Translate / Traduzir

Cientistas Descobrem Moléculas Orgânicas em Marte

FOTO DE ARQUIVO DA NASA DE 22 DE SETEMBRO DE 2014 MOSTRA MAQUETE VIRTUAL DA NAVE ESPACIAL MAVEN NA ÓRBITA AO REDOR DE MARTE (FOTO: NASA / EFE).

Cientistas descobriram minerais de argila em Marte, o que pode ser um indicador de existência de vida no planeta. O estudo foi conduzido pela missão Curiosity, da NASA, e publicado na revista científica Science Advances [Organic Matter Preserved in 3-Billion-Year-Old Mudstones at Gale Crater, Mars]. A argila é um material natural composto por alumínio, ferro e outros elementos alcalinos. Mas ela também pode conter materiais orgânicos. Além disso, de acordo com o estudo, as partículas descobertas podem indicar a presença de água em Marte

As moléculas foram encontradas nas Crateras de Gale, local explorado desde 6 de agosto de 2012, e "estão conservadas em origem lacustre na base dos Morros de Murray há 3,5 bilhões de anos". O laboratório excluiu a possibilidade de contaminação do solo, mas não conseguiu chegar à origem das partículas. O que é certo é que, se a matéria orgânica foi encontrada perto da superfície de um ambiente hostil como o de Marte, as chances de achá-la no subsolo aumentam. 

A perfuração do solo será realizada pela missão ExoMars 2020, da Agência Espacial Europeia (ESA). "Marte pode ter abrigado vida no passado", disse Chris Webster, pesquisador da NASA. "São tempos entusiasmantes, olhamos com esperança para o futuro", acrescentou. 

Outra pesquisa publicada pela Science descreveu oscilações no nível de metano no planeta, descobertas em 2004, pela ESA. No entanto, na época não se sabia de onde o gás, considerado um dos principais indícios de vida, era proveniente. 

Acreditava-se que a descoberta de eventuais variações poderia representar uma nascente ainda ativa no planeta vermelho. A resposta também veio pela missão Curiosity: as variações no nível de metano foram observadas e "são consistentes com pequenas nascentes localizadas na superfície ou no subsolo".

Fonte: Agenzia Nazionale Stampa Associata (ANSA).

RenovaBio: Aprovada a Redução de Emissões de Carbono nos Próximos 10 Anos

O presidente Michel Temer aprovou em 05/06/2018 as metas anuais de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa para os próximos dez anos. Dessa forma, o governo espera um maior uso dos biocombustíveis, como o etanol e o biodiesel, menos poluentes, para alcançar a meta. Isso traria, segundo o presidente, menor dependência do mercado externo de petróleo e consequente redução no preço dos combustíveis. 

"Vamos reduzir de 11,5% para 7% a dependência externa de combustíveis. O Brasil estará menos exposto à variação internacional do preço do petróleo e às flutuações cambiais. Portanto, quem sabe, num futuro muito próximo, consigamos evitar acontecimentos como este que se verificou na semana passada [paralisação dos motoristas de caminhão em todo o Brasil iniciada no dia 21 de maio de 2018]", disse o presidente, referindo-se à greve dos caminhoneiros, deflagrada por conta dos elevados preços do diesel. O movimento provocou uma crise no abastecimento no país, inclusive com falta de combustíveis e longas filas em postos. 

As metas propostas pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) compõem a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio). Elas reduzem 10% nas emissões de carbono na matriz de combustíveis do país, passando dos atuais 74,25 gramas de gás carbônico por megajoule (g CO2/MJ) para 66,75 g CO2/MJ, o que corresponde à retirada de 600 milhões de toneladas de carbono da atmosfera até 2028. 

Segundo o governo, o estabelecimento da meta provocará investimentos de R$ 1,3 trilhão em expansão da produção de biocombustíveis nos próximos dez anos e redução de, pelo menos, 0,84% do preço dos combustíveis ao consumidor ao final do período. 

"[A aprovação das metas são] exatamente para dar o testemunho do compromisso do governo brasileiro com a qualidade de vida no mundo, com a possibilidade de baixar o preço do combustível, que às vezes nos captura, como recentemente nos capturou. São medidas que não terão efeito amanhã, mas nos próximos dez anos", disse o ministro de Minas e Energia, Moreira Franco

Áreas de Preservação

O presidente também aproveitou para anunciar a criação de duas áreas de preservação ambiental, uma na Amazônia e outra na Bahia. "Acabo de assinar duas novas áreas de preservação: a Reserva Extrativista do Baixo Rio Branco, na Floresta Amazônica, e um refúgio de vida silvestre para a ararinha azul, na Bahia. Antes extinta em seu habitat, estamos reintroduzindo a ararinha na natureza." 

A reserva destinada à reintrodução da ararinha azul na natureza é de 120 mil hectares de área protegida, nos municípios de Juazeiro e Curaçá, na Bahia. Já a Reserva Extrativista Rio Branco ocupará 581 mil hectares entre os municípios de Rorainópolis, em Roraima, e Novo Airão, no Amazonas.

Por: Marcelo Brandão / Edição: Fábio Massalli (Agência Brasil).

RenovaBio: Desafios à Operacionalização Para Guinada Rumo à Economia Verde

Criada no final de 2017 pela Lei Federal nº 13.576 e regulamentada parcialmente pelo Decreto Federal 9.308/2018, a Política Nacional de Biocombustíveis (“RenovaBio”) é a primeira política brasileira clara que implementa o Acordo de Paris em um segmento de mercado visando sua transição à economia de baixo carbono. Daí sua representatividade. 

De forma sucinta, a RenovaBio permite aos distribuidores de combustíveis neutralizar emissões de gases de efeito estufa (“GEE”) provindos da queima de combustíveis fósseis, por meio da compra de Créditos de Descarbonização (“CBios”). Os CBios serão emitidos por produtores/importadores de biocombustíveis (“emissores primários”), via instituições financeiras (“escrituradores”), com base no lastro da eficiência energético-ambiental da produção, a ser auferida por firmas inspetoras. 

A relevância está no mecanismo de mercado e multiplicidade de players da RenovaBio: todos os agentes do setor poderão participar. Ao final, as metas setoriais são refletidas nas metas internacionais assumidas pelo Brasil no âmbito da Convenção Quadro das Nações Unidas Sobre Mudança do Clima. A tese funciona. Vamos à prática. 

Três grandes desafios à operacionalização: 

1) Autoridade reguladora do mercado 

A quem competirá, a regulação e fiscalização do mercado? O Comitê RenovaBio, instituído pelo Decreto Federal 9.308/2018 e já operante (1ª reunião em 02.4.2018), detém atribuições de monitoramento da oferta e demanda de biocombustíveis e, até o momento, representa o órgão mais técnico a influenciar o mercado, ainda que indiretamente, via proposição das metas setoriais a serem desdobradas aos distribuidores e definidas pelo Conselho Nacional de Política Energética (“CNPE”) até 24.6.2018. 

De outro lado, a Política Nacional Sobre Mudanças do Clima (“PNMC” – Lei Federal nº 12.187/2009) prevê que o Mercado Brasileiro de Redução de Emissões (“MBRE”) será operado em bolsa de valores e de mercadoria e futuros, por instituições autorizadas pela Comissão de Valores Mobiliários (“CVM”). Embora a CVM detenha parecer anterior à PNMC descaracterizando espécies de créditos de carbono como valores mobiliários (e, portanto, excluindo-os do âmbito de sua regulação), os “fatos novos” representados pela PNMC e RenovaBio podem motivar a revisão desse posicionamento. 

