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Agrotóxicos: Brasil Libera Quantidade Até 5 Mil Vezes Maior Do Que Europa

Oito brasileiros se intoxicam com agrotóxicos por dia devido à permissividade da lei brasileira, aponta estudo inédito. 

O debate sobre o uso de agrotóxicos ganhou um novo capítulo, e ele não é bom para o Brasil. Estudo inédito revelou o abismo que existe entre a legislação brasileira e a da União Europeia sobre o limite aceitável de resíduos na água e nos alimentos. A contaminação da água é o que mais chama a atenção, com a lei brasileira permitindo limite 5 mil vezes superior ao máximo que é permitido na água potável da Europa. No caso do feijão e da soja, a lei brasileira permite o uso no cultivo de quantidade 400 e 200 vezes superior ao permitido na Europa

Esses são os resultados do estudo Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, da pesquisadora Larissa Mies Bombardi, do Laboratório de Geografia Agrária da Universidade de São Paulo. “Infelizmente, ainda não é possível banir os agrotóxicos. Por isso, é importante questionar por que o governo brasileiro não usa parâmetros observados no exterior”, afirma Bombardi, para quem a permissividade em relação à água “é uma barbárie”. Enquanto a União Europeia limita a quantidade máxima que pode ser encontrada do herbicida glifosato na água potável em 0,1 miligramas por litro, o Brasil permite até 5 mil vezes mais. 

O Brasil tem, segundo o estudo, 504 agrotóxicos de uso permitido. Desses, 30% são proibidos na União Europeia – alguns há mais de uma década. Esses mesmos itens vetados estão no ranking dos mais vendidos. O acetato, tipo de inseticida usado para plantações de cítricos, é o terceiro da lista. Uma nota técnica da Anvisa citada no estudo de Bombardi mostra que o acetato causa a chamada “síndrome intermediária”. Entre os danos à saúde estão fraqueza muscular dos pulmões e do pescoço. Em crianças, o risco é mais acentuado. “A nossa legislação é frouxa no que diz respeito aos resíduos e à quantidade permitidos na União Europeia”, diz Bombardi

Para Brian Garvey, da Universidade de Strathclyde, da Escócia, e orientador de Bombardi na pesquisa, as autoridades brasileiras “lavam as mãos da toxidade”. 

Como resultado, o mapa aponta ainda que oito brasileiros são contaminados por dia, se levarmos em conta os números oficiais, que são subnotificados. Uma pesquisa da Fiocruz estima que, para cada caso registrado, 50 não o foram. O que significa que, entre 2007 e 2014, mais de um milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxico – um quinto das vítimas é criança ou adolescente. Para piorar, em 2015, o governo deixou de publicar os casos de intoxicação por agrotóxicos. Desde então, ficou mais difícil estudar os casos de vítimas intoxicadas dentro ou fora do trabalho, como nos casos de pessoas que moram em áreas pulverizadas. 

Bombardi se refere aos casos de intoxicação como a “ponta do iceberg”. “A intoxicação representa 2% do total de problemas de saúde que podem acometer a sociedade. As doenças crônicas não são estudadas como deveriam.”

A Anvisa informou que “realiza a avaliação toxicológica dos agrotóxicos, antes dos mesmos serem registrados pelo Ministério da Agricultura” e que há uma série de restrições para registros de agrotóxicos no país, como nos casos em que não há antídoto ou tratamento eficaz no Brasil. Em relação à quantidade de resíduos presentes, a Anvisa afirmou que uma análise feita entre 2013 e 2015 mostrou que quase 99% das amostras de alimentos analisadas “estão livres de resíduos de agrotóxicos que representam risco agudo para a saúde”.

De acordo com a Anvisa, no Brasil, é proibido o registro de agrotóxicos, seus componentes e afins:

• Para os quais no Brasil não se disponha de métodos para desativação de seus componentes, de modo a impedir que os seus resíduos remanescentes provoquem riscos ao meio ambiente e à saúde pública.
• Para os quais não haja antídoto ou tratamento eficaz no Brasil.
• Considerados teratogênicos, que apresentem evidências suficientes nesse sentido, a partir de observações na espécie humana ou de estudos em animais de experimentação.
• Considerados carcinogênicos, que apresentem evidências suficientes nesse sentido, a partir de observações na espécie humana ou de estudos em animais de experimentação.
• Considerados mutagênicos, capazes de induzir mutações observadas em, no mínimo, dois testes, um deles para detectar mutações gênicas, realizado, inclusive, com uso de ativação metabólica, e o outro para detectar mutações cromossômicas.
• Que provoquem distúrbios hormonais, danos ao aparelho reprodutor, de acordo com procedimentos e experiências atualizadas na comunidade científica.
• Que se revelem mais perigosos para o homem do que os testes de laboratório, com animais, tenham podido demonstrar, segundo critérios técnicos e científicos atualizados.
• Cujas características causem danos ao meio ambiente. 

Consumo de agrotóxicos aumentou 

Desde 2008 o Brasil é o país campeão mundial em uso de agrotóxicos. Consumimos 20% do que é comercializado mundialmente. Não bastasse, o manuseio não parou de crescer. Entre 2000 e 2014, mostrou o estudo, o Brasil saltou de cerca de 170 mil toneladas para 500 mil, aumento de 194% em quinze anos. 

Segundo o estudo, nos estados de Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás e Mato Grosso o consumo do herbicida glifosato fica entre 9 kg e 19 kg por hectare. Análises feitas com animais mostraram que a exposição ao produto causou câncer de mama, necrose de células e reduziu o tempo de vida dos bichos. Em setembro de 2017, a França anunciou que banirá o glifosato até 2022. “O primeiro-ministro [Edouard Philippe] decidiu que este produto será proibido na França – assim como todos os que se pareçam com ele e que ameaçam a saúde dos franceses”, disse o porta-voz Christophe Castaner em entrevista a um canal de televisão. 

Mesmo em casos em que o agrotóxico é permitido lá e cá, a quantidade usada é menor, como é hoje o caso do glifosato, o líder brasileiro de vendas. Enquanto na Europa é permitido usar até 2 kg de glifosato por hectare, a média brasileira fica entre 5 kg e 9 kg. Entre 2009 e 2014, o consumo subiu 64%, de 118 mil toneladas para 194 mil. Em 2014, o Mato Grosso liderou as compras, seguido por Paraná e Rio Grande do Sul

Bombardi aponta ainda que o aumento do uso de agrotóxicos não aumentou a produção de alimentos por hectare no Brasil. O crescimento do consumo do produto aconteceu em paralelo a um outro movimento: o aumento da concentração de terras e da plantação de produtos que usam grandes quantidades de herbicidas. Em 2003 as fazendas declaradas com área superior a 100 mil hectares ocupavam 2% de todo o território destinado a imóveis rurais no país, em 2015, o número saltou para 18%. Em 13 anos, a área cultivada de soja aumentou 79% no Brasil

O aumento da produção rural também ajuda a entender esse crescimento no consumo de agrotóxicos. Em 2014, os produtos básicos assumiram a liderança das exportações, com 48% do total. Dos dez produtos mais vendidos pelo Brasil no exterior, sete vêm do campo. 

A pesquisadora aponta ainda a política de incentivos às empresas produtoras de agrotóxicos, que têm 60% de desconto no imposto relativo à circulação de mercadorias no Brasil, dentre outros benefícios. 

Lei permissiva, culpa do agricultor 

Embora a lei brasileira seja permissiva, as autoridades tendem a jogar no produtor rural a culpa pelos casos de contaminação. Em audiência pública realizada na Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados em agosto de 2017, tanto o governo quanto a Anvisa atribuíram a contaminação por agrotóxicos à utilização inadequada. 

