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Como Ficaria a Antártida Se a Temperatura Oceânica Subisse 1ºC?

A adição de um único grau à temperatura dos oceanos afetaria drasticamente a vida de espécies marinhas da Antártida. É o que revelou uma nova pesquisa conduzida por pesquisadores britânicos e publicada no jornal Current Biology [Warming by 1°C Drives Species and Assemblage Level Responses in Antarctica’s Marine Shallows]. Os cientistas defendem que o crescente aquecimento dos oceanos “pode superar amplamente as expectativas” atuais para o fenômeno. 

Durante nove meses, os pesquisadores monitoraram uma fina camada de água no fundo do Mar de Bellingshausen, próximo à estação de Rothera, na Ilha de Adelaide, Antártida. Em um primeiro momento, eles aqueceram o local 1º Celsius acima da temperatura ambiente, usando painéis elétricos. Depois, o aumento foi de 2ºC. As duas variações representam as estimativas da comunidade científica sobre o aquecimento dos mares e oceanos para os próximos 50 e 100 anos, respectivamente. 

Com uma temperatura 1ºC superior, a população de briozoários [Fenestrulina rugula] deu um salto gigantesco. Esses invertebrados microscópicos, que costumam viver em colônias nas águas geladas da Antártida, tomaram por completo a área com dois meses de experimento. A incidência de outras espécies, por conta disso, ficou bastante comprometida. Não foi o caso do verme marinho Romanchella perrieri. Os indivíduos aumentaram consideravelmente de tamanho, se tornando 70% maiores do que eram originalmente. 

No cenário em que o oceano estava 2ºC mais quente, no entanto, os pesquisadores não conseguiram identificar um padrão para análise. Diferentes amostras mostraram crescimento de espécies distintas. De acordo com o estudo, isso pode ser resultado da sazonalidade – sabe-se, por exemplo, que as espécies crescem mais rápido no verão. 

A pesquisa é importante por reforçar o tamanho do impacto que as alterações ambientais podem causar à vida do planeta. Os pesquisadores defendem que, nesse cenário de aquecimento constante, haverá espécies ganhadoras (como os briozoários) e perdedoras. Mesmo distantes das águas da Antártida, a chance maior é que os Homo sapiens estejam no segundo grupo.

Por: Guilherme Eler (Superinteressante).

Poluente Emitido Pela Queima de Biomassa Causa Dano ao DNA e Morte de Célula Pulmonar

Quando são expostas em laboratório a concentrações comparáveis de poluentes encontrada na atmosfera amazônica em época de queimadas, células do pulmão humano sofrem severos danos em seu DNA e param de se dividir. Após 72 horas de exposição, mais de 30% das células em cultura já estão mortas. 

O principal responsável pelo estrago? Ao que tudo indica é o reteno, um composto químico pertencente à classe dos hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs). 

As conclusões são de um estudo publicado no dia 7 de setembro na revista Scientific Reports por um grupo de pesquisadores brasileiros. 

“Não encontramos na literatura científica informações sobre a toxicidade do reteno. Espero que nossos achados sirvam como incentivo para que esse composto seja melhor estudado e para que suas concentrações ambientais passem a ser reguladas pelas organizações de saúde”, disse Nilmara de Oliveira Alves Brito, primeira autora do artigo e bolsista de pós-doutorado da FAPESP

A pesquisa foi conduzida sob a supervisão do professor Carlos Menck, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB-USP), e Silvia Regina Batistuzzo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Contou com a participação de Paulo Saldiva, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), e de Paulo Artaxo, do Instituto de Física (IF-USP), além de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Washington University em Saint Louis, nos Estados Unidos

“Ainda durante meu mestrado, na UFRN, observei que a exposição das células do pulmão a esse material particulado emitido pela queima de biomassa induzia mutação no DNA de células de pulmão. O objetivo neste estudo mais recente foi investigar os mecanismos pelos quais isso acontece”, disse Alves Brito

De acordo com a pesquisadora, o primeiro passo foi determinar a concentração de poluentes a ser usada nos testes in vitro para mimetizar a exposição sofrida por pessoas que moram no chamado “arco do desmatamento” – 500 mil km² de terras que vão do leste e sul do Pará em direção oeste, passando por Mato Grosso, Rondônia e Acre

Por meio de modelos matemáticos, os pesquisadores calcularam a capacidade de inalação de material particulado pelo pulmão humano no auge do período de queimadas, bem como a porcentagem de poluentes que de fato se deposita no órgão. “A partir dessa massa teórica, determinamos as concentrações que seriam testadas nas culturas celulares”, disse Alves Brito

Os poluentes usados in vitro foram coletados em uma área natural próxima a Porto Velho (RO) durante a estação de queimadas, cujo pico ocorre entre os meses de setembro e outubro. 

“Fizemos a coleta com equipamentos que aspiram o ar e depositam o material particulado fino – com diâmetro menor que 10 micrômetros – em um filtro. Nosso interesse era estudar as partículas pequenas, pois são as que conseguem chegar nos alvéolos pulmonares”, disse Alves Brito

Como explicou Artaxo, os filtros foram congelados logo após a coleta do material particulado, uma vez que os compostos orgânicos encontrados na pluma de poluição são extremamente voláteis. 

“Esse material foi levado para São Paulo e diluído em uma solução nutritiva, que depois foi aplicada nas culturas. Foi usada a mesma proporção de poluentes presente no ar respirado pela população em Porto Velho”, disse Artaxo

As culturas tratadas com a solução foram comparadas com um grupo de células-controle, que recebeu apenas o solvente usado para extrair os poluentes do filtro. O objetivo era confirmar que os eventuais efeitos adversos observados eram causados pelo material particulado e não pelo solvente. 

Efeito imediato 

Logo nos primeiros momentos de exposição, as células pulmonares passavam a produzir grandes quantidades de moléculas pró-inflamatórias. A inflamação era seguida pelo aumento na liberação de espécies reativas de oxigênio (ROS) – substâncias que provocam o chamado estresse oxidativo e que, em grandes quantidades, danificam as estruturas celulares. 

“Para entender os caminhos que estavam levando a essa condição de estresse, analisamos o ciclo celular e notamos que ele estava prejudicado pelo aumento na expressão de proteínas como a P53 e P21. As células tinham parado de se replicar, o que sugeria que danos no DNA estavam ocorrendo”, disse Alves Brito

Por meio de testes específicos, os pesquisadores confirmaram os danos genéticos. Graças ao aumento na expressão da proteína LC3 e de outros marcadores específicos, notaram também que as células estavam entrando em um processo de autofagia, ou seja, estavam autodegradando suas estruturas internas. 

“Todos esses danos foram observados em apenas 24 horas de exposição. À medida que o tempo passava, o dano genético aumentava e as células entravam em processo de apoptose [uma espécie de morte celular não inflamatória] e de necrose [tipo de morte em que a célula libera seu conteúdo interno, induzindo inflamação no local]”, disse Alves Brito

Enquanto na cultura controle apenas 2% das células haviam morrido por necrose após 72 horas, na cultura tratada com os poluentes o índice chegou a 33%. 

“Nem todas as células morrem. Porém, as que sobrevivem continuam sofrendo danos em seu DNA, o que pode predispor ao desenvolvimento de câncer no futuro”, comentou a pesquisadora. 

Antes mesmo de iniciar o experimento com as culturas celulares, Alves Brito e colaboradores concluíram uma análise das substâncias presentes no material particulado coletado na Amazônia. A presença de diversos compostos da classe dos HPAs foi identificada – muitos deles já são reconhecidos como carcinogênicos. Os resultados dessa análise foram divulgados em 2015 na revista Atmospheric Environment

“Observamos que o composto em maior quantidade era o reteno. Decidimos, então, repetir o experimento com as células usando essa substância de forma isolada, mas na mesma concentração encontrada no material particulado. Observamos que o reteno sozinho também induzia danos no DNA e morte celular”, disse Alves Brito

Segundo Artaxo, caso o número de células pulmonares mortas seja grande in vivo, podem surgir dificuldades respiratórias e até mesmo doenças graves como enfisema pulmonar. 

