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Reservatório de Água Potável é Descoberto Debaixo do Oceano Atlântico

Cientistas descobriram aquífero debaixo do Oceano Atlântico.

Cientistas encontraram aquífero de 2.800 km³ na costa leste americana, indício de que esse tipo de formação pode existir em outras partes do mundo. 

A costa leste dos Estados Unidos guarda um segredo profundo. Debaixo das águas salgadas do norte do Oceano Atlântico, geólogos encontraram um gigante reservatório de água potável, isolado por sedimentos porosos. 

Ao que tudo indica, é o maior aquífero submarino já descoberto no mundo: longitudinalmente, ele vai pelo menos do estado de Massachusetts ao de Nova Jersey; latitudinalmente, ele sai da costa e segue aproximadamente 80 km em direção ao oceano. Segundo os pesquisadores, a descoberta indica que esse tipo de formação pode existir em outras regiões costeiras do mundo e ser fonte de água potável para locais áridos. 

Companhias de petróleo, nos anos 1970, já haviam encontrado sedimentos de água potável quando perfuraram o solo marinho. "Sabíamos que havia água potável lá embaixo em lugares isolados, mas não sabíamos sua extensão ou geometria" disse ao site Science Alert a geóloga marinha Chloe Gustafson, da Universidade Columbia, que conduziu o estudo. 

Iniciada em 2015, a pesquisa utilizou um receptor eletromagnético, levado a bordo de um navio, na busca de depósitos de água abaixo dos sedimentos oceânicos. Os pesquisadores percorreram a costa por dez dias, analisando a condutividade elétrica nas profundezas — a água salgada é um condutor mais efetivo que a doce. 

O resultado, segundo o estudo Aquifer systems extending far offshore on the U.S. Atlantic margin, mostra um "sistema aquífero contínuo que segue por pelo menos 350 km da costa atlântica dos Estados Unidos e contém aproximadamente 2.800 km³ de água subterrânea de baixa salinidade". 

Devido à metodologia da pesquisa, muito do resultado é interpretativo. Mas, para os geólogos, a reserva de água poderia chegar à região sul de Delaware (estado abaixo de Nova Jersey) ou até mais longe. "Pode haver muito mais água subterrânea na porção nordeste do Atlântico americano, um recurso de água potável que pode rivalizar, em tamanho, com aquíferos em terra", dizem os autores. 

Para eles, a origem da reserva pode remeter à última Era do Gelo, quando grandes quantidades de água teriam derretido e ficado presas em sedimentos rochosos. De todo modo, para utilizá-la (se um dia isso for feito) será preciso dessalinizar a água, já que parte dela estaria salobra (levemente salgada).


Restauração é a Ferramenta de Melhor Custo-Benefício Para Combater o Aquecimento Global

Um estudo com revisão de pares conseguiu provar com números o que o movimento pela restauração já suspeitava: a restauração de florestas e paisagens é a melhor ferramenta para retirar carbono da atmosfera. O estudo Potential for low-cost carbon dioxide removal through tropical reforestation, produzido por pesquisadores da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, e pela organização The Nature Conservancy, e publicado na edição de junho da revista científica Nature, mostra que o plantio de árvores gera mais benefícios do que apostar em tecnologias ainda em testes para capturar carbono. 

O foco do estudo da Nature foi analisar o custo-benefício da restauração em 90 países florestais do mundo, incluindo o Brasil, a partir de um hipotético preço de carbono. Nesse sistema, os proprietários de terras receberiam um recurso financeiro para conservar e restaurar florestas. Esse recurso seria pago por empresas que emitem muitos gases de efeito estufa. 

O estudo analisou dois cenários. O primeiro considera que o preço do carbono custaria US$ 20 por tonelada de carbono emitido. Esse é o valor em locais que têm mecanismos de marcado de carbono, como na Califórnia ou na Europa. O segundo cenário considera um custo de carbono de US$ 50 por tonelada, um valor que um outro estudo, financiado pelo Banco Mundial, considerou como necessário para atingir as metas do Acordo de Paris. A partir disso, os pesquisadores calcularam o que aconteceria em cada cenário caso produtores rurais optassem pela restauração. 

No primeiro cenário, o preço de US$ 20 dólares por tonelada de carbono estimularia os produtores a restaurar mais de 31 milhões de hectares de florestas no mundo – uma área equivalente ao tamanho da Itália. Essa restauração retiraria da atmosfera 5,7 gigatoneladas de carbono. Além disso, mais 55 gigatoneladas de carbono deixariam de ser emitidas pela redução do desmatamento. Para compreender o que isso significa, um dos autores do estudo, o pesquisador Jonah Busch, faz a seguinte comparação: é como se as florestas a serem restauradas pudessem tirar da atmosfera tudo o que o Kuwait, um país produtor de petróleo, emite em 30 anos. 

No segundo cenário, o resultado é ainda mais surpreendente. Um preço de US$ 50 dólares por tonelada de carbono estimularia a restauração de 84 milhões de hectares, o equivalente à área do estado do Mato Grosso. Essa restauração retiraria da atmosfera 15 gigatoneladas de carbono e evitaria a emissão de 108 gigatoneladas. Na comparação de Busch, é como se Japão, o sétimo maior emissor do mundo, deixasse de poluir por 30 anos. 

Florestas têm melhor custo-benefício para o clima

Assim, o estudo mostra que a restauração florestal, incentivada por uma taxa de carbono, pode gerar renda para produtores rurais e resultar numa importante redução de emissões. Os resultados indicam que as florestas são o mais seguro e eficiente meio para manter a temperatura global entre 1,5˚C e 2˚C, o limite considerado seguro pela comunidade científica. 

Isso porque muitos modelos climáticos indicam que reduzir emissões apenas não será suficiente para limitar o aquecimento. É preciso investir nas chamadas “tecnologias de emissão negativa”. São propostas como a bioenergia com captura e armazenamento de carbono (BECCS) ou a captura e armazenamento direto de carbono no ar (DACCS), tecnologias caras e ainda em testes. Os autores do estudo mostram que a restauração florestal, uma solução natural, tem melhor custo-benefício do que essas tecnologias: retiram mais carbono custando menos. 

Nem tudo é carbono

Apesar do foco do trabalho publicado na Nature ser o impacto do incentivo que um preço no carbono pode dar para as florestas, é importante não esquecer que a restauração florestal também pode se viabilizar por outras maneiras. O WRI Brasil atua, por meio do projeto Verena, no estudo de modelos de negócios que envolvem o plantio de árvores para fins ecológicos e econômicos. 

Esses modelos mostram que o produtor rural pode se beneficiar das florestas na sua produção agrícola. Modelos mistos, como os Sistemas Agroflorestais e a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, permitem que a restauração seja feita em conjunto com a produção agropecuária, protegendo o solo e as nascentes e impulsionando a produtividade das lavouras. Além disso, as florestas podem mover uma economia florestal à base de madeiras extraídas legalmente, frutas, castanhas, óleos e essências. 

Essa economia da floresta já está acontecendo em várias paisagens no mundo, incluindo no Brasil, com trabalhos interessantes ocorrendo no Vale do Paraíba Paulista, no Espírito Santo, na Amazônia e no sul do país. Um preço de carbono seria uma ferramenta adicional para ampliar a escala da restauração, ajudando o país a atingir a meta de restaurar 12 milhões de hectares até 2030.

Por: Bruno Calixto (WRI Brasil).

Como a Poluição do Ar Pode Afetar Gravemente Nossa Saúde Mental

Nos últimos anos pesquisadores se debruçaram sobre os efeitos da poluição na mente humana e identificaram que há perda da capacidade cognitiva. 

Pode ser que no futuro a polícia conte com um novo método para ajudar na prevenção ao crime: saber os níveis de poluição nas cidades. E, com o resultado dessa aferição, ela poderá voltar sua atenção e recursos para aquelas áreas onde o ar se mostrar mais sujo. 

