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Do Holoceno Ao Antropoceno: As Bases Conceituais da Mudança de Época

É desafiador descrever o ambiente científico em que emergiu a proposta de uma nova Época Geológica. O livro O Antropoceno e a Ciência do Sistema Terra busca contribuir para essa compreensão. 

Civilizações nem teriam surgido não fosse a invenção da agricultura, por sua vez favorecida por atenuação climática, há doze mil anos. Fim de longo período glacial que já durava uns cem mil anos, o abrandamento meteorológico também marcou ruptura com os muitos milênios em que a evolução humana dependeu de predações, extrativismos vegetais, pescas e caçadas. 

Tudo o que aconteceu desde tão misteriosa virada coincide com a curtíssima Época, batizada pelos geólogos com o prefixo Holo para bem destacar que é a mais recente. Um ínfimo lapso de doze milênios, inteiramente distinto de tudo que o precedeu em 4,5 bilhões de anos de história planetária. 

As principais características do Holoceno foram moderação e constância ecológicas tão formidáveis que propiciaram decisivos avanços sociais impulsionados essencialmente por cooperação e coesão entre os humanos. 

Porém – como ninguém tem mais o direito de ignorar – eis uma vantagem comparativa que passou a ser desregulada por excessivas influências artificiais de atividades humanas. Então, para distinguir essa etapa, em que a durabilidade da vida na Terra tanto passou a depender da conduta de uma única espécie – a humana –, é bem mais apropriado o prefixo Antropo do que Holo. 

Só que não é nada simples identificar o momento histórico desse grande salto de Holo para Antropo. Há controvérsia sobre a datação desse ponto de mutação, mas tende a haver consenso de que ele ocorreu em meados do século passado, quando as primeiras explosões nucleares coincidiram com o desencadeamento de incomparável surto de progresso material, chamado pelos historiadores ambientais de A Grande Aceleração. Tudo indica que será esse o momento escolhido pelos experts que preparam a proposta de oficialização do Antropoceno. 

Desde meados do século XX, os humanos passaram a exercer pressões excessivas sobre alguns dos mais relevantes ciclos biogeoquímicos, como os do carbono e do nitrogênio. Ao mesmo tempo em que ocorria inédita escalada geral de outros impactos artificiais (antrópicos) sobre a biosfera. Talvez baste lembrar que, de todo o dióxido de carbono atribuível às atividades humanas hoje estocado na atmosfera, três quartos foram emitidos apenas no curto lapso dos últimos setenta anos. 

No piscar de olhos histórico em que viveram as três últimas gerações, o número de veículos motorizados passou de 40 milhões para 850 milhões. A produção de plásticos de mero milhão de toneladas para 350 milhões de toneladas. A quantidade de nitrogênio sintético (principalmente para fertilização agrícola) foi de 4 milhões de toneladas para mais de 85 milhões de toneladas. Somados à erosão da biodiversidade e à acidificação dos oceanos, esses rapidíssimos saltos caracterizam A Grande Aceleração. 

Bem mais difícil que relatar esse debate sobre a data adequada é descrever o ambiente científico em que emergiu a proposta de uma nova Época. Quer dizer, a evolução das bases conceituais e das evidências empíricas em que se apoiam os cientistas ao fundamentarem a ideia de passagem de Holo a Antropo. 

É justamente para facilitar a compreensão desses dois problemas que a Editora 34 lançou o livro O Antropoceno e a Ciência do Sistema Terra [2019; escrito por José Eli da Veiga] com três capítulos, bem diferentes em conteúdo e estilo. 

No primeiro, são apresentados – nos moldes de divulgação científica – quase todos os aspectos que precisam ser conhecidos sobre os mais pertinentes debates. Convida o leitor a primeiro sobrevoar o que há de mais importante sobre o tema, antes de penetrar em seus fundamentos científicos. 

O zoom proposto no segundo capítulo continua a fazer história da ciência para leigos, só que mediante inspeção dos principais documentos e sacrificando o mínimo possível a precisão, em nome de maior eficácia comunicativa. Ao apresentar seleção da literatura científica mais candente, o segundo capítulo é um incisivo convite à reflexão sobre as mais valiosas pérolas do discurso sobre o que tem sido chamado, há três ou quatro décadas, de ‘sistema Terra’. 

Tamanha mineração de evidências científicas provoca uma séria dúvida. Não sobre a proposta básica – de legitimação da nova Época na escala do tempo geológico –, mas sim sobre a retórica dos pesquisadores envolvidos no que seria a nova disciplina Ciência do Sistema Terra. Não por outra razão, os achados do terceiro capítulo tornam-se indagações. Apresentadas em estilo que só não chega a ser tão leve quanto o do primeiro capítulo porque a inevitável dissecação de certas ideias envolve grau mais elevado de abstração epistemológica. 

A rigor, uma Ciência do Sistema Terra só começou a surgir nos anos 1980, com os primeiros esforços de formalização incentivados pela NASA. Praticamente todos os pesquisadores que, desde então, assumiram o desafio (no âmbito do IGBP, da ESSP, do Future Earth e do Planetary Boundaries Research Network), estão hoje em instituições nacionais de primeira linha espalhadas por ao menos uma dezena de países. O que não impede que permaneça bem incipiente a desejada visão transdisciplinar das quatro dinâmicas históricas da Terra: do planeta, da vida, da natureza humana e da civilização. 

Tamanha precariedade depois de quase meio século de pesados investimentos científicos não decorre da qualidade das pesquisas, da clarividência dos pesquisadores que as tocam, ou do ambiente institucional em que trabalham. Ao contrário, tudo aponta para um cenário diametralmente oposto: esforços científicos de fronteira empreendidos em centros de indubitável excelência. 

Não há como fazer, hoje, uma justa avaliação conclusiva da história dos trinta ou quarenta anos em que a Terra passou a ser estudada como sistema singular. Mas já está bem claro o quanto pode ser abusiva, ou mesmo mistificadora, a vinculação da ideia de Antropoceno a um suposto novo paradigma científico que já teria emergido com a dita Ciência do Sistema Terra. 

A argumentação do livro procura mostrar que a nova Época pode ser muito bem (ou até melhor) definida, no âmbito mais restrito da História da Terra, pela singeleza da combinação de conhecimentos historio e estratigráficos sobre o período da chamada Grande Aceleração.

Por: José Eli da Veiga (Página 22).

