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Bioenergia Pode Ajudar a Mitigar as Mudanças Climáticas, reconhece IPCC

Aumento generalizado e desordenado da produção de culturas energéticas, no entanto, pode ter impactos na degradação da terra, segurança alimentar e no uso de recursos hídricos, apontou relatório especial do painel do clima da ONU

A bioenergia pode ajudar na mitigação das mudanças climáticas globais contribuindo para diminuir a queima de carvão, petróleo e gás natural para geração de energia e, consequentemente, reduzindo a emissão de gases de efeito estufa para a atmosfera. 

Pesquisadores brasileiros e estrangeiros que têm estudado o assunto defendem ser possível expandir o uso de bioenergia sem degradar o solo, comprometer a segurança alimentar ou os recursos hídricos. 

O tema foi abordado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU) no seu mais recente relatório especial, lançado no dia 8 de agosto de 2019 com o tema "Mudanças climáticas e uso da terra", e em seu respectivo sumário para os formuladores de políticas. 

A abordagem do relatório sugere que, entre cientistas e negociadores de governos, o antagonismo entre a produção de biocombustíveis e o cultivo de alimentos começa a se dissipar. 

O documento reconhece, por exemplo, que o uso da bioenergia, juntamente com a redução do desmatamento de florestas tropicais e o replantio de vegetação nativa para sequestrar e retirar dióxido de carbono (CO2) da atmosfera, pode ajudar a limitar o aquecimento global a 1,5ºC ou bem abaixo de 2ºC nas próximas décadas. 

Mas ressalva que o aumento generalizado e desordenado da produção de bioenergia no mundo pode resultar em uma grande expansão de áreas de cultivo de culturas energéticas em detrimento do cultivo de alimento, além de aumentar o uso de água para irrigação. 

"Alguns cenários do IPCC apontam que, com o aumento da demanda por energia, poderia ocorrer um incremento de mais de 25 milhões de hectares por ano da área voltada ao cultivo de culturas para produção de bioenergia no mundo. Isso poderia pressionar áreas de vegetação nativa ou voltadas à produção de alimentos", disse Luís Gustavo Barioni, pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária e um dos autores do capítulo transversal sobre bioenergia e tecnologias de captura e armazenamento de CO2 – as chamadas BECCS (Bionergy Carbon Capture and Storage) – em cenários de mitigação, à Agência FAPESP

"Mas, para chegar a taxas de expansão de uso da terra para bioenergia dessa ordem, precisaria ter um mercado internacional pujante, que pagasse não só por esse tipo de energia, mas também pelo serviço ambiental de captura e armazenamento do carbono. E isso ainda é muito incipiente", ponderou Barioni. (Leia mais em http://agencia.fapesp.br/31178/). 

Ação de cientistas brasileiros

A declaração final sobre o papel da bioenergia no combate às mudanças climáticas no sumário para tomadores de decisão reflete a ação de diplomatas e funcionários do governo brasileiro, apoiados a distância por cientistas, na reunião do IPCC, em Genebra, na Suíça

Durante o evento, os delegados nacionais de 190 países discutiram o texto até entrar em um acordo para que o documento pudesse ser fechado, de acordo com Gláucia Mendes Souza, professora do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN). 

A versão preliminar do sumário refletia de modo impreciso as conclusões do relatório e apresentava restrições controversas e enviesadas em relação à bioenergia, afirmam pesquisadores brasileiros que acompanharam as discussões a distância. 

"O sumário apresentava dados que só depreciavam a bioenergia, baseados em valores equivocados de produtividade e de área necessária para produzir biocombustíveis para atender as necessidades da transição energética global", acrescentou Luiz Augusto Horta Nogueira, pesquisador associado do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético da Universidade Estadual de Campinas (Nipe-Unicamp). 

Por meio de uma interlocução com diplomatas do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, que participaram da redação do sumário, na Suíça, um grupo de cientistas brasileiros, integrado por Nogueira e outros pesquisadores ligados ao BIOEN, apresentou uma série de argumentos que permitiram a adequação correta do documento. 

"Fizemos uma intervenção circunstanciada, baseada em evidências e argumentos científicos, que permitiu alterar ou eliminar opiniões enviesadas no sumário para os formuladores de políticas", disse Souza

Mais informações sobre essa negociação estão no artigo Nunca Tantos Deveram a Tão Poucos, publicado no site da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), no dia 9 de agosto. 

Cenários de expansão

De acordo com o relatório, para limitar o aquecimento global a 1,5ºC até 2050 seria necessário usar até 7 milhões de quilômetros quadrados (Km²) para a produção de culturas energéticas. A área de cultivo necessária em um cenário de aquecimento de 2ºC seria menor, limitada a 5 milhões de km². 

Maiores níveis de conversão da terra para produção de bioenergia poderiam ter efeitos adversos que afetariam a disponibilidade de água, de alimentos, a biodiversidade e causariam o aumento da degradação do solo e desertificação, indica o relatório. 

"A expansão da produção mundial de bioenergia com captura e armazenamento de carbono nas taxas estimadas nos cenários de aquecimento global mais ambiciosos projetados pelo IPCC é factível, uma vez que o aumento da área de cultivo de culturas energéticas em países que são grandes produtores de biocombustíveis, como o Brasil, está bem abaixo desses limites", afirmou Barioni

Segundo ele, a área de produção de cana-de-açúcar no país, que hoje é de 10,2 milhões de hectares, tem aumentado, junto com a de soja, em 3 milhões de hectares por ano, com maior proporção de lavouras de soja. Além disso, outras formas de energia renováveis, como a eólica e a solar, devem aumentar a competição com o etanol e outros biocombustíveis para ampliar suas participações na matriz energética brasileira. 

"O Brasil já tem uma matriz energética relativamente limpa e não tem uma expansão muito rápida da demanda energética. Dessa forma, não há perspectiva de aumentar significativamente a área voltada à produção de cana-de-açúcar", avaliou. 

O relatório também aponta que a integração da bioenergia em paisagens agrícolas geridas de forma sustentável e que limitar a produção de culturas energéticas em terras marginais ou abandonadas teriam efeitos insignificantes sobre a biodiversidade e a segurança alimentar e poderiam diminuir a degradação da terra. 

De acordo com Barioni, há cerca de 3 bilhões de hectares de terras pastoris no mundo hoje, dos quais 1,5 bilhão de hectares são efetivamente usados como pastagem. Ainda não é possível estimar, porém, se a bioenergia pode vir a ocupar a área remanescente. 

"Isso dependerá muito de incentivos econômicos. Se for mais atrativo economicamente produzir culturas energéticas em comparação com cultivos para alimentação humana, pode ocorrer o deslocamento da produção de alimentos para áreas com maior risco climático ou condições de solo não muito favoráveis", disse o pesquisador. 

Já as áreas de pastagens podem não ser muito afetadas, em razão dessa atividade ser realizada em regiões mais remotas, em que a logística não é muito favorável para produção de bioenergia, ponderou. 

"Normalmente, como há o transporte intensivo de biomassa, a produção de bioenergia ocorre em regiões com melhor logística. Mas ainda há muita incerteza se a bioenergia ocupará essas áreas ou competirá por terras em regiões menos favoráveis em termos de logística, onde estão situadas áreas de pastagem", afirmou Barioni.

Por: Elton Alisson (Agência Fapesp).

Estudo Relaciona Exploração de Gás Natural Por 'Fracking' a Aumento nas Emissões de Gases Estufa

O metano proveniente do fracking tem características diferentes daquele emitido pelas técnicas convencionais de produção de gás natural — Foto: Tim Evanson / Visualhunt. Estudo relaciona exploração de gás natural por fracking a aumento nas emissões de gases estufa. 

Um estudo divulgado no dia 12/08/2019 aponta que o aumento da concentração de gás metano na atmosfera nos últimos anos vem, em grande parte, da exploração do gás de xisto por meio de "fracking" (técnica também conhecida como "fraturamento hidráulico"). 

A conclusão dos pesquisadores da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, foi publicada em artigo na revista científica Biogeosciences [Ideas and perspectives: is shale gas a major driver of recent increase in global atmospheric methane?]. Eles analisam o aumento da concentração de gás metano na atmosfera ao longo da última década e sua relação com a crescente utilização do fracking como prática de produção de gás natural. 

O metano é um dos principais gases causadores do efeito estufa. E o fracking é uma técnica de produção de gás natural considerada não convencional: uma espécie de sonda é inserida a mais de 3 mil metros de profundidade, "fraturando" as rochas para a retirada do gás natural presente em camadas quase inacessíveis. 

Segundo o autor do artigo, Robert Howarth, que é professor de ecologia e biologia ambiental, é um erro atribuir a fontes biológicas o aumento da concentração de metano no ar. Pesquisas anteriores vêm associando essa elevação, principalmente, a atividades como a pecuária para produção de carne bovina. 