O mesmo argumento foi usado pela coordenadora do Programa Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes do Ministério da Agricultura, Rosana Vasconcelos, em reportagem da Agência Câmara: “Quando se depara com o problema de uma praga, de uma doença na sua cultura, ele [produtor] não quer saber se é permitido para o mamão, ele quer saber se mata aquela praga para ele não perder a produção”, afirmou. Na mesma reportagem, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento informa que “o uso de agrotóxicos no Brasil está dentro dos padrões internacionais, mas reconheceu que há uma utilização equivocada que pode levar à contaminação.” Procurados, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento sugeriu enviar os questionamentos à Anvisa

O estudo confirma a informação de que os trabalhadores rurais são as principais vítimas de contaminação, seguidos por quem vive em regiões próximas às plantações, sendo as áreas pulverizadas as mais suscetíveis. No estado de São Paulo, 75% da área é pulverizada. Por fim, o último elo da cadeia revela as consequências da contaminação por quem consome. “O agrotóxico não tem público alvo”, afirma Bombardi.

Por: Thais Lazzeri (Repórter Brasil).

São Paulo: Presença de Árvores Reduz Casos de Câncer de Pulmão em Idosos

Árvores diminuem a quantidade de material particulado no ar pois agem como filtros de captação e absorção – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Pesquisas feitas no exterior já têm mostrado como as árvores urbanas afetam a qualidade do ar. Um estudo da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, por exemplo, concluiu que prédios cobertos por plantas poderiam diminuir em até 30% a poluição de uma cidade. 

Agora a bióloga Bruna Lara de Arantes mostra, em seu mestrado, defendido na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, a relação entre arborização, material particulado e casos de câncer de pulmão em idosos na cidade de São Paulo

O estudo aponta que a presença de árvores diminui a quantidade de material particulado no ar. Em consequência disso, foi observada também uma redução nos casos de doenças respiratórias. 

Para chegar a esse resultado, a pesquisadora cruzou dados da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), através de um convênio firmado com a professora Thaís Mauad e a médica Tiana Lopes

Regiões mais centrais da cidade são mais ocupadas por construções, enquanto que regiões mais afastadas têm mais árvores – Foto: Marcos Santos/USP Imagens.

“Basicamente nós escolhemos as estações de monitoramento do ar da Cetesb que estavam medindo material particulado em 2010”, explica Bruna. “O material particulado é um dos poluentes que mais afetam a respiração humana e também um dos mais absorvidos pelas plantas. Isso acontece porque ele tem um tamanho microscópico, de 10 microgramas por centímetro cúbico (µg/cm³), o que permite que ele passe pela nossa respiração sem ser filtrado.” 

Além dos dados coletados pela Cetesb, Bruna passou a analisar como o entorno das estações de monitoramento é ocupado. Verificou se havia mais asfalto, construções, árvores ou gramado, identificando as espécies de plantas que habitam um raio de 100 metros da estação. 

Em seguida, Bruna usou programas estatísticos para observar como as mortes por câncer de pulmão em idosos estavam distribuídas pela cidade e se tinham alguma relação com os dados atmosféricos encontrados pela Cetesb

Mortes pela poluição 

“Os dados apontam que a forma como você ocupa o solo na cidade influencia em 17% os casos de morte por câncer de pulmão em idosos”, afirma Bruna. Outros fatores de risco que devem ser considerados são a genética e o estilo de vida dos idosos. 

O estudo também encontrou uma relação entre a ocupação da cidade por relvado ou asfalto e a região no município. Regiões mais centrais são mais ocupadas por construções, enquanto que regiões mais afastadas têm mais árvores. “Esse padrão já era observado na literatura da área, mas não havia dados quantitativos como os desta pesquisa”, ressalta. 

O material particulado é um dos poluentes que mais afetam a respiração humana e também um dos mais absorvidos pelas plantas – Foto: Marcos Santos/USP Imagens.

Com os dados, foi possível concluir também que quanto mais afastado do centro da cidade e quanto maior for a quantidade de plantas no local, menos casos de câncer de pulmão são encontrados. “A saúde dessa população é favorecida”, pontua Bruna

Ainda sim, a pesquisadora lembra que, pelo caráter exploratório da pesquisa, são necessários novos estudos sobre o assunto para afirmações mais concretas. 

Segundo uma pesquisa publicada pela revista The Lancet, a poluição do ar foi responsável por mais de 70 mil mortes no Brasil

Soluções 

Além da importância acadêmica, o estudo também é de interesse da gestão pública. “Esses dados nos trazem evidências que, ao aumentar as áreas urbanas de gramados e árvores, há uma diminuição significativa da poluição do ar por material particulado”, defende a pesquisadora. 

O estudo encontrou uma relação entre a ocupação da cidade por relvado ou asfalto e a região no município – Foto: Marcos Santos/USP Imagens.

Segundo o estudo, o aumento de 1% de gramado na cidade é capaz de diminuir 0.45 μg/cm³ de material particulado. Já o aumento de um metro quadrado de copa de árvore reduz 0.29 μg/cm³. 

“A ação dos gramados está relacionada à possibilidade de maior circulação do ar, levando em conta que essas partículas são muito leves e facilmente dispersas”, explica. “Já as árvores agem como filtros de captação e absorção.” 

A bióloga ainda destaca que regiões com muitas construções verticais ou bosques fechados podem ter pouca ventilação. Nesse caso, é interessante a substituição de prédios inutilizados pela construção de áreas de gramado, como parques, jardins e canteiros.

Por: Larissa Lopes (Jornal da USP).

Niterói: Parque Orla Vai Reunir Lazer e Sustentabilidade

© Foto: Guia de Niterói. Clique na imagem para ampliar!
Ideia é criar obras de infraestrutura para o desenvolvimento sustentável. Investimento previsto será de R$ 10 milhões. Projeto é uma das mais importantes iniciativas do Programa Região Oceânica Sustentável. Um de seus pilares é a implantação do sistema cicloviário articulado com o novo sistema viário e no entorno da Lagoa de Piratininga

A Prefeitura de Niterói lança até o final deste ano a licitação para o projeto executivo do Parque Orla Piratininga. Será mais um passo para tirar do papel uma das mais importantes iniciativas do Programa Região Oceânica Sustentável (PRO-Sustentável), que tem como premissa levar obras de infraestrutura, drenagem, manejo de águas pluviais, pavimentação, prezando pelo desenvolvimento sustentável e recuperação ambiental. O investimento do Parque Orla, que terá 9 km de extensão, será de R$ 10 milhões. 

O Parque Orla está sendo desenhado pela ótica do paisagismo ecológico, preservando a Lagoa e seus ecossistemas associados, e sem aterro de seu espelho d’água. Após a conclusão do projeto básico, ficará disponível a licitação para elaboração do projeto executivo, no valor de aproximadamente R$ 300 mil. O secretário executivo Axel Grael lembrou que, recuperada, a área contará com equipamentos e áreas de lazer. 

“O Parque Orla avançou muito e nosso objetivo agora é construir um projeto conceitual que permita uma licitação para projeto executivo. Temos conceitos bem interessantes, em uma iniciativa que vai revitalizar a área e proteger a Lagoa de Piratininga”, disse. 

Visitação – A cada 15 minutos de caminhada, os visitantes vão encontrar pontos de informações, lazer e contemplação, com decks multifuncionais. A expectativa é de que serviços, como restaurantes, cheguem à população. Urbanista e paisagista ecológica, Raquel Cruz é uma das profissionais que está à frente do projeto Parque Orla. Ela explicou que o Parque olha para o território de forma holística e integrada. 

“O Parque é um convite à educação ambiental, à conscientização para entendermos como funciona o ecossistema original onde plantas e animais convivem com o ambiente urbano. Um dos grandes trabalhos do projeto é fazer manejo dos ecossistemas, suprimir espécies invasoras e restabelecer a fauna e flora originais”, detalhou. 