2) Proteção contra especulação 

Nenhum mercado está livre de especuladores, sendo necessários esforços para combater sua manipulação artificial. No caso da RenovaBio, o risco está na compra em massa de CBios por um grande player/especulador no mercado primário, de modo a retirar, momentaneamente, a liquidez no mercado e, assim, forçar uma “alta” dos preços, considerando a obrigação dos distribuidores em comprá-los, sob pena de vultosas multas administrativas de até 5% do faturamento bruto no exercício anterior. 

Para mitigar esse risco, debate-se a possibilidade de conferir aos distribuidores direito de preferência (ou mesmo exclusividade) no mercado primário. 

3) Precificação dos CBios

O cálculo do lastro dos CBios ainda depende de regulamentação. A nosso ver, a Nota de Eficiência Energético-Ambiental deverá considerar as diferenças entre biomas e commodities oleaginosas para induzir maior liquidez no mercado.

Por: Ana Luci Grizzi e Leonardo Vitor Freire (Jota.Info).

Resfriar Ambientes e Aquecer o Planeta, o Paradoxo do Ar-Condicionado

A menos que haja uma mudança radical na tendência, está previsto que as emissões de dióxido de carbono relacionadas com os ares-condicionados quase dobrarão entre 2016 e 2050. 

Quanto mais calor faz, mais aparelhos de ar-condicionado. E quanto mais ares-condicionados, mais calor faz: é o círculo vicioso de uma tecnologia que contribui de forma discreta mas crescente para o aquecimento global. 

Nas próximas décadas serão instalados bilhões de novos aparelhos de ar-condicionado em todo o mundo, à medida que os habitantes dos países emergentes com climas quentes obtenham os meios para ter acesso a estes produtos. 

Mas estes aparelhos consomem muita eletricidade, que hoje em dia é gerada principalmente em usinas de carvão ou gás. Estas, por sua vez, emitem gases de efeito estufa que fazem subir as temperaturas. 

A menos que haja uma mudança radical na tendência, está previsto que as emissões de dióxido de carbono relacionadas com os ares-condicionados quase dobrarão entre 2016 e 2050, segundo um relatório [The Future of Cooling] publicado em 15/05/2018 pela Agência Internacional de Energia (AIE). 

A quantidade adicional de dióxido de carbono que será liberada na atmosfera é de cerca de um bilhão de toneladas por ano, o equivalente a acrescentar outra África ao planeta. 

"Crise de frio" 

Mas os ares-condicionados têm outro efeito de aquecimento muito mais direto: aquecem as cidades, porque cada aparelho libera para as ruas o calor que bombeou para resfriar o interior de uma casa ou escritório. 

Um estudo de 2014 mediu que o aumento da temperatura à noite era de até um grau centígrado no centro da cidade. 

O círculo vicioso termina de se formar com o aumento contínuo do nível de vida no mundo, começando por China, Índia e Indonésia, três países que contribuirão com metade do aumento global do consumo elétrico devido ao ar-condicionado. 

No Brasil, Tailândia e Indonésia, quando melhora a renda em uma casa, o ar-condicionado com frequência é uma das primeiras compras. 

A rápida urbanização, especialmente na Índia, está acelerando ainda mais o fenômeno: as maquinarias urbanas, não só os ares-condicionados, geram calor, que por sua vez é absorvido pelo concreto. 

Atualmente há cerca de 1,6 bilhão de ares-condicionados instalados no mundo, dos quais cerca de metade estão nos Estados Unidos e na China

Por ano são vendidos cerca de 135 milhões de aparelhos novos, três vezes mais que em 1990, segundo o relatório da AIE. Só na China, o maior mercado do mundo, foram vendidos 53 milhões em 2016. 

Na Índia, só 4% das casas estão equipadas com ar-condicionado, mas tudo indica que a demanda explodirá nas próximas décadas. "O mundo vai sofrer uma crise de frio", adverte Fatih Birol, diretor-executivo do organismo, para quem a questão dos ares-condicionados e calefações é "o ponto cego" do debate energético atual. 

Entre as soluções detalhadas pelo informe estão, entre outras, desenvolver a energia solar, cujo pico de produção, durante o dia, corresponde ao pico de consumo de ares-condicionados, e melhorar o isolamento dos edifícios. 

Mas a prioridade, segundo a AIE, é endurecer as normas sobre o consumo elétrico dos aparelhos. Existem tecnologias energeticamente eficientes, mas os consumidores continuam optando em grande medida por eletrodomésticos mais econômicos e que gastam mais energia, especialmente nos Estados Unidos.


Mudança Climática Pode Aumentar Casos de Dengue, alerta pesquisa

Mosquito Aedes Aegypti, transmissor da dengue. Foto: James Gathany / Wikimedia Commons.

Por outro lado, se limitarmos o aquecimento a 1,5°C, Brasil seria o maior beneficiado com até meio milhão de casos evitados por ano até 2050. 

Limitar o aquecimento global a 1,5º Celsius até o final deste século, acima dos níveis pré-industriais, pode evitar cerca de 3,3 milhões de casos de dengue por ano apenas na América Latina e no Caribe

É o que aponta uma nova pesquisa da Universidade de East Anglia (UEA), no Reino Unido, em colaboração com a Universidade do Estado de Mato Grosso [Limiting Global-Mean Temperature Increase to 1.5–2 °C Could Reduce the Incidence and Spatial Spread of Dengue Fever in Latin America], publicada em 29/05/2018 na revista Proceedings of  National Academy of Sciences (PNAS). 

O Brasil seria o mais beneficiado de limitar o aquecimento a 1,5°C, com até meio milhão de casos evitados por ano até 2050 e 1,4 milhão de casos evitados por ano até 2100. 

Segundo o artigo, limitar o aquecimento à meta do acordo climático da ONU também impediria a disseminação da dengue para áreas onde a incidência atualmente é baixa, como Paraguai e norte da Argentina

No cenário oposto, ou seja, mantido o ritmo atual de emissões de gases do efeito estufa, associado a uma trajetória de aquecimento global de 3,7°C até 2050, o estudo prevê um aumento de até 7,5 milhões de casos adicionais. 

O sul do México, o Caribe, o norte do Equador, a Colômbia, a Venezuela e o litoral brasileiro serão os mais afetados pelo aumento dos casos. 

A dengue é endêmica em mais de 100 países e infecta cerca de 390 milhões de pessoas em todo o mundo a cada ano, com uma estimativa de 54 milhões de casos na América Latina e no Caribe

Como os mosquitos que transportam e transmitem o vírus prosperam em condições quentes e úmidas, é mais comum em áreas com essas condições climáticas. 

Para prever os impactos do aquecimento sob diferentes cenários climáticos, a equipe analisou relatórios clínicos e laboratoriais confirmados de dengue na América Latina e usou modelos de computador. 

Eles descobriram que limitar o aquecimento global a 2°C, objetivo básico do Acordo de Paris, poderia reduzir incidência de dengue em até 2,8 milhões de casos por ano até o final do século, em comparação com um cenário em que a temperatura global aumenta em 3,7°C. 

Porém, limitar o aquecimento até 1,5°C, que representa a meta mais ambiciosa do acordo climático, produz uma queda adicional em casos de até meio milhão por ano, como mostram os resultados. 

"Há uma preocupação crescente sobre os possíveis impactos da mudança climática na saúde humana. Embora se reconheça que 1,5°C teria benefícios para a saúde humana, a magnitude desses benefícios permanecia em grande parte não quantificada", diz em comunicado da instituição o principal pesquisador, Felipe Colón-González, da Escola de Ciências Ambientais da UEA e do Tyndall Center for Climate Change Research.

