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Aquecimento Vira Ecossistemas do Avesso

Arraia nada entre corais mortos por calor excessivo do mar na Austrália (Foto: The Ocean Agency/XL Catlin Seaview Survey).

Um amplo estudo divulgado em 30/03/2017 [Biodiversity Redistribution Under Climate Change: Impacts on Ecosystems and Human Well-being] revela como as alterações no clima estão modificando de maneira acelerada os ecossistemas da Terra, a ponto de mudar radicalmente suas características originais e aumentar a vulnerabilidade da nossa própria espécie. Cientistas de universidades brasileiras, americanas, europeias e australianas previram um número maior de epidemias, devido ao deslocamento dos mosquitos; um novo desenho da geografia agrícola, pela falta de polinizadores; e migrações de comunidades tradicionais inteiras, em busca de alimentos. 

Todos os seres vivos, sem exceção, são sensíveis às mudanças climáticas. A história da vida na Terra está intimamente ligada a essas alterações. Ao longo de milhares de anos as espécies se remodelaram em resposta a eventos tectônicos, oceanográficos e climáticos. As mudanças projetadas para o século XXI, no entanto, com a emissão excessiva de gases de efeito estufa, já se comparam às maiores mudanças globais dos últimos 65 milhões de anos. “Significa dizer que a resposta biológica vai acontecer em ritmo mais violento e em escala global”, diz Raquel Garcia, pesquisadora brasileira da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, e uma das autoras do estudo. 

As mudanças, de fato, já acontecem em larga escala. Registros recentes mostram que dezenas de espécies de peixes de águas rasas se deslocaram para águas mais profundas à procura de temperaturas amenas. Mamíferos que viviam em encostas de montanhas migraram para regiões mais elevadas. “São alterações aparentemente sutis, mas que geram uma reação em cadeia poderosa”, diz Garcia, especialista na relação entre biodiversidade e mudanças climáticas. De acordo com ela, em um novo ambiente, as espécies passam a apresentar novas respostas biológicas a essa interação. E as mais sensíveis entram, rapidamente, em um processo que leva à extinção. 

Embora pareça improvável, o deslocamento das espécies e a transformação do ecossistema nos afeta diretamente. O aquecimento global tem facilitado, especialmente, a proliferação de agentes patogênicos pelo planeta. Vetores que causam epidemias como a malária, a dengue e a zika devem se tornar ainda mais comuns e atingir populações inteiras – suspeita-se que a epidemia de zika de 2015, por exemplo, tenha relação direta com o aquecimento anormal agravado pelo El Niño. Além disso, a cultura de alguns alimentos sensíveis, como o café, também está sob forte ameaça, à medida que as distribuições de polinizadores migram e as pragas das plantas perdem os predadores. Imagem: Mosquito “Anopheles”, transmissor da malária, cuja área de distribuição cresce com o calor (Foto: Anders Lindström’SVA).

As consequências podem afetar regiões turísticas do Mediterrâneo, que devem receber uma grande quantidade de águas-vivas, inviabilizando os banhos de mar. Comunidades indígenas dos extremos da Terra terão de encontrar alternativas à falta de peixe, já que os cardumes vêm sendo deslocados devido ao aquecimento da água. “Haverá consequências culturais, sociais e econômicas a uma parcela representativa da população mundial, algo que ainda não experimentamos, e nem sempre as soluções possíveis terão efeito a curto prazo”, disse a pesquisadora australiana Gretta Pecl, que liderou o estudo Redistribuição da Biodiversidade sob Alterações Climáticas: Impactos nos Ecossistemas e no Bem-Estar Humano

O próprio clima sofre as consequências das mudanças climáticas. O rearranjo das espécies transforma os processos de sequestro de carbono. O aumento da temperaturas associado às secas aumenta o estresse das plantas, contribuindo para surtos de pragas e de árvores mortas. Estes processos, por sua vez, aumentam a quantidade de material inflamável nas florestas, facilitando incêndios e jogando ainda mais carbono de volta ao ambiente. 

O próprio Atlântico Norte, que armazena cerca de 25% do CO2 antropogênico do oceano, pode sofrer alterações do fitoplâncton (microrganismos que produzem oxigênio e sequestram gás carbônico) devido ao recuo do gelo marinho do Ártico. Com isso a tendência é que a bomba biológica perca eficiência. Bomba biológica é um processo através do qual o carbono da atmosfera terrestre é incorporado e armazenado no oceano profundo, por meio de processos como fotossíntese, respiração, alimentação e decomposição. 

Só há uma forma de evitar que essas transformações se tornem ainda mais dramáticas: é preciso reduzir a emissão de gases de efeito estufa. O processo já desencadeado pelo aumento da temperatura global está em curso. O clima vai mudar nos próximos cem anos e além, mesmo que as emissões se estabilizem, devido à inércia do processo. As espécies continuarão a responder, muitas vezes, com consequências imprevisíveis. Mas sem controle de emissões, as consequências serão ainda piores. É por isso que se diz que algumas regiões devem sofrer alterações mais intensas do que outras. “As nações em desenvolvimento, particularmente as mais próximas ao equador, provavelmente sofrerão maiores extinções locais relacionadas ao clima e nem sempre terão os recursos ideais para lidar com a mudança”, diz Pecl

O aumento da conscientização e uma governança integrada é a única chance de minimizar as consequências negativas e criar oportunidades a partir do movimento de espécies, concluem os autores. A Finlândia, pioneira na mitigação desse fenômeno, introduziu medidas de adaptação para ajudar a sobrevivência do salmão no Atlântico, devido ao aquecimento das águas. A humanidade aguarda mais ações como esta.

Por: Luciana Vicária (Observatório do Clima).

Brasil Tem Maior Diversidade de Árvores do Planeta

Há 8.715 espécies de árvores no território brasileiro, 14% das 60.065 que existem no planeta. Em segundo na lista vem a Colômbia, com 5.776 espécies, e a Indonésia, com 5.142. Publicado no periódico Journal of Sustainable Forestry, o estudo foi realizado pela Botanical Gardens Conservation International (BGCI na sigla em inglês), uma organização sem fins lucrativos, com base nos dados de sua rede de 500 jardins botânicos ao redor do mundo. A expectativa é que a lista, elaborada a partir de 375,5 mil registros e ao longo de dois anos, seja usada para identificar espécies raras e ameaçadas e prevenir sua extinção. 

Ameaça 

A pesquisa mostrou que mais da metade das espécies (58%) são encontradas em apenas um país, ou seja, há países que abrigam com exclusividade, certas espécies - podem ser centenas ou milhares -, o que indica que estão vulneráveis ao desmatamento gerado por atividade humana e pelo impacto de eventos climáticos extremos. 

Trezentas espécies foram consideradas seriamente ameaçadas, por terem menos de 50 exemplares na natureza. Também foi identificado que, com exceção dos polos, onde não há árvores, a região próxima do Ártico na América do Norte tem o menor número de espécies, com menos de 1,4 mil. 

O secretário-geral da BGCI, Paul Smith, disse que não era possível estimar com precisão o número de árvores existentes no mundo até agora porque os dados acabam de ser digitalizados. "Estamos em uma posição privilegiada, porque temos 500 instituições botânicas entre nossos membros, e muitos dos dados não estão disponíveis ao público", afirma. 

"A digitalização destes dados é o auge de séculos de trabalho." Uma parte importante do estudo foi estabelecer referências e coordenadas geográficas para as espécies de árvores, o que permite a conservacionistas localizá-las, explica Smith

"Obter informações sobre a localização dessas espécies, como os países em que elas existem, é chave para sua conservação", diz o especialista. "Isso é muito útil para determinar quais devemos priorizar em nossas ações e quais demandam avaliações sobre a situação em que se encontram." 

Conservação 

Entre as espécies em extinção identificadas pela BGCI está a Karoma gigas, nativa em uma região remota da Tanzânia. No fim de 2016, uma equipe de cientistas encontrou apenas um único conjunto formado por seis exemplares. Eles recrutaram habitantes da área para proteger essas árvores e monitorá-las para que sejam alertados caso produzam sementes. 

