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Cientistas Desenvolvem Enzima Que "Come" Plástico

Enzima descoberta acidentalmente poderá facilitar reciclagem de plástico. Pesquisadores produzem por acidente proteína capaz de degradar plásticos PET e que pode ajudar a reduzir poluição causada pelo material. Mais de oito milhões de toneladas de plástico são despejadas nos oceanos por ano. 

Pesquisadores nos Estados Unidos e no Reino Unido produziram por acidente uma enzima que consome plásticos, revelou um estudo divulgado em 16/04/2018. A descoberta poderá ajudar a reduzir o grave problema da poluição causada pelo produto derivado do petróleo. 

Cientistas da Universidade de Portsmouth e do Laboratório de Energias Renováveis do Departamento de Energia dos EUA decidiram concentrar seus esforços numa bactéria de ocorrência natural descoberta no Japão há alguns anos. 

Pesquisadores japoneses acreditam que a bactéria Ideonella sakaiensis se desenvolveu nas últimas décadas num centro de reciclagem, uma vez até os anos 1940 o plástico ainda não tinha sido inventado. O organismo parece se alimentar exclusivamente de um tipo de plástico conhecido como Politereftalato de etileno (PET), amplamente utilizado na fabricação de garrafas. 

Os cientistas buscavam compreender o funcionamento de uma das enzimas dessa bactéria, denominada PETase, analisando sua estrutura. "Eles acabaram avançando um passo à frente e acidentalmente desenvolveram uma enzima que consegue desmembrar ainda melhor os plásticos PET", afirma o relatório divulgado na publicação científica americana Procedimentos da Academia Nacional de Ciências (PNAS)

Utilizando um raio-X de brilho dez bilhões de vezes mais forte do que o Sol, eles conseguiram elaborar um modelo tridimensional de alta resolução da enzima. 

Cientistas da Universidade de Campinas (Unicamp) e da Universidade do Sul da Flórida desenvolveram através de computadores um modelo que demonstrava que a PETase era bastante semelhante a outra enzima, a cutinase, encontrada em fungos e bactérias. 

Uma área da PETase, porém, apresentava algumas diferenças, levando os cientistas a deduzir que esta seria a parte que permitiria a degradação do plástico. Ao modificar essa enzima, tornando-a mais semelhante à cutinase, os pesquisadores descobriram acidentalmente que a enzima mutante conseguia degradar o plástico com eficácia ainda maior do que a PETase

Os cientistas trabalham agora em melhorias nessa enzima, para que possa, no futuro, ser desenvolvida em grande escala e utilizada no setor industrial. O objetivo ao quebrar o plástico em partes menores seria permitir que ele seja reutilizado de maneira mais eficiente. 

"O acaso muitas vezes tem um papel significativo na pesquisa científica fundamental, e nossa descoberta não é exceção", afirmou o autor do estudo, o professor John McGeehan, da Faculdade de Ciências Biológicas de Portsmouth

"Ainda que modesta, a descoberta inesperada sugere que há espaço para desenvolver ainda mais essas enzimas, nos aproximando de uma solução para reciclar as montanhas de dejetos de plástico que não param de crescer", observou. 

Mais de oito milhões de toneladas de plástico são despejadas anualmente nos oceanos, enquanto aumenta a preocupação com os problemas causados à saúde humana e ao meio ambiente. Apesar dos esforços globais para reciclar essa matéria-prima, a maior parte dos produtos plásticos sobrevive durante centenas de anos.

Fonte: Deutsche Welle.

A Sociedade Residual (Do Que Você Precisa Realmente?)

Wall-E - personagem do filme homônimo - ilustra a degradação ambiental como resultado de décadas de consumismo em massa, tendo ele a missão de coletar vários artefatos do lixo em um planeta tóxico. © 2008 - Pixar Animation Studios / Walt Disney Studios Motion Pictures.

O Brasil teve um enorme crescimento populacional desde a realização da Copa do Mundo da FIFA em 1970, quando ainda éramos 94 milhões de torcedores vivendo sob a batuta de um regime de exceção, época em que a seleção canarinho conquistou o tricampeonato no México e o mundo era dividido entre os blocos comunista e capitalista. Hoje somos mais de 204 milhões de brasileiros, geramos 215 toneladas de resíduos sólidos urbanos diariamente ou 78 milhões de toneladas por ano - de acordo com dados demográficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e dados sobre resíduos sólidos da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE). 

Os costumes, as ações e as atividades humanas ao longo do tempo muito contribuíram para a contaminação dos solos e dos corpos hídricos e para a poluição atmosférica por falta de planejamento - ou ineficiência deste para gerenciamento adequado de resíduos - frente à explosão demográfica  e à expansão das cidades em todo o planeta [de 2 bilhões de pessoas em 1927 para 7 bilhões de pessoas em 2012]. O impacto das escolhas e dos atos de cada indivíduo e o que isso pode acarretar é algo que merece um olhar atento e crítico à luz do nosso tempo.

As premissas da Sustentabilidade (o equilíbrio para atender ao desenvolvimento econômico, social e ambiental) - tão importantes para a coexistência e a equidade - começaram a ser percebidas a partir do momento em que sinais de graves alterações nas esferas ecológicas (atmosfera, hidrosfera, litosfera e biosfera) tornaram-se mais claros e evidentes, despertando globalmente uma consciência voltada para a preservação do meio ambiente, do uso sustentável dos recursos naturais e da proteção da dignidade humana. Investir em educação e capacitação das pessoas para a vida é um recurso louvável que só traz solução para compreender e tratar problemas de origem antrópica.

Diante dessa realidade é que se faz necessária a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos que consumimos - da extração da matéria-prima, passando pela produção até a última etapa do seu descarte - e um dos instrumentos mais eficazes para enfrentar desafios no século XXI é a logística reversa - "conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final ambientalmente adequada" (SINIR). 

Sancionada em 2 de agosto de 2010, a lei número 12.305 instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos que incorporou conceitos modernos à gestão ambiental e tem como objetivos:

 A não geração, redução, reutilização, reciclagem e tratamento de resíduos sólidos;

 A disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos;

 A racionalização do uso dos recursos naturais (água, energia, insumos) no processo de produção de novos produtos;

A intensificação das ações de educação ambiental;

 O aumento da reciclagem de materiais no Brasil;

 A promoção da inclusão social;

 A geração de emprego e renda para catadores de materiais recicláveis.

Tais diretrizes, notadamente, orientam boas práticas socioambientais ao Poder Público, à iniciativa privada e também aos cidadãos.  

E aí vem a urgência de uma pergunta emblemática carregada de valores subjetivos..., do que você precisa realmente??? Enfatizar esse questionamento provoca uma profunda reflexão acerca do poder de consumo individual que somado a milhões de outros tende a elevar uma determinada região à condição de próspera e, consequentemente, maior será a sua capacidade de gerar os mais variados tipos de resíduos cuja origem pode ser domiciliar, de limpeza urbana, de estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços, de serviços públicos de saneamento básico, industriais, de serviços de saúde, da construção civil, agrossilvopastoris, de serviços de transportes e de mineração. 

O aumento da expectativa de vida da humanidade está diretamente relacionado aos progressos da ciência e aos avanços da tecnologia, algo providencial, mas na contramão da qualidade de vida que se adquiriu, pelos esforços e pela genialidade de inúmeras mentes brilhantes, o padrão alcançado pelo consumismo e a demasiada exploração dos ecossistemas pende um dos lados da balança, o que já causa danos irreparáveis em 75% da superfície terrestre, número que deve chegar a 90% em 2050 - segundo a Plataforma Intergovernamental Sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos.

Pensar e propor mudanças de paradigmas em benefício da coletividade muitas vezes chocam-se com resistências culturais ou ceticismo, ainda que se apresente justificativas embasadas por estudos e evidências científicas, fato é que gerenciar a sustentação da quantidade exponencial de bens duráveis e descartáveis produzidos em escala planetária dependerá da adoção da economia circular em todos os níveis da sociedade, onde haja programas de incentivo à reciclagem e coleta seletiva de materiais.

Prudente esclarecer que, do ponto de vista técnico, resíduos sólidos reversos são materiais residuais reaproveitáveis que devem ser destinados a processos de reuso, reciclagem [de papéis, plásticos, metais, vidros], compostagem [restos de alimentos] ou geração de energia; rejeitos ou lixos englobam os materiais residuais sem possibilidade de reaproveitamento e que devem receber disposição final ambientalmente adequada em aterros sanitários.