“Em um estudo anterior, mostramos que a queda no desmatamento – que era de 27 mil km² em 2004 e passou para 4 mil km² em 2012 – evitou a morte de pelo menos 1.700 pessoas por doenças associadas à poluição. O curioso é que a maioria dessas mortes não teria ocorrido na Amazônia, mas no Sul do Brasil, por causa do transporte à longa distância dos poluentes e também porque aqui a densidade populacional é muito maior”, disse. 

Alcance mundial 

Embora o reteno não seja emitido pela queima de combustíveis fósseis – principal fonte de poluição em regiões urbanas no Brasil –, os pesquisadores destacam que esse composto pode ser encontrado na atmosfera de cidades como São Paulo, em decorrência provavelmente da queima de cana e de outros tipos de biomassa nas proximidades. 

No artigo, os pesquisadores ressaltam que a maioria das pesquisas realizadas teve como foco o papel dos combustíveis fósseis na poluição atmosférica. No entanto, aproximadamente 3 bilhões de pessoas em todo o mundo estão expostas a poluentes oriundos da queima de biomassa – decorrente de práticas agrícolas, desmatamento, queima de madeira ou carvão para uso como combustível, em fogões ou aquecimento residencial. 

Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgado em 2012 apontou que aproximadamente 7 milhões de mortes – uma em cada oito ocorridas no mundo – era resultado de exposição à poluição atmosférica. 

“A combinação de incêndio florestal e ocupação humana transformou a queima de biomassa em uma séria ameaça à saúde pública. A maioria dos incêndios florestais ocorre no arco do desmatamento, impactando diretamente mais de 10 milhões de pessoas na região. Muitos estudos identificaram severos efeitos na saúde humana, como aumento na incidência de asma e elevação na morbidade e mortalidade principalmente na população mais vulnerável, composta por crianças e idosos”, apontam os autores. 

O artigo Biomass Burning in the Amazon Region Causes DNA Damage and Cell Death in Human Lung Cells (DOI: https://doi.org/10.1016/j.atmosenv.2015.08.059), de Nilmara de Oliveira Alves, Joel Brito, Sofia Caumo, Andrea Arana, Sandra de Souza Hacon, Paulo Artaxo, Risto Hillamo, Kimmo Teinilä, Silvia Regina Batistuzzo de Medeiros e Pérola de Castro Vasconcellos, pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41598-017-11024-3.

Por: Karina Toledo (Agência Fapesp).

Microplásticos Contaminam Água da Torneira Mundo Afora

Fibras de plástico invisíveis estão presentes não apenas nos oceanos, mas também na água potável usada por milhões de pessoas, aponta estudo. De onde vem essas partículas e como podem afetar a saúde humana?

De Nova York a Nova Déli, fibras de plástico microscópicas estão saindo junto com a água da torneira, aponta uma pesquisa da Orb Media, uma redação de notícias digital e sem fins lucrativos, baseada em Washington

"Isso é ruim. Ouvimos muitas coisas sobre câncer", diz Mercedes Noroña, de 61 anos, após saber que uma amostra de água de sua casa, próxima a Quito, no Equador, contém fibras plásticas. "Talvez eu esteja exagerando, mas eu tenho medo das coisas que vêm na água." 

Pesquisas recentes mostraram como os microplásticos poluem nossos oceanos, fontes de água doce, o solo e o ar. Esse estudo é o primeiro a revelar plástico na água da torneira da qual bilhões de pessoas dependem em todo o mundo. 

As novas descobertas são um alerta, diz Muhammad Yunus, prêmio Nobel da Paz de 2006. "Isso deve nos afetar. Nós vemos o nó ficando mais apertado ao redor do nosso pescoço", comenta. 

Para o estudo, mais de 150 amostras de água da torneira foram coletadas em cidades localizadas nos cinco continentes. Em média, 83% continham plástico. Se as fibras sintéticas estão na água da torneira, elas provavelmente estão também em alimentos, como pão e comida para bebê. 

Não está claro como as fibras plásticas entram na água da torneira ou quais seriam os riscos disso. Especialistas suspeitam que elas venham de roupas sintéticas, tapetes ou estofamentos. 

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Impacto nos animais e seres humanos 

Especialistas temem que, quando consumidas, as fibras plásticas possam transportar toxinas do meio ambiente para o corpo humano. O pesquisador Richard Tompson, da Universidade de Plymouth, diz que em estudos com animais "tornou-se claro que o plástico liberaria esses produtos químicos – e que, na verdade, as condições no intestino facilitariam uma liberação bastante rápida". 

Dados existentes sobre como o plástico afeta a vida selvagem são motivo de preocupação, aponta Sherri Mason, pioneira da pesquisa sobre microplásticos que supervisionou o estudo da Orb

"Se eles estão impactando os animais, então, como pensamos que eles não vão também nos impactar de alguma forma?", questiona Mason

Por enquanto, ninguém sabe, afirma Lincoln Fok, cientista ambiental da Universidade de Hong Kong. "A pesquisa [sobre microplásticos] na saúde humana ainda está engatinhando", destaca. 

Fibras de plástico são onipresentes 

As fibras plásticas estão na água da torneira de países ricos e pobres. O número de fibras encontradas em uma amostra de uma pia de banheiro do restaurante Trump Grill, em Nova York, foi igual ao encontrado em amostras de Jacarta, na Indonésia. A Organização Trump não respondeu a telefonemas e e-mails em busca de comentários sobre o assunto. 

As fibras microscópicas também foram encontradas em água engarrafada, e em casas com filtros com processo de osmose reversa. Os EUA não têm um padrão de segurança para o plástico na água da torneira. Na União Europeia (UE), normas determinam que a água da torneira seja livre de substâncias contaminantes. 

No entanto, as fibras plásticas são onipresentes. Em amostras de água da torneira dos EUA e de Beirute, no Líbano, 94% continham fibras de plástico microscópicas. Outros locais com amostras coletadas foram Nova Déli, na Índia (82%); Kampala, em Uganda (81%); Jacarta, na Indonésia (76%); Quito, no Equador (75%); e na Europa (72%). 

Descrença 

A noção de plástico na água potável causa confusão e rejeição. Uma porta-voz do Departamento de Água e Energia de Los Angeles (LADWP). afirmou que "os resultados dos nossos testes em curso não mostram níveis elevados de plástico". Ainda assim, duas de cada três amostras de Los Angeles – incluindo água de um bebedouro público – continham fibras de plástico. 

James Nsereko, pescador do Lago Victoria, em Uganda, também rejeitou a ideia. "Nós nunca encontramos nada assim", afirma. Mas uma amostra da torneira da vila onde Nsereko vive continha quatro fibras. 

Em Washington, uma amostra de 500 ml de água da torneira do edifício do Capitólio continha 16 fibras, assim como a do prédio da Agência de Proteção Ambiental. Autoridades das cidades de Washington e Nova York disseram que suas águas estão de acordo com os padrões legais. 

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Mistério ambiental 

Existe uma fonte confirmada de poluição de fibras plásticas – e você provavelmente a está usando. As roupas de tecidos sintéticos emitem até 700 mil fibras por lavagem, apontam os pesquisadores. A maior parte escapa do processo de tratamento de água e é descarregada em cursos d'água. 

Mason afirma que águas residuais tratadas com fibras são provavelmente coletadas e, posteriormente, encaminhadas para casas de outras comunidades. 