Viagem no Tempo Pode Ser Possível, sugere o último livro de Stephen Hawking

Em sua última colaboração científica, astrofísico britânico teoriza se é possível o transporte pelo tempo e o espaço. 

"Se alguém fizesse um pedido de bolsa de pesquisa para trabalhar em viagem no tempo, ele seria demitido imediatamente", escreve o físico Stephen Hawking em seu livro póstumo, Brief Answers to the Big Questions (breves respostas para grandes perguntas, em tradução livre). Ele estava certo. Mas ele também estava certo ao perguntar se a viagem no tempo possível é uma "questão muito séria" que ainda pode ser abordada cientificamente. 

Argumentando que nosso entendimento atual não pode descartá-lo, Hawking foi cautelosamente otimista. Então, onde isso nos deixa? Não podemos construir uma máquina do tempo hoje, mas poderíamos no futuro? 

Vamos começar com nossa experiência cotidiana. Nós aceitamos a capacidade de ligar para nossos amigos e familiares onde quer que eles estejam no mundo para descobrir o que eles estão fazendo agora. Mas isso é algo que nunca podemos realmente saber. Os sinais que transportam suas vozes e imagens viajam de forma rápida, mas ainda leva um tempo finito para que nos alcancem. 

Nossa incapacidade de acessar o "agora" de alguém distante está no coração das teorias de espaço e tempo de Albert Einstein. 

Velocidade da luz 

Albert Einstein disse que espaço e tempo são partes de uma coisa – espaço-tempo – e que devemos estar tão dispostos a pensar sobre distâncias no tempo quanto distâncias no espaço. Por mais estranho que isso possa soar, ficamos felizes em responder "cerca de duas horas e meia", quando alguém pergunta o quão longe Birmingham está de Londres, no Reino Unido. O que queremos dizer é que a jornada leva "tanto tempo a uma velocidade média" de 50 quilômetros por hora. 

Matematicamente, nossa declaração equivale a dizer que Birmingham fica a cerca de 200 quilômetros de Londres. Como os físicos Brian Cox e Jeff Forshaw escrevem no livro Por Que E = mc²?, tempo e distância "podem ser trocados usando algo que tem a velocidade de uma velocidade". O salto intelectual de Einstein era supor que a taxa de câmbio de um tempo para uma distância no espaço-tempo é universal – e é a velocidade da luz. 

A velocidade da luz é a mais rápida que qualquer sinal pode percorrer, colocando um limite fundamental em quanto tempo poderemos saber o que está acontecendo em outras partes do universo. Isso nos dá "causalidade" – a lei de que os efeitos devem sempre vir depois de suas causas. É um grave espinho teórico do lado dos protagonistas viajantes do tempo. Para eu viajar de volta no tempo e colocar em movimento os eventos que impedem meu nascimento é colocar o efeito (eu) antes da causa (meu nascimento). 

Agora, se a velocidade da luz é universal, devemos medi-la para ser o mesmo – 299.792.458 metros por segundo no vácuo – por mais rápido que nos movamos. Einstein percebeu que a consequência da velocidade da luz ser absoluta é que o espaço e o tempo em si não podem ser. E acontece que os relógios móveis devem ser mais lentos que os estacionários. 

Quanto mais rápido você se mover, mais lento será o seu relógio em relação ao que você está passando. A palavra "relativo" é a chave: o tempo parecerá passar normalmente para você. Para todos que estão parados, no entanto, você estará em câmera lenta. Se você fosse se mover na velocidade da luz, você pareceria congelado no tempo – no que diz respeito a você, todos os outros estariam adiantados. 

Então, se viajássemos mais rápido que a luz, o tempo correria para trás, como nos ensinou a ficção científica? 

Infelizmente, é preciso energia infinita para acelerar um ser humano à velocidade da luz, muito menos além dela. Mas, mesmo que pudéssemos, o tempo não seria simplesmente atrasado. Em vez disso, não faria mais sentido falar de adiantado e atrasado. A lei da causalidade seria violada e o conceito de causa e efeito perderia seu significado. 

Buracos de minhoca 

Einstein também nos disse que a força da gravidade é uma consequência da maneira como a massa distorce o espaço e o tempo. Quanto mais massa nos espremermos em uma região do espaço, mais espaço-tempo será deformado e os relógios próximos mais lentos serão acionados. 

Se espremermos massa suficiente, o espaço-tempo ficará tão deformado que até a luz não poderá escapar de sua atração gravitacional e um buraco negro será formado. E se você se aproximasse da borda do buraco negro – seu horizonte de eventos – seu relógio marcaria infinitamente lentamente em relação àqueles distantes dele. 

Então, poderíamos distorcer o espaço-tempo da maneira certa para se fechar e viajar no tempo? 

A resposta é talvez, e a deformação que precisamos é de um buraco de minhoca atravessável. Mas também precisamos produzir regiões de densidade de energia negativa para estabilizá-la, e a física clássica do século XIX impede isso. A teoria moderna da mecânica quântica, no entanto, talvez não. 

De acordo com a mecânica quântica, o espaço vazio não está vazio. Em vez disso, ele é preenchido com pares de partículas que entram e saem da existência. Se pudermos criar uma região onde menos pares possam entrar e sair do que em qualquer outro lugar, então essa região terá densidade de energia negativa. 

No entanto, encontrar uma teoria consistente que combine a mecânica quântica com a teoria da gravidade de Einstein continua sendo um dos maiores desafios da física teórica. Um candidato, a teoria das cordas (mais precisamente a teoria-M), pode oferecer outra possibilidade. 

A teoria-M exige que o espaço-tempo tenha 11 dimensões: a de tempo e a de três de espaço em que nos movemos e mais sete, enroladas de forma invisivelmente pequena. Poderíamos usar essas dimensões espaciais extras para encurtar o espaço e o tempo? Hawking, pelo menos, estava esperançoso.

Salvando história 

Então a viagem no tempo é realmente uma possibilidade? Nosso entendimento atual não pode descartá-la, mas a resposta provavelmente é não. 

As teorias de Einstein não descrevem a estrutura do espaço-tempo em escalas incrivelmente pequenas. E, embora as leis da natureza muitas vezes possam estar completamente em desacordo com nossa experiência cotidiana, elas são sempre autoconsistentes – deixando pouco espaço para os paradoxos que abundam quando nos mexemos com causa e efeito na tomada de viagem no tempo pela ficção científica. 