A agenda a se cumprir a partir desse entendimento é promover intensamente a cultura do não desperdício [Brasil desperdiça 40 mil toneladas de alimentos por dia] e fazer entender que o acúmulo das coisas deixadas pelo rastro da compulsão consumista é um caso sério e não uma mera causa, pois entope bueiros e galerias pluviais e super lotam vazadouros a céu aberto.

Da sociedade residual, ainda resta um pouco de esperança ou sobram boas intenções que precisam traduzir-se em ações efetivamente ostensivas face à degradação ambiental que acomete sem nenhuma distinção qualquer ser humano. Porque se quisermos concentrar esforços trabalhando estrategicamente para uma economia de baixo carbono [baseada na redução das emissões de CO2 na atmosfera através da produção mais limpa de bens e serviços], teremos que redefinir o nosso papel no mundo e a pressão que exercemos sobre as fontes de recursos de toda natureza em favor do clima, da água e da segurança alimentar a fim de conter conflitos entre povos e crises migratórias.

Considerando que a renovação de certos recursos não acompanha a curta perspectiva de vida humana em razão da extração desmedida, o caráter imediatista dos hábitos de consumo - seja nos países desenvolvidos ou nos países em desenvolvimento - segue a lógica da "liquidação enquanto há promoção", mas nenhum poder aquisitivo será suficiente o bastante para restaurar ou compensar o capital natural quando este colapsar.



Referência

• FIGUEIRA, Ana Cecília Bulhões. Gerenciamento de resíduos sólidos. Rio de Janeiro: SESES, 2016.



Por: Gustavo Nobio. O autor é técnico em Meio Ambiente formado pela FUNCEFET (RJ) e voluntarioso promotor da Sustentabilidade; articulista, comunicador ambiental e fundador do site SenhorEco.org.


A Oposição Entre Países Quanto Ao Corte de Emissões de CO2 Por Navios

De um lado, países desenvolvidos liderados pela União Europeia querem impor metas ambiciosas de redução de CO2 por navios de carga. Eles argumentam que, se nada for feito, os navios serão responsáveis por um quinto do total de emissões causadoras do aquecimento global nos próximos 30 anos. Uma das propostas é eliminar por completo a emissão de CO2 no transporte marítimo até 2050. 

Por outro lado, nações como Brasil, Chile, Argentina e Panamá afirmam que metas como esta prejudicariam duramente as economias de países em desenvolvimento, que dependem do transporte marítimo para exportar produtos primários, como aço, minério e soja. Eles defendem metas diferenciadas para nações mais pobres, que historicamente tiveram menos responsabilidade no aquecimento global. 

Ao longo desta semana, um grupo de trabalho da Organização Marítima Internacional, da qual o Brasil também faz parte, tentará chegar a um acordo para ser votado na semana que vem pelo comitê diretor da instituição. 

Como o transporte marítimo é internacional – com o carregamento de mercadorias de praticamente todos os países pelos mares -, a decisão sobre os cortes de emissões está a cargo da Organização Marítima Internacional, formada tanto por representantes de países como por membros da indústria naval. 

‘Responsabilidades diferenciadas’ 

O embaixador Hermano Telles Ribeiro, representante do Brasil em organizações internacionais no Reino Unido, afirmou que o Brasil não abre mão do princípio de "responsabilidades comuns, mas diferenciadas", adotado na Convenção de Paris – quando foram definidas metas gerais de redução de emissões. 

Com base neste princípio, países desenvolvidos devem contribuir mais que as nações em desenvolvimento no esforço pela proteção do meio ambiente, inclusive financiando medidas de redução das emissões de dióxido de carbono em países pobres. 

"Vamos buscar um texto consensual, possivelmente com a indicação de algumas metas atingíveis, sendo respeitado o Acordo de Paris e o conceito de responsabilidades comuns, porém diferenciadas. A delegação está brigando por isso", disse. 

Conforme Telles Ribeiro, se os europeus não admitirem flexibilizar as metas gerais de redução de emissões, a discussão poderá ser adiada. Na prática, isso postergaria a adoção de medidas de redução de emissões de carbono. 

"Na hipótese de haver um racha, de os países desenvolvidos insistirem em tetos de emissão imediatos, é possível que o comitê prorrogue a discussão para uma outra etapa. A gente não quer isso. Queremos trabalhar para que o consenso seja encontrado e que mecanismos justos e factíveis sejam adotados." 

Reino Unido e União Europeia querem que toda a indústria naval reduza, até 2050, de 70% a 100% o nível de emissão de carbono verificado em 2008. Reduzir em 100% seria exigir uma troca completa do tipo de combustível utilizado atualmente. 

Mas que argumentos cada grupo usará para defender suas propostas? 

Geografia, tipo de produto exportado e distorções comerciais 

Os países em desenvolvimento, principalmente os localizados na América do Sul, alegam que, por mais que a Europa use argumentos ecológicos para conter as emissões, o efeito da imposição de metas seria beneficiar as economias europeias e prejudicar as nações exportadoras de produtos primários. 

Este argumento se baseia em dois fatores: tipo de produto exportado e geografia. Grande parte dos países em desenvolvimento têm economias dependentes da exportação de commodities (matérias-primas e alimentos) e dependem do transporte marítimo para que essas mercadorias cheguem aos mercados consumidores. 

Os países desenvolvidos, embora também exportem produtos agrícolas e bens industrializados, "vendem" serviços e possuem economias mais diversificadas. Portanto, dependeriam proporcionalmente menos do transporte marítimo. 

"No caso do Brasil, 90% do nosso comércio navega. E pagamos um frete: como exportamos muitas commodities, temos que exportar um volume maior para conseguir os mesmos retornos que países industrializados obtêm com a venda de produtos com valor agregado, que custam mais", afirma o embaixador brasileiro. 

Além disso, a localização dos países tem influência, segundo ele. Os países europeus e a Austrália estão mais próximos de grandes mercados consumidores, como Índia e China. Portanto, os custos que eles têm com transporte marítimo seriam menores que os de países da América do Sul. A China, por exemplo, é o maior importador de produtos brasileiros. 

"Estabelecer metas é beneficiar quem está perto dos grandes mercados consumidores de commodities. Dependendo da medida que você adotar, você vai privilegiar economias mais avançadas, o que contraria o que tem acontecido em todas essas decisões e negociações relacionadas a mudanças climáticas", ressalta Hermano Telles Ribeiro

Segundo ele, inicialmente a ideia da Organização Marítima Internacional era iniciar a adoção de metas específicas de redução de emissões em 2023, com base nas informações obtidas por um sistema de coleta de dados que está sendo implantado para produzir um "mapa de emissões" de navios. 

"Se isso é antecipado, com as metas mencionadas, poderá causar uma nova divisão internacional do trabalho e inviabilizar o atual modelo de negócio de grandes companhias", diz o embaixador brasileiro. 

E o que dizem os europeus? 

Os representantes europeus argumentam que a indústria de transporte marítimo de carga precisa adotar ações mais específicas e ambiciosas para garantir que as metas de redução de emissões do Acordo de Paris sejam cumpridas. 

A ideia é que somente a imposição de metas específicas – como a de reduzir em 100% as emissões de CO2 – será capaz de impulsionar a indústria naval a agir para desenvolver tecnologias limpas. 

"Outros setores estão agindo para evitar o aquecimento global. O transporte por navio pode ficar para trás [nesse esforço]", afirmou Nusrat Ghani, chefe do departamento de transporte marítimo da Secretaria de Transporte do Reino Unido

"Estamos fazendo um apelo aos outros membros da Organização Marítima Internacional (IMO) a colocar em prática uma estratégia ambiciosa de corte de emissões de navios." 

O Reino Unido argumenta ainda que, após os investimentos iniciais, a própria indústria naval vai se beneficiar do uso de combustíveis alternativos e do corte de emissões, já que os combustíveis fósseis compõem boa parte dos custos atuais do transporte de mercadorias por navios. 

Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) afirma que seria possível acabar por completo com emissões de carbono por navios até 2035. Mas, para isso, seria necessário um esforço conjunto e a combinação de diferentes tipos de tecnologia existentes hoje. 