Assim, as sementes poderão ser levadas para jardins botânicos da Tanzânia, o que abre caminho para que sejam reintroduzidas na natureza depois. A BGCI diz esperar que o número de árvores da lista cresça, já que cerca de 2 mil novas plantas são descritas todos os anos. A Global Tree Search, uma base de dados online criada a partir do levantamento, será atualizada toda vez que uma nova espécie for descoberta.

Por: Mark Kinver (BBC).

Qual é a Indústria Que Mais Polui o Meio Ambiente Depois do Setor do Petróleo?

É fácil citar a indústria do petróleo como principal vilã da poluição. Mas poucos talvez saibam que o segundo lugar nesse ranking pertence à indústria da moda. Se você veste calças ou malhas de poliéster, por exemplo, fique sabendo que a fibra sintética mais usada na indústria têxtil em todo o mundo não apenas requer, segundo especialistas, 70 milhões de barris de petróleo todos os anos, como demora mais de 200 anos para se decompor. 

A viscose, outra fibra artificial, mas feita de celulose, exige a derrubada de 70 milhões de árvores todos os anos. E, apesar de natural, o algodão é a uma fibra cujo cultivo é o que mais demanda o uso de substâncias tóxicas em seu cultivo no mundo - 24% de todos os inseticidas e 11% de todos os pesticidas, com óbvios impactos no solo e na água. Nem mesmo o algodão orgânico escapa: uma simples camiseta necessitou de mais de 2.700 litros de água para ser confeccionada. 

Usar e jogar fora 

Mas talvez o maior dano causado pela indústria da moda seja a tendência da "moda rápida", marcada especialmente pelos preços baixos. O consumo multiplica os problemas ambientais. 

O custo da "moda rápida": uma peça de roupa que usamos menos de 5 vezes e jogamos fora após 1 mês produz mais 400% de emissões de carbono que uma usada 50 vezes e mantida por 1 ano (Fonte: HBS). 

O chamado "segredo sujo" da moda deu origem a iniciativas que buscam uma maior responsabilidade ambiental. Na Argentina, a Industry of All Nations foi fundada como uma "empresa de design e desenvolvimento com o compromisso de repensar métodos de produção". O objetivo é produzir "roupa limpa". "Eu e meus irmãos nos demos conta de que, em um mundo tão grande, quase todos os produtos são feitos em dois ou três países asiáticos. E a única razão é porque é mais barato produzi-los lá", explica Juan Diego Gerscovich, fundador da empresa familiar. 

"A IOAN, como diz o nome, existe para que voltemos à produção e aos produtores originais, para que voltássemos à fonte". Os hermanos Gerscovich, que são argentinos e vivem Los Angeles, começaram produzindo sandálias, usando os serviços de uma fábrica há 120 anos no ramo. 

"Era uma empresa sustentável sem saber, pois as sandálias eram de juta e algodão. A empresa produzia um milhão de unidades. A única coisa que fizemos foi mudar as tiras, que eram de material sintético, para algodão". Mas foi um segundo produto que soou o "alarme da contaminação". Os irmãos queriam produzir jeans, mas abandonaram a ideia quando "se deram conta de que se tem uma questão muito tóxica". Decidiram resgatar o método tradicional de produção do tecido, com o uso de algodão orgânico e índigo - uma tintura obtida da planta Indigofera tinctoria

Gerscovich encontrou um pequeno vilarejo no sul da Índia, Auroville, onde levaram anos investigando como reviver a indústria local. "Era uma indústria muito importante e conectada à cultura indiana, mas a Revolução Industrial trouxe os corantes químicos, e a indústria do tecido natural desapareceu... era muito mais econômico e rápido com os métodos modernos." 

O processo natural requer ainda mais tempo e investimento, mas o empresário argentino diz que ele é muito menos agressivo para o meio ambiente. O desaparecimento da indústrias fez com que fosse necessário treinar tecelões, pois ninguém na comunidade sabia fazer jeans. 

Mais que um negócio 

A empresa depois se dedicou à produção de suéteres com lã de alpacas bolivianas. "E sem corantes", ressalta Gerscovich. "A cooperativa que produz os suéteres na Bolívia conhece nossa filosofia e montou um pequeno laboratório para começar a desenvolver tintas naturais." A ideia original dos irmãos Gerscovich é não apenas fazer a roupa, mas empoderar comunidades. "O mais importante é que, como seres humanos, mudemos de mentalidade: precisamos consumir menos", diz o empresário. 

A IOAN, assim como outras iniciativas do gênero, produzem suas peças em mais tempo e a um custo maior. Um par de jeans, por exemplo, custa US$ 170, valor bem superior ao de muitas marcas no varejo mundial. "Vamos reduzir custos à medida que as vendas cresçam. Mas jamais chegaremos aos níveis das grandes cadeias [de lojas de roupa]. Seus preços são uma invenção. Estão desrespeitosos 100% com seus produtores."

Fonte: BBC.

Cientistas Desvendam 600 Plantas Amazônicas

Nem tudo são florestas e árvores gigantes, quando se fala na vegetação amazônica. Na Serra de Carajás, no sudeste do Pará, no topo de morros de 800 metros de altitude, se espalha uma vegetação rasteira que recobre os campos ferruginosos, também conhecidos como cangas. Uma pesquisa que reúne 74 botânicos de 22 instituições do país e do exterior propõe revelar parte dessas espécies, algumas em risco de extinção. 

O grupo descreveu 600 espécies, entre samambaias, musgos, flores. O estudo, parceria do Museu Paraense Emílio Goeldi e do Instituto Tecnológico Vale (ITV), será publicado em três volumes da Rodriguésia, prestigiada publicação do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. O primeiro, lançado em março de 2017, descreve 235 espécies. 

“O bioma da floresta amazônica é o mais desconhecido do país. São 11 mil espécies descritas. A Mata Atlântica, uma tripa na parte leste do país, tem 15 mil espécies conhecidas, mais do que na floresta amazônica. Só tenho uma conclusão: falta conhecimento da flora amazônica”, afirma a botânica Ana Maria Giuliette, uma das coordenadoras do projeto, ao lado do botânico Pedro Viana

A dificuldade de acesso e o escasso financiamento para esse tipo de pesquisa estão entre as causas para o pouco conhecimento da região. Para alcançar as áreas de cangas, muitas vezes só é possível chegar de helicóptero. “É muito difícil subir no ponto mais alto. Estradas são péssimas e há muitas árvores caídas. E é quando floresce que mais chove, o que dificulta ainda mais o trajeto”, diz ela. 

A Floresta Nacional de Carajás tem 400 mil hectares. Entre 2% e 3% da região é de cangas. O Museu Goeldi fez as primeiras pesquisas sobre as plantas locais nos anos de 1970, no início da mineração em Carajás. Nos afloramentos de minério de ferro, onde não crescem árvores, pesquisadores iniciaram a coleta de pequenas plantas que recobriam a região. 

Em 2015, botânicos voltaram às áreas de canga para nova coleta sistemática. “É preciso ter ideia de como são as plantas na natureza. Quando florescem? Quando produzem frutos? Tudo isso é importante quando a gente pensa em recuperação da área. A legislação diz que temos de usar sementes da mesma área para recuperar um trecho de mata. semente? Só saberemos fazendo esse acompanhamento”, afirma Ana Maria. “A União Internacional para Conservação da Natureza recomenda que esse monitoramento dure 10 anos. Estamos só começando”. 

Catálogo

Entre as espécies estudadas está a flor de Carajás, espécie em perigo de extinção. A planta, uma trepadeira, pode atingir três metros. Os pesquisadores viajaram por dez dias na área da Serra Norte da Floresta Nacional de Carajás, único local em que a planta foi achada. Após a coleta, exames de DNA revelam quais plantas são filogeneticamente próximas, ou “aparentadas”. A partir daí são identificadas família, gênero e espécie. Cada uma ganha ilustração a bico de pena e algumas têm fotografias de campo. Todas são georreferenciadas para permitir que pesquisadores as encontrem na natureza, no caso de nova coleta. E a flora é armazenada no Museu Goeldi

“Com esse contingente de pesquisadores foi possível fazer a flora correta, autenticada, em pouco tempo como fizemos. Em nenhum lugar se produz flora em dois anos, como estamos fazendo com Carajás, com 600 espécies. Só pudemos fazer isso porque tivemos essa base coletada anteriormente pelo Museu Goeldi e porque contamos com todos os especialistas. Esse estudo permite que sejam recuperadas áreas afetadas pela mineração”, diz Ana Maria.

