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O Licenciamento Ambiental Prejudica as Empresas? Especialistas Comentam...

Estudos de impacto ambiental e certificações garantem segurança jurídica aos projetos. Mas, é preciso mais agilidade para não travar os processos. Desastre de Brumadinho, em Minas Gerais: o licenciamento ambiental visa antecipar problemas futuros. Foto: Victor Moriyama / Bloomberg).

A questão do licenciamento ambiental é uma polêmica antiga no Brasil. O assunto ganhou destaque com a divulgação do vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril de 2020, em que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que a pandemia do coronavírus oferece a oportunidade de “passar a boiada” sobre as regulamentações brasileiras. “Tem uma lista enorme, em todos os ministérios, para simplificar. Não precisamos de Congresso”, afirmou Salles. 

Entidades ligadas ao meio ambiente repudiaram a fala de Salles. Organizações como o Greenpeace, a WWF e o Observatório do Clima criticaram o ministro por promover mudanças de regras sem o devido debate público. Do outro lado, entidades patronais, sob a liderança da Confederação Nacional da Indústria (CNI), da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), e da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), manifestaram apoio à agenda do ministro, alegando a necessidade de reduzir a burocracia. 

A polarização do debate é anterior ao atual governo. Desde 2004, tramita no Congresso a Lei Geral do Licenciamento Ambiental (PL 3729/2004), projeto de lei que visa unificar as regulamentações ambientais nos âmbitos federal, estadual e municipal, garantindo celeridade aos processos. A demora na tramitação do PL se deva à falta de consenso entre ambientalistas e setor produtivo. 

Para Henrique Luz, coordenador da câmara temática de biodiversidade do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), há um problema de foco nessa discussão, que acaba prejudicando a formação de um entendimento geral. 

“Ao optar por discutir a legislação, e não o processo, perde-se muito tempo com questões de difícil acordo”, afirma. O ideal, na realidade, seria promover uma modernização nos órgãos de controle, aliando a digitalização dos processos com práticas avançadas de gestão. 

Afinal, para que serve o licenciamento ambiental? 

Além de proteger o meio ambiente, o processo de licenciamento tem a função de dar segurança jurídica aos projetos. O elemento mais importante do processo são os estudos de impacto ambiental. O objetivo é levantar o contexto natural em que o empreendimento está inserido e antecipar possíveis impactos e conflitos, como no caso de populações indígenas e ribeirinhas. Dessa forma, a empresa garante que não vai enfrentar consequências negativas geradas por sua atividade e se protege de processos judiciais.  

Para Luz, a a fase de pré-projeto, que concentra a maior parte dos estudos de impacto ambiental, é a que mais demanda recursos por parte das empresas. “Não deveria ser assim”, diz ele. “Se existisse estratégia ambiental bem definida, seria possível avaliar com mais precisão os impactos das atividades em determinada região e reduzir a carga de trabalho das empresas”. 

Mas, o grande problema não está no levantamento dos impactos ambientais, e sim na demora dos órgãos competentes em analisar os processos. A situação foi agravada pela pandemia, uma vez que diversos órgãos suspenderam prazos em função da quarentena. “É aconselhável que as empresas sigam com o trâmite normal de licenciamento, mesmo com prazos suspensos, para que não tenham problemas futuros”, afirma Luiz Fernando Sant’Anna, sócio do escritório de advocacia Demarest, especializado em meio ambiente. 

Sant’Anna também acredita que o foco do debate deveria sair da mudança na legislação e se concentrar na padronização dos processos. “Precisamos de um marco legal”, afirma o advogado. “Se as empresas conhecerem as regras, vão cumprir naturalmente. O maior risco é a desinformação”. 

Como aprimorar o licenciamento ambiental no Brasil

No ano passado, o CEBDS preparou um documento com sugestões para melhorar o processo de licenciamento ambiental no Brasil. Conheça os principais pontos da proposta: 

  • Definição de uma regulamentação específica da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para o licenciamento ambiental 
  • Estabelecimento de critério ou metodologia de trabalho que minimize as assimetrias decorrentes das análises das coordenações no estabelecimento de condicionantes e construção dos Projetos Básicos Ambientais (PBAs).
  • Elaboração de processo estruturado e permanente de diálogo entre o IBAMA e os órgãos intervenientes, repensando os fluxos de relação entre o processo do licenciamento ambiental e os ritos conduzidos pelos órgãos intervenientes.

Por: Rodrigo Caetano (Exame).

Saiba Como os Manguezais Nutrem a Vida Marinha

Flamingos nos manguezais de Dubai. Foto: Rob Barnes/AGEDI.

As árvores de mangues armazenam mais carbono em seus solos se comparadas a outras espécies, o que as tornam ativos valiosos na luta contra o aquecimento global. Elas também diminuem o impacto das tempestades, servem de zonas de reprodução para peixes e outros animais marinhos e constituem eficazes sistemas de filtragem que evitam o influxo de água salina que torna o solo inadequado para a agricultura. 

De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), governos e comunidades costeiras de países tropicais estão se sensibilizando cada vez mais sobre o valor dos manguezais para a natureza e os seres humanos. 

A biodiversidade é um importante benefício ecossistêmico das florestas de mangue. A comunidade local e o ecoturismo baseado na diversidade biológica dos manguezais podem ajudar na conservação e no manejo sustentável desses ambientes naturais. Os turistas têm diversas opções para conhecer a fauna e a flora desses ecossistemas, como passeios de barco, caiaque, mergulho com snorkel, observação de pássaros e pesca noturna de caranguejos. Em Madagascar, os mangues abrigam lêmures, que estão no grupo de mamíferos mais ameaçados do planeta – e que foram documentados pela primeira vez há poucos anos. 

“As florestas de mangue são ecossistemas altamente produtivos e sua conservação deve ser uma prioridade, mas onde os manguezais já desapareceram, a restauração também é possível”, diz o especialista em ecossistemas costeiros e marinhos do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Gabriel Grimsditch. 

Em 2019, as Nações Unidas fizeram um apelo global para mobilizar o apoio político e financeiro necessário e restaurar os ecossistemas mundiais desmatados e degradados. A Década de Restauração de Ecossistemas da ONU ocorrerá de 2021 a 2030 e intensificará o trabalho para enfrentar a degradação das paisagens — como os manguezais, nossas florestas azuis. 

Iniciativas de restauração de florestas azuis 

Recentemente, o PNUMA e outros colaboradores, em parceria com o Projeto Florestas Azuis, financiaram projetos bem-sucedidos de captura de carbono de manguezais no Quênia e em Madagascar. 

Esses projetos vinculam as florestas de mangue ao mercado internacional de carbono, com o valor deste item sendo direcionado ao plantio e à conservação dos manguezais e oferecendo outros benefícios para as comunidades locais. Atualmente, o PNUMA está estudando como ligar os ecossistemas de ervas marinhas ao mercado de carbono no Quênia. 

As experiências nesses países foram apresentadas no Indian Ocean Blue Carbon Hub Inaugural Think Tank, que aconteceu mês passado, nas Ilhas Maurício, por serem os únicos projetos financeiros bem-sucedidos de captura de carbono de manguezais baseados no trabalho de comunidades costeiras. Como resultado, ocorreu o reconhecimento de que a biodiversidade e os outros benefícios desses ecossistemas, incluindo a captura de carbono, são vitais para uma economia saudável e baseada na natureza. 

“É importante restaurarmos os mangues, mas quem pagará por isso?”, questionou o Blue Carbon Lead da GRID-Arendal e coordenador do Projeto Florestas Azuis (Blue Forest, em inglês) do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), Steven Lutz. “Estamos estudando como o valor pelo carbono retirado dos manguezais pode estimular florestas saudáveis ​​e meios de subsistência costeiros”. 

No Equador, o Projeto Florestas Azuis apoiou a parceria da Conservação Internacional com o governo e as comunidades locais para a criação de acordos de conservação de manguezais. Com o programa Socio Manglar (em espanhol), as comunidades indígenas recebem incentivos econômicos – com base na biodiversidade desses ambientes – para se comprometerem com a conservação e proteção desses ecossistemas. Como recompensa, eles ganham uso exclusivo do aratu-vermelho e do berbigão, pescados muito lucrativos no país. 

Aratu-vermelho do Equador, um pescado lucrativo no país. Foto: Daniela Hill.

“A restauração não será alcançada facilmente. Recursos financeiros consideráveis ​​e uma forte participação das comunidades locais a longo prazo são necessários para termos projetos bem-sucedidos”, diz a especialista em ecossistemas marinhos do PNUMA, Isabelle Vanderbeck, que trabalha em estreita colaboração com o GEF em projetos de restauração de manguezais. 