© Foto: Douglas Macedo. Clique na imagem para ampliar!
Participação popular – Ao longo dos anos, um grupo que manteve sua ligação com a Lagoa de Piratininga foi o de pescadores. O parque está sendo pensado para que, com sua implantação, o ecossistema local seja cada vez mais rico. Durante a elaboração do projeto básico, foram identificados os pontos de pesca da Lagoa e a ideia é manter e fomentar a atividade pesqueira na região. A participação popular também é importante para o projeto, que será apresentado com suas diretrizes à população, para que seja discutido com a comunidade. O escopo já foi apresentado ao Subcomitê do Sistema Lagunar de Itaipu/Piratininga (Clip), e em realizadas audiências públicas. 

Mobilidade – Um dos pilares do PRO-Sustentável é a implantação do sistema cicloviário articulado com o novo sistema viário e no entorno da Lagoa de Piratininga. Por isso, o acesso ao Parque será favorecido para pedestres e ciclistas. Cerca de 5 minutos de caminhada vão separar os pontos da TransOceânica aos principais acessos ao Parque, e os pontos de acesso vão coincidir com ciclorrotas. A via Chico Xavier será mantida como via local, e o projeto prevê o baixo fluxo de carros. 

Na Ilha do Tibau, será feita uma recomposição de ecossistema e implantação de infraestrutura de lazer, recreação, esportes e cultura. No meio de um grande bosque, serão implantadas duas quadras poliesportivas e um campo de futebol de areia, parque infantil, anfiteatro com vista para Laguna, pontos de contemplação e áreas sombreadas para piquenique. Na Ilha do Modesto e no Pontal, a visitação será controlada, com atividades ligadas ao ecoturismo. No Ninhal, o acesso será restrito para pesquisa. 

O PRO-Sustentável tem prazo de execução de dois anos e investimentos de R$ 350 milhões, financiados pelo Banco de Desenvolvimento da América LatinaCooperação Andina de Fomento (CAF). O programa contempla obras de infraestrutura, urbanização e de sustentabilidade ambiental, incluindo pavimentação das vias oceânicas, requalificação nas áreas do entorno da TransOceânica, sistema de controle semafórico, iluminação, renaturalização do Rio Jacaré, projeto paisagístico, além da construção de um Centro de Referência em Sustentabilidade Urbana e de um plano de gestão para a Região Oceânica.

Fonte: O Fluminense.

Cortes no Orçamento da União Atingem Unidades de Conservação e Combate ao Desmatamento

Em meio à ofensiva para reduzir o tamanho ou rebaixar o status de proteção de Unidades de Conservação (UCs) na Amazônia, estimulada pela bancada ruralista e por representantes do setor de mineração, o governo propôs o corte pela metade das verbas destinadas às UCs no projeto de lei orçamentária encaminhado ao Congresso

Levantamento feito pelo WWF-Brasil em parceria com a ONG Contas Abertas mostra que as ações orçamentárias que tratam de criação, implantação, monitoramento e projetos de manejo nas áreas protegidas têm reservado no Projeto de Lei do Orçamento de 2018 R$ 122,9 milhões, contra uma previsão de gastos de R$ 244,5 milhões na proposta de 2017. Os dados fazem parte de um estudo a ser divulgado no final do ano, sobre o financiamento público à área de meio ambiente. Acesse o dossiê Cortes no Orçamento da União Atingem Unidades de Conservação e Combate ao Desmatamento

Os cortes na previsão de gastos para 2018 alcançam o combate ao desmatamento, a adaptação às mudanças climáticas e sua mitigação, o manejo florestal, a regularização dos imóveis rurais, o licenciamento ambiental e, em menor proporção, a implantação da Política Nacional de Recursos Hídricos

O corte mais profundo atingiu o Bolsa Verde, programa que paga R$ 300 a cada três meses a famílias extremamente pobres moradoras em áreas protegidas, como incentivo à conservação. O Bolsa Verde teve gastos autorizados de mais de R$ 70 milhões nos últimos dois anos e simplesmente desaparece na PLOA 2018. O governo busca repassar a conta ao Fundo Amazônia, que também pode sofrer corte nos aportes. 

No conjunto, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) tem R$ 3,278 bilhões na proposta de lei orçamentária de 2018, contra R$ 3,786 bilhões que teve na proposta para 2017. O valor é 29% menor do que a média destinada ao MMA pelos projetos de lei orçamentária na última década, de R$ 4,6 bilhões. 

“O quadro é preocupante e sugere um desmonte da área ambiental”, avalia Jaime Gesisky, especialista em Políticas Públicas do WWF-Brasil, um dos responsáveis pelo estudo. 

Em decorrência da mudança da meta fiscal para 2018, aprovada no início de setembro, para uma estimativa de déficit de R$ 159 bilhões (ou R$ 30 bilhões maior), o governo deve alterar a proposta até o início de novembro, antes de o Congresso começar a votar o Orçamento. O novo Orçamento, porém, só deve ser conhecido no fim de dezembro de 2017 ou no ano de 2018. 

A maior despesa do MMA é com pagamento de pessoal, com mais de R$ 1 bilhão de gastos previstos em 2018. Nenhuma ação finalística do ministério chega perto dos gastos estimados com pagamento de aposentadorias e pensões dos servidores, R$ 578 milhões. 

Entre as diferentes autarquias subordinadas ao ministério, o corte é mais acentuado no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que administra as Unidades de Conservação federais. O Orçamento proposto para 2018 (R$ 589 milhões) é 52% menor do que o de 2016 (R$ 1,246 bilhão). O valor é menor até ao total já desembolsado pelo ICMBio nos primeiros oito meses de 2017. 

No ano da realização do 8º Fórum Mundial da Água, que reunirá representantes de mais de cem países em Brasília em março de 2018, a Agência Nacional de Águas também perde recursos, em relação ao Orçamento de 2017. Embora a recuperação e a preservação de bacias hidrográficas mantenha os R$ 900 mil propostos em 2016, na principal ação da área em volume de verbas, a proposta para a implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos cai de R$ 153 milhões para R$ 136 milhões. 

NA ONU 

Ao mesmo tempo em que o presidente Michel Temer discursava [em 19 de setembro de 2017] na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas que o Brasil concentrava “atenção” e “recursos” no combate ao desmatamento, a ação “Controle e Fiscalização Ambiental”, que inclui o combate ao desmatamento entre outras ações de fiscalização, perdeu 57% em relação à proposta de orçamento de 2017. A ação do MMA que trata especificamente das estratégias de prevenção e controle do desmatamento tem um volume bem menor de recursos e também foi alvo de corte de R$ 225 mil para R$ 220 mil. 

No Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), o monitoramento do desmatamento nos diversos biomas teve corte de 60%. A proposta de orçamento da ação cai de R$ 5,4 milhões, em 2017, para R$ 2,2 milhões em 2018. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) é responsável pelos dados que orientam o combate ao desmatamento no IBAMA (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). 

Na Assembleia Geral da ONU, o presidente Michel Temer também prometeu vigoroso combate às mudanças climáticas. Embora os recursos do Fundo Nacional sobre Mudanças do Clima (FNMC) aumentem em 2018 em R$ 24 milhões, a ação final de fomento a estudos, projetos e empreendimentos para a mitigação e adaptação tem a previsão de gastos em queda, de R$ 17,3 milhões para R$ 4,7 milhões. 

“Acompanhar o Orçamento da União é fundamental tanto para entender o destino do dinheiro arrecadado com taxas e impostos, como para avaliar o desempenho do governo e suas prioridades” destaca Michel dos Santos, coordenador de Políticas Públicas do WWF-Brasil

Temas igualmente importantes da agenda ambiental, como a regularização ambiental dos imóveis rurais, um processo que começou com o cadastramento dos imóveis rurais e seus passivos de vegetação nativa, e o licenciamento ambiental de empreendimentos, também tiveram cortes no projeto de orçamento que o governo submeteu ao Congresso, de 30% e 37%, respectivamente. 

