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Como as Soluções Baseadas na Natureza Podem Integrar um Novo Pacto Social e Econômico


O Brasil precisa lidar com o declínio das atividades econômicas e, ao mesmo tempo, resolver os problemas ocasionados pela emergência climática. A solução para essas crises é a conservação da natureza que proporcione uma retomada verde e socialmente inclusiva. 

A humanidade enfrenta uma de suas piores crises. Em meio à pandemia da Covid-19, que já ceifou mais de 160 mil vidas de brasileiros e brasileiras, o Brasil precisa lidar com o declínio das atividades econômicas e, ao mesmo tempo, debater como atuar de forma eficiente para resolver os problemas ocasionados pela emergência climática. A solução para todas essas crises é a conservação da natureza. Novas pandemias poderão surgir na medida em que a destruição dos ambientes naturais avança, por isso, precisamos preservar. 

Uma retomada econômica sem considerar os limites da natureza e o uso sustentável dos recursos naturais, certamente agravará as crises. A retomada verde será ao mesmo tempo a solução para nossa economia e para o enfrentamento da crise climática. Entretanto, para que as soluções sejam de fato efetivas, a retomada não deve somente ser verde, mas também inclusiva. 

Precisamos estimular e ajudar a construir um novo contrato ou pacto social, no qual a equidade de gênero, o combate ao racismo e a proteção da natureza estejam inseridos como questões centrais e inegociáveis. Essa nova economia precisa reafirmar alguns valores: democracia, respeito aos direitos humanos, respeito à diversidade, respeito às minorias, respeito à vida e à biodiversidade, busca da inovação e respeito às futuras gerações. Lembrando dos vários aspectos da ética, do cuidado, do respeito, da responsabilidade e da solidariedade. 

Para isso, precisamos integrar as Soluções Baseadas na Natureza (SBN), que têm a ver com o redesenho e o planejamento das paisagens. Pensar o território com olhar de drone e visão de libélula: do alto, com a complexidade exigida e onde cabem todos os atores e setores existentes em um território, mas cabe também a natureza. 

É necessário buscar a integração de todas as iniciativas sustentáveis existentes, considerando a necessidade de alimentos (qualidade e segurança alimentar), a proteção, restauração e regeneração de ecossistemas, a proteção da biodiversidade, a proteção e uso racional dos recursos hídricos e o desenvolvimento e implementação de energias limpas e renováveis. 

Já existem diversos exemplos de projetos e Soluções Baseadas na Natureza em diferentes áreas. Os desafios são como manter, consolidar e ampliar esses projetos, replicá-los e adaptá-los em outras regiões. 

Há várias ações que podem atrair os aportes necessários para essa mudança. Entre elas: 

• Buscar e direcionar investimentos públicos já existentes para iniciativas sustentáveis; 
• Repensar as políticas públicas – atrelando a concessão e liberação de créditos (agrícolas, imobiliários, infraestrutura, etc.) ao novo pacto social verde; 
• Incentivar e fomentar o cumprimento da legislação ambiental e a implantação de paisagens sustentáveis (Cadastro Ambiental Rural – CAR, Programa de Regularização Ambiental – PRA, Bolsa Restauração); 
• Ter um sistema de financiamento e crédito voltado para o desenvolvimento sustentável para que os imóveis rurais/propriedades se tornem sustentáveis, desinvestindo em atividades e equipamentos altamente emissores de carbono e 
• Remodelar a assistência técnica para que esta tenha um olhar integrado e considere a paisagem, a biodiversidade, os recursos hídricos e a proteção do solo como essenciais para a atividade agrossilvopastoril. 

Em relação aos investimentos sociais privados, também já existem projetos bem sucedidos que podem e devem ser replicados. Por exemplo, o Projeto Matas Legais, uma parceria da empresa Klabin com a ONG Apremavi, que existe desde 2005 e já atendeu 1.807 famílias/propriedades, plantou 1.695.568 mudas de árvores nativas e envolve 16.500 ha de florestas nativas conservadas, 1.500 ha em regeneração natural, 512 ha restaurados com plantios de mudas nativas. É um projeto altamente replicável. 