Uma resolução adotada pela Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente em 15 de março de 2019 “encoraja os Estados-membros a investirem em pesquisa, educação e sensibilização da população, a oferecerem capacitações para a gestão sustentável e restauração dos manguezais e ecossistemas relacionados e a pensarem em maneiras de mobilizar os recursos necessários para os países em desenvolvimento”. 

O que é o Projeto Florestas Azuis do GEF? 

A Área Focal de Águas Internacionais do GEF está permitindo que o Projeto Florestas Azuis realize a primeira avaliação em escala mundial sobre como os valores de captura de carbono e outros serviços de ecossistemas costeiros podem ser aproveitados para uma melhor gestão ambiental e construção de comunidades mais sustentáveis – enquanto mitigam, ainda, as mudanças climáticas. O projeto também visa aprofundar conhecimentos para promover tomadas de decisão bem embasadas, gerar conscientização, incentivar a cooperação entre todas as partes interessadas e fornecer experiências e ferramentas para ser aplicado globalmente. 

A Década de Restauração de Ecossistemas da ONU 2021–2030, liderada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura e por outros parceiros, como a iniciativa Africa Restoration 100, o Fórum Global de Paisagens e a União Internacional para a Conservação da Natureza, abrange os ecossistemas terrestres, costeiros e marinhos. Como um apelo global à ação, a Década reunirá apoio político, pesquisa científica e força financeira para incentivar massivamente os esforços pela restauração.

Por: Roberta Zandonai (UN Environment).

Estudo Relaciona Risco de Malária em Áreas de Desmatamento à Demanda por 'Commodities' Agrícolas

Terra Indígena Tenharim do Igarapé Preto, Amazonas. Foto: Vinícius Mendonça / Ibama / Wikimedia Commons

Comércio internacional de itens como madeira, tabaco, cacau, café e algodão impulsiona o risco de malária nos países exportadores, relatam pesquisadores da USP e colaboradores na Nature Communications

Estudo publicado na Nature Communications conecta pela primeira vez a demanda de certos países desenvolvidos por commodities agrícolas ao aumento do risco de malária em países fornecedores desses produtos. 

O trabalho, conduzido por cientistas da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) e colegas da Universidade de Sidney (Austrália), estima que cerca de 20% do risco de malária em hotspots de desmatamento é impulsionado pelo comércio internacional de itens como madeira, produtos madeireiros, tabaco, cacau, café e algodão. 

A pesquisa abrange o período de 2000 a 2015 e foi desenvolvida no âmbito do projeto Genômica de paisagens em gradientes latitudinais e ecologia de Anopheles darlingi, apoiado pela FAPESP

Para estabelecer a metodologia – que cruzou rotas comerciais mundiais com dados de perda de cobertura florestal em países exportadores de commodities agrícolas em que ocorre a doença – Maria Anice Mureb Sallum, professora da FSP-USP, e seu aluno de doutorado Leonardo Suveges Moreira Chaves, primeiro autor do artigo, tiveram a colaboração de Manfred Lenzen, professor da Universidade de Sidney, e de sua equipe. 

Lenzen mantém uma base de dados sobre comércio internacional que inclui 189 países e fontes como a Organização Mundial do Comércio e o Banco Mundial, entre outras. Há dados que nos permitem saber quem vende, o que vende, para onde vende, quem compra, quem beneficia e para onde é vendido o produto beneficiado. Por exemplo: um país que compra cacau, produz o chocolate e exporta para o mundo inteiro. Todos os elos da cadeia foram considerados”, explica Sallum

De acordo com Leonardo Suveges, com o uso de computação de alto desempenho, a equipe de Lenzen examinou mais de 1 bilhão de rotas de suprimentos de commodities internacionais. “Como a malária está muito ligada à alteração da paisagem pelo desmatamento, que favorece a proliferação dos vetores e a exposição do homem a esses insetos, conseguimos atribuir uma parte dos casos de malária ao desmatamento – à qual chamamos risco de malária: quantos casos haveria na ocorrência de desmatamento e na ausência de intervenções de controle, como mosquiteiros impregnados com inseticida e tratamentos com medicamentos combinados com artemisinina. E uma parcela desse risco está associada ao comércio de commodities”, resume. 

Os cientistas selecionaram então os países com casos de malária em que há hotspots de desmatamento e cruzaram com os dados da cadeia de produção de commodities associada ao desmatamento nesses lugares, verificando para onde os produtos são exportados. Concluíram que cerca de 10% do risco de malária ligado ao desmatamento está conectado a apenas 10 nações compradoras: Alemanha, Estados Unidos, Japão, China, Reino Unido, França, Itália, Espanha, Países Baixos e Bélgica, onde a demanda por determinados produtos pode estar exacerbando o risco de malária para 10,7 milhões de pessoas em países de baixa renda, principalmente em países da África Subsaariana

O risco em números 

A Nigéria sofre o maior risco de malária com conexões identificadas ao desmatamento: 5,98 milhões de casos em 2015, em parte causados pela exportação de madeira para a China (em um total de US$ 332 milhões em 2015), grãos de cacau para os Países Baixos (US$ 334 milhões), Alemanha (US$ 72 milhões), Bélgica, França, Espanha e Itália (US$ 35 milhões) e carvão para a Europa (US$ 35 milhões). 

Em seguida vem a Tanzânia, onde 5,66 milhões de pessoas correm risco de malária relacionado ao desmatamento, em parte por conta das exportações de tabaco não beneficiado para a Europa e a Ásia (US$ 344 milhões), algodão cru para o sudeste da Ásia (US$ 41 milhões) e madeira serrada para a Índia (US$ 20 milhões). 

Em Uganda, 5,49 milhões de casos de risco da doença estão associados ao desmatamento, potencialmente impulsionado pela exportação de café não beneficiado para a Itália (US$ 88 milhões em 2015), Alemanha (US$ 63 milhões), Bélgica (US$ 40 milhões) e EUA e Espanha (ambos US$ 21 milhões) e, em menor grau, de algodão cru para o sul e o sudeste asiáticos (US$ 15 milhões). 

Em Camarões, também com 5.49 milhões de casos, parte do risco de malária atrelado ao desmatamento foi conectada à exportação de cacau para os Países Baixos (US$ 300 milhões), Espanha, Bélgica, França e Alemanha (que somaram US$ 79 milhões em 2015), madeira bruta para a China (US$ 175 milhões) e madeira serrada para o mesmo país, além de Bélgica, Itália, EUA e outros (somando US$ 440 milhões). 

O artigo, intitulado Global consumption and international trade in deforestation-associated commodities could influence malaria risk, revela que os outros países com maior risco da doença atrelado ao desmatamento, em ordem decrescente, foram República Democrática do Congo, Índia, Zâmbia, Myanmar, República Centro-Africana e Burundi. Eles têm como maior parceiro comercial a China, para onde vendem sobretudo produtos madeireiros. 

Em nota suplementar ao trabalho publicado, os autores calcularam ainda que as importações de commodities feitas pela China em 2015 responderam por 1,7 milhão de casos de malária nos países onde o desmatamento está ligado à sua produção e exportação. A Alemanha respondia por 1,5 milhão de casos, seguida do Japão (986 mil), dos Estados Unidos (770 mil), do Reino Unido (815 mil), da Itália (595 mil), dos Países Baixos (581 mil), da Espanha (466 mil), da França (463 mil) e da Bélgica (361 mil). 

Compensação insuficiente 

“Chama a atenção o fato de que Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha e Japão, alguns dos principais importadores citados como corresponsáveis pelo risco de malária, são os mesmos países que fornecem apoio financeiro para programas de controle da doença, especialmente na África Subsaariana”, aponta Suveges

Mas a conta não fecha. Em 2017, o investimento global para controle e prevenção da malária foi de aproximadamente US$ 3,2 bilhões, com doadores de alta renda fornecendo 72% do financiamento. No entanto, afirmam os cientistas no artigo, os países endêmicos de malária arcaram com 28% do custo e o nível geral de financiamento foi menos da metade do necessário para alcançar uma redução nas taxas de morbidade e mortalidade pela doença, de acordo com a meta 3.3 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável propostos para 2030 pela Organização das Nações Unidas (ONU). 

Sallum ressalta o fato de que, durante todo o período estudado, os países produtores e exportadores de commodities permaneceram nessa posição. “Sabemos por estudos já publicados que os efeitos sociais do desenvolvimento econômico têm impacto sobre a malária, porque as pessoas conseguem morar melhor, ter condições mais dignas de manejo da terra e tudo isso consegue protegê-las. Assim, se o país produtor de commodities se tornasse o fornecedor de manufaturados, poderia agregar um valor maior ao produto dele e posicionar a sociedade em uma situação mais vantajosa – o que poderia diminuir a necessidade de desmatamento e o risco de malária. Mas não há variação de papéis nessa cadeia comercial, o que demonstra a desigualdade que impera nessas relações, tendo em vista que os preços das commodities são estipulados pelos países compradores.”

