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Entenda Por Que As Mudanças Climáticas Podem Estar Por Trás da Pandemia de Covid-19


A população mundial de morcegos carrega cerca de 3 mil tipos diferentes de coronavírus (Foto: Jackie Chin/Unsplash). 

Estudo indica que espécies de morcegos, que carregam diferentes tipos de coronavírus, mudaram de região ao longo dos anos em decorrência das alterações no clima. 

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, há um ano, algumas questões permanecem sem resposta. Entre elas, de onde surgiu o Sars-CoV-2, causador da Covid-19. No fim de janeiro, o jornal Science of the Total Environment publicou um estudo que evidencia uma possível relação entre a pandemia e as mudanças climáticas. 

De acordo com a pesquisa, as emissões globais de gases do efeito estufa no último século favoreceram o crescimento de um habitat para morcegos, tornando o sul da China uma região propícia para o surgimento e a propagação do vírus Sars-CoV-2. 

A análise foi feita com base em um mapa da vegetação do mundo no século 20, utilizando dados relacionados a temperatura, precipitação e cobertura de nuvens. Os pesquisadores analisaram a distribuição de morcegos no início dos anos 1900 e, comparando com a distribuição atual, concluíram que diferentes espécies mudaram de região por causa das mudanças no clima do planeta. 

“Entender como a distribuição das espécies de morcego pelo mundo mudou em função das mudanças climáticas pode ser um passo importante para reconstruir a origem do surto de Covid-19”, afirmou, em nota, Robert Beyer, pesquisador do Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e autor principal do estudo. 

Foram observadas grandes alterações na vegetação da província chinesa de Yunnan, de Mianmar e do Laos. Os aumentos na temperatura, na incidência da luz solar e nas concentrações de dióxido de carbono presente na atmosfera fizeram com que o habitat, que antes era composto por arbustos tropicais, se transformasse em savana tropical e florestas temperadas. 

As novas características criaram um ambiente favorável para que 40 espécies de morcegos migrassem para a província de Yunnan no último século, reunindo assim mais de 100 tipos de coronavírus na área em que os dados apontam como a origem do surto do Sars-CoV-2. Essa região também é habitat dos pangolins, que são considerados prováveis agentes intermediários na pandemia. 

“Conforme as mudanças climáticas alteraram os habitats, espécies deixaram algumas áreas e foram para outras — levando os vírus com elas. Isso não apenas alterou as regiões onde os vírus estão presentes, mas provavelmente permitiu novas interações entre animais e vírus, fazendo com que vírus mais perigosos fossem transmitidos ou desenvolvidos”, explicou Beyer. 

O estudo ainda identificou que as mudanças climáticas resultaram no aumento do número de espécies de morcegos em outras regiões, como na África Central, na América do Sul e na América Central. “A pandemia de Covid-19 causou grande prejuízo social e econômico. Os governos devem aproveitar a oportunidade para reduzir os riscos que doenças infecciosas apresentam à saúde e agir para mitigar as mudanças climáticas”, alertou o professor Andrea Manica, do Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge. 

Os pesquisadores também ressaltam que é preciso limitar a expansão de áreas urbanas, fazendas e áreas de caça em habitats naturais para que seja reduzido o contato entre humanos e animais transmissores doenças


Articulação Entre Municípios é Essencial Para Combate à Seca e Desastres Naturais


Estudos identificam vulnerabilidades e capacidade de resposta aos efeitos das mudanças climáticas na macrometrópole paulista. Pesquisadores também apontam a necessidade de compreender as disparidades sociais e a distribuição desigual dos riscos dentro de uma mesma cidade (enchente no município de Itaoca, no Vale do Ribeira; foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil). 

Na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), as cidades com maior vulnerabilidade à seca e outros desastres naturais são também as que têm mais capacidade socioeconômica para se adaptar ao problema. Se por um lado isso parece ser positivo, por outro, evidencia a necessidade de articulação não só entre os municípios, mas também nas diferentes esferas governamentais para priorizar e definir as melhores maneiras de atingir a resiliência climática. 

É o que afirma uma equipe multidisciplinar de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e da Universidade Federal do ABC (UFABC) em artigo publicado na revista Sustainability. No estudo, a equipe comparou indicadores socioeconômicos e de vulnerabilidade climática entre os 174 municípios que formam a macrometrópole paulista – área com cerca de 30 milhões de habitantes e que abrange as regiões metropolitanas de São Paulo, Campinas, Sorocaba, Baixada Santista e o entorno do Vale do Paraíba. 

“Das 19 municipalidades mais vulneráveis à seca e desastres naturais, 18 estão situadas na RMSP e uma no Vale do Paraíba. Apesar de esses municípios terem boa capacidade de resposta às mudanças climáticas, eles estão longe de avançar ou de tomar as medidas necessárias para enfrentar os desafios climáticos que já se fazem presentes, e que devem aumentar nos próximos anos”, diz Pedro Henrique Campello Torres , pesquisador da USP e autor do estudo. 

O trabalho integra um Projeto Temático sobre a macrometrópole paulista que trata de cinco eixos principais e interdisciplinares: análise de vulnerabilidades, serviços ecossistêmicos, energia, mudanças climáticas e inovação. 

Os 19 municípios selecionados no estudo são: Arujá, Caieiras, Carapicuíba, Cotia, Diadema, Embu das Artes, Embu-Guaçu, Itapecerica da Serra, Itapevi, Itaquaquecetuba, Jandira, Mauá, Osasco, Poá, São Caetano, São Lourenço da Serra, São Paulo, Taboão da Serra e Jambeiro (o único no Vale do Paraíba e, portanto, distante dos demais). 

Os dados econômicos e de infraestrutura mostram que, embora muitos desses municípios tenham a capacidade institucional para apresentar planos próprios, outros apresentam maior dificuldade. Um exemplo destacado pelos pesquisadores é a cidade de Itaquaquecetuba, que tem Produto Interno Bruto (PIB) muito menor do que as outras cidades, como a capital paulista ou as que formam a região do ABC. 

Outro estudo realizado pelo mesmo grupo e publicado no International Journal of Urban Sustainable Development mostrou que a falta de uma governança antecipatória e de infraestrutura são razões para os recorrentes casos de mortes por enchentes na macrometrópole paulista. “São esses mesmos municípios que, por óbvio, precisam fazer ações imediatas para combater problemas presentes e futuros”, afirma Torres. 

Além da maior articulação entre municípios e níveis de governo, um terceiro artigo publicado pelo grupo de pesquisadores na revista Mercator propõe uma abordagem mais aprofundada para compreender disparidades sociais e a distribuição desigual dos riscos dentro de uma mesma cidade. 

“É preciso que o gestor municipal saiba quais são as áreas mais vulneráveis, fazendo uma governança que tenha justiça distributiva. No fim das contas, estamos falando de um futuro incerto, o que é muito complexo em política, que precisa ser certeira, usar os recursos da melhor maneira possível e com base na ciência. O melhor caminho então é planejar uma governança colaborativa e não concorrente”, diz Pedro Jacobi, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP) e coordenador do Projeto Temático. 