As fibras plásticas podem ser até transportadas do ar para nossos recursos hídricos pela chuva. Um estudo de 2015 estimou que de três a dez toneladas de fibras de plástico caíram anualmente nos telhados e ruas de Paris

"O que observamos em Paris tende a demonstrar que uma grande quantidade de fibras está presente na precipitação atmosférica", diz Johnny Gasperi, da Universidade de Paris-Est Créteil

De onde quer que elas venham, as fibras de plástico na água da torneira são um problema novo e perturbador para ser resolvido pelo governo, ciência e indústria, conclui Mason. "As pessoas sempre perguntavam: 'isto está em nossa água potável?' Eu nunca pensei que realmente estivesse", diz.

Por: Dan Morrison e Christopher Tyree (DW).

Mudanças Climáticas Põem Advogados Para Trabalhar

"Por que você está [realmente] negociando?" (COP21). Foto: Joel Lukhovi.
Ciência levanta provas robustas sobre o papel da humanidade na transformação do clima, impulsiona ações judiciais e pode levar governos e empresas a investir em mitigação. Os avanços científicos dos últimos anos deram aos pesquisadores a capacidade de compreender – e medir – com uma precisão cada vez maior, o tamanho da influência humana em catástrofes climáticas individuais. Isso significa que será cada vez mais comum mover processos bilionários por danos e prejuízos que terão como responsáveis governos e empresas privadas. 

A conclusão é de um estudo publicado no periódico Nature Geoscience pelo advogado especialista em causas ambientais James Thornton e colegas (Acts of God, Human Influence and Litigation). Thornton explica que isso só está acontecendo porque o consenso científico sobre o papel da humanidade em eventos extremos é cada vez maior. “No Reino Unido, por exemplo, os tribunais já aceitam evidências científicas de mudanças climáticas como provas de causalidade”, disse. 

A Lei de Alterações Climáticas do Reino Unido prevê que o governo solicite planos de adaptação das agências para demonstrar sua preparação para os impactos das mudanças climáticas, de modo a mitigar o risco de litígio. “Os governos têm o dever de evitar que os cidadãos sofram por catástrofes que poderiam evitar”, disse Thornton. Nos EUA, as reivindicações contra o poder público por não se adaptarem às mudanças climáticas podem se enquadrar, por exemplo, em leis federais, e os governantes podem responder a processo por negligência e fraude. 

Um dos casos mais famosos de litígio em clima ocorreu justamente nos EUA. Em 2015, um grupo representando 21 crianças processou o governo americano por falhar em combater a mudança climática – colocando em risco o futuro dos litigantes. O argumento jurídico central da ação, que será julgada em fevereiro de 2018 no Estado do Oregon, é que o governo é uma espécie de “fiel depositário” de bens comuns, como a água, as florestas e a atmosfera, e tem feito um péssimo trabalho. Casos semelhantes existem na Holanda, onde a Justiça deu ganho de causa aos cidadãos em 2015 e obrigou o governo a cortar emissões – na primeira ação do gênero a ser julgada – e no Paquistão

A pesquisadora australiana, advogada especialista na causa climática e uma das autoras do estudo, Sophie Marjanac, disse que as empresas também devem se preocupar em cumprir suas metas de emissão, uma vez que contribuem significativamente com os gases de efeito estufa. “Os pesquisadores estão produzindo evidências claras e as empresas têm ciência de sua parcela de responsabilidade no aumento do risco de eventos extremos no futuro”, disse. 

Para fazer um estudo de atribuição, os pesquisadores consideram a qualidade dos registros de observação, a capacidade dos modelos de simular o evento analisado e a compreensão científica dos processos. Segundo a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, eles atingiram um patamar elevado de confiabilidade e conseguem com alto grau de precisão diferenciar a variabilidade natural do clima das mudanças climáticas causadas pelo homem. A chance de acerto é ainda maior em eventos de calor ou frio extremos. 

Em 2004, um estudo de atribuição relacionou explicitamente a mudança climática antropogênica à forte onda de calor europeia de 2003 e abriu caminho para uma série de pesquisas e metodologias sobre o tema. As anomalias de temperatura no verão de 2017 no sudeste na Austrália, por exemplo, de acordo com uma série de estudos, têm altíssima probabilidade de terem sido causadas pelo homem. A chance de um verão superquente como aquele acontecer era de 1 em cada 500 anos algumas décadas atrás, hoje é de 1 em cada 50 anos. 

A boa notícia é que os tribunais – e os novos litígios – podem reduzir compulsoriamente as emissões de gases de efeito estufa. “Eles vão ser pressionados por processos e a perda de dinheiro pode ser maior do que os gastos com mitigação”, diz Marjanac. “Talvez seja o empurrão que faltava para acelerarmos o passo em favor da ação climática”. 

“No Brasil, assim como em outros países, a produção de evidências robustas sobre como, quando e onde os danos decorrentes das mudanças climáticas ocorrerão poderá ajudar a convencer o Poder Judiciário sobre a existência de deveres legais de reduzir seus impactos por meio de medidas de adaptação”, diz a advogada Ana Carolina Vieira, do Instituto de Energia e Meio Ambiente. “Essas medidas já estão previstas, inclusive, na legislação brasileira e em planos de governo nos diferentes níveis da federação.” 

Vieira diz, porém, que a sociedade brasileira ainda precisa desenvolver estratégias de litigância que levem a política climática a um novo patamar. “O estabelecimento desse campo depende da preparação e prontidão da sociedade civil e de instâncias de controle para se apropriar de dados científicos e submetê-los estrategicamente ao Poder Judiciário”, afirma. “Esse passo ainda não foi dado no Brasil.”

Por: Luciana Vicária e Claudio Angelo (OC).

381 Novas Espécies São Descobertas na Amazônia

Em média, uma nova espécie foi registrada a cada 2 dias entre 2014 e 2015. Documento lançado pela WWF-Brasil e Instituto Mamirauá aponta que a Amazônia ainda possui lacunas de conhecimento; e são poucos os recursos dedicados à pesquisa científica. Foto (pássaro Poaieiro-de-Chico Mendes / Zimmerius chicomendesi): Bret Whitney / WWF-Brasil.

Entre 2014 e 2015, mais de 300 espécies de plantas e animais vertebrados foram descobertos na Floresta Amazônica. Os dados estão num novo relatório divulgado pelo WWF-Brasil em parceria com o Instituto Mamirauá - unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). São 381 novas espécies de animais, sendo: 216 novas espécies de plantas; 93 de peixes; 32 de anfíbios; 19 de répteis; uma ave; 18 mamíferos; e dois mamíferos fósseis. Esses números indicam que, entre 2014 e 2015, cerca de 1 nova espécie de ser vivo foi descoberta na Amazônia a cada dois dias. 

Essa é a terceira edição do relatório e foi produzido por um grupo de especialistas, com um esforço para a revisão de bibliografia científica. As edições anteriores reuniram as novas espécies de 1999 a 2009 (que registrou 1,2 mil novas espécies descritas neste período) e 2010 a 2013 (que revelou outras 602 novas espécies). 

Entre 1999 e 2009, a taxa média de descobertas era de uma nova espécie a cada três dias. Entre 2010 e 2013, a taxa foi de uma nova espécie a cada 2,5 dias. Os números trazidos por este novo relatório, mostram que, entre 2014 e 2015, este número foi de 1,9 dias. Ao todo, foram mais de 2 mil novas espécies descritas nos últimos 17 anos. 

Segundo o relatório, pode-se concluir que a taxa de descobertas de novas espécies na Amazônia só tem crescido ao longo dos últimos anos, mas apesar dos números impressionantes, não podemos dizer que os problemas ambientais na região estão resolvidos. O relatório expõe que a Amazônia ainda possui lacunas de conhecimento, muito por conta de sua extensão territorial e ausência de recursos para viabilizar pesquisas científicas. E mostra ainda que muitas destas descobertas foram feitas dentro de áreas protegidas e seu entorno – reforçando a importância das unidades de conservação, dos mosaicos de áreas protegidas e da necessidade de se fazer pesquisas dentro deste espaço. 