Algumas ações mantiveram o volume de recursos públicos do ano anterior, como a implementação do sistema de acesso ao patrimônio genético e conhecimentos tradicionais e repartição de benefícios da biodiversidade. A queda foi pequena numa dotação igualmente pequena. A ação de conservação e recuperação de ecossistemas aumentou a previsão de gastos, mas tampouco é significativa (de R$ 84 mil para R$ 204 mil). Já a ação que trata do monitoramento e controle das espécies ameaçadas de extinção teve a proposta de gastos reduzida de R$ 6 milhões em 2017 para R$ 3,9 milhões em 2018. 

O cenário de aperto fiscal instituído pela emenda constitucional que estabeleceu teto para os gastos públicos a partir de 2018 torna mais acirrada a disputa por verbas do orçamento federal. A votação do projeto de lei orçamentária de 2018 no Congresso é o primeiro movimento dessa disputa. Para alcançar a média dos gastos autorizados ao MMA na última década, a proposta de gastos apresentada pelo governo para a pasta teria de crescer R$ 1,7 bilhão durante o processo de votação. A autorização de gastos é uma etapa importante do processo orçamentário, que se completa com o efetivo desembolso dos recursos. 

“Com a série de estudos sobre orçamentos públicos para a área de meio ambiente que lançaremos até meados do ano que vem, queremos que o país atente para a importância de se destinar cada vez mais recursos para cuidar das áreas protegidas, a biodiversidade, a água, o combate ao desmatamento e as mudanças climáticas. Esses fatores são essenciais à vida de todos nós, são nossa garantia de futuro”, lembra o diretor executivo do WWF-Brasil, Maurício Voivodic.

Fonte: WWF-Brasil.

COP-23: Discordância Americana, Urgência Climática e Reflexão Brasileira

Decisões ambientais importantes resultaram de negociações feitas em edições anteriores da conferência, como o Acordo de Paris, negociado na COP21, em 2015.

A 23ª Conferência do Clima (COP-23), que ocorreu de 6 a 17/11/2017 em Bonn, na Alemanha, reuniu delegações de países ao redor do mundo, ONGs, empresas, institutos de pesquisas climáticas e cientistas para juntos apresentarem novos dados, negociarem propostas e reforçarem seu comprometimento com o Acordo de Paris. O Acordo, criado na COP de 2015 e assinado oficialmente em 2016, tem sido alvo de preocupação ao redor do mundo desde junho de 2017, quando o presidente norte-americano Donald Trump anunciou que os EUA, uma das nações que mais explora combustíveis fósseis, não fariam mais parte dele

Sendo este ano a primeira vez em que os EUA não teriam absoluto posicionamento pró-redução de gás carbônico, como era o caso dos representantes enviados pelo ex-presidente Obama, a expectativa para a participação da delegação norte-americana na COP-23 era grande. Pela primeira vez em quase 4 anos, relatórios científicos prevêem que emissões de efeito estufa aumentaram mundialmente este ano, notícia que causou extrema sensação de urgência para a conferência. A dualidade dos EUA aumentou as dúvidas. 

A delegação oficial dos EUA, integrada em sua maior parte por representantes da indústria de combustíveis fósseis, como executivos da Peabody Energy (a maior empresa do mundo de combustíveis de carvão) e da NuScale Power (empresa que desenvolve reatores nucleares), chocou o público da COP-23 ao espalhar ceticismo sobre a credibilidade dos dados científicos que comprovam o aquecimento global. Eles também deram palestras explicando os tweets de Donald Trump sobre as mudanças climáticas atuais serem uma enganação fabricada pelo governo chinês. De acordo com a repórter do New York Times Lisa Friedman, o escritório da delegação permaneceu fechado para entrada de outros oficiais pela maior parte da cúpula – o que parece ser ao menos simbólico, além de preocupante. 

A insegurança criada pela indiferença dos EUA foi abafada pela outra delegação norte-americana presente, o US Pavilion, que tomou as rédeas e prometeu aos diplomatas presentes que os EUA cumprirão sua promessa e trabalharão para atingir as metas determinadas no documento. Neste grupo, está o prefeito de Nova Iorque, Mike Bloomberg, que já doou USD$15 milhões para o combate às mudanças climáticas e luta pela permanência dos EUA no Acordo de Paris, assim como o ex-vice presidente Al Gore e outros ativistas e empresários norte-americanos. “Estamos dentro”, disse Bloomberg em entrevista ao New York Times. “[O público norte-americano] reconhece que há um problema e que devemos ajudar a solucioná-lo se queremos ter algum futuro neste mundo.” 

A discordância entre delegações americanas foi vista não só nas propostas para o futuro dos acordos climáticos, mas nas suas interações com o público de Bonn e participantes do evento. Friedman também fez questão de registrar o “pavilhão” instalado com o patrocínio de Bloomberghttps://twitter.com/LFFriedman/status/929024312706764801.

Compromissos norte-americanos feitos sob o governo Obama de cortar emissões em pelo menos 26% (comparado a níveis de 2005) até 2025 deverão ser mantidos já que Trump não pode oficialmente retirar o país do Acordo de Paris até 2020. 

Enquanto isso, a delegação brasileira, liderada pelo negociador-chefe e embaixador Antônio Marcondes, pediu que países desenvolvidos façam suas partes nas propostas delineadas no Protocolo de Kyoto (estendido até 2020). O Brasil reafirmou suas próprias promessas ao Acordo de Paris, como redução de 37% das emissões de carbono até 2025 e em 23% até 2030. As reduções estão previstas para afetar setores da economia como produção de energia de fontes renováveis e o desmatamento ilegal da Amazônia

O relatório divulgado pelo Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) revelou que as emissões brasileiras de gás carbônico aumentaram 9% em 2016. “Há uma contradição muito grande entre o que é apresentado no discurso internacional e o que é feito na prática”, constatou Sonia Guajajara, representante latina em Bonn, sobre o Brasil

Marcondes enfatizou que por mais que o Brasil peça melhorias à comunidade internacional, internamente é necessário um empenho maior para conseguir equipará-lo aos esforços mundiais de combate a mudanças climáticas: “Apelo para o Congresso [] para que a gente possa avançar na ambição das metas climáticas”, disse Marcondes. Para a delegação brasileira, soluções como melhor regulamentação das leis climáticas e fortalecimento de iniciativas ambientais são o caminho que o país deve prosseguir o quanto antes. 

Por: Carolina Reis do Nascimento; estudante de Economia e Administração na Northeastern University, em Boston. Fonte: Poder360.

Bioasfalto – Estradas e Ruas Feitas Com Óleos Derivados de Árvores e Plantas

Para muitas pessoas o asfalto ainda representa uma coisa boa, o "progresso": ter sua rua asfaltada ainda é motivo de votos vitalícios ao político que propôs a obra, mesmo que seja mal feito, que não dure um ano sem buracos ou que impermeabilize todo um bairro, ocasionando alagamentos que antes não existiam. 

No entanto, o asfalto é um dos maiores inimigos da sustentabilidade, pois é feito de derivados de petróleo, esquenta muito (gerando ilhas de calor) e impermeabiliza o solo, contribuindo para as enchentes que assolam nossas cidades. É a solução perfeita para os carros. Mas queremos mesmo viver num mundo moldado para os automóveis? 

Para diminuir o impacto ambiental desse inimigo em nossas estradas e cidades, estão sendo feitos estudos para substituição da base de petróleo, utilizada atualmente na produção do asfalto, por óleos derivados de árvores e plantas. 

Esses óleos vegetais podem ser feitos de açúcar, melaço, amido de batata, arroz ou milho, óleos vegetais, resíduos de cocos, amendoins e canola, resinas de árvores, etc. 

Além de necessitar de temperaturas mais baixas para sua produção, o bioasfalto é mais resistente a bruscas variações de temperatura e tem maior vida útil e durabilidade. 