Por: Clarissa Thomé (Estadão).

Cidades e Meio Ambiente - Uma Relação Conturbada

A modernidade não significa o abandono da relação entre as pessoas e o meio ambiente. O desenvolvimento tecnológico não irá resolver todos os problemas ambientais do planeta Terra. 

O século 20 consolidou o apartheid entre a humanidade e as dinâmicas próprias dos ecossistemas e da biosfera. Até o final do século 19, quando nasceu meu avô, a vida na terra, em qualquer que fosse o país, tinha estreitos laços com os produtos e serviços da natureza. 

O homem dependia de animais para a maior parte do trabalho, para locomoção e mal começava a dominar máquinas capazes de produzir força ou velocidade. 

Na maioria das casas o clima era regulado ao abrir e fechar as janelas e, quando muito, acender lareiras, onde madeira era queimada para produzir calor. 

Cem anos depois a vida é completamente dominada pela tecnologia, pela mecânica, pela química e pela eletrônica, além de todas as outras ciências que tiveram um exponencial salto desde o final do século 19. 

Na maior parte dos escritórios das empresas que dominam a economia global a temperatura é mantida estável por equipamentos de ar condicionado, as comunicações são feitas através de telefones sem fio e satélites posicionados a milhares de quilômetros em órbita, as dores de cabeça são tratadas com comprimidos e as comidas vêm em embalagens com códigos de barra. 

Não se trata aqui de fazer uma negação dos benefícios do progresso científico, que claramente ajudou a melhorar a qualidade de vida de bilhões de pessoas, e também deixou à margem outros bilhões, mas de fazer uma reflexão sobre o quanto de tecnologia é realmente necessário e o que se pode e o que não se pode resolver a partir da engenharia. 

As distâncias foram encurtadas e hoje é possível ir a qualquer parte do mundo em questão de horas, e isso é fantástico. No entanto, nas cidades, as distâncias não se medem mais em quilômetros, mas sim em horas de trânsito. E isso se mostra um entrave para a qualidade de vida. 

Computadores, internet e telecomunicações tornaram o mundo menor e abriram as portas de um universo de conhecimento inimaginável poucos anos atrás. 

Ainda na década de 1990 fiz uma entrevista com o pensador norte-americano Alvin Toffler , autor de A Estrada do Futuro e perguntei porque o futuro que se desenhava era tão diferente do que havia sido previsto poucos anos atrás, da década de 1970. “Simples”, respondeu ele. 

“Ninguém foi capaz de prever que os computadores se tornariam eletrodomésticos, e mais ainda, que eles seriam ligados em rede possibilitando comunicação universal entre pessoas e bancos de dados”, concluiu. Ou seja, a web, a internet como conhecemos hoje, 20 anos depois daquela entrevista, não foi uma evolução previsível. 

Romantismo pragmático 

Há um certo romantismo em pensar na vida em comunhão com a natureza, onde as pessoas dedicam algum tempo para o contato com plantas, animais e ambientes naturais. 

Eu pessoalmente gosto e faço caminhadas regulares em praias e trilhas. Mas não é disso que se trata quando falo na ruptura entre a engenharia humana e as dinâmicas naturais. 

Há uma crença que está se generalizando de que a ciência, a engenharia e a tecnologia são capazes de resolver qualquer problema ambiental que surja. 

E esse é um engano que pode ser, em muitos casos, crítico para a manutenção do atual modelo econômico e cultural das economias centrais e, principalmente, dos países que agora consideramos “emergentes”. 

Alguns exemplos de que choques entre a dinâmica natural e o engenho humano estão deixando fraturas expostas. A região metropolitana de São Paulo enfrentou uma das maiores crises de abastecimento de água de sua história. 

As nascentes e áreas de preservação que deveriam proteger a água da cidade foram desmatadas e ocupadas, no entanto a mídia e as autoridades em geral apontam a necessidade de mais obras de infraestrutura para garantir o abastecimento, como se a produção de água pelo ecossistema não tivesse nenhum papel a desempenhar. 

No caso da energia também existe uma demanda incessante por mais eletricidade, mais combustíveis e mais consumo. Isso exige o aumento incessante da exploração de recursos naturais e não renováveis. 

Pouco ou nada se fala na elaboração de programas generalizados de eficiência energética, de modo a economizar energia sem comprometer a qualidade de vida nas cidades. 

Outro ponto de descolamento é a gestão de resíduos. Grande parte dos ambientes naturais está contaminada por plásticos e outros resíduos produzidos pelo descarte de produtos usados e embalagens. 

A gestão de resíduos tem sido encarada como um problema de engenharia, fala-se muito em aterros sanitários e em “queima energética” dos resíduos, o que levaria a agravar outro problema presente na agenda ambiental do século 21, as mudanças climáticas, causadas principalmente pelas emissões de gás carbônico das atividades humanas. Pouco ainda se faz em direção a uma eficaz redução da geração de resíduos ou da utilização maior de materiais reciclados e/ou biodegradáveis. 

Serviços Ambientais 

Há também o desmatamento em todos os biomas brasileiros e ao redor do mundo. Monitora-se muito os dados sobre a Amazônia, mas há problemas sérios na Mata Atlântica, cujos dados recentes mostram aumento da área desmatada, no Cerrado, onde estão as nascentes de alguns dos grandes rios brasileiros, e até na Caatinga, que sofre periodicamente com longos períodos de estiagem. 

Todos esses dilemas, porém, parecem alheios ao cotidiano das grandes cidades, onde o trânsito e o tempo (medido em horas) ocupam os espaços de preocupação. Não há no imaginário de pessoas que vivem em ambientes artificiais de edifícios, automóveis e espaços urbanos degradados uma clara noção dos vínculos existentes entre suas vidas e os serviços ambientais prestados pelos ecossistemas. 

A desconexão vai além da simples percepção, nas cidades as pessoas se recusam a mudar comportamentos negligentes como o descarte inadequado de resíduos ou desperdícios de água e energia. Há muito a mudar. 

Pessoas, empresas, governos e organizações sociais são os principais atores de transformação, mudanças desejáveis e possíveis, mas que precisam de uma reflexão de cada um sobre o papel do meio ambiente na vida moderna. 

É um equívoco pensar que civilização e meio ambiente são departamentos estanques. O moderno modo de vida das sociedades de consumo depende da resiliência dos ecossistemas em oferecer água, alimentos e todo o tipo de produtos minerais e vegetais necessários para a manutenção da sociedade do século 21. 

A profunda descrença na capacidade humana em mudar é, na verdade, uma atitude inconsequente de uma geração acomodada no individualismo e no consumismo, onde as relações sociais se dão mais em redes cibernéticas do que no bom e velho calor humano. 

As sociedades humanas vivem em constante mutação, como mostra a história. Negar a possibilidade de que o futuro seja um bom lugar para se viver é violentar os direitos de nossos filhos e netos de ter uma existência digna.

Por: Dal Marcondes (Envolverde).

Uma Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa

A assinatura do decreto presidencial criando a Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Proveg), em janeiro de 2017, é fundamental para o cumprimento dos compromissos internacionais e nacionais assumidos pelo Brasil em favor da mitigação dos efeitos das mudanças climáticas e da proteção à biodiversidade. É um sinal positivo em direção à implementação efetiva do Acordo do Clima, da Convenção da Biodiversidade, das adesões ao Desafio de Bonn e à Iniciativa 20×20 e da Lei de Proteção da Vegetação Nativa, conhecida como novo Código Florestal

Em comum, esses acordos e a Proveg compartilham o objetivo de restaurar milhões de hectares de florestas. Além disso, a nova política contribuirá para a regularização ambiental das propriedades rurais, gerando ativos para os proprietários e permitindo que o Brasil lidere mundialmente ações de restauração e reflorestamento para mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Do fortalecimento da atividade florestal, advêm vantagens ambientais e sociais, como a preservação de nossa rica biodiversidade, a interligação de remanescentes naturais, a recuperação de solos degradados, o aumento da segurança hídrica e a geração de empregos, renda e tributos. 