De acordo com os pesquisadores, no contexto da macrometrópole paulista, a vulnerabilidade fica evidente quando se abordam os territórios periféricos. A análise espacial de infraestrutura e de serviços mostra que, do ponto de vista do meio físico, são mais frágeis, suscetíveis a processos de deslizamentos e inundações. Já do ponto de vista ambiental, são também os territórios periféricos os responsáveis pela manutenção dos serviços ecossistêmicos quando resguardados pelas leis de proteção ambiental – o que pode resultar em conflitos entre proteção ambiental e direito à moradia e à cidade. 

Mais frequentes e mais extremos 

Os eventos climáticos extremos já afetam os municípios da macrometrópole paulista. Secas severas, chuvas extremas e inundações vêm ocorrendo de forma mais grave em várias cidades da região durante diferentes épocas do ano. 

Nos últimos anos, as políticas de prevenção de desastres têm crescido no Brasil, amparadas em uma nova perspectiva de leis baseadas na mitigação, prevenção, preparação e resposta. 

De acordo com os pesquisadores, a última grande seca que afetou a RMSP entre 2013 e 2015, por exemplo, reforçou a necessidade de uma resposta política regional às questões climáticas, levando em conta suas interdependências e vulnerabilidades. 

“Essa abordagem regional complementa as perspectivas atuais, que estão focadas em nível nacional ou municipal. Porém, existe uma ausência de planejamento conjunto e essa maior articulação parece ser essencial para priorizar e usar melhor os recursos disponíveis, não só os financeiros, mas de pesquisa, que possam servir de base para a tomada de decisão conjunta e em diferentes esferas governamentais”, diz Torres. 

Os pesquisadores afirmam que um dos motivos para essa falta de foco regional no combate às mudanças climáticas é a indisponibilidade de planejamento e cenários regionais. “Com isso também ficaria mais evidente uma avaliação da resposta das políticas para a região, que é a mais rica do Brasil e uma das mais ricas do Sul Global”, diz Torres. 

O grupo de pesquisadores analisou ainda como esses municípios da macrometrópole paulista estavam em relação às políticas e planos territoriais de planejamento e resiliência. “Para nossa surpresa, todos os 19 tinham aderido, por exemplo, ao plano de prevenção da defesa civil e apenas quatro não faziam parte do Programa Cidades Resilientes [Arujá, Embu, Embu-Guaçu e Itapevi]”, diz Torres. 

De acordo com o pesquisador, isso mostra que, de certa maneira, os municípios demonstram a necessidade de ações de enfrentamento e de maior articulação. “Caso contrário, nem sequer teriam atendido a esses programas. Não é qualquer município que pode assinar um compromisso internacional de se tornar uma cidade resiliente”, diz Torres. 

O artigo Vulnerability of the São Paulo Macro Metropolis to Droughts and Natural Disasters: Local to Regional Climate Risk Assessments and Policy Responses (doi: 10.3390/su13010114), de Pedro Henrique Campello Torres, Demerval Aparecido Gonçalves, Flávia Mendes de Almeida Collaço, Kauê Lopes dos Santos, Katia Canil, Wilson Cabral de Sousa Júnior e Pedro Roberto Jacobi, pode ser lido em www.mdpi.com/2071-1050/13/1/114

O artigo Why do extreme events still kill in the São Paulo Macro Metropolis Region? Chronicle of a death foretold in the global south (doi: 10.1080/19463138.2020.1762197), de Luciana Travassos, Pedro Henrique Campello Torres, Gabriela Di Giulio, Pedro Roberto Jacobi, Edmilson Dias De Freitas, Isabela Christina Siqueira e Tércio Ambrizzi, pode ser lido em www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/19463138.2020.1762197

O artigo Vulnerabilities, risks and environmental justice in a macro metropolitan scale (doi: 10.4215/rm2021.e20003), de Katia Canil, Rodolfo Baêsso Moura, Samia Nascimento Sulaiman, Pedro Henrique Campello Torres, Anna Luisa Abreu Netto e Pedro Roberto Jacobi, pode ser lido em www.mercator.ufc.br/mercator/article/view/e20003.

Por: Maria Fernanda Ziegler (Agência Fapesp).

O Impacto Mais Importante das Políticas Climáticas de Trump Foi a Perda de Tempo


Presidente Donald Trump em um comício de campanha em Minden, Nevada, no dia 12 de setembro de 2020. O presidente menosprezou as mudanças climáticas e promoveu políticas que as aceleram, fazendo com que os Estados Unidos não progredissem em ações contra as mudanças climáticas nos últimos quatro anos. Foto: Doug Mills / The New York Times / Redux. 

Muito dióxido de carbono foi liberado na atmosfera durante os anos do governo Trump, mas especialistas afirmam que o maior prejuízo foi a ausência de progresso.

Por décadas, especialistas climáticos alertaram que adiar a adoção de medidas para controlar o aquecimento global faria com que a resolução do problema fosse mais perigosa e difícil. Portanto, qual foi o impacto causado pelos quatro anos sem progresso sob o governo do presidente Donald J. Trump? 

Surpreendentemente, a quantidade total de dióxido de carbono adicional liberada na atmosfera nos últimos anos foi pouca, afirma Leah Stokes, especialista em política climática da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. Mas o mais importante era desacelerar o progresso das emissões. Os custos climáticos e econômicos da criação de um futuro com menos combustíveis fósseis estão aumentando drasticamente a cada ano, sendo assim, quatro anos sem progresso, pelo menos nos Estados Unidos, pressionam ainda mais os futuros líderes. 

“Não estamos indo na direção errada, mas também não estamos na direção certa”, diz Stokes. 

Quais políticas são mais importantes? 

Durante a campanha de Trump em 2016, ele já havia demonstrado seu ceticismo em relação às mudanças climáticas. Depois que ele assumiu o cargo em 2017, seu governo tomou decisões que desaceleraram ou menosprezaram as ações climáticas. Seu governo reverteu as políticas que ajudavam a mitigar o aquecimento, atenuou regulamentações para os poluidores climáticos, aprovou o oleoduto Keystone XL, desfez o Acordo de Paris e muito mais. 

No início de 2017, por exemplo, Trump determinou que a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) anulasse o Plano de Energia Limpa, política do governo Obama que visava reduzir as emissões de carbono do setor energético para 32% abaixo dos níveis de 2005 até 2030. Esse plano evitaria cerca de 70 milhões de toneladas de emissões até este ano e mais de 400 milhões de toneladas até 2030. 

Em vez disso, a EPA substituiu o Plano de Energia Limpa pela norma de Energia Limpa Acessível (ACE, na sigla em inglês), que não define limites de emissões nacionais, permitindo que os estados decidissem como controlar as emissões das usinas. A agência estimou que essa norma resultaria em apenas 11 milhões de toneladas a menos de CO2 liberados na atmosfera até 2030 — aproximadamente o volume de emissões de Rhode Island durante um ano, com base nos números de 2017. 