"Pedimos que a indústria naval adote essas propostas, não apenas porque isso é do interesse deles, mas também porque é a coisa certa a se fazer", afirmou Guy Platten, da Câmara de Transporte do Reino Unido

Por sua vez, na visão dos países em desenvolvimento, exigir um corte drástico e repentino de emissões geraria prejuízos ao comércio internacional, já que os navios atualmente em operação teriam que ser reformados ou substituídos. 

"Eu quero ser ambicioso, mas a ambição tem que ser compatível com a tecnologia de hoje. Imagina mudar o paradigma industrial em navios com base num ditame, de uma hora para outra. Há navios enormes e custosos em operação", afirma o embaixador Hermano Telles Ribeiro

"Adotar uma estratégia não calculada que signifique reduzir as emissões a zero até 2050 é não considerar o estágio atual da tecnologia", disse um porta-voz do Panamá, país que também se juntou ao Brasil para pedir tratamento diferenciado a nações em desenvolvimento.

Por: Nathalia Passarinho (BBC Brasil) / Roger Harrabin (BBC News).

Google Atinge 100% em Compensação Energética Renovável em Todo o Mundo

Centro de processamento de dados do Google em Eemshaven, Holanda.

Google anunciou em 04/04/2018 que adquiriu energia renovável para compensar 100% do uso energético da empresa. Mas isso significa que ela utiliza somente energia renovável? Não. 

Tal qual empresas que compram créditos de carbono, a compensação energética apresentada pelo Google é representada pelo investimento em modelos sustentáveis para cada parcela de energia não renovável utilizada pela gigante. 

"Ao longo de 2017, em todo o mundo, para cada quilowatt-hora de eletricidade que consumimos, compramos um quilowatt-hora de energia renovável de um parque eólico ou solar construído especificamente para o Google. Isso nos torna a primeira nuvem pública, e companhia do nosso tamanho, a ter alcançado esse feito", escreveu Urz Hölzle, vice-presidente para estruturas técnicas do Google em postagem oficial. 

Gráfico mostra compensação energética de gigantes mundiais [clique na imagem para ampliar!].

Ao todo, de acordo com Hölzle, a empresa investiu mais de 3 bilhões de dólares em energia renovável durante o ano. Em 2016, a empresa já tinha 57% do pagamento de seus déficits energéticos renováveis em todo mundo. "Nesse mesmo ano, assinamos um número recorde de novos contratos para empreendimentos eólicos e solares que ainda estavam em construção. Esses projetos começaram a operar em 2017 - e essa produção adicional de energia renovável foi suficiente para cobrir mais de 100% do que usamos durante todo o ano", explica na nota. 

A empresa agora afirma que a construção de novos data centers e escritórios será feita a partir da perspectiva de uso de energia renovável. Contudo, ao passo em que há regiões nas quais não há oferta deste tipo de energia, a empresa se compromete em colaborar com o fomento do mercado. 

"Queremos chegar a um ponto em que as energias renováveis ​​e outras fontes de energia livres de carbono realmente impulsionem nossas operações a cada hora de cada dia. Será necessária uma combinação de estruturas de tecnologia, política e novos negócios para chegar lá, mas estamos animados com o desafio", acredita Hölzle

Atualmente, o Google é a principal empresa em termos de compra de energia renovável no mundo, seguida de Amazon, Microsoft e Apple.

Por: Wagner Alves (CanalTech). Fonte: Google.

O Brasil em Busca da Revolução dos Ventos

Complexo de Calangos, no Rio Grande do Norte, a maior instalação renovável da Iberdrola na América do Sul. Foto/Divulgação: Pedro Vitorino (Neoenergia).

Meio-dia. O sol está no topo na Serra de Santana*. Nesta região do semiárido potiguar, o calor sobe do solo. Não há verde, exceto por alguns cactos que costumam brotar sem programação. Na seca severa a paisagem se torna acinzentada, mas agora é época de chuvas e as árvores recomeçam a ganhar suas folhas. A natureza por ali é cruel. Mas ao mesmo tempo bondosa. Quando a chuva falta, o vento sobra em abundância. E, além de amenizar o calor, serve também para produzir eletricidade. Por isso, nos últimos anos, os sertanejos daquelas terras viram surgir turbinas do tamanho de prédios de 26 andares, que utilizam o vento pra produzir energia não poluente. As estruturas se repetem em muitas regiões do Nordeste, mudando o cenário local. Já são tantas que ajudaram a levar o Brasil à oitava posição no ranking mundial de geração de energia eólica, segundo dados divulgados em abril de 2018 pela Global Wind Energy Council (GWEC). O prognóstico é que, em alguns anos, o país possa chegar a sexto, encostando em gigantes da área como a Espanha e a Índia

O projeto de energia eólica no Brasil começou a ganhar força em 2009, quando o país passou a realizar leilões específicos para fontes de energias renováveis alternativas com contratos de 20 anos, trazendo garantia de retorno financeiro para os investidores. Com isso, despertou o interesse do mundo no potencial de seus ventos. Atualmente 6.600 aerogeradores, as grandes turbinas horizontais que usam o vento para gerar energia, estão distribuídos em 518 parques eólicos, segundo dados da Associação Brasileira da Energia Eólica (ABEEólica). Juntos, eles são capazes de gerar 13 gigawatts de energia ao mês, ou 8,3% do que todas as matrizes energéticas produzem no país. No ano de 2017, segundo a associação, a energia dos ventos abasteceu, em média, 22,4 milhões de residências ao mês. Segundo o Ministério de Minas e Energia, dados recentes sobre o custo real de cada uma das fontes de energia apontam ainda que ela teve, no ano passado, o preço mais baixo dentre todas as matrizes. 

Com os leilões já realizados, até 2023 o país implementará mais 213 parques, com um acréscimo de 4,8 GW. E a expectativa é que a capacidade total de energia eólica instalada chegue a 28,5 GW até 2026, segundo o Plano Decenal de Expansão de Energia brasileiro, aumentando a participação desta matriz para 12,5%. E, ainda assim, restará um enorme potencial eólico a ser explorado. Segundo o Plano, os ventos brasileiros podem produzir até 350 GW de energia. Por isso, apesar da crise econômica enfrentada pelo Brasil nos últimos anos, os investimentos na área continuam. O grupo espanhol Iberdrola, maior produtor de energias renováveis da Europa e dos Estados Unidos, anunciou que pretende investir nos próximos quatro anos 15 bilhões de reais no país nas suas diversas frentes de trabalho. A empresa é controladora da Neoenergia, a maior distribuidora privada de energia brasileira, com forte atuação no Nordeste. Ela gerencia 17 parques eólicos na região: três na Bahia, 11 no Rio Grande do Norte e três na Paraíba, onde serão implementados outros nove até o início de 2022. 

Energia limpa

"Em termos de futuro, o Brasil ainda tem um enorme potencial e dará exemplo para outros países", explica Marco Aurélio dos Santos, coordenador do Programa de Planejamento Energético da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como não pode ser estocada, a energia produzida pelos aerogeradores entra na rede elétrica, interligada em todo o país, no momento em que é produzida. Por isso, em épocas de muito vento, o Brasil consegue economizar parte da água dos reservatórios das hidrelétricas, resguardando-a para os momentos de menos vento, por exemplo, explica o professor. "É uma questão de otimização do sistema", afirma. 

Além disso, outra vantagem da eólica é que ela é mais limpa e ajuda o país a cumprir seus compromissos ambientais. E provoca menos impacto social do que a construção de hidrelétricas, outra energia renovável limpa, que no Brasil corresponde a 60% da capacidade energética instalada. Na construção da hidrelétrica de Belo Monte, por exemplo, áreas importantes de comunidades indígenas foram alagadas. No caso dos parques eólicos, as atividades podem continuar a ser realizadas mesmo com a instalação dos aerogeradores e acabam gerando uma renda extra para os donos das terras onde eles são implementados. As propriedades são escolhidas por meio de um software, que calcula quais são os pontos em que o vento é mais constante, explica Diogo Romeu Mariga, gerente de operação e produção da Neoenergia Renováveis

O criador de gado Marcelo Assunção, de 27 anos, divide com outras 17 propriedades locais 15 máquinas do Complexo Calangos, localizado na Serra de Santana, no sertão potiguar. Ao todo, o local inaugurado no final de 2016 possui oito parques em quatro municípios vizinhos do Rio Grande do Norte, com 117 aerogeradores no total. Por mês, Marcelo recebe pouco mais de 2.000 reais pelo uso de sua área e pode manter suas 20 cabeças de gado pastando abaixo das turbinas. "O espaço utilizado é pouco, então não houve muita diferença. A gente tinha visto uns vídeos de como funcionavam as máquinas na Espanha. E quando eles chegaram, assustamos um pouco com o barulho", conta ele. "Mas com o dinheiro extra construímos um poço, o que ajuda na época da seca", afirma. 