Diversidade 

O número expressivo de descobertas demonstra a importância dos investimentos em pesquisa científica na Amazônia e de redobrar a atenção para a região, que tem sofrido o impacto de ações antrópicas como desmatamento, agropecuária e grandes obras de infraestrutura - como é o caso da construção de hidrelétricas e rodovias. 

Com a maior floresta tropical remanescente, a Amazônia é reduto para uma diversidade de espécies e habitats. Para a produção do relatório, foram considerados os limites da Amazônia Hidrográfica, a Amazônia Ecológica e a Amazônia Política como área de amostragem. 

Para o coordenador do Programa Amazônia do WWF-Brasil, Ricardo Mello, este estudo mostra que a biodiversidade do bioma ainda é um grande enigma: “Imaginar que ainda hoje, em 2017, estamos verificando a existência de novas espécies mesmo com escassos recursos, diz que ainda temos muito a conhecer e descobrir nesta região”. 

O coordenador declara ainda que este cenário deveria obrigar os tomadores de decisão, como empresários e políticos, a pensar um pouco melhor nos impactos irreversíveis provocados por grandes projetos, como estradas e hidrelétricas, na Amazônia. “Essa biodiversidade precisa ser conhecida e protegida. Estudos indicam que o maior potencial econômico de uma região como a Amazônia é a inclusão da biodiversidade nas soluções tecnológicas de um novo modelo de desenvolvimento, incluindo desenvolvimento de curas para doenças, uso de novas espécies para fins alimentares, como exemplo os superalimentos”. E conclui: “isso sem pensar que a integridade biológica da região é quem fornece o equilíbrio climático e de suprimento de água para todo o planeta. Enquanto isso não for feito, é muito perigoso avançar com grandes projetos da maneira como isso vem sendo feito: de forma veloz, sem discussão pública, com poucas garantias ambientais. Precisamos mudar esse método para garantir habitats saudáveis para as espécies que vivem nesta porção da América do Sul”. 

Novas estratégias 

Para o diretor técnico-científico do Instituto Mamirauá, João Valsecchi do Amaral, os novos conhecimentos trazidos por este relatório vão ajudar na identificação de áreas ou espécies que estejam sofrendo algum tipo de pressão, para o monitoramento dessa biodiversidade e para o estabelecimento de novas estratégias de conservação. “Para a conservação das espécies, é necessário saber quais são, quantas são e a sua distribuição. Essas são informações fundamentais para garantir que os processos ecológicos e evolutivos sejam compreendidos e permaneçam, de modo a assegurar a sobrevivência das espécies”, explicou. 

Entre as estratégias citadas no relatório para mitigar os resultados negativos das transformações que a Amazônia vem sofrendo está a criação de unidades de conservação. 

A descrição de novas espécies e a divulgação dos resultados científicos podem contribuir para atrair a atenção do poder público para a importância da Amazônia e a necessidade de um conhecimento mais abrangente da sua biodiversidade. Esses resultados também são importantes por oferecerem subsídio para o estabelecimento de áreas protegidas e o desenvolvimento de políticas públicas de conservação. 

Características 

O termo “nova espécie” é utilizado no meio científico para oficializar o registro de descrição de uma espécie antes desconhecida pela ciência. A publicação científica com a descrição de uma nova espécie traz informações de taxonomia, detalhando características da espécie e também do local onde foi encontrada. 

De acordo com João Valsecchi do Amaral, nos próximos anos, será possível observar um número crescente de descrição de novas espécies de vertebrados (peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos). “Se pensarmos nas plantas, o número será bastante maior e é praticamente impossível prever o número de espécies de invertebrados que ainda serão descritos”, completou o pesquisador. 

O relatório destaca que, apesar dos esforços, há ainda uma lacuna de conhecimento sobre a real diversidade da Amazônia. O documento revela também a carência de especialistas e taxonomistas na região amazônica e a falta de uma política de incentivo para formação de novos profissionais nessas áreas. 

Novos bichos 

Duas novas espécies de mamíferos fósseis; uma espécie botânica selvagem, do mesmo gênero do tomate; um carismático macaco da cauda avermelhada; um novo tipo de boto; um novo peixe ornamental; uma ave que recebeu seu nome em homenagem ao líder ambiental brasileiro Chico Mendes - essas são algumas das novas descobertas detalhadas no relatório. 

O documento reúne uma tabela com o compilado de todas as espécies recém-descobertas e as referências das publicações científicas com suas descrições. O relatório também reúne fotografias e textos com curiosidades sobre algumas das espécies. 

Zogue-zogue- rabo-de-fogo.
Algumas espécies 

O macaco Zogue-zogue-rabo-de-fogo (Plecturocebus miltoni): Descoberto numa expedição do WWF-Brasil ocorrida em dezembro de 2010 ao noroeste do Mato Grosso, teve seu nome “miltoni” dado em homenagem a um dos maiores primatólogos brasileiros, o cientista Milton Thiago de Mello

O boto Inia Araguaiensis: Encontrado em 2014, na bacia do rio Araguaia, tem características moleculares e medidas do crânio diferentes dos botos encontrados na bacia do rio Amazonas. Estima-se que esta espécie tenha surgido há cerca de 2,8 milhões de anos, quando teria se separado das outras populações de botos e tenha se instalado na bacia do rio Araguaia, em Goiás

O pássaro Poaieiro-de-Chico Mendes (Zimmerius chicomendesi): Foi registrado pela primeira vez em 2009, no sul do Amazonas, dentro da Floresta Nacional de Humaitá. No entanto, só foi possível descrever essa espécie após uma expedição ocorrida em 2011, que trouxe novas e várias informações sobre o animal. Possui um canto muito peculiar – que foi a característica que primeiramente chamou a atenção dos pesquisadores – e teve seu nome dado em homenagem ao ambientalista e grande líder acriano. 

A perereca Pristimantis jamescameroni: Esta pequena perereca ocorre apenas no estado de Bolívar, na Venezuela, em tepuis com mais de 2,5 mil metros de altitude. Seu nome é uma homenagem ao diretor de cinema James Cameron, um entusiasta das causas ambientais e divulgador de vários problemas existentes na região amazônica.

Leia na íntegra o documento Relatório de Novas Espécies de Vertebrados e Plantas na Amazônia 2014-2015 (em .pdf).

Fonte: WWF-Brasil.

Lítio em Água Potável Reduz Riscos de Demência, sugere estudo

Estudo dinamarquês correlacionou prevalência da demência com o lítio presente na água corrente.

Pessoas que bebem água com níveis mais elevados de lítio parecem ter um risco menor de desenvolver demência, sugere uma pesquisa dinamarquesa. O lítio é comumente encontrado na água da torneira ou outras fontes de água corrente, ainda que em quantidades variadas. 

A descoberta, baseada em um estudo com 800 mil pessoas, pode dar pistas de como avançar na busca pela prevenção da demência e do mal de Alzheimer. 

O estudo Association of Lithium in Drinking Water With the Incidence of Dementia, da Universidade de Copenhague, publicado no periódico JAMA Psychiatry, analisou os registros médicos de 73.731 dinamarqueses com demência e 733.653 sem a doença. 

Ao mesmo tempo, a água corrente foi testada em 151 áreas do país nórdico. 

Resultados 

Os resultados mostram que, de um lado, níveis moderados de lítio (entre 5,1 e 10 microgramas por litro) aumentavam o risco de demência em 22%, em comparação com níveis baixos (menos de 5 microgramas por litro). De outro lado, porém, as pessoas que beberam água com níveis elevados de lítio (acima de 15 microgramas por litro) tinham risco 17% menor de desenvolver a doença. 