Como foi feito o estudo 

Os cientistas fizeram uma análise química da composição do metano que vem sendo emitido na atmosfera nos últimos anos. Dessa forma, conseguiram encontrar rastros de suas origens. 

Essa espécie de "impressão digital química" do gás metano indica que uma grande proporção dele agora vem sendo emitida por meio do fracking. A concentração de metano na atmosfera vem aumentando especialmente desde 2008, mas também sua composição está ficando diferente. 

Isso porque o metano proveniente do fracking tem características diferentes daquele emitido pelas técnicas convencionais de produção de gás natural. E também é diferente daquele metano liberado na queima de outros combustíveis fósseis, como o carvão. 

A pesquisa indica que a proporção de moléculas de carbono-13 em relação ao carbono-12 é menor no metano emitido por fracking. Assim como o metano emitido por fontes biológicas, como aquele presente nos gases de animais ou exalado por terras úmidas, tem concentração de carbono-13 mais baixa do que o metano que vem dos combustíveis fósseis. 

Metano no aquecimento global 

De acordo com o estudo, os níveis de gás metano no ar aumentaram muito durante as últimas duas décadas do século 20 e depois se estabilizaram na primeira década do século 21. 

Depois, houve um aumento dramático no metano atmosférico entre 2008 e 2014, passando de 570 bilhões de toneladas anuais para 595 bilhões de toneladas, por causa das emissões por atividades humanas nos últimos 11 anos. 

"Reduzir as emissões de metano agora pode ser uma forma imediata de desacelerar o aquecimento global e cumprir com as metas das Nações Unidas, de manter o aumento da temperatura do planeta abaixo de 2ºC", afirma o cientista, em nota de divulgação da pesquisa. 

"Se pararmos de jogar metano na atmosfera, ele vai se dissipar", acrescenta. "Ele vai embora rapidamente, se comparado com o dióxido de carbono (CO2). Reduzir o metano é a forma mais fácil de conter o aquecimento global". 

O cientista também diz que, ao longo da última década, cerca de dois terços de toda a nova produção de gás natural vem dos Estados Unidos e do Canadá.

Fonte: G1.

Quem Quer Agradar o Mundo?

Uma boa reputação ambiental não é apenas uma questão política. Ela é crucial para quem faz negócios. Foto da Amazônia: Ricardo Lima / Getty Images.

Agricultura brasileira está diante de uma encruzilhada. De um lado, pode se consolidar como a grande vilã do mundo, uma destruidora das florestas do Brasil e do equilíbrio climático de todo o planeta. De outro lado, pode ser vista como a grande salvadora da biodiversidade da floresta e mantenedora do aquecimento global em níveis administráveis. A decisão sobre o caminho a seguir será tomada nos próximos meses. 

É patente que a imagem do Brasil no exterior vem se deteriorando aceleradamente desde o início do governo Bolsonaro. Sem entrar nos méritos dos motivos, a política ambiental do governo atual tem sido associada a redução de áreas de conservação, desmanche dos órgãos de fiscalização, flexibilização de leis ambientais, anistia a quem cometeu irregularidades, defesa da caça de animais, cancelamento de parcerias internacionais para conservação, ataque às organizações de defesa do meio ambiente, corte de verbas para o desenvolvimento sustentável e, no caso recente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, críticas aos pesquisadores que monitoram o desmatamento. Tudo isso supostamente em nome de algum benefício para a agricultura brasileira. 

A conta dessa percepção já está chegando. Diversos governos de outros países têm manifestado preocupação com a política ambiental do Brasil e os custos para o planeta de uma eventual destruição da floresta Amazônica – que é brasileira, sem dúvida, mas cuja saúde é fundamental para o resto do planeta. A Amazônia não é apenas a fábrica de chuvas do resto do país e guardiã da maior biodiversidade do mundo. Também é um estoque de carbono decisivo para manter o equilíbrio do clima da Terra diante do aquecimento global em curso. Por isso, diante das declarações pró-devastação ambiental do presidente do Brasil, a revista britânica The Economist resumiu a expectativa global ao batizá-lo de "o chefe de estado mais perigoso do mundo em termos ambientais". É como se o Brasil detivesse armas de destruição em massa ambientais. E é como se o nosso presidente estivesse sendo visto – o jogo aqui é o da percepção – como uma versão climática de Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte

Essa conta já foi percebida por quem faz negócios. Em uma palestra recente, Marcello Brito, presidente do Conselho Diretor da Associação Brasileira do Agronegócio, alertou para o risco de restrições comerciais caso a imagem do Brasil lá fora continue se degradando. O tão sonhado acordo do Mercosul com a União Européia pode virar cinzas muito antes da floresta. Até a China, maior cliente do Brasil, deu seu recado. A China cada vez mais se posiciona como a líder global em tecnologias verdes. O governo chinês começou a combater as mudanças climáticas por interesse próprio. O órgão responsável por comprar do Brasil já alertou para cuidarmos das práticas sustentáveis na agricultura, sob pena de embargo. Como lá é uma ditadura, nem dá para dizer que foi alguma ONG que soprou maledicências nos ouvidos deles. 

O risco não é apenas para o setor agrícola. Executivos de mineradoras que operam no Brasil relatam que os acionistas vêm expressando cada vez maior preocupação com o risco socioambiental de trabalhar num país onde os cuidados ambientais estão se degradando. 

É claro que não precisa ser assim. Entre 2005 e 2015, o Brasil reduziu 70% do ritmo de desmatamento na Amazônia. Foi resultado de um mix de políticas públicas como a suspensão do crédito agrícola nos municípios campeões de destruição, melhora na fiscalização e no monitoramento, criação de unidades de uso sustentável em áreas críticas como as margem da BR 163, a Cuiabá-Santarém. Sabe qual foi o impacto da redução no desmatamento para a produção agrícola do país? Nenhum. Ao contrário: nesse período, o Brasil bateu recordes sucessivos de produção e de exportação, também de geração de emprego e de crescimento econômico. E de redução da pobreza e da fome. Além disso, o Brasil ganhou reconhecimento internacional. Teve acesso à doação de bilhões de euros da Europa em programas de geração de empregos sustentáveis no Fundo Amazônia, com recursos para os governos estaduais, municipais e federais. O Brasil virou uma das grandes potências diplomáticas nas negociações dos acordos do clima, sob o guarda-chuva da ONU, que incluem não só metas mas também investimentos em obras de adaptação às mudanças climáticas e transferências de tecnologia. 

O passo seguinte nesse círculo virtuoso seria buscarmos os pagamentos por serviços ambientais. O Brasil tem tudo para ser um dos grandes beneficiários dos recursos destinados para premiar quem conserva o carbono na terra. Empresas como a Permian Global captam investimentos para compensar a conservação de florestas. Há outras frentes mais ambiciosas. Novas empresas estão se organizando para remunerar os agricultores que, por meio de boas técnicas, preservam a integridade do solo e aumentam o acúmulo de carbono embaixo da terra. Uma delas, a americana Indigo, está montando um mercado internacional para pagar aos agricultores que estocam carbono no solo. 

Isso sem falar nos produtos da floresta em pé. Um potencial econômico que mal começamos a explorar. A floresta preservada no Pará e na Bahia tornam o Brasil um dos maiores produtores mundiais de cacau. Se a destruição ambiental deixa um gosto amargo na boca, a preservação é doce como um chocolate. 

É esse tipo de benefício que precisamos buscar. A experiência recente do Brasil mostrou que somos capazes de ser os heróis da luta global pelo clima. E os heróis não abandonam a luta.

Por: Alexandre Mansur (Exame).

Poluição do Ar Pode Ser Tão Perigosa Quanto Fumar Um Maço de Cigarro Por Dia

Pesquisadores dos EUA viram que pessoas expostas a gases poluentes, principalmente ao ozônio, estão mais sujeitas a enfisema pulmonar. 

Pesquisadores dos Estados Unidos concluíram que a exposição à poluição do ar pode ser equivalente a fumar uma carteira de cigarros por dia e que ela ainda pode aumentar a chance de se ter enfisema pulmonar, uma doença perigosa e sem cura. 

Os cientistas notaram uma maior incidência da enfermidade em pessoas que estão expostas por muito tempo a gases poluentes, em especial ao ozônio. O enfisema é uma doença respiratória grave, que diminui a elasticidade dos pulmões e leva à destruição dos alvéolos pulmonares, causando sintomas como respiração rápida, tosse ou dificuldade para respirar. 

Segundo o estudo, conduzido pela Universidade de Chicago, pela Universidade Columbia e pela Universidade Estadual de Nova York em Buffalo, em áreas com aumento de três partes por milhão (3 ppm) no nível de ozônio ao longo de dez anos, as pessoas têm maior chance de ter enfisema. Essa possibilidade é a mesma que tem alguém que fume uma carteira de cigarros por dia ao longo de 29 anos. 