A Proveg determina a criação de um Conselho – sob liderança do Ministério do Meio Ambiente (MMA) – que integra Casa Civil e outros quatro ministérios (Agricultura; Planejamento; Fazenda; Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações), representantes de órgãos públicos das esferas estaduais e municipais e organizações não governamentais. Prevê também que, nos próximos seis meses, um Plano Nacional de Recuperação de Vegetação Nativa (Planaveg) seja elaborado. 

Sua missão é acelerar o cumprimento de políticas públicas já existentes, estimular a criação de incentivos financeiros e de tecnologias de recuperação, promover a adoção de boas práticas agropecuárias e o estabelecimento de mercados para produtos e serviços gerados a partir da recuperação da vegetação nativa. A elaboração do Planaveg em um período tão curto parece um objetivo difícil de ser alcançado. E seria, se a discussão e ações concretas já não estivessem bastante adiantadas. 

Desde 2013, mais de 45 organizações não governamentais e instituições de ensino e pesquisa vêm avaliando os fatores-chaves e construindo estratégias para o primeiro esboço do Planaveg, em conjunto com o Ministério do Meio Ambiente. O resultado foi submetido à consulta pública em 2015, quando recebeu quase 200 contribuições técnicas vindas de centros de pesquisa, coletivos, instituições empresariais e ambientais. O resultado consolidado fornece uma base segura para a elaboração do Plano Nacional. 

A boa execução da Proveg depende, por exemplo, da aplicação de instrumentos do Código Florestal, como o Cadastro Ambiental Rural (CAR), e de programas como o de Regularização Ambiental (PRAs), do Projeto de Recuperação de Áreas Degradadas e Alteradas (PRADAs), das Cotas de Reserva Ambiental (CRAs), de conversão dos recursos originados de multas para Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) e da possibilidade de restauração com fins econômicos para Reservas Legais (RLs) e Áreas de Preservação Permanente (APPs) de pequenos proprietários rurais. Tais medidas consolidam a visão de que preservar e restaurar valem a pena, tanto por aspectos ambientais quanto por benefícios econômicos e sociais. 

O desenvolvimento de mecanismos financeiros e econômicos como suporte às políticas públicas de restauração de vegetação nativa é outro pilar para o sucesso da Proveg e deve estar contemplado no Plano. A recente adesão brasileira ao Desafio de Bonn e à Iniciativa 20×20 criou um ambiente favorável para a captação de investimentos e recursos de fundos dedicados à economia de baixo carbono, como o Green Climate Fund. Nesse cenário, o Plano ABC (Plano Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), juntamente com o Plano Safra, que inclui o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), podem constituir passaporte para o desenvolvimento de arranjos institucionais e acesso a linhas de crédito voltados à restauração e ao reflorestamento em pequenas e médias propriedades rurais. Também há a perspectiva de cooperação entre BNDES, KfW, investidores de impacto e grupos internacionais de fomento para adequação ambiental e agrícola de propriedades produtoras de commodities, como soja, cana-de-açúcar e carne. 

Outro desafio imediato será o desenvolvimento de políticas públicas que fortaleçam os elos produtivos da cadeia da restauração florestal. Significa assumir uma atitude proativa para a abertura de novos mercados e o incentivo à produção e ao comércio dos produtos e serviços gerados por ela. Uma das medidas mais estratégicas é o aprimoramento dos mecanismos de rastreamento online, coibindo a competição desleal de produtos oriundos do desmatamento ilegal. Investimentos em pesquisas de longo prazo e tecnologias também serão fundamentais para uma Política consistente e bem-sucedida, propiciando diminuição de custo, aumento de produtividade e qualidade e otimização dos sistemas produtivos. Um plano de pesquisa e desenvolvimento (P&D) para esse fim está em fase adiantada de construção pela Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura

A criação da Proveg coloca o país na direção de uma nova economia de restauração, reflorestamento e baixo carbono. Os próximos passos serão ainda mais importantes para que, futuramente, nossos netos olhem para trás e nos reconheçam como “a geração da restauração”. 

Por: Marcelo Furtado (Facilitador da Coalização Brasil Clima, Florestas e Agricultura) e Severino Ribeiro (Coordenador nacional do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica).

O Dever Por Tudo O Que Vai À Volta Do Ser

Realizada em 1992 na cidade do Rio de Janeiro, a Conferência das Nações Unidas Para O Meio Ambiente e Desenvolvimento apresentou a educação ambiental da seguinte maneira:

"A educação ambiental se caracteriza por incorporar as dimensões socioeconômicas, política, cultural e histórica, não podendo basear-se em pautas rígidas e de aplicação universal, devendo considerar as condições e estágio de cada país, região e comunidade, sob uma perspectiva histórica. Assim, a educação ambiental deve permitir a compreensão da natureza complexa do meio ambiente e interpretar a interdependência entre os diversos elementos que conformam o ambiente, com vistas a utilizar racionalmente os recursos do meio na satisfação material e espiritual da sociedade no presente e no futuro".  

Promulgada em um período bastante significativo para a redemocratização nacional, a Constituição Federal de 1988 aprecia que o meio ambiente é um "bem comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo ao Poder Público e à coletividade o dever de preservá-lo", o que é considerado um avanço o fato da tutela da Natureza ter se tornado mais sólida por força de leis atualmente no Brasil [Crimes Ambientais, Lei 9.605/1998; Decreto 6.514/2008; Resíduos Sólidos, Lei 12.305/2010; Código Florestal, Lei 12.651/2012; Biodiversidade, Lei 13.123/2015], pois quando existe a possibilidade de danos, reconhecidamente ou não, o principal sujeito passivo vem a ser a ser sociedade [prejudicada em caso de desastres ambientais ou outras perturbações do equilíbrio ecológico] e esta precisa estar sempre atenta e prevenir-se contra os efeitos indesejáveis de uma ação. 

Contudo, preservar o ambiente contemplando seus aspectos natural, artificial, cultural e do trabalho e a gestão sustentável de recursos economicamente viáveis não pode se restringir a tal condição apenas por uma questão de imposições e sanções. Se a preservação do meio ambiente é o objeto jurídico do crime ambiental e a informação é um princípio disponível a toda e qualquer pessoa, antes de tudo é necessário que tal informação seja claramente absorvida pelos cidadãos e que a capacitação destes os tornem aptos para a tomada de decisões e sua consequente participação por um ambiente ecologicamente equilibrado. 

Como a educação é um processo pelo qual o indivíduo assimila um aprendizado vindo de fora para dentro, pode-se compreender naturalmente que o ser humano, por essa disposição, está inserido [meio, cercado de] em um contexto maior [ambiente, o que há ao redor], a extensão global das intenções e interações de todos os seres vivos e elementos abióticos além dos recursos naturais que garantem a subsistência das espécies. 

De tal sorte, a tradição estabelece a cultura de um povo, forma o conhecimento e a iteração de bons hábitos e costumes como o respeito à dignidade humana e ao planeta, algo que por sua natureza tende a ser mais eficiente e substancial do que qualquer dispositivo legal. Não basta obrigar a preservar, é indispensável que se compreenda porque a preservação dos bens comuns é tão importante. Sem conhecer a realidade de maneira objetiva [fazer diagnóstico da situação/relação de causa e efeito] é impossível mudá-la.

É idealizando como as coisas poderiam ser melhores amanhã que pode nos ajudar a superar os obstáculos de hoje, com máxima estima ao valor da Sustentabilidade: a conservação dos ecossistemas saudáveis e produtivos com geração de emprego e renda, bem estar social e proteção da biodiversidade para as comunidades globais contemporâneas e àquelas que irão sucedê-las.




Referências:
  • COIMBRA, Avila. O outro lado do meio ambiente: uma incursão humanista na questão ambiental. Campinas: Millennium, 2002.
  • MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito ambiental brasileiro. São Paulo: Malheiros Editores, 2016.
  • MILARÉ, Édis. Direito do ambiente. São Paulo: RT, 2015.


Por: Gustavo Nobio. Sustentabilista, comunicador ambiental, articulista e administrador de conteúdo da mídia online #SenhorEco. Técnico em Meio Ambiente pela FUNCEFET (RJ).


Carne Fraca: Perguntas e Respostas Sobre a Operação da PF nos Frigoríficos

A megaoperação da Polícia Federal, em 17/03/2017, desmontou um esquema de funcionários do Ministério da Agricultura que teriam recebido propina para liberar carne para venda sem passar pela devida fiscalização. A operação aconteceu em 6 estados e no DF, com 35 pessoas presas – e há ainda dois investigados foragidos. O Ministério da Agricultura afastou 33 servidores envolvidos no esquema. 