A contribuição do setor privado deve ir além dos compromissos “normais”, como é o caso da Natura, ao anunciar que vai investir US$ 800 milhões nos próximos dez anos para ajudar a implantar o desmatamento zero da Amazônia, com ações em toda sua cadeia produtiva. Nesta encruzilhada civilizatória que afeta o planeta como um todo é preciso debater qual é a contribuição do setor privado para além do seu cercado, saber qual é a sua contribuição à sociedade, em uma visão de emergência climática, e quanto de seu lucro o setor privado está disposto a investir. Essa discussão exige um desprendimento muito maior do que o visto até agora. 

Para trazer essas soluções de investimentos, já existem algumas ferramentas que podem ser úteis. Entre elas, estão iniciativas multissetoriais de diálogo, como o Diálogo Florestal, o Diálogo do Uso do Solo e a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. Estes são espaços onde acordos e modelagens de novos projetos podem acontecer. 

Existem também os portais de transparência, que ajudam a monitorar as ações do governo, das empresas e do Terceiro Setor. Um exemplo é o Portal Ambiental da Apremavi, onde são cadastradas as atividades de restauração realizadas pela instituição, possibilitando o acompanhamento público das mesmas 

Outra ferramenta possível é a construção de plataformas de projetos, que pode ter como inspiração a iniciativa Mapa do DF Sustentável, que mapeou as mais diversas iniciativas relacionadas à sustentabilidade no Distrito Federal. 

Por que não criar uma plataforma também de ideias – um espaço onde as pessoas possam cadastrar suas ideias de investimentos verdes, uma vez que a inovação e criatividade precisam de oportunidades para florescer? E, por fim, construir uma plataforma de engajamento, onde as pessoas possam expressar os seus compromissos com o futuro sustentável? A pergunta é simples: que tipo de investimento eu posso fazer enquanto empresa ou cidadão, para ajudar a construir o presente e futuro sustentáveis?

Por: Miriam Prochnow (Página 22).

Como Nosso Corpo é Afetado Pela Tecnologia Digital e Como Isso Impacta As Relações Sociais

 A busca da palavra única, autoritária, coincide com a busca de um território sem variações, com uma trama digital sem matizes, com perspectivas sem nuances, diversidade ou consistência. Planificar é um verbo fundamental desse projeto, que se opera em todas as dimensões. Na ambiental, por exemplo, impõe-se queimando, desmatando, drenando a diversidade e achatando a tridimensionalidade natural dos sistemas vivos. E assim prossegue na pauta de costumes, na cultura, na educação, na ciência. 

Análises políticas, denúncias jornalísticas, argumentos científicos, alertas sociológicos e psicológicos proliferam para apontar os descaminhos que vivemos hoje no Brasil. Mas em meio à verborragia planificada no digital, um elemento é negligenciado apesar de onipresente. 

Para acessá-lo, vale resgatar uma premissa fundamental de diferentes teorias da Comunicação que é o fato de a tecnologia exercer grande influência sobre os modos de perceber, pensar, dialogar, interagir e expressar-se na sociedade. Se convocamos o auxílio da neurociência para compreender esta perspectiva da sensorialidade humana, temos que a cognição não é um produto isolado do cérebro, mas um desdobramento do arranjo integrado de todo o corpo, incluindo suas diferentes estruturas e camadas, suas habilidades sensórias e perceptivas, suas emoções, impulsos, sentimentos e expressões psicomotoras, e suas relações com o ambiente. 

Portanto, os efeitos da tecnologia sobre o humano são efeitos sobre o corpo. E como tem passado o corpo dos brasileiros conectados às redes digitais? A cultura de uso intenso dos smartphones significa, por exemplo, que passamos muitas horas imersos na relação com as telas, com um campo visual estreito e bidimensional, e um conjunto de estímulos limitados e muito focados na visão, convocando a cabeça baixa e alguns poucos movimentos de mãos e dedos. Ou seja, a riqueza da sensorialidade e das habilidades do universo corporal, em todas as suas camadas e conexões internas e com o ambiente, é evocado de modo acanhado. 

