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Poluição Também Provoca Falta de Desejo Sexual, dizem estudiosos

Já existem indícios e estudos que relacionam disruptores endócrinos, substâncias químicas capazes de alterar o sistema hormonal, com o desenvolvimento e a resposta sexual. 

Sexólogos, médicos e terapeutas procuraram, por tradição, a origem da falta de desejo em causas psicológicas ou sociais (estresse, rotina, falta de tempo). No entanto, muitos pesquisadores começam a suspeitar que a falta de vontade também possa estar muito relacionada à poluição química em que vivemos imersos. 

Os chamados disruptores endócrinos são substâncias químicas capazes de alterar o sistema hormonal (tanto em seres humanos quanto em animais), responsável por muitas funções vitais como o crescimento, o desenvolvimento e a resposta sexual. 

De acordo Francisco Botella Romero, da Sociedade Espanhola de Endocrinologia e Nutrição (SEEN), "neste grupo estão as substâncias persistentes, bioacumulativas e organohalogenadas [compostos orgânicos que contêm átomos de halogênio], incluindo alguns pesticidas (fungicidas, herbicidas e inseticidas), certas substâncias químicas industriais, produtos sintéticos e alguns metais pesados. O termo disruptor endócrino serve para definir qualquer composto químico [poluente do meio ambiental] que, uma vez incorporado a um organismo vivo, afeta o equilíbrio hormonal. Embora qualquer sistema hormonal possa estar envolvido, a informação disponível sobre a disrupção hormonal causada pelos agonistas ou antagonistas dos hormônios sexuais femininos, ou estrógenos, é muito superior. Estes últimos compostos são chamados de xenoestrógenos e se acredita que possam ter um efeito negativo sobre os mecanismos de controle da secreção de testosterona e a produção de espermatozoides, embora os resultados sejam confusos e isso ainda não tenha sido plenamente demonstrado". 

Esse tipo de contaminação e seus efeitos começaram a ser estudados há relativamente pouco tempo. Theo Colborn (1927-2014), farmacêutica e zoóloga norte-americana, foi a primeira a reparar nesse tipo de substância e em seus efeitos perniciosos. Em 1988, foi contratada pela ONG World Wildlife Fund (WWF) como cientista para um livro que a organização preparava sobre a fauna dos Grandes Lagos. Theo descobriu que 16 espécies que se alimentavam de peixes dos lagos tinham problemas de reprodução. Pareciam saudáveis, mas seus descendentes eram frágeis, deformados ou não viviam muito. Inclusive não tinham descendência. 

A hipótese de Colborn era de que havia algo na água que interferia no sistema endócrino, modificando a ação dos hormônios envolvidos na reprodução e na resposta sexual. Em 1991, conseguiu que 21 cientistas de diferentes ramos se reunissem para compartilhar suas descobertas. Os efeitos dessas substâncias eram tão variados que seu estudo parecia pertencer a diferentes disciplinas. Nessa reunião foi alcançado um consenso que incluiu a presença demonstrada no meio de compostos que interferem no sistema endócrino, que sua ação provoca numerosas mudanças nos organismos e, acima de tudo, em relação à reprodução e ao desenvolvimento. E, claro, o termo "disruptor endócrino" apareceu pela primeira vez. 

Atualmente existem mais de 500 substâncias químicas sintéticas que poderiam se enquadrar nessa classificação e são habitualmente usadas na indústria, agricultura, produtos farmacêuticos, cosméticos ou produtos de limpeza doméstica. Algumas que se destacam são o Bisfenol A (presente em algumas resinas ou recipientes de alimentos), a dioxina clorada (usada no branqueamento da pasta de papel), o glifosato (um herbicida), os ftalatos (plastificantes), o perclorato (em combustíveis e fogos de artifício); além de mercúrio, chumbo, arsênico, substâncias químicas perfluoradas (muito utilizadas em embalagens e recipientes de alimentos e cosméticos). Os estrógenos dos anticoncepcionais e das terapias de reposição hormonal são incorporados ao meio ambiente através da urina das pessoas que os ingerem ou do descarte dos medicamentos que as contenham. 

Conforme publicou a revista Internal Society of Sexual Medicine, existem vários estudos realizados em homens expostos a diferentes disruptores endócrinos, principalmente por razões de trabalho, nos quais as conclusões são bastante semelhantes: diminuição da libido, baixos níveis de testosterona e disfunções eréteis. O Journal of Sexual Medicine também publicou uma pesquisa de 2017 sobre os efeitos do formaldeído (usado na fabricação de plásticos) em camundongos machos. Verificou-se que esses animais tinham uma inibição da resposta sexual, baixos níveis de testosterona e o seu esperma era de pior qualidade. Existe também outro estudo sobre os efeitos do Bisfenol A (um dos disruptores mais utilizados) em seres humanos, publicado pela revista Reproductive Biology and Endocrinology

De acordo com Francisca Molero, sexóloga, ginecologista, diretora do Institut Clinic de Barcelona, do Instituto Iberoamericano de Sexologia e presidenta da Federação Espanhola de Sociedades de Sexologia, "já existe evidência de que os disruptores endócrinos afetam a libido masculina e a ereção, bem como a qualidade do sêmen. Em relação ao gênero feminino existem mais dúvidas e menos estudos, mas se a testosterona na mulher não é tão determinante para o desejo como no homem, ela o é para a liberação de neurotransmissores, substâncias que têm muito a ver com o bem-estar e a sensação de felicidade". 

Fora do campo da sexualidade, existem muitos autores que relacionam os disruptores endócrinos com a puberdade precoce em meninas, síndrome do ovário policístico, redução da fertilidade, tumores em órgãos hormonodependentes, alterações no desenvolvimento do sistema neurológico, diabetes, obesidade, síndrome da fadiga crônica, fibromialgia ou esclerose múltipla. 

A mulher, mais vulnerável a esse tipo de contaminação 

"A produção hormonal é gerada graças à retroalimentação negativa, que serve para que o organismo não produza nada em excesso", diz Francisca Molero. "O problema dos xenoestrogênios é que enganam o corpo, juntam-se aos receptores de estrogênio e agem como eles". 

A contaminação por xenoestrogênios afeta mais a mulher, porque, como aponta a ginecologista, "nós temos mais receptores de estrogênio que os homens e, por outro lado, temos também mais tecido adiposo, onde essas substâncias se fixam. É por isso que também somos mais vulneráveis à poluição por metais pesados". O fato de a mulher consumir mais cosméticos ou estar em contato com mais produtos de limpeza, muitos dos quais estão carregados de disruptores endócrinos, completa esse quadro de maior perigo para elas. 

"O efeito coquetel, assim chamado pelos estudiosos destes contaminantes, é apenas a mistura de diferentes disruptores, que assim multiplicam seu poder contaminante", diz Koldo Hernández, porta-voz da ONG Ecologistas en Acción para a campanha de disruptores endócrinos. "Com essas substâncias ocorre o que aconteceu com o fumo anos atrás ou o que está acontecendo agora com a mudança climática. Alguns se aferram à ideia de que seus efeitos ainda não foram 100% demonstrados, apesar do fato de que a cada dia há mais estudos que mostram suas influências perniciosas sobre o sistema endócrino. Outra coisa que acontece com esses tóxicos é que modificam o paradigma que a ciência tem sobre a toxicidade, já que agem em doses muito baixas, quantidades quase inestimáveis, até agora, para a pesquisa científica", aponta Hernández

Apesar da incredulidade de muitos em relação às graves consequências desses tóxicos, alguns países estão começando a se preocupar e a tomar medidas contra esses tipos de contaminantes. "Os países escandinavos e a França são os pioneiros nessa sensibilidade", diz Koldo. "Por exemplo, os franceses já proibiram os tíquetes de caixa contendo Bisfenol A [aqueles em que os números vão se apagando] e a União Europeia o fará em 2020. As mamadeiras para bebês com Bisfenol e ftalatos já foram eliminadas nos países nórdicos e na França. O problema é que qualquer casa está cheia dessas substâncias, presentes em cosméticos, produtos de limpeza, roupas feitas de tecidos que repelem a água [cheias de perfluorados], panelas antiaderentes, aparelhos eletrônicos e cabos, com bromados, produtos derivados do bromo que atuam como antichama".