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores estudaram 7 mil pessoas e a poluição a que elas tiveram expostas do ano 2000 até 2018. Os participantes, que foram expostos a exames de tomografia computadorizada, viviam todos em grandes regiões metropolitanas como Chicago, Baltimore, Los Angeles, Minnesota e Nova York. Os resultados foram publicados no dia 13/08/2019 no periódico médico JAMA [Association Between Long-term Exposure to Ambient Air Pollution and Change in Quantitatively Assessed Emphysema and Lung Function]. 

Os cientistas acreditam que a principal causa para a maior predisposição ao enfisema é o ozônio que fica concentrado na troposfera (camada mais baixa da atmosfera). O gás é produzido especialmente quando a luz ultravioleta age com outros poluentes liberados por combustíveis fósseis. 

"Conforme as temperaturas aumentam com o aquecimento global, o nível de ozônio troposférico vai continuar a aumentar", contou R. Graham Barr, professor de epidemiologia na Universidade Columbia. "A não ser que passos sejam tomados para reduzir os poluentes, ainda não é claro qual nível ou sequer se esses gases são seguros para a saúde humana".


Nível do Mar Está Acelerando Há 60 Anos

Surfistas aproveitam ondas raras na praia do Flamengo, dentro da Baía de Guanabara. Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil. Estudo revê séries de dados e mostra que elevação global do oceano ganhou impulso bem antes do que se imaginava. 

A aceleração da elevação do nível global dos oceanos começou 30 anos antes do que os cientistas imaginavam. O resultado é de um novo estudo, publicado no dia 05/08/2019. 

A equipe do pesquisador alemão Sönke Dangendorf, da Universidade de Siegen, desenvolveu uma nova metodologia para analisar as séries de dados mais antigas sobre o nível do mar e concluiu que a tendência observada hoje data dos anos 1960 – antes mesmo de a expressão “aquecimento global” ter aparecido pela primeira vez na literatura científica. O estudo foi publicado no periódico Nature Climate Change [Persistent acceleration in global sea-level rise since the 1960s]. 

Ao longo do último século, os oceanos já subiram cerca de 20 centímetros. O fenômeno, um dos efeitos mais temidos do aquecimento global, é causado sobretudo pelo derretimento de geleiras de montanhas, dos mantos de gelo da Groenlândia e da Antártida e pela expansão térmica do mar – líquidos aquecidos aumentam de volume. 

Estima-se que a elevação neste século, a depender do comportamento do gelo da Antártida, possa ultrapassar um metro. Isso teria consequências dramáticas para cidades costeiras e nações insulares, já que uma elevação dessa ordem pode se multiplicar por quatro durante ressacas ocorridas em maré alta. 

O nível do mar é medido com precisão milimétrica por satélites desde 1993, quando se detectou a aceleração. Antes disso, os cientistas precisavam se fiar em registros esparsos de marégrafos espalhados pelo mundo. 

Dangendorf e seus colegas combinaram duas técnicas de análise dos dados dos marégrafos: uma que permite olhar a tendência no longo prazo, mas não detecta variações que ocorrem de um ano para o outro, e uma que permite reconstruir a variação anual, mas não enxerga o longo prazo. Assim, foram capazes de reconstruir a tendência de aumento do nível do mar desde 1900. 

Eles descobriram que a aceleração começou em 1960, saltando de cerca de 1 mm por ano para quase 4 mm por ano. Ela seguiu uma mudança nos ventos alísios do hemisfério Sul. O principal ponto de aumento é no Pacífico Sul, entre Austrália e Nova Zelândia. E mostra a importância da expansão térmica para essa tendência.


Aceleração do nível do mar (Imagem: The Carbon Brief).

"Os ventos se intensificaram, levando a uma maior redistribuição de massas de água quente superficial para o Pacífico", afirmou Dangendorf ao Observatório do Clima. Ele afirma que isso causou um segundo efeito sobre o nível global do mar: "Se a água mais quente é empurrada para longe, a água mais fria e mais densa de profundidades intermediárias sobe à superfície. Essa água mais fria e mais densa absorve calor de forma mais eficiente, levando a uma maior expansão térmica – e, por consequência, a uma elevação mais rápida no nível do mar".


Riscos Ambientais Sob a Ótica do Mercado Segurador

Mais do que oferecer coberturas abrangentes, que garantem o ressarcimento dos danos que os segurados possam sofrer por conta de chuva, enchente, incêndio, poluição, crimes e desastres ambientais, as seguradoras precisam trabalhar fortemente para evitar que esses danos aconteçam. 

Com um crescimento exponencial nos últimos anos, os riscos ambientais respondem por três dos cinco principais riscos por probabilidade, e quatro por impacto, de acordo com a edição mais recente do Global Risks Report, publicação do World Economic Forum (WEF). Este amplo levantamento leva em consideração riscos como eventos climáticos extremos (inundações, tempestades), grandes desastres naturais (terremoto, tsunami, erupção vulcânica) e crise hídrica. 

As temperaturas globais se encaminham para um aumento de 3 a 5 graus Celsius até o fim deste século, o que supera muito a meta global para limitar essa elevação a 2 graus ou menos, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM). O ritmo acelerado da perda de biodiversidade também é uma preocupação especial. A abundância de espécies diminuiu em 60% desde 1970. Na cadeia alimentar humana, a perda de biodiversidade está afetando a saúde e o desenvolvimento socioeconômico, com implicações para o bem-estar, a produtividade e até mesmo a segurança regional. 

De acordo com o Global Risks Report, as consequências da inércia na mitigação de risco está se tornando cada vez mais clara, principalmente por conta das políticas que alguns países estão adotando e outros que estão fracassando em seus planos de mitigação. 

Diante deste cenário, é fundamental reconhecer que a mudança climática está ocorrendo e entender suas consequências. Como exemplo, temos os alagamentos nos grandes centros urbanos, onde existem ainda fatores agravantes como a obsolescência da infraestrutura de drenagem e a falta de cooperação da população no descarte adequado do lixo. 

Além dos governos, é necessário que todas as instâncias – empresas, comunidades, pessoas – entendam essas mudanças para posteriormente trabalhar na mitigação. É melhor todos trabalhando juntos, com foco, resiliência e visão de futuro. 

E onde exatamente o mercado segurador entra quando falamos em riscos ambientais? Pois bem, as seguradoras têm a missão de ajudar aos seus segurados a entender melhor o tema e se proteger dos riscos. Mais do que oferecer coberturas abrangentes, que garantem o ressarcimento dos danos que os segurados possam sofrer por conta de chuva, enchente, incêndio, poluição, crimes e desastres ambientais, é preciso trabalhar fortemente para evitar que esses danos aconteçam. 

Nota-se também uma preocupação cada vez maior do mercado segurador para oferecer produtos mais assertivos e complementares para abranger as questões ambientais. A tendência é que as seguradoras evoluam ainda mais nesse sentido e, assim, façam sua parte em prol de dias melhores. 

Seguros para riscos ambientais tendem a ser cada vez mais procurados, diante do aumento do nível de percepção dos riscos. E estamos falando desde os grandes impactos, que afetam a vida de milhares de pessoas em um determinado país ou cidade, e até mesmo aqueles considerados “individuais”, como um recente caso de um segurado, que foi impactado por uma enxurrada devido à queda de uma árvore que represou a água na rua onde mora. 

Mas a proteção realmente compensa? Sem dúvidas. É mais barato prevenir do que pagar perdas. Um estudo do National Institute of Building Sciences calculou que investir em resiliência a inundações, por exemplo, retorna entre US$ 5 e US$ 8 para cada US$ 1 gasto. É fato: não investir em proteção carrega custo de perdas futuras e oportunidades perdidas.

Por: Carlos Cortés; head de Engenharia de Riscos na Zurich Seguros. Fonte: Página 22.

Do Rio À Torneira / Do Ralo Ao Rio

Chegar em casa, lavar a mão, tomar banho, lavar frutas e verduras, cozinhar alimentos, lavar roupas..., a água, um dos recursos naturais mais preciosos do mundo, faz parte das nossas vidas e está enraizada no nosso cotidiano e afazeres domésticos. Mas, você sabe como ela chega até sua casa? Neste artigo mostraremos tudo o que acontece com nossa água de todo dia antes de chegar até nós, por onde ela passa e os tratamentos que são feitos para que venha de acordo com os parâmetros necessários para consumo. 

Como a água surge? 

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A água propriamente dita sempre existiu, a captação e tratamento dela para consumo começou em meados de 4000 a.C, quando as primeiras tubulações de cerâmica foram fabricadas e manuscritos gregos já orientavam pela fervura, exposição ao sol ou filtração em leitos de areia para purificar águas impuras. 

A “produção” da água existe em diversas formas, seja sólida, líquida e gasosa, estágios estes, que fazem parte do ciclo da água, como mostra a figura ao lado. 