Isso representa menos estímulo ao caráter conectivo reticular do corpo e mais estímulo a uma conectividade reativa e impulsiva. Esbravejamos, reclamamos, replicamos… mas a criatividade, o devaneio, o pensamento capaz de alçar voos na imensidão da mente ficam mais propensos a voos de galinha do que voos de condor. 

O simulacro de contato com o outro, via digital, também reduz as trocas presenciais, que são onde a imagem do outro ganha tridimensionalidade, gestos dos pés à cabeça, micro expressões no rosto, nas mãos, nos membros e tronco; onde a conversa tem nuances de temperatura, empatia, desacordos, negociações mediadas por uma orquestração psicobiofísica contínua, bem diferente das frequências homogêneas e planificadas do digital. 

Se pensarmos que o corpo humano foi moldado por milhares de anos para reconhecer, afetar e ser afetado pela riqueza da troca presencial, dá para imaginar a aridez que representa o contato virtual. Dá para entender também tanta sensação de vazio, tanta dificuldade de diálogo, tanta aspereza no trato em sociedade – justamente na era da sociedade em rede. 

Não digo que esta sensação que paira no ar de um desarranjo constante seja apenas pela carência do corpo. É claro que todo o contexto político, social, econômico e ambiental que temos vivido exerce pressão implacável sobre todos nós. Mas o fato é que a ausência da primazia ancestral do corpo na contemporaneidade humana alimenta um desalento muitas vezes difícil de reconhecer, de dar nome, de dedicar cuidado. 

A pauta aqui não é uma mera questão de sedentarismo, de ir ou não à academia. O assunto é o corpo em suas camadas entrelaçadas … todas elas: as físicas, as subjetivas, as transcendentais. O corpo entorpecido pelo estresse e pelo digital vai afrouxando e deixando de viver esses entrelaçamentos. E de construir sentido a partir deles. 

A falta de experiência conectiva do corpo destreina o sistema nervoso – também uma rede viva – a operar, buscar e fazer conexões; a reconhecer e degustar os modos integrados de ser e de estar no mundo. Aumenta, assim, a dificuldade de ser conectivo para além da pele e de ser integrador através do digital. E justamente na era das redes… 

Mas esse não é um texto para ser coroado com um emoji de lágrima escorrendo. Este é um chamado para os que são ativistas, os que sentem falta de entrosamento, os que carregam o peso da solidão, os que não conseguem fugir da raiva, os que não conseguem superar a apatia, os que não escutam, os que não abraçam. Tantas condições fragilizadas de comportamento, tendo em comum o mesmo catalizador: a falta de corpo em camadas. 

Dificilmente construiremos alternativas às conjunturas que nos desagradam sem mudanças de mentalidades. E transformar fluxos cognitivos implica transformações do corpo – nossa dimensão mais singular, eloquente e onipresente. Assim, além de arregaçar as mangas pelo que se quer, pode ser muito fértil redescobrir o corpo que é ecossistema por dentro e que compõe redes em fluxo por fora. 

É preciso reconhecer se cada um de nós está perdendo vitalidade, fechando-se no corpo próprio. É preciso cultivar a respiração, o toque em si e no outro, o abraço, o afeto, o contato. É preciso experimentar liberdade de movimento, de expressão estética, de ludicidade, de descanso e de degustação do universo interno. Corpos com vitalidade, com escuta aberta a perceber seu caráter integrado, são corpos ativamente políticos. 

Mantêm o sistema nervoso estimulado a reconhecer os fenômenos integrados do mundo. Estão preenchidos e aptos a lidar com as impermanências de hoje, e a instigar a conectividade com os demais. É o que diz o neurônio-espelho e milênios de aprendizado humano pelo contato, pela observação e pela experiência conjunta. 