De forma semelhante, o governo atenuou as regras de eficiência do combustível de veículos, substituindo as normas por novas metas menos ambiciosas em março de 2020. As mudanças não teriam grandes impactos no futuro imediato, mas retardariam a transição para o uso de carros e caminhões mais eficientes. Tal como o cancelamento pelo governo de uma isenção permitindo que a Califórnia estabeleça normas mais rígidas de gases emitidos por veículos — uma ação que ainda está sendo contestada na justiça. 

O governo também modificou as normas referentes à quantidade de metano, um gás de efeito estufa superpotente, que pode ser emitido como subproduto da perfuração de poços de petróleo e gás e de aterros sanitários. A EPA estima que suas novas normas, estabelecidas em 2020, resultarão em 850 mil toneladas a mais de metano liberadas na atmosfera até 2030, embora alguns especialistas acreditem que seja uma estimativa subestimada. O metano é um agente de aquecimento muito mais poderoso do que o dióxido de carbono no curto prazo, o que significa que seus impactos podem ter forte influência no futuro próximo. 

Diversas outras normas foram atenuadas e muitos indícios mais sutis apresentados que favoreciam a economia de combustível fóssil. “O governo fez tantas coisas, e cada decisão não resulta em um grande impacto de emissões de combustíveis fósseis”, esclarece Narayan Subramanian, especialista em política climática e membro da Data for Progress e da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “Porém as decisões têm uma espécie de impacto coletivo.” 

Qual é a dimensão do impacto?

“É difícil quantificar os impactos dessas mudanças políticas”, explica Kate Larsen, analista do Grupo Rhodium, em parte porque futuras emissões também serão afetadas por outros fatores, como condições climáticas (o frio do inverno aumenta as emissões) e tendências econômicas (mudanças para energia renovável estão ocorrendo independentemente de mudanças políticas). 

Mas Larsen e seus colegas tentaram mesmo assim: eles estimaram quanto dióxido de carbono a mais as ações mais significativas de Trump podem liberar na atmosfera até 2035. 


Campos de gás natural nos arredores de Pecos, Texas. O governo Trump mudou as normas referentes à quantidade de metano, um prejudicial gás de efeito estufa, que pode ser emitido como subproduto da perfuração de poços de petróleo e gás. Foto: Ed Kashi / VII / Redux. 

Larsen e seus colegas constataram que a reversão das normas de eficiência de combustível aumentaria cerca de 450 milhões de toneladas de CO2 ou seu equivalente, a suspensão da isenção da Califórnia, se mantida, aumentaria cerca de 570 milhões de toneladas, principalmente por desacelerar a mudança para o uso de veículos elétricos. As normas de metano atenuadas contribuiriam com 640 milhões de toneladas. 

Com mais alguns detalhes, os analistas da Rhodium chegaram à estimativa final: as ações do governo Trump podem liberar um total de pelo menos 1,8 bilhão de toneladas de CO2 a mais na atmosfera até 2035. 

Aproximadamente 30% do que os Estados Unidos emitiram apenas no ano de 2019. 

Os efeitos da substituição do Plano de Energia Limpa pela ACE aumentariam ainda mais esse número, mas não se sabe a magnitude do efeito. E Larsen enfatiza que houve muito mais mudanças inefáveis que eram difíceis ou impossíveis de quantificar, então a estimativa provavelmente é baixa. 

Subramanian esclarece que é importante saber que “as mudanças não são permanentes em termos de estrutura regulamentar da política ambiental. Tudo o que [o governo Trump] fez na regulamentação é reversível”. 

A verdadeira questão, diz ele, é quanto tempo o governo Biden precisará para reverter a situação novamente, obter avanço nas ações climáticas e fazer com que a tendência das emissões siga firme na direção certa. 

Em busca do tempo perdido

Desde que os Estados Unidos atingiram o nível mais alto de emissões em 2007, em geral esse nível está em tendência de queda. Em 2018, a emissão subiu para cerca de 5,9 bilhões de toneladas métricas, de acordo com a Rhodium, antes de cair novamente em 2019 para 5,7 bilhões de toneladas métricas, quase a mesma quantidade de 2017. Em 2020, esses números estão caindo bruscamente mais um vez — mas apenas porque a pandemia paralisou parcialmente a economia e as pessoas não estão viajando ou se deslocando tanto. 

Mesmo assim, os cientistas concordam que as emissões precisam diminuir de forma rápida e sustentável, nos Estados Unidos e em outros lugares. “Temos uma quantidade finita de carbono que podemos emitir”, afirma Kirstin Zickfeld, cientista climática da Universidade de Simon Fraser na Colúmbia Britânica, “e já emitimos a maior parte”. 

A quantidade exata que resta nesse “limite de carbono” e como ele deve ser dividido entre os países são temas amplamente debatidos. Mas Zickfeld diz que uma forma simples de olhar para o problema é a seguinte: para haver 50% de chance de evitar que o planeta aqueça além de 1,5 grau Celsius — a meta mais ambiciosa definida pelo Acordo de Paris — o mundo deve se limitar a emitir menos de 500 bilhões de toneladas de dióxido de carbono no total. 

Com o volume de emissão atual — mundialmente, cerca de 36 bilhões de toneladas de dióxido de carbono fóssil por ano — esse número se esgotará em pouco mais de 12 anos. O desafio é chegar a uma emissão zero antes que o limite seja atingido. 

Larsen fez um cálculo aproximado para ilustrar como o governo Trump afetou esse desafio nos Estados Unidos, onde o presidente eleito Joe Biden agora abraçou o objetivo de emissão zero. Se depois de 2016 o país quisesse se empenhar nessa meta e cumprir o Acordo de Paris, seria necessário “manter as reduções de emissões entre 2025-2030 de 4,4% ao ano para continuar progredindo para o objetivo de emissão zero até 2050”, escreveu Larsen em um e-mail. 

Mas após os retrocessos de Trump, ela escreve, “teremos que atingir reduções de 5,4% ao ano, em média, entre 2025-2030 para continuar no caminho certo”. 

Cada ano sem progresso faz com que os cortes necessários sejam maiores e dificultam a obtenção do objetivo final. Muitos especialistas consideram que o tempo perdido é o maior prejuízo dos últimos quatro anos. 

Ben Sanderson, cientista climático do centro de pesquisa francês CERFACS, e um colega observaram recentemente como o atraso nas ações climáticas afeta o custo econômico de controlar as mudanças climáticas. 

“Conforme nos aproximamos [da meta de 1,5 °C], os custos aumentam exponencialmente a cada dia que passa”, diz ele. “Estamos prestes a tornar isso impossível.” 