Dentro deste ciclo, as etapas principais são a evaporação, precipitação, infiltração e escoamento. Ou seja, a água armazenada nos rios, lagos, oceanos e em pequenas partículas nas plantas é evaporada, se condensando nas nuvens; onde a partir do acúmulo da água na atmosfera ocorre um determinado processo que cria os núcleos de condensação, fazendo com que as partículas de água fiquem pesadas, caindo em forma de chuva. As chuvas que caem na superfície terrestre infiltram no solo, nos rios e o que resta da água é escoado, chegando novamente ao oceano e reiniciando todo o processo. 

Por conta disso, a água é considerada um recurso natural renovável, ou seja, faz parte de um processo que se desenvolve continuamente pela natureza. 

Esta água é utilizada para diversos objetivos, caracterizada como de usos múltiplos, seja para agricultura, para pecuária, para consumo nos centros urbanos, nas fazendas, cada uso, com uma necessidade específica para a qualidade da água, o que mostra como dependemos deste recurso nas atividades básicas, econômicas e de lazer. 

Formas de Captação

As formas de captação da água variam de acordo com o local, a quantidade necessária e o objetivo da utilização, aqui iniciaremos pelas captações de menor porte até as mais complexas. 

Entre as captações de água subterrâneas, têm-se os poços artesianos, os poços freáticos e os poços artesianos jorrantes, estes são classificados de acordo com a profundidade de captação e pressão, principalmente. 

O poço artesiano é um poço perfurado para captar água em aquíferos subterrâneos, possui vida útil de aproximadamente quarenta anos, com volume em média de 2 mil litros. Por serem captados em aquíferos confinados, com camadas impermeáveis do solo, possuem menor risco de contaminação. 

Por outro lado, o poço freático é um poço perfurado para captar água em camadas mais superficiais do solo, que por conta disso, possui maior risco de contaminação, podendo ter influência de usos próximos a região. 

Já os poços artesianos jorrantes se diferenciam principalmente em virtude da pressão da água, que chega à superfície como maior força, por conta disso o nome deste tipo de captação. 

Em termos de captação de águas superficiais, têm-se principalmente as captações em reservatórios, onde a água é represada e acumulada e em captações a fio d´água, onde a vazão que chega para captação é influenciada diretamente pela vazão do próprio rio. Após isso, a água é aduzida por tubulações até as estações de tratamento de água (ETA). 

Formas de Tratamento da Água

A complexidade do tratamento da água captada varia de acordo com a qualidade que a água chega até a estação de tratamento de água. O CONAMAConselho Nacional do Meio Ambiente, definiu na Resolução Conama nº 357 as classes de água, que variam de classe especial até a classe 4, indo em ordem crescente de qualidade excelente da água (para usos mais exigentes como consumo direto para beber) até a qualidade de água ruim. 

A partir destas Classes é que são definidos quais tratamentos serão necessários para viabilizar a utilização e o consumo humano, nos tópicos a seguir são definidos resumidamente os tratamentos para cada classe. Vale citar que quanto maior a classe, maior o custo para o tratamento. 

  • Classe Especial: Desinfecção 
  • Classe 1: Tratamento Simplificado 
  • Classe 2: Tratamento Convencional 
  • Classe 3: Tratamento Convencional ou Avançado 
  • Classe 4: Não indicado para abastecimento de consumo humano


Ou seja, as águas são tratadas para remover possíveis patógenos, que podem ocasionar doenças a quem consumir sem o devido tratamento. Além disso, o tratamento também é utilizado para reduzir a turbidez da água, para que fique transparente, e a retirada da cor. 

Tratamento este que passa principalmente pelas etapas de coagulação, floculação, decantação, filtração e desinfecção. 

Etapa 1 – Captação: Já abordada anteriormente, se trata da captação, acumulação da água e encaminhamento por tubulação bombeada até a estação de tratamento de água;

Etapa 2 – Coagulação: Feita para aglomerar as partículas de sujeira, aumentando o peso e volume das mesmas, normalmente feito com adição de cal hidratada e sulfato de alumínio;

Etapa 3 – Floculação: A água é agitada lentamente, facilitando a união das partículas da sujeira, formando os flóculos;

Etapa 4 – Decantação: Nesta etapa, a água deixa de ser agitada, para que os flocos se depositem no fundo, separando estas partículas da água, a partir daí a água mais limpa vai para um filtro de areia e o lodo do fundo é conduzido para tanques de depuração; 

Etapa 5 – Filtração: A água já decantada passa pelo filtro de cascalho, areia e carvão mineral, onde vai aos poucos se livrando dos flocos que não foram decantados na etapa anterior;

Etapa 6 – Cloração e Fluoretação: A água filtrada, apesar de estar limpa, pode conter alguns microorganismos causadores de doenças, por conta disso é incluído o cloro, que serve como desinfetante (inativando ou destruindo os microorganismos) e como oxidante de compostos orgânicos e inorgânicos. Nesta etapa também, especialmente em grandes centros urbanos é necessário a inclusão do flúor, auxiliando na prevenção da cárie dentária; 

Etapa 7 – Reservação: Após o tratamento a água é armazenada em grandes reservatórios, nas áreas mais altas das cidades. 

Os reservatórios são utilizados para que tenha água disponível nas horas de maior consumo. Após estas etapas, que garantem o tratamento adequado, a água é distribuída, como veremos a seguir. 

Distribuição da Água 

Para facilitar a explicação, utilizaremos novamente a figura das etapas de tratamento, agora com foco na distribuição aos consumidores. 

Como comentado na etapa de tratamento, os grandes reservatórios de água ficam na parte mais alta, para facilitar a distribuição por gravidade, reduzindo a necessidade de utilização de bombas. 

Na etapa 8, as águas são levadas até os reservatórios de menor porte, mais próximos dos centros urbanos, e também, preferencialmente em locais altos. 

Na etapa 9, a água é distribuída por tubulações até as residências, comércios e indústrias. As tubulações devem ser mantidas e conservadas pela concessionária local, de forma a evitar vazamentos e perda de água. 

Quando percebemos a água? 

Todas estas etapas ocorrem através do investimento de estrutura, de profissionais qualificados e de planejamento de redes de tubulações nas cidades. Entretanto, quanto tempo gastamos para perceber a água enquanto a utilizamos em nossas casas? Em uma fração de segundos usamos todo o trabalho investido para que chegassem limpas e com ótima qualidade para consumirmos. 

Além disso, o Brasil tem um longo caminho a frente, onde mais de 21 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à rede de distribuição de água potável e cerca de 34 milhões de pessoas estão expostas ao risco de contrair doenças de veiculação hídrica em todo o país. 

Ou seja, além deste recurso ser cada vez mais difícil de se encontrar com boa qualidade no meio natural, com estiagens mais frequentes, tornam-se imprescindíveis campanhas de uso consciente e racional da água, assim como, de percebermos a água com toda sua importância e dependência para nossas atividades diárias. 

Da próxima vez que abrir a torneira, pense em todos os caminhos que a água percorreu até chegar na sua casa, com certeza conhecimento é o caminho para valorizarmos ainda mais nosso precioso recurso natural! 

Por: Maria Beatriz Ayello Leite (Ambiente Brasil).



Do Ralo Ao Rio 

Você sabe o que ocorre com a água depois que a utilizamos nas nossas atividades diárias, seja após o banho, lavando alimentos na torneira, lavando roupa? É necessário algum tratamento específico? Ou seria apenas um direcionamento para o rio mais próximo? 

Explicaremos aqui neste artigo todo o passo a passo da rede de tratamento de água e efluentes, parte esta, de extrema importância para a manutenção da saúde da população e melhoria na qualidade de vida. 

O importante trabalho subterrâneo

O tratamento de efluentes gerados nas casas e a implantação do saneamento básico nas cidades segue toda uma estruturação de redes coletoras, tubulações, caixas de separação que são planejadas principalmente de acordo com o objetivo de utilização da construção, a quantidade de pessoas presentes e tipos de efluentes que serão lançados, dentre outros requisitos. 

Apesar de serem estruturados para que fiquem prioritariamente no subsolo, fora da vista, o saneamento está listado dentro das necessidades básicas para a vida humana, sendo assegurado inclusive pela Constituição brasileira para manutenção da qualidade de vida da população. 

Entretanto, segundo pesquisa realizada pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) mostra que aproximadamente 52% da população brasileira não tem acesso à coleta de esgoto, expondo à saúde pública, devido à veiculação hídrica de doenças como cólera, meningite, hepetites A e B, bem como, impactando ao meio ambiente com contaminação do solo e rios por efluentes não tratados. 

Além disso, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada R$ 1,00 gasto com saneamento, são economizados cerca de R$ 4,00 na área da saúde pública, por conta da prevenção destas doenças vinculativas com a falta de tratamento. 

No aspecto ambiental, a redução em termos econômicos ocorre devido a diminuição da ocorrência de contaminação dos rios por metais pesados e redução da exposição de pessoas quando em contato com a água contaminada. 

Como funciona o ciclo do esgoto?