Você deve estar se perguntando: mas o que uma coisa tem a ver com a outra? Pode ser que no futuro elas tenham tudo a ver. 

Pesquisas recentes sobre os efeitos da poluição nos seres humanos mostraram que, além de problemas de saúde mental, de piora da capacidade de julgamento e do desempenho escolar, ela também pode estar ligada a um aumento dos níveis de criminalidade. 

Essas descobertas são alarmantes, uma vez que mais da metade da população mundial vive em ambientes urbanos - e cada vez mais viajamos para áreas poluídas. 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que nove entre dez pessoas frequentemente respirem níveis considerados perigosos de ar poluído. A poluição do ar mata cerca de sete milhões de pessoas por ano. 

Mas será que poderíamos em breve acrescentar números de homicídio à essa conta? A BBC Future mostra a seguir quais as evidências mais recentes sobre esse tema. 

Ar poluído prejudica o raciocínio

Em 2011, o pesquisador Sefi Roth, da universidade London School of Economics, em Londres, decidiu estudar os muitos efeitos da poluição do ar. 

Ele estava ciente do impacto negativo dela na saúde, do aumento de internações hospitalares e também da mortalidade. Mas, pensou, talvez houvesse outros efeitos colaterais em nossas vidas. 

Roth conduziu um estudo para saber se a poluição afetava o desempenho cognitivo. 

Ele e sua equipe observaram estudantes fazendo provas em dias diferentes - e mediram a quantidade de poluição nestas datas. 

Todas as outras variáveis permaneceram as mesmas: os exames foram feitos por estudantes de níveis semelhantes de educação, no mesmo local, mas ao longo de vários dias. 

O pesquisador descobriu que a variação nos resultados médios era muito diferente. Nos dias mais poluídos, os alunos obtiveram as piores notas. E quando o ar estava mais puro, as notas eram melhores. 

"Percebemos um claro declínio [do desempenho] nos dias mais poluídos", diz Roth. "Mesmo alguns dias antes e alguns depois, não encontramos nenhum efeito - foi apenas no dia do exame que a pontuação do teste diminuiu significativamente". 

Para determinar os efeitos a longo prazo, Roth decidiu ver o impacto que o desempenho nesses testes teve entre oito e dez anos depois. 

Aqueles alunos que tiveram pior desempenho nos dias mais poluídos acabaram indo estudar em universidades nas quais as notas para admissão eram mais baixas - e aqueles testes que eles haviam feito contabilizam pontos para entrar na faculdade. 

Eles também estavam ganhando menos. "Portanto, mesmo que haja um efeito de curto prazo da poluição, se este ocorrer em uma fase importante da vida, poderá ter um impacto de longo prazo", afirma. 

Aumento da criminalidade

Em 2016, outro estudo referendou as descobertas iniciais de Roth de que a poluição pode diminuir a produtividade. Essas descobertas levaram ao trabalho mais recente de Roth, Crime is in the Air: The Contemporaneous Relationship between Air Pollution and Crime

Em 2018, sua equipe analisou dados de crimes em um período de dois anos em mais de 600 áreas de Londres e descobriu que o número de pequenos delitos era maior nos dias com poluição excessiva tanto em áreas ricas quanto nas mais pobres. 

Embora devamos ser cautelosos em tirar conclusões sobre correlações como essas, os autores viram algumas evidências de que existe um nexo de causalidade. 

Como parte do mesmo estudo, eles compararam áreas muito específicas ao longo do tempo, bem como acompanharam os níveis de poluição nesse período. 

Uma nuvem de ar poluído, afinal, pode se mover dependendo da direção do vento. Isso leva a poluição a diferentes partes da cidade, a áreas mais ricas e mais pobres. 

"Apenas seguimos essa nuvem diariamente e vimos o que aconteceu com a criminalidade nas áreas onde ela chegava. Descobrimos que, onde quer que ela chegasse, a taxa de criminalidade aumentava", ele explica. 

É importante ressaltar que mesmo a poluição moderada fez diferença. "Descobrimos que esses grandes efeitos sobre o crime também aparecem quando a poluição está em níveis que estão bem abaixo dos padrões regulatórios atuais". 

Em outras palavras, os níveis que a Agência de Proteção Ambiental dos EUA classifica como "bons" ainda estavam fortemente vinculados às taxas de criminalidade mais altas. 

Embora os dados de Roth não tenham encontrado um forte efeito sobre crimes mais graves, como assassinato e estupro, outro estudo de 2018 [Polluted Morality: Air Pollution Predicts Criminal Activity and Unethical Behavior] mostrou que é possível haver um vínculo entre estes e a poluição. 

A pesquisa, liderada por Jackson Lu, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), examinou dados criminais de um período de nove anos em mais de 9 mil cidades dos Estados Unidos

E descobriu que "a poluição do ar previa seis categorias principais de crime" incluindo homicídio culposo, estupro, roubo, roubo de carros e assaltos. 

As cidades com maior índice de poluição também apresentaram as maiores taxas de criminalidade. 

Este foi outro estudo correlacional, mas que agregou fatores como população, níveis de emprego, idade e sexo - e a poluição ainda era o que mais conseguia prever o aumento dos níveis de criminalidade. 

Outra evidência da relação entre criminalidade e poluição vem de um estudo de "comportamento delinquente" (incluindo fraude, roubo, vandalismo e uso de drogas ilícitas) feito com mais de 682 adolescentes. 

Diana Younan e seus colegas da Universidade do Sul da Califórnia (USC) analisaram especificamente as minúsculas partículas PM2.5, que são 30 vezes menores que a largura de um fio de cabelo humano, e consideraram o efeito cumulativo da exposição a esses poluentes por um período de 12 anos. 

Mais uma vez, os pesquisadores notaram que um "mau comportamento" foi significativamente mais provável em áreas com maior poluição. 

Para comprovar essa relação, que não poderia simplesmente ser explicada pelo status socioeconômico, a equipe de Younan também levou em consideração a educação dos pais, a pobreza, a qualidade de sua vizinhança e muitos outros fatores para isolar o efeito das micropartículas em comparação com outros conhecidos fatores que influenciam os crimes. 

Younan diz que suas descobertas são especialmente preocupantes, pois sabemos que o comportamento de um indivíduo durante a adolescência é um forte indicador de como ele se comportará como um adulto. 

Indivíduos delinquentes têm maior probabilidade de apresentar resultados piores na escola, vivenciam o desemprego e são mais propensos ao abuso de substâncias. Isso significa que uma intervenção em idade precoce deve ser uma prioridade. 

Poluição e julgamento moral

Existem muitos mecanismos que podem explicar como a poluição do ar afeta nossos julgamentos morais. 

Lu, por exemplo, mostrou que apenas o fato de pensar na poluição pode influenciar nossa mente por meio de suas associações negativas. 

Naturalmente, os pesquisadores não puderam expor fisicamente os participantes à poluição, então mostraram aos participantes americanos e indianos fotos de uma cidade extremamente poluída e pediram que se imaginassem morando lá. 

"Nós os fizemos experimentar psicologicamente os efeitos da poluição", explica Lu. "Então, pedimos a eles que realmente se imaginassem vivendo nesta cidade para ver como se sentiriam, para fazê-los experimentarem psicologicamente como seria a sensação de viver num ambiente poluído e num ambiente com ar limpo". 

Ele descobriu que a ansiedade dos participantes aumentava e eles se tornavam mais autocentrados - duas coisas que poderiam aumentar comportamentos agressivos e irresponsáveis. 

"Como mecanismo de autoproteção, todos sabemos que, quando estamos ansiosos, a probabilidade de socar alguém é maior do que quando estamos calmos", diz Lu. "Então, ao aumentar ansiedade das pessoas, a poluição do ar pode ter um efeito prejudicial no comportamento".