Apesar de seu otimismo lúdico, Hawking reconheceu que as leis desconhecidas da física que um dia substituirão as de Einstein podem conspirar para evitar que objetos grandes como eu e você pulem casualmente (e não causalmente) para trás e para frente no tempo. Chamamos esse legado de sua "conjectura de proteção cronológica". 

Quer o futuro tenha ou não máquinas do tempo na loja, podemos nos consolar com o conhecimento de que, quando subimos uma montanha ou avançamos em nossos carros, mudamos a maneira como o tempo passa. 

Então, no dia de "fingir ser um viajante do tempo", celebrado em 8 de dezembro, lembre-se de que você já é – só não da maneira como esperava. 

Por: Peter Millington; pesquisador do Grupo de Cosmologia de Partículas da Escola de Física e Astronomia da Universidade de Nottingham, no Reino Unido. Fonte: The Conversation.

A Era dos Vícios Comportamentais

Nas inúmeras vezes em que o biógrafo de Steve Jobs esteve na mesa de jantar com a família do fundador da Apple, jamais viu alguém com um celular ou um iPad ao alcance da mão. Ao mesmo tempo em que exaltava as maravilhas de suas criações nos eventos épicos em que as anunciava, Jobs era rígido em preservar seus filhos do contato cotidiano com estes produtos. Boa parte dos mais talentosos precursores das inovações originárias do Vale do Silício tomaram as mesmas precauções. 

Por que razão algumas das maiores figuras públicas da tecnocracia contemporânea são tecnófobos quando se trata de suas vidas privadas? A pergunta formulada por Adam Alter em seu recém-lançado Irresistible - Why You Are Addicted To Technology And How To Set Yourself Free (Penguim Books) pode ser respondida em duas palavras: vícios comportamentais. 

Vício não consiste em algo que não podemos deixar de fazer. Respirar e comer não são vícios. A palavra se aplica quando envolve obsessão, compulsão e quando nos faz mal. Equipamentos digitais são instrumentos extraordinários de comunicação, conhecimento, orientação e, cada vez mais, contribuem para nossa saúde, nosso conforto e nossa prosperidade. No entanto, sobretudo nos últimos dez anos, com os smartphones e a melhoria das conexões, eles se converteram em ameaça ao bem-estar dos indivíduos e a nossa sociabilidade. A internet das coisas, as roupas e relógios conectados (os wearables) e a realidade virtual vão agravar esta situação já muito preocupante. 

No Brasil, entre os mais jovens (de 16 a 24 anos) 40% ficam mais de cinco horas por dia em conexão, segundo a pesquisa brasileira de mídia. Nos Estados Unidos, em 2008, as pessoas usavam seus celulares durante oitenta minutos diários. Em 2015 este tempo já era de 168 minutos. Um quarto dos adolescentes norte-americanos ficam nada menos que oito horas por dia diante da tela de seus dispositivos digitais. 40% das crianças entre zero e oito anos de idade possuíam um tablet em 2017. Em 2011 esta proporção não chegava a 1%. E 10% das crianças possuem algum tipo de brinquedo "inteligente", ou seja que interage com seu dono a partir de informações transmitidas à nuvem e, na maior parte das vezes com assistentes de voz. 

Jogos eletrônicos levaram os vícios digitais a um nível explosivo. O aumento em seu uso, a partir do início do milênio, foi estimulado por duas inovações fundamentais: o acesso por meio do smartphone e a interação social online. Os resultados são estarrecedores. Em 2017 a indústria norte-americana de vídeo games faturou US$ 36 bilhões, 18% a mais que em 2016, quando o faturamento já tinha aumentado 20% com relação a 2015, segundo a Entertainement Software Association. 75% do faturamento da Apple App Store vem de jogos. World of Warcraft, por exemplo, é jogado por mais de 100 milhões de pessoas, 40% das quais são viciadas. Como a interação social em torno destes jogos é global, seus participantes comprometem com imensa frequência suas noites de sono para manter-se em conexão. 

Mas mesmo quem não pratica jogos eletrônicos padece, com imensa frequência dos vícios comportamentais da era digital. 95% dos adultos usam dispositivos eletrônicos uma hora antes de dormir. Sua luz inibe a produção de melatonina, o que explica boa parte dos distúrbios contemporâneos do sono. 

Examinando os dados que mostram como os norte-americanos usam seu tempo (American Time Use Survey – ATUS) e comparando os anos 2012/2015 com o de 2004/2007, um grupo de economistas mostra que os jovens de 21 a 30 anos aumentaram em média 50% o tempo dedicado a jogos eletrônicos. Os que não estudavam nem trabalhavam (15% do total em 2016, contra 8% em 2000) gastavam 520 horas anuais em atividades computacionais recreativas, com os jogos eletrônicos ocupando 60% deste tempo. Isso era mais que o tempo voltado a trabalhos domésticos ou à interação com amigos. Adam Alter cita vários estudos segundo os quais o hábito contemporâneo de interagir socialmente por meio das teclas do smartphone (no WhatsApp ou no Facebook) é um obstáculo ao surgimento da empatia entre as pessoas. 

Um dos capítulos mais interessantes do livro de Alter é o que mostra que drogas químicas e vícios comportamentais ativam os mesmos centros de recompensa em nosso cérebro. Vícios químicos e comportamentais fazem com que nossa produção de dopamina passe a ocorrer só na presença dos estímulos vindos daquilo em que nos viciamos. E, a satisfação depende, claro, de doses cada vez maiores.

Não é razoável encarar estes dados simplesmente como "externalidades negativas" ou como a contrapartida inevitável da inovação tecnológica contemporânea. Boa parte do que se convencionou chamar de 4ª Revolução Industrial apoia-se nas informações que cada um de nós produz e que alimentam parte importante da computação em nuvem, da inteligência artificial e da aprendizagem das máquinas. O vício, que tem destruído nossa capacidade comunicativa, nossa intuição na relação com os outros, não pode ser o preço dos avanços tecnológicos dos quais depende nosso bem-estar. 

É claro que cada indivíduo tem que procurar o uso responsável destes dispositivos. Mas isso é insuficiente diante do empenho de milhares de engenheiros e programadores que nos oferecem permanentemente dispositivos voltados a ampliar o tempo em que estamos conectados. E o que precisamos neste momento é de uma discussão pública sobre limites, em última análise, os limites cuja ultrapassagem atropela nada menos que a dignidade humana.

