mais espaço nas produções por serem consideradas fontes de energia limpa, enquanto as energias não renováveis, como os combustíveis derivados do petróleo, são vistas como um perigo à saúde do planeta e, em conseqüência, da humanidade. 

As energias nucleares, por sua vez, são apontadas como principais quando o assunto é produzir grandes quantidades de energia para a indústria e pesquisa, mas causam insegurança por serem utilizadas fontes de radiação nesse sistema de produção energético, o que pode ser uma dor de cabeça ecológica, além de elevar os custos por preocupações com segurança e extração. 

Mas toda essa discussão de prós e contras na utilização da energia nuclear pode ganhar novos pesos com a publicação feita pelo Laboratório Nacional do Noroeste do Pacífico (PNNL, na sigla em inglês), instituição de pesquisa ligada ao governo dos EUA que, em parceria com a LCW Supercritical Technologies, anunciou a descoberta de um método prático, razoavelmente ágil, barato e seguro de extrair energia do urânio disponível na água do mar com o uso de materiais sintéticos econômicos e reutilizáveis. 

Recurso abundante

A água do mar contém, além do sal, sulfatos, magnésio, potássio, brometos, flúor, ouro e, em pequenas quantidades, na concentração aproximada de 3,3 microgramas por litro, urânio. O elemento foi a primeira substância a ser utilizada para pesquisas em radioatividade pelas mãos da pesquisadora Marie Curie, e nos dias atuais encontra uso de três de seus isótopos, U-234, U-235 e U-238, para a produção de energia nuclear. 

Anteriormente, o Instituto de Pesquisa de Energia Atômica japonês tentou utilizar tapetes de polímero para extrair os átomos de urânio da água do mar, mas a técnica se mostrou inviavelmente cara. Quem também tentou baratear o processo foi o laboratório estadunidense National Oak Ridge, que não obteve metodologia que tornasse a extração economicamente interessante. Entretanto, as pesquisas recentes pelas mãos da PNNL conseguiram um feito admirável: extrair, com o uso de apenas 1 quilograma de fibras acrílicas de baixo custo e que ainda podem ser reutilizadas posteriormente de forma segura, 5 gramas de urânio em pó após circular por um mês a água do mar em um tanque onde moléculas nas fibras sintéticas se ligam quimicamente ao elemento radioativo, facilitando sua captura. 

Segundo o que publicou Gary Gill, pesquisador no PNNL, 5 gramas de urânio podem parecer pouca coisa num primeiro olhar, mas considerando que o oceano pode abrigar cerca de 4 mil milhões de toneladas do material é fácil chegar à conclusão que o método poderia encontrar uma forma barata e segura de gerar energia para sustentar a demanda crescente da Terra pelos próximos mil milhões de anos. A promessa é de energia limpa, acessível e praticamente infinita. 

E não é só isso: a PNNL acredita que a fibra sintética utilizada ainda pode contribuir para ações de limpeza em cursos de água contaminados por metais pesados, como na tragédia que ocorreu em 2015 em Mariana, Minas Gerais

Agora, os pesquisadores contam com o interesse dos investidores de forma a financiar as pesquisas do novo método e realizar testes em larga escala nas águas salgadas e quentes do Golfo do México. Se der tudo certo, a humanidade pode estar bastante próxima de um dos maiores objetivos da alquimia antiga: encontrar uma fonte infindável de energia acessível e segura. Veja, abaixo, um vídeo de 20 segundos que mostra o método de captação desenvolvido pelos pesquisadores do PNNL.

Por: Ares Saturno (CanalTech). Fonte(s): New AtlasPPLWare.

Níveis Recordes de Microplásticos São Encontrados no Ártico

Cientistas exploraram o Ártico a bordo do navio Polarstern, próprio para regiões geladas. Concentrações de resíduos plásticos são duas a três vezes maiores do que as registradas anteriormente no gelo do oceano Ártico. Presença de poluentes pode ter impactos para vida marinha e humana. 

Cientistas alemães anunciaram a descoberta de quantidades recordes de microplásticos no gelo do oceano Ártico – o que pode representar um perigo para a vida marinha da região quando esse gelo vir a derreter devido às mudanças climáticas, alertam os pesquisadores. 

A equipe do Instituto Alfred Wegener (AWI, na sigla em alemão) identificou 17 tipos diferentes de plástico em extensas amostras de gelo coletadas durante três expedições ao Ártico a bordo da embarcação Polarstern – própria para explorar regiões geladas – entre 2014 e 2015. 

Entre os microplásticos encontrados havia restos de sacolas e embalagens de alimentos, tintas de navios, redes de pesca, nylon e poliéster derivados de tecidos sintéticos e filtros de cigarro. 

As amostras analisadas continham até 12 mil partículas de microplásticos por litro de água congelada. Essa medida é duas a três vezes maior do que qualquer outro nível já registrado na região, apontaram os pesquisadores em estudo publicado na revista científica Nature Communications [Arctic sea ice is an important temporal sink and means of transport for microplastic]. 

Pesquisas anteriores já haviam alertado contra os perigos da presença de microplásticos para centenas de espécies de animais selvagens que vivem nos oceanos. O novo estudo alemão, contudo, ampliou essa preocupação ao descobrir níveis recordes. 

"Com as mudanças climáticas, isso sugere que o derretimento do gelo marinho provavelmente está liberando grandes quantidades de microplásticos no meio ambiente", afirmou a bióloga Chelsea Rochman, da Universidade de Toronto, em entrevista à DW

"Muitas vezes pensamos na liberação de metano com o derretimento do gelo, mas agora devemos considerar também os microplásticos", advertiu a especialista.

 Expedições do Instituto Alfred Wegener ao Ártico ocorreram entre 2014 e 2015.