A diferença de impacto das doses de lítio pode ser explicada pelo fato de apenas algumas dosagens específicas mudarem a atividade cerebral de modo benéfico. 

“A exposição mais alta e de longo prazo ao lítio na água potável pode estar associada com uma incidência menor de demência”, disseram os pesquisadores. 

Mudanças no cérebro 

O lítio já é conhecido por seus efeitos protetores em diversos processos biológicos cerebrais, tanto que é usado para tratamento da bipolaridade. 

O tema já havia sido estudado por pesquisadores, inclusive com participação brasileira. Em 2007, artigo científico coassinado pelo médico Wagner Gattaz, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, concluiu que “o tratamento com lítio reduziu a prevalência de Alzheimer em pacientes com bipolaridade”. 

“O lítio inibe uma enzima crucial no (desenvolvimento) do Alzheimer”, diz Gattaz à BBC Brasil

O médico brasileiro também testou o lítio em pessoas com transtorno cognitivo leve (que são perdas moderadas de memória, casos que muitas vezes evoluem para um quadro de demência) e identificou novamente que a substância havia tido efeito benéfico. 

Ainda assim, diz ele, é cedo para recomendar que o lítio seja acrescentado à água que todos bebemos. 

“Antes de fazer qualquer recomendação desse tipo, ainda precisamos estudar os efeitos (no corpo) das microdoses de lítio ao longo do tempo”, explica Gattaz, lembrando que a substância tem alguns efeitos colaterais, como tremores e comprometimento da tireoide e dos rins, dependendo da quantidade que se acumula no sangue. 

Lítio pertence ao grupo dos metais alcalinos, com sódio e potássio. É usado em baterias, produtos farmacêuticos, cerâmicas e carros, e encontrado naturalmente em rochas, água, grãos, verduras e legumes. 

Ausência de tratamentos 

Conter o avanço do Alzheimer é uma das grandes buscas da medicina focada no envelhecimento da população. 

Para o médico David Reynolds, da ONG Alzheimer’s Research UK, “é potencialmente animador que baixas dosagens de uma droga já disponível ajudem a limitar o número de pessoas que desenvolvem demência”. 

Ao mesmo tempo, o problema com estudos como o dinamarquês – que buscam padrões em uma grande quantidade de dados – é que eles não conseguem provar em definitivo relações de causa e efeito. 

“Essa associação (observada pelo estudo) não significa necessariamente que o lítio em si reduz os riscos de demência”, aponta Tara Spires-Jones, professora do Centro de Descobertas de Ciências do Cérebro, da Universidade de Edimburgo. “Pode haver outros fatores ambientais na área (estudada) que influenciem os riscos de demência. De qualquer modo, o resultado é interessante e vai impulsionar mais pesquisas quanto a se os níveis de lítio na dieta ou na água potável podem modificar o risco de demência.”

Fonte: BBC Brasil; com reportagem de James Gallagher, da BBC News.

Organizações Sociais Apontam Caminhos Para Plano Decenal de Energia

Redes da sociedade civil organizada encaminharam um documento conjunto, no qual colocam suas contribuições para a versão preliminar do Plano Decenal de Expansão de Energia 2026 (PDE 2026), submetida à consulta pública pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e pelo Ministério de Minas e Energia (MME). 

O principal objetivo é incorporar efetivamente a dimensão socioambiental no planejamento do setor energético brasileiro. A iniciativa é do Grupo de Trabalho de Infraestrutura (GT-Infraestrutura), do Observatório do Clima (OC), da Frente por uma Nova Política Energética para o Brasil (FNPE) – em parceria com o Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social (FMCJS) e da Aliança dos Rios da Panamazônia. Estas redes são compostas por organizações não-governamentais e movimentos sociais. 

As propostas são divididas em cinco eixos: 

• Transparência e participação pública: incorporação da dimensão socioambiental; dos direitos humanos; 
• Processos de tomada de decisão e incorporação de critérios de restrição na formação dos portfólios; • Identificação de cenários de demanda; 
• Alternativas para a geração de energia elétrica: energia solar e eólica; termelétrica à biomassa; a não construção de mais nenhuma hidrelétrica na Amazônia; térmicas com combustível fóssil com restrições; quanto à energia nuclear, retirar Angra 3 e quaisquer planos de novas usinas nucleares do planejamento energético; 
• Questionamento sobre a expansão petroleira no plano. 

Os ambientalistas e especialistas na área energética, que integram o grupo de autores, expõem a relevância do PDE ser objeto de diálogos mais aprofundados com as redes da sociedade civil sobre temas específicos abordados e de forma articulada com o Plano Nacional de Energia (PNE), o componente de energia da NDC brasileira, no âmbito do Acordo de Paris. Como também, interagir com as consultas públicas do MME sobre princípios para a reorganização do setor elétrico (CP 32 de 03/07/2017) e aprimoramento do marco legal do setor elétrico (CP 33 de 05/07/2017). 

“A contribuição apresentada já é muito importante por representar um posicionamento conjunto de diversas organizações e redes que discutem o setor energético no Brasil, seja do ponto de vista da resistência aos grandes empreendimentos, seja do ponto de vista da afirmação de alternativas mais responsáveis socioambientalmente. Creio que isso confere um peso especial ao documento e deva ser levado em consideração pelo MME em sua análise”, afirma Joilson Costa, coordenador da Frente por uma Nova Política Energética para o Brasil

Segundo ele, no conteúdo, o documento é enfático ao afirmar que é necessário que o plano indique ao mercado territórios e regiões onde projetos de energia não devem ser desenvolvidos devido a restrições sociais e/ou ambientais. 

“Portanto, com o grau de desenvolvimento tecnológico que temos atualmente, não é aceitável que fontes que gerem menores impactos socioambientais que hidrelétricas e termoelétricas, por exemplo, não sejam devidamente priorizadas e incentivadas no planejamento energético. O discurso (ou a falácia) da modicidade tarifária ou dos entraves técnicos na operação devem ser contrapostos adequadamente pela sociedade.”, diz Costa

Na avaliação de Munir Soares, coordenador da agenda de energia elétrica do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), a construção coletiva do documento fortalece o papel da sociedade nesta agenda. “Propõe que haja uma discussão prévia pelo MME e EPE quanto aos critérios socioambientais, desde a etapa de planejamento, que excluam riscos elevados”. 

Segundo Soares, as contribuições também trazem a proposta de maior integração entre demanda e oferta de energia, com princípios de eficiência energética e alternativas de incentivos de redução de consumo, que envolvam grandes consumidores. “Ao mesmo tempo, propõe um avanço do rigor da aplicação dos direitos humanos, com um diálogo mais amplo sobre o componente socioambiental que se expanda, além do MME e EPE, a órgãos importantes nesta agenda, como a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Fundação Palmares e Ministério do Meio Ambiente (MMA)”, diz. 

Sérgio Guimarães, do Instituto Centro de Vida (ICV) e coordenador no GT-Infraestrutura, ressalta os problemas crônicos e os grandes impactos socioambientais das hidrelétricas na Amazônia que estão diretamente relacionados a grandes esquemas de corrupção, como ficou amplamente evidenciado na construção de hidrelétricas como Belo Monte, Santo Antônio e Jirau, envolvendo empreiteiras, grupos políticos, dirigentes do setor elétrico do governo. 