Por: Ricardo Abramovay (Valor Econômico).

Livro Ajuda a Compreender Economia de Baixo Carbono

Foto: Jacinta Lluch Valero / Flickr.

Reduzir as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera requer um esforço não só das autoridades públicas como também das corporações. Para isso é preciso incentivar as empresas a adotarem a economia de baixo carbono implementando novas tecnologias no processo produtivo. 

Para entender melhor o que é a economia de baixo carbono, os conceitos da Economia Verde e as tendências do mercado para a redução de emissões de gases do efeito estufa, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) lança o livro 4 Passos Para Entender a Economia de Baixo Carbono exclusivamente no formato digital e disponível para download gratuito no site da instituição. 

O livro digital, destinado a empresários, estudantes e estudiosos sobre o tema, é derivado da publicação Estratégia de Desenvolvimento de Baixo Carbono Para o Longo Prazo, também desenvolvida em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (iCS) e disponível no site do CEBDS, que trata de maneira mais profunda o tema, e é voltado para público já iniciado nas questões que envolvem o mercado de carbono. 

Com uma linguagem objetiva, o e-book discorre sobre os acordos mundiais que incentivam a economia de baixo carbono e apresenta exemplos práticos de como o empresariado pode colaborar para uma transição para a Economia Verde. 

"Precisamos alavancar a economia de baixo carbono no Brasil e, para isso, é necessário que o setor empresarial compreenda que a partir da adoção de métodos mais eficientes na linha de produção e do investimento em tecnologias disruptivas é possível colaborar com o meio ambiente e ao mesmo tempo diminuir custos", diz a presidente do CEBDS, Marina Grossi. 


Por: Sabrina Rodrigues (O Eco).

A História das Comunidades Judaicas Negras da África

Há mais de 30 anos uma operação do governo israelense deu início à retirada de judeus da Etiópia. Muitos africanos são judeus – e exames de DNA confirmam isso. Em 21 de novembro de 1984, uma operação massiva de transporte humano começava na Etiópia. Envolvendo 28 aviões, mercenários, a CIA e o governo do Sudão, Israel conduzia uma tentativa de retirar todos os judeus do solo etíope. 

Os chamados beta israel são também conhecidos por falashas – termo do idioma etíope ghiz que significa 'estrangeiro'. Pertencem a uma das comunidades de judeus negros espalhadas pelo continente africano. Há também os lembas em Zimbábue e na África do Sul, os igbos, na Nigéria, e os ybir ou yeber, na Somália, além de outras tribos em Moçambique, Camarões, Costa do Marfim, Gana e Quênia. Eles já eram conhecidos dos judeus europeus desde o século 19, quando missionários britânicos que viajavam pela Etiópia encontraram as primeiras tribos. Em 1947, foram oficialmente reconhecidos pelos rabinos-chefes de Israel, antes mesmo de o país ganhar sua independência. “Muitos nunca haviam saído de seus vilarejos e se espantaram ao ver um judeu branco”, diz Cecília Ben David, professora de cultura judaica da Casa de Cultura de Israel, em São Paulo. 

A Etiópia foi um dos países onde a Guerra Fria foi travada com napalm. Desde 1974, estava em guerra civil, envolvendo o governo revolucionário contra dissidentes e separatistas da Eritreia. Na Operação Moisés [como ficou conhecida, em homenagem ao profeta bíblico], cerca de 8 mil judeus etíopes foram para Israel através do Sudão. No ano seguinte, a Operação Josué retirou mais mil – número pequeno se comparado à Operação Salomão, que levou mais de 14 mil emigrantes para a capital israelense, Tel-Aviv, em 1991, incluindo um Boeing 747 carregando 1.088 pessoas, mais que o dobro de sua capacidade. De 1980 a 1992, cerca de 45 mil judeus etíopes migraram para Israel, que em 2010 já contava com quase 120 mil residentes. Apenas 8 mil deles continua na Etiópia. 

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A origem dos judeus negros não está clara e se mistura com a mitologia bíblica. A família real etíope, deposta pelos revolucionários em 1974, dizia-se descendente de Makeda, a rainha de Sabá, com o rei Salomão, de Israel [que na Bíblia aparecem conduzindo relações meramente diplomáticas]. Os nobres etíopes se converteram ao cristianismo no século 4 d.C., enquanto os beta israel se diziam remanescentes dessa relação entre realezas. 

Se a origem de algumas tribos é mitológica, a de outras têm comprovação científica. É o caso dos lembas, que tiveram sua origem semita comprovada por DNA numa pesquisa de 2010, liderada por Tudor Parfitt, professor de estudos judaicos modernos da Universidade de Londres, na Inglaterra, e autor do livro As Tribos Perdidas de Israel – A História de um Mito. Segundo o pesquisador, são descendentes dos cohanim, uma família de sacerdotes judeus da tribo israelita de Levi. Pelos estudos, o ancestral comum de ambas as tribos viveu entre 2.600 e 3.100 anos atrás. 

“Eles alegavam ser de uma das tribos perdidas de Israel e traziam um objeto sagrado, semelhante a uma arca, que seus sacerdotes guardavam zelosamente. Com a ajuda de uma equipe de Oxford, constatei que o objeto era de 1350”, afirmou Parfitt em entrevista publicada no site da SOAS (sigla em inglês para School of Oriental and African Studies ou Escola de Estudos Orientais e Africanos, da mesma universidade para a qual trabalha). 

A arca se referia a um barco do clã buba, que também compartilha dos mesmos ancestrais dos cohanim. Outra pesquisa feita por Parfitt concluiu que grande parte das comunidades judaicas ao redor do mundo vêm do Levante, isto é, do atual território de Israel e vizinhanças. A única exceção são os etíopes, que não teriam raízes israelitas. “Sua forma de judaísmo foi uma das que se desenvolveram no país. Ou seja, os judeus não foram para a Etiópia em tempos antigos, mas o judaísmo sim”, disse. 

Nos Estados Unidos há judeus negros que migraram na 2ª Guerra. Não há registros de tribos no Brasil, mas eles provavelmente foram trazidos para cá durante a escravidão. “Tantos cristãos-novos (judeus convertidos) de Portugal foram parar em alto mar após as perseguições da Inquisição que é provável que muitos tenham chegado aqui, assim como em Guiné, Congo e Angola, onde era menor o alcance inquisitorial”, diz Glasman.