A importância do saneamento como necessidade básica já foi descrita acima, agora, no intuito de prover maior conhecimento e entendimento sobre como este trabalho é feito, explicaremos a seguir o ciclo do esgoto. 

Primeiramente, a rede de esgotamento varia de acordo com o porte do local, por exemplo, em casos onde não há rede pública próxima e há apenas residências de pequeno porte, pode ser pertinente a utilização de esgotamentos menores. 

1) Responsabilidade: O sistema de tratamento individual é obrigatório quando não há sistema público de esgoto, o sistema do tipo fossa-filtro-sumidouro é comumente utilizado; 

2) Caixa de Gordura: A caixa de gordura é necessária em todos os tipos de sistemas de tratamento, para evitar acúmulo de gordura (advindos de sabonete, sabão, por exemplo) e obstrução das tubulações; 

3) Ligações de passagem

4) Fossa Séptica: Local onde ocorre a sedimentação dos sólidos, formando um lodo, que deve ser limpo através de um caminhão limpa-fossa periodicamente; 

5) Filtro Anaeróbio: Utilizado para tratamento biológico do sistema, formado por britas compostas de microorganismos que decompõe a matéria orgânica, podendo ser colocado após o filtro um clorador para remover organismos que possam causar doenças; 

6) Sumidouro: Local para onde o esgoto, já tratado, vai para ser infiltrado no solo, ocorrendo através de furos na parede e no fundo; 

7) Zona de Raízes: Pode-se optar também, por utilizar as raízes de plantas como forma de filtro, assim, depois de passar pela fossa, o esgoto segue por um leito filtrante onde é feito o plantio de algumas plantas, que são adaptadas a condições de solo com pouca ou muita água; absorvendo a matéria orgânica e os nutrientes. 

Complementarmente, em locais com edificações de maior porte e com acesso à rede de esgotamento para a rede pública, há algumas diferenças e observações detalhadas a seguir; ressaltando principalmente que a estrutura de esgotamento se inicia dentro das residências e depois é encaminhada ao serviço de saneamento local, existindo responsabilidades específicas para o usuário e a concessionária que fornece o serviço.

1 e 2) Responsabilidade: O usuário é responsável pelas instalações prediais de esgoto dentro do terreno; 

3) Ligações de passagem

4) Caixa de gordura

5) Ligação entre a rede de esgoto da residência com a concessionária: Necessário a ligação das caixas de gordura, tubulações e válvula de retenção para esgoto com a rede coletora de esgoto; 

6) Descrição do local de medição das tarifas de esgoto: Existem tarifas de esgoto, similar à forma como são pagas as contas do serviço de abastecimento de água; 

7) Ligação equivocada da rede de esgoto com a pluvial: Esquema ilustrando uma das principais irregularidades que ocorrem, que é a ligação do sistema de esgoto junto a água da chuva, podendo sobrecarregar a rede coletora de esgoto, extravasando para fora do sistema; 

8) Ligação com a empresa responsável pelo serviço de saneamento local

Após este tratamento na residência e com a devida interligação da rede coletora de esgoto, a empresa que gerencia o serviço de saneamento local, inicia efetivamente o tratamento do esgoto gerado através das Estações de Tratamento de Esgoto (ETE). 

Em termos conceituais, o esgoto é composto basicamente de 99,9% de água e 0,1% de sólidos, sendo os principais parâmetros a serem removidos para o adequado tratamento, a matéria orgânica, o nitrogênio, o fósforo e os sólidos, o que irão garantir que o efluente seja devidamente tratado. 

Existem alguns passos principais no tratamento do esgoto sanitário, estruturados de forma a possibilitar que este fluido ganhe novamente uma utilidade, seja para retorno ao próprio corpo hídrico, seja para fins de reaproveitamento; conforme descrito abaixo. 

1) Rede Coletora: Rede que possui interação do usuário e da responsável pelo tratamento do esgoto para o encaminhamento do efluente para tratamento; 

2) Rede Elevatória: Responsável por bombear o esgoto para a estação de tratamento, a qual separa o esgoto em partes sólidas e líquidas; 

3) Pré Tratamento: Composto basicamente de grades com diferentes espessuras que retêm os materiais sólidos que chegam na estação de tratamento, bem como caixas para reter areia que podem danificar os equipamentos da ETE; 

4) Tratamento Biológico: Responsável pelo tratamento primário, com foco no tratamento biológico; 

5) Decantadores Primários e Secundários: É uma forma de separar determinadas misturas, que possuem densidades diferentes, e por isso se separam com o mais denso descendo ao fundo por gravidade; 

6) Geração de Lodo: A parte sólida se transforma em lodo, que atualmente pode possuir outras utilizações, como fertilizante ou envio diretamente ao aterro sanitário para destinação final; 

7) Desinfecção: Tratamento da parte líquida, focando a remoção de patógenos; 

8) Retorno ao Rio: A parte líquida tratada é devolvida ao rio. 

Todos estes procedimentos possibilitam que a água retorne a condições adequadas, retirando os sólidos, os microorganismos e parâmetros químicos danosos à saúde e ao meio ambiente, e assim concluindo o ciclo do esgoto. 

Estas etapas podem ser divididas também em grupos maiores de Tratamento Preliminar, com foco na remoção de sólidos grosseiros e de areia, o Tratamento Secundário, com foco na remoção da matéria orgânica e dos sólidos em suspensão e por fim, o Tratamento Terciário, voltado à remoção de patógenos. 

Vale ressaltar também que todos estes procedimentos de tratamento descritos são embasados por uma série de legislações específicas, em especial a Resolução Conama nº 357/2005 e a Resolução Conama nº 430/2011, que determina as condições mínimas de qualidade do efluente após o tratamento. Além disso, cada estado brasileiro possui normas particulares quanto a estes parâmetros de qualidade de saída do efluente. 

Por fim, em termos de manutenção e correções na rede de esgoto, comumente necessárias pelas concessionárias, são voltadas principalmente para a ligação incorreta da água da chuva com a rede coletora, sobrecarregando o sistema, a danificação de tubulações que levam o esgoto até a estação de tratamento de esgoto e a ligação incorreta de esgoto na rede de drenagem pluvial. 

Todas estas metodologias e etapas aqui apresentadas são definidas para que este importante ciclo, o do esgoto, funcione efetivamente, garantindo a melhoria nas condições básicas de saúde da população e reduzindo o impacto ao meio ambiente, para que um dia o percentual retratado no início do artigo, onde 52% da população brasileira não possui acesso ao saneamento básico, de fato se transforme. 

Por: Maria Beatriz Ayello Leite (Ambiente Brasil).

Pesquisa Compara Autodeclaração de Raça/Cor a Dados Genéticos

Ancestralidade genética africana, local de moradia e nível de instrução influenciaram a autodeclaração de cor. 

Um estudo que contou com a participação de pesquisadores da USP mostra que a probabilidade de alguém se declarar como preto ou pardo aumenta de acordo com a proporção de ancestralidade genética africana, mas varia segundo o local onde os entrevistados moram e o nível de instrução deles. 

Os dados estão no artigo Context-dependence of race self-classification: Results from a highly mixed and unequal middle-income country, publicado na revista científica PlosOne. No trabalho, os cientistas fazem uma comparação entre o componente de ancestralidade genética através de três marcadores (europeu, ameríndio e africano) e a autodeclaração de raça/cor das pessoas. A grande novidade do trabalho foi relacionar variáveis socioeconômicas, demográficas e genéticas em um estudo brasileiro sobre raça/cor. 

Os pesquisadores usaram dados do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa Brasil), uma investigação de caráter internacional que tem por objetivo pesquisar a incidência e os fatores de risco para doenças crônicas, em especial as cardiovasculares e o diabetes. São acompanhados 15 mil funcionários de seis instituições públicas de ensino superior do País. Em cada centro, os participantes da pesquisa fazem exames e entrevistas periódicos nos quais são avaliados aspectos como condição de vida, relação com o trabalho, gênero, especificidades da dieta da população brasileira e diferenças sociais. 

A medida da proporção de ancestralidade foi feita analisando-se o material genético dos participantes através da coleta de sangue. Os dados deste estudo foram colhidos durante dois anos, de 2008 a 2010, por pesquisadores da USP, Fiocruz e Universidades Federais da Bahia, do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais e do Espírito Santo

Paulo Lotufo, professor da Faculdade de Medicina da USP (FM/USP) e um dos pesquisadores envolvidos neste estudo, comenta que a localidade é um fator bem expressivo e deve ser levado em consideração. Em Salvador, por exemplo, 50% da população tem ancestralidade europeia. Já em Porto Alegre, esse número chega a 80%. Existe uma variação, segundo cada região do Brasil, que apresenta proporções diferentes de brancos, pretos, pardos, indígenas e amarelos. 