Por: Rita Abundancia (El País).

Por Que o Futuro do Agronegócio Depende da Preservação do Meio Ambiente no Brasil?

Se hoje a bancada ruralista é a principal força pressionando o Congresso para flexibilizar a proteção ambiental, é consenso entre agrônomos e pesquisadores que o futuro do agronegócio depende da preservação ambiental. 

Agrônomos, biólogos e entidades como a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) alertam que a destruição da vegetação nativa e as mudanças climáticas têm grande potencial para prejudicar diretamente o agronegócio no Brasil, porque afetam diversos fatores ambientais de grande influência sobre a atividade agrícola. 

O principal deles é o regime de distribuição das chuvas, essenciais para nossa produção – apenas 10% das lavouras brasileiras são irrigadas. Com o desmatamento e o aumento das temperaturas, serão afetados umidade, qualidade do solo, polinizadores, pragas. 

A BBC News Brasil ouviu pesquisadores do agronegócio e nomes ligados ao setor para entender como esses riscos gerados pela destruição do ambiente devem afetar a produtividade das plantações brasileiras e mesmo se safras se tornarão inviáveis. 

Eles dizem que as notícias sobre o setor ambiental no Brasil não são animadoras: se o ritmo de desmatamento na Amazônia continuar como está, atingiremos em pouco tempo um nível de devastação sem volta. Junho de 2019 foi o mês com mais desmatamento na Amazônia, 920,4 km², desde o início do monitoramento com sistema de alerta pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), em 2015. Foi um aumento de 88% em relação ao mesmo mês no ano de 2018. 

Ao mesmo tempo, as pressões e cobranças internacionais chamam atenção para a agenda ambiental do governo Bolsonaro, que tem flexibilizado a legislação ambiental e diminuído a fiscalização. 

Crise iminente

Atualmente, o agronegócio é responsável por 21,6% do PIB brasileiro, segundo o Ministério da Agricultura

Preocupados com questões como logística, estrutura e desafios comerciais como o vaivém das commodities no mercado internacional, a questão da sustentabilidade acaba não sendo prioridade para o setor como um todo. 

"A questão da sustentabilidade, no sentido amplo, é uma preocupação. Mas em primeiro lugar vem a estrutura e a logística e as questões comerciais", afirma o agrônomo Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura (2003-2006) e coordenador da área de agro da Fundação Getúlio Vargas

No entanto, os riscos gerados pela devastação ambiental na agricultura são uma ameaça muito mais iminente do que se imagina, segundo o pesquisador Eduardo Assad, da Embrapa

Alguns estudos, como um feito por pesquisadores das Universidades Federais de Minas Gerais e Viçosa, projetam perdas de produtividade causadas por desmatamento e mudanças climáticas para os próximos 30 anos. Outros não trabalham com tempo, mas com nível de devastação, como o estudo Efeitos do Desmatamento Tropical no Clima e na Agricultura, das cientistas americanas Deborah Lawrence e Karen Vandecar, que afirma que quando o desmatamento na Amazônia atingir 40% do território (atualmente ele está em 20%), a redução das chuvas será sentida a mais de 3,2 mil km de distância, na bacia do Rio da Prata

Para Assad, que também é professor da FGV Agro e membro do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, os efeitos da destruição do ambiente e das mudanças climáticas já começam a ser sentidos. 

Ele cita, por exemplo, o relatório da Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja) que mostra a perda de mais de 16 milhões de toneladas na safra de soja de 2019 devido à seca que atingiu as principais regiões produtoras desde dezembro de 2018. "Já há evidências de que as mudanças climáticas aumentaram o número de eventos extremos, como secas e ondas e calor", afirma Assad

Há duas ameaças principais, segundo Lawrence e Vandecar. A primeira é o aquecimento global, que acontece em escala global e que é intensificado pelo desmatamento. A outra são os riscos adicionais criados pela devastação das florestas, que geram impactos imediatos na quantidade de chuva e temperatura, tanto em nível local quanto continental. 

Deficiência hídrica e temperatura 

A maior parte da produção agrícola brasileira depende das chuvas – só 5% da produção total e 10% da produção de grãos são irrigados. Isso significa que mudanças na precipitação afetam diretamente nossa produção. 

O regime de chuvas é afetado por uma série de fatores – desde a topografia até às correntes marítimas. Um fator importante é a dinâmica de evaporação e transpiração terrestres, ou seja, a umidade produzida pela respiração das árvores e plantas, explica o agrônomo da USP, Gerd Sparovek, professor da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) e presidente da Fundação Florestal do Estado de São Paulo

Esse fenômeno, chamado de evapotranspiração, é especialmente alto em florestas tropicais como a amazônica – elas são o ecossistema terrestre que mais movimenta água, transformando a água do solo em umidade no ar e diminuindo a temperatura da atmosfera sobre elas. 

"Ao cortar a vegetação natural que, durante o ano inteiro joga água na atmosfera, umas das principais consequências é a formação de menos nuvens no período seco", explica Assad, da Embrapa. "Um estudo que acabamos de finalizar mostra um aumento significativo de deficiência hídrica do Nordeste ao Centro-Oeste", diz. 

Isso afeta as chuvas potencialmente até no Sudeste, já que há correntes de ar que normalmente empurram essas nuvens para sul. 

A destruição da vegetação nativa afeta até a duração das temporadas de chuvas e estiagem, segundo o estudo de Lawrence e Vandecar, que faz uma revisão da literatura científica e foi publicado em 2014 na revista Nature

O corte da vegetação nativa também altera a temperatura e clima local, e potencialmente também o de regiões mais distantes, explica Sparovek, da Esalq. "As alterações, nesse caso, são sempre desfavoráveis." 

E isso vale não só para a Amazônia: a remoção do Cerrado, onde hoje se encontra a principal expansão da fronteira produtiva, também eleva a temperatura local. 

Esse problema é reforçado pelo aquecimento global, que torna o clima mais instável e aumenta a frequência de extremos, como ondas de calor e estiagens e chuvas em excesso. E o desmatamento só intensifica esse processo. 

O risco para o agronegócio é especialmente grande quando altas temperaturas são concomitantes com períodos de diminuição das chuvas – isso diminui a produtividade das lavouras e pode comprometer safras inteiras, diz o biólogo. 

Um efeito adicional do comprometimento da disponibilidade de água tem a ver com a produção de energia elétrica, que também é importante para o agronegócio, aponta Sparovek. Um clima mais seco ou maiores períodos de estiagem podem comprometer a vazão dos rios e dos reservatórios, afetando diretamente a produção de energia, já que nossa matriz energética é em sua maioria dependente de hidroelétricas. 

Perda de área produtiva

A retirada total das florestas também gera outros problemas relativos aos recursos hídricos além da chuva, explica o biólogo Jean Paul Metzger, professor da USP e doutor em ecologia de paisagem. 

A retirada da vegetação nativa retira a proteção do solo, que não é reposta mesmo se a área virar uma plantação, já que as raízes das plantas cultivadas são muito superficiais. O solo cultivado também tem pouca permeabilidade. 

Isso dificulta a infiltração da água no solo, o que gera dois problemas. Um é a falta de reposição da água nos lençóis freáticos. A outra, é um processo de erosão e poluição dos rios. 

"A chuva vai escoando superficialmente e levando o solo junto, há uma perda da camada mais fértil, vai tudo para o rio" diz Metzger. "E a partir de um certo momento você não tem como reverter, há uma perda de área produtiva via erosão." 

Reserva Legal

A melhor forma de evitar esse processo é manter a vegetação nativa – inclusive nas propriedades rurais, onde a cobertura florestal pode fazer uma filtragem das enxurradas antes de chegarem ao rio. Metzger aponta que as propriedades produtivas devem ter cerca de 30% de cobertura florestal, na média, para que o ciclo hidrólógico e os chamados serviços ambientais funcionem normalmente. 

Serviços ambientais são benefícios trazidos ao cultivo pelo ecossistema, como, por exemplo, a polinização e o controle natural de pragas. 