Por: Lidiane Aires (Aventuras na História).

7 Conceitos da Física 'Simplificados'

Uma obra que trata de mecânica quântica, partículas elementares, arquitetura do cosmo e buracos negros, entre outros temas de física teórica, está há meses na lista de livros mais vendidos na Itália. Em Sete Breves Lições de Física (publicado no Brasil pela Editora Objetiva), o professor Carlo Rovelli resume de modo simples os principais conceitos da ciência contemporânea, desde a teoria da relatividade geral de Albert Einstein, passando pelas descobertas do astrofísico inglês Stephen Hawking, até a provável extinção da espécie humana. 

"A maior parte dos livros de física são escritos para quem já é apaixonado pelo assunto e quer saber mais. Por isso, pensei num livro para quem conhece pouco ou nada sobre a matéria. Poupei os detalhes e concentrei-me no essencial", disse o autor à BBC Brasil. "É como escrever poesia: quanto mais se tira, mais bonita ela fica." 

Nascido em Verona, no norte da Itália, e atual responsável pelo centro de pesquisas sobre gravidade quântica da Universidade Aix-Marseille, na França, Rovelli explica que o ensaio não trata apenas de física, mas de temas relacionados à natureza humana. 

"O livro oferece uma possível resposta, do ponto de vista científico, às perguntas que todos nós, vez ou outra, nos fazemos durante a nossa vida: 'quem somos?', 'de onde viemos?', 'o que existe além daquilo que enxergamos?'. É a visão de alguém que se esforça para compreender isso tudo." O sucesso da obra superou as expectativas da editora, que inicialmente havia imprimido três mil cópias. Passado pouco mais de um ano, o livro está em sua 18ª edição, teve 300 mil exemplares vendidos no país e foi traduzido para 28 idiomas. 

Relatividade no horário nobre 

"Logo depois do lançamento, comecei a receber e-mails de leitores entusiasmados, dizendo que comprariam outros exemplares para darem de presente. Em pouco tempo, o título apareceu na lista dos mais vendidos, algo estranho para uma obra de física teórica e, a partir daí, a coisa explodiu: editoras, jornais, rádios e revistas começaram a me procurar." 

O professor, de 59 anos, chegou a falar sobre a teoria da relatividade de Einstein e de gravidade quântica em programas do horário nobre da televisão italiana. "Na verdade, as TVs passaram a me convidar só depois que o livro fez sucesso. Do contrário, acho que não teriam dado espaço para assuntos difíceis como este." Também nas escolas, segundo Rovelli, falar sobre física é quase sempre "chato". 

"Os períodos de férias são os melhores para se estudar, porque não há a distração da escola", diz, em um trecho do livro sobre o período em que era estudante universitário e, em uma praia da Calábria, leu pela primeira vez "a mais bela das teorias" (a da relatividade, de Albert Einstein), em um livro roído por ratos. 

"Em vez de programas curriculares muito extensos e precisos, para atrair o interesse dos jovens pela ciência é necessário tratar bem os professores e deixar que eles tenham mais liberdade para abordarem os temas que mais gostam. O que faz um aluno se apaixonar por uma determinada matéria é o entusiasmo do próprio professor", afirma. "Para compreender a ciência é preciso um pouco de empenho e esforço, mas o prêmio é a beleza. E olhos novos para enxergar o mundo." 

Confira alguns trechos das explicações de Rovelli sobre personagens, teorias e conceitos da física: 

Copérnico 

"Se eu quiser explicar a Revolução Copernicana, posso falar durante horas, apresentar cálculos e citar exemplos. Mas também posso dizer apenas que (Nicolau) Copérnico descobriu que a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário. Este é o coração da descoberta, e isto as pessoas entendem." 

Darwin 

"Outra extraordinária descoberta científica que pode ser explicada em poucas palavras é a teoria de (Charles) Darwin, que escreveu um livro difícil com pesquisas de observação, mas cuja revelação é simples: os seres humanos e todos os animais e plantas têm os mesmos antepassados, somos todos parentes." 

Teoria da relatividade geral 

"Albert Einstein descobriu que o tempo e o espaço não são como acreditávamos até então. Ele nos ensinou que o tempo passa mais rápido no alto e mais lento embaixo, perto da Terra. Por isso, se dois irmão gêmeos viverem em lugares diferentes, um próximo ao mar e outro em montanha, e se reencontrarem depois de cinquenta anos, o que morava na montanha será um pouquinho mais velho que o irmão. Esta diferença pode ser medida até mesmo a uma altura de 30 centímetros do chão. Einstein ensinou também que o espaço e a força de gravidade (descoberta por Newton) são a mesma coisa. O espaço não é mais diferente da matéria. É uma entidade que oscila, se dobra, se inclina e se torce. Como uma bolinha que roda dentro de um funil, não existem forças misteriosas geradas no centro do objeto, é a curva das paredes do funil que faz com que a bolinha rode. Do mesmo modo, os planetas giram em torno ao Sol e as coisas caem porque o espaço se inclina." 

Tempo 

"Não existe ainda uma resposta final da ciência sobre o que é o tempo. Em todo caso, podemos dizer que ele não passa se nada acontece. O tempo não existe por si só, mas é ligado ao modo como as coisas se relacionam umas com as outras. Em vez de dizer que hoje peguei o avião às oito da manhã para vir a Roma, posso dizer que peguei o avião quando o Sol estava a uma certa altura e cheguei quando o Sol estava em outra posição. O tempo não é fundamental para o universo, é possível descrever a natureza sem usar o conceito de tempo." 

Buracos negros 

"Quando uma grande estrela queima todo o seu combustível (hidrogênio), acaba por apagar-se. O que resta, então, não é mais suportado pelo calor da combustão e cai esmagado pelo seu próprio peso, inclinando o espaço tão fortemente a ponto de afundar dentro de um verdadeiro buraco. Estes são os famosos buracos negros." 

Partículas elementares 

"O mundo é feito de pequenas entidades, os 'quanta', que vibram e saltam de lugar a outro. Existem menos de uma dezena de tipos de partículas elementares. Um punhado de ingredientes elementares que se comportam como as peças de um Lego gigantesco com o qual toda a realidade material em torno de nós é construída. Este é o coração da mecânica quântica." 