“Esquemas que definiram a ‘necessidade’ de construção de novas hidrelétricas, quando especialistas mostram que a lacuna deixada pela ausência desses projetos pode perfeitamente ser coberta com maior expansão de outras fontes renováveis e exploração do potencial de eficiência energética e gerenciamento da demanda. Não sendo, portanto necessário, viável e aceitável pelas populações locais a construção de nenhuma hidrelétrica adicional na Amazônia”, afirma Guimarães

Antonia Melo, do Movimento Xingu Vivo para Sempre e da Aliança dos Povos da Panamazônia, reforça que os movimentos sociais querem ampliar a discussão sobre a descentralização da política energética, pois se trata de uma política pública. “A energia está sendo pensada e direcionada hoje por um pequeno grupo que dá as ordens. Queremos a democratização a respeito da energia no país. As comunidades precisam dizer o que elas querem para viver dignamente e conservar o meio ambiente. Não ter algo imposto de cima para baixo e pelas empresas, a exemplo de Belo Monte. Exigimos que os debates sejam feitos localmente, como também consulta prévia, livre e informada aos povos indígenas. Chega de megaprojetos e de modelos destrutivos de barragens na Amazônia, queremos que o governo faça investimento em energia de pequena escala principalmente em energia solar nas comunidades distantes”, afirma. 

Para Brent Millikan, diretor do Programa Amazônia da International Rivers-Brasil (IR-Brasil), em linhas gerais, o documento destaca como as redes, movimentos e entidades da sociedade civil têm muito a contribuir para melhorar a qualidade do planejamento energético, sobretudo na integração de questões socioambientais. “Esperamos que essa iniciativa tenha desdobramentos concretos, em termos de diálogos mais aprofundados sobre questões especificas que apontamos”, diz.

Por: Sucena Shkrada Resk (ICV).

Restauração Ecológica Que Gera Retornos Econômicos

Restauração ecológica pode gerar retornos econômicos de US$ 23 bilhões nos próximos 50 anos na America Latina.

Em todo o mundo, mais de dois bilhões de hectares de terra degradada oferecem oportunidades de restauração - uma extensão maior que a América do Sul. Grande parte está em áreas tropicais e temperadas. Na América Latina e no Caribe, os governos e as partes comprometeram-se em restaurar 20 milhões de hectares como parte da Iniciativa 20x20. Trata-se de um sub-compromisso no âmbito do Desafio de Bonn, que propõe a restauração de mais de 150 milhões de hectares de áreas degradadas até 2020. A boa notícia é que esse esforço pode render dividendos. 

"Investir na restauração ecológica faz sentido do ponto de vista econômico e também ecológico", afirmou Bethanie Walder, diretora executiva da Society for Ecological Restoration. O World Resources Institute (WRI) estima que US$ 1,15 bilhão já destinados à Iniciativa 20x20 poderiam resultar em retornos econômicos de US$ 23 bilhões nos próximos 50 anos. Isso equivale a cerca de 10% do valor das exportações de alimentos na região. Além disso, este programa poderia sequestrar quase 5 gigatoneladas de CO2 durante esse mesmo período. 

"Restaurar 12 milhões de hectares de terras florestais desmatadas e degradadas até 2030, através da restauração florestal, reflorestamento e regeneração natural são um caminho para o Brasil alcançar grandes reduções nas emissões para o Acordo do Clima de Paris", disse Rachel Biderman, diretora executiva da WRI Brasil. Restaurar essas áreas também ajudará a mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Com esses compromissos, o Brasil se juntou a muitas outras nações para se comprometer a participar da Iniciativa 20x20 como parte do Desafio de Bonn

Para debater como esses desafios podem ser superados, especialistas do mundo inteiro se reúnem em Foz do Iguaçu entre os dias 27 de agosto e 1º de setembro para a 7ª Conferência Mundial Sobre Restauração Ecológica. Organizado pela Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE), a Sociedade Internacional para a Restauração Ecológica (SER) e a Sociedade Ibero-Americana e do Caribe para a Restauração Ecológica (SIACRE), este evento bienal é o maior encontro mundial de cientistas, profissionais, decisores políticos e estudantes que trabalham no campo da restauração. Mais de 1.000 participantes de 60 países diferentes já se inscreveram. 

Grande parte da conferência se concentrará na consecução desses objetivos internacionais, através da Conexão de Ciência e Prática Para um Mundo Melhor. A conferência inclui nove aulas magistrais de cientistas de renome mundial, 78 simpósios e oficinas, mais de 500 palestras adicionais, 5 cursos de treinamento e outras oportunidades de trabalho em rede e compartilhamento de conhecimento e experiência. O evento ajudará a construir a capacidade técnica necessária para projetos de restauração em diferentes escalas e em diferentes países. 

"No momento em que o Brasil está passando por uma das maiores crises políticas e econômicas e ameaças associadas à legislação ambiental, incluindo propostas para reduzir áreas protegidas, e as responsabilidades geradas pelo desastre de Mariana (MG), a realização de um evento dessa magnitude no Brasil apoia os muitos cidadãos brasileiros que trabalham ativamente e promovem iniciativas nacionais para construir um futuro melhor ", diz Vera Lex Engel, presidente da conferência. 

Nos últimos 20 anos, a restauração ecológica tornou-se uma ferramenta importante para reverter parcial ou totalmente a perda de biodiversidade e serviços ecossistêmicos. À luz disso, alguns dos principais acordos e objetivos ambientais do mundo, como o Acordo de Paris e as Metas de Aichi da Convenção Sobre a Diversidade Biológica, exigem a restauração ecológica como uma abordagem importante para proteger e melhorar a biodiversidade, garantindo a segurança da comida e da água e enfrentando outras ameaças ambientais globais. 

De acordo com a Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica, a restauração é "o processo de ajuda à recuperação de um ecossistema degradado, danificado ou destruído". Ou seja, sua intenção é devolver um ecossistema à sua condição natural e trajetória natural, inclusive no contexto das mudanças climáticas. Como tal, a restauração inclui atividades que não sejam o reflorestamento, a fim de proteger e restaurar a biodiversidade, a água e a segurança alimentar. 

Para mais informações: http://ser2017.org/pt

Fonte: AViV Comunicação via e-mail/press release para SenhorEco.org

Transição Imediata Para Energia Limpa Conteria Mudança Climática, diz estudo

Parque Eólico de Osório, no Rio Grande do Sul.

Imagine um mundo futurista absurdamente silencioso e limpo, no qual não existem mais motores queimando combustível, 100% movido pela energia do vento, do sol e da água. Esse mundo seria técnica e economicamente viável já em 2050, dizem pesquisadores americanos - criando 24 milhões de empregos, gastando menos energia do que a que consumimos hoje e evitando milhões de mortes causadas pela poluição. 

As contas que demonstram essa possibilidade, feitas pela equipe de Mark Jacobson, da Universidade Stanford, e de seu xará Mark Delucchi, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, acabam de ser publicadas na revista científica Joule [100% Clean and Renewable Wind, Water, and Sunlight All-Sector Energy Roadmaps for 139 Countries of the World]. Colocando os números no papel, os pesquisadores estimam ainda que essa transição radical em favor das energias limpas seria capaz de evitar que a temperatura global suba mais do que 1,5 grau Celsius ao longo deste século - uma barreira a partir da qual as mudanças climáticas se tornam consideravelmente mais perigosas. 

É PRA JÁ 

Para conseguir esse feito aparentemente hercúleo, bastaria usar em grande escala tecnologias que já estão disponíveis hoje ou que, no máximo, teriam de ganhar escala maior do que a existente em 2017 (caso do aproveitamento da energia das marés, por exemplo). O crucial, porém, é começar agora, disse Jacobson à Folha de S. Paulo

"A transição para 100% WWS [sigla inglesa de "eólica, hidrelétrica e solar"] envolve a substituição dos sistemas atuais que já estão prestes a ser aposentados por instalações do tipo WWS e forçar a aposentadoria precoce dos sistemas poluentes. No segundo caso, inicialmente isso vai levar a um aumento de curto prazo das emissões de gases-estufa [que aquecem o planeta], mas conforme o tempo passa essas emissões caem de uma vez para zero", defende o pesquisador. 