"Paisagens onde há produção agrícola em desequilíbrio com o ambiente são poucos favoráveis à produção. Os inimigos naturais das pragas e doenças de plantas desaparecem, e a produção passa a depender cada vez mais de agrotóxicos", diz Sparovek, da Esalq

Daí, dizem os pesquisadores, vem a importância da manutenção das reservas legais – áreas de mata nativa dentro de propriedades rurais cujo desmatamento é proibido por lei. O índice de proteção exigido é de 80% na Amazônia, de 35% no Cerrado e de 20% nos outros biomas. 

O assunto esteve em pauta nos últimos meses, graças a um projeto do senador carioca Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente, que quer acabar com as reservas legais, citando o "direito à propriedade". Pela Constituição, no entanto, nenhum direito à propriedade é absoluto no Brasil – a construção em propriedades urbanas, por exemplo, fica restrita às leis de zoneamento municipais. 

Agrotóxicos

O uso indiscriminado de agrotóxicos também é um problema ambiental que acaba se voltando contra o próprio agronegócio. 

Ele afeta principalmente os cultivos que dependem da polinização, já que os animais polinizadores - abelhas, besouros, borboletas, vespas e até aves e morcegos – são fortemente afetados por alguns tipos de inseticidas e até por herbicidas usados contra pragas em lavouras, sofrendo desde morte por envenenamento à desorientação durante o voo. 

Das 191 culturas agrícolas de produção de alimentos no país, 114 (60%) dependem de polinizadores, segundo o Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Em resultado de safra, cerca de 25% da produção nacional é dependente de polinização, segundo Assad, da Embrapa

Além disso, o uso excessivo de agrotóxicos em espécies resistentes se torna um problema para produtores vizinhos de cultivos que não tem a mesma resistência. Produtores de uva do Rio Grande do Sul têm registrado milhões de reais de prejuízo por causa do herbicida 2,4-D, usado em plantações de soja. Ao se espalhar para as propriedades produtoras de uva, ele chegou a reduzir a colheita de uva em até 70%, segundo produtores do Estado. 

O Instituto Brasileiro do Vinho chegou a defender a proibição do uso do agrotóxico na região. O noroeste gaúcho é campeão nacional no uso de agrotóxicos, segundo um mapa do Laboratório de Geografia Agrária da USP com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). 

Questão da Produtividade

Até hoje, olhando a série histórica, a produtividade do agronegócio no Brasil só aumentou. A produção do milho, por exemplo, subiu de 3,6 ton/ha em 2009 para 5,6 ton/ha em 2019 (previsão), de acordo com dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). 

"O aumento da produção muitas vezes é usado como argumento pra dizer que não está acontecendo nada [em termos de efeitos da mudança climática]. Mas a produtividade aumenta porque antes era muito baixa, porque estamos implementando as diversas tecnologias existentes", afirma Assad, que também é membro do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. "O teto de produtividade do milho, por exemplo, é de 10 toneladas por hectare considerando a tecnologia existente." 

Isso não quer dizer, diz ele, que os efeitos da devastação não terão um impacto na produtividade. 

Segundo cálculos no modelo feito por cientistas das Universidade Federais de Minas Gerais e Viçosa, em 30 anos as perdas na produção de soja podem ir de 25% a 60%, dependendo da região, graças ao desmatamento da Amazônia

Até a pecuária pode ser afetada, com a produtividade do pasto caindo de 28% a 33% e alguns lugares deixando de ser viáveis para a atividade. 

Expansão?

Mas por que ainda há resistência em aceitar a visão de que a devastação do meio ambiente prejudica o agronegócio? 

Segundo Sparovek, da Esalq, narrativas que defendem a necessidade de expandir a fronteira agrícola não têm embasamento científico. Ele afirma que "quando se analisa a necessidade de expansão do agronegócio brasileiro prevista pelo próprio setor até 2050, não se vê necessidade alguma de desmatar e expandir a fronteira agrícola." 

"Temos áreas abertas o suficiente para produzir a demanda projetada e ainda restaurar a vegetação em uma quantidade enorme de terras", diz o agrônomo. 

Só na Amazônia, há 17 milhões de hectares cortados, desmatados e abandonados, segundo Assad, da Embrapa

Além das terras abertas existentes, há uma enorme possibilidade de incremento da produtividade através de implementação tecnológica, afirma o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues

Assad, da Embrapa, afirma que soluções boas para a produção e para o ambiente – como técnicas de agricultura de baixa emissão de carbono e boas práticas de manejo de solo e água – têm se tornado cada vez mais acessíveis, e que uma maior organização de cooperativas agrícolas é necessária para aumentar o acesso dos pequenos produtores a tecnologias e avanços. 

Sparovek afirma que a expansão da fronteira, especialmente na Amazônia, não interessa diretamente, não ajuda a produzir – especialmente com o avanço tecnológico que exige um terreno mais plano pelo tamanho e velocidade das máquinas. "Isso é uma agenda muito mais ligada à valorização imobiliária das terras e à grilagem. Quem se beneficia disso é o especulador do mercado de terras, lícito ou criminoso." 

Segundo Rodrigues, o Brasil é um país gigantesco que não tem "uma agricultura ou um agricultor", mas diversos grupos com interesses diferentes. A existência de agricultores que não têm preocupação nenhuma com sustentabilidade ou com o longo prazo é "um pouco uma questão de educação, cultura e formação técnica adequada." 

"Temos 4,4 milhões de produtores que seguiram o Código Florestal e fizeram o Cadastro Ambiental Rural [mecanismos de regulação das práticas agrícolas]", diz Assad. "É 1 milhão de agricultores que fazem essa confusão toda. É só um povo que produz como na idade média [que tem interesse no desmatamento]."

Por: Letícia Mori (BBC News Brasil).

Propostas de Redução e Extrativismo Ameaçam Áreas Protegidas

Foto: Enrico Marcovaldi / Projeto Baleia Jubarte.

Especialistas alertam que a extração de petróleo na região do Banco de Abrolhos é uma grave ameaça ao maior abrigo de biodiversidade marinha do Atlântico Sul. No entanto, o leilão de sete campos de petróleo já foi autorizado e deve acontecer em outubro deste ano. 

Do norte do Espírito Santo ao extremo sul da Bahia estende-se o maior abrigo de biodiversidade marinha do Atlântico Sul: o Banco de Abrolhos. Uma faixa de até 200 km de extensão entre o litoral e o mar aberto, com água rasa, quente e de até 30 metros de profundidade proporciona um ecossistema rico em espécies endêmicas, como o coral-cérebro. Já os chapeirões são estruturas únicas desta região – colunas coralíneas que sobem desde 20 metros e, na superfície, formam os parcéis com até 50 metros de diâmetro. 

"Esse ambiente proporciona toda a biodiversidade que vemos aqui e atrai as baleias", observa Eduardo Camargo, presidente do Instituto Baleia Jubarte. Na época de reprodução, de julho a novembro, entre mil e 2 mil desses cetáceos migravam para o Banco de Abrolhos na década de 1990. Na estimativa mais recente, de 2015, 17 mil baleias já habitavam a região durante o período. Para este ano, os funcionários do instituto esperam contar 20 mil. 

Entretanto, um novo perigo ronda o Banco de Abrolhos. Em um parecer, técnicos do Ibama alertaram sobre a ameaça que um vazamento de óleo representaria para a biodiversidade da região. Mesmo assim, o presidente do Ibama, Eduardo Fortunato Bim, autorizou o leilão de sete campos de petróleo na região em outubro deste ano. No ofício, Bim ressaltou que, apesar do aval, a empresa que arrematasse os campos estaria sujeita ao processo de licenciamento ambiental e que, se comprovados os riscos, a autorização poderia ser negada. 

"Um acidente de grandes proporções de atividades de óleo e gás, a exemplo do ocorrido no Golfo do México, seria fatal para essa região. Todas as simulações e modelos matemáticos mostram que, em caso de acidente, esse óleo avançaria sobre o Banco de Abrolhos", avalia Camargo. "Imagina essa mancha navegando pelo mar, na coluna d’água, grudando em todos esses corais e na região rasa cheia de biodiversidade? É impossível lavar um recife de coral, então o dano seria permanente, irreversível". 