Calor 

"Aprendemos que uma substância quente é uma substância onde os átomos movem-se com maior rapidez. Mas por que o calor passa das coisas mais quentes àquelas mais frias, e não vice-versa? Por puro acaso. O austríaco Ludwig Boltzmann descobriu que o calor não passa das coisas quentes às mais frias devido a uma lei absoluta: passa apenas com grande probabilidade. O motivo é que, estatisticamente, é mais provável que um átomo da substância quente, que se move velozmente, bata contra um átomo frio e lhe deixe um pouco da sua energia, e não contrário."

Por: Erika Zidko (BBC Brasil).

Os Graus Que Nos Separam

No livro O Ponto da Virada - que fala do fenômeno das epidemias sociais - há uma passagem em que o autor trata dos seis graus de separação, teoria que diz "que, no mundo, são necessários no máximo seis laços de amizade para que duas pessoas quaisquer estejam ligadas". 

Imediatamente me lembrei da saudosa série Lost, que tem forte inspiração nesse estudo científico. Aí me pus a pensar e comecei tecer qual ligação eu teria com um famoso diretor de cinema. Pois bem, eu tenho um amigo chamado Rafael Adriano, este por sua vez conhece o ator Leandro Firmino (o Zé Pequeno) que já contracenou com o Seu Jorge no filme Cidade de Deus (2002) e que trabalhou ao lado de Bill Murray em The Life Aquatic With Steve Zissou (2004). 

Vinte anos antes, Murray participou do filme Os Caça-Fantasmas (1984) junto com Sigourney Weaver e, por fim, a atriz trabalhou com o cineasta James Cameron em Aliens (1986) e Avatar (2009). 

Meus seis graus de separação: Rafael Adriano, Leandro Firmino, Seu Jorge, Bill Murray, Sigourney Weaver e James Cameron. Essa teoria é simplesmente SENSACIONAL! 

Obs.: os seis graus de separação são o princípio das redes sociais na internet.

Por: Gustavo Nobio. Sustentabilista, comunicador ambiental, articulista e administrador de conteúdo da mídia online #SenhorEco. Técnico em Meio Ambiente pela FUNCEFET (RJ).

A Utilidade do Conhecimento do Ponto de Vista Ético

Todo conhecimento, ainda que não tenha uma aplicação imediata, é útil. Essa é uma das premissas do novo livro do linguista e poeta Carlos Vogt, A Utilidade do Conhecimento, lançado pela Editora Perspectiva. 

A obra reúne ensaios escritos nas últimas duas décadas e atualizados para a nova publicação. “Os textos, como estão no livro, são inéditos e têm em comum reflexões sobre a importância do conhecimento a partir de experiências acumuladas ao longo da minha trajetória na divulgação científica e de questões da contemporaneidade”, explicou à Agência FAPESP. 

O livro traz ainda artigos científicos de Vogt que, a exemplo dos ensaios, proporcionam ao leitor estabelecer relações entre o conhecimento e princípios da ética – para o autor, a base da utilidade de todo conhecimento. 

“Não há conhecimento inútil, pois o desejo de conhecer é inerente ao ser humano e a satisfação desse desejo representa por si só uma utilidade. Trata-se de uma necessidade ética a de conhecer”, disse. 

Vogt estabelece ainda distinções entre a utilidade do conhecimento e seu utilitarismo. “É preciso compreender em que sentido o conhecimento utilitário das economias globalizadas na sociedade do conhecimento difere da utilidade ética constitutiva de todo conhecimento”, destaca. 

Para o autor, essa diferença está relacionada à demanda pela transformação do conhecimento em riqueza e por padrões de produção e de consumo que atendam às necessidades das populações crescentes, preservando a qualidade de vida e o equilíbrio do meio ambiente em todo o planeta. 

Ao refletir sobre como transformar o conhecimento em valor econômico e social, Vogt destaca dois desafios: um ecológico e outro tecnológico. 

“Para enfrentar essas questões, próprias do que se convencionou chamar de economia ou sociedade do conhecimento, é necessário estar preparado para cumprir todo um ciclo de evoluções e de transformações do conhecimento, que vai da pesquisa básica, produzida nas universidades e instituições afins, passando pela pesquisa aplicada e resultando em inovação tecnológica capaz de agregar valor comercial”, escreveu. 

Nesse cenário, o autor afirma que é preciso não perder de vista “os fundamentos éticos, estéticos e sociais sobre os quais se assenta a própria possibilidade do conhecimento e de seus avanços”. 

Dessa forma, também a utilidade prática do conhecimento carrega consigo um viés ético. “O conhecimento é utilitário não porque tenha finalidade prática, mas por agregar valor aos produtos dele derivados. A comercialização do produto do conhecimento visa também a felicidade do outro, pela satisfação e pelo prazer, agora, do consumidor”. 

As reflexões trazidas pelo livro vão além e tratam de temas como urbanização, ecologia, clonagem, tecnologias da informação e da comunicação e transformações proporcionadas pela física, em linguagem coloquial e muitas vezes poética. 

No capítulo “O salto cântico da física”, é apresentada uma série de depoimentos de grandes nomes da física brasileira, como César Lattes, Mario Schenberg, Oscar Sala e Bernhard Gross, colhidos em entrevistas publicadas pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e pelos jornalistas Mariluce Moura e Neldson Marcolin na revista Pesquisa FAPESP, organizados por Vogt como um diálogo entre os entrevistados. 

O autor também aborda episódios de sua memória afetiva, como sua infância na cidade de Sales de Oliveira, no interior paulista, e o papel da FAPESP na sua formação acadêmica, iniciado com a concessão de uma bolsa de mestrado na década de 1960. 

“Foi desse modo que (...) a FAPESP cruzou definitivamente o caminho das decisões que marcaram os rumos da minha vida intelectual e acadêmica. A inscrição da FAPESP em minha história de vida, pelos diferentes papéis que foram sendo constituídos, aos poucos excedeu sua importância profissional para instalar-se definitivamente como referência ética, afetiva e intelectual no universo de valores das relações pessoais e institucionais que, com ela, aprendi a prezar e a respeitar”, conta.

Por: Diego Freire (Agência Fapesp).

A Mão Visível e Verde

Essencial para a organização da economia depois da crise financeira internacional de 2008, o Estado terá um papel decisivo na superação de outro grande desafio da sociedade globalizada, a luta pelo desenvolvimento sustentável e contra o aquecimento global. 