Num momento em que aparecem poucas alternativas além do espernear, dar a chance para o inusitado, o simples, o que está escondido no trivial, pode ser tão efetivo e ousado como foi o movimento das mulheres de Atenas na guerra do Peloponeso. Então dedique uma semana a experimentar seu corpo de outro modo. Que seja um segredo seu, mas experimente. 

Perceba que toda ação é um sinal de vida do corpo. Andar na rua é modificar a paisagem de um espaço tridimensional. Respirar é cultivar diálogo entre o ambiente e o sangue. Cruzar olhares é assimilar outro humano único como você. Tocar-se é ativar seu universo sensorial. Permita-se pequenas transgressões de seus padrões. Divirta-se com suas estranhezas e dos outros. Busque atividades para acessar as camadas entrelaçadas esquecidas. 

Se não surtir efeito, sempre haverá a rotina digital de todo o dia. Mas se acender algo diferente em seus sentidos, se brotarem desdobramentos que vão além do corpo, continue a experiência na semana seguinte e na outra… e na outra…

Por: Ricardo Barretto; comunicólogo e educador somático que pesquisa relações entre o corpo vivo, fluxos comunicativos e o ambiente. Fonte: Página 22.

O Que é o 'QA' e Por Que Ele Pode Ser Mais Importante Que o 'QI' no Mercado de Trabalho?

Há algum tempo, se você quisesse avaliar as perspectivas de alguém crescer na carreira, poderia considerar pedir um teste de QI, o quociente de inteligência, que mede indicadores como memória e habilidade matemática. 

Mais recentemente, passaram a ser avaliadas outras letrinhas: o quociente de inteligência emocional (QE), uma combinação de habilidades interpessoais, autocontrole e comunicação. Não só no mundo do trabalho, o QE é visto como um kit de habilidades que pode nos ajudar a ter sucesso em vários aspectos da vida. 

Tanto o QI quanto o QE são considerados importantes para o sucesso na carreira. Hoje, porém, à medida que a tecnologia redefine como trabalhamos, as habilidades necessárias para prosperar no mercado de trabalho também estão mudando. Entra em cena então um novo quociente, o de adaptabilidade (QA), que considera a capacidade de se posicionar e prosperar em um ambiente de mudanças rápidas e frequentes. 

"O QI é o mínimo que você precisa para conseguir um emprego, mas a QA é indicador de sucesso a longo prazo", diz Natalie Fratto, vice-presidente da Goldman Sachs em Nova York que se interessou pelo QA enquanto investia em novas empresas de tecnologia. Depois, ela apresentou uma palestra popular na plataforma TED sobre o assunto. 

Fratto diz que o QA não é apenas a capacidade de absorver novas informações, mas de descobrir o que é relevante, deixar para trás noções obsoletas, superar desafios e fazer um esforço consciente para mudar. Esse quociente envolve também características como flexibilidade, curiosidade, coragem e resiliência. 

À medida que a sociedade muda, o QA pode se tornar mais importante do que o QI? Em caso afirmativo, como identificar e aprimorar o seu QA?

Adaptação ou obsolescência

Amy Edmondson, professora de Administração da Harvard Business School, diz que é a velocidade vertiginosa das mudanças no mercado de trabalho que fará o QA vencer o QI.

A tecnologia mudou bastante a forma como alguns trabalhos são feitos, e a tendência continuará — nos próximos três anos, 120 milhões de pessoas nas 12 maiores economias do mundo possivelmente precisarão ser recolocadas por causa da automação, de acordo com um estudo da IBM deste ano. 

Qualquer função que envolva detectar padrões nos dados — advogados revisando documentos legais ou médicos buscando o histórico de um paciente, por exemplo — é fácil de se automatizar, diz Dave Coplin, diretor da The Envisioners, consultoria de tecnologia sediada no Reino Unido. Isso ocorre porque um algoritmo pode executar essas tarefas com mais rapidez e precisão do que um humano. 

Para evitar a obsolescência, os trabalhadores que cumprem essas funções precisam desenvolver novas habilidades, como a criatividade para resolver novos problemas, empatia para se comunicar melhor e responsabilidade. Ou seja, usar a intuição humana para complementar o trabalho das máquinas: "Se algo pode fazer 30% das tarefas que eu costumava fazer, o que posso fazer com essa lacuna não utilizada? Os vencedores são aqueles que escolhem fazer coisas que outros não conseguem." 