“Para mim, o que não aconteceu nos últimos quatro anos é muito mais importante do que o que de fato aconteceu”, afirma Noah Kaufman, especialista em políticas climáticas da Universidade de Colúmbia. “Quanto mais adiarmos, mais cara ficará a implementação dessas políticas ou a alternativa é simplesmente não obtermos tantos resultados com elas. Esse é o impacto dos anos do governo Trump.”

Por: Alejandra Borunda. Fonte: National Geographic Brasil.
 

Padrão de Oxigênio Observado em Marte Intriga Cientistas


Jipe Curiosity da Nasa, em Marte. Foto: Nasa/JPL. 

Após detectar pico inusitado de metano no planeta vermelho, o jipê robô Curiosity, da Nasa, encontrou padrões de gás oxigênio que não podem ser explicados pela química atual.

Pela primeira vez na história da exploração espacial, cientistas mediram as mudanças sazonais nos gases da atmosfera diretamente acima da Cratera Gale, em Marte. O resultado mostrou algo estranho: o oxigênio — gás que muitas criaturas da Terra usam para respirar — se comporta de uma forma que, até agora, não é possível de explicar através dos processos químicos conhecidos pela ciência. 

Ao longo de três anos de Marte (quase seis anos terrestres), um instrumento do conjunto experimental Sample Analysis at Mars (SAM), que fica dentro da barriga do jipe robô Curiosity da Nasa, inalou o ar da Cratera Gale e analisou sua composição. Os resultados obtidos pelo SAM confirmaram a composição da atmosfera marciana na superfície: 95% em volume de dióxido de carbono (CO2), 2,6% de nitrogênio molecular (N2), 1,9% de argônio (Ar), 0,16% de oxigênio molecular (O2), e 0,06% de monóxido de carbono (CO). Eles também revelaram como as moléculas no ar marciano se misturam e circulam com as mudanças na pressão do ar ao longo do ano. Essas mudanças são causadas quando o gás CO2 congela nos polos durante inverno, diminuindo a pressão em todo o planeta, já que o ar se redistribui para manter o equilíbrio da pressão. Quando o CO2 evapora na primavera e no verão e se mistura ao longo do planeta, a pressão do ar aumenta. 

Nesse ambiente, os cientistas descobriram que o nitrogênio e o argônio seguem um padrão sazonal previsível, com suas concentrações aumentando e diminuindo na Cratera Gale ao longo do ano em relação à quantidade de CO2 existente no ar. Eles esperavam que acontecesse o mesmo com o oxigênio. Mas não foi isso que verificaram. Em vez disso, a quantidade do gás no ar aumentou em toda a primavera e no verão em até 30%, voltando aos níveis previstos pela química conhecida no outono. Esse padrão se repetiu a cada primavera, embora a quantidade de oxigênio adicionada à atmosfera variasse, implicando que algo estava produzindo e retirando o gás. 

“Na primeira vez que observamos o fenômeno, foi chocante”, diz Sushil Atreya, professor de ciências climáticas e espaciais da Universidade de Michigan em Ann Arbor. Atreya é coautor de um artigo sobre o assunto publicado no Journal of Geophysical Research: Planets

Assim que os cientistas descobriram esse “enigma do oxigênio”, especialistas em Marte começaram a procurar por uma explicação. Primeiro, eles checaram duas vezes a precisão do instrumento usado para fazer as medições: o espectrômetro de massa Quadrupole. O instrumento estava trabalhando bem. Eles então consideraram a possibilidade de que moléculas de CO2 ou de água (H2O) pudessem liberar oxigênio quando se separaram na atmosfera, levando ao aumento de curto prazo. Mas seria necessário cinco vezes mais água acima de Marte para produzir esse oxigênio extra, e o CO2 se decompõe muito lentamente para gerá-lo em tão pouco tempo. E o que explica a diminuição do oxigênio? Poderia a radiação solar quebrar as moléculas de oxigênio em dois átomos, que posteriormente seriam liberados no espaço? Não, concluíram os cientistas, já que levaria pelo menos 10 anos para o oxigênio desaparecer por esse processo. 

“Estamos com dificuldades para encontrar uma explicação”, diz Melissa Trainer, cientista planetária do Centro de Voos Espaciais Goddard da Nasa em Greenbelt, Maryland, que liderou a pesquisa. “O fato de o comportamento do oxigênio não ser perfeitamente reproduzível a cada estação nos faz pensar que não é um problema que tem a ver com a dinâmica atmosférica. Tem que haver uma fonte química que ainda não conseguimos explicar”. 

Para os cientistas que estudam Marte, essa história do oxigênio é curiosamente parecida com a do metano. O metano está constantemente no ar da Cratera Gale, mas em quantidades tão pequenas (0,00000004%, em média) que dificilmente se pode discerni-lo, mesmo com os instrumentos mais sensíveis enviados ao planeta. Ainda assim, o gás foi medido pelo espectrômetro laser ajustável do SAM. O instrumento revelou que, embora o metano aumente e diminua sazonalmente, ele aumenta em abundância em cerca de 60% nos meses de verão por razões inexplicáveis. (Na verdade, o metano também aumenta de forma aleatória e dramática. Os cientistas estão tentando descobrir o porquê.) 

Com as novas descobertas sobre o oxigênio, a equipe de Trainer se pergunta se uma química semelhante à que está impulsionando as variações sazonais naturais do metano também poderia ser responsável por gerar o oxigênio. Pelo menos ocasionalmente, os dois gases parecem variar em conjunto. 

“Estamos começando a ver essa correlação tentadora entre o metano e o oxigênio durante boa parte do ano em Marte”, diz Atreya. “Acho que há algo a mais nisso. Eu só não tenho as respostas ainda. Ninguém tem.” 

O oxigênio e o metano podem ser produzidos tanto biologicamente (a partir de microrganismos, por exemplo) como abioticamente (a partir de produtos químicos relacionados à água e a rochas). Os cientistas estão considerando todas essas opções, embora não haja nenhuma evidência convincente de atividade biológica em Marte. O Curiosity não possui instrumentos que possam dizer definitivamente se a fonte do metano ou do oxigênio em Marte é biológica ou geológica. Os cientistas acreditam que explicações não biológicas sejam mais prováveis e estão trabalhando cuidadosamente para entendê-las por completo. 

A equipe de Trainer considerou o solo marciano como uma fonte de oxigênio extra na primavera. Afinal, se sabe que o solo do planeta de fato é rico do elemento, na forma de compostos como peróxido de hidrogênio e percloratos. Um experimento realizado pelas sondas das missões Vikings mostrou, décadas atrás, que o calor e a umidade podem liberar oxigênio do solo marciano. Mas esse experimento ocorreu em condições bem diferentes do ambiente da primavera de Marte, e não explica a queda de oxigênio, entre outros problemas. Outras explicações possíveis também não são suficientes, por enquanto. A radiação de alta energia do solo poderia, por exemplo, produzir O2 extra no ar, mas levaria um milhão de anos para acumular oxigênio suficiente no solo para explicar o aumento medido em apenas uma primavera, segundo o artigo. 