Por: Vanessa Barbosa (Exame).

ONU Pede Combate à Inundação do Mundo Por Plástico

ONU diz que são necessários 450 anos para que uma garrafa de plástico se decomponha e desapareça do meio ambiente.

Todos os anos, desde 1972, 5 de junho é celebrado como o Dia Mundial do Meio Ambiente. A Organização das Nações Unidas (ONU) anualmente escolhe um tema relacionado às questões mais prementes da atualidade e este ano o mote é Beat Plastic Pollution (Combater a Poluição Plástica, em tradução livre). 

A poluição causada pelo descarte de objetos de plástico é um dos grandes desafios da atualidade. De acordo com a ONU, são necessários pelo menos 450 anos para que uma garrafa de plástico se decomponha e desapareça do meio ambiente. 

Em todo o mundo, 1 milhão de garrafas de plástico são compradas a cada minuto. Todos os anos são usadas até 500 bilhões de sacolas plásticas descartáveis. 

Apenas na última década foi produzido mais plástico do que em todo o século passado. Todos os anos, são utilizados 17 milhões de barris de petróleo para produzir garrafas plásticas. No total, metade do plástico utilizado é de uso único. 

Levando-se em conta que a taxa média global de reciclagem desses produtos é de 25%, isso significa um volume enorme de lixo plástico descartado nos oceanos. 

Estima-se que pelo menos 8 milhões de toneladas de lixo plástico vão parar nos mares anualmente, onde sufocam os recifes de corais e ameaçam a fauna marinha vulnerável. 

Plástico prejudica aves marinhas 

Até 2050, 99% das aves marinhas terão ingerido plástico. O lixo prejudica mais de 600 espécies marinhas, 15% delas em extinção. 

De acordo com a campanha da ONU Mares Limpos (Clean Seas), outro grande vilão dos mares são os microplásticos, partículas que medem menos de 5mm e que estão presentes também em cosméticos e produtos de higiene. Pelo menos 51 trilhões de partículas de microplásticos já estão nos oceanos. 

A campanha Beat Plastic Pollution, que tem a Índia como país anfitrião este ano, convida as pessoas a agirem, individual ou coletivamente, para combater a poluição plástica. 

São exemplos práticos como parar de usar canudinhos e talheres de plástico, levar sua própria caneca para o trabalho, pressionar as autoridades locais para melhorar a maneira como administram o lixo da sua cidade, utilizar sacolas de tecido ao fazer as compras e recolher lixo plástico que encontrar nas praias, florestas e cachoeiras que for visitar, entre outras iniciativas. 

O secretário-geral da ONU, António Guterres, reforçou – em um comunicado – o apelo pelo combate à poluição plástica. 

"Nosso mundo é inundado por resíduos plásticos prejudiciais. Todos os anos, mais de 8 milhões de toneladas acabam nos oceanos. Os microplásticos nos mares agora superam as estrelas da nossa galáxia. De ilhas remotas ao Ártico, nada é intocado. Se as tendências atuais continuarem, até 2050 nossos oceanos terão mais plástico do que peixes". 

Iniciativa peruana 

No Peru, uma campanha de reciclagem inovadora transformou um milhão de garrafas plásticas em milhares de ponchilas [combinação das palavras em espanhol “poncho” e “mochila”], que são mochilas com um poncho embutido. 

Os itens foram projetados para proteger as crianças mais pobres dos Andes, muitas das quais devem viajar vários quilômetros por dia, muitas vezes em condições adversas, para chegar à escola. As ponchilas são feitas, cada uma, de 80 garrafas plásticas recicladas. 

"Com essa iniciativa, estamos recuperando muito plástico que pode acabar em aterros sanitários, lixões ou nos oceanos", diz Miguel Nárvaez, chefe de responsabilidade social e empresarial da Cencosud, uma rede de supermercados e uma das empresas que lideram a campanha. 

O projeto começou em 2016, quando algumas empresas se uniram para reduzir a evasão escolar nos planaltos dos Andes devido às temperaturas extremas e às longas distâncias que as crianças precisam percorrer para chegar à escola. 

As empresas convidaram os cidadãos a apoiar a iniciativa recolhendo suas garrafas de plástico durante o verão, quando o consumo está alto. 

Em 2017, o projeto produziu 6.000 ponchos; outros 7.000 já foram feitos este ano. Os itens foram entregues às crianças nas províncias de Puno, Cusco, Arequipa, Huancavelica, Ayacucho e Apurímac antes do início do ano letivo. 

No Peru, 18 mil toneladas de resíduos são gerados todos os dias, dos quais 10% são de plástico e muito pouco é reciclado. 

O governo peruano está patrocinando um projeto de lei no Congresso para impulsionar a economia circular, reduzindo o consumo de plásticos e promovendo o uso de materiais reciclados.

Por: Marieta Cazarré / Edição: Kleber Sampaio (Agência Brasil).

Estudo Aponta Quem é o “Dono” do Carbono no Brasil

Parque Nacional do Juruena (Amazônia). Foto: Adriano Gambarini / WWF Brasil

Apesar de o Estado ser o principal responsável por reservas de carbono armazenado em vegetação nativa, aproximadamente 20% desse estoque está desprotegido, indica estudo de pesquisadores da USP e do Imaflora em colaboração com a Suécia.

Do total de 52 gigatoneladas (Gt) que compõem o estoque de carbono armazenado em vegetação nativa no Brasil, 67% estão em terras públicas, sendo que metade (26 Gt) está protegida em unidades de conservação e em terras indígenas. 

Apesar de o Estado ser o principal "dono" desse carbono, isso não significa que essas reservas estejam protegidas, sem o risco de se converterem em gases de efeito estufa (GEE). Aproximadamente 20% dessas reservas (10 Gt) estão desprotegidas em 80 milhões de hectares de terras públicas sem titulação ou destinação clara, onde a disputa pela propriedade e o desmatamento ilegal desafiam a preservação da vegetação nativa e podem levar ao aumento das emissões brasileiras de GEE. 

As constatações são de um estudo realizado por pesquisadores da Escola de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), em colaboração com colegas do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), da KTH Royal Institute of Technology e da Chalmers University of Technology – ambas instituições da Suécia

O estudo integra o projeto Atlas da Agropecuária Brasileira, realizado pelo Imaflora em parceria com o Geolab da Esalq-USP, com apoio da FAPESP. Os resultados do estudo foram publicados na revista Global Change Biology

"Conseguimos identificar, pela primeira vez, onde está e a quem pertence o carbono no Brasil que está acima do solo, tanto em vegetação nativa, como em culturas e pastagens, de todos os biomas brasileiros", disse Luís Fernando Guedes Pinto, pesquisador do Imaflora e um dos autores do estudo, à Agência FAPESP

Para quantificar o estoque de carbono acima do solo no país e identificar seu "tutor", os pesquisadores desenvolveram uma base georreferenciada da malha fundiária brasileira. A malha abrange todo o território nacional e integra bases de dados oficiais, como as das áreas protegidas nacionais e estaduais – como áreas de conservação, terras indígenas e militares –, além das bases de imóveis e de assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e os polígonos de imóveis do Cadastro Ambiental Rural (CAR). 

Juntas, essas bases de dados recobrem 80% do país. Para as áreas sem cobertura foi realizada uma modelagem complementar que considera essa porção do território como sendo terra privada, estima os limites dos imóveis rurais a partir dos dados do Censo Agropecuário do IBGE de 2006 e reproduz a distribuição de tamanho dos imóveis rurais censitados em cada município ou setor censitário. 