Edmondson diz que toda profissão vai exigir adaptabilidade e flexibilidade, do setor bancário às artes. Digamos que você seja um contador. Seu QI te ajuda nas provas pelas quais precisa passar para se qualificar; seu QE contribui na conexão com um recrutador e depois no relacionamento com colegas e clientes no emprego. Então, quando os sistemas mudam ou os aspectos do trabalho são automatizados, você precisa do QA para se acomodar a novos cenários. 

Todos os três quocientes são um tanto complementares, pois todos ajudam a resolver problemas e, portanto, a se adaptar, aponta Edmondson. Um candidato ideal possui todos os três, mas nem todos são assim. 

"Existem gênios rígidos", diz ela. 

Ter QI, mas nenhum QA, pode ser um bloqueio para as habilidades existentes diante de novas maneiras de trabalhar.

Perguntando-se "e se" 

No mundo corporativo, o QA está sendo cada vez mais buscado na hora da contratação. De acordo com o estudo da IBM, 5.670 executivos em todo o mundo classificaram as habilidades comportamentais como as mais críticas para a força de trabalho atualmente, e a principal delas era a capacidade "de ser flexível, ágil e adaptável à mudança". 

Will Gosling, líder em consultoria de capital humano da Deloitte no Reino Unido, diz que não há um método definitivo para medir a adaptabilidade como um teste de QI, mas as empresas acordaram para o valor do QA e estão mudando seus processos de recrutamento para identificá-lo nas pessoas. 

A Deloitte, por exemplo, tem feito simulações online com candidatos em que eles são avaliados quanto à sua adaptabilidade; um dos testes pede que a pessoa mostre como estimularia colegas relutantes a se juntar à equipe de triatlo da empresa. A Deloitte também procura contratar pessoas que demonstraram ter bom desempenho em diferentes funções, setores ou locais de trabalho. 

Fratto, da Goldman Sachs, sugere três formas pelas quais o QA pode se manifestar em possíveis candidatos: se eles podem imaginar versões do futuro fazendo perguntas "e se"; se podem desaprender informações para desafiar pressupostos; e se gostam de explorar ou buscar novas experiências. 

Ela diz que essa não é uma receita definitiva para o QA, mas os recrutadores devem fazer esse tipo de pergunta para buscar evidências dessa habilidade nos candidatos. Na verdade, ela coloca essas questões aos líderes das empresas de tecnologia que estão pleiteando seu investimento. 

'Missão crítica' 

Uma coisa boa do QA é que, mesmo que seja difícil mensurá-lo, especialistas dizem que ele pode ser desenvolvido. 

Penny Locaso, fundadora da BKindred, empresa australiana da área da educação que trabalha com o valor da capacidade de adaptação, diz que algumas pessoas têm personalidades mais curiosas ou corajosas, o que pode explicar por que são naturalmente melhores em se adaptar do que outras. 

"No entanto, se a pessoa não continuar a surfar até o limite do desconforto, a adaptabilidade com a qual nasceu pode diminuir com o tempo." 

Ela sugere três maneiras para aumentar a adaptabilidade: primeiro, limite as distrações e aprenda a se concentrar no mapeamento das adaptações que devem ser feitas; em seguida, faça perguntas desconfortáveis, como pedir um aumento salarial, para desenvolver coragem e normalizar o medo; terceiro, estimule sua curiosidade por coisas fascinantes e busque respostas sobre elas em conversas com outras pessoas, em vez do Google — hábito atual que "faz com que nosso cérebro seja preguiçoso" e diminui nossa capacidade de resolver desafios difíceis. 

Otto Scharmer, professor da Sloan School of Management no MIT, que escreveu livros sobre o aprendizado no futuro emergente, sugere outros métodos. Em uma palestra no TED, ele recomenda permanecer aberto a novas possibilidades, tentando ver uma situação através dos olhos de outra pessoa e reduzindo seu ego para que possa se sentir confortável com o desconhecido. 