Em outros experimentos, a equipe descobriu que os participantes que viviam em condições com mais poluição tinham maior probabilidade de trapacear em várias tarefas e superestimar seus desempenhos para obter recompensas. 

Esta pesquisa é apenas o começo, e pode haver muitas razões para o surgimento de efeitos como o aumento da ansiedade e do foco em si mesmo descritos no trabalho de Lu - incluindo mudanças fisiológicas no cérebro. 

Quando você respira ar poluído, por exemplo, isso afeta a quantidade de oxigênio que você tem em seu corpo em um dado momento - o que, por sua vez, pode resultar na redução do "ar bom" para o cérebro. 

Além disso, pode irritar o nariz, a garganta e causar dores de cabeça - o que pode diminuir nossos níveis de concentração. 

Também está claro que a exposição a vários poluentes pode causar inflamação no cérebro e danificar sua estrutura e as conexões neurais. "Então, o que pode estar acontecendo é que esses poluentes do ar estão danificando o lobo pré-frontal", diz Younan

Esta área é muito importante para controlar nossos impulsos, nossa função executiva e o autocontrole. 

Então, além de poder fazer com que a propensão ao crime aumente, a poluição também pode causar um sério declínio na saúde mental. 

Um estudo de março de 2019 [Association of Air Pollution Exposure With Psychotic Experiences During Adolescence] mostrou que adolescentes expostos ao ar tóxico e poluído apresentam maior risco de ter episódios psicóticos, como ouvir vozes ou apresentar paranoia. 

A pesquisadora Joanne Newbury, do King's College de Londres, diz que ainda não pode afirmar que seus resultados são causais, mas que eles estão de acordo com outros estudos que sugerem uma ligação entre a poluição do ar e a saúde mental. 

"Isso se soma às evidências que ligam a poluição do ar a problemas de saúde física e à demência. Se é ruim para o corpo, é de se esperar que seja ruim para o cérebro", afirma. 

Os pesquisadores dizem que agora é preciso haver uma maior conscientização sobre o impacto da poluição do ar. "Precisamos de mais estudos mostrando a mesma coisa em outras populações e grupos etários", diz Younan.

Por: Melissa Hogenboom (BBC Future).

A Queda dos Custos de Energia Renovável Abre Caminho Para Uma Maior Ambição Climática

Novo relatório da IRENA sobre custos para energia renovável reafirma as energias renováveis ​​como solução de baixo custo para impulsionar a ação climática global. 

A energia renovável já é a fonte de eletricidade mais barata em muitas partes do mundo atualmente, segundo o último relatório da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA). O relatório contribui para a discussão internacional sobre o aumento da ação climática em todo o mundo, antes da reunião preparatória global de Abu Dhabi para a Cúpula de Ação Climática das Nações Unidas em setembro de 2019. 

Com os preços em queda, a vantagem de custo das energias renováveis ​​se estenderá ainda mais, dizem os Renewable Power Generation Costs in 2018, com base em uma análise abrangente dos dados de projetos em todo o mundo. Isso fortalecerá o business case e solidificará o papel das energias renováveis ​​como o motor da transformação global de energia. 

"O poder renovável é a espinha dorsal de qualquer desenvolvimento que tenha como objetivo ser sustentável", disse o diretor-geral da IRENA, Francesco La Camera. "Devemos fazer tudo o que pudermos para acelerar as energias renováveis, se quisermos cumprir os objetivos climáticos do Acordo de Paris. O relatório de hoje envia um sinal claro para a comunidade internacional: a energia renovável fornece aos países uma solução climática de baixo custo que permite a expansão de ações". 

"Para aproveitar totalmente a oportunidade econômica das energias renováveis, a IRENA trabalhará em estreita colaboração com nossos membros e parceiros-chave para facilitar soluções locais e ações coordenadas que resultarão em projetos de energia renovável". 

Os custos para tecnologias de energia renovável caíram para um recorde baixo no ano passado. O custo médio ponderado global da eletricidade proveniente de energia solar concentrada (CSP) diminuiu 26%, bioenergia 14%, energia solar fotovoltaica (PV) e energia eólica onshore em 13%, energia hidroelétrica em 12% e energia eólica geotérmica e offshore em 1%. respectivamente. 

As reduções de custos, particularmente para as tecnologias de energia solar e eólica, devem continuar na próxima década, segundo o novo relatório. De acordo com o banco de dados global da IRENA, mais de três quartos da energia eólica onshore e quatro quintos dos projetos solares fotovoltaicos que serão comissionados no próximo ano produzirão energia a preços mais baixos do que as opções mais baratas de carvão, petróleo ou gás natural. Crucialmente, eles estão dispostos a fazê-lo sem assistência financeira.

Os custos de energia eólica terrestre e solar fotovoltaica entre três e quatro centavos de dólar dos EUA por quilowatt/hora já são possíveis em áreas com bons recursos e permitindo estruturas regulatórias e institucionais. Por exemplo, os preços de leilão recordes para a energia solar fotovoltaica no Chile, México, Peru, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos tiveram um custo nivelado de eletricidade de apenas três centavos de dólar por quilowatt/hora (US $ 0,03 / kWh). 

A eletrificação com base em energias renováveis ​​competitivas em termos de custo é a espinha dorsal da transformação de energia e uma solução-chave de descarbonização de baixo custo em apoio aos objetivos climáticos estabelecidos no Acordo de Paris


Fonte: EcoDebate.

Populações de Inseto Estão Despencando – Saiba os Motivos e a Importância Disso

Borboletas-monarca passam o inverno na Serra Chincua, no México, e, como muitos outros insetos, entraram em declínio devido a alterações no uso do solo. 
FOTO DE JOEL SARTORE / NAT GEO IMAGE COLLECTION. 

Estudo sugere que 40% das espécies de insetos estão em declínio, uma descoberta preocupante que assustou pesquisadores no mundo todo.

Gafanhotos da espécie Melanoplus spretus aglomeravam-se em quantidades tão grandes que cobriam a luz solar sobre as Grandes Planícies, equiparando-se aos famosos bandos de bisões tanto em termos de tamanho populacional quanto em apetite. No verão de 1875, por exemplo, um enxame de cerca de 10 bilhões de gafanhotos levou quase uma semana para atravessar Plattsmouth, em Nebraska

Contudo, nas décadas seguintes, produtores rurais e colonos desenvolveram áreas especiais na pradaria para procriação. Passados apenas 27 anos e o último exemplar vivo foi coletado na pradaria canadense. Eles se extinguiram logo depois, o que foi um golpe ao ecossistema, já que eram o alimento de incontáveis insetívoros. 

Agora pesquisas mostram que declínios de insetos em larga escala, embora talvez menos drásticos, não são coisa do passado — e que insetos podem ser mais vulneráveis do que pensávamos. Estudo publicado recentemente no periódico Biological Conservation virou notícia por sugerir que 40% de todas as espécies de insetos estão em declínio e poderiam acabar nas próximas décadas. 

As abelhas e criaturas semelhantes polinizam mais de um terço das nossas culturas alimentares, o que significa que um declínio significativo nos seus números pode afetar a agricultura. 
FOTO DE DARLYNE A. MURAWSKI / NAT GEO IMAGE COLLECTION. 

Qual a importância disso? 

"Há uma razão para se preocupar", afirma Francisco Sánchez-Bayo, autor principal do estudo, pesquisador da Universidade de Sydney, na Austrália. "Se não impedirmos, ecossistemas inteiros entrarão em colapso, morrendo de fome".

A pesquisa, que é o primeiro levantamento global de populações de insetos ao redor do mundo, identifica alguns grupos de insetos particularmente ameaçados: mariposas e borboletas; polinizadores como abelhas; e besouros coprófagos, juntamente com outros insetos que ajudam a decompor fezes e detritos.