Plásticos na cadeia alimentar 

Segundo Ilka Peeken, bióloga do AWI e coautora do mais recente estudo, o gelo marinho funciona como uma espécie de "transporte" de microplásticos, o que aumenta seus impactos. 

À medida que o gelo chega às partes mais quentes do Atlântico, por exemplo, e vem a derreter, ele deixa um rastro de partículas de plástico que se agarram às algas e ficam incrustadas no fundo do oceano. O maior perigo disso, segundo Peeken, é que esses poluentes acabam sendo rapidamente absorvidos na cadeia alimentar. 

"Percebemos que mais da metade dos microplásticos presos no gelo tinham menos de um vigésimo de milímetro de largura", afirmou a bióloga. "Isso significa que eles podem ser facilmente ingeridos por microorganismos, como pequenos crustáceos dos quais os peixes se alimentam." 

Os cientistas ainda não sabem ao certo os reais efeitos dos microplásticos consumidos por organismos marinhos e transportados através da cadeia alimentar. Enquanto algumas criaturas conseguem ingerir detritos plásticos sem qualquer efeito nocivo conhecido, os mexilhões, por exemplo, podem sofrer inflamações. 

Segundo Peeken, o fato de crustáceos estarem ingerindo microplásticos antes de serem consumidos como alimento por seres humanos pode gerar possíveis "implicações para a saúde humana", ainda não totalmente conhecidas pela ciência. 

Em 2014, um estudo já havia mostrado evidências de microplásticos no gelo do mar Ártico ao analisar amostras individuais coletadas na região. A nova pesquisa alemã, no entanto, é a primeira a usar sensores infravermelhos para verificar áreas inteiras de gelo. A tecnologia permitiu que os cientistas do AWI descobrissem uma concentração muito maior do que antes se pensava. 

De acordo com o grupo ambientalista WWF, 8,8 milhões de toneladas de plástico são despejadas nos oceanos todos os anos – o que equivale à carga completa de um caminhão de lixo por minuto. Se continuar assim, em 2050 haverá mais plástico do que peixes no mar, alertou a ONU.


Degelo da Antártida Triplica e Já Eleva Nível do Mar em 8 Milímetros

Fendas no gelo da Ilha Pine, na Antártida Ocidental, região que teve o maior derretimento nos últimos anos. Foto: Ian Joughin / Universidade de Washington.

Em 25 anos, de 1992 a 2017, a Antártida perdeu 3 trilhões de toneladas de gelo, contribuindo para um aumento médio do nível do mar de 7,6 milímetros. A maior parte dessa elevação, porém – 3 mm – ocorreu somente nos últimos 5 anos, o que reflete o aquecimento do planeta, que teve, nos últimos anos, os mais quentes desde o início dos registros históricos. 

O dado é resultado do mais completo estudo já feito sobre as mudanças sofridas pela camada de gelo e foi publicado na revista Nature. A avaliação foi feita por 84 cientistas, de 44 organizações, com a análise de dados de 24 satélites independentes. 

A perda é ainda uma ínfima parcela em relação ao total de gelo presente no continente. Se derretesse totalmente, o gelo armazenado ali poderia elevar o nível do mar em 58 metros. Mas o novo trabalho lança um alerta por mostrar como o impacto das mudanças climáticas já está ocorrendo, e de modo acelerado, e o que ele pode representar para a Antártida no futuro. 

O trabalho, liderado por Andrew Shepherd, da Universidade de Leeds, e Erik Ivins, da NASA, revela que até 2012 a perda de gelo do continente era estável, a uma taxa de 76 bilhões de toneladas por ano, contribuindo com uma alta do nível do mar média de 0,2 mm por ano. De 2012 a 2017, esse ritmo triplicou, saltando para um perda de 219 bilhões de toneladas por ano – 0,6 mm por ano de aumento do nível do mar. 

"De acordo com nossa análise, houve um salto na perda de gelo da Antártida na última década e o continente está fazendo com que o nível do mar aumente mais rapidamente hoje do que em qualquer outro momento nos últimos 25 anos. Isso tem de ser um motivo de preocupação para os governantes nos quais confiamos que vão proteger as cidades e comunidades costeiras", disse Shepherd, em comunicado à imprensa. 

Analisando imagens de satélite foi possível rastrear como e onde estão ocorrendo as principais perdas e também os ganhos e fazer um balanço líquido da massa de gelo do continente. 

A região que mais vem sentindo o derretimento provocado pelo oceano é a Antártida Ocidental, que viu a perda de gelo passar de 53 bilhões de toneladas para 159 bilhões de toneladas por ano. Uma animação feita pelos pesquisadores (veja abaixo) mostra que a espessura da plataforma de gelo no local vem afinando em até 30 metros. A maior parte disso ocorreu na Ilha Pine e nos Glaciares Thwaites

A taxa de perda de gelo da Península Antártica subiu de cerca de 7 bilhões para 33 bilhões de toneladas por ano, como resultado do colapso da plataforma de gelo. No entanto, o balanço de massa da Antártica Oriental permanece incerto e é indistinguível de zero.

Por: Giovana Girardi (O Estado de S. Paulo).

Cientistas Descobrem Moléculas Orgânicas em Marte

FOTO DE ARQUIVO DA NASA DE 22 DE SETEMBRO DE 2014 MOSTRA MAQUETE VIRTUAL DA NAVE ESPACIAL MAVEN NA ÓRBITA AO REDOR DE MARTE (FOTO: NASA / EFE).