Camargo atribui a recuperação da população das jubartes à proibição da caça comercial internacional. Outro fator foi a criação do Parque Nacional Marinho de Abrolhos, em 1983, entre Caravelas, na Bahia, e São Mateus, norte do Espírito Santo. O parque abrange apenas 2% da área total de Abrolhos, mas garante a preservação das principais espécies. Já o Instituto Baleia Jubarte nasceu em 1988 e realiza pesquisas, monitoramento, campanhas de educação ambiental. Além de estratégia de conservação, o turismo de observação das baleias tornou-se fonte de emprego e renda em cidades de Vitória, no Espírito Santo, até a Praia do Forte, no norte da Bahia

"Agora, vivemos um cenário totalmente novo", observa. "Temos uma população enorme de baleias, mas elas convivem com riscos que não existiam antes da caça industrial: navegação abundante, ruídos sonoros de exploração de gás e petróleo, redes de pescas em grandes quantidades espalhadas pelo litoral". Para harmonizar atividade econômica com preservação ambiental, as informações do instituto orientam rotas de navegação, para prevenir colisões. Pescadores, por sua vez, evitam áreas de grande concentração de baleias ao instalarem suas redes. 

Camargo defende a ampliação das áreas protegidas de Abrolhos em 20% a 30%. Na visão dele, isso asseguraria "o equilíbrio e a gestão adequada das áreas naturais, com ações de amortecimento que afastem definitivamente iniciativas com grande potencial de destruição". 

Oceanos pelo clima e pela biodiversidade 

Está comprovada a função dos oceanos na regulação do clima. Esses corais e seres fixam carbono e garantem equilíbrio químico entre as concentrações no mar e no ar, observa Camargo. "As próprias baleias, com 40 toneladas, estão ligadas à fixação de carbono, além de cumprirem com um papel cíclico de nutrientes das calotas polares, que são repostos aqui quando elas morrem. O equilíbrio já veio bem montado, os seres humanos que mexem demais nele". 

Além da questão climática, o grande desafio da humanidade hoje é conter a perda de biodiversidade, acredita Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo e pesquisador do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. "A relação principal entre os dois problemas é a ocupação humana dos recursos naturais, enquanto o equilíbrio entre as espécies é o que mantém os ecossistemas em funcionamento no nosso planeta. Se perturbado, esse equilíbrio pode ser comprometido em questões como polinização, clima, chuvas", ele explica. 

Artaxo considera que ambas questões precisam ser objetos de convenções mundiais. "Como o Protocolo de Kyoto protegeu a humanidade da destruição da camada de ozônio, precisamos de novos protocolos de clima e de biodiversidade", diz. Essa discussão deve começar na COP-25, que acontecerá em dezembro em Santiago, capital do Chile

Cerca de 1 milhão de animais e plantas, ou 25% das espécies, estão ameaçadas de extinção no planeta, constatou a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês). O relatório foi divulgado em maio passado e ressaltou que áreas de proteção são grandes ferramentas para frear a perda de biodiversidade. Tão importante quanto criá-las, continua Artaxo, é estruturar mecanismos que mantenham a integridade dessas áreas protegidas. 

Áreas (des)protegidas 

No Brasil, há 2.309 unidades de conservação (UC) federais, estaduais e municipais, que correspondem a 18,60% (1,58 mil km²) do território continental e 26,45% (963,2 mil km²) do bioma marinho costeiro. Essas áreas protegem 28,08% da Amazônia, 8,26% do Cerrado, 8,83% da Caatinga, 9,50% da Mata Atlântica, 4,55% do Pantanal e 3,14% do Pampa. Com a criação do Sistema Nacional das Unidades de Conservação (Snuc), em 2000, as áreas foram divididas entre proteção integral e uso sustentável. 

Cada real investido em unidades de conservação gera retorno de R$ 7 para a economia brasileira, constatou um estudo do ICMBio publicado em dezembro de 2018. A pesquisa levou em conta dados de 2017, ano em que número de visitantes a UCs foi de 10,7 milhões de pessoas – alta de 20% em relação a 2016. No período, a frequência de público era monitorada em 102 unidades. Segundo o instituto, o turismo em torno de áreas protegidas agregou R$ 3,1 bilhões ao PIB, além de girar mais R$ 8,6 bilhões em setores como hotelaria e alimentício. 

"Na avaliação que temos de acordo com o histórico, as UCs ainda funcionam como grandes protetoras da vegetação, enquanto as terras indígenas têm maior grau de proteção em geral", observa Cláudio Almeida, coordenador do Programa de Monitoramento da Amazônia e Demais Biomas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). "Normalmente, a quantidade de derrubadas dentro das UCs não atinge nem 1% do desmatamento total. A supressão vegetal ocorre em grande parte fora das UCs".

No entanto, dados do Inpe, obtidos pela National Geographic por meio do programa Terra Brasilis, apontam que o desmatamento tem crescido nas unidades de conservação na Amazônia Legal. Em junho deste ano, 81,93 km² foram suprimidos – pouco mais que o dobro do mesmo mês do ano passado, 34,74 km². As regiões mais afetadas no mês passado foram a Floresta Nacional do Jamanxim (12,01 km²), a Área de Proteção Ambiental do Tapajós (8,33 km²), a Estação Ecológica da Terra do Meio (6 km²) e a Reserva Biológica da Serra do Cachimbo (4,73 km²). No último calendário do desmatamento (de agosto de 2017 a julho de 2018), 155,72 km² haviam sido derrubados. Já de agosto de 2018 até 5 de julho passado, 230,89 km² foram suprimidos. 

Para Angela Kuczach, bióloga e diretora-executiva da Rede Pró UC, não se trata de um conflito entre ambientalismo e agronegócio, mas entre conservação e grilagem de terra. "As áreas da Amazônia se encontram em um processo de fragilidade porque não têm efetivo. São menos de 2 mil funcionários do ICMBio para cuidar de 75 milhões de hectares de áreas protegidas no Brasil", observa. 

"Hoje, o governo federal tem um posicionamento de que precisa rever várias metodologias, porque em teoria não estavam adequadas. Mas, ao mesmo tempo, não vemos quais novidades estão vindo, o que tem acontecido na fiscalização, quantas pessoas estão em campo hoje", avalia Kuczach. "Entendemos que há diminuição das atividades. Por não sabermos o que vem a seguir e não vermos nenhum resultado, o desmatamento está aumentando. Os grileiros sabem que os fiscais não estão em campo e aproveitam para invadir áreas". 

Ministérios contra as reservas 

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, anunciou em maio que a pasta revisará todas as 334 unidades de conservação federais. Ao Estado de São Paulo, Salles disse que as regiões foram definidas "sem critério técnico" e que o resultado da análise será lançado neste segundo semestre. 

Já o Ministério da Infraestrutura quer reduzir ao menos 58 unidades de conservação. O governo pretende enviar ao Congresso um projeto de lei que permita reduzir áreas protegidas com estradas federais, ferrovias, portos e aeroportos dentro de seus limites, eliminando "interferências" e promovendo "segurança jurídica" a empreendedores, segundo noticiou o Estado de São Paulo. Entre as áreas de proteção consideradas pelo ministério, 28 situam-se na Mata Atlântica, 17 na Amazônia, sete na Caatinga, quatro no Cerrado e três no bioma Marinho Costeiro. Na lista estão, por exemplo, a Floresta Nacional de Lorena (SP) – a primeira UC do Brasil, em 1934, de uso sustentável –, e os parques nacionais do Itatiaia (RJ) – a primeira unidade de proteção integral, criada em 1937 –, Jamanxim (PA), Pico da Neblina (AM), Iguaçu (PR) e Chapada Diamantina (BA). 

Além das unidades listadas pelo governo, um estudo da WWF-Brasil identificou que 110 unidades de conservação na Amazônia estão em risco por obras de infraestrutura, 219 por solicitações para mineração e 14 em função da produção energética, conforme divulgado pela Folha de São Paulo em 3 de julho. A ONG analisou 316 UCs federais e estaduais que abrangem 1,4 milhão de km². 