“Ainda não conseguimos chegar a um processo que produza a quantidade de oxigênio necessária, mas acreditamos que deve haver algo no solo superficial que muda sazonalmente, porque não há átomos de oxigênio disponíveis na atmosfera suficientes para causar o comportamento que observamos”, diz Timothy McConnochie, cientista da Universidade de Maryland em College Park e coautor do artigo. 

As únicas naves espaciais anteriores com instrumentos capazes de medir a composição do ar marciano perto do solo foram as sondas Vikings da Nasa, que chegaram ao planeta em 1976. Porém, os experimentos Viking cobriram apenas alguns dias marcianos, e não conseguiram revelar padrões sazonais dos diferentes gases. As novas medidas do aparelho SAM são as primeiras a fazê-lo. A equipe do SAM continuará a medir os gases atmosféricos para que os cientistas possam coletar dados mais detalhados ao longo de cada estação. Enquanto isso, Trainer e sua equipe esperam que outros especialistas trabalhem para resolver o mistério do oxigênio. 

“É a primeira vez que vemos esse comportamento interessante ao longo de vários anos. Não o entendemos totalmente”, diz Trainer. “Para mim, esta é uma chamada aberta a todas as pessoas inteligentes que estão interessadas: veja que ideia você pode sugerir.


Florestas Tropicais Estão Demonstrando Resistência Surpreendente ao Aumento das Temperaturas


Um futuro mais quente para florestas como a Amazônia, mostrada na imagem, não significa necessariamente o fim das árvores, segundo novas pesquisas. FOTO DE MALTE JAEGER, LAIF/REDUX. 

A floresta tropical mais quente do mundo não está localizada na Amazônia nem em nenhum outro local previsível, mas dentro da Biosfera 2, instalação experimental de pesquisa científica no deserto perto de Tucson, no Arizona. Um estudo recente de árvores tropicais plantadas nesse local no início da década de 1990 gerou um resultado surpreendente: as árvores resistiram a temperaturas mais elevadas do que qualquer temperatura prevista para as florestas tropicais neste século. 

O estudo se soma a um número crescente de descobertas que estão proporcionando aos cientistas especializados em florestas algo que está em falta ultimamente: esperança. As plantas podem dispor de recursos inesperados que facilitam sua sobrevivência — e talvez até lhes assegure um bom desenvolvimento — em um futuro mais quente e repleto de carbono. E embora as florestas tropicais ainda enfrentem ameaças humanas e naturais, alguns pesquisadores acreditam que as conclusões assustadoras de seu declínio iminente devido às mudanças climáticas podem ter sido exageradas. 

“A vida é engenhosa”, afirma Scott Saleska, ecologista da Universidade do Arizona em Tucson e um dos líderes do estudo da Biosfera 2. “É muito mais engenhosa do que as representações de nossos atuais modelos.” 

Nos últimos anos, foi publicada uma infinidade de relatórios alarmantes sobre florestas e os efeitos das mudanças climáticas sobre elas. Os cientistas anunciaram que a floresta amazônica não é mais um sumidouro de carbono confiável; a floresta amazônica pode estar se aproximando de um ponto crítico; florestas tropicais em todo o mundo já se aproximam das temperaturas mais altas toleradas por elas e as mudanças climáticas está matando árvores antigas. 

Um ponto é incontestável: nossas emissões de combustíveis fósseis estão criando um clima inédito à humanidade e não vivenciado pelas árvores há muito tempo. “Estamos aquecendo as florestas tropicais a temperaturas inexistentes desde o Cretáceo — desde a época dos dinossauros”, afirma Abigail Swann, ecologista e cientista climática da Universidade de Washington em Seattle. 

Mas é difícil prever qual será a reação das árvores. Submeter florestas inteiras a um experimento de simulação de um futuro mais quente é uma tarefa dispendiosa e logisticamente complexa. A maioria dos cientistas foi obrigada a traçar extrapolações a partir de experimentos em pequena escala ou observações de campo, muitas vezes recorrendo a modelos de computador para realizar projeções sobre as próximas décadas. 

Uma instalação singular

A Biosfera 2 ofereceu uma rara oportunidade para testar o clima em uma floresta em tamanho real. Embora mais conhecida pelas equipes que ficaram isoladas no local entre 1991 e 1994, a instalação também abriga ecossistemas artificiais. Entre eles está uma floresta tropical com cerca de dois mil metros quadrados dentro de uma estrutura feita de vidro em formato de pirâmide cujo ponto mais elevado ergue-se a uma altura de 30 metros do solo do deserto. As copas das árvores plantadas no local no início da década de 1990 atualmente tocam o teto. 

As temperaturas no interior da estrutura ultrapassam as temperaturas previstas até mesmo para a Amazônia — a floresta tropical mais quente do mundo — neste século. Sob essas condições sufocantes, as plantas de estudos anteriores ao ar livre quase interromperam a fotossíntese, o processo bioquímico utilizado pelas plantas para transformar o dióxido de carbono em açúcares simples para obter energia. 


A Biosfera 2 em Oracle, no Arizona, possui uma floresta tropical em miniatura na qual as árvores crescem a 37,8 graus Celsius, muito mais quente do que o normal para essa vegetação. FOTO DE JESSICA LEHRMAN, THE NEW YORK TIMES/REDUX. 

Os dados sobre o crescimento das árvores sob diferentes condições ambientais foram registrados no início da década de 2000 e armazenados em servidores e discos rígidos. Marielle Smith, ecologista e pós-doutoranda na Universidade Estadual de Michigan, considerou esses registros uma rara oportunidade de estudar uma floresta em um clima futuro. 

Seu objetivo era analisar os efeitos de duas variáveis relacionadas: a temperatura e o déficit de pressão de vapor ou VPD (na sigla em inglês) — ou seja, a diferença entre a quantidade de água que o ar pode reter e quanto de fato retém em um determinado local e período. Quando o VPD é alto, as plantas perdem água mais rápido. 

Normalmente, o aumento do VPD acompanha a temperatura porque o ar quente retém mais umidade. Contudo, na Biosfera, os pulverizadores mantinham o ar úmido, criando uma rara combinação de calor intenso e VPD baixo. O teor de CO2 se manteve estável em pouco mais de 400 partes por milhão, apenas discretamente acima do que no ar exterior naquela ocasião. 

O ritmo de fotossíntese das árvores da Biosfera permaneceu igual até as temperaturas atingirem cerca de 38 graus Celsius, conforme publicado por Smith e seus colegas no mês passado no periódico Nature Plant. Por outro lado, em florestas naturais no Brasil e no México, o ritmo de fotossíntese despencou a partir de apenas 28 graus Celsius. 

Segundo Smith e outros especialistas, o resultado é um grande golpe na teoria difundida de que o calor intenso interrompe a fotossíntese — a noção de que o processo seria diretamente desativado. 