A análise, apresentada pelo doutor em direito internacional Eduardo Felipe P. Matias em seu mais recente livro, A Humanidade Contra as Cordas – A Luta da Sociedade Global Pela Sustentabilidade, é resultado de uma avaliação detalhada do caminho percorrido nas últimas décadas por políticos, empresas e organizações civis em busca da construção de um novo modelo de crescimento e bem estar social. Ainda não há uma resposta à altura para o problema e um eventual fracasso em dar conta desse desafio levará a civilização industrial contemporânea ao colapso, prevê o autor. 

A partir da recapitulação do movimento mundial de conscientização sobre a necessidade de novas práticas de preservação do meio ambiente, com destaque para o marco histórico da realização, em 1972, da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente Humano, a obra considera a ação reguladora e indutora do Estado imprescindível para “reverter incentivos perversos que provocaram tanto a crise financeira quanto a socioambiental, com o objetivo de evitar novos colapsos”. A dupla debacle [mudança brusca que acarreta desordem ou ruína financeira] está diretamente relacionada às consequências de um modelo de consumo desenfreado em um mercado desregulado e sem incentivos à sustentabilidade. 

O debate sobre as formas de os Estados estimularem de maneira efetiva uma transformação das empresas rumo a um sistema de produção sustentável e baseado em fontes alternativas aos combustíveis fósseis torna-se especialmente importante em um momento de questionamento do sistema de negociações da ONU sobre o clima. O Protocolo de Kyoto, em vigor desde 2005, é o único instrumento legal internacional em vigor para obrigar à limitação das emissões de gases de efeito estufa, os maiores causadores do aquecimento global. 

Em 2012, os países signatários aumentaram as suas emissões, enquanto o objetivo era a redução de 5% em relação aos níveis de 1990. Mesmo assim, o acordo foi renovado, desta vez por um conjunto menor de participantes responsáveis por menos de 15% das emissões globais de carbono, ante 51% na sua versão original. O sistema organizado para o comércio de carbono entre países com metas obrigatórias de redução e aqueles não comprometidos com esses objetivos não funcionou e não é mais considerado eficaz. 

Envolver um número menor de participantes nos pactos para reduzir a produção de poluentes, focar em metas mais tangíveis e considerar previamente o que os países estão dispostos a realizar são algumas das possibilidades para superar o modelo falho. O tamanho do desafio não deve ser subestimado, alerta o autor. As fontes de emissão de gases de efeito estufa são difusas, profundamente entremeadas no sistema de produção e a sua alteração a curto prazo tem custo elevado. 

O sucesso na substituição das fontes mais poluentes depende tanto da evolução das regras de governança das empresas para incorporar a questão da sustentabilidade entre os seus objetivos quanto do incentivo público ao desenvolvimento de novas tecnologias. Uma ação importante dos governos, apesar de bastante controversa, é a eliminação total dos subsídios aos combustíveis fósseis, calculados em cerca de 1 trilhão de dólares por ano no mundo todo. Encarecer esses produtos seria um caminho para desestimular o consumo. 

O autor entende não existir incompatibilidade entre a sustentabilidade e a globalização, possível veículo para a disseminação de novas práticas, mas a adoção de um padrão sustentável de desenvolvimento tem impactos no crescimento da economia mundial. Por maior que seja o êxito em demonstrar às empresas os bons resultados de investir em práticas consistentes do ponto de vista socioambiental, com redução dos riscos do negócio, ganho de reputação e de eficiência, a luta contra o aquecimento global depende, na essência, de se repensar o modelo de progresso baseado no aumento incessante do crescimento e do consumo. 

Essa reflexão levou a iniciativas como a criação, pelo governo francês, de uma comissão para estudar um mecanismo mais eficiente de medição da performance econômica e do progresso socioambiental. As questões sem resposta sobre os meios para viabilizar um mundo mais sustentável se avolumam e os problemas se agravam a cada dia, mas há alternativas, conclui Matias.

Por: Samantha Maia (Carta Capital).

Fora de Série

Neste livro, Malcolm Gladwell realiza uma fascinante investigação das raízes do sucesso. Enfocando a trajetória de pessoas que apresentaram um desempenho extraordinário em áreas e épocas diversas, ele mostra que o êxito não é fruto apenas do mérito individual. Ele também resulta de fatores que garantiram a esses indivíduos a chance de cultivar seu talento intensamente e de forma peculiar, destacando-se assim como personalidades fora de série. 

Aqui você saberá como esse processo ocorreu, por exemplo, na vida de gênios da música, como Mozart e os Beatles, e de estrelas do mundo do software, como Bill Gates. Verá também que esse mecanismo pode marcar igualmente a história de comunidades, culturas e grupos étnicos. 

Para Gladwell, todas as pessoas com esse perfil – denominadas por ele de outliers – receberam ajuda de alguém da família ou da comunidade ou foram beneficiadas por circunstâncias específicas de sua geração, cultura ou meio. No seu ponto de vista, o sucesso resulta do acúmulo constante de vantagens e, em grande parte, depende de quando e onde nascemos, da profissão dos nossos pais e do tipo de criação que recebemos. 

Você lerá aqui histórias de gênios que, apesar de possuírem uma inteligência espantosa, não conseguiram alcançar o sucesso. Para o autor, esse fato demonstra que, embora o QI seja um indicador de habilidade inata, a destreza social é construída por conhecimento. É um conjunto de capacidades que precisamos aprender e desenvolver – e é no ambiente familiar que isso costuma ocorrer. 

Segundo Gladwell, a princípio podemos pensar que celebridades, prodígios da matemática, músicos, empresários e atletas bem-sucedidos não se enquadram na experiência comum, mas isso não é verdade. 

"Eles são produtos da história, da comunidade, das oportunidades e dos legados. Seu sucesso não é excepcional nem misterioso. Baseia-se numa rede de vantagens e heranças, algumas merecidas; outras, não; algumas conquistadas, outras obtidas por pura sorte – todas, porém, cruciais para torná-los o que são. O outlier,no fim das contas, não está tão à margem assim", conclui.


O Ponto da Virada

Ao contrário do que estamos habituados a pensar, nossa maneira de ser e agir não é algo orientado unicamente por nossos genes. Sofremos uma influência extrema do meio em que vivemos e da personalidade e do comportamento das pessoas que nos cercam.