A professora Dóra Chor, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública (Fundação Oswaldo Cruz), que comandou o estudo, comenta que a grande quantidade de dados coletados pelo Elsa possibilitou o desenvolvimento de artigos como esse, que não tratam somente da ocorrência e fatores de risco de doenças do coração, diabetes e obesidade, por exemplo. 

A principal pergunta que moveu o grupo de pesquisadores foi a seguinte: quais fatores influenciam a autodeclaração de raça/cor? "Nosso maior interesse era olhar o quanto a ancestralidade e a composição racial do lugar em que a pessoa mora influenciavam a declaração de raça/cor", explica Dóra

A pesquisadora comenta que a ancestralidade africana influencia a autodeclaração de raça/cor, mas com intensidades diferentes, de acordo com a cidade. Além disso, a composição da área onde a pessoa mora também se relaciona com a probabilidade dela se declarar como negra ou parda. 

Lotufo explica que esse não foi o único fator analisado. O nível educacional também influencia a autodeclaração de raça/cor dos indivíduos. "Quem tinha nível educacional mais alto diminuía a chance de se declarar como preto, embora tivesse uma boa parte da ancestralidade africana", exemplifica. 

A pesquisa é resultado da combinação entre esses fatores, uma vez que apenas a ancestralidade genética não consegue explicar determinados fenômenos. Contextos situacionais são relevantes para cenários como o de políticas públicas, sociologia e medicina. "É preciso levar em conta vários contextos, tanto individuais como coletivos, para se ter uma explicação mais completa daquilo que influencia a forma como a pessoa se vê, em termos de raça. No geral, as pessoas acham que raça é uma coisa geneticamente determinada", comenta Dóra

De acordo com o professor, não é possível considerar igualmente a forma como a pessoa se vê e o que ela tem, de fato, no seu genoma. Existe uma concordância, entretanto, que há uma diferença que apresenta significado distinto. "É muito importante como a pessoa se vê e é vista no seu meio. Quer dizer, ninguém enxerga o DNA de ninguém", finaliza. 

Mais informações: e-mails palotufo@usp.br, dorachor@gmail.com

Por: Marcelo Canquerino (Jornal da USP).

'Erro dizer que homem descende do macaco', diz biólogo sobre Teoria da Evolução

Charles Darwin é considerado o pai da Teoria da Evolução e autor do famoso livro A Origem das Espécies, publicado em 1859. "De lá pra cá", houve muitas deturpações das análises do inglês. Em 2019, ainda há muita gente que não entende ou distorce as ideias de Darwin e seus estudos científicos. O professor de Biologia, Leonardo de Almeida Amado, que também é coordenador do curso de Biologia do Centro Universitário de Barra Mansa (UBM), no sul do Rio de Janeiro, esclarece essas dúvidas. 

O naturalista inglês é conhecido também por antever os mecanismos genéticos e por fundar a biologia moderna. "Darwin foi um dos pioneiros a estudar e falar sobre a Evolução. Criou a Teoria da Seleção Natural. Porém, na época, não pôde precisar como as características eram passadas para as gerações futuras. Com esta Teoria e os estudos de Gregor Mendel [biólogo botânico austríaco, falecido em 1884], a Genética começa a entender esta passagem de características", explica o professor. 

Na época, desacreditada por muitos, por causa do conceito da evolução através do Criacionismo, a Teoria de Darwin renasceu com a descoberta da estrutura do DNA, a parte principal de cada célula, presente em todos os organismos vivos e que é responsável pela transmissão de informações de uma geração a outra. 

Com a célebre frase "não são as espécies mais fortes que sobrevivem, nem as mais inteligentes, e sim as mais suscetíveis a mudanças", Darwin mudou para sempre o pensamento científico. Segundo Charles Darwin, os organismos mais bem adaptados ao meio têm maiores chances de sobrevivência do que os menos adaptados, deixando um número maior de descendentes. Os organismos mais bem adaptados são, portanto, selecionados para aquele ambiente. 

O homem veio do macaco? 

O ser humano não "veio do macaco". Esse é um equívoco que se criou em torno de uma ideia que não era de Darwin. Na verdade, o que ele disse é que havia indícios de que homens e macacos tinham um ancestral comum que evoluiu com o tempo e se desdobrou em vários ramos diferentes. 

A Teoria da Evolução mostra como as espécies se desenvolvem. A base da Teoria, que é a seleção natural das espécies, explica como estruturas simples se tornaram seres complexos ao longo de milhões de anos, enfrentando os desafios da sobrevivência. 

"Há uma descendência evolutiva das espécies. O Darwinismo, que é a seleção natural, e o Neodarwinismo, que explicou, acompanhado da seleção natural, a recombinação genética, está, graças aos estudos da genética, explicando o que Darwin não conseguiu explicar na época a respeito das alterações que as espécies sofriam e eram transmitidas às gerações seguintes", esclarece o professor Leonardo de Almeida

De acordo com a Teoria de Darwin, o homem e o macaco fazem parte da classe dos mamíferos e descenderam de um ancestral comum. Ao longo da evolução, homem e macaco foram sofrendo alterações e se adaptando às modificações ambientais. 

"É um erro dizer que o homem descende do macaco. Darwin nunca disse ou escreveu tal coisa. A Teoria da Evolução explica que homem e macacos descendem de um ancestral comum. Este ancestral não foi nem homem nem macaco. Este ancestral durante o processo evolutivo dividiu-se em ramos, um para o gênero em que se encontram os macacos e outro para o gênero Homo. O gênero Homo, continuou a se evoluir e ainda se evolui", reafirma. 

"As famosas mutações, que podem ser qualitativas ou quantitativas e podem ocorrer ao acaso ou, por exemplo, por influência de energia nuclear, em ambos os casos, afetam o arranjo dos genes nos cromossomos", explica o profissional. 

Darwin e sua experiência no Brasil 

O naturalista inglês, que passou anos e anos em expedições, também atracou no Brasil, em 1832. Ele aportou na Bahia e no Rio de Janeiro. Ao todo ficou por cinco meses. Darwin ficou encantado com a exuberância da floresta tropical, mas também se chocou com a escravidão — reforçando suas convicções abolicionistas de que todos os seres humanos compartilham a mesma linhagem sanguínea em razão da ancestralidade comum. 

De acordo com especialistas, os dois pontos foram cruciais para a elaboração da revolucionária Teoria que separou, pela primeira vez, a ciência da religião. 

Confusão com a palavra ‘teoria’ 

Existem dois principais significados para a palavra "Teoria": 

1. Teoria é o conjunto de princípios fundamentais de uma arte ou uma ciência. Do grego theoria, que no contexto histórico significava observar ou examinar. 

2. Teoria também é usado como sinônimo de hipótese, uma conjectura, uma opinião formada diante de um fato. 

Portanto, a teoria científica não é a mesma coisa de um “achismo”. "Sendo que o 'achismo' se baseia na opinião própria, sem argumentação concreta, sem estudos científicos, sem metodologia e/ou resultados científicos. Bem diferente de Teoria, como usado no caso de Darwin, onde ele fez observações nas espécies in loco, verificando as suas variações. Com argumentação e justificativas concretas", descreve o biólogo. 

Futuro da profissão biólogo 

O biólogo disse que vislumbra a profissão com muita perspectiva, talvez ainda não observada por muitos adolescentes. Ele esclarece que biólogos podem se especializar ou ser generalista e atuar em várias áreas e subáreas, conforme Resolução do CFBio, o Conselho Federal de Biologia

"As questões ambientais, a necessidade atual de empresas/indústrias e outros setores da sociedade se adequarem à legislação ambiental atual necessitam deste profissional para elaborar relatórios e estudos, pareceres, laudos técnicos, auxiliar em recomposições florestais indicando as espécies corretas para determinado habitat. Recuperar áreas degradadas com estudos técnicos e específicos. Trabalhar em laboratórios. Enfim, há um vasto campo de trabalho neste país", enumerou algumas das possibilidades da profissão nas áreas de Meio Ambiente, Biotecnologia e Biossegurança, Saúde e Educação. 

O professor reforça a importância da Biologia, que é o estudo da vida. "Da vida de todos os seres vivos, do mais simples ao ser humano. Isto permite intensas e variadas pesquisas em todos os campos relacionados, permitindo inúmeras inovações científicas", finaliza.

Por: Lara Gilly (G1).

Aquecimento do Planeta Já é o Maior Evento Climático em 2 Mil Anos, indica pesquisa

O aquecimento global registrado atualmente supera em velocidade e extensão qualquer evento climático registrado nos últimos 2 mil anos. 

Em artigo publicado na revista Nature [No evidence for globally coherent warm and cold periods over the preindustrial Common Era], cinco pesquisadores afirmam que nem mesmo episódios históricos como a "Pequena Era do Gelo" – resfriamento acentuado registrado entre os anos 1300-1850 – se comparam com o que está acontecendo no momento no mundo. 

A pesquisa indica que o atual aquecimento global é mais alto que qualquer outro observado anteriormente. No texto, os cientistas dizem que seus achados mostram que argumentos usados pelos céticos em relação às mudanças climáticas não são válidos. 