Cientistas descobriram minerais de argila em Marte, o que pode ser um indicador de existência de vida no planeta. O estudo foi conduzido pela missão Curiosity, da NASA, e publicado na revista científica Science Advances [Organic Matter Preserved in 3-Billion-Year-Old Mudstones at Gale Crater, Mars]. A argila é um material natural composto por alumínio, ferro e outros elementos alcalinos. Mas ela também pode conter materiais orgânicos. Além disso, de acordo com o estudo, as partículas descobertas podem indicar a presença de água em Marte

As moléculas foram encontradas nas Crateras de Gale, local explorado desde 6 de agosto de 2012, e "estão conservadas em origem lacustre na base dos Morros de Murray há 3,5 bilhões de anos". O laboratório excluiu a possibilidade de contaminação do solo, mas não conseguiu chegar à origem das partículas. O que é certo é que, se a matéria orgânica foi encontrada perto da superfície de um ambiente hostil como o de Marte, as chances de achá-la no subsolo aumentam. 

A perfuração do solo será realizada pela missão ExoMars 2020, da Agência Espacial Europeia (ESA). "Marte pode ter abrigado vida no passado", disse Chris Webster, pesquisador da NASA. "São tempos entusiasmantes, olhamos com esperança para o futuro", acrescentou. 

Outra pesquisa publicada pela Science descreveu oscilações no nível de metano no planeta, descobertas em 2004, pela ESA. No entanto, na época não se sabia de onde o gás, considerado um dos principais indícios de vida, era proveniente. 

Acreditava-se que a descoberta de eventuais variações poderia representar uma nascente ainda ativa no planeta vermelho. A resposta também veio pela missão Curiosity: as variações no nível de metano foram observadas e "são consistentes com pequenas nascentes localizadas na superfície ou no subsolo".

Fonte: Agenzia Nazionale Stampa Associata (ANSA).

RenovaBio: Aprovada a Redução de Emissões de Carbono nos Próximos 10 Anos

O presidente Michel Temer aprovou em 05/06/2018 as metas anuais de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa para os próximos dez anos. Dessa forma, o governo espera um maior uso dos biocombustíveis, como o etanol e o biodiesel, menos poluentes, para alcançar a meta. Isso traria, segundo o presidente, menor dependência do mercado externo de petróleo e consequente redução no preço dos combustíveis. 

"Vamos reduzir de 11,5% para 7% a dependência externa de combustíveis. O Brasil estará menos exposto à variação internacional do preço do petróleo e às flutuações cambiais. Portanto, quem sabe, num futuro muito próximo, consigamos evitar acontecimentos como este que se verificou na semana passada [paralisação dos motoristas de caminhão em todo o Brasil iniciada no dia 21 de maio de 2018]", disse o presidente, referindo-se à greve dos caminhoneiros, deflagrada por conta dos elevados preços do diesel. O movimento provocou uma crise no abastecimento no país, inclusive com falta de combustíveis e longas filas em postos. 

As metas propostas pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) compõem a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio). Elas reduzem 10% nas emissões de carbono na matriz de combustíveis do país, passando dos atuais 74,25 gramas de gás carbônico por megajoule (g CO2/MJ) para 66,75 g CO2/MJ, o que corresponde à retirada de 600 milhões de toneladas de carbono da atmosfera até 2028. 

Segundo o governo, o estabelecimento da meta provocará investimentos de R$ 1,3 trilhão em expansão da produção de biocombustíveis nos próximos dez anos e redução de, pelo menos, 0,84% do preço dos combustíveis ao consumidor ao final do período. 

"[A aprovação das metas são] exatamente para dar o testemunho do compromisso do governo brasileiro com a qualidade de vida no mundo, com a possibilidade de baixar o preço do combustível, que às vezes nos captura, como recentemente nos capturou. São medidas que não terão efeito amanhã, mas nos próximos dez anos", disse o ministro de Minas e Energia, Moreira Franco

Áreas de Preservação

O presidente também aproveitou para anunciar a criação de duas áreas de preservação ambiental, uma na Amazônia e outra na Bahia. "Acabo de assinar duas novas áreas de preservação: a Reserva Extrativista do Baixo Rio Branco, na Floresta Amazônica, e um refúgio de vida silvestre para a ararinha azul, na Bahia. Antes extinta em seu habitat, estamos reintroduzindo a ararinha na natureza." 

A reserva destinada à reintrodução da ararinha azul na natureza é de 120 mil hectares de área protegida, nos municípios de Juazeiro e Curaçá, na Bahia. Já a Reserva Extrativista Rio Branco ocupará 581 mil hectares entre os municípios de Rorainópolis, em Roraima, e Novo Airão, no Amazonas.

Por: Marcelo Brandão / Edição: Fábio Massalli (Agência Brasil).

RenovaBio: Desafios à Operacionalização Para Guinada Rumo à Economia Verde

Criada no final de 2017 pela Lei Federal nº 13.576 e regulamentada parcialmente pelo Decreto Federal 9.308/2018, a Política Nacional de Biocombustíveis (“RenovaBio”) é a primeira política brasileira clara que implementa o Acordo de Paris em um segmento de mercado visando sua transição à economia de baixo carbono. Daí sua representatividade. 

De forma sucinta, a RenovaBio permite aos distribuidores de combustíveis neutralizar emissões de gases de efeito estufa (“GEE”) provindos da queima de combustíveis fósseis, por meio da compra de Créditos de Descarbonização (“CBios”). Os CBios serão emitidos por produtores/importadores de biocombustíveis (“emissores primários”), via instituições financeiras (“escrituradores”), com base no lastro da eficiência energético-ambiental da produção, a ser auferida por firmas inspetoras. 