No entanto tudo indica que as altas temperaturas prejudicam a vegetação indiretamente com o aumento do VPD e, em seguida com a elevação da aridez do ar. As folhas das plantas absorvem dióxido de carbono por meio de células foliares com uma cavidade, denominadas estômatos, mas essas células também liberam água — até 300 moléculas de água para cada molécula de CO2 que entra. Quando o VPD aumenta em resposta a uma elevação na temperatura, as plantas fecham os estômatos para reter a água que lhes é vital, ainda que essa ação lhes obrigue a renunciar a seu alimento. 

No mundo real, não são apenas as temperaturas que estão aumentando, o dióxido de carbono também está subindo rapidamente. Isso pode ajudar a proteger as plantas do calor: no futuro quente e com alto teor de CO2, os estômatos podem absorver dióxido de carbono e, em seguida, fechar-se para conservar água, afirma Smith. 

“É um resultado de certa forma animador, e não é sempre que obtemos resultados desse tipo”, conta Laura Meredith, ecologista da Universidade do Arizona que lidera pesquisas sobre a floresta tropical da Biosfera 2, mas que não participou do estudo. “É uma ótima notícia a existência de estratégias de adaptação e manutenção da eficiência das florestas.” 

Smith admite, entretanto, que ainda há “um grande porém”: o experimento da Biosfera 2 não incluiu altos teores de CO2, portanto, não foi possível provar que de fato o gás será utilizado pelas plantas para conservar água. “Ainda não se sabe se esse mecanismo poderia realmente existir”, ressalta ela. 

Mais CO2? Ótimo

Pesquisadores no Panamá estão avançando nos estudos e testando se elevados teores de dióxido de carbono de fato protegem as plantas do calor. Até o momento, a resposta parece ser um sim com algumas ressalvas. 

O botânico Klaus Winter construiu seis cúpulas geodésicas na estação de pesquisa do Instituto Smithsoniano de Pesquisa Tropical perto do Canal do Panamá. As cúpulas de Winter são muito menores do que as da Biosfera 2 e abrigam apenas árvores pequenas, porém dispõem de controle de temperatura e de dióxido de carbono. No estudo apresentado em encontros científicos, mas ainda não publicado, ele concluiu que, sob temperaturas acima das previstas para este século, plantas com bastante irrigação e abundância de dióxido de carbono apresentam um bom desenvolvimento. O crescimento de uma espécie, o pau-de-balsa, até disparou. 


No Instituto Smithsoniano de Pesquisa Tropical em Gamboa, no Panamá, a vegetação é cultivada em estufas na forma de cúpulas, onde é possível controlar a temperatura e a umidade. No interior das cúpulas, as árvores bem irrigadas e expostas a um grande volume de CO2 apresentam um bom desenvolvimento sob temperaturas acima do previsto para este século. FOTO DE LUIS ACOSTA, AFP/GETTY IMAGES. 

O experimento não testa diretamente o mecanismo proposto por Smith, mas confirma que algumas árvores podem suportar altas temperaturas se receberem um grande volume de CO2 — e água, afirma Winter. “As árvores são menos suscetíveis do que esperado.” 

Martijn Slot, colega de Winter, investigou uma questão paralela: seriam as plantas capazes de se adaptar a temperaturas maiores? Cada planta possui uma faixa de temperatura ideal, identificada pelos pesquisadores por meio de sensores de gás para medir a fotossíntese na folha conforme é aumentada a temperatura. 

Slot constatou que é alcançada a fotossíntese ideal quando as mudas são cultivadas a 25 graus Celsius. Mas quando foi aumentada a temperatura para 35 graus Celsius, esse ponto ideal passou para cerca de 30 graus Celsius. A capacidade das plantas de adaptar sua fisiologia interna é um exemplo de “plasticidade”, cada vez mais observada como uma defesa botânica contra a mudança das condições. 

“Considerar a reação das plantas às condições ambientais como sendo estática e rígida leva a previsões imprecisas ou provavelmente equivocadas”, esclarece Slot. “A plasticidade deve ser considerada” em modelos de computador que geram as previsões climáticas. 

Outro indício recente de resistência oculta vem do campo. Flavia Costa, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia em Manaus, no Brasil, analisou 20 anos de dados obtidos em lotes das florestas brasileiras monitoradas. Foram incluídas florestas em planícies com acesso fácil a lençóis freáticos, o que lhes proporcionava plena irrigação, assim como as plantas de Winter. A equipe de Costa constatou que essas florestas com “lençóis freáticos superficiais”, que compõem, segundo estimativas, mais de um terço de toda a Amazônia, se desenvolveram sem alterações e continuaram absorvendo carbono durante estiagens severas em 2005, 2010 e 2015. 

Artigos anteriores alertaram que as secas provocadas pelo clima e as taxas de crescimento e mortalidade acelerados das árvores estavam eliminando a vegetação e prejudicando a capacidade da floresta amazônica de continuar atuando como sumidouro de carbono. Se as florestas úmidas em toda a Amazônia são tão resistentes quanto as dos lotes pesquisados, “a perda de produtividade e o aumento da mortalidade estão provavelmente superestimados”, presume Costa. 

Oliver Phillips, cientista ambiental da Universidade de Leeds que lidera uma das principais redes de pesquisa da Amazônia, concorda que florestas úmidas e de planícies parecem ser mais resistentes à seca do que as demais. Mas seus estudos analisam apenas essas florestas e ele não sabe se adicionar outras mudaria drasticamente as conclusões. Atualmente, ele e Costa estão conduzindo uma análise conjunta dos dados dos lotes a fim de obter maior representatividade das florestas amazônicas. 

Mas há um problema

Todos esses estudos possuem ressalvas e advertências. 

Futuramente, as florestas podem enfrentar secas ainda mais severas do que qualquer outra já existente, o que pode afetar até mesmo as florestas úmidas em planícies que resistiram até hoje, afirma Costa. Por outro lado, os estudos que simulam florestas procuram reproduzir a diversidade impressionante de florestas tropicais reais, que poderiam abrigar tanto árvores especialmente vulneráveis quanto mecanismos de resistência ainda não descobertos, acrescenta ela. Apenas a Amazônia contém cerca de 16 mil espécies de árvores, muito mais do que as representadas na Biosfera 2, nas cúpulas de Winter e em qualquer modelo de computador. 

Além disso, as plantas de Winter ainda são novas e ele as mantém com irrigação constante. É possível que seu desenvolvimento não seja o mesmo durante estiagens — algo que Winter planeja estudar em suas cúpulas assim que forem suspensas as restrições devido ao coronavírus. 

Para Nate McDowell, cientista da Terra no Laboratório Nacional do Noroeste do Pacífico em Richland, Washington, que alertou, no início deste ano, na revista científica Science que as mudanças climáticas já estão reduzindo o crescimento das árvores e o armazenamento de carbono, os resultados de Smith são “animadores”, mas uma pergunta importante permanece sem resposta: o dióxido de carbono elevado poderá mesmo ajudar as plantas a suportar o ar mais seco previsto futuramente? “É uma ótima questão científica”, afirma McDowell — “uma questão científica urgente”. 