A possibilidade de que produtos adulterados e até vencidos podem ter ido parar na mesa da população deixou o país em alerta, mas muita coisa ainda não foi explicada pelos investigadores da Operação Carne Fraca.

Veja o que já se sabe e o que ainda não foi esclarecido na operação: 

O que a operação Carne Fraca descobriu? 

Um esquema que envolvia funcionários do Ministério da Agricultura em Goiás, Minas Gerais e Paraná que receberiam propina para liberar carne para comercialização sem a fiscalização adequada. O esquema também envolvia funcionários de alguns frigoríficos. Segundo o delegado Maurício Moscardi Grillo, da PF, as irregularidades encontradas nos frigoríficos vão desde uso de produtos químicos para mascarar carne vencida a excesso de água para aumentar o peso dos produtos. 

Quais marcas cometeram irregularidades? Alguma está proibida? 

A PF fez busca e apreensão em 21 frigoríficos, mas ainda não especificou em quais deles foram flagradas irregularidades na produção. Também não há recomendação oficial para que alguma marca específica seja evitada. 

Quais empresas são investigadas? Foram alvo de busca e apreensão os seguintes frigoríficos: 

• Big Frango Indústria e Com. de Alimentos Ltda. 
• BRF - Brasil Foods S.A. (dona de marcas como Sadia e Perdigão) 
• Dagranja Agroindustrial Ltda./Dagranja S/A Agroindustrial 
• E.H. Constantino 
• Frango a Gosto 
• Frigobeto Frigoríficos e Comércio de Alimentos Ltda. 
• Frigomax Frigorífico e Comércio de Carnes Ltda. 
• Frigorífico 3D 
• Frigorífico Argus Ltda. 
• Frigorífico Larissa Ltda. 
• Frigorífico Oregon S.A. 
• Frigorífico Rainha da Paz 
• Frigorífico Souza Ramos Ltda. 
• JBS S/A (dona das marcas como Friboi, Seara e Swift) 
• Mastercarnes Novilho Nobre Indústria e Comércio de Carnes Ltda. 
• Peccin Agroindustrial Ltda. (dona da marca Italli Alimentos) 
• Primor Beef - JJZ Alimentos S.A. 
• Seara Alimentos Ltda. 
• Unifrangos Agroindustrial S.A./Companhia Internacional de Logística 
• Breyer e Cia Ltda. 
• Fábrica de Farinha de Carne Castro Ltda. EPP 

Algum frigorífico foi interditado? 

O Ministério da Agricultura interditou 3 dos 21 frigoríficos investigados na Operação Carne Fraca: uma unidade da BRF em Mineiros (GO), uma unidade da Peccin, dona da marca Italli, em Curitiba (PR) e outra em Jaraguá do Sul (SC). A fábrica da BRF produz frango, chester e peru para a marca Perdigão. As da Peccin produzem salsicha e mortadela. Nesses locais, os produtos já foram recolhidos, e a produção, paralisada. O presidente, Michel Temer, afirmou que uma "força-tarefa" vai inspecionar todos os 21 frigoríficos alvos da operação

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) e a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) anunciaram em 20/03/2017 que cinco unidades de produção tiveram suas certificações suspensas de forma preventiva e não poderão operar nem no mercado interno nem no externo. As associações, porém, não informaram os nomes das empresas. 

Foi encontrado papelão na carne? 

Uma das gravações feitas pela PF durante a operação foi apresentada como indício de que haveria papelão em produtos da BRF, empresa dona de marcas como Sadia e Perdigão. Na ligação entre funcionários da empresa, um deles diz: "O problema é colocar papelão lá dentro do 'CMS' [matéria-prima para a produção de embutidos] também, né? Tem mais essa ainda. Eu vou ver se eu consigo colocar em papelão. Agora, se eu não consegui em papelão, daí infelizmente eu vou ter que condenar". Em nota, a empresa afirmou que a interpretação da gravação é um "claro e gravíssimo erro" e que o funcionário se referiu às embalagens do produto, e não ao seu conteúdo, como disse a PF. Ainda de acordo com o texto, isso ficaria claro quando o funcionário diz que "vai ver se consegue colocar em papelão", pois esse produto é normalmente embalado em plástico. 

Nessa mesma linha, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, também contestou a informação de que haveria papelão nos produtos. 

Estão vendendo carne vencida? 

A PF afirmou, ao anunciar a operação, que os frigoríficos estariam usando produtos químicos, entre eles o ácido ascórbico, para maquiar o aspecto de carnes vencidas que era comercializada. Segundo o delegado Maurício Moscardi Grillo, alguns desses produtos seriam cancerígenos. 

O Ministério da Agricultura afirmou que o uso do ácido ascórbico não é proibido por lei, desde que esteja dentro das normas estabelecidas. A substância só representaria algum risco se consumida em doses muito altas. Na carne, está proibido o ácido sórbico, um conservante. 

Um dos áudios da operação divulgados pela PF tem a conversa do dono do Frigorífico Larissa, de São Paulo, com um funcionário para trocar as etiquetas das datas de validade dos produtos. Contatado para comentar a operação, o frigorífico não se manifestou. 

Foi usada cabeça de porco em produtos? 

Em uma das gravações divulgadas pela PF, o dono de uma das empresas investigadas, Idair Antônio Piccin, conversa ao telefone com a mulher, Nair Klein Piccin, sobre o uso de cabeça de porco em lotes de linguiça. Segundo a PF, a prática seria ilegal. O médico veterinário Pedro Eduardo de Felício, especialista em carnes da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, afirmou ao Jornal Hoje (TV Globo) que a carne de cabeça é permitida no mundo. "É matéria-prima. Quando você industrializa, faz embutidos, é para aproveitamento em matérias-primas de menor custo", diz. 

Foi encontrada carne com a bactéria Salmonella

Segundo as investigações da PF, uma fábrica da BRF em Mineiros (GO) estaria contaminada com a bactéria salmonella e ainda assim teria exportado carne para a Europa. Em nota, a empresa afirmou que "existem cerca de 2.600 tipos de Salmonella, bactéria comum em produtos alimentícios de origem animal ou vegetal". Ainda segundo a nota, "todos os tipos são facilmente eliminados com o cozimento adequado dos alimentos”. 

A empresa afirma no texto que “a BRF não incorreu em nenhuma irregularidade”, já que “o tipo de Salmonella encontrado em alguns lotes desses quatro contêineres [de carne exportada] é o Salmonella Saint Paul, que é tolerado pela legislação europeia para carnes in natura”. 

A carne brasileira foi barrada no exterior? 

Em 20/03/2017, diante da repercussão da operação, União Europeia, China e Coreia do Sul anunciaram restrições temporárias à entrada de carne brasileira – esses países foram o destino de 27% da carne exportada pelo Brasil em 2016. O Chile também suspendeu temporariamente a exportação de carne brasileira. No fim da tarde, o ministro da Agricultura, Blario Maggi, afirmou que proibiu, preventivamente, a exportação de carnes produzidas pelos 21 frigoríficos investigados na Operação Carne Fraca. A comercialização dentro do Brasil foi mantida. 

Há risco para o consumidor? 

Ainda não houve nenhuma recomendação oficial para a suspensão do consumo de carne, nem a PF nem o Ministério da Agricultura afirmaram que há risco para os consumidores. 

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) e a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) criticaram, em 20/03/2017, a maneira como a PF divulgou os resultados da Operação Carne Fraca. "Passou uma imagem generalizada de que tudo no Brasil é ruim, e não é isso", afirmou Francisco Turra, da ABPA

A Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef) rebateu as críticas e, em nota, afirmou que "na intenção de proteger setores do mercado e do governo, há uma orquestração para descredenciar as investigações de uma categoria que já provou merecer a confiança da sociedade." 

Ao comentar a operação nesta segunda, o presidente Temer defendeu o setor, disse que os frigoríficos investigados representam um "pequeno núcleo" e que o país tem um sistema "rigorosíssimo" de avaliação sanitária.

Fonte: G1.