A Estação Ecológica (Esec) de Tamoios figura entre as áreas de proteção margeadas por rodovias federais ameaçadas de redução. Trata-se de uma unidade de proteção integral criada em 1990 na baía de Ilha Grande, no sul do Rio de Janeiro, como condição para a implantação das usinas nucleares em Angra dos Reis. "É uma área natural que por si só tem importância como berçário de fauna marinha, mas, mais do que isso, ela garante a segurança das pessoas na região caso aconteça um acidente nuclear", observa Kuczach. A região, recém-considerada Patrimônio Mundial Misto pela Unesco, recebeu atenção até do presidente Jair Bolsonaro, que declarou mais de uma vez seu desejo de transformar a região em uma “Cancún brasileira”, em referência à cidade turística do México

Já o Parque Nacional dos Campos Gerais entrou no escopo de interesse do Ministério da Infraestrutura como "unidade de conservação margeada por ferrovia". Estabelecida em março de 2006 em Ponta Grossa, Paraná, essa UC compreende um dos últimos refúgios de floresta de araucária do Brasil. Ameaçada de extinção, essa vegetação da Mata Atlântica só possui 3% da cobertura original devido à exploração do pinheiro e apenas 1% da região ainda conta com características de floresta primitiva, conforme relatório do Ministério do Meio Ambiente

Em 17 de abril, a deputada federal Aline Sleutjes (PSL-RS) enviou um ofício ao ICMBio com o pedido de cancelamento do decreto do parque nacional. Produtores rurais solicitaram o mesmo em carta ao MMA, na qual também reivindicam indenizações. O ministro da pasta, Ricardo Salles, encontrou-se com proprietários em maio e disse que tomará "a decisão que for mais correta. Nós não podemos, pelo conceito de unidade de conservação, fazer com que ela seja refratária à presença do ser humano". Conforme determinado pelo Supremo Tribunal Federal em 2018, tal anulação só pode acontecer por meio de projeto de lei. 

Kuczach acompanha de perto a situação no Parna dos Campos Gerais e acredita que "o que tem ali é o interesse de cinco ou seis proprietários que têm áreas muito grandes dentro do parque nacional e não estão dispostos a abrir mão nem mesmo sob processo indenizatório". Segundo a bióloga paranaense, 70% do processo indenizatório já foi iniciado, com verbas disponíveis, e esses grandes proprietários "correspondem justamente aos outros 30%". 

Para Rafael Fernandes, gerente de restauração florestal da Fundação SOS Mata Atlântica, o bioma já extremamente degradado, com apenas 12,4% de remanescentes, pode sofrer ainda mais com a redução de áreas de proteção. Um estudo recente da ONG identificou 117 km² de desmatamento na Mata Atlântica entre 2017 e 2018, queda de 9,3% em relação ao período anterior, 125 km², até então o maior já registrado no monitoramento desde 1985. Se nove dos 17 estados alcançaram desmatamento zero (abaixo de 1 km²), Minas Gerais, Paraná, Piauí, Bahia e Santa Catarina apresentaram "índices inaceitáveis", considerou a fundação. 

"A floresta tem uma série de serviços ecossistêmicos dos quais somos dependentes. Nesses espaços que é produzida a água que abastece as cidades", explica Fernandes. "Das espécies classificadas com algum grau de ameaça de extinção, 60% ocorrem na Mata Atlântica, e a eliminação de algumas delas pode gerar um impacto enorme na complexa teia de vida da floresta".

Por: Kevin Damasio (National Geographic Brasil).

Um "Mundo Pós-Antibiótico"?

A resistência a antibióticos está se espalhando a partir das estações de tratamento de efluentes (ETEs).

Verificou-se que os produtos do tratamento de efluentes contêm traços de DNA resistentes a antibióticos. Estes produtos são frequentemente reintroduzidos no meio ambiente e no abastecimento de água, resultando potencialmente na disseminação da resistência aos antibióticos. Pesquisadores da University of Southern California Viterbi School of Engineering (Escola Viterbi de Engenharia da Universidade do Sul da Califórnia) vêm estudando o desenvolvimento desses genes potencialmente nocivos e perigosos em processos no tratamento de efluentes. Suas descobertas, publicadas na Environmental Science & Technology, indicam que mesmo baixas concentrações de apenas um único tipo de antibiótico, levam à resistência de múltiplas classes de antibióticos. 

"Estamos chegando rapidamente a uma situação assustadora, chamada de 'mundo pós-antibiótico', onde já não podemos mais combater infecções com antibióticos porque os micróbios se adaptaram a ser resilientes contra esses antibióticos", disse Adam Smith, professor assistente de engenharia ambiental na USC e principal pesquisador do estudo. "Infelizmente, os sistemas de tratamento de água acabam sendo uma espécie de 'hot-bed' [ambiente que promove o crescimento de algo, especialmente indesejável] para resistência aos antibióticos", completou ele. 

A maioria dos antibióticos que consumimos são metabolizados no nosso corpo. No entanto, pequenas quantidades são excretadas e transportadas para as estações de tratamento de efluentes. Nessas estações, uma das maneiras comuns onde os efluentes são tratados é por meio de um biorreator de membrana, que utiliza um sistema de filtração e um processo biológico onde as bactérias microscópicas consomem a matéria orgânica. 

Ao consumir a matéria orgânica, a bactéria encontra os antibióticos e expressa genes de resistência que reduzem a eficácia destes medicamentos. Estes genes da resistência podem então ser passados da célula mãe para a célula filha e entre vizinhos através de um processo conhecido como transferência horizontal de genes (processo em que um organismo transfere material genético para outra célula que não é sua descendente). 

Conforme a bactéria se alimenta, reproduz e cresce, acumula-se um excesso chamado biomassa. Uma típica estação de tratamento de efluentes produz toneladas de biomassa diariamente. Uma vez tratada, ela é descartada em aterros sanitários ou usada como fertilizante para a agricultura e a pecuária. 

Em um cenário ainda mais terrível, pequenas quantidades de bactérias resistentes a antibióticos e DNA flutuantes conseguem atravessar a membrana de filtração e sair da estação de tratamento no que é chamado de efluente tratado, ou o fluxo de água que sai da ETE. Em Los Angeles (Califórnia / EUA), parte será despejado no rio Los Angeles e no Oceano Pacífico, enquanto o restante é reutilizado para irrigação, lavagem de carros, combate a incêndios ou para fornecer o reabastecimento de águas subterrâneas, uma fonte comum de água potável. 

A equipe, também incluindo Ali Zarei-Baygi, o primeiro autor do estudo e doutorando na USCMoustapha Harb, bolsista de pós-doutorado na USCPhilip Wang, doutorando na USC; e Lauren Stadler, professora assistente da Rice University, acreditam que a quantidade de organismos resistentes aos antibióticos formados em ETEs poderiam ser reduzidos através de alterações nos processos de tratamento. Por exemplo, empregando processos livres de oxigênio, ou anaeróbios, em vez de processos aeróbios, e usando filtração por membrana. 

Assim, para essa pesquisa, eles usaram um biorreator de membrana anaeróbio em pequena escala e compararam os perfis de resistência aos antibióticos resultantes na biomassa e no efluente entre si e com as diferentes concentrações e tipos de antibióticos que introduziram no sistema. 

Duas descobertas-chave 

Eles realizaram duas descobertas-chave: a resistência na biomassa e no efluente são diferentes e, portanto, não se pode usar um para prever o outro; e as correlações encontradas entre o antibiótico adicionado e os genes de resistência nem sempre foram bem definidas. De fato, seus resultados indicaram resistência a múltiplas drogas, na qual as bactérias tinham genes que permitiam a resistência de várias classes de antibióticos. 

"A resistência a múltiplas drogas parece ser o impacto mais alarmante", disse Adam Smith. "Independentemente da influência dos antibióticos, seja apenas uma ou em concentrações muito baixas, é provável que haja muita resistência a múltiplas drogas se espalhando". 