Em grande parte, é graças a isso, segundo Malcolm Gladwell, que se propagam os fenômenos que ele chama de epidemias sociais. O Ponto da Virada, explica o autor, é justamente o momento em que pequenas mudanças entram em ebulição, fazendo com que a trajetória de uma tendência ou de um comportamento dê uma guinada e se alastre. Ou se acabe.

Desempenhando um papel essencial nessas epidemias estão três tipos interessantes: os Experts − indivíduos que atuam como "bancos de dados", fornecendo a mensagem −, os Comunicadores − ou "cola social", aqueles que espalham a informação − e os Vendedores − pessoas capazes de nos convencer quando não acreditamos no que estamos ouvindo.

Gladwell nos apresenta ainda a outros dois elementos fundamentais nesse processo. Um deles é o Fator de Fixação − aquilo que evita que a mensagem entre por um ouvido e saia pelo outro, garantindo a assimilação de uma mudança ou inovação. O segundo é o Poder do Contexto − as fortes influências que o tempo e o ambiente exercem sobre nós.

O objetivo de toda essa reflexão, afirma o autor, é, em suma, responder a duas perguntas: "Por que alguns comportamentos, produtos e idéias deflagram epidemias e outros não? E o que podemos fazer intencionalmente para desencadear e controlar as nossas próprias epidemias positivas?"

Gladwell responde às duas questões dizendo basicamente o seguinte: o mundo, por mais que queiramos, não corresponde àquilo que a nossa intuição nos diz. As pessoas que têm sucesso na criação de uma epidemia social testam sua forma de ver as coisas e a adaptam para que a inovação possa ser assimilada e disseminada.

"Quando procuramos fazer com que uma ideia, uma atitude ou um produto alcance o Ponto da Virada, estamos tentando mudar o nosso público em algum aspecto, pequeno porém crítico: pretendemos contaminá-lo, arrebatá-lo com nossa epidemia, fazer com que passe da hostilidade para a aceitação", conclui ele.


Estímulo Sensorial

Você já se perguntou alguma vez por que gosta tanto de uma determinada canção enquanto outra te irrita profundamente? Por que uma música te deixa muito animado enquanto outra te deprime? Ou por que certa melodia não sai da sua cabeça e às vezes você se surpreende cantarolando uma letra qualquer?

De acordo com um neurocientista, "a música pode nos ensinar a respeito do cérebro, o cérebro pode nos ensinar sobre a música, e ambos podem dizer a nosso respeito". Pode crer, é o que propõe o livro A Música No Seu Cérebro, fruto de anos de estudo de Daniel J. Levitin - que outrora trabalhou como engenheiro de som e produtor musical; hoje é um homem atuante no campo da neurociência.

A obra surgiu a partir da curiosidade do autor de "entender os mais profundos mistérios da natureza humana", pois através de uma ideia clara de "o que é a música e de onde vem, poderemos compreender melhor nossos motivos, medos e desejos, memórias e até a comunicação em seu sentido mais amplo" - diz ele. 

Embora o livro aborde também teoria musical (altura, ritmo, andamento, métrica, intensidade, harmonia e melodia), vale a pena ler na íntegra e saber como a nossa massa encefálica está profundamente ligada aos sons de uma maneira geral - sejam eles musicais ou do ambiente.

Por: Gustavo Nobio. Sustentabilista, comunicador ambiental, articulista e administrador de conteúdo da mídia online #SenhorEco.

SINOPSE

A Música No Seu Cérebro é o primeiro livro a alcançar uma abrangente compreensão da maneira como os seres humanos vivenciam a música e dos motivos que a fazem desempenhar um papel tão importante em nossa vida. Daniel J. Levitin uniu sua ampla experiência como produtor musical e seus estudos em neurociência e assim desvendou muitos mistérios relacionados ao tema.

Nesta inédita investigação do papel da música na evolução da espécie humana e no cotidiano de cada um de nós, Levitin mescla psicologia, neurociência e exemplos musicais. Ele explica os elementos da música – altura, ritmo, andamento, timbre, harmonia e melodia – e ensina como reconhecê-los  O autor ainda revela como os compositores exploram nossa maneira de conferir sentido à realidade para criar.

A olhar científico de Levitin pode ser percebido com a utilização de diversas pesquisas para explicar a percepção musical no cérebro humano. Já seu lado artístico proporciona uma viagem pelos mais diversos estilos musicais: de Bach a Count Basie, passando por Creedence, Van Halen, Mozart e Eminem, o autor mostra que, dos tímpanos até as células que regulam a emoção no interior do cérebro, uma série de atividades cerebrais e, consequentemente, emoções são desencadeadas quando ouvimos música.

Levitin revela como nossas preferências musicais começam a ser formadas antes de nascermos e como a qualificação musical é construída. Apesar da arraigada distinção cultural que prevalece no Ocidente entre os músicos especializados e profissionais e os consumidores, Levitin afirma que todos somos mais capazes musicalmente do que imaginamos, pois nosso cérebro está profunda e diretamente conectado à música.

Respeitados especialistas afirmam que a música é uma espécie de adorno parasita na periferia da natureza humana. Este livro mostra, pelo contrário, que ela é uma verdadeira obsessão no cerne da natureza humana, talvez ainda mais fundamental para nossa espécie do que a linguagem.


Ecologia Sonora


O livro Música & Meio Ambiente: Ecologia Sonora - escrito por Maria Trench de Oliveira Fonterrada - trata da relação entre a música e a ecologia, mostrando que a importância do som para o homem vem de tempos imemoriais, espelhando-se nos mitos que explicam a origem do mundo. 


Para estabelecer as relações entre música e ecologia, trata em primeiro lugar das questões discutidas pela ciência ambiental, mostrando seus princípios, que são transpostos para o estudo específico da ecologia sonora. O livro, ainda, mostra a importância da música tal como se reflete em mitos, histórias de fada e fábulas.


A coleção Conexões Musicais focaliza o diálogo da música com outras áreas do saber. Diversos ramos da Ciência (Física, Matemática, Informática), da Filosofia, da Ecologia, da Antropologia, entre outros, há muito são parceiros da música e sua discussões resultaram em um patrimônio cultural que não cessa de se aperfeiçoar e inovar.

Com textos concisos, objetivos e explicativos, a coleção pretende ser uma introdução a questões específicas de cada uma das áreas tratadas, além de realçar aspectos concernentes à interdisciplinaridade, aos temas transversais e à natureza polifônica do conhecimento humano.

Fonte: Irmãos Vitale.