A relevância está no mecanismo de mercado e multiplicidade de players da RenovaBio: todos os agentes do setor poderão participar. Ao final, as metas setoriais são refletidas nas metas internacionais assumidas pelo Brasil no âmbito da Convenção Quadro das Nações Unidas Sobre Mudança do Clima. A tese funciona. Vamos à prática. 

Três grandes desafios à operacionalização: 

1) Autoridade reguladora do mercado 

A quem competirá, a regulação e fiscalização do mercado? O Comitê RenovaBio, instituído pelo Decreto Federal 9.308/2018 e já operante (1ª reunião em 02.4.2018), detém atribuições de monitoramento da oferta e demanda de biocombustíveis e, até o momento, representa o órgão mais técnico a influenciar o mercado, ainda que indiretamente, via proposição das metas setoriais a serem desdobradas aos distribuidores e definidas pelo Conselho Nacional de Política Energética (“CNPE”) até 24.6.2018. 

De outro lado, a Política Nacional Sobre Mudanças do Clima (“PNMC” – Lei Federal nº 12.187/2009) prevê que o Mercado Brasileiro de Redução de Emissões (“MBRE”) será operado em bolsa de valores e de mercadoria e futuros, por instituições autorizadas pela Comissão de Valores Mobiliários (“CVM”). Embora a CVM detenha parecer anterior à PNMC descaracterizando espécies de créditos de carbono como valores mobiliários (e, portanto, excluindo-os do âmbito de sua regulação), os “fatos novos” representados pela PNMC e RenovaBio podem motivar a revisão desse posicionamento. 

2) Proteção contra especulação 

Nenhum mercado está livre de especuladores, sendo necessários esforços para combater sua manipulação artificial. No caso da RenovaBio, o risco está na compra em massa de CBios por um grande player/especulador no mercado primário, de modo a retirar, momentaneamente, a liquidez no mercado e, assim, forçar uma “alta” dos preços, considerando a obrigação dos distribuidores em comprá-los, sob pena de vultosas multas administrativas de até 5% do faturamento bruto no exercício anterior. 

Para mitigar esse risco, debate-se a possibilidade de conferir aos distribuidores direito de preferência (ou mesmo exclusividade) no mercado primário. 

3) Precificação dos CBios

O cálculo do lastro dos CBios ainda depende de regulamentação. A nosso ver, a Nota de Eficiência Energético-Ambiental deverá considerar as diferenças entre biomas e commodities oleaginosas para induzir maior liquidez no mercado.

Por: Ana Luci Grizzi e Leonardo Vitor Freire (Jota.Info).

Resfriar Ambientes e Aquecer o Planeta, o Paradoxo do Ar-Condicionado

A menos que haja uma mudança radical na tendência, está previsto que as emissões de dióxido de carbono relacionadas com os ares-condicionados quase dobrarão entre 2016 e 2050. 

Quanto mais calor faz, mais aparelhos de ar-condicionado. E quanto mais ares-condicionados, mais calor faz: é o círculo vicioso de uma tecnologia que contribui de forma discreta mas crescente para o aquecimento global. 

Nas próximas décadas serão instalados bilhões de novos aparelhos de ar-condicionado em todo o mundo, à medida que os habitantes dos países emergentes com climas quentes obtenham os meios para ter acesso a estes produtos. 

Mas estes aparelhos consomem muita eletricidade, que hoje em dia é gerada principalmente em usinas de carvão ou gás. Estas, por sua vez, emitem gases de efeito estufa que fazem subir as temperaturas. 

A menos que haja uma mudança radical na tendência, está previsto que as emissões de dióxido de carbono relacionadas com os ares-condicionados quase dobrarão entre 2016 e 2050, segundo um relatório [The Future of Cooling] publicado em 15/05/2018 pela Agência Internacional de Energia (AIE). 

A quantidade adicional de dióxido de carbono que será liberada na atmosfera é de cerca de um bilhão de toneladas por ano, o equivalente a acrescentar outra África ao planeta. 

"Crise de frio" 

Mas os ares-condicionados têm outro efeito de aquecimento muito mais direto: aquecem as cidades, porque cada aparelho libera para as ruas o calor que bombeou para resfriar o interior de uma casa ou escritório. 

Um estudo de 2014 mediu que o aumento da temperatura à noite era de até um grau centígrado no centro da cidade. 

O círculo vicioso termina de se formar com o aumento contínuo do nível de vida no mundo, começando por China, Índia e Indonésia, três países que contribuirão com metade do aumento global do consumo elétrico devido ao ar-condicionado. 

No Brasil, Tailândia e Indonésia, quando melhora a renda em uma casa, o ar-condicionado com frequência é uma das primeiras compras. 

A rápida urbanização, especialmente na Índia, está acelerando ainda mais o fenômeno: as maquinarias urbanas, não só os ares-condicionados, geram calor, que por sua vez é absorvido pelo concreto. 

Atualmente há cerca de 1,6 bilhão de ares-condicionados instalados no mundo, dos quais cerca de metade estão nos Estados Unidos e na China

Por ano são vendidos cerca de 135 milhões de aparelhos novos, três vezes mais que em 1990, segundo o relatório da AIE. Só na China, o maior mercado do mundo, foram vendidos 53 milhões em 2016. 

Na Índia, só 4% das casas estão equipadas com ar-condicionado, mas tudo indica que a demanda explodirá nas próximas décadas. "O mundo vai sofrer uma crise de frio", adverte Fatih Birol, diretor-executivo do organismo, para quem a questão dos ares-condicionados e calefações é "o ponto cego" do debate energético atual. 

Entre as soluções detalhadas pelo informe estão, entre outras, desenvolver a energia solar, cujo pico de produção, durante o dia, corresponde ao pico de consumo de ares-condicionados, e melhorar o isolamento dos edifícios. 