Eles acreditam que isso é devido à presença de elementos genéticos chamados plasmídeos. Um plasmídeo pode transportar genes de resistência para diferentes tipos de antibióticos, resultando em correlações positivas entre um tipo de antibiótico e o gene de resistência de outro. Isso não só complica mais as coisas, como pode ser extremamente perigoso. Devido ao seu tamanho extremamente pequeno – 1.000 vezes menor que as bactérias – os plasmídeos flutuantes podem facilmente passar pelo processo de filtração no processo de tratamento e sair no efluente da ETE. 

A equipe no momento analisa com mais atenção a composição do efluente e planeja aplicar o conhecimento a outros fluxos de resíduos, como de animais, por meio de uma parceria com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA na sigla em inglês).

Por: Ashleen Knutsen (USC Viterbi School of Engineering) / Tradução: Gheorge Patrick Iwaki (Portal Tratamento de Água).

Planeta Precisa de 1,2 Trilhão de Novas Árvores Para Conter o Aquecimento, diz estudo

Além de preservar as florestas que já existem, a melhor solução para reduzir drasticamente o excesso de dióxido de carbono na atmosfera e conter o aquecimento global é plantar árvores. Em todos os espaços possíveis do planeta que não são ocupados nem por zonas urbanas, nem destinados à agropecuária. 

Isso significaria plantar 1,2 trilhão de novas mudas, um número quatro vezes maior do que a totalidade de árvores que vivem na floresta amazônica. Calcula-se que existam no planeta hoje cerca de 3 trilhões de árvores. 

O plantio massivo de árvores em locais subutilizados é o principal ponto defendido por estudo da revista Science [The global tree restoration potential]. "Seguramente podemos afirmar que o reflorestamento é a solução mais poderosa se quisermos alcançar o limite de 1,5 grau [de aquecimento global]", afirma à BBC News Brasil o cientista britânico e ecólogo Thomas Crowther, professor do departamento de Ciências do Meio Ambiente do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, e um dos autores do trabalho acadêmico. 

O limite a que ele se refere é a preocupação central do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), da Organização das Nações Unidas, cujo relatório foi lançado no ano passado: limitar o aumento do aquecimento global em 1,5 grau Celsius até 2050. 

Para conseguir tal meta, Crowther defende uma campanha global - envolvendo governos, organizações e pessoas físicas. Afinal, o plantio deveria ocorrer em todos os espaços relativamente ociosos, independentemente de quem seja o dono do local. "São regiões degradadas em todo o mundo, onde humanos removeram as florestas e hoje são áreas que não estão sendo usadas para outros fins", comenta ele. "No entanto, não sabemos sobre a propriedade da terra de todas essas regiões. Identificar como incentivar as pessoas a restaurar esses ecossistemas é a chave para o reflorestamento global". 

Este é o primeiro estudo já realizado que demonstra quantas árvores adicionais o planeta pode suportar, onde elas poderiam ser plantadas e quanto de carbono elas conseguiriam absorver. Se todo esse reflorestamento for feito, os níveis de carbono na atmosfera poderiam cair em 25% - ou seja, retornar a padrões do início do século 20. 

Desde o início da atividade industrial, a humanidade produziu um excedente de carbono na atmosfera de 300 bilhões de toneladas de carbono. De acordo com os pesquisadores, caso esse montante de árvores seja plantado, quando atingirem a maturidade conseguirão absorver 205 bilhões de toneladas de carbono. "Os 300 bilhões de toneladas extra de carbono na atmosfera existentes hoje são devidos à atividade humana", diz o cientista. "O reflorestamento reduziria dois terços disso. Contudo, há um total de 800 bilhões de toneladas carbono na atmosfera, 500 bilhões das quais naturais". 

80 mil fotos de satélite 

Para realizar o estudo, o grupo de pesquisadores utilizou um conjunto de dados global de observações de florestas e o software de mapeamento do Google Earth Engine. Foram analisadas todas as coberturas de árvores em áreas florestais da Terra, de florestas equatoriais até a tundra do Ártico. No total, 80 mil fotografias de satélite de alta resolução passaram pelo crivo dos cientistas. Com as imagens, a cobertura natural de cada ecossistema pôde ser somada. 

Por meio de inteligência artificial, dez variáveis de solo e clima ajudaram a determinar o potencial de arborização de cada ecossistema, considerando as condições ambientais atuais e priorizando áreas com atividade humana mínima. Por fim, modelos climáticos que projetam as mudanças do planeta até 2050 foram implementados no software, para que o resultado fosse o mais próximo do real. 

Atualmente existem 5,5 bilhões de hectares de floresta no planeta - segundo a definição da ONU, ou seja, terras com pelo menos 10% de cobertura arbórea e sem atividade humana. Isso significa 2,8 bilhões de hectares com cobertura de dossel de árvores. 

O estudo concluiu que há ainda um total de 1,8 bilhão de hectares de terra no planeta em áreas com baixíssima atividade humana que poderiam ser transformadas em florestas. Nesse espaço, poderiam ser plantadas 1,2 trilhão de mudas. "À medida que essas árvores amadurecem e aumentam, o número de espécimes cai. Quando chegamos às florestas maduras, as árvores realmente enormes armazenam maior quantidade de carbono e suportam grande quantidade de biodiversidade", completa Crowther. Isso renderia 900 milhões de hectares de copas de árvores a mais - uma área do tamanho dos Estados Unidos

As medidas são urgentes. "Todos nós sabíamos que a restauração de florestas poderia contribuir para o clima, mas não tínhamos ainda conhecimento científico para mensurar o impacto disso. Nosso estudo mostra claramente que o reflorestamento é a melhor solução, com provas concretas que justificam o investimento", afirma o britânico. "Se agirmos agora. Pois serão necessárias décadas para que novas florestas amadureçam e alcancem seu potencial. Ao mesmo tempo, é vital que protejamos as florestas que existem hoje e busquemos outras soluções climáticas a fim de reduzir as perigosas alterações climáticas". 

"Nosso estudo fornece uma referência para um plano de ação global, mostrando onde novas florestas podem ser restauradas. A ação é urgente. Os governos devem incorporar agora isso em suas estratégias para combater as alterações climáticas", adverte o geógrafo e ecólogo Jean-François Bastin

A pedido da reportagem, Bastin estimou quanto tempo seria necessário para que esse reflorestamento maciço começasse a implicar no freio ao aquecimento global: 18 anos. "Então, isso de fato ajudaria a retardar o problema, mas ao mesmo tempo precisamos mudar consideravelmente nosso jeito de viver no planeta a fim de conseguir neutralizar nossas emissões de carbono", acrescenta ele. 

Segundo os pesquisadores, mais da metade do potencial terrestre de reflorestamento está concentrada em seis países, nesta ordem: Rússia, com 151 milhões de hectares disponíveis; Estados Unidos (103 milhões); Canadá (78 milhões); Austrália (58 milhões), Brasil (50 milhões) e China (40 milhões). 

O trabalho também mostrou o impacto que as mudanças climáticas devem ter na configuração das florestas existentes. Com o aquecimento global, é provável que haja um aumento na área de florestas boreais em regiões como a Sibéria. Contudo, a média de cobertura de árvores nesse tipo de ecossistema é de apenas 30% a 40%. No caso de florestas tropicais, que normalmente têm de 90% a 100% de cobertura de árvores, as alterações climáticas têm trazido efeitos devastadores. 

Repercussão 

O estudo foi bem recebido por especialistas ambientais que tiveram acesso prévio ao material. "Finalmente, uma avaliação precisa do quanto de terra podemos e devemos cobrir com árvores, sem interferir na produção de alimentos ou espaços de habitação humana", pontua a diplomata Christiana Figueres, ex-secretária executiva da Convenção do Clima da ONU. "É um modelo para governos e para o setor privado". 

"Agora temos evidências definitivas da áreas de terra potencial para o reflorestamento, onde elas poderiam existir e quanto carbono poderiam armazenar", avalia o engenheiro civil René Castro, especialista em desenvolvimento sustentável e diretor-geral do Departamento de Clima, Biodiversidade, Terra e Água da FAO, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação

"As florestas são um dos nossos maiores aliados no combate às mudanças climáticas, com resultados mensuráveis. O desmatamento não apenas contribui para uma perda alarmante da biodiversidade, mas limita nossa capacidade de armazenar carbono", completa ele. 