Ao examinarem a história climática do mundo nos últimos séculos, pesquisadores identificaram vários episódios importantes que se destacaram. Eles variaram desde o "Período Quente Romano", que registou, entre 250 d.C. e 400 d.C., um clima excepcionalmente quente em toda a Europa, até a famosa "Pequena Era do Gelo", quando as temperaturas baixaram durante séculos seguidos a partir de 1300. 

Esses acontecimentos são vistos por alguns, em especial os céticos em relação às mudanças climáticas, como evidência de que o mundo aqueceu e esfriou muitas vezes ao longo dos séculos e, por isso, o aquecimento observado a partir da Revolução Industrial é parte desse ciclo padrão - portanto, não haveria nada para se alarmar. 

Mas três novos trabalhos de pesquisa, entre eles o publicado na revista Nature por esses cinco pesquisadores, mostram que os fundamentos desse argumento não são tão sólidos. 

De acordo com o artigo da Nature, os cientistas reconstruíram as condições climáticas que existiam nos últimos 2 mil anos, usando 700 registros "proxy" de mudanças de temperatura - indicadores que permitam tirar conclusões a partir de dados climáticos indiretos como anéis de árvores, corais e sedimentos de lagos. 

Os pesquisadores afirmam que nenhum desses eventos climáticos avaliados ocorreu em escala global num mesmo período. 

Eles dizem que a "Pequena Era do Gelo", por exemplo, foi mais forte no Oceano Pacífico no século 15 e na Europa no século 17. 

De um modo geral, qualquer pico ou baixa de temperatura, a longo prazo, pode ser detectado em até metade do globo em momentos específicos. 

O "Período Quente Medieval" (950-1250 d.C.), por exemplo, registou aumentos significativos de temperatura em apenas 40% da superfície da Terra. Segundo os pesquisadores, o aquecimento de hoje afeta praticamente todo o mundo. 

"Descobrimos que o período mais quente dos últimos dois milênios ocorreu durante o século 20 em mais de 98% do globo. Isso fornece fortes evidências de que o aquecimento global antropogênico não é apenas incomparável em termos de temperaturas absolutas, mas também sem precedentes na consistência espacial dentro do contexto dos últimos 2 mil anos", escreveram no artigo. 

Os pesquisadores observaram que, antes da era industrial moderna, a influência mais significativa no clima eram os vulcões. Eles não encontraram nenhuma indicação de que variações na radiação do Sol tenham impactado as temperaturas globais médias. 

O período atual, dizem os autores da pesquisa, excede significativamente a variabilidade natural. 

"Vimos a partir dos dados instrumentais e também de nossa reconstrução que, no passado recente, a taxa de aquecimento claramente excede as taxas de aquecimento natural - esse é outro ponto para observar a natureza extraordinária do aquecimento atual", contou Raphael Neukom, da Universidade de Berna, na Suíça, um dos autores do estudo. 

"Nós não testamos explicitamente isso; só podemos mostrar que as causas naturais não são suficientes em nossos dados para realmente causar o padrão espacial e a taxa de aquecimento que estamos observando agora", explicou Neukom

Outros cientistas ficaram impressionados com a qualidade dos novos estudos conduzidos pela equipe de Raphael Neukom

"Eles fizeram o estudo em todo o mundo com mais de 700 registros dos últimos 2 mil anos. Têm corais e lagos e também dados instrumentais", disse a professora Daniela Schmidt, da Universidade de Bristol, Reino Unido, que não esteve envolvida nos estudos. 

"E eles foram muito cuidadosos ao avaliar os dados e o viés inerente que qualquer dado tem. Então, o grande avanço é a qualidade e a cobertura desses dados. É incrível", afirmou a professora. 

Muitos especialistas argumentam que os achados são capazes de desbancar muitas das afirmações feitas por céticos do clima nas últimas décadas. 

"Este artigo deve finalmente fazer com que os que negam as mudanças climáticas parem de alegar que o aquecimento global observado recentemente é parte de um ciclo climático natural", disse o professor Mark Maslin, da Universidade College London, no Reino Unido, que também não participou dos estudos. 

"Este artigo mostra a diferença verdadeiramente nítida entre as mudanças regionais e localizadas no clima do passado e o efeito verdadeiramente global das emissões de gases de efeito estufa antrópicas", completa Maslin

Além da revista Nature, o estudo também foi publicado em dois artigos na publicação acadêmica Nature Geoscience [Consistent multidecadal variability in global temperature reconstructions and simulations over the Common Era].



Por: Matt McGrath (BBC).

Até 2030, Fontes de Energia Limpa Devem Substituir as Fósseis

CATA-VENTO: a maior pá de turbina do mundo, com 107 metros, fabricada pela GE na França. Projeções de mercado já mostram o momento em que fontes renováveis vão se tornar mais baratas que as fósseis e superá-las e como isso muda os negócios. 

Berço da Revolução Industrial, a Inglaterra terá em 2019, pela primeira vez na história, mais energia elétrica de fontes renováveis (solar, eólica e hídrica) do que de derivados de petróleo. Também pela primeira vez, em abril de 2019, nos Estados Unidos, a geração por fontes limpas ultrapassou a do carvão. Pouco adiantou o governo Donald Trump ter criado a lei Affordable Clean Energy (ACE), mais complacente com a poluição do que a antiga Clean Power Plan (CPP), de Barack Obama. Uma lei ainda mais poderosa está a favor da energia verde: a lei do mercado. O avanço de geradores solares, geradores eólicos e baterias de grande porte está tornando os combustíveis fósseis comparativamente caros. “Por volta de 2030, essas três tecnologias vão oferecer menor custo de geração do que usinas a gás ou carvão em quase qualquer lugar no mundo”, diz Matthias Kimmel, analista-chefe do relatório 2019 da BloombergNEF (BNEF). 

A consultoria britânica Wood Mackenzie prevê que em 2035 vai ocorrer o ponto de virada, a partir do qual, pelas condições de mercado, fontes limpas vão se tornar a escolha óbvia de qualquer tipo de projeto — em transporte, construção, indústria, comércio, o que for. O prazo é longo demais diante da ameaça das mudanças climáticas, mas tornou-se próximo o bastante para afetar planos de negócios. No Brasil, a nova matriz energética, mais flexível e ainda mais verde, abre oportunidades e conduz a uma outra mudança. Num país tão extenso e ensolarado, com painéis solares cada vez mais baratos e eficientes, a geração de energia vai acontecer em todo lugar. O fenômeno já era esperado, mas sua iminência o faz ganhar peso na estratégia das companhias do setor. “Empresas e até residências deixam de depender das distribuidoras, passando a produzir sua própria eletricidade”, diz Miguel Setas, CEO da EDP no Brasil, que fatura com distribuição. “Isso muda o papel do consumidor e também o das distribuidoras de energia.” 

O crescimento dos prosumers — entes que agem na rede como produtores e consumidores ao mesmo tempo — muda profundamente o papel das distribuidoras de eletricidade. Antes eram donas de feudos, fornecedoras soberanas dentro de sua concessão. Bastava fazer manutenção da rede, ler quadros de luz, emitir boletos. Agora, precisam fazer isso com custos decrescentes — para manter-se competitivas — e lucrar com projetos de autogeração. Para o Shopping Village Mall, no Rio de Janeiro, a EDP projetou e construiu uma usina solar de R$ 30 milhões — o centro de compras entrou com o dinheiro e a distribuidora, com o conhecimento. No contrato para abastecer o Banco do Brasil de 2019 a 2023, entrará com o investimento e venderá a energia. O banco vai economizar R$ 5 milhões. A elétrica ganhará R$ 86 milhões por um serviço que ultrapassa sua área de concessão. “A EDP está virando uma nova companhia, com outra lógica e outra clientela. Agora, buscamos parcerias no país inteiro”, afirma Setas

A empresa reuniu os funcionários responsáveis por novas ideias, antes divididos em departamentos, no “innovation lounge” — uma espécie de coworking. A primeira ideia dessa equipe foi o EDP Smart, na prática uma loja de soluções. Os programas externos de incentivo à inovação revelaram duas startups que, agora, receberam investimento da EDP Ventures: a cearense Delfos, que usa inteligência artificial e aprendizado de máquina para a manutenção preventiva de turbinas eólicas; e a Dom Rock, que usa inteligência artificial e análise de dados para extrair e organizar informações dispersas, como reclamações de clientes. Ao lançar mão de todo o receituário atual de estímulos à inovação, a EDP planeja aproveitar o choque da livre concorrência para lucrar mais. 