O estudo considera diversas pesquisas de grande notoriedade sobre declínios de insetos que chocaram até mesmo especialistas da área. Em outubro de 2017, um grupo de pesquisadores europeus descobriu que a abundância de insetos (medida pela biomassa) tinha despencado mais de 75% em 63 áreas de proteção da Alemanha — em um intervalo de apenas 27 anos. 

Um ano depois, dois pesquisadores publicaram um estudo no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences sugerindo que, em uma floresta equatorial relativamente intocada de Porto Rico, a biomassa de insetos e outros artrópodes, como aranhas, tinha sido reduzida de 10 a 60 vezes desde a década de 1970. 

A maior parte dos dados relevantes é proveniente da Europa e, em menor grau, dos Estados Unidos. Porém, lamentavelmente, faltam estudos no resto do mundo, afirma David Wagner, ecologista da Universidade de Connecticut, que não participou do estudo. 

Besouros coprófagos, entre os insetos mais ameaçados, exercem um papel importante na reciclagem de nutrientes e no processamento de resíduos animais. 
FOTO DE KARINE AIGNER / NAT GEO IMAGE COLLECTION. 

A pesquisa apurou que metade das espécies de mariposas e borboletas estudadas está em declínio, um terço está ameaçada de extinção e são quase exatamente os mesmos os números referentes aos besouros. Além disso, quase metade das formigas e abelhas do levantamento está ameaçada de extinção. Os insetos tricópteros estão na pior situação: 63% das espécies estão ameaçadas de extinção, é provável que isso se deva em parte ao fato de que eles depositam ovos na água, tornando-os mais vulneráveis à poluição e ao desenvolvimento. 

Por que o declínio? 

Há diversos motivos pelos quais esses animais estão em apuros e não existe uma causa única, conta Wagner. "Temo que a morte tenha sido causada por mil cortes". 

Talvez alguns dos fatores mais importantes por trás do declínio sejam as mudanças nos habitats causadas pelo homem, como o desmatamento e transformação dos habitats naturais em solo para agricultura. Na Europa e América do Norte, a queda na agricultura familiar, conhecida pelos pastos abertos, cercas vivas e outras áreas onde ervas “daninhas” como flores do campo podiam crescer — áreas perfeitas para insetos — certamente exerceu um papel, acrescenta Wagner, assim como a drenagem de brejos e pântanos. 

Junto com a agricultura, vem o uso de produtos químicos como herbicidas, fungicidas e agrotóxicos. Inseticidas, previsivelmente, prejudicam espécies às quais não são direcionados e neonicotinoides foram ligados ao declínio mundial das abelhas. Os agrotóxicos podem ter exercido um papel em um oitavo dos declínios de espécies levantados no estudo. 

Borboletas como esta da espécie Thymelicus lineola são importantes para polinizar culturas floríferas e outras plantas. 
FOTO DE KARIN ROTHMAN / MINDEN PICTURES / NAT GEO IMAGE COLLECTION. 

Sem dúvidas, as mudanças climáticas também têm um grande papel, sobretudo extremos do clima como a aridez, que futuramente tendem a aumentar em intensidade, duração e frequência, afirma Wagner. Outros fatores são doenças, parasitas e espécies invasoras. 

O impacto do declínio 

Insetos estão na base da cadeia alimentar, sendo alimento de pássaros, pequenos mamíferos e até peixes. Se forem dizimados, todos os outros animais também serão, explica Sánchez-Bayo

Elas também prestam “serviços” valiosos à humanidade, como a polinização de plantas, afirma John Losey, entomologista da Universidade Cornell. Insetos polinizam aproximadamente três quartos de todas as plantas floríferas, além de culturas que produzem mais de um terço do abastecimento mundial de alimentos. 

"A eliminação dos insetos é equivalente à eliminação do alimento, (o que) equivale à eliminação das pessoas", afirma Dino Martins, entomologista do Centro de Pesquisa Mpala, do Quênia, e explorador da National Geographic

Outro serviço que prestam é a decomposição de lixo e reciclagem de nutrientes. Sem insetos como os besouros coprófagos e insetos que decomponham e removam resíduos animais e vegetais, "as consequências seriam desagradáveis", afirma Timothy Schowalter, entomologista da Universidade Estadual da Louisiana

Então em que medida a situação está desesperadora para os insetos? No fundo, embora seja preocupante, "ainda não temos informações suficientes para responder a essa pergunta", lamenta Wagner. A principal razão disso é a falta de estudos em longo prazo, mas a abundância de insetos também é algo complicado de estudar. Muitos desses animais possuem ciclos de vida de crescimento e queda, aproveitando as condições ideais para explosões populacionais. No entanto eles também são altamente sensíveis às oscilações climáticas. 

Um resultado nítido dos estudos recentes foi o aumento do interesse e financiamento de pesquisas em longo prazo, afirma Wagner. Essa atenção poderia ajudar a prevenir extinções como a perda do gafanhoto da espécie Melanoplus spretus

"Até mesmo insetos que possam parecer muito abundantes podem desaparecer em um curto período", conta Schowalter. "Mas, a não ser que alguém esteja observando ou preocupado, ninguém impedirá isso".

Por: Douglas Main (National Geographic Brasil).

Fato e Ficção em "Chernobyl": O Que a Série da HBO Romantizou do Desastre

Série de Craig Mazin foi elogiada pela representação dos acontecimentos, mas mudou diversos detalhes dos fatos. 

A nova sensação da HBO, Chernobyl, foi amplamente aclamada pelo público e pela crítica, e instigou fãs a procurarem mais fatos sobre o que realmente aconteceu na usina nuclear em 1986. E por mais que a série de Craig Mazin tenha sido elogiada especificamente pela sua representação do que realmente ocorreu até os últimos detalhes, é inevitável que uma produção de cinco episódios altere certos fatos da história. 

Confira abaixo algumas das romantizações de Chernobyl

VALERY LEGASOV


O herói de Chernobyl, Valery Legasov, interpretado por Jared Harris, realmente existiu e foi um dos cientistas que liderou a investigação do que aconteceu por trás do desastre nuclear. O físico, no entanto, não era um expert em reatores RBMK e estava longe de ser um questionador das políticas soviéticas. Segundo o que o próprio criador disse no podcast oficial de Chernobyl, Legasov foi chamado à comissão por ter um histórico de postura leal ao partido. 

Ainda sobre a vida de Legasov, o cientista realmente se suicidou no aniversário do acidente, mas aquela não foi sua primeira tentativa de suicídio. Sua morte, assim como foi retratado na série, deixou um legado de fitas que contaram a verdade sobre as falhas nos reatores. 

ULANA KHOMYUK
Ao contrário de Boris Shcherbina (interpretado por Stellan Skarsgård) e Legasov, a personagem de Emily Watson, Ulana Khomyuk, não existiu. Sua presença representa uma amálgama de cientistas que trabalharam junto a Legasov para achar a verdade sobre o acidente. 

Enquanto a figura feminina de Ulana pode ser difícil de acreditar no contexto em que está, o criador Craig Mazin disse ter escolhido uma mulher para representar o grande número de cientistas mulheres na União Soviética da época. Estudos apontam que a igualdade de gênero na ciência e medicina no país eram um dos mais altos do mundo. 

LYUDMILLA E VASILY IGNATENKO
O casal Lyudmilla (interpretada por Jessie Buckley) e Vasily Ignatenko (interpretado por Adam Nagaitis) realmente existiu, e o caso ficou registrado na história pela persistência da mulher grávida em ficar ao lado de seu marido apesar das consequências. O que difere da realidade é algo sutil, porém poético. 

Quando questionada pela médica se estava grávida, Lyudmilla não apenas disse "não", como a série mostra. Na realidade, a mulher pensou que se dissesse não a médica impediria que ela entrasse pelos riscos de nunca poder engravidar. Por isso, Lyudmilla mentiu dizendo que já tinha dois filhos. 