Mas a prioridade, segundo a AIE, é endurecer as normas sobre o consumo elétrico dos aparelhos. Existem tecnologias energeticamente eficientes, mas os consumidores continuam optando em grande medida por eletrodomésticos mais econômicos e que gastam mais energia, especialmente nos Estados Unidos.


Mudança Climática Pode Aumentar Casos de Dengue, alerta pesquisa

Mosquito Aedes Aegypti, transmissor da dengue. Foto: James Gathany / Wikimedia Commons.

Por outro lado, se limitarmos o aquecimento a 1,5°C, Brasil seria o maior beneficiado com até meio milhão de casos evitados por ano até 2050. 

Limitar o aquecimento global a 1,5º Celsius até o final deste século, acima dos níveis pré-industriais, pode evitar cerca de 3,3 milhões de casos de dengue por ano apenas na América Latina e no Caribe

É o que aponta uma nova pesquisa da Universidade de East Anglia (UEA), no Reino Unido, em colaboração com a Universidade do Estado de Mato Grosso [Limiting Global-Mean Temperature Increase to 1.5–2 °C Could Reduce the Incidence and Spatial Spread of Dengue Fever in Latin America], publicada em 29/05/2018 na revista Proceedings of  National Academy of Sciences (PNAS). 

O Brasil seria o mais beneficiado de limitar o aquecimento a 1,5°C, com até meio milhão de casos evitados por ano até 2050 e 1,4 milhão de casos evitados por ano até 2100. 

Segundo o artigo, limitar o aquecimento à meta do acordo climático da ONU também impediria a disseminação da dengue para áreas onde a incidência atualmente é baixa, como Paraguai e norte da Argentina

No cenário oposto, ou seja, mantido o ritmo atual de emissões de gases do efeito estufa, associado a uma trajetória de aquecimento global de 3,7°C até 2050, o estudo prevê um aumento de até 7,5 milhões de casos adicionais. 

O sul do México, o Caribe, o norte do Equador, a Colômbia, a Venezuela e o litoral brasileiro serão os mais afetados pelo aumento dos casos. 

A dengue é endêmica em mais de 100 países e infecta cerca de 390 milhões de pessoas em todo o mundo a cada ano, com uma estimativa de 54 milhões de casos na América Latina e no Caribe

Como os mosquitos que transportam e transmitem o vírus prosperam em condições quentes e úmidas, é mais comum em áreas com essas condições climáticas. 

Para prever os impactos do aquecimento sob diferentes cenários climáticos, a equipe analisou relatórios clínicos e laboratoriais confirmados de dengue na América Latina e usou modelos de computador. 

Eles descobriram que limitar o aquecimento global a 2°C, objetivo básico do Acordo de Paris, poderia reduzir incidência de dengue em até 2,8 milhões de casos por ano até o final do século, em comparação com um cenário em que a temperatura global aumenta em 3,7°C. 

Porém, limitar o aquecimento até 1,5°C, que representa a meta mais ambiciosa do acordo climático, produz uma queda adicional em casos de até meio milhão por ano, como mostram os resultados. 

"Há uma preocupação crescente sobre os possíveis impactos da mudança climática na saúde humana. Embora se reconheça que 1,5°C teria benefícios para a saúde humana, a magnitude desses benefícios permanecia em grande parte não quantificada", diz em comunicado da instituição o principal pesquisador, Felipe Colón-González, da Escola de Ciências Ambientais da UEA e do Tyndall Center for Climate Change Research.

Por: Vanessa Barbosa (Exame).

ONU Pede Combate à Inundação do Mundo Por Plástico

ONU diz que são necessários 450 anos para que uma garrafa de plástico se decomponha e desapareça do meio ambiente.

Todos os anos, desde 1972, 5 de junho é celebrado como o Dia Mundial do Meio Ambiente. A Organização das Nações Unidas (ONU) anualmente escolhe um tema relacionado às questões mais prementes da atualidade e este ano o mote é Beat Plastic Pollution (Combater a Poluição Plástica, em tradução livre). 

A poluição causada pelo descarte de objetos de plástico é um dos grandes desafios da atualidade. De acordo com a ONU, são necessários pelo menos 450 anos para que uma garrafa de plástico se decomponha e desapareça do meio ambiente. 

Em todo o mundo, 1 milhão de garrafas de plástico são compradas a cada minuto. Todos os anos são usadas até 500 bilhões de sacolas plásticas descartáveis. 

Apenas na última década foi produzido mais plástico do que em todo o século passado. Todos os anos, são utilizados 17 milhões de barris de petróleo para produzir garrafas plásticas. No total, metade do plástico utilizado é de uso único. 

Levando-se em conta que a taxa média global de reciclagem desses produtos é de 25%, isso significa um volume enorme de lixo plástico descartado nos oceanos. 

Estima-se que pelo menos 8 milhões de toneladas de lixo plástico vão parar nos mares anualmente, onde sufocam os recifes de corais e ameaçam a fauna marinha vulnerável. 

Plástico prejudica aves marinhas 

Até 2050, 99% das aves marinhas terão ingerido plástico. O lixo prejudica mais de 600 espécies marinhas, 15% delas em extinção. 

De acordo com a campanha da ONU Mares Limpos (Clean Seas), outro grande vilão dos mares são os microplásticos, partículas que medem menos de 5mm e que estão presentes também em cosméticos e produtos de higiene. Pelo menos 51 trilhões de partículas de microplásticos já estão nos oceanos. 

A campanha Beat Plastic Pollution, que tem a Índia como país anfitrião este ano, convida as pessoas a agirem, individual ou coletivamente, para combater a poluição plástica. 