"A malha fundiária representa a aproximação mais realista do tamanho, da localização e da distribuição dos imóveis privados, além dos assentamentos e das terras públicas brasileiras", disse Guedes Pinto

As análises dos dados revelaram que, além de 20% do carbono (10 Gt) encontrado em 80 milhões de hectares de terras públicas sem titulação ou destinação clara estar desprotegido, há outros 3,4 Gt de carbono também sem proteção em propriedades privadas, que ocupam 65% do território brasileiro, mas englobam somente 30% do carbono (15,8 Gt). 

Embora o Código Florestal proteja 75% (12,4 Gt) do estoque de carbono encontrado nessas propriedades privadas por meio de reservas legais e áreas de preservação permanente, os outros 25% (3,4 Gt) estão desprotegidos em 101 milhões de hectares, aponta o estudo. 

"Nossos resultados indicam que, embora haja uma grande área de vegetação nativa e um grande estoque de carbono protegido no Brasil, aproximadamente 25% (13,4 Gt) – que representa a soma do carbono desprotegido em terras públicas e privadas – ainda estão desprotegidos, expostos ao risco de desmatamento e podendo contribuir para o consequente aumento das emissões brasileiras de gases de efeito estufa", avaliou Guedes Pinto

Desproteção por biomas 

De acordo com o estudo, o Cerrado é o bioma com o maior volume de carbono desprotegido: 1,4 Gt, correspondente a 40% do carbono com risco de emissão no país. Em segundo lugar está a Amazônia, que responde por um terço do carbono desprotegido no Brasil (1Gt), seguida pela Caatinga, que também tem um grande volume de carbono e área de vegetação nativa desprotegidos. 

A análise também permitiu identificar que a distribuição do carbono por tamanho de imóvel rural é desigual e varia para cada bioma do Brasil

Somente 2% de grandes imóveis ocupam metade da área privada e acumulam também metade do carbono em terras privadas. Um terço das terras privadas são ocupadas por 93% pequenos e médios imóveis. 

No caso da Amazônia, por exemplo, os pesquisadores estimam que 7 mil grandes imóveis acumulam 15% (0,5 Gt) do carbono desprotegido do Brasil, enquanto outros 110 mil pequenos imóveis retenham outros 10% (0,34%). Já o Cerrado é dominado por grandes imóveis: cerca de 30 mil acumulam 25% do carbono nacional desprotegido, enquanto outros 600 mil pequenos e médios imóveis representam apenas 17%. 

"O estudo indica que a conservação do carbono desprotegido no Brasil vai depender de uma combinação de políticas que incluem a regularização fundiária, a destinação de terras, a implementação do Código Florestal e outros instrumentos que priorizem a proteção da vegetação nativa e estoques de carbono que excedem a proteção dos mecanismos legais", avalia Gerd Sparovek, professor da Esalq-USP e um dos autores do estudo. 

"Além disso, este conjunto de políticas deve ser desenhado e implementado de maneira adaptada para as diferentes realidades produtivas, ecológicas e de governança de cada região do país", afirmou. 

O artigo Who owns the Brazilian carbon? (doi: 10.1111/gcb.14011), de Flavio L. M. Freitas, Oskar Englund, Gerd Sparovek, Göran Berndes, Vinicius Guidotti, Luís F. G. Pinto e Ulla Mörtberg, pode ser lido na revista Global Change Biology em https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/gcb.14011.

Por: Elton Alisson (Agência Fapesp).

A Febre da Mineração de 'Bitcoins' Conquista a Islândia

Usina geotérmica de Hellisheidi, na Islândia. País tem clima frio e energia barata, dois requisitos importantes para a atividade de minerar criptomoedas.

"Heaven" (céu). O cartaz pendurado na porta envelhecida só pode ser entendido como uma inesperada ironia. Um ruído ensurdecedor dá as boas-vindas aos que entram na sala. Pior ainda é o calor emitido por centenas de processadores que tentam, a toda velocidade, resolver problemas matemáticos para criar um novo bloco de bitcoins – a chamada mineração de criptomoedas, como é conhecida no jargão do setor. 

A mesma imagem se repete em outros lugares. Pilhas de computadores se amontoam no chão à espera de novas instalações, prontos para continuar explorando a galinha dos ovos de ouro versão 2.0. "É uma loucura. Há um ano, só tínhamos esta sala. Agora contamos com três centros e estamos a ponto de abrir outros quatro. O telefone não para de tocar. São investidores pedindo espaço para suas máquinas", afirma Marcel Mendes da Costa, gerente da Borealis. Aqui, nesse descampado sem graça na Islândia, cresce uma nova febre do ouro. A do século XXI. 

A mineração de bitcoins chegou para ficar. A HS Orka, uma das grandes companhias elétricas da Islândia, anuncia: em 2018, pela primeira vez, o consumo de energia destinada a esse intrincado processo vai superar o de todos os lares do país. Neste mundo das divisas digitais, a mineração equivale ao que nas moedas tradicionais seria a impressão de notas. E, se tudo continuar como até agora, o processo só conhece uma direção: para cima. 

Segundo cálculos do economista Alex de Vries, no final de 2018 o bitcoin terá absorvido a eletricidade consumida por um país como a Áustria, ou 0,5% de toda a eletricidade produzida no mundo. "Pode parecer pouco, mas a energia solar responde por 1% da eletricidade total. E foram necessárias décadas para que atingisse essa porcentagem. Em apenas um ano, o consumo agora dispara e ninguém sabe onde pode chegar", diz ele, do outro lado da linha. 

Companhias elétricas, empresas de centros de dados e investidores estrangeiros esperam grandes lucros. Mas o uso maciço de energia para as criptomoedas já fez com que organizações como o Greenpeace falem de uma ameaça para o meio ambiente. 

Marcel Mendes da Costa, no centro de dados Borealis.
Mas por que investidores de todos os tamanhos e lugares do mundo concentram agora sua atenção numa ilha perdida, no meio do caminho entre a Europa e a América, com apenas 350.000 habitantes? Basicamente, por causa do frio e do baixo preço da energia. Aqui, onde a temperatura média gira em torno dos quatro graus – mais ou menos a de uma geladeira –, a natureza oferece refrigeração gratuita, uma bênção para uma indústria cujo principal inimigo é o aquecimento de aparelhos que trabalham 24 horas por dia, 365 dias por ano. Nesse negócio, quem tem mais armas contra o calor é rei. 

"Nosso negócio consiste em vender mau tempo", diz, meio brincando, meio sério, Gísli Katrínarson, chefe comercial da Advania, a maior empresa de centros de dados da Islândia. Além disso, a abundância de energias renováveis – sobretudo geotérmica e hidráulica – permite uma eletricidade a preço baixíssimo. Se ainda levarmos em conta a segurança do fornecimento oferecida por um país hiperdesenvolvido, é compreensível a atração que o país desperta nesses mineradores digitais. 

Enquanto o negócio floresce, organismos internacionais e grupos de ecologistas se perguntam sobre seus efeitos ambientais. Agustín Carstens, diretor geral do Banco de Compensações Internacionais, definiu as criptomoedas como uma mistura de "bolha, esquema Ponzi [pirâmide financeira] e desastre ambiental". O Greenpeace adverte que a demanda de energia não para de crescer, e que só 20% dela é coberta com energias renováveis. Mesmo em lugares como a Finlândia, onde praticamente todos os centros de dados usam energias limpas, o problema permanece. "Os novos consumos de energia devem ser reduzidos. Do contrário, atrasaremos o processo de transição energética", explica Sara Pizzinato, especialista em energia da ONG. 