Por: Karina Ninni (Agência Fapesp).

Canabidiol Desenvolvido na USP Chega às Farmácias

CBD (canabidiol) é uma molécula extraída da planta da maconha – Imagem: Luana Franzão / Jornal da USP. Fitofármaco derivado da maconha pode ter diversas aplicações terapêuticas. Produto foi criado em parceria com uma indústria farmacêutica do Paraná. 

O primeiro extrato de canabidiol desenvolvido no Brasil chegou às farmácias de todo o País na semana passada, graças a uma parceria entre a indústria farmacêutica e cientistas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da Universidade de São Paulo (USP), que há décadas pesquisam possíveis aplicações farmacêuticas para compostos derivados da planta Cannabis sativa — a maconha. 

Fabricado pelo laboratório Prati-Donaduzzi, no Paraná, o produto foi liberado para comercialização pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 22 de abril, e os primeiros lotes foram entregues ao mercado às vésperas do Dia das Mães, 10 de maio. Mas não adianta procurar por ele nas prateleiras — a venda está condicionada à apresentação de receituário tipo B (azul), de numeração controlada, a exemplo do que já ocorre com calmantes, antidepressivos e outras substâncias psicoativas, que atuam sobre o sistema nervoso central. 

Diferentemente do medicamento Mevatyl (ou Sativex) — único canabidiol disponível no mercado nacional até agora, produzido pela britânica GW Pharma —, que tem indicação específica para o tratamento de espasticidade (contrações musculares involuntárias) relacionada à esclerose múltipla, o produto brasileiro foi registrado como um fitofármaco (fármaco de origem vegetal), sem indicação clínica pré-definida. Isso significa que ele pode ser receitado para qualquer condição em que o canabidiol seja considerado potencialmente benéfico para o paciente. 

“A indicação fica a critério do médico”, resume Antonio Zuardi, de 73 anos, professor titular de Psiquiatria da FMRP e um dos pioneiros da pesquisa com derivados da maconha no Brasil e no mundo. A recomendação do Conselho Federal de Medicina (CFM), segundo ele, é que o produto só seja usado de forma “compassiva”, depois que todas as alternativas convencionais de tratamento já tiverem sido testadas sem sucesso. 

“É uma responsabilidade do médico, compartilhada com o paciente e seus familiares, quando este não tiver condições de decidir sozinho”, explica Jaime Hallak, professor titular do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da FMRP, que também participou do desenvolvimento do produto. 

O canabidiol (CBD) é uma das várias substâncias presentes na maconha (chamadas canabinoides) que agem sobre o sistema nervoso central (especialmente no cérebro), e que são pesquisadas em laboratórios mundo afora, para uma série de aplicações terapêuticas — por exemplo, no tratamento de epilepsia, esclerose múltipla, doença de Parkinson, esquizofrenia, ansiedade, fobias sociais e vários outros distúrbios psiquiátricos e emocionais. 

Alguns desses efeitos já são bem comprovados em seres humanos, outros nem tanto; mas as promessas são muitas. Em estudos pré-clínicos, com modelos animais, “ele parece ser bom para quase tudo”, diz o pesquisador Francisco Guimarães, professor titular e orientador da pós-graduação em Farmacologia e Saúde Mental da FMRP. “É realmente impressionante”, completa ele — ressaltando, porém, que muitas dessas funcionalidades ainda precisam ser melhor estudadas e comprovadas em ensaios clínicos bem controlados, em seres humanos.

Liderança internacional USP é a instituição que mais publica trabalhos científicos sobre canabidiol no mundo

Web of Science (3/01/2020); preparado por A. Zuardi. Porcentagem de publicações por instituição, usando o termo de busca “cannabidiol”; considerando todas as áreas (gráfico 1) e apenas em Neurociências (gráfico 2).

Pioneirismo

O Brasil tem um papel pioneiro na identificação e pesquisa desses canabinoides. O laboratório de Zuardi foi o primeiro no mundo a demonstrar os efeitos ansiolíticos (calmantes) e antipsicóticos do CBD, ainda nas décadas de 1970 e 1980 — quando o estudo da maconha estava longe de ser essa vedete científica da atualidade. Todos os professores que lideram pesquisas nessa área hoje na FMRP são ex-alunos de Zuardi (que continua ativo); e o grupo é atualmente o que mais produz trabalhos científicos sobre o canabidiol no mundo. 

Os estudos tiveram um boom a partir de 2008, com a criação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Translacional em Medicina, que abriu caminho para parcerias com a indústria e com grupos de pesquisa internacionais importantes; entre eles, o do professor Raphael Mechoulam, na Universidade Hebraica de Jerusalém, descobridor do CBD e considerado a maior autoridade científica em canabinóides no mundo. 

O produto brasileiro é uma mistura de CBD puro — extraído de plantas de maconha importadas da Europa (porque o plantio no Brasil segue proibido, mesmo para fins terapêuticos) — com óleo de milho. A fórmula, desenvolvida e patenteada pelos cientistas da USP, em parceria com a empresa, é isenta de tetra-hidrocanabinol (THC), a substância que dá o “barato” da maconha, quando a planta é fumada. O THC também tem efeitos terapêuticos comprovados para algumas aplicações — o Mevatyl, por exemplo, tem mais THC do que CBD —, mas necessita de um controle mais rígido, por conta de seus efeitos colaterais. 

Esse desenvolvimento só foi possível graças a uma decisão da Anvisa, de janeiro de 2015, que retirou o CBD da lista de substâncias proibidas no Brasil, reclassificando-a como substância controlada. “O entendimento dos diretores (da Anvisa) foi fundamentado nas indicações técnicas de que a substância, isoladamente, não está associada a evidências de dependência, ao mesmo tempo em que diversos estudos científicos recentes têm apontado para possibilidade de uso terapêutico do CBD”, declarou a agência, na ocasião. “Com isso, a diretoria entendeu não haver motivos para que o CBD permaneça proibido.” 

Na sequência, além do trabalho de pesquisa científica, o grupo de Ribeirão Preto participou ativamente das discussões sobre regulamentação do uso médico da substância, junto ao Conselho Federal de Medicina. 

Parceria

A parceria com a Prati-Donaduzzi começou ainda antes, em 2014, já prevendo o desenvolvimento de produtos e o depósito conjunto de patentes (com retornos financeiros para a universidade), além da realização de ensaios clínicos e a construção de um Centro de Pesquisa em Canabinóides (um prédio de dois andares, com entrega prevista para agosto deste ano), pago pela empresa, no campus da FMRP. 

“Os benefícios da parceria entre Prati-Donaduzzi e USP Ribeirão Preto são imensuráveis, pois a sinergia estratégica entre instituição pública e privada propiciou a união de recursos para agilizar o desenvolvimento de produtos contendo canabidiol altamente purificado e, principalmente, a realização de ensaios que comprovam a qualidade da formulação”, disse ao Jornal da USP o gerente de Pesquisa e Desenvolvimento da empresa, Liberato Brum Junior. 

“Ver essa medicação com uma possibilidade de usos tão grande chegar à farmácia é, realmente, uma satisfação muito grande”, comemora o pesquisador José Alexandre Crippa, professor titular de Psiquiatria e chefe do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da FMRP. 

A mesma formulação aprovada como fitofármaco está sendo usada num ensaio clínico de fase três, com 110 crianças, para testar a eficácia do CBD no tratamento de casos graves de epilepsia refratária (que não responde aos tratamentos disponíveis). Algumas dessas crianças, segundo Zuardi, chegam a ter mais de 500 convulsões por mês. Trata-se de um estudo randomizado e duplo-cego, que vai comparar os resultados de crianças tratadas com o CBD versus placebo — em ambos os casos, sem deixar de aplicar o tratamento padrão, com as drogas convencionais. Os resultados são esperados para o ano que vem. 

Além disso, o pesquisadores trabalham no desenvolvimento de várias moléculas sintéticas, análogas ao CBD, que permitiriam produzir novos medicamentos sem a necessidade de usar a planta da maconha.

Por: Herton Escobar (Jornal da USP).

A Disputa Pelo Futuro É Hoje

Trazer à tona a inter-relação entre as crises sanitária e climática é fundamental para que possamos não voltar à antiga “normalidade”.