Uma coisa que sabemos é que os locais de trabalho do futuro funcionarão de maneira diferente. Podemos nem todos estar à vontade com o ritmo da mudança, mas podemos nos preparar. 

Como diz Edmondson: "Aprender a aprender é uma missão crítica. A capacidade de aprender, mudar, crescer, experimentar se tornará muito mais importante do que o domínio de um assunto."

Por: Seb Murray (BBC Worklife).

Afinal, Zumbi dos Palmares Realmente Tinha Escravos?

Zumbi e a Guerra dos Palmares / Crédito: Wikimedia Commons.

Hoje, fala-se que Palmares era uma nação escravocrata cujo principal líder tinha escravos. Mas será que isso procede? 

Nos dias atuais, surgiu uma tese sobre a memória do Quilombo dos Palmares onde é afirmado que Zumbi, último líder do maior quilombo da história, seria dono de escravos e até que Palmares era, assim como a colônia portuguesa, uma sociedade escravista. 

Essa noção sobre Palmares vem ganhando cada vez mais adeptos, que dizem poder afirmar com certeza categórica que Zumbi tinha sim escravos. Porém, poucos sabem argumentar as razões para acreditar nisso. 

Essa ideia de defender firmemente a escravidão em Palmares é um revisionismo histórico que foge do método histórico e se permite concluir respostas que são, ao mesmo tempo, ideologicamente convenientes e plenamente compreensíveis dentro do famoso senso comum. 

Ao mesmo tempo, a teoria vai de encontro com outra leitura imprecisa e idealista de Palmares que, ao fazer uso simbólico deste momento histórico e da figura de Zumbi, decai em uma visão quase onírica dos Palmares. Obviamente que a União dos Palmares não era o paraíso na terra, em que a felicidade e o prazer reinavam unanimemente. 

Mesmo considerando o comparativo entre a nação dos negros fugidos e a vida no engenho escravocrata, em que o primeiro era realmente uma condição de vida melhor, não é possível pensar a Palmares do século 17 como uma plena democracia, pois se tratava de uma monarquia — nos moldes do mundo subsaariano, claro — em que os regimes de trabalho e a dureza da vida não eram equivalentes por natureza. 

Não havia lá plena horizontalidade, como se pretende o anarquismo, a democracia atual ou as relações de reciprocidade dos nativos americanos. Mas não se tem relatos da instituição de posse humana como regime de trabalho, que define a escravidão. 

O principal argumento da teoria de que Zumbi tinha escravos é a comparação com a sociedade que o rondava. Segundo essa lógica, Palmares era mais um reino (uma verdadeira nação, de proporções próximas a Portugal) que vivia em interação com a sociedade escravista lusitana. 

Faria sentido, portanto, que Palmares tivesse uma lógica escravista. Não à toa, na maioria dos discursos que defendem essa tese, o "provavelmente" é uma palavra constante. Ou seja, o argumento não se sustenta para uma tese historiográfica. 

Isso porque não há fundamentação para essa tese na documentação de época, o que é central numa dissertação em história. Se cada ciência humana tem sua base, a da história é o documento. 

As possíveis fontes que alguns outros historiadores apontam que podem reforçar essa tese são ainda bastante questionadas e não possuem muito prestígio entre os pesquisadores. 

É relevante destacar que boa parte da aceitação dessa tese nasce de alguns conhecimentos equivocados sobre Palmares e Zumbi. Por exemplo, Zumbi, que sempre foi entendido como ícone do fim da escravidão, nasceu, viveu e morreu livre em seu reino. Nunca foi escravo, pois essa não é a condição natural de um negro no Brasil

Ao mesmo tempo, não é intrínseca à tradição africana a captura de escravos de guerra. Isso ocorria, sim, na África nessa época, mas não era algo que aparecia em todas as comunidades africanas. Além do mais, Palmares não era uma nação africana, mas um reino novo composto por africanos sequestrados e fugidos. 