Como não tem o petróleo como matéria-prima, esse asfalto ecológico pode também ser colorido, esquentando menos sob a radiação do sol e economizando em tintas e manutenção, pois as faixas de pedestre e sinalizações já podem ser feitas juntamente com a pavimentação. 

No final da cadeia de produção, o bioasfalto gera como resíduo um carvão vegetal, usado para enriquecimento do solo e também para remover gases nocivos da atmosfera. 

O Brasil poderia adotar esse material inovador, aproveitando os refugos vegetais das indústrias ao invés de jogá-los nas bacias hidrográficas ou em aterros sanitários. 

Assim, nosso país daria um grande passo rumo ao verdadeiro progresso, aquele totalmente comprometido com as questões ambientais!

Por: Vanessa Mendes Argenta (Coletivo Verde).

A Inovadora Máquina Que Absorve CO2 Da Atmosfera e o Transforma Em Um Gás Com Valor Econômico

Atualmente, o CO2 absorvido pelo dispositivo é vendido por US$ 600 a tonelada (Crédito: Climeworks).

Embora o gás carbônico represente apenas 0,04% da nossa atmosfera, sua taxa de concentração é a mais alta dos últimos 800 mil anos. Extrair CO2 do ar é um processo difícil do ponto de vista técnico e também custoso. Mas, na Suíça, está em andamento um projeto pioneiro que visa transformar a absorção do gás carbônico em uma iniciativa comercialmente viável. 

No teto de um centro de reciclagem em Hinwil, a meia-hora de Zurique, 18 ventiladores do tamanho de uma máquina de lavar são empilhados um sobre o outro. Os dispositivos sugam o ar que está à sua volta, e os filtros cobertos com produtos químicos no seu interior absorvem o CO2. Os filtros são extraídos quando ficam saturados e aquecidos a 100º Celsius, com o calor gerado pela usina de reciclagem. Esse processo resulta em gás carbônico puro, que é coletado para ser usado posteriormente. 

Meta: US$ 100 por tonelada 

A instalação, que captura dióxido de carbono diretamente do ar, foi desenvolvida pela empresa suíça Climeworks e pode capturar até 900 toneladas de CO2 por ano. 

O gás é vendido para uma estufa da região e usado para estimular o crescimento das plantas. Para os desenvolvedores, não se trata apenas de uma tecnologia inteligente, mas de um modelo de negócio rentável. 

"É a primeira vez que vendemos comercialmente CO2, é a primeira [experiência] desse tipo", explica à BBC o cofundador da empresa, Jan Wurzbacher. "Precisa ser um negócio, a captura de CO2 não pode funcionar de outra maneira." 

Atualmente, a Climeworks vende o gás a produtores de verduras e legumes da região por aproximadamente US$ 600 (R$ 1.970) a tonelada. De acordo com a empresa, o preço alto se deve ao fato de ter fabricado todos os componentes do dispositivo a partir do zero. Mas a companhia acredita que os custos cairão rapidamente, uma vez que a produção aumente. 

"O número mágico a que aspiramos é US$ 100 (R$ 330) por tonelada", diz Wurzbacher. "Podemos fazer isso aumentando a produção em massa dos nossos componentes. Podemos alcançar [a meta] nos próximos dois ou três anos." 

Vendido para uma estufa próxima, gás é usado para cultivar plantas (Crédito: Climeworks).

Os múltiplos usos do CO2 

Um dos aspectos que torna o CO2 atraente para os desenvolvedores é que o gás tem muitos usos possíveis. 

Empresários tentam usar o CO2 como matéria-prima para diversos produtos - de alimento para peixes a cimento, passando por bancos de carro e pasta de dente. 

Ironicamente, os Estados Unidos estão utilizando o gás ​​para estimular a extração de petróleo. 

Um dos planos mais ambiciosos é absorver o CO2 e transformá-lo em combustível. 

Há alguns anos, a montadora Audi anunciou que havia desenvolvido o que chamou de "e-diesel", um combustível à base de CO2 e água. A Climeworks forneceu parte do dióxido de carbono usado nos testes. Portanto, reduzir o custo da extração de CO2 é fundamental para que a ideia funcione. 

Mas, embora a criação de combustível e outros produtos a partir de CO2 ajude, não é suficiente para alcançar a redução necessária e atingir as metas do Acordo de Paris

Não seria mais fácil plantar árvores? 

Os termos do acordo especificam que deve haver um equilíbrio entre as emissões antropogênicas (derivadas de atividades humanas) e a eliminação de CO2 por absorção na segunda metade deste século. 

Para alcançar esse equilíbrio, muitos especialistas acreditam que devemos recorrer à tecnologia para eliminar o CO2 do ar. 

"Precisamos nos concentrar em colocar em prática coisas que já sabemos que funcionam e, ao mesmo tempo, focar no desenvolvimento de novas tecnologias", diz à BBC, Glen Peters, do Centro Internacional de Pesquisas sobre Clima e Meio Ambiente

Em 2013, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas sugeriu que a produção de bioenergia a partir da captura e armazenamento de carbono (BECCS, na sigla em inglês) poderia ser uma opção. 

O método prevê o plantio de árvores e plantas, que absorvem carbono da atmosfera, com posterior queima da biomassa para geração de energia, capturando o CO2 emitido e bombeando para reservatórios geológicos subterrâneos. 

Mas os críticos do BECCS argumentam que a prática demanda o uso de muita terra, que poderia estar dedicada à produção de alimentos. Um estudo recente sugere que uma alternativa mais simples, como plantar árvores e gerenciar melhor solos e pastagens, pode ser mais efetiva. 

A Climeworks não é contra a plantação de árvores, mas sustenta que seu sistema tem uma capacidade maior de absorção e pode ser reutilizado. 

Críticos da Climeworks temem que, se a tecnologia funcionar, políticos não farão mais esforços para reduzir as emissões de CO2 (Foto: Getty Images).

Críticas 

Muitos ambientalistas apresentam sérias objeções ao método da empresa suíça, assim como a outros projetos que seguem a mesma lógica. Eles argumentam que precisamos repensar fundamentalmente a forma como consumimos e produzimos para fazer da sustentabilidade um estilo de vida. 

"Precisamos dar um passo atrás e questionar quais são os caminhos possíveis para um futuro seguro", diz Lil Fuhr, da Fundação Heinrich Böll

Outros temem que, se a tecnologia funcionar, os políticos não farão esforços para reduzir suas emissões e usar energia renovável. Wurzbacher rejeita, no entanto, essa ideia. Segundo ele, é apenas uma questão de tempo. 

"Se você tivesse me perguntado isso há 20 anos, eu teria dito sim, devemos nos concentrar na redução de emissões. Mas hoje já passamos do ponto em que podemos alcançar a meta fazendo apenas isso", diz. 

"As pessoas dizem que devemos eliminar dez gigatoneladas de CO2 da atmosfera por ano até 2050. Para isso, não é só necessário desenvolver [tecnologia], mas também implementar em larga escala. Isso vai levar 30 anos!" 

Mas Fuhr discorda. Segundo ele, o discurso faz parte da estratégia de autopreservação da indústria de combustíveis fósseis. 

"Durante muitas décadas, a indústria de combustíveis fósseis financiou os céticos em relação ao clima e, dessa forma, impediu que medidas fossem tomadas [para evitar o aquecimento]", afirma. 

"Vimos que isso não funciona. Então, em vez de negar, eles agora estão começando a apresentar essas tecnologias 'mágicas', que vão ajudar a prolongar a vida dessas indústrias." 

"O que estamos vendo é uma mudança na estratégia de negação-prevenção da indústria de combustíveis fósseis", completa.

Por: Matt McGrath (BBC).

Natureza Reconstrói Florestas Melhor Do Que O Homem, aponta estudo

O método mais eficiente para recriar uma floresta tropical desmatada talvez não envolva o plantio de milhares de mudinhas de árvores, mas simplesmente deixar que a natureza faça o seu trabalho. 