Mas o problema vai além dos bitcoins. Se a internet fosse um país, seria o quinto maior consumidor de energia do mundo, segundo um estudo do Greenpeace. Num artigo recente, Heidar Gudjonsson, presidente da Vodafone Islândia, dizia que a pegada de carbono deixada pelos downloads da música Despacito equivale à das emissões de gases anuais de 100.000 táxis. 

Perguntas sem resposta

As dúvidas sobre o negócio das criptomoedas não vêm apenas da frente ambiental. Smári McCarthy, ativista digital e deputado do Partido Pirata, é um dos líderes islandeses que mais chamam atenção para os problemas vinculados ao negócio dos centros de dados. "Há muitas perguntas sem resposta. Quem se beneficia com operações que ninguém controla? Como sabemos que não representam uma ameaça para a segurança nacional? Um competidor poderia se interessar em lançar um ataque que deixasse o país sem internet. Não pretendo tornar ilegais essas operações, e sim regulá-las", afirma o combativo deputado num gabinete do Althing, o Parlamento islandês. 

O local de mineração da Borealis é a versão de baixo custo dos modernos centros de dados. Aqui não há sistemas sofisticados de refrigeração. Só se veem filas de computadores trabalhando sem descanso, além de tubulações que mandam o calor para o teto. As paredes são de uma espécie de espuma que deixa entrar o frio numa zona em que, duas semanas atrás, com uma primavera praticamente inexistente, a temperatura girava em torno dos cinco graus. 

O interesse aumentou em 2017, quando o valor do bitcoin passou de 1.000 dólares (3.700 reais) em janeiro para quase 20.000 (74.000) em dezembro. Então chegaram aqueles que Mendes da Costa, um dos responsáveis pelo centro de dados, chama de cowboys. "Eram investidores que vinham com a ideia de ‘pegue o dinheiro e leve’. Mas esse tipo de cliente está diminuindo", diz este holandês residente na Islândia. Com a queda na cotação do bitcoin, vão preponderando neste negócio os clientes com vocação de médio e longo prazos, incluindo grandes entidades financeiras internacionais. Mas ninguém sabe o que vai acontecer se o preço continuar caindo. "Se chegar a menos de 6.000 dólares (22.200 reais), teremos problemas", afirma o gerente da Borealis

Jóhann Snorri Sigurbergsson, responsável pela empresa elétrica HS Orka, chega tarde ao encontro com o EL PAÍS numa cidade próxima de Keflavik, a região da Islândia que concentra a maior parte dos centros de dados. Ele justifica o atraso pela quantidade de pedidos que recebe a cada dia de investidores que desejam entrar no negócio. "De manhã eu tinha três e-mails. Todo dia é assim", se desculpa. Sigurbergsson resume uma sensação muito frequente nos últimos dias em seu setor: "O objetivo é chegar aqui e fazer dinheiro rápido." 

Um roubo maciço e um fugitivo no avião da primeira-ministra 

Em abril de 2018, os islandeses acompanham com atenção uma rocambolesca história digna do thriller mais absurdo. O coquetel inclui um roubo de computadores, a fuga de um criminoso e um voo onde estavam o fugitivo mais buscado do país e a primeira-ministra, a ecologista Katrín Jakobsdóttir

Sindri Thor Stefánsson pode se orgulhar de ser o criminoso mais famoso da Islândia, um país com um baixíssimo nível de criminalidade. Primeiro, ele protagonizou um espetacular roubo de 600 computadores destinados à mineração de bitcoins. Mais tarde, escapou de uma prisão de baixa segurança e pegou um avião com destino à Suécia, no qual pôde cumprimentar a chefa de Governo. A aventura terminou dias mais tarde, quando Stefánsson foi preso depois de postar em Amsterdam, sem nenhum problema, no Instagram de um amigo, numa foto onde se lia #teamsindri (equipe de Sindri). 

Além da história divertida, esse episódio mostra o problema de segurança enfrentado pela nascente indústria de mineração de bitcoins. "O que ocorreu nos fez revisar todos os nossos protocolos de segurança", afirma a empresa de centros de dados Advania.

Por: Luis Doncel (El País).

O Inovador Projeto que Transforma CO2 em Pedra Para Combater Efeito Estufa

A usina de energia de Hellisheidi, na Islândia, vem testando um novo método para combater o aquecimento global: transformar o gás carbônico (CO2) em pedra. 

"Chegamos ao limite dos níveis de CO2 na atmosfera, se não fizermos nada, coisas extremas vão acontecer", diz Edda Sif Aradóttir, líder do projeto CarbFix

O CarbFix consiste em um projeto de pesquisa focado no desenvolvimento de métodos para capturar CO2 e injetá-lo em formações de basalto, transformando o gás em pedra. 

O processo não é simples: primeiro, o CO2 é dissolvido em água e depois injetado no solo, onde se mistura a formações de basalto. 

A paisagem de tirar o fôlego da Islândia – com suas fontes termais, gêiseres e praias de areia negra – é principalmente composta por basalto, uma rocha porosa de cor cinza-escura formada a partir do esfriamento da lava. 

O basalto, por sua vez, é considerado o "melhor amigo do carbono", porque contém grandes quantidades de cálcio, magnésio e ferro, que se combinam com o CO2 bombeado para ajudar a solidificá-lo em um mineral. 

No ano passado, o CarbFix capturou 10 mil toneladas de CO2 da atmosfera, o equivalente à emissão de 2,2 mil carros. 

"Atualmente, estamos testando o CarbFix em pequena escala, mas somos capazes de ampliá-lo", diz Aradóttir


CarbFix é um projeto de pesquisa focado no desenvolvimento de métodos para capturar CO2 (Foto: BBC)

"Minha missão é ver o CarbFix sendo empregado por todo o mundo, de modo que possamos vencer a batalha contra as mudanças climáticas", acrescenta. 


A série Medindo a Temperatura da BBC foi produzida com financiamento da Fundação Skoll, sediada na Califórnia, nos  EUA.

Fonte: BBC.

Os Vários Gargalos da Logística no Brasil

Predomina, no Brasil, o modal rodoviário, herança histórica dos modelos de transporte adotados ao longo da história, e que opera a um custo mais alto. Nos EUA, por exemplo, a predominância é do modal ferroviário, que chega a ter custos de 20 a 30% menores. 

Os custos logísticos – que envolvem os gastos com armazenagem, transporte e despesas portuárias – representam parcela significativa do valor total do produto. E, destes custos, estimam-se que 70% correspondam aos custos de transporte. 

No caso das cargas agrícolas, que por se tratarem de commodities possuem baixo valor unitário agregado, a situação é ainda pior. 

Desde o II PND (2º Plano Nacional de Desenvolvimento 1975-1979), a infraestrutura de transporte brasileira vem sofrendo com a falta de investimento. As empresas brasileiras acabam por ter um gasto extra anual devido à infraestrutura precária no setor logístico, visualizado nas péssimas condições das estradas, alta burocracia, sucateamento das ferrovias, falta de capacidade dos portos e despesas com armazenagem. 

Monopólios privados 

Durante a década de 1990, devido à falta de investimento público nos transportes, a iniciativa corporativa ganhou mais espaço, de forma que as privatizações e concessões no setor fluíram cada vez mais. 

É válido lembrar que um dos problemas das privatizações é a criação de monopólios privados, e de fato isso ocorre no setor de transportes: ter investimentos em infraestrutura concentrados nas mãos do setor privado pode gerar conflitos devido aos altos riscos e dificuldades no controle de tarifas dos serviços de utilidade pública. 