Febre Amarela: A Crueldade e a Ignorância Andam Juntas

O recente surto da doença desencadeou o irracional e estúpido assassinato de macacos que não tem nenhuma responsabilidade. 

Se já não bastassem as corriqueiras barbaridades cometidas contra o meio ambiente, especialmente na nossa já tão debilitada Mata Atlântica, ainda somos obrigados a assistir a essa irracional caçada e assassinato de primatas, sendo que várias dessas espécies já se encontram na lista de animais em processo de extinção, tais como, Bugio, o Macaco-Prego-de-Crista, além do Muriqui do sul e do norte. 

A situação ficou tão grave pelos diversos casos registrados nos estados de São Paulo e Minas Gerais que levou o Ministério do Meio Ambiente a emitir um alerta à sociedade sobre a gravidade desses atos de violência. Além de informar que os agressores estão cometendo um crime passível de detenção, a nota do ministério esclarece que os macacos não são responsáveis pela transmissão da febre amarela aos humanos. 

Em recente declaração, o diretor de Conservação e Manejo de Espécies do MMA, Ugo Vercílio alertou: “É importante que a população tenha plena consciência de que os macacos não são responsáveis pela existência do vírus e nem por sua transmissão a humanos. Eles precisam ser protegidos”. 

Os macacos muitas vezes são os primeiros a serem infectados e as primeiras vítimas, contribuindo até mesmo para deixar populações em alerta. “Os primatas agem como verdadeiros anjos da guarda dos seres humanos, pois quando ocorre a morte desses animais em escala anormal, como vem ocorrendo em determinadas regiões da Mata Atlântica, isso é um indicativo da presença do vírus”, ressaltou Danilo Simonni Teixeira, presidente da Sociedade Brasileira de Primatologia

Sem computar as brutalidades humanas, o Ministério da Saúde já registrou 968 mortes de primatas com suspeita de febre amarela, desde dezembro de 2016. Desses 386 já foram confirmadas como sido causadas pela doença. 

A RESPONSABILIDADE DA TRAGÉDIA DA SAMARCO 

Tão grave quanto responsabilizar animais indefesos pela febre amarela em humanos é a forte suspeita de que a doença tenha surgido em cidades mineiras próximas ao Rio Doce e que foram afetadas pelo rompimento da barragem da Samarco, em Mariana. Só em Minas Gerais o surto atingiu 152 cidades e mais de 100 mortes de pessoas já foram confirmadas sendo que outros casos permanecem em análise.  

O desmatamento provocado pela tragédia e o forte impacto na saúde dos animais dessas localidades podem ter desencadeado o surgimento da doença. Essa suspeita foi levantada pela bióloga Márcia Chame, coordenadora dos estudos de Biodiversidade e Saúde Silvestre na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo. Segundo ela, "Com o estresse de desastres, com a falta de alimentos, eles se tornam mais suscetíveis a doenças, incluindo a febre amarela". 

Este episódio revela mais uma vez como a ignorância acompanhada muitas vezes de suas irmãs siamesas, a irresponsabilidade e a ganância vitimam com frequência alarmante o nosso meio ambiente. 

Os primatas que habitam as nossas já escassas florestas de Mata Atlântica cumprem um papel fundamental para a preservação da biodiversidade e, portanto, merecem todo o nosso respeito. 

Mata-los de maneira estúpida e sem sentido, nos tornam menos humanos e nossa existência neste planeta ainda mais pobre. 

LEGISLAÇÃO E DENÚNCIA 

A legislação ambiental é clara: matar ou maltratar animais é crime, cuja pena pode chegar a um ano de detenção, além da aplicação de multa. De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), a população deve denunciar casos de violência contra animais da fauna brasileira pelo serviço Linha Verde

Fone: 0800-61-8080. E-mail: linhaverde.sede@ibama.gov.br 

Fone 136: informar às autoridades em saúde a ocorrência de animais mortos ou com suspeita da doença.


Por: Reinaldo Canto (Carta Capital).

IBAMA Publica Nova Norma Sobre Avaliação de Agrotóxicos em Proteção às Abelhas

Operária de Apis mellifera em flor de café.

O IBAMA publicou Instrução Normativa que estabelece diretrizes, requisitos e procedimentos para a avaliação dos riscos de ingredientes ativos de agrotóxicos para insetos polinizadores. A norma, destinada a produtos ainda não registrados no país ou em reavaliação, é a primeira a estipular critérios de decisão com base no risco, ou seja, na probabilidade de uma espécie ser afetada pela exposição a agrotóxicos. O objetivo é oferecer mais proteção a abelhas e outros polinizadores. 

Das 141 espécies de plantas cultivadas no país para alimentação, produção animal, biodiesel e fibras, aproximadamente 60% dependem da polinização animal, aponta a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A preocupação com o declínio das populações de abelhas e outros insetos é crescente em todo o mundo, o que levou governos e organizações a investigar sistematicamente o problema e suas causas. 

A Instrução Normativa (IN) n° 02/2017, publicada no Diário Oficial da União em 10/02/2017, condiciona registros de agrotóxicos à apresentação de informações que permitam o uso adequado desses produtos, sem efeitos que comprometam a sobrevivência, a reprodução e o desenvolvimento das abelhas. 

Desde 2012 o IBAMA realiza estudos para estabelecer uma metodologia de avaliação de riscos resultantes do uso de agrotóxicos para insetos polinizadores, levando em consideração as particularidades da agricultura brasileira. 

Avaliação ambiental 

A avaliação ambiental de agrotóxicos conduzida pelo IBAMA compreende: a Avaliação do Potencial de Periculosidade Ambiental (PPA) e a Avaliação de Risco Ambiental (ARA). A primeira leva em consideração a toxicidade dos agrotóxicos e seu comportamento em ambientes diversos. A segunda, além da toxicidade, considera a exposição dos organismos aos agrotóxicos, o que inclui o modo e a época de aplicação, as doses, a cultura e o clima, entre outros fatores. 

Embora específica para insetos polinizadores, a nova IN também regulamenta as bases para o procedimento de avaliação de risco ambiental para registro de agrotóxicos, que será estendido a outros organismos e ecossistemas. 

Consulta pública 

Um primeiro esboço da Instrução Normativa foi submetido a Consulta Pública no site do IBAMA em 31 de maio de 2016, com prazo de 30 dias, prorrogado até 19 de julho. Participaram representantes de instituições de ensino e pesquisa, órgãos governamentais, entidades representativas do setor apícola, entidades e empresas do setor regulado, apicultores e meliponicultores. Entre os participantes da consulta, 52% se declararam “fortemente favoráveis” à proposta de norma em discussão e 27%, “favoráveis”. As contribuições oferecidas foram analisadas e parte delas foi incorporada ao texto final da IN.


O Retrato da Qualidade da Água do Rio Doce

A Fundação SOS Mata Atlântica disponibiliza a publicação Rio Doce: O Retrato da Qualidade da Água. O relatório técnico registra os resultados da segunda expedição da Fundação para avaliar a qualidade da água na bacia do Rio Doce

A análise foi realizada de 19 a 28 de outubro de 2016 e teve seus principais resultados divulgados em novembro, obtendo grande repercussão. O relatório traz ainda informações adicionais, como a metodologia do monitoramento. 

Um ano após o rompimento da barragem na cidade de Mariana (MG), a segunda expedição constatou que a qualidade da água na bacia do Rio Doce está em desconformidade com a legislação vigente e, portanto, imprópria para consumo humano e usos múltiplos. Apenas quatro pontos de coleta apresentaram sinais de recuperação, com índices de qualidade regular e ótima, em um único ponto isolado. Essa condição ótima e regular, porém, estava associada à grave seca que atingiu a região e que isolou, entre bancos de areia, trechos do assoreado Rio Doce que deixaram de receber o arrasto continuado de lama e rejeito de minério, como nos demais 13 pontos analisados. 