Essa mensagem aparentemente paradoxal é a principal conclusão de um estudo recém-publicado por pesquisadores brasileiros no periódico Science Advances [Ecological Restoration Success is Higher for Natural Regeneration Than for Active Restoration in Tropical Forests]. 

Ao analisar os dados de 133 estudos já publicados sobre restauração florestal mundo afora, eles verificaram que, na maior parte dos casos, a intervenção humana direta é menos eficiente do que os processos naturais de regeneração da mata. 

“O nosso trabalho indica que permitir esse processo é mais barato do que planejar o replantio da floresta e pode dar mais retornos ambientais em muitos casos”, diz Renato Crouzeilles, do Instituto Internacional Para Sustentabilidade (RJ) e um dos autores do estudo, que contou ainda com cientistas da UFRJ, PUC-RJ e outras instituições do Brasil e do exterior. 

Tentar recriar uma floresta custa caro: entre US$ 1.400 e US$ 34 mil por hectare, dependendo do local e do método utilizado, segundo os autores da pesquisa. 

Esse dispêndio tende a ser mais do que recompensado anos mais tarde pelos chamados serviços ambientais da mata, mas não é simples levantar os fundos iniciais para esse tipo de projeto. 

O estudo mostrou que, no que diz respeito à recuperação da biodiversidade, a eficácia da regeneração natural foi de 34% a 56% superior à da restauração ativa. 

No caso da recomposição da estrutura da vegetação [a “escadinha” natural na mata, desde árvores altas com enormes copas até pequenos arbustos], a primeira estratégia teve eficácia de 19% a 56% maior que a segunda. 

CASO A CASO 

Embora esse seja o quadro geral, as condições locais também influenciam sucessos e fracassos. Ambos os tipos de recuperação da mata funcionam melhor em áreas nas quais chove mais, onde a destruição da mata original não foi tão severa e quando o processo de reconstrução do ambiente teve mais tempo para se desenrolar. 

“Em algumas áreas, com um distúrbio e um uso da terra pelo homem muito intenso, o único caminho acaba sendo o plantio completo”, ressalta Crouzeilles

Por outro lado, diz o pesquisador, os órgãos que planejam ações de restauração florestal precisam considerar que, em muitos casos, o processo natural pode ser opção eficiente e barata. 

No caso de propriedades rurais que precisam recompor áreas de floresta para cumprir a lei, por exemplo, bastaria incentivar os produtores a cercarem áreas com condições favoráveis à regeneração - sem a presença do gado pisoteando as mudas de árvores que acabaram de germinar, o processo poderia acontecer por si mesmo, sem grandes gastos.

Por: Reinaldo José Lopes (Folha de S. Paulo).

Sistema Reúne Informações Sobre Usos e Riscos dos Agrotóxicos

Brasil, importante produtor agrícola, ocupa a primeira posição do ranking mundial em consumo de agrotóxicos – Foto: Pixabay-CC

Os agrotóxicos são, hoje, parte quase indissociável da agricultura, principalmente em se tratando de países destacadamente produtores agrícolas. O uso extensivo dessas substâncias garante maior produtividade dos insumos e diminui o risco de pestes e doenças nas plantações. Apesar dos benefícios proporcionados aos produtores, esses agentes trazem riscos ao meio ambiente e às pessoas que com eles têm contato. O Brasil, importante produtor agrícola, ocupa a primeira posição do ranking mundial em consumo de agrotóxicos.

Adelaide Nardocci, líder do Centro de Pesquisa em Avaliação de Riscos e integrante do Centro de Pesquisas de Desastres da USP, conta que, no cenário mundial, o Brasil é muito pouco restritivo em relação ao registro e regulamentação do uso de agrotóxicos, e que nos últimos meses muitos retrocessos têm sido anunciados. “Existem várias propostas em curso que visam a reduzir e flexibilizar ainda mais as regras para regulação de agrotóxicos”, completa.

É nesse cenário que a Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, em parceria com o Centro de Vigilância Sanitária (CVS) da Secretaria do Estado de São Paulo, desenvolveu, nos últimos anos, o Sistema de Busca de Informações Sobre Agrotóxicos, lançado em evento na FSP no dia 31 de outubro.

Ariadne, como é chamado o sistema, é um portal on-line que apresenta um conjunto de informações sobre o uso e a aplicação de agrotóxicos; os parâmetros principais do seu comportamento no ambiente; e as propriedades associadas à toxicidade crônica, considerando os riscos à saúde humana causados por exposições a baixas doses em longos períodos de tempo. O sistema apresenta, também, dados inéditos de pulverização aérea no Estado de São Paulo no período de 2013 a 2015. Ainda, o portal direciona o usuário para bases de dados nacionais e internacionais, caso este esteja em busca de informações mais detalhadas.

O sistema, resultado da pesquisa de mestrado de Rubens José Mário Júnior, tem por função facilitar o acesso de gestores de serviços públicos a informações já qualificadas sobre a toxicidade e o comportamento ambiental desses compostos, a fim de contribuir para uma ação mais efetiva na gestão da exposição humana a essas substâncias. É uma iniciativa tida como essencial quando se pensa na construção de modelos de produção mais sustentáveis.

ToxPi, o índice de prioridade toxicológica 

O ToxPi é uma ferramenta desenvolvida em 2012 pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (Usepa), que possibilita agregar diferentes informações sobre um conjunto de substâncias a fim de obter um ranking de prioridades.

No ToxPi-Ariadne, foram considerados os 113 agrotóxicos mais vendidos no Brasil nos anos de 2012 a 2014. Os critérios de priorização estão relacionados com os efeitos toxicológicos dos compostos sobre a saúde humana. São analisadas a capacidade de se estimular o aparecimento de câncer e mutações e a interferência endócrina (hormonal) nos organismos. Seguindo este critério, foi atribuído maior peso às variáveis que representam efeitos toxicológicos dos agrotóxicos à saúde. Entre elas, existe também um diferencial no peso de evidência: a carcinogenicidade (potencial de causar câncer), por exemplo, tem peso maior que a mutagenicidade (potencial de causar mutações genéticas) e que a interferência endócrina.

Na priorização de agrotóxicos, são avaliados, também, os critérios do comportamento ambiental dos princípios ativos, para julgar o potencial de exposição associado a cada um deles. Assim, o ranking apresentado no Ariadne foi obtido avaliando-se as características toxicológicas individuais das substâncias junto com dois grupos de propriedades que mostram a interação delas com o ambiente: as propriedades físico-químicas e as propriedades de comportamento ambiental.

O sistema ficará disponível ao público na página do NARA (Núcleo de Pesquisas em Avaliação de Riscos Ambientais) e terá um link de acesso também na página do CVS.

Mais informações: nra@fsp.usp.br

Por: Laura Barrio (Jornal da USP).

Poluição da Água Mata 1,8 Milhão de Pessoas Por Ano, diz estudo

Rio Pinheiros - SP.

A poluição do ar, da água, do solo e dos ambientes de trabalho matou 9 milhões de pessoas prematuramente no mundo em 2015. Só a poluição da água matou 1,8 milhão de pessoas, ou 20% do total por poluição no período. A conclusão é de levantamento conduzido pela Comissão Para Poluição e Saúde da revista científica The Lancet, uma das mais respeitadas do mundo. 

Para efeito de comparação, as mortes causadas pela poluição equivalem a mais do que o triplo da soma de todas as mortes anuais por Aids, malária e tuberculose, ou 15 vezes todas as mortes violentas, ou 16% de todos os óbitos anuais do planeta. O prejuízo gerado pelas mortes e outros problemas decorrentes da poluição é de cerca de US$ 4,6 trilhões ao ano, o equivalente a 6,2% da economia mundial. 