Uma das principais diferenças entre as crises climática e sanitária é a escala de tempo, mais curta nesta última e, apesar de mais longa, de impactos absolutamente nocivos e mais profundos na primeira. Ambas, contudo, estão interligadas. “A pandemia atual, assim como outros surtos virais recentes, está intrinsecamente ligada à crise ecológica, à degradação ambiental, à destruição de florestas e ao consumo de carne (e tudo isso, óbvio, se relaciona ao aquecimento global)”, avalia o professor, doutor e pesquisador Alexandre Araújo Costa, em entrevista por telefone à IHU On-Line

O pior cenário, no entanto, seria aquele em que houvesse, ao mesmo tempo, o cruzamento das crises. “Nesse caso, precisamos estar preparados para catástrofes bem piores, porque imagine que seremos obrigados a enviar sinais completamente contraditórios. No caso de um furacão ou evento extremo parecido, a recomendação vai ser ‘evacuem suas casas’ e no caso de uma crise similar à da pandemia de SARS-CoV-2, a orientação vai ser ‘fiquem em casa’. Como lidar com uma situação como essa quando, para salvar a vida das pessoas de um extremo climático, aglomerações são inevitáveis e, ao mesmo tempo, vão ser justamente as medidas que favoreceriam o contágio por um vírus, eventualmente tão ou mais letal do que o SARS-CoV-2”, questiona o entrevistado.

Estar atentos a estes sinais é fundamental para que possamos, a tempo de salvar vidas, desarmar as armadilhas criadas por nós mesmos. Além disso, para que haja possibilidade de um futuro em uma terra habitável, é necessário não voltar à antiga “normalidade”. A questão que se impõe é “se, de fato, aprendemos minimamente as lições, achatamos esse conjunto de curvas exponenciais e voltamos a ser seres que cabem na biosfera à qual pertencemos ou se vamos seguir nessa rota suicida e genocida”, provoca Costa. “É isso, justamente, que está em jogo. As analogias que fizemos entre pandemia e crise climática precisam ser levadas a sério. A disputa pelo futuro é hoje”, conclui. 

Alexandre Araújo Costa é professor da Universidade Estadual do Ceará. Formado em Física, Ph.D. em Ciências Atmosféricas pela Universidade do Estado do Colorado, com pós-doutorado na Universidade de Yale. Foi um dos autores principais do primeiro relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. Militante ecossocialista e ativista climático, edita o blog O Que Você Faria Se Soubesse O Que Eu Sei?, assim como o canal no YouTube de mesmo nome. É um dos coordenadores do fórum de articulação Ceará no Clima

Confira a entrevista. 

Que relações podemos estabelecer entre o aquecimento global e o surgimento de pandemias como da covid-19? É possível estabelecer conexões? 

Alexandre Araújo Costa (Foto: reprodução do YouTube).
Embora sejam duas crises distintas, elas guardam diversos pontos de contato. A pandemia atual, assim como outros surtos virais recentes, está intrinsecamente ligada à crise ecológica, à degradação ambiental, à destruição de florestas e ao consumo de carne (e tudo isso, óbvio, se relaciona ao aquecimento global). Ao mesmo tempo, não teria sido possível a rápida disseminação do vírus sem a hipermobilidade, que permite que quaisquer duas cidades grandes do mundo hoje estejam conectadas em no máximo 48 horas (e é justamente o uso intensivo de energias fósseis que sustenta essa hipermobilidade). A crise climática segue se agravando justamente em função de um modo de vida intensivo em carbono, desde a demanda de energia para produção de bens de consumo, passando pelo transporte, até chegar num sistema de produção alimentar altamente predatório, com desmatamento para expansão da fronteira agrícola e consumo de carne em uma quantidade cada vez mais insustentável. Então as causas, embora não sejam exatamente as mesmas, guardam ligação entre si. 

A pandemia atual, assim como outros surtos virais recentes, está intrinsecamente ligada à crise ecológica, à degradação ambiental, à destruição de florestas e ao consumo de carne – Alexandre Araújo Costa

As duas crises são também semelhantes em vários aspectos. Em ambos os casos, trata-se de uma emergência, e o entendimento da gravidade do problema e o tempo de ação fazem toda a diferença. Em vários países, a recusa e/ou a demora em agir na pandemia levaram ao colapso do sistema de saúde e à multiplicação das mortes. No que diz respeito ao clima, a recusa e a demora em agir estão cada vez mais nos levando a uma condição de desestabilização irreversível do sistema climático. Em ambos os casos é preciso “achatar a curva”, seja o gráfico de contágio do coronavírus, seja a concentração de CO2 atmosférico. As principais diferenças estão na escala de tempo (que é obviamente mais longa no caso da crise climática) e na escala dos impactos (que, no caso do clima, têm tudo para fazer a pandemia parecer um problema menor e de fácil resolução). 

Como os cuidados com a covid-19, com quarentena forçada em várias partes do mundo, podem impactar o clima global? 

É verdade que a quarentena interrompeu ou reduziu diversas atividades que, além de produzirem poluentes de vida curta, como óxidos de nitrogênio ou material particulado, também implicam emissões de CO2 ou outros gases de efeito estufa. Mas é preciso reconhecer que, no que diz respeito a poluentes de vida longa, cujo efeito é cumulativo, como é o caso do CO2, a quarentena apenas arranha a superfície do problema. A analogia que gosto de fazer é com um muro: imagine que cada tijolo represente um bilhão de toneladas de CO2. Se imaginarmos que acumulamos de emissão, desde o início do período industrial, 2,4 trilhões de CO2 ou que construímos um muro com 2.400 tijolos, o que acontece na pandemia é que ao invés de colocarmos os 43 tijolos que temos colocado todo ano, colocaremos somente 40 e, portanto, não só o muro continua lá, como não diminui. Ele apenas cresce mais devagar do que vinha crescendo; não podemos ter ilusão quanto a isso. 

Não dá para terceirizar o que cabe à nossa sociedade, de maneira organizada e consciente, para um vírus – Alexandre Araújo Costa 

O que é fundamental entender é que a queda projetada este ano de 6 a 7% nas emissões de CO2 é justamente aquilo que precisamos fazer ano após ano para resolver a questão do aquecimento global, ou seja, manter uma trajetória compatível com limitar o aquecimento global a 1,5 grau. Nesse caso, portanto, assim como o problema é cumulativo de longas datas, a solução também vai ser cumulativa e não vai emergir de algo episódico como a pandemia. Precisamos ter políticas para garantir que ano após ano cortemos de 6 a 7% as emissões globais para chegarmos com essas emissões reduzidas à metade em 2030 e mantermos o ritmo a fim de descarbonizarmos completamente a economia global em meados do século. Fora isso não tem salvação, e não dá para terceirizar o que cabe à nossa sociedade, de maneira organizada e consciente, para um vírus. 

Qual a possibilidade de termos uma desaceleração no aquecimento global em 2020, devido à diminuição de circulação de pessoas nas ruas, especialmente em países como a China e, até mesmo, o Brasil? 

Exatamente porque as emissões são cumulativas e o CO2 permanece lá, a redução delas em 2020 não vai trazer efeito apreciável sobre o aquecimento global. Nós vamos chegar ao final do ano com uma média, provavelmente, de 414 partes por milhão de CO2 na atmosfera em contraste com a previsão inicial do UK Met Office, que era de 414,2, e projeções como a feita pelo doutor Gavin Schmidt, do NASA Goddard Institute for Space Studies, segundo as quais, 2020 pode até mesmo quebrar recorde de temperatura. Então, a desaceleração é necessária, mas é apenas um início que precisa ser feito de maneira consistente e articulada com a transformação radical do sistema energético em escala global e do sistema de produção de alimentos também em escala global. Fora isso não teremos, de fato, impacto climático significativo, mesmo que a pandemia se estenda até o final de 2020 ou além. 

É fundamental entender que a queda projetada este ano de 6 a 7% nas emissões de CO2 é justamente aquilo que precisamos fazer ano após ano para resolver a questão do aquecimento global – Alexandre Araújo Costa

O discurso da necessidade de retomada do crescimento é muito forte por parte de governos e de empresários dos grandes setores comerciais. Quais as consequências para o planeta de uma retomada muito intensa de atividades econômicas que são agressivas ao planeta? 

É evidente que o sonho dos executivos das corporações capitalistas e dos políticos e economistas que lhes dão suporte é a retomada da “normalidade”. Mas essa “normalidade” é tudo aquilo a que não podemos voltar. Primeiro, porque o pouco benefício ambiental que podemos de fato falar que se obteve a partir da redução das atividades econômicas na pandemia, que é a redução na concentração de poluentes de vida curta, como óxido de nitrogênio e material particulado, especialmente nos grandes centros urbanos, vai para o brejo. 