Ainda que um alto teor de CO2 mantenha as plantas vivas, é possível que sua reação ao calor reduza a altura das plantas, mas deixe-as mais resistentes, acrescenta Smith, tornando os estudos dela e de McDowell possivelmente complementares e não contraditórios. Aliás, a floresta da Biosfera 2 passou por alterações ao longo de suas três décadas, talvez devido às condições extremas enfrentadas. As árvores nessa instalação que produzem uma substância química denominada isopreno, que parece contribuir com a fotossíntese sob altas temperaturas, sobreviveram mais do que aquelas que não produziram a substância: uma mudança que envolve implicações ainda desconhecidas. 

“Podemos estar inadvertidamente construindo uma Amazônia mais resistente”, afirma Smith, “mas que talvez não seja capaz de armazenar a mesma quantidade de carbono”.

Por: Gabriel Popkin (National Geographic Brasil).



Como as Soluções Baseadas na Natureza Podem Integrar um Novo Pacto Social e Econômico


O Brasil precisa lidar com o declínio das atividades econômicas e, ao mesmo tempo, resolver os problemas ocasionados pela emergência climática. A solução para essas crises é a conservação da natureza que proporcione uma retomada verde e socialmente inclusiva. 

A humanidade enfrenta uma de suas piores crises. Em meio à pandemia da Covid-19, que já ceifou mais de 160 mil vidas de brasileiros e brasileiras, o Brasil precisa lidar com o declínio das atividades econômicas e, ao mesmo tempo, debater como atuar de forma eficiente para resolver os problemas ocasionados pela emergência climática. A solução para todas essas crises é a conservação da natureza. Novas pandemias poderão surgir na medida em que a destruição dos ambientes naturais avança, por isso, precisamos preservar. 

Uma retomada econômica sem considerar os limites da natureza e o uso sustentável dos recursos naturais, certamente agravará as crises. A retomada verde será ao mesmo tempo a solução para nossa economia e para o enfrentamento da crise climática. Entretanto, para que as soluções sejam de fato efetivas, a retomada não deve somente ser verde, mas também inclusiva. 

Precisamos estimular e ajudar a construir um novo contrato ou pacto social, no qual a equidade de gênero, o combate ao racismo e a proteção da natureza estejam inseridos como questões centrais e inegociáveis. Essa nova economia precisa reafirmar alguns valores: democracia, respeito aos direitos humanos, respeito à diversidade, respeito às minorias, respeito à vida e à biodiversidade, busca da inovação e respeito às futuras gerações. Lembrando dos vários aspectos da ética, do cuidado, do respeito, da responsabilidade e da solidariedade. 

Para isso, precisamos integrar as Soluções Baseadas na Natureza (SBN), que têm a ver com o redesenho e o planejamento das paisagens. Pensar o território com olhar de drone e visão de libélula: do alto, com a complexidade exigida e onde cabem todos os atores e setores existentes em um território, mas cabe também a natureza. 

É necessário buscar a integração de todas as iniciativas sustentáveis existentes, considerando a necessidade de alimentos (qualidade e segurança alimentar), a proteção, restauração e regeneração de ecossistemas, a proteção da biodiversidade, a proteção e uso racional dos recursos hídricos e o desenvolvimento e implementação de energias limpas e renováveis. 

Já existem diversos exemplos de projetos e Soluções Baseadas na Natureza em diferentes áreas. Os desafios são como manter, consolidar e ampliar esses projetos, replicá-los e adaptá-los em outras regiões. 

Há várias ações que podem atrair os aportes necessários para essa mudança. Entre elas: 

• Buscar e direcionar investimentos públicos já existentes para iniciativas sustentáveis; 
• Repensar as políticas públicas – atrelando a concessão e liberação de créditos (agrícolas, imobiliários, infraestrutura, etc.) ao novo pacto social verde; 
• Incentivar e fomentar o cumprimento da legislação ambiental e a implantação de paisagens sustentáveis (Cadastro Ambiental Rural – CAR, Programa de Regularização Ambiental – PRA, Bolsa Restauração); 
• Ter um sistema de financiamento e crédito voltado para o desenvolvimento sustentável para que os imóveis rurais/propriedades se tornem sustentáveis, desinvestindo em atividades e equipamentos altamente emissores de carbono e 
• Remodelar a assistência técnica para que esta tenha um olhar integrado e considere a paisagem, a biodiversidade, os recursos hídricos e a proteção do solo como essenciais para a atividade agrossilvopastoril. 

Em relação aos investimentos sociais privados, também já existem projetos bem sucedidos que podem e devem ser replicados. Por exemplo, o Projeto Matas Legais, uma parceria da empresa Klabin com a ONG Apremavi, que existe desde 2005 e já atendeu 1.807 famílias/propriedades, plantou 1.695.568 mudas de árvores nativas e envolve 16.500 ha de florestas nativas conservadas, 1.500 ha em regeneração natural, 512 ha restaurados com plantios de mudas nativas. É um projeto altamente replicável. 

A contribuição do setor privado deve ir além dos compromissos “normais”, como é o caso da Natura, ao anunciar que vai investir US$ 800 milhões nos próximos dez anos para ajudar a implantar o desmatamento zero da Amazônia, com ações em toda sua cadeia produtiva. Nesta encruzilhada civilizatória que afeta o planeta como um todo é preciso debater qual é a contribuição do setor privado para além do seu cercado, saber qual é a sua contribuição à sociedade, em uma visão de emergência climática, e quanto de seu lucro o setor privado está disposto a investir. Essa discussão exige um desprendimento muito maior do que o visto até agora. 

Para trazer essas soluções de investimentos, já existem algumas ferramentas que podem ser úteis. Entre elas, estão iniciativas multissetoriais de diálogo, como o Diálogo Florestal, o Diálogo do Uso do Solo e a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. Estes são espaços onde acordos e modelagens de novos projetos podem acontecer. 

Existem também os portais de transparência, que ajudam a monitorar as ações do governo, das empresas e do Terceiro Setor. Um exemplo é o Portal Ambiental da Apremavi, onde são cadastradas as atividades de restauração realizadas pela instituição, possibilitando o acompanhamento público das mesmas 

Outra ferramenta possível é a construção de plataformas de projetos, que pode ter como inspiração a iniciativa Mapa do DF Sustentável, que mapeou as mais diversas iniciativas relacionadas à sustentabilidade no Distrito Federal. 

Por que não criar uma plataforma também de ideias – um espaço onde as pessoas possam cadastrar suas ideias de investimentos verdes, uma vez que a inovação e criatividade precisam de oportunidades para florescer? E, por fim, construir uma plataforma de engajamento, onde as pessoas possam expressar os seus compromissos com o futuro sustentável? A pergunta é simples: que tipo de investimento eu posso fazer enquanto empresa ou cidadão, para ajudar a construir o presente e futuro sustentáveis?