São exemplos práticos como parar de usar canudinhos e talheres de plástico, levar sua própria caneca para o trabalho, pressionar as autoridades locais para melhorar a maneira como administram o lixo da sua cidade, utilizar sacolas de tecido ao fazer as compras e recolher lixo plástico que encontrar nas praias, florestas e cachoeiras que for visitar, entre outras iniciativas. 

O secretário-geral da ONU, António Guterres, reforçou – em um comunicado – o apelo pelo combate à poluição plástica. 

"Nosso mundo é inundado por resíduos plásticos prejudiciais. Todos os anos, mais de 8 milhões de toneladas acabam nos oceanos. Os microplásticos nos mares agora superam as estrelas da nossa galáxia. De ilhas remotas ao Ártico, nada é intocado. Se as tendências atuais continuarem, até 2050 nossos oceanos terão mais plástico do que peixes". 

Iniciativa peruana 

No Peru, uma campanha de reciclagem inovadora transformou um milhão de garrafas plásticas em milhares de ponchilas [combinação das palavras em espanhol “poncho” e “mochila”], que são mochilas com um poncho embutido. 

Os itens foram projetados para proteger as crianças mais pobres dos Andes, muitas das quais devem viajar vários quilômetros por dia, muitas vezes em condições adversas, para chegar à escola. As ponchilas são feitas, cada uma, de 80 garrafas plásticas recicladas. 

"Com essa iniciativa, estamos recuperando muito plástico que pode acabar em aterros sanitários, lixões ou nos oceanos", diz Miguel Nárvaez, chefe de responsabilidade social e empresarial da Cencosud, uma rede de supermercados e uma das empresas que lideram a campanha. 

O projeto começou em 2016, quando algumas empresas se uniram para reduzir a evasão escolar nos planaltos dos Andes devido às temperaturas extremas e às longas distâncias que as crianças precisam percorrer para chegar à escola. 

As empresas convidaram os cidadãos a apoiar a iniciativa recolhendo suas garrafas de plástico durante o verão, quando o consumo está alto. 

Em 2017, o projeto produziu 6.000 ponchos; outros 7.000 já foram feitos este ano. Os itens foram entregues às crianças nas províncias de Puno, Cusco, Arequipa, Huancavelica, Ayacucho e Apurímac antes do início do ano letivo. 

No Peru, 18 mil toneladas de resíduos são gerados todos os dias, dos quais 10% são de plástico e muito pouco é reciclado. 

O governo peruano está patrocinando um projeto de lei no Congresso para impulsionar a economia circular, reduzindo o consumo de plásticos e promovendo o uso de materiais reciclados.

Por: Marieta Cazarré / Edição: Kleber Sampaio (Agência Brasil).

Estudo Aponta Quem é o “Dono” do Carbono no Brasil

Parque Nacional do Juruena (Amazônia). Foto: Adriano Gambarini / WWF Brasil

Apesar de o Estado ser o principal responsável por reservas de carbono armazenado em vegetação nativa, aproximadamente 20% desse estoque está desprotegido, indica estudo de pesquisadores da USP e do Imaflora em colaboração com a Suécia.

Do total de 52 gigatoneladas (Gt) que compõem o estoque de carbono armazenado em vegetação nativa no Brasil, 67% estão em terras públicas, sendo que metade (26 Gt) está protegida em unidades de conservação e em terras indígenas. 

Apesar de o Estado ser o principal "dono" desse carbono, isso não significa que essas reservas estejam protegidas, sem o risco de se converterem em gases de efeito estufa (GEE). Aproximadamente 20% dessas reservas (10 Gt) estão desprotegidas em 80 milhões de hectares de terras públicas sem titulação ou destinação clara, onde a disputa pela propriedade e o desmatamento ilegal desafiam a preservação da vegetação nativa e podem levar ao aumento das emissões brasileiras de GEE. 

As constatações são de um estudo realizado por pesquisadores da Escola de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), em colaboração com colegas do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), da KTH Royal Institute of Technology e da Chalmers University of Technology – ambas instituições da Suécia

O estudo integra o projeto Atlas da Agropecuária Brasileira, realizado pelo Imaflora em parceria com o Geolab da Esalq-USP, com apoio da FAPESP. Os resultados do estudo foram publicados na revista Global Change Biology

"Conseguimos identificar, pela primeira vez, onde está e a quem pertence o carbono no Brasil que está acima do solo, tanto em vegetação nativa, como em culturas e pastagens, de todos os biomas brasileiros", disse Luís Fernando Guedes Pinto, pesquisador do Imaflora e um dos autores do estudo, à Agência FAPESP

Para quantificar o estoque de carbono acima do solo no país e identificar seu "tutor", os pesquisadores desenvolveram uma base georreferenciada da malha fundiária brasileira. A malha abrange todo o território nacional e integra bases de dados oficiais, como as das áreas protegidas nacionais e estaduais – como áreas de conservação, terras indígenas e militares –, além das bases de imóveis e de assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e os polígonos de imóveis do Cadastro Ambiental Rural (CAR). 

Juntas, essas bases de dados recobrem 80% do país. Para as áreas sem cobertura foi realizada uma modelagem complementar que considera essa porção do território como sendo terra privada, estima os limites dos imóveis rurais a partir dos dados do Censo Agropecuário do IBGE de 2006 e reproduz a distribuição de tamanho dos imóveis rurais censitados em cada município ou setor censitário. 

"A malha fundiária representa a aproximação mais realista do tamanho, da localização e da distribuição dos imóveis privados, além dos assentamentos e das terras públicas brasileiras", disse Guedes Pinto

As análises dos dados revelaram que, além de 20% do carbono (10 Gt) encontrado em 80 milhões de hectares de terras públicas sem titulação ou destinação clara estar desprotegido, há outros 3,4 Gt de carbono também sem proteção em propriedades privadas, que ocupam 65% do território brasileiro, mas englobam somente 30% do carbono (15,8 Gt). 