A QUEDA DO HELICÓPTERO
Esta mudança dos fatos é dedicada só aos fãs de detalhes. A queda do helicóptero que jogava areia e boro na explosão aconteceu, mas apenas semanas depois do acidente, e não dois dias, como a série mostra. A mudança na cronologia foi explicada por Mazin para exemplificar os riscos que realmente existiram: "Eu queria que as pessoas soubessem os riscos que os pilotos passaram, voando por cima deste reator aberto". 

AS ARMAS E CAMARADAS
Um dos elementos que mais chamou atenção em Chernobyl foi a quantidade de críticas positivas que a série recebeu da ex-União Soviética. Claro que as críticas não foram poucas, mas a obra foi aclamada pela sua produção de arte e representação de costumes e comportamentos da época. 

O jornalista Leonid Bershidsky, do The Moscow Times, foi um dos que apontou detalhes distorcidos da produção. Os mais chamativos são o modo que os soldados seguram as armas, baseado no costume americano ao invés do soviético (com armas nas costas ao invés do peito) e na referência dos personagens como "camaradas". Segundo Bershidsky, a referência só acontecia em reuniões do partido. 

Mazin, no entanto, fala sobre isso no podcast oficial da série, dizendo que o detalhe foi adicionado por uma consultora russa, que explicou que os sujeitos nunca se chamariam pelo nome, e sempre usariam o termo.

AS RELAÇÕES DE PODER
A jornalista Masha Gessen, do The New Yorker, também apontou um detalhe deturpado de Chernobyl, mais abrangente, em referência aos confrontos entre sujeitos de diferentes cargos. Para Gessen, é irreal a maneira em que Legasov é ameaçado a ser jogado do helicóptero por Shcherbina ou o tom desafiador de Khomiuk ao conversar com um secretário superior: "De maneira geral, soviéticos seguiam ordens sem serem ameaçados por armas ou punições". Do mesmo modo, a postura dos mineiros frente ao ministro também seria impossível. 

Gessen também critica o modo que o burocrata toma um copo de vodca durante o trabalho: "nada de vodca no local de trabalho na frente de uma estranha, e nada de dizer em voz alta 'eu mando aqui'". 

OS MERGULHADORES
Um dos acontecimentos mais marcantes de Chernobyl envolve os mergulhadores que precisaram entrar na usina nuclear para fechar os registros que inundavam a parte de baixo do núcleo. 

Segundo Mazin, Ananenko, Bezpalov e Baranov foram realmente voluntários, mas os relatos sobre o evento são diferentes. Segundo algumas obras sobre Chernobyl, os três funcionários foram convocados, e segundo outras eles eram simplesmente os responsáveis pela função. 

O TRIBUNAL DE CHERNOBYL
O último episódio de Chernobyl é o que mais se distancia dos acontecimentos reais. O fato mais notável é que Valery Legasov não estava presente. 

Segundo Mazin, a escolha foi para fechar a jornada de Legasov de modo digno à mensagem final de sua vida. No entanto, o julgamento foi totalmente diferente do representado na série. Não apenas Shcherbina também não estava lá, como o tribunal de Chernobyl durou diversos dias.






Por: Julia Sabbaga (Omelete).

A Importância Fundamental da Biodiversidade da Amazônia Para o Mundo

Rio Amazonas no Peru. Foto: Anton Ivanov / Shutterstock.com (CC).

A atual taxa de declínio da natureza, sem precedentes na história da humanidade, é confirmada pelo novo relatório da Plataforma Intergovernamental de Ciência e Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), o relatório mais abrangente sobre o assunto. A altíssima taxa de extinção de espécies de plantas e animais provavelmente terá graves impactos sobre as pessoas do mundo inteiro.

Na ocasião do lançamento do relatório, o presidente da IPBES, Sir Robert Watson, afirmou: “Ainda dá tempo de mudar, mas para isso precisamos começar agora e agir em todos os níveis, do local ao global”.

É para isso que o Programa Paisagens Sustentáveis da Amazônia (ASL, Amazon Sustainable Landscapes), liderado pelo Banco Mundial e financiado pelo GEF, vem trabalhando na Amazônia, região que abriga 40% da floresta tropical remanescente do mundo, 25% da biodiversidade terrestre e mais espécies de peixes do que qualquer outro sistema fluvial do planeta. Com sua abordagem regional integrada, o ASL visa a aprimorar a proteção e a gestão de 82 milhões de hectares de florestas no Brasil, na Colômbia e no Peru.

Apelidado de "Padrinho da Biodiversidade", o renomado ecologista Thomas Lovejoy trabalha na Amazônia há mais de 50 anos. Ele falou com o Banco Mundial sobre as pressões que a região enfrenta e os motivos para protegê-la, além de propor algumas soluções; também explica por que a Amazônia precisa ser gerida como um sistema integrado e com decisões ponderadas e graduais.

Banco Mundial: A Amazônia é uma das poucas áreas florestais remanescentes e abriga talvez um quarto das espécies terrestres do planeta. Por que essa biodiversidade é tão importante? 

Thomas Lovejoy: A floresta e os rios da Amazônia abrigam uma enorme variedade de espécies: algumas endêmicas (ou seja, que só ocorrem ali), outras ameaçadas de extinção e muitas ainda desconhecidas.

Essa biodiversidade é importante para o mundo inteiro. Todas as espécies deste sistema incrivelmente biodiverso representam soluções para um conjunto de desafios biológicos; podem ter um potencial transformador e gerar benefícios para toda a humanidade. Por exemplo, a descoberta de inibidores da enzima conversora de angiotensina (ACE), inspirada por estudos realizados com o veneno da Bothrops asper (espécie de serpente tropical encontrada na Amazônia), ajuda centenas de milhões de pessoas em todo o planeta a controlar a hipertensão. Há uma gama de espécies muito ricas e promissoras aguardando ser descobertas. Um exemplo são as formigas cortadeiras.

Essas formigas colhem e usam folhas como manta para os fungos que cultivam, evitando deliberadamente as folhas que contêm fungicidas naturais. O estudo das espécies que essas formigas evitam pode ajudar a identificar novos fungicidas naturais. Os conhecimentos das populações indígenas são muito importantes para atingirmos esse potencial. A biodiversidade também tem importância em nível local, pois constitui o capital natural que sustenta diversas atividades humanas; mais especificamente, os meios de subsistência das populações pobres ao redor do planeta. Por exemplo, os bagres e o pirarucu são itens importantes na culinária local.

A biodiversidade da Amazônia também é fundamental para os sistemas globais, pois influencia o ciclo global do carbono (e, portanto, a mudança climática) e os sistemas hidrológicos hemisféricos, servindo como uma importante âncora para o clima e para as chuvas na América do Sul.

A maioria das pessoas sabe que a Amazônia armazena grandes quantidades de carbono e, portanto, está ciente de sua influência na mudança climática, mas você poderia falar mais sobre os ciclos hidrológicos? 

Poucas pessoas sabem que a Amazônia produz cerca de metade de suas próprias chuvas, além de levá-las até o sul da Argentina, contribuindo para a produção agrícola. Se esse ciclo hidrológico se romper, poderá gerar um ponto de inflexão que resultará na conversão de partes da floresta tropical em savanas secas ou até mesmo em caatingas, além de afetar negativamente as chuvas e a agricultura em toda a América do Sul. Eu e o cientista climático Carlos Nobre acreditamos que esse ponto de inflexão está muito próximo e que as secas de 2005, 2010 e 2016 já são os primeiros sinais dessa mudança. Mas a boa notícia é que o reconhecimento dessa possibilidade e o reflorestamento podem ajudar a restabelecer uma margem de segurança.