Basicamente o que acontece é que uma vez retomadas as atividades de produção industrial a todo vapor, a circulação de automóveis e outros veículos nos centros urbanos, os níveis de poluição vão retornar e teremos de volta a mesma situação que perdurava antes em locais como Nova Deli, Beijing e outras cidades da China, e nos centros urbanos do nosso país, como São Paulo. Além disso, essa retomada nos tira da rota de redução das emissões de CO2 em que, por este evento fortuito, nós entramos. Nesse sentido, a lógica de retorno à “normalidade” é tudo aquilo que não podemos querer. Deveríamos estar, justamente, nesse contexto de pandemia, impulsionando as bandeiras de uma retomada de outra economia, em que a garantia da vida, do emprego e respeito ao ambiente fossem os parâmetros fundamentais e em que houvesse um giro radical no que produzimos e como produzimos. 

Deveríamos estar impulsionando as bandeiras de uma retomada de outra economia, em que a garantia da vida, do emprego e respeito ao ambiente fossem os parâmetros fundamentais – Alexandre Araújo Costa

Dentre as muitas consequências do aquecimento global, o derretimento das calotas polares é uma delas. Há o risco de os seres humanos entrarem em contato com vírus da era glacial aos quais nossa espécie não está imune? Do ponto de vista geológico, o que pode acontecer? 

O eventual despertar de bactérias e vírus adormecidos há milhares de anos por conta do derretimento de geleiras e do permafrost é apenas uma das facetas através da qual nós conectamos a possibilidade de aquecimento global com o risco de novas pandemias. Há outros fatores aí em jogo: um deles é o fato de que o aquecimento global impulsiona a migração de espécies. Por que isso é grave? Porque hoje espécies que não tinham contato no passado, passam a ter, por conta dessa migração. Aí os vírus podem saltar de uma espécie para outra, algo que não era possível na condição anterior. O que isso significa? Que podemos passar a ter um fluxo viral entre espécies cada vez maior e, eventualmente, isso abre e aumenta a possibilidade de transmissão para a própria espécie humana. Esse é um aspecto. O outro, como sabemos, é a mudança ou expansão da área de atuação de vetores de doenças infecciosas, como o caso do Aedes aegypti e da dengue, que cada vez mais penetram em latitudes médias. 

Precisamos estar preparados para catástrofes bem piores, porque imagine que seremos obrigados a enviar sinais completamente contraditórios diante de uma crise ao mesmo tempo sanitária e climática – Alexandre Araújo Costa

Outro aspecto ainda é o risco de cruzamento das duas crises. Nesse caso, precisamos estar preparados para catástrofes bem piores, porque imagine que seremos obrigados a enviar sinais completamente contraditórios diante de uma crise ao mesmo tempo sanitária e climática. No caso de um furacão ou evento extremo parecido, a recomendação vai ser ‘evacuem suas casas’ e no caso de uma crise similar à da pandemia de SARS-CoV-2, a orientação vai ser ‘fiquem em casa’. Como lidar com uma situação como essa quando, para salvar a vida das pessoas de um extremo climático, aglomerações são inevitáveis e, ao mesmo tempo, vão ser justamente as medidas que favoreceriam o contágio por um vírus, eventualmente tão ou mais letal do que o SARS-CoV-2? 

É esse tipo de pergunta que fica em aberto quando a sociedade se recusa a enfrentar, de fato, com a devida profundidade, os dois tipos de crises que vão ameaçar a nossa própria existência enquanto civilização ao longo do século XXI. 

O senhor costuma dizer, em suas entrevistas e conferências, que não há “Plano B” em relação ao clima do planeta? Por quê? 

Não há Plano B porque é impossível negociar com as leis físicas que regem o clima planetário. Não podemos chegar na natureza e pedir um desconto na “constante de Stephan-Boltzmann” ou implorar para que as moléculas de CO2 absorvam menos radiação infravermelha do que o fazem. Exatamente por isso, nós precisamos seguir a única rota compatível com aquilo que as leis da Física nos impõem, que é a de que justamente não há como resolver a crise climática sem primeiro reduzir as emissões de gases de efeito estufa e, depois, iniciar uma longa batalha – por conta das futuras gerações – de remoção do excedente de dióxido de carbono da atmosfera. 

Isso implica, portanto, que a nossa tarefa imediata seja a do plano “A”, que é o único: reduzir drasticamente essas emissões. A fim de que, pegando o embalo, as gerações futuras possam herdar o planeta com outro sistema energético, muito menos intensivo em carbono e muito mais reduzido, enxuto e destinado apenas para demandas de fato essenciais, para que se possa seguir num rumo de avanço da agroecologia, da recuperação de biomas, de reflorestamento com ou sem ajuda de soluções tecnológicas para a remoção de carbono. Fora disso, não dá para esperar uma solução mágica. 

De novo, existe uma analogia com a pandemia. Como não há vacina disponível, medicamento disponível no momento, o que podemos fazer? A única maneira, de fato, é garantir o isolamento social até achatar a curva. Como não há solução mágica, não existe “cloroclima”, nós não podemos simplesmente seguir como seguíamos antes com relação às emissões de gases de efeito estufa. É preciso achatar a curva, ou as curvas, sejam elas as da concentração de CO2 ou de aumento de temperatura global. Isso para assegurar que as gerações futuras não arquem com todo o ônus da sobrecarga sobre o sistema climático. 

Que lição a covid-19 pode nos ensinar? Em suma, qual a importância de não voltarmos às formas de exploração ambiental e humana antes da covid-19? 

A pandemia deixa diversas lições que deveriam ser de fato apreendidas pela nossa sociedade. Uma delas é o fato de que boa parte da produção e circulação de mercadorias e boa parte da demanda de energia associada a elas é absolutamente predatória, perdulária e supérflua, podendo ser naturalmente dispensada. Mostra, também, que a hipermobilidade humana é um risco imenso e que é um desastre a conjunção de degradação ambiental, desmatamento (que nos expõe ao contato com os vírus abrigados em outras espécies) e – não no caso da covid-19, mas de outras pandemias como as de H1N1, H5N1, H7N9 etc. – o boom de pandemias ligadas à indústria da carne. Essa é a primeira lição, precisamos pensar que atividades econômicas de fato precisam subsistir e que atividades econômicas precisam desaparecer para garantir a segurança à humanidade. 

Outra lição evidente é que boa parte dos combustíveis fósseis efetivamente pode ficar no subsolo. A crise do petróleo com preços negativos, com navios petroleiros estacionados ao redor do mundo e estruturas de armazenamento de petróleo em terra saturadas demonstra o quanto esse combustível poderia ter permanecido justamente no chão. Nós temos que seguir o que a ciência revela: 88% do carbono fóssil precisa permanecer exatamente onde está se quisermos preservar o estoque de carbono para que não ultrapassemos o aquecimento de um grau e meio. 

Outro ponto é que a pandemia nos trouxe evidências de que é possível haver políticas públicas que incidam diretamente nas condições de subsistência e sustento das famílias de trabalhadores e trabalhadoras que ficaram sem emprego. Surgiu quase um consenso, com exceção dos “pensadores” ultraliberais, de que a renda universal mínima – no caso, emergencial – é uma necessidade e uma possibilidade real. E por que não usar desse expediente para garantir a dignidade, o sustento de famílias de trabalhadores e trabalhadoras num processo de transição, para não desaparecer a possibilidade de futuro? Falamos, claro, de mineiros, de petroleiros, de trabalhadores de frigoríficos. Por que não garantir que essas famílias tenham a sua dignidade assegurada enquanto nós convertemos a indústria suja dos combustíveis fósseis em indústrias de energia limpa, enquanto os petroleiros são retreinados para deixar de lidar com venenos fósseis e passem a produzir e instalar painéis solares, para que os trabalhadores que lidam com a carnificina de 70 bilhões de animais todos os anos para dar vazão à nossa fome enlouquecida de carne possam aprender outras atividades como, por exemplo, agroecologia, agricultura urbana e periurbana, garantindo a produção e circulação de alimentos saudáveis e sustentáveis? Há várias lições nesse sentido. 

É fundamental que para desarmar as bombas-relógio de novas pandemias e da crise climática e ambiental, nós não voltemos à normalidade de antes – Alexandre Araújo Costa

Outra questão que nós precisamos imediatamente abordar é a reconversão e adaptação das estruturas industriais para produzir bens que não sejam bens supérfluos. Indústria de armas, por exemplo. Não vamos querer essa produção de armas. Então, vamos ter que falar que essas indústrias terão que reconverter suas estruturas para produzir outras coisas. Ao invés de produzirem revólveres, que produzam camas, leitos de UTI. Ao invés de produzirem morte, salvem vidas. Ao invés de indústrias que produzam uma multiplicidade de aparelhos eletrônicos supérfluos, sempre sujeitos à obsolescência programada e ao descarte rápido, que estejam voltadas para a produção de equipamentos como respiradores, monitores de sinais vitais e outros tantos bens essenciais, além de equipamentos duráveis. Que nós possamos falar de indústrias como a automobilística, que ao invés de continuar colocando carcaças de uma tonelada de aço nas ruas para transportar uma ou duas pessoas, possam estar voltadas à produção de bens que de fato sejam necessários, incluindo transporte público eletrificado. 