Esse controle de tarifas ineficiente é facilmente observado no setor ferroviário, em que as tarifas são estabelecidas de acordo com o volume a ser transportado, beneficiando as empresas de maior porte e que, consequentemente, conseguem um custo de transporte menor. 

Enquanto isso, empresas que não conseguem adentrar no sistema, porque, muitas vezes, não possuem volume necessário, são obrigadas a utilizar o modal rodoviário. 

Este, apesar de possuir maior disponibilidade, flexibilidade e representar cerca de 60% do sistema de transporte brasileiro de cargas, tem utilização indicada para pequenas distâncias (menos de 600km) e possui custo maior do que os modais dutoviário, aquaviário e ferroviário. 

Mato Grosso e Paraná expressam um caso clássico de concorrência: ambos produzem quantidade significativa de grãos e demandam ao mesmo tempo o serviço de transporte rodoviário. 

Os custos de transporte para a soja, por exemplo, no Paraná representam cerca de 17% do valor do produto. Essa situação é ainda mais grave para o estado com a maior produção de soja do Brasil, o Mato Grosso, em que os custos com transporte chegam a representar até 25% do valor do produto. 

O mesmo ocorre para o milho e soja, cujo período de safra é o mesmo, e ambos demandam o serviço de transporte para escoar a produção. 

Modais de transporte 

A seguir, temos a distribuição das modalidades de transporte de cargas no Brasil e nos Estados Unidos. Percebe-se que no Brasil predomina o modal rodoviário – uma herança histórica dos modelos de transporte adotados ao longo da história do país – e que opera a um custo mais alto. 

Enquanto nos Estados Unidos, além de a distribuição ser mais descentralizada, o modal predominante é o ferroviário, que, dependendo da distância, chega a ter custos de 20% a 30% menores que o rodoviário. Em países como Rússia, o modal ferroviário chega a representar mais de 81% do sistema de transporte. 

Além disso, o modal rodoviário sofre com a escassez de mão de obra durante o período pico de safra, já que o serviço prestado é sazonal e itinerante. 

Em períodos de pico de safra ou até mesmo em “super-safras”, como ocorreu com a soja na safra 2012/13, o valor do frete aumenta exponencialmente, gerando uma concorrência entre regiões e entre produtos. 

Em meio a isso, o poder de barganha do transportador aumenta e o frete chega a sofrer reajustes diários, de acordo com o nível de oferta de serviço.




Busca por soluções 

Há, portanto, grande necessidade de novos investimentos em infraestrutura logística e readaptação do sistema de transporte no país. 

Buscando atender às demandas nacionais de transportes, uma série de investimentos – tanto públicos como privados, mas principalmente de caráter misto – foram criados. 

Assim, surge, em 2006, o Programa Nacional de Logística e Transportes (PNLT), que busca desenvolver obras em infraestrutura de transportes nos modais aquaviário e ferroviário com prazo até 2023. 

Em 2008, uma quantidade massiva de investimento foi destinada ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que buscou promover a retomada de obras de infraestrutura social, urbana, logística e energética do país. 

Ao final do programa, muitas obras ainda não haviam sido iniciadas devido a problemas políticos, conflitos com a legislação ambiental e questões locais.

Em 2010, é lançado o PAC 2, (...), buscando otimizar o escoamento da produção brasileira.

Não se pode prever que ocorra num cenário de curto prazo a redução dos custos de transportes, e também não se pode atribuir somente ao governo a culpa pela ineficiência do sistema logístico atual. 

Portanto, para que os custos de transporte sofram de fato uma redução, precisamos primeiramente de uma infraestrutura eficiente, capaz de solver os gargalos atuais – que são muitos – para conseguirmos uma competitividade maior para nossa produção.

Por: Jamile de Campos Coleti (Brasil Debate).

Relação Entre Maconha e Psicose: Qual a Ligação e Quem Está em Risco?

Houve um recente aumento global da "febre verde", com várias jurisdições descriminalizando ou legalizando a maconha ao redor do mundo. 

Mas, além de relaxar as regras, vem a preocupação com as implicações para a saúde do uso de maconha. Frequentemente ouvimos falar de uma ligação entre o uso de maconha e a psicose. Então, quão forte é a ligação e quem está em risco? 

Há evidências consistentes mostrando uma relação ao longo do tempo entre o uso pesado ou repetido de maconha e uma experiência de psicose pela primeira vez [Cannabis Use and Transition to Psychosis in Individuals at Ultra-High Risk: Review and Meta-Analysis]. 

Transtornos psicóticos são condições graves de saúde mental. Eles são caracterizados por uma “perda de contato com a realidade”, onde o indivíduo perde a capacidade de distinguir o que é real do que não é. Os sintomas psicóticos podem incluir alucinações visuais, ouvir vozes ou pensamentos delirantes generalizados. 

Estas podem frequentemente apresentar-se como um “episódio psicótico” – que é um agravamento relativamente repentino de sintomas psicóticos ao longo de um curto período de tempo, resultando frequentemente em hospitalização. 

Os usuários mais pesados ​​de maconha têm cerca de quatro vezes mais chances de desenvolver esquizofrenia do que os não usuários. Até mesmo o “usuário médio de maconha” (para o qual a definição varia de estudo para estudo) é cerca de duas vezes mais provável do que um não-usuário desenvolver um distúrbio psicótico. 

Além disso, esses estudos encontraram uma ligação causal entre o tetrahidrocanabinol (THC – a substância química da planta que "provoca a viagem") e a psicose. Isso significa que a ligação não é uma coincidência e um causou o outro. 

Pessoas com certas variantes genéticas parecem estar em maior risco. No entanto, nossa compreensão desses fatores ainda é limitada, e não podemos usar apenas informações genéticas para determinar se alguém desenvolverá ou não psicose por causa do uso de maconha. 

Aqueles com essas variantes genéticas que também sofreram traumas de infância ou têm um tipo de personalidade paranoica estão ainda mais em risco. Assim também são adolescentes e jovens adultos, que têm cérebros em crescimento e estão em uma idade em que a esquizofrenia é mais provável de se manifestar. 

O tipo de maconha utilizada (ou o uso de canabinoides sintéticos) também pode aumentar o risco de psicose. Como mencionado acima, isso se deve aos efeitos psicológicos do THC químico (um dos mais de 140 canabinoides encontrados na planta). 

Esse composto pode imitar a apresentação de sintomas psicóticos, incluindo paranoia, alteração sensorial, euforia e alucinações. Em pesquisas baseadas em laboratório, mesmo pessoas saudáveis ​​podem apresentar sintomas aumentados de psicose quando recebem compostos de THC, com efeitos mais severos observados em pessoas com esquizofrenia. 

Ironicamente, um composto encontrado na maconha pode ser benéfico no tratamento da psicose. Em contraste com o THC, um composto chamado canabidiol (CBD) pode fornecer um efeito tampão aos efeitos potencialmente indutores de psicose do THC. 

Isso pode ocorrer em parte devido à sua capacidade de bloquear parcialmente o mesmo receptor químico do cérebro que o THC se liga. O CBD também pode inibir a quebra de uma substância química do cérebro chamada "anandamida", que nos faz sentir felizes. A anandamida também é encontrada no chocolate. 