O ambientalista Will Baldwin-Cantello, conselheiro-chefe para florestas da organização WWF (World Wide Fund for Nature), enfatiza o papel das florestas "contra a mudança climática". "Sem elas, perderemos a luta para manter o aquecimento global abaixo de 1,5 grau", diz. "Por isso é crucial atuarmos para restaurar as florestas enquanto reduzimos drasticamente as emissões globais de carbono". 

Para ele, "o desafio é entender como podemos acelerar essa implementação", que requer "níveis sem precedentes de cooperação em níveis global e local". 

"Só falta vontade política de lutar pelo nosso mundo", conclui. 

Plante você mesmo 

Crowther enfatiza que todos podem contribuir para esse processo. "Embora ações de governos sejam essenciais para aproveitar ao máximo a oportunidade, estamos diante de uma solução climática na qual todos podemos nos envolver e causar um impacto tangível", defende. "Você pode cultivar árvores, doar para organizações de reflorestamento ou ao menos investir seu dinheiro com responsabilidade em empresas que tomam medidas quanto à mudança climática". 

No site Crowther Lab, há uma ferramenta que permite que o usuário olhe para qualquer ponto da Terra e identifique áreas passíveis de reflorestamento. 

"Defendemos que qualquer um pode se envolver. Mas, para fazer isso de maneira correta, é preciso entender as condições do solo e os tipos de árvores que podem existir em cada região", comenta o cientista. "Por isso, desenvolvemos uma ferramenta de mapeamento, disponível em nosso site, onde qualquer pessoa pode ampliar sua área e se informar sobre que tipos de árvores plantar e quanto carbono elas podem capturar. Tais informações ecológicas são fundamentais. Vamos fazer o reflorestamento global de forma eficaz". 

O Crowther Lab também traz listas de organizações comprometidas com o reflorestamento e apoia a criação de uma coalização global para tornar os esforços mais eficientes.

Por: Edison Veiga (BBC News Brasil).

INPE Consolida 7.536 km² de Desmatamento na Amazônia em 2018

A taxa anual consolidada pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (PRODES), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), apontou o resultado de 7.536 km² de corte raso no período de agosto de 2017 a julho de 2018. 

O resultado indica um acréscimo de 8,5% em relação a 2017, ano em que foram apurados 6.947 km². Também representa uma redução de 73% em relação à registrada em 2004, ano em que o Governo Federal lançou o Plano para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm), atualmente coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA). 

O mapeamento utiliza imagens do satélite Landsat, CBERS e ResourceSat para cartografar e quantificar as áreas desmatadas maiores que 6,25 hectares. O PRODES considera como desmatamento por corte raso a remoção completa da cobertura florestal primária, independentemente da futura utilização destas áreas. 

As tabelas abaixo mostram a distribuição do desmatamento para o ano de 2018 nos estados que compõem a Amazônia Legal, bem como a comparação com as respectivas taxas consolidadas para o ano de 2017. 

Tabela 1 - Contribuição por estado na taxa de desmatamento em 2018

Tabela 2 - Comparação das taxas de desmatamento de 2017 e 2018

A taxa consolidada para 2018 foi obtida após o mapeamento de 215 cenas do satélite americano Landsat 8/OLI. Esse valor é 4,61% abaixo da taxa estimada pelo PRODES em novembro de 2018, que foi de 7.900 km². O cálculo da taxa estimada, nessa época, foi feito com base em 93 imagens do mesmo satélite que cobriam a área onde foram registrados mais de 90% do desmatamento no período anterior (agosto/2016 a julho/2017) e os 39 municípios prioritários para fiscalização (definidos no Decreto Federal 6.321/2007, atualizado em 2017 pela portaria no. 360 do Ministério do Meio Ambiente). 

A Figura 1 mostra a série histórica do PRODES para a Amazônia Legal. A Figura 2 mostra variação relativa entre anos consecutivos de 1988 a 2018. Finalmente, a Figura 3 mostra a taxa de 2018 separada pelos Estados da Amazônia Legal.

Figura 1 - Taxa de desmatamento anual na Amazônia Legal (km²)
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Figura 2 - Variação relativa anual das taxas do PRODES no período 2001 a 2018
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Figura 3 - Taxa de desmatamento anual na Amazônia Legal (km²)
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Por meio do PRODES, o INPE realiza o mapeamento sistemático da Amazônia Legal e produz, desde 1988, as taxas anuais de desmatamento na região. Essa série histórica é usada pelo governo brasileiro para avaliação e estabelecimento de políticas públicas relativas ao controle do desmatamento e ações voltadas a temática de REDD+

Além do uso governamental, os dados do PRODES embasam iniciativas bem-sucedidas no setor privado como a Moratória da Soja e o Termo de Ajuste de Conduta (TAC) da cadeia produtiva de carne bovina, entre outras. A série histórica do PRODES é ainda usada em centenas de trabalhos científicos na área ambiental, demonstrando sua importância para toda a sociedade brasileira.

Mais informações: www.obt.inpe.br/prodes

Fonte: INPE.

Restauração Em Larga Escala Já Ocorre Na Mata Atlântica, mostra estudo inédito

Foto: Vinicius Depizzol / Flickr / Creative Commons.

Estudo estima qual é o atual estágio da restauração de florestas nativas na Mata Atlântica. Foi identificada a recuperação de aproximadamente 740 mil hectares de florestas, ou cerca de 740 mil campos de futebol. A meta é reflorestar 1 milhão de hectares até 2020. 

De forma inédita, um estudo conseguiu estimar qual é o atual estágio da restauração de florestas nativas na Mata Atlântica. Segundo o artigo There is hope for achieving ambitious Atlantic Forest restoration commitments, publicado na revista científica Perspectives in Ecology and Conservation, cerca de 740 mil hectares de florestas estavam em recuperação entre 2011 e 2015 no bioma. 

O estudo foi produzido pelo Pacto para a Restauração da Mata Atlântica, um movimento criado em 2009 por empresas, órgãos do governo, organizações da sociedade civil e centros de pesquisa, para estimular a restauração de 15 milhões de hectares de áreas degradadas no bioma até 2050. O trabalho envolveu mais de 20 autores, de dez instituições diferentes. 

Em 2011, o Pacto se comprometeu com o Desafio de Bonn (Bonn Challenge) com a meta de restaurar 1 milhão de hectares na Mata Atlântica até 2020. Os resultados do estudo mostram que é possível bater essa meta. 

"Os números trazem a esperança de que metas de restauração ambiciosas possam ser atingidas, trazendo benefícios para a população e ajudando o Brasil a cumprir seus compromissos internacionais", diz Renato Crouzeilles, líder do estudo e pesquisador do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS). 

O Brasil se comprometeu com a recuperação de 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030 no seu Plano Nacional de Recuperação de Vegetação Nativa e no Desafio de Bonn

A restauração de paisagens e florestas é uma atividade crucial para recuperar áreas degradadas do País, protegendo a biodiversidade, nascentes, rios, solo e ampla promoção dos serviços ecossistêmicos. Além disso, a restauração pode mover uma economia da floresta nativa baseada em produtos não-madeireiros, plantação de árvores nativas para madeira, coleta de frutas, castanhas, sementes e extração de princípios ativos para fármacos e essências. 

"O estudo vem demonstrar a importância de iniciativas multissetoriais para o ganho de escala e abertura de oportunidades socioeconômicas na cadeia produtiva da restauração florestal", diz Severino Ribeiro, que foi o coordenador do Pacto para a Restauração da Mata Atlântica durante o desenvolvimento do estudo. 

Ludmila Pugliese, atual coordenadora do Pacto ressalta: "É vital o engajamento da sociedade na ampliação da escala da restauração, já que essa atividade deve ser vista como um meio de transformação da sociedade. Dessa forma é importante cada vez mais ressaltar seu aspecto inclusivo e agregador. Estamos comunicando a resposta positiva de toda sociedade frente a um dos maiores desafios do século". 