O país, entretanto, enfrenta um desafio importante na área. Não basta aumentar a geração de energia eólica, é preciso garantir que ela chegue até os consumidores por meio das linhas de transmissão. Muitos parques, prontos, ficaram parados durante anos porque não estavam conectados com a rede elétrica. "O sistema de transmissão impõe um desafio. Em lugares como o Rio Grande do Sul e o Rio Grande do Norte, onde há um enorme potencial, temos uma baixa margem de escoamento", ressalta Eduardo Azevedo, secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia do Brasil. Mas ele afirma que os novos leilões, a partir de 2014, colocaram a garantia de que a empresa vencedora também é responsável por garantir a conexão. E o ministério realiza estudos para ampliar a rede atual. 

Potencial do Nordeste

O Rio Grande do Norte, onde fica Calangos, é o Estado que possui mais parques eólicos (137) e um dos maiores potenciais para o aproveitamento dos ventos, explica Jacques Cousteau, coordenador do curso de Engenharia de Energia do Instituto Federal do Rio Grande do Norte. "Está na esquina do Brasil, possui ventos abundantes e frequentes o ano todo", diz. 

Oito de cada dez parques instalados no Brasil estão no Nordeste. Na região mais pobre do país, os ventos estão entre os mais ricos do mundo, de acordo com especialistas. Ele são fortes, constantes e unidirecionais, o que potencializa o trabalho dos aerogeradores. Desta forma, as máquinas não precisam mudar de posição o tempo todo para buscar o vento mais adequado do momento. "É um vento muito especial, um recurso ímpar, que traz uma vantagem comparativa com outros países porque tem uma produtividade alta e um custo de produção menor", explica Elbia Gannoum, presidenta da ABEEólica. Segundo ela, enquanto a média europeia de produtividade do vento é de 28%, a nordestina ultrapassa os 50% na época conhecida como safra dos ventos, período que vai de julho a novembro. No Rio Grande do Sul, outra região do Brasil onde os parques se proliferaram nos últimos anos, ela chega a 40%. 

De acordo com dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), responsável por coordenar a geração e transmissão de energia no país, em 21 de outubro de 2017 a geração de energia eólica bateu recorde no Nordeste, conseguindo suprir 62,74% da carga de energia da região. Ao somar o produto desta matriz com o gerado pelas hidrelétricas locais, em alguns dias dos meses de setembro e outubro do ano passado a região, que geralmente importa energia de outras áreas brasileiras, chegou a transferi-la para outras partes do país. "Sem a eólica, a gente estaria com um problema de geração de energia no Nordeste", garante Eduardo Azevedo, secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia. Até 2026, a expectativa é que o Nordeste se torne um exportador frequente de energia para outras áreas do país.

Por: Talita Bedinelli (El País). *A jornalista viajou a convite da Neoenergia/Iberdrola.

Atividades Humanas Já Danificaram 75% da Superfície Terrestre

Número deve chegar a 90% até 2050, segundo o novo relatório sobre degradação e restauração de áreas degradadas divulgado pela Plataforma Intergovernamental Sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES). Foto: Dudarev Mikhail / Shutterstock.com.

Apenas 25% da superfície terrestre permanece livre de impactos substanciais causados por atividades humanas. E o índice deve cair para meros 10% até 2050, segundo projeções da Plataforma Intergovernamental Sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES). 

"Apenas algumas regiões nos polos, desertos e as partes mais inacessíveis das florestas tropicais permanecem intactas", afirmou o sul-africano Robert Scholes, um dos coordenadores do relatório temático sobre Degradação e Restauração de Terras Degradadas divulgado pela IPBES em 26/03/2018, em Medellín, na Colômbia

O documento na íntegra e um sumário para tomadores de decisão foram aprovados pelos 129 países-membros da entidade durante a 6ª Reunião Plenária, que ocorreu entre os dias 17 e 24 de março de 2018. 

Segundo o texto, até o ano de 2014, mais de 1,5 bilhão de hectares de ecossistemas naturais foram convertidos em áreas agrícolas. Plantações e pastagens cobrem atualmente mais de um terço da superfície do planeta. "Os processos mais recentes de desmatamento estão ocorrendo nas regiões do globo mais ricas em biodiversidade", afirmaram os autores no texto. 

De acordo com Scholes, pode ser definido como degradação o processo que leva um ecossistema terrestre ou aquático a sofrer um declínio persistente das funções ecossistêmicas e da biodiversidade. "É quando uma determinada região tem sua capacidade de sustentar a vida – humana ou não – persistentemente reduzida", explicou. 

A expansão não sustentável de áreas dedicadas à agricultura e à pecuária é apontada no relatório como uma das principais causas do problema – que tende a se agravar com a demanda crescente por comida e biocombustíveis. Segundo os autores, o uso de pesticidas e fertilizantes deve dobrar até 2050. 

"Esses produtos químicos em excesso contaminam não apenas o solo como também os sistemas aquáticos, terminando por afetar a zona costeira. Já temos centenas de áreas mortas em regiões como o Golfo do México e isso ocorre por causa da forma que manejamos a terra. Portanto, esta é também uma questão de segurança hídrica e de preservação da costa", disse Robert Watson, presidente da IPBES

Outro fator importante que tem contribuído para a degradação de ecossistemas, de acordo com os cientistas da IPBES, é o estilo de vida de alto consumo dos países desenvolvidos – bem como o consumo crescente observado nos países em desenvolvimento. 

O combate ao problema, afirmam, deve necessariamente incluir a adoção de uma dieta mais sustentável, com menos produtos de origem animal e maior preocupação com os métodos usados na produção dos alimentos e demais produtos consumidos. 

"Não estamos dizendo para as pessoas pararem de comer carne, mas para se preocuparem com o modo com que ela foi produzida. E, acima de tudo, acabar com o desperdício de comida. Hoje, entre 35% e 40% do que é produzido nos países desenvolvidos não é aproveitado", disse Watson

Para o italiano Luca Montanarella, outro coordenador do relatório, é necessário um esforço de comunicação que ajude moradores das áreas urbanas a se reconectarem com a terra que os alimenta. 

"Esperamos que a solução para problemas como esse venha de fora, mas nós, como consumidores, temos nossa carga de responsabilidade. Estamos dispostos a pagar caro por celulares ou computadores, mas queremos que a comida seja barata. E não percebemos os impactos de nossas escolhas alimentares porque, muitas vezes, eles se manifestam em regiões distantes", disse. 

Para Montanarella, a degradação da superfície terrestre é um problema que precisa ser resolvido localmente, mas em um contexto global. Na avaliação de Scholes, os subsídios oferecidos pelos governos aos produtores rurais tendem a promover uma expansão não sustentável da produção, pois permitem que corram mais riscos. 

"É possível aumentar a produção sem avançar sobre áreas naturais e sem abusar de produtos químicos. Intensificação é uma grande parte da resposta, mas por meio de uma melhora das práticas de manejo da terra, promovendo a ciclagem de nutrientes, por exemplo", afirmou. 

Para Scholes, o Brasil está em uma posição favorável para lidar com essas questões por ter fortalecido ao longo dos últimos anos sua capacidade de realizar pesquisas científicas e por ter especialistas capazes de orientar soluções. 

"Há um clamor político pelo fim do desmatamento e da destruição de áreas alagáveis. Temos uma oportunidade de começar a fazer as coisas de um jeito melhor. Há espaço no mercado para isso. As pessoas cada vez mais vão se questionar se os produtos que compram do Brasil são bons ou ruins [do ponto de vista ambiental]", disse Scholes

Watson reconhece que a produção de biocombustíveis, soja e carne é hoje a base da economia brasileira e afirma ser valiosa para muitos outros países. "O desafio é produzir esses bens de maneira mais sustentável. Avançar em direção das boas práticas. Há um jeito mais esperto de fazer isso e seria uma grande contribuição do Brasil." 