"Além disso, quanto antes fizermos essa transição, mais rápido eliminamos os custos para a saúde ligados às emissões atuais, e esses custos são maiores que os da energia - portanto, economizaremos quantidades enormes de dinheiro apenas graças a isso." 

As usinas de energia eólica em terra firme (com quase um quarto da geração de energia elétrica do planeta projetada para 2050) e as usinas solares (com 21% da geração) seriam os principais pilares dessa mudança gigantesca, estimam os pesquisadores. Cobrir casas e instalações governamentais com painéis solares também ajudaria um bocado. 

No modelo proposto, 4% da energia do planeta viria de hidrelétricas, enquanto as opções mais futuristas (turbinas que aproveitam as marés, energia de ondas e usinas geotérmicas), somadas, não chegariam a 1% da matriz energética mundial. 

Se colocado em prática, o plano geraria 24 milhões de empregos líquidos mundo afora - já descontados os petroleiros e mineiros de carvão desempregados no processo ao longo das décadas. E o gasto global de energia ainda acabaria ficando um pouco inferior ao atual graças à eficiência superior de um sistema totalmente elétrico, que não envolve queima de combustíveis, e ao fato de que não seria mais necessário gastar energia para extrair petróleo e carvão do solo e processar esses insumos. 

SE NÃO AGORA, QUANDO?

"Os autores são sérios, e o trabalho também", diz Roberto Schaeffer, especialista em planejamento energético da UFRJ que comentou a pesquisa a pedido da Folha. "Neste momento, o custo maior é o de preparar os sistemas elétricos dos diferentes países para um mundo diferente daquele para o qual eles foram pensados." 

Schaeffer chama a atenção para áreas da indústria em que há emissões de gases-estufa inerentes ao processo de produção, como a siderurgia, a de cimento e de refino de produtos petroquímicos. "Estamos estudando tudo isso: por exemplo, novos materiais para substituir aqueles que não podem ser descarbonizados em sua produção." 

Ricardo Baitelo, coordenador da campanha de clima e energia da ONG Greenpeace, lembra que um estudo global da organização já tinha apontado possibilidades similares às do estudo de Jacobson. "Os números, inclusive, eram bem similares, e o mesmo vale para um estudo que fizemos só para o cenário brasileiro", afirma. "No ramo da eletricidade, a coisa está acontecendo de forma relativamente rápida. No setor de transportes, é mais complicado, mas o aumento da expectativa em relação à popularização de carros elétricos indica que essa transição pode acontecer antes do que a gente imagina - resta saber se será no ritmo de que a gente precisa." 

O nó que precisa ser desatado para alcançar esse objetivo é, claro, de natureza política. Abandonar de vez os combustíveis fósseis levaria a uma reconfiguração da economia mundial. "Mas é importante lembrar que o mix de energia eólica, solar e hidrelétrica é relativamente bem distribuído no mundo todo, em especial no caso do vento e da própria energia solar - você não precisa de um sol brasileiro para conseguir uma geração decente", diz Baitelo. Carvão e petróleo, por outro lado, estão distribuídos de forma bem mais desigual pelo planeta. 

O MAPA DA ENERGIA LIMPA

Em 2050, toda a energia do mundo poderia ser suprida pelo vento, pela luz solar e pelas águas, diz estudo 

• Painéis solares residenciais: 14,89% 
• Usinas de energia solar: 21,36% 
• Usinas de energia solar concentrada: 9,72% 
• Usinas eólicas "onshore" (em terra firme): 23,52% 
• Usinas eólicas "offshore" (no mar): 13,62% 
• Painéis solares comerciais e governamentais: 11,58% 
• Energia das ondas: 0,58% 
• Energia geotérmica: 0,67% 
• Hidrelétricas: 4% 
• Turbinas de marés: 0,06% 

• Empregos criados: 52 milhões 
• Empregos perdidos: 27,7 milhões 
• Ganho líquido de empregos: 24,3 milhões 

• Mortes por poluição atmosférica evitadas: até 7 milhões por ano 

• Redução da demanda por energia: 42,5% 

Por que é possível economizar energia dessa maneira? 

• Eficiência energética da eletricidade em relação à combustão: 23% de economia 
• Não há gastos com extração, processamento e distribuição de combustíveis fósseis: 12,65% de economia 
• Aumento da eficiência durante o uso de redes, equipamentos, sistemas etc.: 6,98% de economia.

Por: Reinaldo José Lopes (Folha de S. Paulo).

Transformação Digital Aumenta Eficiência do Abastecimento de Água

Sistema permite aumentar eficiência desde a captação. Na imagem, a Represa de Guarapiranga, em São Paulo.

Sensores para acompanhar o consumo de água, armazenamento em nuvem para reunir todas as informações e aprendizado de máquina para identificar e prever perdas na distribuição. Ao agregar tecnologias e aplicar o conceito de transformação digital, sistema desenvolvido na Escola Politécnica (Poli) da USP permite às empresas de saneamento realizarem manutenção preventiva da rede e tornar o abastecimento mais eficiente. O método foi pesquisado pelo cientista da computação Marcelo Teixeira de Azevedo e é descrito em sua tese de doutorado. 

Para demonstrar como as tecnologias digitais podem ser aplicadas em processos industriais, Azevedo utilizou dados sobre o consumo de água na cidade de Mairinque (interior de São Paulo) e simulou no computador todas as etapas do sistema. “Empresas de abastecimento de água, gás e energia elétrica são indústrias conhecidas como utilities pois atendem a toda a população”, conta. “No Brasil, além dos problemas de escassez de água, há a questão das perdas durante a distribuição, que podem chegar a até 40% em algumas cidades.” 

Para acompanhar o consumo de água, são utilizados sensores inteligentes conectados à internet. “Com a Internet das Coisas (IOT), a utilização da água é acompanhada em tempo real, não apenas pelas companhias de saneamento”, explica o pesquisador. “Qualquer consumidor pode obter as informações pelo computador ou em um aplicativo de celular e até efetuar o pagamento da conta, sem esperar pela medição mensal, quando normalmente são identificados os vazamentos.” 

Os dados referentes a toda a rede de distribuição são armazenados em nuvem, ou seja, em servidores de computador que permanecem online. “Devido ao grande volume, é preciso utilizar a tecnologia de big data para processar todas as informações”, descreve Azevedo. Técnicas de aprendizado de máquina permitem relacionar dados sobre vazão e fluxo de água, identificando picos de uso e prevendo perdas causadas por vazamentos. “Assim, as empresas podem antecipar a manutenção das tubulações, acabando com as perdas.” 

Transformação digital 

A base do sistema desenvolvido na pesquisa é o conceito de transformação digital, chamado de manufatura avançada. “Em todo o mundo, há iniciativas que buscam utilizar tecnologias habilitadoras, como Internet das Coisas, nuvem e aprendizado de máquina, para fazer com que todo o processo industrial, desde o fornecimento da matéria-prima até a entrega do produto final, seja totalmente conectado”, afirma o pesquisador. “Isso é economicamente importante, pois aumentam a eficiência, a produtividade e os ganhos.” 