Hoje, há o crescimento dos estudos sobre Palmares a partir de uma metodologia adequada para esse recorte, sendo possível compreender melhor as desigualdades e os regimes de trabalho em Palmares, para averiguar com precisão a tese da escravidão, que ainda vive entre suposições e crenças. 

Na memória social, também se destaca o conhecimento que temos dos textos do tempo de Zumbi (ou seja, da destruição de Palmares) para a disseminação da tese da Palmares escravista. Isso porque muito se falou sobre os relatos do bandeirante Domingos Jorge Velho, se seria possível concluir que Zumbi tinha escravos. Porém, a maioria dos historiadores concorda que a leitura de Jorge Velho era mais uma interpretação do luso-brasileiro sobre Palmares do que propriamente um relato do que ocorria no quilombo. 

O que seria relatado como uso de mão-de-obra escrava em Palmares na verdade seria uma lógica de trabalho na terra em que a liberdade e a participação na sociedade de Palmares estariam diretamente atreladas ao trabalho e à participação na sobrevivência da comunidade (ou, como aparece na peça Arena conta Zumbi: "Que liberdade é essa se é preciso trabalhar? [...] Ser livre não é encostar o corpo não, ser livre é trabalhar, vigiar, continuar a ser senhor de si"/ "Palmares tá grande, Palmares cresceu da força do braço do negro que sabe que é seu"). 

É impossível negar que o tema é polêmico. É igualmente inconsequente afirmar que a resposta já está fechada. Porém, a tese que diz que "é óbvio que Zumbi tinha escravos" é não só cientificamente irresponsável como também pesa, na balança da argumentação, para o lado com menos evidências para defender suas afirmações.

Por: Jânio Oliveira Freime (Aventuras na História).

'Erro dizer que homem descende do macaco', diz biólogo sobre Teoria da Evolução

Charles Darwin é considerado o pai da Teoria da Evolução e autor do famoso livro A Origem das Espécies, publicado em 1859. "De lá pra cá", houve muitas deturpações das análises do inglês. Em 2019, ainda há muita gente que não entende ou distorce as ideias de Darwin e seus estudos científicos. O professor de Biologia, Leonardo de Almeida Amado, que também é coordenador do curso de Biologia do Centro Universitário de Barra Mansa (UBM), no sul do Rio de Janeiro, esclarece essas dúvidas. 

O naturalista inglês é conhecido também por antever os mecanismos genéticos e por fundar a biologia moderna. "Darwin foi um dos pioneiros a estudar e falar sobre a Evolução. Criou a Teoria da Seleção Natural. Porém, na época, não pôde precisar como as características eram passadas para as gerações futuras. Com esta Teoria e os estudos de Gregor Mendel [biólogo botânico austríaco, falecido em 1884], a Genética começa a entender esta passagem de características", explica o professor. 

Na época, desacreditada por muitos, por causa do conceito da evolução através do Criacionismo, a Teoria de Darwin renasceu com a descoberta da estrutura do DNA, a parte principal de cada célula, presente em todos os organismos vivos e que é responsável pela transmissão de informações de uma geração a outra. 

Com a célebre frase "não são as espécies mais fortes que sobrevivem, nem as mais inteligentes, e sim as mais suscetíveis a mudanças", Darwin mudou para sempre o pensamento científico. Segundo Charles Darwin, os organismos mais bem adaptados ao meio têm maiores chances de sobrevivência do que os menos adaptados, deixando um número maior de descendentes. Os organismos mais bem adaptados são, portanto, selecionados para aquele ambiente. 

O homem veio do macaco? 

O ser humano não "veio do macaco". Esse é um equívoco que se criou em torno de uma ideia que não era de Darwin. Na verdade, o que ele disse é que havia indícios de que homens e macacos tinham um ancestral comum que evoluiu com o tempo e se desdobrou em vários ramos diferentes. 

A Teoria da Evolução mostra como as espécies se desenvolvem. A base da Teoria, que é a seleção natural das espécies, explica como estruturas simples se tornaram seres complexos ao longo de milhões de anos, enfrentando os desafios da sobrevivência. 