“O mais grave desse retorno à bacia do Rio Doce foi constatar que, em primeiro lugar, a contaminação não cessou. Além disso, passados 12 meses ainda há arrasto de sedimentos por toda a bacia. E notamos como a presença de vegetação nativa protege a água, pois nos trechos onde existe remanescente de Mata Atlântica, nas áreas protegidas que não foram arrastadas pela lama, três pontos se recuperaram.”, disse Malu Ribeiro, coordenadora de águas da SOS Mata Atlântica


Poluição Causa Morte de Mais de 1,7 Milhão de Crianças Todos os Anos

Anualmente, 1,7 milhão de crianças com menos de 5 anos morrem no mundo devido a problemas ligados à poluição ambiental, afirmam dois estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgados em 06/03/2017. O primeiro relatório, Herdando um Mundo Sustentável: Atlas Sobre a Saúde das Crianças e o Meio Ambiente [Inheriting a Sustainable World: Atlas on Children’s Health and The Environment], revela que boa parte das doenças mais comuns que matam crianças nessa faixa de idade - infecções respiratórias, malária e diarreia - pode ser prevenida com ações para reduzir os riscos ambientais, como acesso à água potável e ao saneamento básico. 

O uso de combustíveis sólidos para cozinhar, como carvão ou até mesmo estrume, utilizado em áreas pobres, poluem o ar da casa e provocam doenças respiratórias, diz a organização com sede em Genebra, na Suíça. No Brasil, as mortes de crianças com menos de 5 anos de idade caíram de 4,8% em 2005 para 3% do total de óbitos no país em 2015, segundo a pesquisa Estatísticas do Registro Civil 2015, divulgada pelo IBGE em novembro de 2016. 

Um dos elementos para o declínio da mortalidade infantil no país, de acordo com o IBGE, é o aumento do número de domicílios com saneamento básico adequado (esgoto, água potável e coleta de lixo). De acordo com a OMS, 41 crianças nessa faixa etária morrem por problemas relacionados à poluição a cada 100 mil habitantes no Brasil

Desde o útero 

Exposições nocivas causadas pela poluição ambiental podem começar no útero da mãe e aumentar os riscos de nascimentos prematuros, afirma a OMS. "Além disso, quando crianças são expostas à poluição do ar dentro e fora de casa e ao tabagismo passivo, há o aumento do risco de pneumonias na infância e de doenças crônicas, como a asma", diz o relatório. 

"Exposição ao ar poluído aumenta os riscos de doenças cardíacas, de acidente vascular cerebral e de câncer", destaca o documento. As mudanças climáticas, com a elevação das temperaturas e das emissões de gases causadores do efeito estufa, favorecem o aumento do pólen, associado ao crescimento dos casos de asma em crianças, diz a OMS. As crianças também estão expostas a elementos químicos perigosos, como mercúrio, fluoreto e pesticidas, por meio da comida, água, ar e produtos manufaturados. 

Equipamentos elétricos e eletrônicos, como celulares, que não são corretamente reciclados, expõem crianças a toxinas que podem causar danos pulmonares, diminuição da inteligência e câncer, segundo a organização. "Um ambiente poluído é mortal, principalmente para crianças com pouca idade. Elas são mais vulneráveis em razão do desenvolvimento de seus órgãos e sistema imunológico e das vias respiratórias", ressalta Margaret Chan, diretora-geral da OMS. No total, 5,9 milhões de crianças com menos de 5 anos morreram no mundo em 2015 (último dado levado em conta nos dois relatórios). De acordo com a organização, 26% dessas mortes podem ser atribuídas a fatores ambientais. 

Brasil 

O estudo da OMS indica que o Brasil registra a taxa de 16,4 mortes de crianças com menos de cinco anos para cada mil nascimentos, acima do índice de países como Austrália (3,8 mortes), Argentina (12,5) ou China (10,7), mas taxa bem abaixo da registrada em países da África e outras regiões pobres do mundo. Áreas urbanas no Brasil possuem, segundo dados do estudo, um dos mais baixos índices de concentração de partículas finas entre os cerca de 190 países listados no documento. Quase a totalidade da população brasileira tem acesso a esgoto sanitário, água potável e combustível limpo para as tarefas da casa, de acordo com o relatório. 

'Não polua o meu futuro' 

O segundo estudo da OMS, Não Polua o Meu Futuro! O Impacto do Meio Ambiente na Saúde das Crianças [Don’t Pollute My Future! The Impact of The Environment on Children’s Health], detalha o impacto de fatores ambientais sobre as doenças infantis. Infecções respiratórias, como pneumonia, são a principal causa de mortalidade infantil: 15,5% das mortes de crianças até 5 anos em 2015. Cerca de 570 mil crianças com até 5 anos morrem por ano no mundo em decorrência de doenças respiratórias, atribuídas à poluição do ar em casa e externa (causada na maioria dos casos por veículos) e também ao tabagismo passivo. A poluição em casa é derivada principalmente do uso de combustíveis sólidos, como o carvão, para cozinhar. 

"Bilhões de crianças vivem em áreas onde os limites de poluição ultrapassam os fixados pela OMS", afirma a organização. A diarreia mata cerca de 10% das crianças com menos de 5 anos de idade, principalmente na Ásia e no sudeste asiático. 

Anualmente, são 361 mil mortes causadas pela diarreia devido à falta de acesso à água potável, saneamento e higiene. "Investir na eliminação de riscos ambientais à saúde, como melhorar a qualidade da água ou o uso de combustíveis limpos, resultará em benefícios maciços", diz Maria Neira, diretora do departamento de saúde pública da OMS

O exemplo de Curitiba 

A capital do Paraná teve destaque no estudo da OMS como um exemplo a ser seguido. A "ecológica Curitiba", como é chamada no texto, investiu "pesado" em modos mais limpos de transporte, em planejamento urbano integrado e na reciclagem do lixo. 

"Apesar da população de Curitiba ter quintuplicado nos últimos 50 anos, a qualidade do ar em Curitiba é melhor do que em muitas outras cidades com crescimento rápido", diz a OMS, acrescentando que os índices de poluição do ar na cidade brasileira são muito próximos aos níveis indicados pela organização.

Por: Daniela Fernandes (BBC Brasil).

Dia Mundial da Vida Selvagem

Três de março, Dia Mundial da Vida Selvagem, é muito importante que se fale sobre o que os cientistas têm alertado durante décadas: o fato de que a existência de muitas espécies está sendo pressionada pelas ações humanas na direção de uma sexta extinção em massa. 

O relatório do Planeta Vivo [Living Planet Report – LPR], divulgado no segundo semestre de 2016, aponta que, em média, a abundância das espécies de vertebrados diminuiu 58% desde 1970 e, se as atuais tendências continuarem, até 2020 esse declínio chegará a 67%. Mesmo quando as metas projetadas pelas Nações Unidas são de acabar com a perda da biodiversidade até 2020. 

Parece uma mensagem um tanto catastrófica, mas as evidências nunca foram tão fortes. A lista vermelha da IUCN ratifica essa constatação ao assinalar que mais espécies estão ameaçadas de extinção ou, então, que algumas espécies estão cada vez mais ameaçadas de extinção. 

Em termos de diversidade de fauna e flora, as florestas tropicais estão entre os ecossistemas mais ricos do planeta e que sofreram a maior perda de área. O LPR fala de 48,5% do habitat das florestas tropicais que foram convertidos para uso humano, até os anos 2000. 

A onça-pintada (Panthera onca), por exemplo, é um dos animais emblemático das florestas tropicais brasileiras. Até a década de 1960 eram numerosas na Mata Atlântica, mas com a quase extinção do bioma o maior felino das Américas corre sério risco de desaparecer. Em um estudo publicado recentemente [A Biodiversity Hotspot Losing its Top Predator: The Challenge of Jaguar Conservation in The Atlantic Forest of South America], a revista Scientific Reports revelou que menos de 300 onças estão presentes no bioma e suas populações encontram-se isoladas em apenas 3% do que resta de Mata Atlântica. Para se ter uma ideia, somente no Parque Nacional (ParNa) do Iguaçu, a quantidade da espécie caiu 90% nos últimos 20 anos. 

Já o índice do Planeta Vivo Aquático apresentado no estudo, mostra que a abundância das populações monitoradas no sistema aquático sofreu uma queda geral de cerca de 81% entre 1970 e 2012. Esses números estão baseados nos dados de 3.324 populações monitoradas de 881 espécies aquáticas. 

Os pesquisadores sugerem que são as pressões decorrentes de atividades humanas não sustentáveis, como a agricultura, a pesca, a mineração, a sobre-explotação, as mudanças climáticas e a poluição, que contribuem para a perda de habitat e a degradação do meio ambiente terrestre e aquático. E, segundo eles, os efeitos não recaem apenas sobre plantas e animais selvagens, mas, nós, seres humanos, também somos vítimas de nosso comportamento de deterioração da natureza. 