Que possamos falar muito diretamente que a maioria do trabalho realizado hoje na sociedade é perdulário e dispensável! Além de emitir muito menos, podemos ainda trabalhar muito menos. Por que não falar de jornadas de trabalho bem mais curtas, até por conta da produtividade do trabalho que nós temos hoje? Por que não falar de jornadas de trabalho semanais de 20 horas, fim de semana de três dias, dois períodos de férias de 45 dias no ano? Isso é perfeitamente viável, mantendo, ao mesmo tempo, todo mundo empregado e produzindo de fato os bens necessários à nossa sociedade. É fundamental que, portanto, para desarmar as bombas-relógio de novas pandemias e da crise climática e ambiental, nós não voltemos à normalidade de antes. Isso é tudo que não pode acontecer e essa disputa precisa ser travada desde já. 

Há mundo por vir? Que mundo? 

Todo crescimento exponencial produz crise, instabilidade e ruptura. É por isso que o contágio em progressão geométrica dentro da pandemia nos trouxe esse quadro tão alarmante. Isso vale para todas as outras crises de crescimento exponencial que estão sendo impulsionadas pela sede expansionista do modo de produção do sistema econômico vigente, seja o aumento acelerado da concentração dos gases de efeito estufa, seja a curva de extinção de espécies, sejam os demais processos de degradação ambiental. 

Há, sim, um mundo por vir, cujas características estão em aberto – Alexandre Araújo Costa

Dito isto, há, sim, um mundo por vir, cujas características estão em aberto. Certamente será um mundo com uma biosfera mais empobrecida em relação àquela que tivemos acesso durante todo o Holoceno, será um mundo com temperaturas mais altas – o quanto ainda é uma questão em aberto –, será um mundo em que nós teremos menos bens naturais à nossa disposição. 

O que está muito mais em aberto, no entanto, além desses aspectos objetivos, será a nossa maneira de existir neste mundo. Se, de fato, aprendemos minimamente as lições e achatamos esse conjunto de curvas exponenciais e voltamos a ser seres que cabem na biosfera à qual pertencemos ou se vamos seguir nessa rota suicida e genocida, dado que a desigualdade de nossa sociedade impõe que os impactos de qualquer pandemia sejam sempre desiguais. É isso, justamente, que está em jogo. As analogias que fizemos entre pandemia e crise climática precisam ser levadas a sério. A disputa pelo futuro é hoje. 

As analogias que fizemos entre pandemia e crise climática precisam ser levadas a sério. A disputa pelo futuro é hoje – Alexandre Araújo Costa

Por: Ricardo Machado. Edição: Patricia Fachin e João Vitor Santos. Fonte: Instituto Humanitas Unisinos.


Fiocruz Divulga Estudo Sobre a Presença do Novo Coronavírus em Esgotos Sanitários

Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com a prefeitura de Niterói, no estado do Rio de Janeiro, iniciaram um estudo para verificar a presença de material genético do novo coronavírus (Sars-CoV-2) em amostras do sistema de esgotos da cidade. O objetivo é acompanhar o comportamento da disseminação do vírus ao longo da pandemia de Covid-19

Considerando que evidências científicas recentes mostram que o novo coronavírus é excretado em fezes, o projeto utiliza a análise de amostras de esgotos como um instrumento de vigilância, permitindo identificar regiões com presença de casos da doença, mesmo os ainda não notificados no sistema de saúde. O monitoramento ambiental realizado pela Fiocruz, que desenvolve atividades de pesquisa na área de Virologia Ambiental há mais de 15 anos, está alinhado com estudos científicos internacionais, que têm demonstrado a importância da vigilância baseada em esgotos para a detecção precoce de novos casos de Covid-19

As primeiras coletas foram realizadas no dia 15 de abril de 2020. Estão sendo coletadas amostras de esgoto bruto em 12 pontos georreferenciados e estrategicamente distribuídos pela cidade de Niterói, incluindo estações de tratamento de esgotos (ETEs), pontos de descarte de efluente hospitalar e rede coletora de esgotos, nos bairros de Icaraí, Jurujuba, Camboinhas, Maravista, Sapê e nas comunidades do Palácio, Cavalão, Preventório, Vila Ipiranga, Caramujo, Maceió e Boa Esperança. A previsão é de que, na primeira etapa do projeto, o monitoramento seja realizado durante quatro semanas, com possibilidade de prorrogação. 

Os resultados iniciais evidenciam a eficácia da metodologia na ampliação da vigilância de propagação do novo coronavírus. Na primeira semana, foi possível detectar material genético do novo coronavírus em amostras de esgotos em cinco dos 12 pontos de coleta: três poços de visita (PVs) de troncos coletores do bairro de Icaraí e nas entradas da ETE Icaraí e ETE Camboinhas. Como metodologia, utilizou-se o método de ultracentrifugação, tradicionalmente empregado para concentração de vírus em esgotos, associado a técnica de RT-PCR em tempo real, indicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). As amostras coletadas na segunda e terceira semanas estão em fase processamento. 

As análises são lideradas pelo Laboratório de Virologia Comparada e Ambiental do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), em colaboração com o Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo, também do IOC/Fiocruz. O planejamento e realização das coletas é feito pelo Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz), em colaboração com a concessionária Águas de Niterói, que opera os serviços de abastecimento de água, coleta e tratamento de esgotos da cidade. 

“O monitoramento da circulação do novo coronavírus durante a epidemia subsidiará informações para a vigilância em saúde, permitindo otimizar o uso dos recursos disponíveis e fortalecer medidas de profilaxia na área, uma vez que a investigação sistemática da presença do material genético do vírus na rede de esgotos sanitários pode fornecer um retrato da presença de casos positivos em determinada localidade, incluindo assintomáticos e subnotificados no sistema de saúde. Este estudo confirma a importância da vigilância baseada em águas residuárias como uma abordagem promissora para entender a ocorrência do vírus em uma determinada região geográfica, assim como a inserção da Virologia Ambiental nas Políticas Públicas de Saúde”, explica a pesquisadora Marize Pereira Miagostovich, chefe do Laboratório de Virologia Comparada e Ambiental do IOC/Fiocruz e responsável pela pesquisa. 

“Mais uma vez, a Fiocruz direciona especial atenção no enfrentamento de um problema de saúde pública, na busca de respostas que possam ser diretamente aplicadas para fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS). Nossa experiência em virologia ambiental será somada aos esforços do excelente trabalho desempenhado pelo centro de referência da Fiocruz em diagnóstico laboratorial do novo coronavírus, que estima a quantidade de pessoas infectadas pela doença”, completa Miagostovich

A virologista ressalta que até o momento não existem evidências científicas sobre a possibilidade de transmissão do novo coronavírus por rota fecal-oral, a exemplo do que acontece em outras doenças de transmissão hídrica causadas por vírus, bactérias e protozoários. “Nossas análises detectam a presença de fragmentos de material genético do vírus, indicando que existe presença de casos positivos em determinada localidade. Porém, ainda não há evidências na literatura científica de que, quando excretado nas fezes, o vírus ainda esteja viável para infectar outras pessoas”, esclarece. Até o momento, a via respiratória é o principal modo de transmissão, através de gotículas respiratórias geradas pela tosse ou espirros. 

De acordo com o secretário municipal de Planejamento, Orçamento e Gestão da Prefeitura de Niterói, Axel Grael, a união do conhecimento científico com o de política pública vai contribuir para o fortalecimento das estratégias de saúde da cidade no enfrentamento da pandemia. “Estabelecer vários pontos de coleta na cidade nos permite verificar que comunidades têm uma incidência maior do coronavírus, a partir das amostras do esgoto, mesmo que a localidade apresente muitas pessoas assintomáticas. Como a Prefeitura está iniciando um programa amplo, de testagem, e nosso objetivo é priorizar justamente as comunidades, o resultado dessa pesquisa pode estabelecer prioridades entre as comunidades por onde a gente deve começar a testagem”, pondera o secretário e ambientalista. 

Para a pesquisadora Camille Mannarino, da Ensp/Fiocruz, o estudo reforça a importância da relação entre saneamento e saúde. “O monitoramento de Covid-19 em esgotos sanitários tanto subsidia ações regionalizadas de contenção da transmissão quanto permite antecipar a mobilização da atenção primária em saúde em determinada localidade onde a circulação viral seja detectada previamente pelo monitoramento dos esgotos”, ressalta. 