Na sua opinião, quais são as principais ameaças à Amazônia e quais as soluções para resolvê-las? 

Infelizmente, a pressão sobre a Amazônia está cada vez maior. Os lugares de maior risco são o sul e o sudeste (regiões do Pará, Mato Grosso e Rondônia), mas também há pressões surgindo em novos locais.

Um dos maiores problemas é o desmatamento motivado por atividades agropecuárias. O desenvolvimento da infraestrutura também é uma grande ameaça, especialmente se alguns projetos continuarem do jeito que estão. Precisamos pensar em alternativas e trabalhar com os governos estaduais para criar modelos de desenvolvimento sustentável que preservem a floresta.

Parte da resposta deve ser o desenvolvimento de bioeconomias sustentáveis. Se os agricultores forem remunerados pelas atividades que protegem a floresta, imagino que sua resposta será positiva. Outros exemplos são a pesca e a aquicultura. São atividades de grande importância para a bioeconomia e para a alimentação de uma população mundial cada vez maior. Tudo depende, no entanto, de como a aquicultura é implementada. O estado do Acre desenvolveu uma indústria de aquicultura bastante produtiva nos últimos 10 anos. Essa atividade de base biológica faz todo o sentido e devemos buscar oportunidades semelhantes, recorrendo também aos conhecimentos indígenas para identificar novas oportunidades econômicas, sempre pautadas pela bioética.

Cidades sustentáveis também são essenciais, mas exigem um planejamento cuidadoso e criativo. As atividades econômicas em Manaus, por exemplo, usam em grande parte materiais não provenientes da floresta. Precisamos iniciar um diálogo sobre o que as cidades devem fazer para trazer benefícios reais para as suas populações, com muito menos impacto sobre as florestas.

A infraestrutura de baixo impacto é outra solução. Um excelente exemplo é a elevação das rodovias na região da Mata Atlântica. A linha de transmissão projetada entre Manaus e Roraima não teria um impacto tão forte se o projeto atual (em linha reta) fosse alterado e seguisse a rodovia já existente no local, evitando novos desmatamentos e transtornos para os povos indígenas. Da mesma forma, precisamos pensar em como produzir energia não-fóssil a partir de barragens hidroelétricas de forma a preservar os fluxos de sedimentos e os trajetos de espécies migratórias como os grandes bagres, cujo ciclo de vida se estende desde o estuário até as cabeceiras.

O relatório da IPBES ressalta que a perda de habitats (e, portanto, da biodiversidade) é mais lenta nos territórios administrados por povos indígenas. Qual é o papel dessas comunidades (e de seus conhecimentos) na proteção e manutenção da biodiversidade?

Os povos indígenas têm um papel importantíssimo. Eles possuem vastos conhecimentos sobre os animais e plantas locais e tiram proveito da floresta, de várias formas, há milhares de anos.

A maioria dos povos indígenas tem um estilo de vida bastante sustentável. São, basicamente, grandes guardiães da floresta; atualmente, cuidam de cerca de um quarto da Amazônia. Sabemos que, em alguns casos, as práticas dos povos indígenas mudam, mas, no momento, os povos indígenas estão entre os melhores gestores da biodiversidade nas florestas. São povos extremamente inteligentes, capazes de embarcar na era digital rapidamente, quase de um dia para o outro; por exemplo, usando GPS no mapeamento de suas terras. As culturas dos povos indígenas são absolutamente fascinantes.

Ao ajudar a evitar o desmatamento, eles têm um papel fundamental na proteção da biodiversidade e na luta global contra a mudança climática. A administração florestal é um grande favor que os povos indígenas fazem para toda a humanidade. Eles são grandes aliados na proteção da Amazônia e merecem muito respeito e gratidão dos países amazônicos e do mundo inteiro pelo trabalho que fazem!

O Banco Mundial, o PNUD e o WWF apoiam o Programa ASL, financiado pelo GEF. O ASL tem como objetivo vincular áreas protegidas a paisagens produtivas. Essa é uma boa estratégia?

Eu não tenho a menor dúvida! O modelo daqui para frente precisa incorporar as aspirações humanas aos sistemas naturais. Conectar as áreas protegidas trará mais segurança para a biodiversidade, pois à medida que sentimos cada vez mais os efeitos da mudança climática, os animais e as plantas passam a buscar condições mais propícias. Ou seja, as áreas isoladas apresentam um grande problema e conectá-las é o que devemos fazer daqui para a frente. Essa conectividade também ajudará a preservar as condições hidrológicas; a vegetação ao longo dos cursos d’água reduz a erosão do solo e viabiliza ainda mais conexões. Vale ressaltar, no entanto, que as conexões florestais em terra firme também são cruciais.

Ao administrar um sistema como a Amazônia, é fundamental considerar decisões graduais. Cada pequena mudança na estrutura mais ampla pode gerar efeitos cumulativos; caso os efeitos sejam negativos, as consequências podem ser vastas. Visto que a Amazônia é um sistema que se estende até o topo dos Andes, as florestas mais abaixo sentem os efeitos do que ocorre em altitudes mais elevadas. As atividades humanas são uma peça importante do quebra-cabeça na administração desse sistema. Sei que as pessoas estão preocupadas com a recente mudança da política brasileira em relação à abertura da Amazônia. Acredito, no entanto, que quando o governo brasileiro se der conta da importância da Amazônia como sistema, bem como sua contribuição para a economia e a agricultura do país, ficará convencido de que a sustentabilidade e o funcionamento da Amazônia são do interesse de todos.

Fonte: The World Bank.

"Economistas esqueceram o princípio da vida", diz ecologista

Desmatamento na Amazônia: para ecologista, origem da crise ambiental está na história do pensamento.

Ecologista mexicano defende que origem da crise ambiental está na história do pensamento e no pressuposto de que o homem pode dominar a natureza e tê-la a seu serviço, em vez de viver em conformidade com ela.

Se a espécie humana se julga o ser supremo da Terra, como criou um modo de vida destrutivo ao planeta? Essa questão levou o sociólogo mexicano Enrique Leff, de 74 anos, a um mergulho na história da filosofia ocidental, em busca de respostas. O resultado está em seu último livro, O Fogo da Vida

Doutor em Economia do Desenvolvimento pela Universidade de Paris, Leff é uma das principais vozes no debate sobre ecologia política. Para o mexicano, o pressuposto de que o homem pode dominar a natureza e tê-la a seu serviço é responsável pela crise ambiental que vive o planeta. A única saída, na visão de Leff, é reaprender a viver em conformidade com a vida da Terra, tal como sempre fizeram os povos originários. 

"Devemos pensar nas condições de sustentabilidade a partir do imaginário dos povos da terra. Sentir, saber como intervir nesses processos dinâmicos do metabolismo da biosfera. Precisamos reaprender a viver de acordo com as condições da vida", conclama nesta entrevista à DW Brasil, realizada durante o Seminário Internacional de Ecologia Política - Justiça Socioambiental e Alimentar na Tríplice Fronteira

DW: Como explicar que o pensamento seja responsável pela crise ambiental que vivemos hoje? 

Enrique Leff: A filosofia não considerou o peso específico do pensamento. Ficaram pensando na transcendência do pensamento, e não no impacto que tem sobre a ordem da vida e a condição da terra. Se os economistas não acham que a economia é responsável pela crise ambiental, os filósofos tampouco pensaram em sua responsabilidade até agora. A origem do impacto do processo econômico sobre a desestruturação da natureza, da crise ambiental, é realmente um efeito metafísico. Tudo provém do modo de compreensão do mundo, das coisas, que vêm da constituição do pensamento metafísico, sua predileção quase obsessiva para meditar sobre o ser das coisas, sem pensar o impacto do pensamento sobre a ordem da vida. A crise ambiental é fundamentalmente o efeito de uma falha de compreensão da vida e da intervenção humana sobre a ordem da vida. Nós precisamos compreender este enorme enigma: como o Homo sapiens, que se orgulha de ser o ser supremo da criação, gerou uma racionalidade contrária às condições da vida. 