"Há uma descendência evolutiva das espécies. O Darwinismo, que é a seleção natural, e o Neodarwinismo, que explicou, acompanhado da seleção natural, a recombinação genética, está, graças aos estudos da genética, explicando o que Darwin não conseguiu explicar na época a respeito das alterações que as espécies sofriam e eram transmitidas às gerações seguintes", esclarece o professor Leonardo de Almeida

De acordo com a Teoria de Darwin, o homem e o macaco fazem parte da classe dos mamíferos e descenderam de um ancestral comum. Ao longo da evolução, homem e macaco foram sofrendo alterações e se adaptando às modificações ambientais. 

"É um erro dizer que o homem descende do macaco. Darwin nunca disse ou escreveu tal coisa. A Teoria da Evolução explica que homem e macacos descendem de um ancestral comum. Este ancestral não foi nem homem nem macaco. Este ancestral durante o processo evolutivo dividiu-se em ramos, um para o gênero em que se encontram os macacos e outro para o gênero Homo. O gênero Homo, continuou a se evoluir e ainda se evolui", reafirma. 

"As famosas mutações, que podem ser qualitativas ou quantitativas e podem ocorrer ao acaso ou, por exemplo, por influência de energia nuclear, em ambos os casos, afetam o arranjo dos genes nos cromossomos", explica o profissional. 

Darwin e sua experiência no Brasil 

O naturalista inglês, que passou anos e anos em expedições, também atracou no Brasil, em 1832. Ele aportou na Bahia e no Rio de Janeiro. Ao todo ficou por cinco meses. Darwin ficou encantado com a exuberância da floresta tropical, mas também se chocou com a escravidão — reforçando suas convicções abolicionistas de que todos os seres humanos compartilham a mesma linhagem sanguínea em razão da ancestralidade comum. 

De acordo com especialistas, os dois pontos foram cruciais para a elaboração da revolucionária Teoria que separou, pela primeira vez, a ciência da religião. 

Confusão com a palavra ‘teoria’ 

Existem dois principais significados para a palavra "Teoria": 

1. Teoria é o conjunto de princípios fundamentais de uma arte ou uma ciência. Do grego theoria, que no contexto histórico significava observar ou examinar. 

2. Teoria também é usado como sinônimo de hipótese, uma conjectura, uma opinião formada diante de um fato. 

Portanto, a teoria científica não é a mesma coisa de um “achismo”. "Sendo que o 'achismo' se baseia na opinião própria, sem argumentação concreta, sem estudos científicos, sem metodologia e/ou resultados científicos. Bem diferente de Teoria, como usado no caso de Darwin, onde ele fez observações nas espécies in loco, verificando as suas variações. Com argumentação e justificativas concretas", descreve o biólogo. 

Futuro da profissão biólogo 

O biólogo disse que vislumbra a profissão com muita perspectiva, talvez ainda não observada por muitos adolescentes. Ele esclarece que biólogos podem se especializar ou ser generalista e atuar em várias áreas e subáreas, conforme Resolução do CFBio, o Conselho Federal de Biologia

"As questões ambientais, a necessidade atual de empresas/indústrias e outros setores da sociedade se adequarem à legislação ambiental atual necessitam deste profissional para elaborar relatórios e estudos, pareceres, laudos técnicos, auxiliar em recomposições florestais indicando as espécies corretas para determinado habitat. Recuperar áreas degradadas com estudos técnicos e específicos. Trabalhar em laboratórios. Enfim, há um vasto campo de trabalho neste país", enumerou algumas das possibilidades da profissão nas áreas de Meio Ambiente, Biotecnologia e Biossegurança, Saúde e Educação. 

O professor reforça a importância da Biologia, que é o estudo da vida. "Da vida de todos os seres vivos, do mais simples ao ser humano. Isto permite intensas e variadas pesquisas em todos os campos relacionados, permitindo inúmeras inovações científicas", finaliza.

Por: Lara Gilly (G1).