Historicamente consumidoras passivas nas redes de energia, empresas de outras áreas — e até edifícios residenciais e casas — vêm rapidamente assumindo outro tipo de papel, de contribuintes com as redes de energia. Num esforço para melhorar sua imagem após os desastres ambientais em Mariana e Brumadinho (MG), a Vale planeja produzir 100% de sua eletricidade com fontes renováveis até 2025. “A energia renovável traz ganho de marketing e deixou de representar um custo adicional”, diz Guilherme Lockmann, líder em energia da Deloitte no Brasil. “Nos Estados Unidos e na Europa, a preocupação do consumidor com as práticas sustentáveis das empresas está se estendendo à origem da eletricidade.” 

No mundo todo, prosumers se comprometeram a instalar 32 gigawatts (GW) de capacidade (comparável ao parque energético da Holanda), ao longo da última década. No fim deste ano, o total contratado desses atores apenas em 2019 e 2018 vai superar tudo que havia sido combinado nos anos anteriores. “É um impulso que vem de baixo para cima”, diz Marlene Motyka, líder global de energia renovável da consultoria Deloitte. “Empresas de vários setores encontraram condições técnicas para isso.” Numa edificação pequena, do tamanho de uma residência, o investimento na instalação de painéis solares já se paga em três ou quatro anos. As vantagens são muito maiores para edifícios grandes e com alto consumo, como fábricas. “A tendência é, na prática, pagar zero pela eletricidade”, diz Guilherme, da Deloitte no Brasil

No país, a geração distribuída com fonte renovável será o principal motor do crescimento da capacidade instalada nas próximas décadas. A fabricante de bebidas Ambev assinou em junho um contrato com quatro parceiros para a construção de 31 usinas solares até março de 2020. Os 50 mil painéis solares contratados vão gerar 2,6 mil megawatts/hora (MWh) por mês, o bastante para abastecer seus 94 centros de distribuição no país. A cervejaria pagará pela energia R$ 140 milhões, ao longo de dez anos, e no fim do contrato ficará com as usinas. “Na média, a energia deve ser mais barata [do que a fornecida pelas concessionárias de eletricidade], mas o benefício mais significativo disso tudo é o ambiental”, diz Leonardo Coelho, diretor de sustentabilidade e suprimentos. 

ESTOCAR VENTO: maior parque de baterias do mundo, na Austrália. Os acumuladores dão constância à oferta de energia de fonte eólica.

A participação dos consumidores na geração torna-se possível com medidores inteligentes, capazes de registrar as retiradas e os acréscimos de energia na rede. Depende também de equipamentos baratos a ponto de caber no plano de investimentos de uma empresa privada. A equação está bem encaminhada: o custo da geração solar cai continuamente, sobretudo graças à eficiência fabril da China. O país responde por 70% da produção mundial de painéis fotovoltaicos, com oito dos dez maiores fabricantes. As células geradoras simples se tornam 28% mais baratas cada vez que o total produzido dobra. Há inovações na fila nos laboratórios, como painéis transparentes que servem como janela ou capazes de acompanhar a fonte de luz ao longo do dia, como girassóis. Ainda há espaço para inovação no chão de fábrica. Após quase sucumbir à competição, a americana First Solar criou uma linha de produção robotizada capaz de montar, em menos de quatro horas e por custo quase um terço menor, painéis que, na China, demoram três dias para ficar prontos. 

A competitividade de chineses e americanos nesse segmento é má notícia para as fábricas que se instalaram no Brasil à espera de incentivos do governo que, no fim, não vieram. Mas é alvissareira para consumidores locais — pessoas jurídicas e físicas. Seus geradores solares já respondem por 1 GW da capacidade instalada do país. Graças à novidade, este ano a capacidade de geração solar no país superou a nuclear. 

O sol nasce para todos, mas os ventos da mudança sopram com força também a favor da energia eólica. Em 2005, era quase impossível enxergar a participação dessa fonte nos gráficos da matriz elétrica mundial. Hoje ela corresponde a um quarto e, segundo a consultoria McKinsey, crescerá para metade por volta de 2035. No Brasil, a participação (ainda bem menor) também deve dobrar. "Não temos tanta urgência em mudar a matriz elétrica, pois mais de 80% da nossa geração já vem de fontes renováveis, enquanto a média mundial fica em torno de 50%", diz Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica. Mas precisamos de alternativas à geração hídrica, porque se torna cada vez mais difícil construir grandes hidrelétricas. Até 2030, a participação dessas usinas na matriz brasileira deve cair de 60% para 44%, diluída pelo avanço das outras fontes. 

No caso brasileiro, a mudança ajuda também a distribuir geograficamente as oportunidades de negócio. O Nordeste tem o melhor vento e a melhor insolação do planeta. Graças ao sopro constante em intensidade e direção, as turbinas eólicas erguidas ali registram os mais altos índices de aproveitamento. A italiana Enel anunciou em fevereiro a implantação do maior parque eólico da América do Sul e do maior parque solar do mundo, ambos no Piauí. “O parque solar de São Gonçalo será o primeiro da Enel no país a usar painéis solares bifaciais, capazes de capturar energia de ambos os lados. A expectativa é que isso aumente a geração em até 18%”, diz Nicola Cotugno, CEO da empresa no Brasil

Conforme os projetos do tipo se tornam mais numerosos e ambiciosos, novas técnicas de produção se difundem e os custos caem — realimentando o ciclo. Para extrair energia em ambientes menos generosos que o Nordeste brasileiro, a GE começa a montar em julho, em Roterdã, na Holanda, o maior cata-vento do mundo, com pás de 107 metros de comprimento — 72% maiores que as recordistas da década passada. Com 220 metros de diâmetro e 260 metros de altura, o colosso vai poder gerar 12 MW — o suficiente para abastecer 16 mil residências. Se essa unidade pioneira funcionar a contento, outras passarão a ser instaladas, também no mar — solução promissora para os países mal servidos de área livre ou vento em terra firme. A Siemens forneceu as 174 turbinas para o maior parque eólico offshore do mundo, em águas inglesas no Mar do Norte, a 120 quilômetros da costa. “Fazer funcionar uma fazenda eólica tão distante é inédito. Tivemos de desenvolver novas formas de trabalho para superar os desafios técnicos e logísticos”, diz David Coussens, executivo de operações no parque gerador. 

Principal concorrente da Ambev, a Heineken inaugurou no Ceará um parque eólico para abastecer 30% da demanda de suas fábricas. “Vamos gerar com renováveis o equivalente a 100% do consumo até 2023, muito antes da meta global”, afirma Nelcina Tropardi, vice-presidente de Sustentabilidade da empresa. 

A energia solar acaba de ultrapassar a nuclear no Brasil

Segundo a BNEF, os geradores de energia eólica tornam-se 14% mais baratos cada vez que a produção acumulada dobra. O preço cai graças ao avanço na engenharia de materiais, que permite geradores cada vez maiores e mais eficientes. Dificuldades de logística — o transporte das peças é invariavelmente uma operação de parar o trânsito — impedem a concentração da produção mundial em um único país. Por isso, esse segmento tem uma dinâmica diferente dos painéis solares, dominados pela China

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Graças a essa peculiaridade, o Brasil se tornou um dos polos mundiais de fabricação de geradores eólicos. Teve a seu favor a natureza, de ventos generosos, e o incentivo do Estado. De 2004 a 2018, o BNDES emprestou US$ 30 bilhões para projetos de energia renovável no Brasil. Em troca, exigiu índices crescentes de produção nacional. Como resultado, gigantes do setor, como a dinamarquesa Vestas, a alemã Siemens e a brasileira WEG, abriram fábricas locais. “Foi, com folga, o maior financiador do mundo nesse período. Segundo colocado, o banco Santander liberou US$ 27 bilhões para diversos países”, diz Luiza Demôro, analista sênior do BNEF para a América Latina e diretora do projeto Global Climatescope. “Como resultado dessa política, a geração solar ou eólica brasileira já é mais barata do que a fóssil nos leilões de energia. Isso ainda não acontece em outros mercados emergentes, como Índia e Tailândia.” 

A queda de preço dos geradores solares e eólicos pouco adiantaria sem um terceiro elemento, capaz de compensar a inconstância do sol e dos ventos: a bateria. “Das três tecnologias emergentes em energia, o acumulador é a que tem maior potencial para evolução”, diz Marlene, da Deloitte. O custo das grandes baterias cai 14% conforme a produção dobra — e esse ritmo está acelerado, graças à demanda dos automóveis elétricos. O carro dá escala à produção de pilhas e, ao mesmo tempo, incentiva a geração solar residencial. Por isso a montadora americana Tesla Motors se tornou uma gigante mundial de baterias. De 2017 para 2018 a frota mundial de elétricos quase dobrou, para 5 milhões. Segundo a Agência Internacional de Energia, a frota deve superar 130 milhões de unidades por volta de 2025 — quando, nos principais mercados, esses carros se tornarem mais baratos que os modelos a combustão. O petróleo perderá seu mercado mais cativo pela primeira vez, prevê a consultoria McKinsey — e a emissão de carbono no planeta vai, afinal, cair.

Por: Marcelo Moura (Época Negócios).