O que caracteriza essa forma de interagir com a vida? 

O modo de racionalização do mundo está fundado e se converteu numa vontade de poder e domínio sobre a natureza. Esse ideal mal pretendido de controlar pelo conhecimento se converteu em um meio de intervenção sobre as condições da vida. Foi o que desencadeou a antropização do planeta, a apropriação destrutiva, por meio da medida, cálculo, conversão de todas as ordens ontológicas da vida. Isso constituiu a complexidade emergente da vida no planeta em um processo maior de antropização, degradação da matéria e da energia organizada em nossa terra. 

Por sua vez, os modos tradicionais de compreensão da vida foram descartados. Se não conhecem perfeitamente a ordem da vida, eles se aproximam mais de sentir, perceber, experimentar, dar tempo à natureza para se recuperar. São modos mais prudentes de intervenção sem a vida, que não se baseiam na dominação e controle, mas em viver dentro das condições da vida, de sua imanência. É outra predisposição da mente e corpo humanos para viver bem nessas condições, um outro modo de compreender a vida. 

As soluções sustentáveis apresentadas por novas tecnologias não são suficientes para reverter o quadro atual? 

O conceito de desenvolvimento sustentável já foi bastante pervertido e cooptado pela racionalidade econômica, com as ideias da economia verde e mecanismos de desenvolvimento limpo - toda essa estratégia que pretende recompor o pensamento econômico deste mundo sem sair da racionalidade econômica. Em vez de pensar a desconstrução da economia que gera o aquecimento global, estão investindo em novas tecnologias para refletir os raios solares, a fim de evitar um aquecimento maior do planeta. Precisamos pensar a partir do que não é uma fantasia, a produtividade entrópica da atmosfera. É possível essa reconstituição da vida, dos modos de intervenção, de acordo com essas condições da vida. 

Devemos pensar nas condições de sustentabilidade a partir do imaginário dos povos da terra. Sentir, saber como intervir nesses processos dinâmicos do metabolismo da biosfera. É um processo de reaprendizagem do que é responsabilidade da humanidade neste momento de transição histórica do planeta. Somos o motor maior das transformações da vida, e precisamos estar conscientes disso. 

Os povos da terra não são estáticos, como pensavam alguns antropólogos, estão mostrando a grande sensibilidade, capacidade de reflexão e reconstituição dessas identidades para aprender a viver dentro das condições da vida. Isso significa abrir-se a intercâmbios de saber e ao mundo da ciência para ver as lições mais positivas que eles possam incorporar às suas práticas coletivas e processos produtivos. Aí, abre-se uma possibilidade histórica, que acaba sendo imperativa. Eles têm muito mais a ensinar a nós, acadêmicos, do que o contrário. Mas estão bem mais abertos à ciência do que nós ao conhecimento deles, para juntos abrirmos esses espaços de diálogos de saberes, visando a uma nova compreensão. 

O senhor acredita na transição para outros modelos de interação com o planeta? 

Devemos nos perguntar se a natureza oferece condições suficientes para pensar um mundo construído dentro de outras economias, outras racionalidades, de um aproveitamento das condições da vida. Falam na necessidade de se adaptar às mudanças climáticas, como se fossem um destino inevitável. Isso já fecha as possibilidades de pensar este outro mundo possível. Não se trata de construir sobre a fantasia, mas uma verdade que até agora esteve invisibilizada. 

Vislumbro um mundo construído sobre a produtividade ecológica da natureza. É preciso retomar esse modo de compreensão da economia dos fisiocratas, anterior à construção clássica de Adam Smith e Karl Marx. Eles defendiam uma economia que se constitui sobre os princípios da potência emergencial da vida e pensavam em termos de produtividade das sementes. Essa visão foi relegada ao ostracismo do pensamento econômico como um absurdo, impossível, porque não era pensada nos termos da racionalidade tecnológica, científica, voltada ao progresso humano. 

O físico austríaco Erwin Schrödinger foi o primeiro a falar na vida como entropia negativa, na termodinâmica. Isso recupera a compreensão de nosso mundo, que a biosfera está constituída por um processo de transformação de energia solar e produção de biomassa. Esse princípio, que foi e continua a ser esquecido pelos economistas, é o princípio da vida. Se ainda existimos neste mundo, é porque temos um planeta que gerou a vida a partir da energia solar, das condições de constituição molecular da vida e a complexidade da biosfera. Há 15 milhões de anos se constituíram os equilíbrios atmosféricos e ecológicos que continuam gerando a diversidade nesse planeta. 

Um sistema econômico nesses moldes poderia atender às necessidades da população mundial? 

Em 1974, no primeiro congresso internacional de ecologia, foram realizados os primeiros cálculos da produtividade da natureza, com foco nos sistemas tropicais. Em termos termodinâmicos e de biomassa, o planeta não só é suficientemente produtivo, mas a própria natureza gera biomassa em porcentagem de crescimento natural de 8% a 10%. Não é pouca coisa, quando se pensa que os grandes países estão com dificuldades de crescer mais do que 5%, de forma insustentável. 

Como a natureza gera sua maior potência nas faixas tropicais, as economias localizadas mais a norte ou a sul rejeitam essa ideia porque não conseguem acreditar. Até os esquimós conseguiram construir processos humanos civilizatórios para viver em condições de produtividade naturais. Isso não quer dizer que os homens devem viver só dessa produtividade. A isso se somam os processos de intervenção cultural para selecionar as espécies mais úteis, fazer cultivos sustentáveis, associações múltiplas. Tal como fazem as polivalentes culturas tradicionais amazônicas, que se adaptam aos períodos de cheia e seca.

Por: João Soares (Deutsche Welle).

Cada Pessoa Come Até 121 Mil Partículas de Plástico Por Ano, diz estudo

Entre 2% e 5% de todo o plástico produzido no mundo acaba despejado nos oceanos, em forma de resíduo. Ali, esse material vai se degradando lentamente, se deteriorando - e se transforma no chamado microplástico, pequenas partículas que podem ser microscópicas ou chegar até 5 milímetros de comprimento. 

Os mares estão cheio disso, em um processo que começou nos anos 1950, quando a indústria mundial passou a produzir mais maciçamente esses materiais. 

Mas esse lixo todo não para no mar. Essas pequenas partículas acabam ingeridas por animais marinhos e, assim, entrando na cadeia alimentar. No fim da linha, nós, humanos, acabamos comendo plástico. 

Resíduos do material também podem acabar entrando em nosso organismo quando consumimos produtos embalados em plástico, seja um invólucro que envolve a carne processada, seja a água tomada na garrafinha. 

Mas quanto de plástico realmente estamos ingerindo? Para responder a essa pergunta, um grupo de cientistas do Departamento de Biologia da Universidade de Victoria, no Canadá, resolveu fazer um levantamento inédito. Liderados pelo pesquisador Kieran Cox, eles revisaram e compilaram 26 estudos anteriores que analisaram as quantidades de partículas de microplásticos em peixes, moluscos, açúcares, sais, álcoois, água - de torneira e engarrafada - e no próprio ar. 

Então, usando como base as Diretrizes Alimentares - guia com a recomendação do governo americano -, os cientistas avaliaram quanto desses alimentos costuma ser ingerido por homens, mulheres e crianças por ano. 

O resultado foi que a ingestão de microplásticos varia de 74 mil a 121 mil partículas por ano, conforme idade e sexo. 

E se você é daqueles que só bebe água de garrafinha, um alerta: a pesquisa constatou que quem prefere água assim em vez da de torneira pode estar ingerindo microplásticos a mais. 