Três faces do mesmo problema 

De acordo com o relatório da IPBES, os processos de degradação da terra já comprometem o bem-estar de dois quintos da humanidade – 3,2 bilhões de pessoas. Isso tem sido uma das principais causas de migração humana – o que, por sua vez, está relacionado com a intensificação de conflitos entre os povos e empobrecimento de populações, na avaliação de Watson

"A degradação da superfície terrestre está nos conduzindo para a sexta extinção em massa de espécies", alertou Scholes

Para os autores do relatório, processos de degradação, perda de biodiversidade e mudanças climáticas são três faces de um mesmo problema – um fator intensifica o outro e não pode ser combatido isoladamente. 

Segundo o documento, os processos de degradação contribuem fortemente para a mudança climática, tanto pelas emissões de gases-estufa resultantes do desmatamento como pela liberação do carbono anteriormente armazenado no solo. Foram liberados 4,4 bilhões de toneladas de CO2 somente entre os anos de 2000 e 2009, segundo a IPBES

"Dada a importância da função de sequestro e armazenamento de carbono pelo solo, reduzir e reverter os processos de degradação da terra podem oferecer mais de um terço das atividades de mitigação da emissão de gases estufa necessárias até 2030 para manter a elevação da temperatura média da Terra abaixo de 2º Celsius, como propõe o Acordo de Paris, além de aumentar a segurança alimentar, hídrica e reduzir conflitos relacionados à migração", disseram os cientistas. 

Outro objetivo do relatório temático foi avaliar processos de restauração de terras degradadas já concluídos ou em andamento. Como explicou Scholes, foi definida como restauração qualquer iniciativa intencional de acelerar a recuperação de ecossistemas degradados. 

"Fizemos uma diferenciação entre restauração e reabilitação. Esta última corresponde a iniciativas voltadas a recuperar algumas das funções críticas da terra e criar condições para que talvez ela seja recuperada. Mas retornar ao que era antes da degradação pode não ser possível em muitos lugares", explicou. 

Segundo Scholes, a restauração de áreas agrícolas degradadas, por exemplo, pode significar devolver ao solo sua qualidade original – bem como promover a integração de culturas agrícolas, criação de animais e silvicultura. 

Iniciativas bem-sucedidas em áreas alagáveis incluem controle de fontes poluidoras e reinundação de áreas úmidas danificadas por drenagem. Para áreas urbanas as opções são planejamento espacial, replantio de espécies nativas, desenvolvimento de “infraestrutura verde” (parques e rios), remediação de solos contaminados e cobertos (sob asfalto, por exemplo), tratamento de águas residuais e restauração de canais fluviais. 

Para os cientistas, a solução do problema requer a integração das agendas agrícola, florestal, energética, hídrica e de infraestrutura e serviços. Isso, por sua vez, necessita de políticas coordenadas entre os diferentes ministérios para, simultaneamente, incentivar práticas mais sustentáveis de produção e de consumo de commodities

Os benefícios obtidos por meio da restauração de áreas degradadas excedem em mais de 10 vezes o custo dessas iniciativas, segundo a IPBES

"Implementar as ações adequadas pode transformar a vida de milhões de pessoas no planeta, porém, quanto mais demoramos para agir mais difícil e cara se torna a reversão do problema", afirmou Watson

O caso brasileiro 

De acordo com Carlos Alfredo Joly, coordenador do Programa BIOTA-FAPESP e da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES), a degradação está presente em todos os biomas e regiões brasileiras. É mais intensa, porém, em áreas onde a ocupação humana é mais antiga, como é o caso da Mata Atlântica

Segundo dados do Departamento de Florestas do Ministério do Meio Ambiente (MMA), o Brasil tem 200 milhões de hectares de áreas degradadas. 

Exemplos bem-sucedidos de restauração também estão presentes no país, ressaltou Joly, sendo um dos mais antigos da época do Império, no século 19. 

"A restauração da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, foi ordenada por D. Pedro II por recomendação do Conselheiro José Bonifácio de Andrada e Silva, para recuperar e proteger as nascentes que abasteciam a cidade. O imperador mandou desapropriar terras de fazendeiros e nobres nas encostas do maciço que divide a cidade ao meio para recompor a área que, já no século 19, estava quase totalmente ocupada por fazendas, pastos e lavouras de café. Poucos turistas que visitam o Parque Nacional da Tijuca sabem que estão caminhando em uma área restaurada", disse Joly

Outro bom exemplo em pleno desenvolvimento é o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica – do qual o BIOTA participa por meio de pesquisadores como Ricardo Ribeiro Rodrigues e Pedro Brancalion

Dados do BIOTA também embasaram a norma baixada pela Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo para regulamentar a restauração ambiental na região (leia mais em: http://agencia.fapesp.br/4773). 

Rodrigues e Brancalion – ambos membros do BIOTA e da BPBES – estão entre os brasileiros que integraram a equipe de cientistas que elaborou o relatório divulgado em 26/03/2018 pela IPBES, assim como Jean Paul Metzger. Também contribuíram Marina Morais Monteiro (Universidade Federal de Goiás), Geraldo Wilson Fernandes (Universidade Federal de Minas Gerais), Simone Athayde (University of Florida, Estados Unidos) e Daniel Luis Mascia Vieira (Embrapa). 

Para produzir o documento, mais de 100 autores de 45 países revisaram mais de 3 mil fontes de informação – que incluem artigos científicos, relatórios de governos e reuniões com representantes de comunidades indígenas e locais. 

"O texto passou por um extenso processo de revisão por pares e foi melhorado com mais de 7,3 mil comentários de revisores externos. Além disso, o sumário para tomadores de decisão foi amplamente debatido com os representantes dos países que integram a IPBES. O objetivo desse debate é aumentar a relevância do conteúdo para a formulação de políticas públicas", explicou Anne Larigauderie, secretária executiva da IPBES.

Por: Karina Toledo (Agência Fapesp).

Unesco Propõe Solução Verde Para Gerenciamento da Água no Mundo

Cerca de 5 bilhões de pessoas viverão em áreas com baixo acesso à água em 2050, caso o padrão de uso da água não seja alterado. A expectativa faz parte do Relatório Mundial das Nações Unidas sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos 2018 lançado em 19/03/2018, no 8º Fórum Mundial da Água, em Brasília. O documento propõe a busca de soluções baseadas na natureza (SbN), que usam ou simulam processos naturais, como alternativas na gestão da água no mundo. 

"Muitas pessoas no mundo vão entrar em uma zona de risco em pouco tempo, isso afeta a paz mundial", alertou a diretora-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Audrey Azoulay. A organização conduziu o estudo em parceria com outras 31 instituições do sistema das Nações Unidas (ONU) e 39 parceiros internacionais que formam a ONU Águas (UN Waters). 

Para Audrey Azoulay, são necessárias novas soluções na gestão da água para superar os desafios da segurança hídrica causados pelo crescimento populacional e pelas mudanças climáticas. Segundo a diretora-geral da Unesco, a publicação pretende apoiar governos na transição para o uso de políticas públicas verdes. “Não temos água suficiente para 7 bilhões de pessoas. Agora é o momento para agirmos em parceria com a natureza e não contra ela”, disse. Audrey Azoulay defendeu ainda a aproximação dos conhecimentos ancestrais de populações indígenas, que estão diretamente em contato com a natureza. 

O documento mostra que, apesar da disseminação das tecnologias que envolvem a conservação ou a reabilitação de ecossistemas naturais, esses processos correspondem a menos de 1% do investimento total em infraestrutura para a gestão dos recursos hídricos. O relatório ressalta que abordagens clássicas não permitem que a segurança hídrica sustentável seja alcançada. Já as soluções baseadas na natureza trabalham diretamente com a natureza, não contra ela e por isso oferecem meios essenciais para ir além das abordagens tradicionais, de modo a aumentar os ganhos em eficiência social, econômica e hidrológica no que diz respeito à gestão da água. "As SbN são especialmente promissoras na obtenção de progressos em direção à produção alimentar sustentável, à melhora dos assentamentos humanos, ao acesso ao fornecimento de água potável e aos serviços de saneamento, e à redução de riscos de desastres relacionados à água. Elas também podem ajudar na resposta aos impactos causados pela mudança climática sobre os recursos hídricos", diz a publicação.