O CBD extraído da maconha e usado isoladamente é bem tolerado com efeitos psicoativos mínimos. Em outras palavras, isso não faz uma pessoa se sentir "chapada". Alguns estudos têm descoberto que o canabidiol é realmente benéfico para melhorar os sintomas da esquizofrenia. Mas um estudo mais recente não mostrou diferença nos efeitos do CBD comparado a um placebo sobre os sintomas da esquizofrenia. 

É importante mencionar que a maioria dos estudos que encontrou uma ligação causal entre o uso de maconha e a psicose examinou o uso de cannabis ilícita, geralmente de origem desconhecida. Isso significa que os níveis de THC são irrestritos e existe a possibilidade de adulterantes sintéticos, resíduos químicos, metais pesados ​​ou outras toxinas estarem presentes devido à falta de práticas de garantia de qualidade.


Pior Cenário de Mudanças Climáticas é Ainda Pior do que Pensávamos

© Thomas Corzelius / iStock / Getty Images Plus.

A frase "pior do que pensávamos" é um clichê quando se trata de mudança climática. Há muitos estudos sugerindo que estamos aquecendo mais e com consequências piores do que pensamos, e poucos dizem que isso não será tão ruim. Mas adivinhe: é pior do que pensamos. 

Um estudo sobre a economia global futura - publicado pela revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) - concluiu que o pior cenário usado pelos cientistas do clima não é, na verdade, o pior caso. 

O quanto o clima mudará depende de quanto gás de efeito estufa emitimos, o que, por sua vez, depende das escolhas que fazemos como sociedade - incluindo como a economia global se comporta. Para lidar com isso, os climatologistas usam quatro cenários chamados RCPs [Representative concentration pathway], cada um dos quais descreve um futuro possível diferente. 

O cenário RCP8.5 é o pior para o clima. Assume o crescimento econômico rápido e irrestrito e a queima desenfreada de combustíveis fósseis. 

Parece agora que o RCP8.5 pode ter subestimado as emissões que resultariam se seguíssemos o caminho econômico que ele descreve. 

Mais dinheiro, mais emissões 

"Nossas estimativas indicam que, devido a taxas de crescimento econômico mais altas do que presumidas, há uma probabilidade maior do que 35% de que as concentrações de emissões do ano 2100 excedam as dadas pelo RCP8.5", diz Peter Christensen, da University of Illinois, Urbana-Champaign

Em certo sentido, não é tão ruim assim. RCP8.5 assume que nenhuma ação é tomada para limitar o aquecimento, o que é improvável. "Já fixamos uma certa política climática", diz Glen Peters, do Centro de Pesquisas Climáticas Internacionais, na Noruega

Mas a implicação preocupante é que as emissões podem ser muito mais altas do que o esperado, mesmo que a ação climática continue e seja aumentada. "Os resultados também afetarão as estimativas dos caminhos de emissões sob uma variedade de cenários políticos", diz Christensen

Enquanto alguns afirmam que a ligação entre o crescimento econômico e as emissões de gases de efeito estufa foi quebrada - ou "desacoplada" -, ela só foi enfraquecida. As emissões de carbono aumentaram na União Européia nos últimos quatro anos, conforme cresce o crescimento econômico, assinala Peters. Em 2017, as emissões da UE aumentaram 1,8%.

Por: Michael Le Page (New Scientist).

Um Terço das Áreas Protegidas do Mundo Sofrem Intensa Pressão Humana

Floresta Nacional do Jamanxim, Pará, impactada pelo desmatamento e grilagem de terras. Foto: Vinícius Mendonça / Ibama.

Quase um terço das áreas protegidas em todo o mundo estão sob intensa pressão de atividades humanas. No total, uma área maior do que a Amazônia, de aproximadamente 6 milhões de quilômetros quadrados, está degradada por rodovias, pastagens ou urbanização. Para especialistas, esse número ameaça as metas definidas pela Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB). 

O resultado foi apresentado na revista Science [One-Third of Global Protected Land is Under Intense Human Pressure] por pesquisadores da University of Queensland, Austrália, University of Northern British Columbia, Canadá, e Wildlife Conservation Society (WCS). É o primeiro levantamento amplo sobre a situação das áreas protegidas em nível mundial, desde a assinatura da CDB, em 1992, que trata do uso e proteção da biodiversidade. 

"Nós encontramos grande infraestrutura de acesso, como rodovias, agricultura industrial e mesmo cidades inteiras ocorrendo dentro dos limites de locais que supostamente deveriam ser destinados à conservação da natureza", conta o líder do estudo, Kendall Jones, estudante de doutorado na University of Queensland. "Mais de 90% das áreas protegidas, como parques nacionais e reservas naturais, demonstraram sinais de danos provocados por atividades humanas", completa. 

Segundo o estudo, o Brasil é o país com maior extensão de áreas protegidas do mundo, com quase 2,5 milhões de quilômetros quadrados de unidades de conservação e terras indígenas (28,94% do território nacional). Conforme os dados apresentados em material de suporte ao artigo, 86,45% das áreas protegidas brasileiras estão sob baixo impacto de pressões humanas e 13,55% sofrem alta pressão. Um mapa apresentado no artigo indica que as unidades de conservação e terras indígenas sob maior pressão estejam no Sudeste e ao longo do litoral. 

De acordo com o estudo, a extensão de áreas protegidas em todo o mundo dobrou desde 1992. Atualmente elas cobrem 14,7% da superfície terrestre do planeta, mas a meta é chegar a 17% até 2020. Mais da metade das áreas criadas antes de 1992 (55%) têm sofrido aumento da pressão humana, segundo o estudo. Os pesquisadores defendem que os governos reconheçam os benefícios das áreas protegidas e as fortaleçam, com respeito ao modo de vida de populações tradicionais. 

Mangues e savanas estão entre as paisagens com maior proporção de áreas protegidas sob pressão, enquanto florestas localizadas em altas latitudes, como no Canadá ou na Rússia, estão sujeitas a menores impactos por atividades humanas. 

"Nós sabemos que áreas protegidas funcionam", afirma Jones. "Quando bem financiadas, bem gerenciadas e bem implantadas, elas são extremamente efetivas em combater as ameaças que causam perda da biodiversidade e garantir a recuperação de espécies à beira da extinção. Há também muitas áreas protegidas ainda em boas condições, garantindo áreas remanescentes de espécies ameaçadas em todo o mundo".

Por: Vandré Fonseca (O Eco).

Órbita da Terra Muda a Cada 405 Mil Anos, Alterando Clima Global, diz estudo

Analisando elementos radioativos em rochas nas profundezas da Terra, cientistas americanos comprovaram o que os cálculos matemáticos já sugeriam; para eles, porém, mudanças climáticas atuais são mesmo resultado do efeito estufa. 

Um novo estudo demonstra que a influência gravitacional de Júpiter e de Vênus provocam, a cada 405 mil anos, uma alteração na órbita da Terra que tem impactos no clima global. De acordo com os autores da pesquisa Empirical Evidence for Stability of the 405-kiloyear Jupiter–Venus Eccentricity Cycle Over Hundreds of Millions of Years, publicada em 07/05/2018, na revista científica PNAS, esse ciclo já havia sido previsto por cálculos de mecânica celeste, mas até agora ninguém havia apresentado evidências físicas de sua existência. 

Segundo os autores, o estudo, que se baseou em escavações feitas em rochas extremamente antigas do Arizona (Estados Unidos), comprovou que o fenômeno tem ocorrido regularmente há pelo menos 215 milhões de anos - antes do aparecimento dos dinossauros -, deixando a órbita mais "alongada". 