Fatores da restauração

Usando o mapeamento de satélite do projeto MapBiomas, o trabalho estima que estavam em processo de recuperação entre 673 e 740 mil hectares de florestas nativas nos anos de 2011 e 2015 na Mata Atlântica. Se essa tendência se mantiver até 2020, o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica superará seu compromisso de restauração, atingindo a recuperação de cerca de 1,4 milhão hectares de florestas nativas na Mata Atlântica

Olhando os números mais de perto, o estudo estima que cerca de 300 mil hectares de florestas foram recuperados por intervenções ativas de um dos mais de 350 membros do Pacto. O restante pode ter sido restaurado por outros atores ou ser resultado de regeneração natural, no entanto, não é possível distinguir a contribuição de cada técnica de restauração. 

Segundo os autores, a Mata Atlântica registrou resultados positivos na recuperação florestal graças a três fatores: o desenvolvimento de uma estratégia de governança, comunicação e articulação em 14 dos 17 estados; o estabelecimento de um sistema de monitoramento da restauração; e a promoção de visão e estratégia para influenciar políticas públicas e ações de restauração em diferentes esferas. 

Avanços sob risco 

Apesar das boas notícias com os ganhos da restauração na Mata Atlântica relatadas pelo Pacto, os avanços estão em risco em função das mudanças nas políticas ambientais, incluindo estruturas de governança coletiva sem amplo debate e as propostas de alterações para enfraquecer o Código Florestal

A política socioambiental do Brasil há décadas é referência internacional conferindo um valor adicional para a produção agrícola brasileira e puxando grandes discussões à cerca da mudança climática, pagamento por serviços ambientais, combate ao desmatamento e consequentemente da restauração florestal. Harmonizar a força produtiva vinda do campo e a proteção de matas e vegetações naturais tem sido um diferencial para o Brasil que precisa ser conservado e aprofundado.

Fonte: Página 22.

Sacola Oxibiodegradável de PEAD: Solução ou Problema?

Novas sacolas utilizadas nos supermercados do Rio de Janeiro, feitas com material composto de resina de cana-de-açúcar e conforme o fabricante são de PEAD 2. 

O PEAD, ou melhor dizendo, polietileno de alta densidade é um material que compõe um tipo específico de termoplástico. Ele pode ser encontrado em frascos para detergentes, xampus, cremes, desodorantes, sacolas de supermercados, garrafas de refrigerantes, baldes e muito mais. 

Ele é obtido a partir do eteno, uma das substâncias adquiridas com o refinamento do petróleo. E é muito utilizado pela indústria por ser um material resistente a altas temperaturas, tensão, compressão e tração, além de ser inerte, atóxico e possuir baixa densidade em comparação a outros materiais. 

Consumo significativo estimulou a criação das sacolas oxibiodegradáveis De acordo com a Associação Brasileira de Embalagens Plásticas Flexíveis (ABIEF), a produção de plástico PEAD no Brasil é em torno de 1 milhão de toneladas por ano. 

E de acordo com Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), a utilização de sacolas plásticas de mercado é de 1 bilhão de unidades por mês

Tendo em vista todo esse consumo e a demanda pela sociedade civil por soluções mais sustentáveis diante do que a destinação incorreta dos diversos tipos de plásticos consumidos pode causar (como a formação de microplástico, por exemplo), algumas empresas começaram a investir em tecnologias de materiais plásticos que se dizem amigáveis para o meio ambiente. Esse é o caso do plástico verde, do plástico PLA, do plástico de amido e do plástico oxibiodegradável (que compõe as sacolas oxibiodegradáveis, tema dessa nossa matéria). 

Como deveria funcionar oxibiodegradação das sacolas de PEAD 

A proposta dessa sacola oxibiodegradável de PEAD é que após a adição de pró-degradantes derivados de sais metálicos, sua vida útil possa ser controlada. Dessa forma, se for descartado em ambientes abertos em contato com calor, raios UV e o oxigênio, esse tipo de plástico começa a se fragmentar (oxidegradação) em um tempo relativamente curto se comparado ao plástico convencional, se transformando em pedaços cada vez menores até que possa ser metabolizado por bactérias (biodegradação) e transformado em CO2 e água, caracterizando um processo completo de oxibiodegradação. 

Estudos colocam em questionamento a viabilidade dos produtos de plástico oxibiodegradável 

Normalmente, quando adquirimos um produto com algum tipo de certificado ecológico ou alguma promessa de viabilidade ambiental costumamos ficar mais tranquilos. No caso das sacolas oxibiodegradáveis muita gente fica com a consciência tranquila imaginando que, provavelmente após serem utilizadas, elas sumirão na natureza e não causarão nenhum dano. 

Entretanto, alguns estudos e instituições mostram alguns argumentos que estão tirando nossa tranquilidade. 

Um próprio defensor dos oxibiodegradáveis, o renomado George Scott, afirmou em um de seus artigos que os plásticos oxibiodegradáveis "não foram feitos para serem compostados, degradados anaerobicamente [sem presença de oxigênio] nem para degradação profunda em aterros". O artigo de George Scott mostra que não é em qualquer ambiente que a sacola se oxibiodegradará, é preciso a presença de oxigênio, calor, luz e microorganismos capazes de decompor o material. 

Um estudo feito pela Universidade de São Paulo, onde foram realizados testes com um tipo de plástico oxibiodegradável vendido no mercado nacional, constatou que, apesar de ele se fragmentar e virar pó, não é consumido por fungos, bactérias, protozoários e outros microorganismos – condição necessária para ser considerado biodegradável e desaparecer do solo ou da água. 

Outro estudo feito pela Universidade Ben-Gurion do Neguev afirmou que mesmo quando ocorre a fragmentação (oxidação) em pedaços menores causada pela adição dos pró-degradantes, o plástico não necessariamente se biodegrada, não caracterizando portanto um processo completo de oxibiodegradação, uma vez que para estar completo precisa ocorrer além da fragmentação, a degradação por bactérias (biodegradação). 

Além desses, um estudo feito pela Universidade Federal de Santa Maria, mostrou que após um período de 12 meses expostas à intempérie, sacolas oxibiodegradáveis não sofreram degradação completa. 

Outro estudo, realizado pela Universidade Assis Gurgaczs, mostrou que após um período de 150 dias sacolas oxibiodegradáveis não apresentaram nem ao menos fragmentação (oxidação). 

Como reconhecer uma sacola oxibiodegradável de PEAD 

Normalmente, nas sacolas biodegradáveis de PEAD vêm impressas três setas circulares (indicando que o material é reciclável) juntamente do número "2" e abaixo a sigla "PEAD" e o termo "oxibiodegradável". Às vezes nas sacolas oxibiodegradáveis é impresso apenas o termo "biodegradável", por isso para saber se foi adicionado algum aditivo pró-degradante, caracterizando um processo de oxibiodegradação, é preciso procurar melhor nas indicações ou nome da marca fabricante de aditivos pró-degradantes. 

Reciclagem da sacola oxibiodegradável de PEAD 

Tendo em vista que a sacola oxibiodegradável de PEAD pode vir a fragmentar-se no ambiente e não necessariamente se biodegradarem, é preciso pensar em alternativas. Entretanto, de acordo com a ABIPLAST, a reciclagem não é uma delas, pois, segundo a instituição, se o plástico oxibiodegradável (incluindo sacola) virem a ser reciclados, darão origem a materiais que se degradarão rapidamente, diminuindo sua vida útil, o que inviabiliza a reciclagem. 

Princípio da Precaução 

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), por meio da Lei 12.305/2010, baseada no Princípio da Precaução, estabelece que todos nós (empresas, governo e sociedade civil) somos responsáveis pela correta destinação dos resíduos sólidos. E que a indústria de reciclagem deve ser incentivada, tendo em vista os benefícios ambientais e sociais (geração de renda) que a reciclagem trás. 

Por esse aspecto seria possível inferir que a utilização e destinação de materiais recicláveis está mais de acordo com o Princípio da Precaução. No entanto, a decisão sobre utilização ou não de materiais não recicláveis cabe inteiramente ao consumidor, bem como a responsabilidade pelo descarte correto.

Fonte: eCycle.