Segundo a oficial do Programa Mundial de Avaliação de Recursos Hídricos da Unesco, Angela Ortigara, o objetivo da publicação é incentivar a adoção de soluções baseadas na natureza para que sejam efetivamente consideradas na gestão da água.

"O que acontece, muitas vezes, é que, por facilidade, praticidade ou falta de conhecimento, ninguém pensa que se pode utilizar a natureza para gerenciar, por exemplo, enchentes ou prevenir um caso de seca. E, no entanto, o que a gente quer nesse relatório é mostrar que não é preciso necessariamente construir grandes obras de infraestrutura para melhorar a gestão da água", afirmou Angela, em entrevista exclusiva aos veículos da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

"O relatório quer que as pessoas abram os olhos para soluções que talvez não estejam tão claras do ponto de vista de engenharia, não sejam tão conhecidas, mas que podem trazer soluções que não são banais. Se decidir reflorestar uma área, a primeira coisa que vai pensar é: essa área estará coberta, terá animais, mas também ajudará a recarregar a água subterrânea, os aquíferos", disse a oficial da Unesco. "Há uma série de benefícios que são difíceis de ser quantificados economicamente e talvez essa seja uma das razões pelas quais essas soluções não venham sendo utilizadas. No entanto, são benefícios que têm que ser considerados se pensarmos em longo prazo", completou Angela.

Entre os exemplos dados pela publicação está a ampliação de banheiros secos, aqueles que evitam o lançamento de dejetos em tubulações ligadas a centros de tratamento de água ou em rios. Esse tipo de banheiro também permite a produção de composto orgânico ao final do processo. Em uma proposta de solução mais ampla, o relatório apresenta a experiência das cidades-esponjas, na China, em que construções absorvem água da chuva de forma rápida e segura. 

Experiências 

A publicação conta a experiência do estado do Rajastão, na Índia, que passou por uma das piores secas de sua história em 1986. Durante os anos seguintes, uma organização não governamental trabalhou com comunidades locais para estabelecer estruturas de coleta de água e regenerar solos e florestas da região. Segundo a diretora da Unesco, a iniciativa gerou um acréscimo de 30% na cobertura florestal, os níveis de águas subterrâneas subiram em alguns metros e a produtividade das terras aumentou. 

O coordenador do Programa Mundial de Avaliação dos Recursos Hídricos, Stefan Unlenbrook, lembrou dos desafios atuais na gestão da água que incluem inundações por um lado, escassez de água, por outro, além da diminuição da qualidade deste recurso. Ele reforçou o apelo do documento: "o mundo está em um caminho não sustentável e as soluções encontradas na natureza podem reverter esse caminho". 

Unlenbrook ressaltou que produções agrícolas podem aumentar em 20% em todo o mundo se forem utilizadas soluções verdes de gestão da água. O relatório cita um estudo que avaliou projetos de desenvolvimento agrícola em 57 países de baixa renda. O estudo mostrou que o uso mais eficiente da água, junto com a diminuição de agrotóxicos e a melhoria na cobertura do solo foram responsáveis por aumentar o rendimento da produção em 79%. 

"Até 2050 vamos aumentar a produção de alimentos em até 50%. Não é um problema rural, temos um problema urbano", alertou o coordenador. Unlenbrook também ressaltou que as tecnologias verdes não são a solução para todos os problemas, mas existe um potencial ainda inexplorado. "A legislação tem que ser repensada, pessoas argumentam que soluções são complicadas e que não são fáceis de executar essas ações e é verdade, mas temos uma alternativa muito mais sustentável", assegurou. 

Zonas Úmidas 

A publicação ressalta ainda que as zonas úmidas cobrem uma área de 2,6% da superfície da Terra, mas impactam de forma direta na qualidade da água. Essas regiões são responsáveis por filtrar substâncias tóxicas, de pesticidas a descargas industriais e da mineração. Segundo a Unesco, há evidências de que as zonas úmidas sozinhas podem remover de 20% a 60% dos metais na água e reter de 80% a 90% dos sedimentos de escoamento. 

Para atenuar riscos de desastres naturais, alguns países estão criando zonas úmidas artificiais. A publicação aponta que essas áreas atuam como barreiras naturais que absorvem e capturam água da chuva, diminuindo a erosão do solo e os impactos com desastres naturais, como inundações, por exemplo. De acordo com o relatório, o Chile anunciou medidas para proteger suas zonas úmidas litorâneas após o tsunami de 2010. Já o estado de Lousiana, nos Estados Unidos, criou a Autoridade de Proteção e Restauração Costeira, após o furacão Katrina, que devastou a região do Rio Mississipi, em 2005. 

No entanto, o documento mostra que apesar da disseminação das tecnologias que envolvem a conservação ou a reabilitação de ecossistemas naturais, esses processos correspondem a menos de 1% do investimento total em infraestrutura para a gestão dos recursos hídricos. 

Publicação 

O Relatório Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos (World Water Development Report – WWDR) é publicado anualmente, com foco em questões estratégicas sobre a água. O documento oferece um quadro geral do estado dos recursos de água potável no mundo e visa a proporcionar ferramentas sustentáveis a serem utilizadas pelos tomadores de decisões.

Por: Heloisa Cristaldo / Edição: Denise Griesinger (Agência Brasil).

Apesar dos Esforços, Dados Revelam Nossa Dificuldade de Lidar Com a Água



O mundo tem vários exemplos de países que transformam desertos poeirentos em pomares fecundos e, também, de povos que enfrentam sucessivas crises hídricas enquanto a água vaza pelo ladrão. Qualquer semelhança do Brasil com essa última categoria não será coincidência. Campeão mundial em disponibilidade de água doce, detentor dos mais fabulosos índices referentes à vazão, armazenamento e produção deste bem essencial à vida, o país hoje convive com escassez, conflitos de compartilhamento e queda de qualidade em diversos pontos de seu território. 

A relação escassez-fartura versus eficiência deve “esquentar” as apresentações e os debates do 8º Fórum Mundial da Água (World Water Forum 8), de 18 a 23 de março, no Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília. O evento é promovido de três em três anos pelo Conselho Mundial da Água, uma organização internacional privada, com sede em Marselha (França), presidida atualmente pelo brasileiro Benedito Braga, que é também secretário de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de São Paulo. Os organizadores do Fórum esperam a presença de mais de 40 mil pessoas – congressistas, especialistas, autoridades, políticos e sociedade civil. 

O tema central, Compartilhando água, é importante para o Brasil, pois um de seus maiores complicadores de gestão está na distribuição pouco justa das águas no território. O que tem de caudalosos os rios amazônicos, tem de mirrados os intermitentes cursos d’água na região do Semiárido. E, em que pese a boa disponibilidade hídrica nas regiões Sudeste e Sul do país, ela muitas vezes resulta em uma baixa oferta em razão da elevada demanda, conforme descreve Sérgio Ayrimoraes, superintendente de Planejamento de Recursos Hídricos da Agência Nacional de Águas (ANA) – lembrando que nos grandes centros urbanos o problema da qualidade soma-se ao da quantidade. 

Como no país ninguém é dono da água, trata-se de um bem a ser compartilhado. Nascentes que brotam em território goiano e mineiro formam importantes rios que vão abastecer a Bahia, o Rio de Janeiro, em meio a vários exemplos. Cabe à ANA, o órgão regulador, gerir essas dinâmicas entre os estados, regulando e gerenciando condições, características e limites mínimos de entrega de água de uma unidade federativa a outra. No caso brasileiro, dois tópicos importantes para o Fórum serão o compartilhamento de bacias transfronteiriças (que envolvem países vizinhos) e águas subterrâneas. “Tudo isso exige um gerenciamento integrado, pois é a mesma água em diferentes modalidades no território”, explica Ayrimoraes

Fontes e usos 

A publicação Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil, lançada pela ANA, em 2017, jogou luz não somente sobre a quantidade, a qualidade e as formas de uso das águas que banham a superfície do território brasileiro, mas iluminou também um pouco desse misterioso mundo subterrâneo, onde se estima haver disponibilidade de quase 15 mil metros cúbicos por segundo – a título comparativo, pela superfície escoam cerca de 260 mil m3/s, gerando uma disponibilidade hídrica, ou seja, uma quantidade de água ofertável de quase 80 mil m3/s. “Da mesma forma como ocorre com as águas superficiais, sua distribuição também não é uniforme, ocorrendo regiões de escassez e relativa abundância”, detalha o relatório, que reconhece haver muito para se descobrir sobre as vazões subterrâneas. 