Embora o Código Florestal proteja 75% (12,4 Gt) do estoque de carbono encontrado nessas propriedades privadas por meio de reservas legais e áreas de preservação permanente, os outros 25% (3,4 Gt) estão desprotegidos em 101 milhões de hectares, aponta o estudo. 

"Nossos resultados indicam que, embora haja uma grande área de vegetação nativa e um grande estoque de carbono protegido no Brasil, aproximadamente 25% (13,4 Gt) – que representa a soma do carbono desprotegido em terras públicas e privadas – ainda estão desprotegidos, expostos ao risco de desmatamento e podendo contribuir para o consequente aumento das emissões brasileiras de gases de efeito estufa", avaliou Guedes Pinto

Desproteção por biomas 

De acordo com o estudo, o Cerrado é o bioma com o maior volume de carbono desprotegido: 1,4 Gt, correspondente a 40% do carbono com risco de emissão no país. Em segundo lugar está a Amazônia, que responde por um terço do carbono desprotegido no Brasil (1Gt), seguida pela Caatinga, que também tem um grande volume de carbono e área de vegetação nativa desprotegidos. 

A análise também permitiu identificar que a distribuição do carbono por tamanho de imóvel rural é desigual e varia para cada bioma do Brasil

Somente 2% de grandes imóveis ocupam metade da área privada e acumulam também metade do carbono em terras privadas. Um terço das terras privadas são ocupadas por 93% pequenos e médios imóveis. 

No caso da Amazônia, por exemplo, os pesquisadores estimam que 7 mil grandes imóveis acumulam 15% (0,5 Gt) do carbono desprotegido do Brasil, enquanto outros 110 mil pequenos imóveis retenham outros 10% (0,34%). Já o Cerrado é dominado por grandes imóveis: cerca de 30 mil acumulam 25% do carbono nacional desprotegido, enquanto outros 600 mil pequenos e médios imóveis representam apenas 17%. 

"O estudo indica que a conservação do carbono desprotegido no Brasil vai depender de uma combinação de políticas que incluem a regularização fundiária, a destinação de terras, a implementação do Código Florestal e outros instrumentos que priorizem a proteção da vegetação nativa e estoques de carbono que excedem a proteção dos mecanismos legais", avalia Gerd Sparovek, professor da Esalq-USP e um dos autores do estudo. 

"Além disso, este conjunto de políticas deve ser desenhado e implementado de maneira adaptada para as diferentes realidades produtivas, ecológicas e de governança de cada região do país", afirmou. 

O artigo Who owns the Brazilian carbon? (doi: 10.1111/gcb.14011), de Flavio L. M. Freitas, Oskar Englund, Gerd Sparovek, Göran Berndes, Vinicius Guidotti, Luís F. G. Pinto e Ulla Mörtberg, pode ser lido na revista Global Change Biology em https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/gcb.14011.

Por: Elton Alisson (Agência Fapesp).

A Febre da Mineração de 'Bitcoins' Conquista a Islândia

Usina geotérmica de Hellisheidi, na Islândia. País tem clima frio e energia barata, dois requisitos importantes para a atividade de minerar criptomoedas.

"Heaven" (céu). O cartaz pendurado na porta envelhecida só pode ser entendido como uma inesperada ironia. Um ruído ensurdecedor dá as boas-vindas aos que entram na sala. Pior ainda é o calor emitido por centenas de processadores que tentam, a toda velocidade, resolver problemas matemáticos para criar um novo bloco de bitcoins – a chamada mineração de criptomoedas, como é conhecida no jargão do setor. 

A mesma imagem se repete em outros lugares. Pilhas de computadores se amontoam no chão à espera de novas instalações, prontos para continuar explorando a galinha dos ovos de ouro versão 2.0. "É uma loucura. Há um ano, só tínhamos esta sala. Agora contamos com três centros e estamos a ponto de abrir outros quatro. O telefone não para de tocar. São investidores pedindo espaço para suas máquinas", afirma Marcel Mendes da Costa, gerente da Borealis. Aqui, nesse descampado sem graça na Islândia, cresce uma nova febre do ouro. A do século XXI. 

A mineração de bitcoins chegou para ficar. A HS Orka, uma das grandes companhias elétricas da Islândia, anuncia: em 2018, pela primeira vez, o consumo de energia destinada a esse intrincado processo vai superar o de todos os lares do país. Neste mundo das divisas digitais, a mineração equivale ao que nas moedas tradicionais seria a impressão de notas. E, se tudo continuar como até agora, o processo só conhece uma direção: para cima. 

Segundo cálculos do economista Alex de Vries, no final de 2018 o bitcoin terá absorvido a eletricidade consumida por um país como a Áustria, ou 0,5% de toda a eletricidade produzida no mundo. "Pode parecer pouco, mas a energia solar responde por 1% da eletricidade total. E foram necessárias décadas para que atingisse essa porcentagem. Em apenas um ano, o consumo agora dispara e ninguém sabe onde pode chegar", diz ele, do outro lado da linha. 

Companhias elétricas, empresas de centros de dados e investidores estrangeiros esperam grandes lucros. Mas o uso maciço de energia para as criptomoedas já fez com que organizações como o Greenpeace falem de uma ameaça para o meio ambiente. 