No entanto, ela destaca que este tipo de vigilância apenas é possível nos municípios em que uma parcela significativa da população é atendida por rede coletora de esgotos e a operadora do serviço tem controle sobre o sistema. “No caso de Niterói, a cobertura da rede de esgotos é de 95%. A adequada coleta e tratamento de esgotos também são fundamentais para a não contaminação de águas de abastecimento e recreação”, justifica a engenheira sanitarista.

Por: Vinicius Ferreira (IOC/Fiocruz).

Pandemias, Ciclo da Água, Ecossistema e Equilíbrio do Planeta

O sociólogo Jeremy Rifkin (Denver, Estados Unidos, 1945), que se define como ativista em favor de uma transformação radical do sistema baseado no petróleo e em outros combustíveis fósseis, há décadas reivindica uma mudança da sociedade industrial para modelos mais sustentáveis. Assessor de governos e corporações de todo o mundo, escreveu mais de vinte livros dedicados a propor fórmulas que garantam nossa sobrevivência no planeta, em equilíbrio com o meio ambiente e também com a nossa própria espécie. 

Jeremy Rifkin
Qual será o impacto da pandemia da COVID-19 no caminho para a terceira revolução industrial? 

Não podemos dizer que isso tenha nos pegado de surpresa. Tudo o que está ocorrendo conosco procede da mudança climática, que vem sendo advertida por pesquisadores e por mim, há tempo. Tivemos outras pandemias, nos últimos anos, e foram lançadas advertências de que algo muito grave poderia ocorrer. A atividade humana gerou essas pandemias porque alteramos o ciclo da água e o ecossistema que mantém o equilíbrio no planeta. 

Os desastres naturais – pandemias, incêndios, furacões, inundações... – continuarão porque a temperatura na Terra continua aumentando e porque arruinamos o solo. Há dois fatores que não podemos deixar de considerar: a mudança climática provoca movimentos de população humana e de outras espécies; o segundo é que a vida animal e a humana se aproximam cada dia mais, como consequência da emergência climática e, por isso, seus vírus viajam juntos. 

Esta é uma boa oportunidade para extrair lições e atuar em consequência, não acredita? 

Nada mais voltará a ser normal. Esta é uma chamada de alarme em todo o planeta. O que cabe agora é construir as infraestruturas que nos permitam viver de uma maneira diferente. Devemos assumir que estamos em uma nova era. Se não fizermos isso, haverá mais pandemias e desastres naturais. Estamos diante da ameaça de uma extinção. 

Você trabalha, estará trabalhando nesses dias, com governos e instituições de todo o mundo. Não parece imperar o consenso em relação ao futuro imediato. 

A primeira coisa que devemos fazer é ter uma relação diferente com o planeta. Cada comunidade deve se responsabilizar em como estabelecer essa relação em seu âmbito mais próximo. E, sim, temos que empreender a revolução para o Green New Deal global, um modelo digital de zero emissões. 

Temos que desenvolver novas atividades, criar novos empregos, para reduzir o risco de novos desastres. A globalização acabou, devemos pensar em termos de glocalização. Esta é a crise de nossa civilização, mas não podemos continuar pensando na globalização como até agora. São necessárias soluções glocais para desenvolver as infraestruturas de energia, comunicações, transportes, logísticas, ... 

Acredita que durante esta crise, ou até mesmo quando diminuir a tensão, os governos e as empresas tomarão medidas nessa direção? 

Não. A Coreia do Sul está combatendo a pandemia com tecnologia. Outros países estão fazendo isso. Contudo, não estamos mudando nosso modo de vida. Necessitamos de uma nova visão, uma visão diferente de futuro, e os líderes nos principais países não têm essa visão. São as novas gerações que, realmente, podem agir. 

Você defende uma mudança radical na forma de ser e estar no mundo. Por onde começamos? 

Temos que começar com a maneira como organizamos nossa economia, nossa sociedade, nossos governos, mudando a forma de ser neste planeta. A nossa civilização é a dos combustíveis fósseis. Fundamentou-se, durante os últimos 200 anos, na exploração da Terra. O solo havia se mantido intacto até que começamos a escavar os alicerces da terra para o transformar em gás, petróleo e carvão. E pensávamos que a Terra permaneceria sempre ali, intacta. 

Criamos uma civilização inteira baseada no uso dos fósseis. Utilizamos tantos recursos que agora estamos recorrendo ao capital da terra, em vez de obter benefícios dela. Estamos usando uma terra e meia, quando só temos uma. Perdemos 60% da superfície do solo do planeta. Desapareceu e demorará milhares de anos para recuperá-lo. 

O que diria para aqueles que acreditam que é melhor viver o momento, o aqui e agora, e esperam que no futuro venham outros para consertar isso? 

Estamos realmente diante de uma mudança climática, mas também a tempo de agir. A mudança climática provocada pelo aquecimento global e as emissões de CO2 altera o ciclo da água da terra. Somos o planeta da água, nosso ecossistema emergiu e evoluiu ao longo de milhares de anos graças à água. O ciclo da água permite viver e se desenvolver. 

E aqui está o problema: para cada grau de temperatura que aumenta como consequência das emissões de gases do efeito estufa, a atmosfera absorve 7% a mais de precipitações do solo e este aquecimento as força a cair mais rápidas, mais concentradas e provocando mais catástrofes naturais relacionadas à água. Por exemplo, grandes nevadas no inverno, inundações na primavera por todas as partes do mundo, secas e incêndios em toda a temporada de verão e furacões e tufões no outono, varrendo nossas costas. 

As consequências vão se agravando com o tempo. 

Enfrentamos a sexta extinção e as pessoas nem sequer sabem. Os cientistas dizem que, em oito décadas, metade de todos os habitats e animais da terra vão desaparecer. Esse é o marco em que estamos, cara a cara com uma extinção em potência da natureza para a qual não estamos preparados. 

Qual é a gravidade dessa emergência global? Quanto tempo nos resta? 

Não sei. Faço parte desse movimento em favor da mudança, desde os anos 1970, e acredito que passou o tempo que necessitávamos. Nunca voltaremos para onde estávamos, para a boa temperatura, para um clima adequado... A mudança climática estará conosco por milhares e milhares de anos. A pergunta é: como espécie, podemos ser resilientes e nos adaptar a ambientes totalmente diferentes, e que nossos companheiros na terra também possam ter a oportunidade de se adaptar? 

Se me pergunta quanto tempo levaremos para mudar para uma economia não poluente, nossos cientistas na cúpula europeia da mudança climática, em 2018, disseram que tínhamos 12 anos. Já é menos o que nos resta para transformar completamente a civilização e começar essa mudança. A Segunda Revolução Industrial, que provocou a mudança climática, está morrendo. E é graças ao baixo custo da energia solar, que é mais rentável que o carvão, o petróleo, o gás e a energia nuclear. Estamos caminhando para uma Terceira Revolução Industrial. 

É possível uma mudança de tendência global, sem os Estados Unidos do nosso lado? 

A União Europeia e a China se uniram para trabalhar conjuntamente e os Estados Unidos estão avançando porque os estados desenvolvem as infraestruturas necessárias para isso. Não esqueçam que somos uma república federal. O governo federal apenas cria os códigos, as regulamentações, as normas, os incentivos. Na Europa, acontece o mesmo: seus estados-membros criam as infraestruturas. O que acontece nos Estados Unidos é que prestamos muita atenção no senhor Trump, mas, dos 50 estados, 29 desenvolvem planos para o desenvolvimento de energias renováveis e estão integrando a energia solar. 

No ano passado, na conferência europeia pela emergência climática, as cidades estadunidenses declararam uma emergência climática e, agora, estão lançando seu Green New Deal. Estão ocorrendo muitas mudanças nos Estados Unidos. Se tivéssemos uma Casa Branca diferente seria genial, mas, mesmo assim, essa Terceira Revolução Industrial está emergindo na União Europeia e na China e começou na Califórnia, no estado de Nova York e em parte do Texas. 

Quais são os componentes básicos dessas mudanças tão relevantes, em diferentes regiões do mundo? 

A nova Revolução Industrial traz consigo novos meios de comunicação, energia, meios de transporte e logística. A revolução comunicativa é a Internet, assim como foram a imprensa e o telégrafo na Primeira Revolução Industrial, no século XIX, no Reino Unido, ou o telefone, a rádio e a televisão na segunda revolução, no século XX, nos Estados Unidos. Hoje, temos mais de 4 bilhões de pessoas conectadas e logo teremos todos os seres humanos em comunicação pela Internet. O mundo todo agora está conectado. 