Para a especialista em saneamento e recursos hídricos e idealizadora da coalizão Aliança Pela Água, Marussia Whately, o estudo da ANA trouxe dados reveladores. Além do alerta para a questão da exploração de aquíferos (o Conjuntura mostra que, de 2008 até 2016, devido ao agravamento da escassez hídrica, o número de poços tubulares cadastrados no país passou de 400 mil para 1,2 milhão), toda a leitura sobre os usos da água é, na opinião dela, surpreendente. “Até então as informações eram genéricas. Agora há um detalhamento muito grande, em especial no capítulo 3 do relatório”, assinala. 

Essa seção mostra que os grandes usos de água são para irrigação, abastecimento urbano, termoelétricas (resfriamento), indústria, uso animal, abastecimento rural e mineração, nesta ordem, em termos de retirada de água. Acontece que, para cada uma dessas atividades, há uma determinada quantidade de água que retorna aos corpos hídricos – por exemplo, o esgoto decorrente do abastecimento urbano. E o estudo detalha essas proporções. 

A diferença entre a retirada e o retorno ao corpo hídrico é o consumo efetivo de água por setor. O caso da irrigação é o mais ilustrativo por ser de longe o mais gastador: em 2016, o setor agrícola retirou 969 m3/s para irrigar lavouras; desse total, 745 m3/s viraram planta ou proteína animal; apenas 224 m3/s retornaram ao ambiente. A irrigação é, portanto, campeã tanto em retirada como em consumo de água. 

Um caso oposto é o das termoelétricas – muito utilizadas em tempos de escassez hídrica, quando as usinas hidrelétricas forçosamente reduzem a geração de energia. No mesmo período (2016), elas retiraram 216 m3/s e devolveram aos rios 213 m3/s. Ou seja, as termoelétricas, embora tenham usado mais água do sistema de abastecimento do que o setor industrial, que precisou de 192 m3/s, consumiram bem menos: apenas 2,9 m3/s, contra os 104,9 m3/s da indústria. 

Para dar uma ideia do que são os quase 1 mil m3/s usados para irrigação, o segundo maior usuário de recursos hídricos no Brasil – o abastecimento urbano – utiliza para atender os cerca de 180 milhões de brasileiros que moram nas cidades metade da água da irrigação (precisamente 488 m3/s, em 2016). 

“Nesse volume estão incluídas as perdas equivalentes a quase 40% [taxa referente ao volume de água que vaza das tubulações nas cidades brasileiras ou que é desviada]”, lembra Whately. E, diferentemente da irrigação, a água do abastecimento urbano volta para o corpo hídrico em forma de esgoto, tratado ou não, enquanto na irrigação a maior parte da água vira commodity e é exportada. 

Para Whately, esse consumo de água pelos sistemas de irrigação deve ser ainda maior do que os valores que aparecem no relatório da ANA, uma vez que os números se baseiam no sistema de outorga (concessão de uso dos recursos hídricos em um determinado trecho de curso d’água pelo agente regulador) que não abrange todo o país. O Conjuntura ainda deixa claro que a irrigação no Brasil é considerada pequena diante do potencial estimado. E pondera: “O aumento da irrigação resulta, em geral, em aumento do uso da água. Por outro lado, os investimentos neste setor resultam, também, em aumento substancial da produtividade e do valor da produção, diminuindo a pressão pela incorporação de novas áreas para cultivo”. 

Atrasos e gestão 

O diretor da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa) e pesquisador de hidrologia e gestão de recursos hídricos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Jorge Werneck Lima, reconhece que muitos dos problemas na relação entre oferta e demanda hídrica se devem, em parte, à falta de planejamento. Ele crê, porém, que a gestão de recursos hídricos vem se fortalecendo nos últimos 15 anos. 

A ANA foi criada somente em 2000 e as agências estaduais vieram depois disso. A Lei das Águas é de 1997 – a Lei nº 9.433 instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH) e criou o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (Singreh). “A gente percebe a evolução da gestão, mas os problemas evoluem ainda mais rapidamente”, admite Werneck, que atua como coordenador nacional do processo temático do 8º Fórum Mundial da Água.

Werneck atribui os problemas atuais de escassez não só à variabilidade climática, que tem alterado o volume e a distribuição das chuvas nas regiões do país: “Ocupamos mais o solo e isso tem trazido problemas de seca e de cheias com intensidades que não verificávamos antes, principalmente em São Paulo e no Distrito Federal”. Mais um caso sério, que afeta a qualidade, é a falta de saneamento: “Algumas cidades estão com essa questão bem equacionada, mas de maneira geral a gente trata muito pouco do esgoto gerado no Brasil”, afirma Werneck

O relatório da ANA reitera dados já bastante conhecidos dos brasileiros, como o de que somente 43% da população urbana brasileira possuem seu esgoto coletado e tratado, e 12% utilizam solução individual com fossa séptica. O Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) considera que esses 55% da população urbana brasileira estão providos com atendimento adequado. Os demais estão divididos entre 18% que têm seu esgoto coletado e não tratado, o que é considerado um atendimento precário, e 27% que não possuem coleta nem tratamento, isto é, são desprovidos de qualquer serviço de esgotamento sanitário. 

Bomba-relógio 

O tópico do estudo da ANA que analisa a qualidade das águas brasileiras traz um dado que surpreendeu Marussia Whately: mapas mostram que uma boa parte do território nacional ainda está em branco no quesito análise da qualidade da água. “Das 27 unidades da federação, só 17 têm sistema de monitoramento de qualidade”, afirma ela. “E os dados integrados das análises são baseados em Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO), um índice da década de 1970.” O DBO é um indicador das cargas orgânicas nos corpos hídricos que aponta a quantidade de oxigênio consumido nos processos biológicos de degradação da matéria orgânica no meio aquático. 

Para a especialista, a leitura atenta do relatório como um todo revela algumas “bombas-relógio”. Ao mesmo tempo, de todos os lados, desde a Encíclica papal até o Fórum Econômico Mundial em Davos (Suíça), chegam sinais da urgência e da emergência em relação aos cuidados com a água. “Esta deve se tornar a principal agenda da Sustentabilidade no século XXI. E também a mais complexa”, diz. 

Os detalhes de toda essa complexidade, que vai requerer um conjunto de acordos internacionais, legislações de diferentes áreas e indicadores dos mais variados, está no livro O Século da Escassez (Cia. das Letras, 2016), escrito por Whately em coautoria com a jornalista Maura Campanili. “São montanhas de dados que abordam o tema água sobre as quais precisamos nos debruçar.” 

Um dos indícios de que o Brasil não se deu conta da complexidade do tema – diz ela no livro – é o jargão “crise da água”. Por definição, “as crises são períodos de exceção dentro da normalidade. O que vemos, no entanto, é um cenário de difícil reversão”.

Por: Magali Cabral (P22).

Cientistas Descobrem Novo Ecossistema Marítimo em Águas Profundas do Caribe

A descoberta de novas espécies de peixes sob recifes de corais profundos do sul do Caribe permitiu aos cientistas detectar um novo ecossistema marítimo batizado como "zona rarifótica", segundo revela um estudo publicado no dia 20/03/2018 pela revista Nature [Below the Mesophotic]. 

A pesquisa, desenvolvida pelo Smithsonian Institution (EUA), permitiu aos especialistas observar a vida marinha muito abaixo dos recifes de corais pouco profundos da Ilha de Curaçao

A "zona rarifótica" está localizada a uma profundidade de entre 130 e 309 metros, logo abaixo da já conhecida "zona mesofótica", e foi descoberta graças aos dados obtidos por um submarino tripulado por "exploradores Smithsonians", explicam os autores em um comunicado. 

Alguns cientistas estão há tempos perguntando se os recifes profundos, conhecidos também como "recifes de coral da zona de penumbra", servem como refúgio para os organismos de recifes mais superficiais que buscam se proteger do aquecimento da água ou escapar da deterioração de seus ecossistemas. 