Nos Estados Unidos, a transformação digital recebe o nome de Industrial Internet. No Japão é chamada de Sociedade 5.0 e na Alemanha, que serviu de inspiração para o modelo brasileiro de manufatura avançada, de Indústria 4.0. “Algumas empresas já oferecem consultorias para a implementação de tecnologias habilitadoras, que já transformaram o modelo de negócios em vários setores, como nos casos do Facebook, Netflix e Uber”, destaca Azevedo

De acordo com o pesquisador, os resultados da simulação foram satisfatórios e demonstram que é possível transformar digitalmente um processo existente há muito tempo. “Ao trazer eficiência para o abastecimento de água, a transformação digital reduz perdas e leva inteligência tanto para a captação quanto para a distribuição”, observa. O estudo é descrito na tese de doutorado Transformação Digital na Indústria: Indústria 4.0 e a Rede de Água Inteligente no Brasil, publicada como livro eletrônico. A pesquisa foi orientada pelo professor Sergio Takeo Kofuji, da Poli

Para entender as necessidades dos empresários brasileiros em relação à tecnologia, durante a pesquisa foram entrevistados 32 executivos de empresas da região de Campinas (no interior de São Paulo). O levantamento concluiu que há deficiências no conhecimento e na aplicação das tecnologias habilitadoras e levou a capacitação de novos profissionais a ser incorporada ao Centro USP/Huawei de Internet do Futuro, que realiza um programa de treinamento no Laboratório de Sustentabilidade (Lassu) da Poli, em parceria com a empresa Huawei. Iniciado em outubro do ano de 2016, o treinamento já está na oitava turma de alunos.

Por: Júlio Bernardes (Jornal da USP).

A Implacável Marcha da Seca Como Um 'Cavaleiro do Apocalipse'

Em 2025, 1,8 bilhão de pessoas padecerão da mais absoluta escassez de água, e dois terços da humanidade sofrerá de estresse hídrico – a não ser que a comunidade internacional reaja e tome providências. Cresce atualmente o medo de que o avanço da seca e dos desertos, assim como a progressiva escassez de água e a insegurança alimentar gerem um “tsunami” de refugiados e imigrantes climáticos. Diante disso, não é de estranhar que a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos das Secas (UNCCD) considere a seca como “um dos quatro cavaleiros do Apocalipse”. 

A demanda por água poderá aumentar 50% em 2050. Com o crescimento demográfico, particularmente nas terras secas, cada vez mais pessoas dependem do abastecimento de água potável em terras que se degradam, alerta Monique Barbut, Secretária Executiva da UNCCD, que tem sede em Bonn, Alemanha

A escassez hídrica é um dos grandes desafios do século XXI. A seca e a falta d’água são consideradas os desastres naturais com maiores consequências, pois geram perdas ecológicas e econômicas a curto e longo prazos, além de causar impactos secundários e terciários. 

Para mitigar as consequências, é preciso haver uma preparação para a seca, que seja sensível às necessidades humanas e ao mesmo tempo preserve a qualidade ambiental e os ecossistemas. É necessário contar com a participação de todos os atores, inclusive dos usuários e provedores do serviço, na busca de soluções – afirma a UNCCD. “Atribui-se à seca – um perigo natural complexo, que avança lentamente e tem consequências ambientais e socioeconômicas generalizadas – mais mortes e deslocamentos de pessoas do que qualquer outro desastre natural”. 

Seca, escassez hídrica e refugiados 

Monique Barbut lembrou que as regiões propensas à seca e à escassez hídrica são, em geral, locais de origem de muitos refugiados. Nem a desertificação nem a seca são causas de conflitos ou migrações forçadas, mas podem elevar o risco de sua ocorrência e intensificar os já existentes, explicou ela. 

“Fatores convergentes como tensões políticas, instituições frágeis, marginalização econômica, ausência de redes de segurança social ou rivalidade entre grupos criam as condições que levam as pessoas a não conseguir fazer frente às dificuldades. Alguns dos últimos exemplos conhecidos são a seca e a escassez de água contínuas na Síria, de 2006 a 2010”, lembrou Barbut

Em 2045 haverá 135 milhões de pessoas desabrigadas? 

A UNCCD ressalta que os desafios geopolíticos e de segurança que ameaçam o mundo são complexos, mas com a implantação de melhores práticas de gestão territorial pode-se ajudar as populações a adaptar-se às mudanças climáticas, assim como a construir capacidade de resistência à seca. Além disso, é possível reduzir o risco de migrações forçadas e conflitos pela escassez de recursos naturais e assegurar a produção de uma agricultura sustentável e de energia. “A terra é a verdadeira aglutinadora de nossas sociedades. Reverter os efeitos de sua degradação e da desertificação por meio de uma gestão sustentável não só é possível como é o próximo passo lógico para as agendas de desenvolvimento nacionais e internacionais”, observou. 

A UNCCD alerta que 12 milhões de hectares de terras produtivas tornam-se estéreis a cada ano, devido à seca e à desertificação, o que representa a redução da oportunidade de produzir 20 milhões de toneladas de grãos. “Não podemos seguir permitindo que as terras se degradem, quando deveríamos elevar a produção de alimentos em 70% para alimentar, em 2050, toda a população mundial”, ressalta. 

“A intensificação sustentável da produção de alimentos com menos insumos, que evitam maior desmatamento e a expansão de cultivos em áreas vulneráveis, deve ser uma prioridade para os políticos responsáveis”, sugere. Além disso, a Secretária da UNCCD ressalta que o aumento das secas e das inundações repentinas, cada vez mais fortes, mais frequentes e mais generalizadas, destrói a terra, e as principais reservas de água doce da Terra. “A seca mata mais pessoas do que qualquer outra catástrofe ligada ao clima, e avançam os conflitos entre comunidades por causa da escassez de água. Mais de um bilhão de pessoas não têm acesso à água, e a demanda aumentará 30% até 2030”, acrescentou. 

Segurança nacional e migrações 

Mais de 40% dos conflitos dos últimos 60 anos estão relacionados ao controle e à divisão de recursos naturais, o que expõe um número cada vez maior de pessoas pobres à escassez hídrica e à fome, e cria as condições para a falência de Estados e conflitos regionais, alerta a UNCCD. “Grupos não estatais aproveitam-se dos grandes fluxos migratórios e das terras abandonadas”, observa. “Quando bens naturais, como a terra, são mal administrados, a violência pode converter-se no principal meio para o controle dos recursos naturais, e isso os tira das mãos de governos legítimos”, alerta. 

O número de migrantes vem crescendo rapidamente, em escala mundial, há 15 anos, chegando a 244 milhões em 2015, mais que os 222 milhões de 2010 e os 173 milhões de 2000. A UNCCD recorda a relação entre esse número de migrantes e as dificuldades em matéria de desenvolvimento, em particular as consequências da degradação ambiental, a instabilidade política, a insegurança alimentar e a pobreza, assim como a importância de atender os fatores e as causas de raiz da migração irregular. 

A perda de terras produtivas faz com que as pessoas elejam opções arriscadas. Nas áreas rurais, onde elas dependem de terras pouco produtivas, a degradação dos solos é responsável pela migração forçada, explica a secretária. “A África é particularmente suscetível, pois mais de 90% de sua economia depende de recursos sensíveis ao clima, como a agricultura de subsistência, que precisa das chuvas.” 

“A não ser que mudemos nossa forma de administrar a terra, nos próximos 30 anos poderemos deixar um bilhão de pessoas, ou mais, vulneráveis e sem opções, a não ser fugir ou lutar”, disse ela. Melhorar o rendimento e a produtividade da terra permitirá aumentar a segurança alimentar e o rendimento dos usuários de terras e agricultores mais pobres, recomenda a UNCCD. “Por sua vez, estabiliza a renda da população rural e evita o deslocamento desnecessário de pessoas e suas consequências.” 

Por outro lado, a UNCCD trabalha com parceiros como a Organização Internacional Para as Migrações para fazer frente aos desafios colocados pela degradação de terras, os movimentos massivos de pessoas e suas consequências. Também procura demonstrar como a comunidade internacional pode aproveitar as capacidades e habilidades dos migrantes e refugiados, além de ressaltar o valor das remessas que eles enviam a seus países para construir a capacidade de resistência.

Por: Baher Kamal (IPS). Tradução: Inês Castilho (Outras Palavras).