Em “poluição da água”, especificamente, foram encaixadas desde mortes por consumo de água contaminada a problemas mais difusos decorrentes da disposição irregular do esgoto. Na maioria dos casos, as mortes acontecem depois da infecção por doenças gastrointestinais e parasitárias transmitidas pela água, como diarreia (e subsequente desidratação), cólera, disenteria, giardíase e hepatite, entre outras. 

Especificidades regionais 

Como já era de se esperar, as regiões mais pobres do mundo são as que mais registram mortes por problemas ligados à exposição à poluição. Em nações como a Índia, na Ásia, Chade e Madagascar, na África, a poluição corresponde a 25% de todas as mortes, índice 56,3% acima da média mundial, de 16%. O que não significa que os países ricos também não tenham problemas com a poluição. Estados Unidos e Japão, por exemplo, estão entre os 10 países onde mais se morre por formas “modernas” de poluição como a decorrente da queima de combustíveis fósseis. 

Confira a íntegra do estudo (em inglês, gratuito com cadastro) The Lancet Commission on Pollution and Health (Published: October 19, 2017)

Outros prejuízos da poluição 


Uma pesquisa em andamento na região de Dhaka, no Bangladesh, está mapeando, no cérebro infantil, o impacto de adversidades como a má-nutrição crônica e a falta de saneamento. O levantamento é conduzido pela Universidade de Harvard em parceria com o Centre for Diarrhoeal Disease Research, de Bangladesh, e tem apoio da Fundação Bill & Melinda Gates

Um dos objetivos iniciais dos pesquisadores tem sido definir qual tipo de adversidade é responsável pelas maiores variações na atividade cerebral das crianças estudadas. Resultados preliminares sugerem que doenças inflamatórias, como os patógenos do intestino, são os que têm maior impacto na atividade cerebral. “Se a informação for confirmada, fica reforçada a importância do saneamento”, escreveu a Nature, uma das mais respeitadas revistas científicas do mundo, em artigo dedicado à pesquisa.


Pesquisadores Comprovam: Vale a Pena Investir na Conservação

Fiji (acima) é um dos lugares em que a biodiversidade melhorou. Foto: Wikipédia.

Depois de 25 anos, pesquisadores apresentam evidências de que a Rio 92 trouxe resultados positivos à conservação de espécies. A partir o encontro de cúpula realizado na capital fluminense, foram investidos U$ 14,4 bilhões de dólares por governos e organizações não governamentais ao longo de onze anos, que ajudaram a reduzir o ritmo de extinções ao redor do globo. 

Em um artigo publicado na revista Nature [Reductions in Global Biodiversity Loss Predicted from Conservation Spending], uma equipe internacional de pesquisadores afirma que os investimentos feitos entre 1992 e 2003 conseguiram reduzir em 29% as extinções globais de espécies, entre 1996 e 2008. Para os autores, o resultado é um incentivo para os tomadores de decisão financiarem devidamente a proteção da biodiversidade. 

“Por 25 anos, nós sabíamos que precisávamos investir mais na conservação da natureza ou enfrentar uma extinção massiva tão séria quanto a dos dinossauros”, afirmou o ecólogo Anthony Waldron, da Universidades Nacional da Cingapura, Oxford e de Illinois, em texto divulgado pelo serviço de notícias científica Eurekalert. “Mas os governantes e doadores não estavam dispostos a chegar aos orçamentos necessários, frequentemente porque havia poucas evidências de que o dinheiro investido na conservação trazia algum bem”. 

Com base em informações sobre o estado de conservação de espécies publicadas no Livro Vermelho da União Internacional, os autores determinaram o quanto o declínio de uma espécie poderia ser atribuído a cada país. Eles já haviam apresentado os gastos em conservação pelas nações em um artigo publicado em 2013, na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). O estudo recorreu também a dados econômicos do Banco Mundial

Conforme os dados apresentados, sete países são responsáveis por 60% da perda mundial da biodiversidade: Indonésia, Malásia, Papua Nova Guiné, China, Índia, Austrália e, principalmente por perda de espécies no Havaí, EUA. Em sentido oposto, a biodiversidade de outros sete países melhorou: Maurício, Seicheles, Fiji, Samoa, Tonga, Polônia e Ucrânia

O estudo demonstra que, em países pobres e aqueles que abrigam mais espécies, os investimentos em conservação têm maior impacto. Mas enquanto o crescimento econômico tem menos efeito sobre as espécies em países menos desenvolvidos, a expansão agrícola tende a ser mais grave para a biodiversidade em nações com menos terras já usadas para a agricultura. 

O estudo demonstra também que o tamanho do país, o número de espécies presentes e o estado de conservação delas no início do período de estudo desempenham papel importante nas taxas de declínio da biodiversidade. Para o decano da Escola de Ecologia Odum da Universidade da Georgia, John Gittleman, o artigo tem uma mensagem clara e positiva: “Financiar a conservação funciona”. A boa notícia é que muita biodiversidade pode ser protegida com baixos investimentos em países em desenvolvimento com grande número de espécies”.

Por: Vandré Fonseca (O Eco).

Poluição Por Carbono Bateu Recorde de 800 Mil Anos, diz OMM


Os níveis de dióxido de carbono atingiram o maior nível em pelo menos 800.000 anos devido à poluição causada por humanos e a um El Niño forte, segundo a Organização Meteorológica Mundial (WMO). 

As concentrações de gases causadores do efeito estufa aumentaram a uma velocidade recorde em 2016 e atingiram média de 403,3 partes por milhão, contra 400 partes por milhão um ano antes, anunciou a OMM em comunicado, em 30/10/2017, alertando sobre “graves distúrbios ecológicos e econômicos” [Greenhouse Gas Concentrations Surge to New Record]. 

A OMM afirma que, na última vez em que a Terra teve uma concentração comparável de CO2, a temperatura do planeta era 2 graus a 3 graus Celsius mais elevada e os níveis do mar, 10 metros a 20 metros mais altos do que os de agora. 

“Sem reduções rápidas no CO2 e em outras emissões de gases causadores do efeito estufa caminharemos para aumentos de temperatura perigosos até o fim do século”, disse o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas, no comunicado. 

O aumento recorde de 3,3 partes por milhão de CO2 se deve em parte a um forte El Niño em 2015 e 2016, que gerou secas em regiões tropicais e limitou a capacidade das florestas de absorver o gás, segundo a OMM. O CO2 provém também da queima de combustíveis fósseis para energia e do desmatamento para agricultura e construção. 

As concentrações de CO2 foram inferiores a 280 partes por milhão nos últimos 800.000 anos e aumentaram desde a revolução industrial, segundo dados geológicos coletados por meio de amostras de gelo da Groenlândia e da Antártida. O relatório alimentará os debates da conferência anual sobre aquecimento global patrocinada pela Organização das Nações Unidas, em Bonn, em 6 de novembro.

Por: Jessica Shankleman (Bloomberg).

Novo Método de Manejo Ajuda a Mitigar a Emissão de Gases Estufa no Cultivo da Cana

Descobrir de que forma os microrganismos presentes no solo processam os fertilizantes e os resíduos orgânicos usados no cultivo da cana pode ajudar a mitigar a emissão de gases de efeito estufa e tornar a produção de etanol mais sustentável. 

Um conjunto de estudos com esse objetivo foi apresentado pela pesquisadora Eiko Kuramae, do Instituto de Ecologia da Holanda (NIOO-KNAW), durante a terceira edição da Brazilian Bioenergy Science and Technology Conference (BBEST). Organizado no âmbito do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN), o evento foi realizado em Campos do Jordão entre os dias 17 e 19 de outubro de 2017. 