"É um resultado espantoso, porque a existência desse longo ciclo, que já havia sido prevista a partir da análise dos movimentos dos planetas nos últimos 50 milhões de anos, foi comprovada e já ocorre há pelo menos 215 milhões de anos. Agora os cientistas poderão ligar esse ciclo de 405 mil anos, de uma maneira muito precisa, às alterações no clima, no ambiente e na evolução dos dinossauros e dos mamíferos, por exemplo", disse o autor principal do estudo, Dennis Kent, da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos

Extraindo amostras de rochas extremamente antigas das profundezas do Parque Nacional da Floresta Petrificada, no Arizona, os cientistas identificaram sinais de uma variação regular na órbita da Terra, a cada 405 mil anos, que afeta o clima. Foto: Kevin Krajick/Lamont-Doherty Earth Observatory.

Por várias décadas, os cientistas postulavam que a órbita da Terra em torno do Sol sofre uma modificação a cada 405 mil anos, passando de uma forma quase circular para uma forma 5% mais alongada, ou elíptica. 

O ciclo, segundo eles, é resultado de uma complexa interação com as influências gravitacionais de Vênus, Júpiter e outros objetos do Sistema Solar, que em sua viagem em torno do Sol às vezes estão mais próximos e às vezes mais distantes uns dos outros. 

Segundo os astrofísicos, porém, o cálculo matemático desse ciclo só era confiável nos últimos 50 milhões de anos. Para além desse limite, o problema se torna complexo demais, porque há muitas variáveis em jogo. 

"Há outros ciclos orbitais mais curtos, mas quando olhamos para o passado, é muito difícil saber quais deles têm relações entre si, porque eles mudam muito com o tempo. A beleza desse ciclo maior é que ele não muda. Todos os outros ciclos é que mudam em relação a ele", disse Kent

Um dos autores do novo estudo, John Geissman, da Universidade do Texas, puxa um "testemunho de rocha" que acabara de ser extraído no Arizona; a perfuração chegou a 500 metros de profundidade, revelando dados de cerca de 250 milhões de anos. Foto: Kevin Krajick/Lamont-Doherty Earth Observatory.

Escrito nas rochas

A evidência que demonstra a existência do ciclo há pelo menos 215 milhões de anos são amostras de rocha retiradas de até 500 metros de profundidade de uma colina no Parque Nacional da Floresta Petrificada, no Arizona, em 2013. 

As rochas do Arizona que foram estudadas se formaram durante o fim do período Triássico, entre 209 e 215 milhões de anos atrás, quando a área era coberta por rios que carreavam sedimentos. Nessa época, os primeiros dinossauros estavam começando a evoluir. 

Os cientistas determinaram a idade das rochas do Arizona analisando as camadas de cinzas vulcânicas em seu interior que contêm radioisótopos cuja emissão radioativa decai em uma taxa constante. A partir dos sedimentos, eles também detectaram repetidas inversões na polaridade do campo magnético do planeta. 

Antes de escavar o solo no Arizona para obter os "testemunhos de rocha" - como são chamados os "cilindros" de rocha de centenas de metros de comprimento - os cientistas já haviam obtidos testemunhos em Nova Jersey, que mostravam uma alternância entre períodos secos e úmidos ao longo de milhões de anos. 

Eles acreditavam que essas mudanças do clima registradas nas rochas de Nova Jersey eram controladas pelo ciclo de 405 mil anos, mas naquelas rochas não havia camadas de cinzas vulcânicas que permitissem determinar as datas com precisão. 

Combinando os dois conjuntos de dados - obtidos em Nova Jersey e no Arizona -, os cientistas demonstraram que os dois locais se desenvolveram ao mesmo tempo e que o intervalo de 405 mil anos de fato está ligado às variações do clima. 

Os sedimentos que se acumularam nas profundezas da Terra, no local onde fica hoje o Arizona, há mais de 200 milhões de anos, antes do aparecimento dos dinossauros; a foto mostra um "cilindro" de rocha que acabara de ser extraído de uma profundidade de 500 metros. Foto: Kevin Krajick/Lamont-Doherty Earth Observatory.

Profusão de ciclos

Outro dos autores da pesquisa, o paleontólogo Paul Olsen, afirma que o ciclo não muda o clima diretamente, mas intensifica ou enfraquece os efeitos de outros ciclos de duração mais curta, que por sua vez afetam o clima diretamente. Em conjunto, esses ciclos mudam as proporções de energia solar que atingem a Terra em diferentes momentos do ano. 

Ele explica que há um ciclo menor a cada 100 mil anos, ligado à excentricidade da órbita da Terra, um de 41 mil anos, ligado à inclinação do eixo da Terra em relação à órbita em torno do Sol e um ciclo de 21 mil anos ligado a uma oscilação no eixo da Terra. Na década de 1970, cientistas revelaram que esses ciclos menores levaram à alternância entre períodos de aquecimento e resfriamento do planeta, produzindo as glaciações. 

Mas ainda há muita discussão sobre as inconsistências nos dados dos últimos milhões de anos e sobre as relações desses ciclos com o aumento e redução dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera - outro fator que controla o clima global. O que torna os resultados desses fenômenos ainda mais difíceis de entender é a interação constante entre eles. Eventualmente, um ciclo está fora de fase em relação aos outros e uns tendem a neutralizar os outros. Outras vezes, eles podem se combinar provocando mudanças drásticas e súbitas. 

Segundo os autores do novo estudo, a cada 405 mil anos, quando a excentricidade - ou "alongamento" - da órbita está em seu máximo, diferenças sazonais provocadas pelos ciclos mais curtos se tornam mais intensas, deixando os verões mais quentes, os invernos mais frios, os locais secos mais secos e os locais úmidos mais úmidos. Tudo se inverte 202,5 mil anos depois, quando a órbita da Terra se torna mais circular. 

Os cientistas explicam que Júpiter e Vênus exercem forte influência na órbita da Terra por causa do tamanho e da proximidade, respectivamente. Vênus é o planeta mais próximo da Terra, afastando-se dela no máximo 260 milhões de quilômetros. Júpiter está muito mais longe, mas é maior planeta do Sistema Solar, 2,5 vezes maior que a soma de todos os demais. 

Autor principal do novo estudo, Dennis Kent, da Universidade Rutgers, mostra parte de um "testemunho de rocha" de 518 metros de comprimento retirado do Parque Nacional da Floresta Petrificada, no Arizona; ao fundo, pode-se ver as caixas do arquivo de amostras de rochas retiradas de Nova Jersey, para comparação. Foto: Nick Romanenko/Rutgers University.

Efeito estufa é decisivo

Segundo Olsen, o sistema é tão intrincado que ainda há muita pesquisa a ser feita para que se compreenda completamente as relações entre a órbita e o clima da Terra. "É uma coisa realmente complicada. Nós utilizamos basicamente o mesmo tipo de conhecimento matemático que é utilizado para enviar espaçonaves a Marte - e que funciona muito bem na prática. Mas quando começamos a estudar os movimentos interplanetários em um passado mais remoto e a ligá-los a mudanças no clima, temos que admitir que não entendemos todo o funcionamento." 

Neste momento, segundo os cientistas, a órbita da Terra está no momento mais "circular" dos últimos 405 mil anos. "Para nós isso provavelmente não tem nenhum significado muito perceptível. Esse ciclo está bem longe do topo da lista de coisas que podem afetar o clima em escalas de tempo que nos afetem. Neste momento, todo o dióxido de carbono que nós lançamos na atmosfera é um problema muito maior, com efeitos muito mais importantes nas nossas vidas. O ciclo planetário é bem mais sutil", disse Kent.

Por: Fábio de Castro (O Estado de S. Paulo).