"Indivíduos que cumprem sua ingestão de água recomendada apenas por meio de fontes engarrafadas podem estar ingerindo mais 90 mil microplásticos anualmente, em comparação com 4 mil microplásticos para quem consome apenas água da torneira", pontua Cox, em artigo publicado em 05/06/2019 no periódico científico Environmental Science & Technology [Human Consumption of Microplastics]. 

Segundo o estudo, crianças do sexo feminino ingerem 74 mil partículas em média, contra 81 mil de crianças do sexo masculino. No caso dos adultos, mulheres ingerem uma média de 98 mil microplásticos enquanto os homens, 121 mil. 

Nas fezes 

É muito difícil quantificar em termos de volume ou mesmo tamanho toda essa quantidade de microplásticos. Isso porque as partículas podem ser microscópicas - mas, por conceito, um fragmento de até 5 milímetros de comprimento ainda pode ser chamado de microplástico. 

Se considerarmos o limite extremo dessa escala, ingerir 121 mil partículas de microplásticos - na hipótese de isso ser feito de uma só vez - seria o equivalente a engolir uma fita plástica de 605 metros. 

Em 2018, uma pesquisa encontrou microplásticos em sal de cozinha. O trabalho, realizado por cientistas sul-coreanos em parceria com a ONG Greenpeace, encontrou o material em 36 de 39 marcas analisadas. 

Também em 2018, outra pesquisa demonstrou pela primeira vez o que já se suspeitava: que nós, seres humanos, estamos ingerindo microplásticos. O estudo, desenvolvido pelo médico Philipp Schwabl, da Divisão de Gastroenterologia e Hepatologia da Universidade de Medicina de Viena, na Áustria, encontrou partículas de microplásticos em fezes humanas colhidas em oito países diferentes: Finlândia, Itália, Japão, Holanda, Polônia, Rússia, Reino Unido e Áustria

A reportagem da BBC News Brasil pediu para que Schwabl analisasse os dados do estudo divulgado no dia 05/06/2019. Considerando que o seu próprio estudo encontrou uma média de 20 partículas de microplásticos em cada 10 gramas de fezes humanas, ele afirma que é bem pertinente que a ingestão anual desse material seja superior a 70 mil partículas. 

Efeitos sobre o corpo humano 

Ainda pouco se sabe sobre quais os efeitos que os microplásticos podem vir a ter no corpo humano. O estudo publicado nesta quarta-feira, por exemplo, não entra nessa seara. 

O médico Schwabl também prefere afirmar que qualquer afirmação definitiva necessita de mais pesquisas. "Embora existam primeiros estudos em animais mostrando que partículas de microplástico têm potencial de causar danos a organismos, não há conhecimento suficiente sobre o impacto médico de tais partículas quando deglutidas por humanos", diz ele. "Mais estudos são necessários para elucidar esse tópico importante". 

Procurado pela BBC News Brasil, o médico toxicologista Anthony Wong, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-USP), demonstra preocupação com elevado número de micropartículas que o estudo recente demonstra que estamos ingerindo. "Pode haver consequências mecânicas e patológicas", diz ele. 

Do primeiro aspecto, o médico lembra que substâncias plásticas podem eventualmente se aglutinar dentro do organismo e, com o tempo, "se tornarem uma obstrução para o esvaziamento estomacal". "Isso realmente ocorre e já foi verificado em peixes e outros animais marinhos. São obstruções mecânicas que podem ocorrer no estômago, no intestino delgado e na válvula ileocecal", afirma. 

Wong também explica que há um risco para a mucosa do estômago. "Ela é feita de vilosidades. Essas substâncias plásticas podem entrar e então provocar inflamação ou mesmo obstrução, impedindo a absorção dos alimentos", completa. 

Um outro risco, pontua o médico, é que os microplásticos sofram degradação pelas enzimas digestivas. "E, assim, liberem no organismo substâncias tóxicas presentes nos plásticos", explica. 

Os diferentes tipos de plástico, conforme lembra o especialista, trazem componentes que podem ser nocivos. "Evidentemente que alguns causam doenças, outros causam tumores", afirma Wong. "As partículas são pequenas, mas o acúmulo ao longo do tempo pode causar problemas". 

Para exemplificar o risco, o médico lembra que a substância bisfenol A, composto utilizado na fabricação de plásticos de policarbonato (chamado de PC), pode promover tumores e alterar funções hormonais - alterando funções de hormônios sexuais. 

"O PVC é outro: pode liberar substâncias cancerígenas", alerta. "Há estudos que diversas composições plásticas podem ser indutoras de tumores". 

No estudo divulgado pelo médico Philipp Schwabl em 2018, foram encontrados nas fezes humanas nove tipos diferentes de partículas plásticas: PP, PET, PU, PVC, PA, PC, POM, PE e PS.

Por: Edison Veiga (BBC News Brasil).

Dia Mundial do Meio Ambiente: Embate Entre Máquinas Novas e Mentalidades Antigas

Conheça os quatro elementos que dão indícios da crise da biodiversidade brasileira. 

O coração pulsante do nosso planeta bate em ritmo acelerado. A Amazônia brasileira é a maior floresta tropical do mundo e ambiente vital para a regulação do clima do globo. Mas o mesmo local é também alvo da devastação e ameaças que põem em risco as pessoas, plantas e animais que se espalham sobre seu tecido de vida. 

O FOGO não aquece, sufoca. As queimadas no Brasil têm como principal alvo a Amazônia e o motivo para esse tipo de ação é a agropecuária. Se a produção abastece o mercado, a floresta ainda é tratada como mercadoria, como define o Greenpeace. "Máquinas novas, mentalidades antigas que colocam a floresta e seus povos em risco cada vez maior", concluem Adriana Charoux e Yuri Salmona da área de campanhas da Organização. 

A ONG ainda estima que 46% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil sejam consequências desse tipo de devastação da Amazônia. "É a lógica do 'crescimento-progresso-desenvolvimento'. A economia imposta para a Amazônia alimenta um ciclo injusto e desigual que gera riqueza para poucos e miséria para muitos", explicam. 

E se ÁGUA poderia abafar esse clima tenso, ao se aproximar destruição, ela se esconde. A Amazônia é uma das maiores produtoras de chuva, mas é também a que mais depende delas para permitir o retorno do ciclo. Acredita-se que o bioma dependa de duas vezes a quantidade de água que recebe para poder gerar chuvas. 

Com diferenças tão grandes de distribuição, os primeiros estudos do Greenpeace sinalizam que, com o desmatamento, alcançaria 40% da região e que a área central, sul e leste da Amazônia sentiriam as consequências, com chuvas escassas e uma estação seca mais longa. 

"Derrubar floresta é derrubar o elo que desencadeia tudo isso", afirmam as representantes da organização. Tal ligação está também prejudicada pela forma de uso da TERRA, já que a capacidade de regeneração do solo está ligada às condições da perturbação que sofreu. 

A derrubada de floresta é sentida nas cidades: enchentes, deslizamentos de terra, secas e até o aumento dos preços dos alimentos indicam a quebra de safra ou a ausência dos polinizadores ativos nas matas 

E nem em todos os locais é possível restaurar, o Greenpeace sinaliza que áreas degradadas por mineração, por exemplo, são praticamente impossíveis de serem retomadas, já que o solo foi removido completamente. "O Brasil e o mundo precisam repensar o atual modelo de produção no campo e consumo nas cidades que está baseado na exploração predatória dos recursos naturais como se eles fossem infinitos", comentam. 

Motivos não faltariam para respirarmos aliviados, se estivesse segura a ação das florestas. No ciclo de umidade, a Amazônia brasileira joga bilhões de litros de água na atmosfera e estoca bilhões de toneladas de carbono. Se o local, pela beleza, nos tira o AR, a torcida é para que os projetos de um Meio Ambiente conservado nos dê fôlego.

Fonte: G1.