Uma maneira prática de compreender a relação entre as ações humanas e a os limites que o planeta aguenta é por meio dos cálculos da Pegada Ecológica feitos pela Global Footprint Network (GFN), organização internacional pela sustentabilidade, parceira global da Rede WWF, que indica que estamos consumindo cerca de 50% além da capacidade regenerativa anual da Terra. 

Os custos deste excesso estão se tornando cada dia mais evidentes com a seca extrema, a escassez de água doce, a erosão do solo, a perda de biodiversidade, o acúmulo de dióxido de carbono na atmosfera e a ameaça à forma de vida de muitos povos indígenas e populações tradicionais que dependem dos recursos naturais como meio de vida. 

Estudos recentes sugerem que os prováveis índices de extinção, atualmente, sejam de 100 à 1.000 extinções por 10.000 espécies em 100 anos, o que é muito elevado. Isso leva a crer que nós estamos mesmo à beira da sexta extinção em massa. 

Considerando toda essa trajetória e nosso papel central de fazer uma mudança para modos sustentáveis e resilientes de produção e consumo, temos motivo para ter esperança. No entanto, essa transição deve ser urgente. Uma série de mudanças significativas precisam acontecer no sistema econômico global para promover a perspectiva de que nosso planeta possui recursos finitos.Precisamos reconhecer o valor e as necessidade de nosso planeta Terra, cada vez mais frágil, e gerar consciência de que as agendas social, econômica e ambiental devem caminhar juntas. É imprescindível que protejamos a vida selvagem. 

A data foi criada em 2013 pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) a fim de reafirmar o valor essencial das espécies selvagem. E o Brasil, país que possui a maior biodiversidade do planeta, precisa agir agora e tomar ações decisivas para que mecanismos sejam criados para promover o melhor aproveitamento do solo; que os serviços ambientais providos pelas florestas, por exemplo, a regulação climática e a segurança hídrica, sejam valorizados; além de incentivar o melhor ordenamento e gestão territorial; a consolidação e criação de áreas protegidas levando em conta uma paisagem mais ampla, a promoção de cadeias produtivas, entre outras ações cotidianas que podem garantir uma efetiva redução na pressão sobre os recursos naturais e a vida selvagem ao redor do mundo.

Por: Mariana Napolitano (WWF Brasil).

Microplástico: Poluição Invisível Que Ameaça Oceanos

Partículas microscópicas liberadas por roupas sintéticas e pneus passam por sistemas de tratamento de água e vão parar no mar. De pneus a roupas e cosméticos, o microplástico se encontra praticamente em todos os objetos do dia a dia. E seu impacto sobre as águas do planeta é catastrófico: calcula-se que, dos 9,5 milhões de toneladas de matéria plástica que flutuam nos mares, até 30% sejam compostos por partículas minúsculas. Invisíveis a olho nu, elas constituem uma fonte de poluição mais grave do que se pensava, como mostra o mais recente relatório da International Union for Conservation of Nature (IUCN)

"Nossas atividades diárias, como lavar roupas e andar de carro, contribuem significativamente para a poluição que sufoca os nossos oceanos, tendo efeitos potencialmente desastrosos para a rica diversidade que vive neles e para a saúde humana", afirma a diretora geral da IUCN, Inger Andersen

Segundo o estudo da organização, cerca de dois terços do microplástico encontrado nos oceanos são originados dos pneus de automóveis e das microfibras liberadas na lavagem de roupa. Outras fontes poluidoras são a poeira urbana, marcações rodoviárias e os barcos. 

Perigo invisível 

As imagens de tartarugas presas em redes de pescar e pássaros com anéis de latas de cerveja em volta do pescoço há muito correm mundo. O problema do microplástico, contudo, é invisível, só tendo sido recentemente detectado como tal. Assim, ainda se sabe relativamente pouco sobre sua escala e verdadeiro impacto ambiental. Ao contrário do lixo plástico convencional, que se degrada na água, o microplástico já é lançado no ambiente em partículas tão microscópicas que driblam os sistemas de filtragem das estações de tratamento de água. É exclusivamente nesse tipo de dejeto que o relatório da IUCN se concentra. 

A atual quantidade de microplástico nas águas é de 212 gramas por ser humano, o equivalente a se cada pessoa do planeta jogasse uma sacola plástica por semana no oceano. 

Ingeridos por peixes e outros animais marinhos, os minigrãos podem ter sério impacto sobre seus sistemas digestivos e reprodutivos, e há sérias suspeitas de que acabem chegando aos humanos, cadeia alimentar acima. 

Ao pensar em lixo nos oceanos costumamos lembrar de macroplástico, como sacolinhas. Mas o microplástico, liberado quando lavamos roupas sintéticas também prejudica o meio ambiente 

Maus hábitos de consumo 

Como lembra João de Sousa, diretor do Programa Marinho Global do IUCN, as estratégias globais de combate à poluição marítima se concentram em reduzir o tamanho dos fragmentos do lixo plástico convencional. No entanto essa concepção precisa ser revista. 

"As soluções devem incluir design de produtos e de infraestrutura, assim como o comportamento do consumidor. Pode-se projetar roupas sintéticas que liberem menos fibras, por exemplo, e os consumidores também podem agir, optando por tecidos naturais, em vez de sintéticos." 

Segundo outros especialistas, contudo, essa estratégia não tem o alcance necessário, e se precisa também abordar outros hábitos de consumo. Para Alexandra Perschau, da campanha Detox da organização ambiental Greenpeace na Alemanha, o real problema não é o tipo de casaco que se compra, mas sim quantos. 

"O sistema de moda como um todo é o problema, é excesso de consumo", comentou à DW. "Em diversos levantamentos, seja na Ásia ou na Europa, grande parte dos consumidores admite possuir mais roupas no armário do que precisam, mas continua comprando mais e mais." 

A produção mundial de vestuário dobrou a partir do ano 2000, excedendo os 100 bilhões de peças em 2014, de acordo com uma sondagem da Greenpeace. Além disso, atualmente as peças de vestuário tendem a ser de difícil reciclagem. 

"Temos cada vez mais peças confeccionadas com fibras mistas de poliéster e algodão, portanto nem temos como reciclá-las devidamente. No momento a tecnologia não está tão avançada que possamos separar esses tipos de fibras", explica Perschau

Entre a moda e meio ambiente 

O relatório da IUCN saúda os esforços para banir as microesferas de plástico dos produtos cosméticos, inspirados por relatórios recentes. Trata-se de uma "iniciativa bem-vinda", porém com impacto restrito, uma vez que esse tipo de material só responde por 2% da poluição com microplástico. 

Em vez disso, seria necessária uma investida mais ampla e de impacto real contra as atividades geradoras das minúsculas partículas, segundo Maria Westerbos, diretora da Plastic Soup Foundation, que luta para que se pare de despejar matéria plástica no oceano. 

"Somos todos responsáveis: é a ciência, a indústria, são os legisladores – e os consumidores. Todos nós precisamos fazer algo. Todos estamos usando plástico e todos o jogamos fora", pleiteia Westerbos, sugerindo o desenvolvimento de tecidos que não desfiem e a adoção de novos filtros nas máquinas de lavar roupa – que só devem ser usadas com carga completa e de preferência com sabão líquido. 

Perschau, da Greenpeace, acrescenta a importância de aumentar a vida útil das roupas. Em vez de jogar fora as que não se deseja mais, faria mais sentido trocá-las por outras ou entregá-las nas lojas de segunda mão. "Não estamos dizendo que não se deva usar roupa da moda, mas sim ser mais inteligente, vivendo de acordo com os próprios desejos sem comprometer os recursos do planeta." 

Com 7 bilhões de seres humanos e uma população crescente, será preciso mudar nossas atitudes em relação ao plástico, se quisermos salvar os oceanos, observa Westerbos: "Não compre maçãs embaladas em plástico, não use sacolas plásticas descartáveis, nem canudinhos para descarte imediato. Há um monte de modos de evitar usar plástico, vamos começar por aí."

Por: Louise Osborne (Deutsche Welle).