“Quando a mistura de vinhaça e fertilizantes nitrogenados normalmente usada na cultura da cana é aplicada, as atividades da microbiota do solo são estimuladas e ocorrem transformações, resultando na produção de gases como dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e, principalmente, óxido nitroso (N2O), cujo poder de reter calor na atmosfera é 289 vezes maior que o do CO2. Nossa pesquisa busca entender as funções dos microrganismos e determinar os processos envolvidos na emissão de N2O, principalmente, com o objetivo de encontrar meios de intervir”, disse Kuramae

Como explicou a pesquisadora, a vinhaça é o principal resíduo da produção de etanol. Estima-se que para cada litro de biocombustível sejam produzidos entre 12 e 15 litros desse efluente, que, caso seja descartado incorretamente, pode poluir rios e causar diversos danos ambientais. 

Nos últimos anos, a legislação brasileira passou a exigir que a vinhaça produzida nas usinas seja reaproveitada como fertilizante na própria lavoura de cana. Mas, apesar de ser rica em nutrientes, a substância não é capaz de suprir todas as necessidades da planta e precisa ser misturada com fertilizantes inorgânicos à base de nitrogênio. 

Em um trabalho realizado durante o doutorado de Késia Lourenço, o grupo mostrou que o simples fato de aplicar separadamente a vinhaça e os fertilizantes nitrogenados em solo de cana coberto com a palha da planta proporciona uma significativa redução na emissão de N2O. 

No experimento conduzido em Piracicaba, durante a estação seca, a aplicação de vinhaça concentrada foi feita 30 dias antes do fertilizante nitrogenado no solo de cana com palha. Nesse caso, a emissão de N2O foi 39% menor do que quando se aplicaram as duas substâncias juntas. Experimento semelhante, feito com vinhaça normal (não concentrada), possibilitou uma redução de 27%. 

Já em outro teste feito no período de chuva, o grupo aplicou vinhaça normal 30 dias antes do fertilizante nitrogenado e observou uma redução de 49,6% na emissão de N2O. 

“Em ambos os experimentos, os processos biológicos envolvidos na emissão de N2O mostraram-se muito complexos. Ocorre nitrificação, realizada principalmente por bactérias, mas também por arqueas [um dos domínios de seres vivos, semelhantes às bactérias morfologicamente mas distintas genética e bioquimicamente]. E também ocorre desnitrificação, promovida por bactérias e também por fungos. Mostramos pela primeira vez que, em cultura de cana em regiões tropicais, quando há a presença de palha no solo combinada com vinhaça e fertilizante nitrogenado, os fungos também contribuem para a emissão de N2O”, comentou a pesquisadora. 

Apoio bilateral 

A pesquisa contou com apoio da FAPESP e da Organização Holandesa para Pesquisa Científica (NWO) e foi realizada no âmbito de um acordo de cooperação entre as duas instituições. 

Uma parte do trabalho foi feita na Holanda, sob supervisão de Kuramae, e outra no Instituto Agronômico (IAC), com orientação de Heitor Cantarella

Ainda sobre o mesmo tema, Kuramae mantém parceria com Janaina do Carmo, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no âmbito de um acordo entre a FAPESP e o Consórcio BE-Basic

“De modo geral, os estudantes brasileiros têm feito toda a parte experimental de campo no Brasil, nas regiões de Piracicaba e Ribeirão Preto, e a parte de microbioma de solo e bioinformática é realizada no meu laboratório, na Holanda”, contou Kuramae

Durante o doutorado de Johnny Soares, também sob a orientação de Cantarella e Kuramae, o grupo testou em cultivo de cana o uso de inibidores de nitrificação em solos adubados com nitrogênio, mas sem a presença de palha e vinhaça. O objetivo era diminuir as emissões de N2O. 

“Determinamos que, quando não há palha ou vinhaça no solo, o principal processo que ocorre é o de nitrificação causada por bactérias. Decidimos então testar dois compostos capazes de inibir a enzima amônia mono-oxigenase de bactérias que fazem a conversão do nitrogênio do fertilizante em N2O. Além de reduzir em 95% a emissão desse gás, esses compostos não afetaram a diversidade bacteriana do solo”, contou Kuramae

Os experimentos duraram, ao todo, três anos. Os resultados foram publicados em 2016 na Scientific Reports.

Por: Karina Toledo (Agência Fapesp).

Poluição do Ar Acidifica Oceanos e Ameaça Vida Marinha, diz estudo

Corais de água fria são menos afetados do que os de água quente com a diminuição do pH dos oceanos. Foto: Jago Team/Geomar.

Toda a vida marinha será afetada por causa das emissões de gás carbônico, que vêm elevando a acidez dos oceanos no mundo, revela um novo estudo. 

A pesquisa, que durou oito anos, foi conduzida por mais de 250 cientistas. Os resultados apontam que criaturas marinhas em estágio inicial de desenvolvimento devem ser as mais prejudicadas pelas mudanças. 

Um exemplo é o bacalhau. Segundo os cientistas, com a acidificação dos oceanos, 25% dos filhotes chegariam à fase adulta - no pior cenário, apenas 12% sobreviveriam. As constatações foram feitas pelo projeto Bioacid, liderado pela Alemanha

O resumo das principais descobertas do estudo será apresentado a negociadores do clima em novembro, numa cúpula em Bonn [COP23], no oeste alemão. Mas nem todas as espécies estão ameaçadas. 

Os impactos biológicos da acidificação dos oceanos, explicam os cientistas, podem beneficiar diretamente alguns animais. Ainda assim, mesmo esses podem ser afetados com as alterações na cadeia alimentar marinha. 

Esse processo de acidificação tende a se agravar com mudanças climáticas, poluição, desenvolvimento urbano no litoral, uso de fertilizantes agrícolas e pesca predatória. 

O nível de acidez está aumentando porque, à medida que o dióxido de carbono de combustíveis fósseis se dissolve na água do mar, produz ácido carbônico e reduz o pH da água. 

O pH médio identificado na superfície da água caiu de 8,2 para 8,1, o que representa um aumento na acidez de cerca de 26%. 

O estudo foi liderado pelo professor Ulf Riebesell, do Centro Helmholtz de Pesquisas Oceânicas (Geomar) em Kiel, no norte da Alemanha. Considerado uma das maiores autoridades do mundo no assunto, ele tem mantido a cautela ao falar sobre efeitos da acidificação. 

À BBC, ele disse que todos os grupos marinhos serão afetados pelas mudanças químicas, ainda que em diferentes níveis. 

"Corais de águas aquecidas são geralmente mais sensíveis do que corais de água fria. Já os moluscos e os caracóis são mais sensíveis do que os crustáceos", explicou o especialista. 

"Também identificamos que essas mudanças geram maior impacto em filhotes do que em adultos", completou. Desde 2009, pesquisadores que trabalham no programa Bioacid têm estudado como espécies marinhas estão sendo afetadas pela acidificação em diferentes fases da vida e seu impacto na cadeia alimentar. Também tentam verificar se há como reduzir os efeitos pela adaptação evolutiva da fauna e flora. 

O estudo foi conduzido em laboratório e também nos mares do Norte, Báltico, no Oceano Ártico e na Papua Nova Guiné. Um resumo de mais de 350 publicações acadêmicas sobre os efeitos da acidificação - que será apresentado no próximo mês - revelou que quase metade da fauna marinha testada reagiu de forma negativa ao aumento, ainda que moderado, da concentração do dióxido de carbono. 

Entre as espécies ainda em crescimento no Atlântico, bacalhau, mexilhão-azul, estrela-do-mar, ouriço e borboleta-marinha aparecem como as mais afetadas pela mudança no pH da água. 

Um experimento com os cirrípedes [tipo de crustáceo] mostrou que eles não são sensíveis à acidificação e algumas plantas - como algas que usam carbono para a fotossíntese - podem até se beneficiar. 

Carol Turley, especialista em acidificação oceânica no Reino Unido, avaliou a pesquisa como "extremamente importante". 

"A pesquisa contribuiu com importantes dados sobre os impactos que a acidificação pode gerar em uma ampla gama de organismos marinhos, de micróbios a peixes", concluiu.

Por: Roger Harrabin (BBC).