Ao tratar de abordar estas questões, os especialistas do Instituto Smithsonian constataram que "só uma fração" desse espaço situado abaixo do "mesofótico", chave para entender a biodiversidade dos recifes, foi analisada em detalhes até agora. 

"Esse fato é compreensível para áreas que estão a milhares de milhas da costa e à grande profundidade. Mas os recifes profundos tropicais estão logo abaixo dos populares e muito estudados recifes superficiais", aponta Carole Baldwin, principal autora do trabalho e diretora do Projeto de Observação de Recifes Profundos Smithsonian (DROP, por sua sigla em inglês). 

"Confiamos - acrescenta - que ao identificar a zona rarifótica de recife profundo, insistamos na necessidade de continuar explorando recifes profundos". 

Os especialistas definiram esta nova zona a partir da observação de cerca de 4,5 mil peixes representativos de 71 espécies durante aproximadamente 80 imersões do submarino tripulado "Curasub", até profundidades de 309 metros. 

A maioria dos peixes e invertebrados do rarifótico, destacam, não só se assemelham aos dos recifes superficiais, senão também são parentes deles, ao invés de terem parentesco com organismos que habitam as profundidades oceânicas, os quais, lembram, pertencem a um ramo evolutivo muito diferente. 

"Cerca de um em cada cinco peixes que encontramos na zona rarifótica pertence a uma outra espécie. Por enquanto, o meu favorito é o Haptoclinus dropi", celebra Ross Robertson, coautor do estudo.

Fonte: Agência EFE.

Afinal, O Que São As Panteras Negras?

Jaguar negro fotografado na Cidade do México. Foto: Babak Fakhamzadeh/Flickr.

O sucesso do filme Pantera Negra chamou também a atenção do projeto Panthera, que atua na pesquisa e conservação dos grandes felinos em todo o mundo. E eles resolveram explicar quem são as verdadeiras panteras negras da natureza, em uma entrevista com o cientista-chefe do projeto, Alan Rabinowitz. Além de falar sobre o que leva as pessoas a se encantarem com grandes felinos, como onças e leopardos, a entrevista explica didaticamente as diferenças de comportamento entre alguns dos animais mais poderosos do mundo. E porque as panteras são tão adoradas e temidas. A entrevista foi conduzida pela escritora sênior do projeto, Angela Cave

De onde vem a palavra "pantera"? 

Adam Rabinowitz, cientista-chefe do projeto Panthera.
Muitas pessoas parecem pensar que ‘pantera’ é apenas uma palavra genérica para felinos, o que não está tão longe da verdade. A etimologia da palavra vem lá de trás. Mas geralmente vem de ‘panthera’, o gênero latino ou a classificação taxonômica para todos os grandes felinos, principalmente tigres, leões, onças-pintadas e leopardos. 

Então, o que as pessoas pensam quando dizem ‘pantera negra’? 

Esta não é uma boa palavra para expressar o felino sobre o qual você quer falar. Este é um nome comum, que frequentemente tem diferentes significados para pessoas diferentes. Fora dos Estados Unidos, ‘pantera’ significa leopardos negros ou pode significar apenas leopardo. Nos Estados Unidos, estranhamente ‘pantera’ é mais frequentemente usada para leões-da-montanha ou pumas [conhecidos no Brasil também como suçuaranas ou onças-pardas]. [Se você] pensa que panteras são apenas felinos negros, então você deve permitir que a onça-pintada Petra também seja considerada uma ‘pantera’. Mas por definição, ‘panteras’ são leopardos, principalmente leopardos negros, na África e Ásia, e leões-da-montanha nos Estados Unidos. 

Porque alguns grandes felinos são negros? 

Alguns grandes felinos são negros pela mesma razão que, em qualquer espécie, incluindo humanos, temos diferentes variações na cor da pele. Existem aspectos relacionados à melanina nos grandes felinos. A coisa interessante é que nem todas as espécies podem ser pretas. Nós não conhecemos nenhum puma negro. Nós não conhecemos nenhum tigre verdadeiramente negro. Nós sabemos que jaguares podem ser pretos... nós não conhecemos nenhum leopardo-das-neves preto. Ainda que possam haver tigres brancos. Esta é uma variação de cor que ocorre muito especificamente para certas espécies. 

Onde vivem leopardos negros e onças pretas? 

Jaguares vivem geralmente nas Américas – do norte do México ao norte da Argentina, em sua distribuição atual. Dentro dessa área, teoricamente pode ocorrer em qualquer lugar. Nós sabemos que a maioria dos jaguares negros ocorre na Amazônia – no escuro, na floresta profunda. Leopardos Negros podem ocorrer em qualquer lugar de sua distribuição tanto na Ásia quanto na África. Na África, eles são solitários, misteriosos e difíceis de encontrar – e frequentemente estão em cima de árvores, onde as pessoas não os podem ver e de onde atacam. 

Como poderíamos descrever o estilo de matar ou lutar do jaguar e do leopardo? 

Eu penso que a onça-preta é provavelmente um dos melhores artistas marciais do mundo, mas a mesma coisa poderíamos dizer de modo diferente dos leopardos negros ou leopardos em geral. Há uma razão pela qual as artes marciais têm formas que imitam esses felinos. Ver um leopardo, com sua agilidade e habilidade, é lindo. E eles não apenas atacam e derrubam o animal. Quando eles matam, eles frequentemente matam muito cirurgicamente. Leopardos não são tão grandes quanto tigres, mas eles frequentemente atacam presas similares porque eles vão para o pescoço e arrastam para baixo. Jaguares são muito mais poderosos do que leopardos, mas sua habilidade de matar muito rápido é o que aterroriza as pessoas. Para presas pequenas, arrancam literalmente a tampa craniana depois de puncionar (cravar) os caninos na cabeça. Com presas grandes, muitas vezes com o seu próprio tamanho e peso, eles puncionam os caninos na espinha vertebral e derrubam o animal.


Porque você acha que somos tão cativados por esses animais a ponta de criar heróis de gibis inspirados neles? 

Eu penso que humanos são cativados por qualquer coisa que aparenta ser fisicamente mais poderosa do que nós. Sim, nós temos armas e podemos matá-los, mas em um duelo, não teríamos nenhuma chance. Mesmo se estivesse com uma arma, esses animais se quisessem poderiam te matar. Eles provavelmente fariam isso enquanto morrem. Eu penso que o poder, a coragem, a agilidade, a ferocidade desses animais, mesmo que eles não matem pessoas, esses dois felinos se esforçam para não perturbar as pessoas, e poucas pessoas são machucadas por eles e relativamente pouco gado é perturbado por eles, mas fazemos deles um grande problema porque eles representam um poder e uma força que os humanos aspiram e imitam. 

Eu penso que o uso da pantera negra como um herói de quadrinhos, como algo que é poderoso e misterioso, vem absolutamente desses gatos. Um animal como uma onça preta ou uma onça em geral – eles têm uma máquina de forma muscular solidamente e massivamente constituída para um animal. Eles podem derrubar e matar coisas 10 vezes maiores do que o seu peso, muitas vezes o tamanho de seu corpo, com uma simples mordida no pescoço ou no crânio. Leopardos negros são muito esquivos e astutos, não tão poderosos quanto as onças, mas mais ágeis, capazes de saltar e chegar a lugares diferentes bem rápido, e frequentemente atacam suas presas de forma nunca vistas em leões e tigres ou outros grandes felinos. 

O super-herói é descrito como um gênio, um caçador e rastreador habilidoso, e um expert em lutas com força, velocidade e agilidade. Quais dessas características te lembram mais o que podemos ver na vida selvagem? 

Quando pessoas vão à África e veem leopardos negros e os comparam com outros grandes felinos, os leopardos parecem ser de muitas maneiras mais esperto. Os maiores felinos – tigres e leões – sofrem bullying deles em certas situações. Onças pretas e leopardos africanos pretos – panteras negras – se você quer chamá-los assim – são muito inteligentes, muito calculistas. Mesmo os cuidadores de zoológico que os têm em cativeiro dizem a mesma coisa. Você deixa a porta e uma gaiola aberta por algum tempo e parece que leões e tigres levam mais tempo para descobrir, quando conseguem, do que jaguares e leopardos. Eu acredito que o jaguar negro não é apenas poderoso, mas um dos mais indomáveis e inteligentes felinos do mundo.

Por: Angela Cave (Panthera.org). Tradução: Vandré Fonseca (O Eco).