Em um período como o que vivemos, as tecnologias nos permitem integrar um grande número de pessoas em um novo marco de relações econômicas. A Internet do conhecimento se ajusta com a Internet da energia e com a Internet da mobilidade. Estas três criam a infraestrutura da Terceira Revolução Industrial. Essas três convergirão e se desenvolverão sobre uma infraestrutura de Internet das coisas, que reconfigurará a forma como se administra toda a atividade no século XXI. 

Que papel desempenhará os novos agentes econômicos na formação desse novo modelo econômico e social? 

Estamos criando uma nova era chamada glocalização. A tecnologia zero emissões desta terceira revolução será tão barata que nos permitirá criar nossas próprias cooperativas e nossos próprios negócios, tanto física como virtualmente. As grandes companhias desaparecerão. Algumas delas continuarão, mas terão que trabalhar com pequenas e médias empresas, com quem estarão conectadas pelo mundo todo. 

Essas grandes empresas serão provedoras das redes e trabalharão juntas, em vez de competir entre elas. Na primeira e na segunda revolução, as infraestruturas foram feitas para ser centralizadas, privadas. No entanto, a terceira revolução tem infraestruturas inteligentes para unir o mundo de uma maneira glocal, distribuída, com redes abertas. 

De que forma a superpopulação afeta a sustentabilidade do planeta, no modelo industrial? 

Somos 7 bilhões de pessoas e chegaremos muito em breve a 9 bilhões. Essa progressão, no entanto, irá acabar. As razões para isso têm a ver com o papel das mulheres e sua relação com a energia. Na antiguidade, as mulheres eram escravas, eram as provedoras de energia, tinham que manter a água e o fogo. A chegada da eletricidade está intimamente relacionada aos movimentos sufragistas na América. Libertou as mulheres jovens, que iam para a escola e podiam continuar sua formação até a universidade. Quando as mulheres se tornaram mais autônomas, livres, mais independentes, houve menos nascimentos. 

Você não parece otimista e, no entanto, seus livros são um guia para um futuro sustentável. Temos ou não um futuro melhor à vista? 

Todas as minhas esperanças estão depositadas na geração millennial. Os millennials saíram de suas aulas para expressar sua inquietação. Milhares e milhares deles reivindicam a declaração de uma emergência climática e pedem um Green New Deal. O interessante é que este não é como nenhum outro protesto na história, e houve muitos, mas este é diferente: move esperança, é a primeira revolta planetária do ser humano, em toda a história, em que duas gerações se veem como espécies, espécies em perigo. Propõem eliminar todos os limites e fronteiras, os preconceitos, tudo aquilo que nos separa. Começam a se ver como uma espécie em perigo e tentam preservar as outras criaturas do planeta. Esta é provavelmente a transformação mais importante da consciência humana na história.

Por: Juan M. Zafra (The Conversation). Tradução: Cepat / IHU.

Como Gases Liberados Por Microrganismos Marinhos Podem Afetar o Clima?

Novo estudo mostra como nutrientes processados pelo fitoplâncton são importantes na liberação de gases envolvidos na formação de nuvens e na regulação do clima. Cientistas estudam papel dos microrganismos do oceano nas mudanças climáticas. Foto: MIT

Um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, mostrou que os nutrientes processados pelo fitoplâncton desempenham um papel importante na liberação dos gases envolvidos na formação de nuvens e na regulação do clima. O artigo foi compartilhado no dia 23/04/2020 no Nature Communications

A pesquisa quantificou a forma como algumas bactérias marinhas processam a substância conhecida como dimetilsulfoniopropionato (DMSP), que é produzida em enormes quantidades pelo fitoplâncton. Segundo os especialistas, isso é importante porque esse produto químico desempenha um papel fundamental na maneira como o enxofre e o carbono são consumidos por microrganismos no oceano e liberados na atmosfera. 

Como explicam os cientistas, mais de um bilhão de toneladas de DMSP são produzidas anualmente por microrganismos nos oceanos, representando 10% do carbono absorvido pelo fitoplâncton. De acordo com a equipe, eles são uma importante “fonte” de dióxido de carbono, sem a qual os gases do efeito estufa se acumulariam ainda mais rapidamente na atmosfera. 

“O DMSP é uma importante fonte de nutrientes para bactérias”, afirmou Cherry Gao, uma das pesquisadoras, em comunicado. “Satisfaz até 95% da demanda bacteriana de enxofre e até 15% da demanda bacteriana de carbono no oceano. Portanto, dada a onipresença e a abundância de DMSP, esperamos que esses processos microbianos tenham um papel significativo no ciclo global do enxofre.” 

Mas exatamente como esse composto é processado e como suas diferentes vias químicas figuram nos ciclos globais de carbono e enxofre era um mistério — até agora. Para estudar o fenômeno, Gao e seus colegas modificaram uma bactéria marinha chamada Ruegeria pomeroyi, fazendo com que ela ficasse fluorescente quando uma das duas vias diferentes para o processamento do DMSP fosse ativada. 

Uma dessas vias, chamada desmetilação, produz nutrientes à base de carbono e enxofre que os micróbios podem usar para sustentar seu crescimento. A outra, chamada clivagem, produz um gás chamado dimetilsulfeto (DMS), que é responsável pela maior parte do enxofre de origem biológica presente na atmosfera a partir dos oceanos. 

De acordo com os especialistas, uma vez na atmosfera, os compostos de enxofre são uma fonte essencial de condensação para as moléculas de água. Logo, sua concentração no ar afeta os padrões de chuva e até a refletividade geral da atmosfera através da geração de nuvens. 

O novo estudo descobriu que a concentração de DMSP nas proximidades do fitoplâncton regula qual caminho as bactérias usam para processar a substância. Segundo os especialistas, abaixo de uma certa concentração, a desmetilação é dominante, mas acima de um nível de cerca de 10 micromoles, o processo de clivagem domina. 

“O que foi realmente surpreendente para nós foi que, ao testar as bactérias manipuladas, descobrimos que as concentrações de DMSP nas quais a via de clivagem domina é maior do que o esperado”, relatou Gao

Isso sugere que esse processo dificilmente ocorre em condições típicas do oceano, concluíram os pesquisadores. Ainda assim, a nova análise deve ajudar os cientistas a entender os principais detalhes de como os microrganismos marinhos, através de seu comportamento coletivo, estão afetando os processos biogeoquímicos e climáticos em escala global. 


Microplásticos São Encontrados Pela Primeira Vez em Gelo da Antártida

Amostra continha 14 tipos de polímeros diferentes. Pesquisadores alertam que esses minúsculos pedaços de plástico prejudicam animais marinhos e o ecossistema local. O estudo analisou uma partícula de gelo da Antártida e constatou que havia 12 partículas de microplástico por litro. Foto: IMAS

Pela primeira vez, cientistas encontraram microplásticos no gelo da Antártida. Esses pequenos pedaços de plástico representam uma parte significativa da poluição dos mares, tornando-se um problema para o ecossistema, pois alteram a composição dos oceanos e prejudicam a vida marinha. 

A contaminação foi identificada por pesquidadores do Instituto de Estudos Marinhos e Antárticos da Universidade da Tasmânia junto com a Divisão Antártica Australiana. Publicada na revista científica Marine Pollution Bulletin, a pesquisa analisou um pedaço de gelo coletado no leste da Antártida em 2009 e identificou 96 partículas microplásticas de 14 tipos diferentes de polímeros. 

"Cerca de 80% do gelo do mar antártico derrete e se reforma a cada ano, proporcionando oportunidades sazonais para que os microplásticos na superfície do mar fiquem presos no gelo", afirmou, em nota, a pesquisadora Anna Kelly. "O núcleo de gelo que analisamos era do gelo marítimo costeiro e tinha em média quase 12 partículas de microplástico por litro". 

Segundo Kelly, as descobertas indicam que o gelo tem potencial para ser um grande reservatório de poluição por microplásticos no Oceano Antártico. “Ao invés de afundar no oceano profundo, a captura de microplásticos no gelo do mar da Antártica permite que eles persistam por mais tempo perto da superfície", conta. 

As fontes dessas partículas são diversas: é possível incluir roupas e equipamentos usados por turistas e pesquisadores. Além disso, também foram encontrados sinais de fibras de verniz comumente usados na indústria da pesca. 

Os achados preocupam pois prejudicam os organismos marinhos essenciais para o local, uma vez que uma grande quantidade dos microplásticos está disponível para o consumo desses animais. "Vale a pena ressaltar que a contaminação do gelo na parte oeste pode ser ainda maior do que a do gelo do leste, já que a Península Antártica abriga grande parte do turismo, estações de pesquisa e tráfego marítimo do continente", disse Kelly.