Marcel Mendes da Costa, no centro de dados Borealis.
Mas por que investidores de todos os tamanhos e lugares do mundo concentram agora sua atenção numa ilha perdida, no meio do caminho entre a Europa e a América, com apenas 350.000 habitantes? Basicamente, por causa do frio e do baixo preço da energia. Aqui, onde a temperatura média gira em torno dos quatro graus – mais ou menos a de uma geladeira –, a natureza oferece refrigeração gratuita, uma bênção para uma indústria cujo principal inimigo é o aquecimento de aparelhos que trabalham 24 horas por dia, 365 dias por ano. Nesse negócio, quem tem mais armas contra o calor é rei. 

"Nosso negócio consiste em vender mau tempo", diz, meio brincando, meio sério, Gísli Katrínarson, chefe comercial da Advania, a maior empresa de centros de dados da Islândia. Além disso, a abundância de energias renováveis – sobretudo geotérmica e hidráulica – permite uma eletricidade a preço baixíssimo. Se ainda levarmos em conta a segurança do fornecimento oferecida por um país hiperdesenvolvido, é compreensível a atração que o país desperta nesses mineradores digitais. 

Enquanto o negócio floresce, organismos internacionais e grupos de ecologistas se perguntam sobre seus efeitos ambientais. Agustín Carstens, diretor geral do Banco de Compensações Internacionais, definiu as criptomoedas como uma mistura de "bolha, esquema Ponzi [pirâmide financeira] e desastre ambiental". O Greenpeace adverte que a demanda de energia não para de crescer, e que só 20% dela é coberta com energias renováveis. Mesmo em lugares como a Finlândia, onde praticamente todos os centros de dados usam energias limpas, o problema permanece. "Os novos consumos de energia devem ser reduzidos. Do contrário, atrasaremos o processo de transição energética", explica Sara Pizzinato, especialista em energia da ONG. 

Mas o problema vai além dos bitcoins. Se a internet fosse um país, seria o quinto maior consumidor de energia do mundo, segundo um estudo do Greenpeace. Num artigo recente, Heidar Gudjonsson, presidente da Vodafone Islândia, dizia que a pegada de carbono deixada pelos downloads da música Despacito equivale à das emissões de gases anuais de 100.000 táxis. 

Perguntas sem resposta

As dúvidas sobre o negócio das criptomoedas não vêm apenas da frente ambiental. Smári McCarthy, ativista digital e deputado do Partido Pirata, é um dos líderes islandeses que mais chamam atenção para os problemas vinculados ao negócio dos centros de dados. "Há muitas perguntas sem resposta. Quem se beneficia com operações que ninguém controla? Como sabemos que não representam uma ameaça para a segurança nacional? Um competidor poderia se interessar em lançar um ataque que deixasse o país sem internet. Não pretendo tornar ilegais essas operações, e sim regulá-las", afirma o combativo deputado num gabinete do Althing, o Parlamento islandês. 

O local de mineração da Borealis é a versão de baixo custo dos modernos centros de dados. Aqui não há sistemas sofisticados de refrigeração. Só se veem filas de computadores trabalhando sem descanso, além de tubulações que mandam o calor para o teto. As paredes são de uma espécie de espuma que deixa entrar o frio numa zona em que, duas semanas atrás, com uma primavera praticamente inexistente, a temperatura girava em torno dos cinco graus. 

O interesse aumentou em 2017, quando o valor do bitcoin passou de 1.000 dólares (3.700 reais) em janeiro para quase 20.000 (74.000) em dezembro. Então chegaram aqueles que Mendes da Costa, um dos responsáveis pelo centro de dados, chama de cowboys. "Eram investidores que vinham com a ideia de ‘pegue o dinheiro e leve’. Mas esse tipo de cliente está diminuindo", diz este holandês residente na Islândia. Com a queda na cotação do bitcoin, vão preponderando neste negócio os clientes com vocação de médio e longo prazos, incluindo grandes entidades financeiras internacionais. Mas ninguém sabe o que vai acontecer se o preço continuar caindo. "Se chegar a menos de 6.000 dólares (22.200 reais), teremos problemas", afirma o gerente da Borealis

Jóhann Snorri Sigurbergsson, responsável pela empresa elétrica HS Orka, chega tarde ao encontro com o EL PAÍS numa cidade próxima de Keflavik, a região da Islândia que concentra a maior parte dos centros de dados. Ele justifica o atraso pela quantidade de pedidos que recebe a cada dia de investidores que desejam entrar no negócio. "De manhã eu tinha três e-mails. Todo dia é assim", se desculpa. Sigurbergsson resume uma sensação muito frequente nos últimos dias em seu setor: "O objetivo é chegar aqui e fazer dinheiro rápido." 

Um roubo maciço e um fugitivo no avião da primeira-ministra 

Em abril de 2018, os islandeses acompanham com atenção uma rocambolesca história digna do thriller mais absurdo. O coquetel inclui um roubo de computadores, a fuga de um criminoso e um voo onde estavam o fugitivo mais buscado do país e a primeira-ministra, a ecologista Katrín Jakobsdóttir

Sindri Thor Stefánsson pode se orgulhar de ser o criminoso mais famoso da Islândia, um país com um baixíssimo nível de criminalidade. Primeiro, ele protagonizou um espetacular roubo de 600 computadores destinados à mineração de bitcoins. Mais tarde, escapou de uma prisão de baixa segurança e pegou um avião com destino à Suécia, no qual pôde cumprimentar a chefa de Governo. A aventura terminou dias mais tarde, quando Stefánsson foi preso depois de postar em Amsterdam, sem nenhum problema, no Instagram de um amigo, numa foto onde se lia #teamsindri (equipe de Sindri). 

Além da história divertida, esse episódio mostra o problema de segurança enfrentado pela nascente indústria de mineração de bitcoins. "O que ocorreu nos fez revisar todos os nossos protocolos de segurança", afirma a empresa de centros de dados Advania.

Por: Luis Doncel (El País).