Por: Miriam Prochnow (Página 22).

Redução da Vida Útil das Árvores em Florestas Poderá Neutralizar Ganhos com Sequestro de CO2


Estudo da USP divulgado na Nature Communications mostra que florestas em todo o planeta, incluindo a Amazônica, estão registrando crescimento acelerado das árvores, mas com redução de longevidade (tronco de árvore morta na Amazônia peruana; foto: Roel Brienen/University of Leeds).

A aceleração do crescimento das árvores registrada nos últimos anos vem sendo acompanhada de uma redução da vida útil dessas plantas. No futuro, isso pode parcialmente neutralizar ganhos obtidos com o sequestro de dióxido de carbono (CO2). Essa relação entre crescimento e expectativa de vida das árvores vale para florestas do mundo todo, incluindo as tropicais, como a Amazônica, até as temperadas e árticas. 

Com isso, resultados esperados para modelos e projeções de captação de CO2 estruturados com base no sistema atual podem estar superestimando a capacidade de absorção dos gases de efeito estufa pelas florestas no futuro. Ou seja, plantar árvores é importante para ajudar a reduzir a concentração desses gases na atmosfera, mas não o suficiente – ainda é essencial a redução da emissão do carbono. 

Esses são os principais pontos de discussão da pesquisa Forest carbon sink neutralized by pervasive growth-lifespan trade-offs, publicada na revista Nature Communications, por um grupo de pesquisadores internacionais. Entre eles estão o professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) Gregório Ceccantini e o pesquisador Giuliano Locosselli. Ambos têm o apoio da FAPESP. 

“Há uma relação inversa entre a taxa de crescimento das árvores e a longevidade. Mostramos de maneira consistente que isso está presente independentemente da espécie e do local onde se encontram. Se as árvores crescem mais rápido, também assimilam o carbono mais rapidamente. O problema é que vão viver menos, e o carbono ficará menos tempo estocado”, explica Locosselli à Agência FAPESP. 

Na fase de crescimento, as árvores precisam de uma grande quantidade de CO2 para se desenvolver. Por isso, esse processo de aceleração tem levado a uma grande absorção de carbono. Tanto que estudos realizados recentemente mostram que cerca de um terço das emissões de gases estufa resultantes da ação do homem nos últimos 50 anos foi absorvido por ecossistemas terrestres, graças a uma combinação de novas árvores e a expansão de florestas secundárias. 

A pesquisa publicada na Nature Communications, no entanto, coloca em discussão o grau em que as florestas continuarão a absorver o excesso de CO2 no futuro. E problematiza, dizendo que essa captação “depende não apenas da resposta do crescimento das árvores às mudanças no clima e na composição atmosférica, mas também às alterações nas taxas de mortalidade que, em última instância, liberam carbono de volta para a atmosfera”. 

“Este feedback negativo sobre o armazenamento de carbono via aumento da mortalidade irá compensar – pelo menos em certa medida – os efeitos benéficos do aumento do crescimento no armazenamento total de CO2 das florestas. Nosso conhecimento atual e incompleto da universalidade e das causas do feedback dificulta sua representação nos Modelos do Sistema Terrestre e, portanto, é uma importante incerteza nas previsões da futura absorção de carbono da floresta em resposta à mudança global”, ressalta, na pesquisa, o grupo do qual Ceccantini e Locosselli são integrantes. 

Segundo Locosselli, a maior parte dos modelos climáticos e de dinâmica de biomassa nas florestas tem levado em consideração a taxa de crescimento, mas não a relação negativa com a longevidade. Os motivos para a aceleração desse crescimento ainda não são totalmente claros, mas entre os que podem contribuir estão a temperatura, o CO2 na atmosfera e até mesmo o uso de fertilizantes em diferentes locais, que aumenta a concentração de nitrogênio no ambiente. 

Mudanças climáticas 

Relatório divulgado em 2019 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) apontou que as emissões globais de gases de efeito estufa precisam ser reduzidas em pelo menos 7,6% ao ano, até 2030, para o planeta atingir a meta estabelecida no Acordo de Paris de limitar a alta da temperatura média em 1,5°C. 

Se a temperatura ultrapassar esse limite, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) já alertou que entre os impactos que podem ser registrados no planeta estão, por exemplo, o aumento da intensidade de ondas de calor e a frequência de tempestades. 

Na última década, as emissões de gases de efeito estufa cresceram 1,5% ao ano, em grande parte provocadas por fontes fósseis de energia e por mudanças no uso da terra, como o desmatamento. 

Os países do G20 respondem por cerca de 75% de todas essas emissões, sendo China e Estados Unidos os campeões. O Brasil aparece em 14º lugar no ranking feito pelo Atlas Global de Carbono, com emissões significativas associadas ao desmatamento. No Acordo de Paris, o Brasil se comprometeu a reduzir suas emissões em 37% até 2025 e em 43% até 2030 em relação ao índice de 2005. 

Estudo mais recente da Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês) mostrou que as emissões globais de CO2 fóssil registraram no ano passado recorde de 36,7 gigatoneladas (Gt), 62% a mais do que em 1990, quando começaram as negociações internacionais sobre clima. 

Com a pandemia de COVID-19, que obrigou vários países a adotar medidas de isolamento social durante meses, as emissões de CO2 devem diminuir entre 4% e 7% neste ano em comparação a 2019, segundo a WMO. Mas, mesmo em abril, quando houve o nível mais baixo entre janeiro e agosto de 2020, as emissões diárias de carbono eram equivalentes às de 2006, período em que já havia um crescimento acentuado. 

Caminhos para mitigar essa alta de CO2 incluem a ampliação de políticas públicas visando ao aumento do uso de energias renováveis, meios de transporte de baixo carbono e eliminação do carvão, além da redução do desmatamento e das queimadas de florestas no mundo todo. 

No ano passado, um grupo de 66 países, empresas e investidores fecharam um acordo para zerar suas emissões de gases poluentes até 2050. Também já estão sendo discutidos mecanismos para precificar o carbono, seja por meio da taxação das emissões ou da criação de sistemas de compra e venda de créditos, em que o “poluidor” paga caso a mitigação não seja feita internamente. O objetivo é tornar mais vantajosos modelos de produção que busquem a redução das emissões. 

Metodologia 

Para mostrar a relação da evolução e longevidade das árvores com a captação de CO2, Locosselli explica que a pesquisa teve como base a análise de anéis de crescimento localizados nos troncos das plantas. Foram avaliados registros de mais de 210 mil árvores de 110 espécies. 

Se o anel de crescimento é largo, indica que a árvore cresceu rápido, mas, caso seja estreito, aponta baixo crescimento. Cada um deles representa um ano de vida da planta. Fazendo a contagem de todos os anéis, é possível ter uma estimativa de idade da árvore. 

“Por isso conseguimos medir a dinâmica para árvores com 500, 600 anos de idade. Foi possível extrapolar o tempo para além do que outros trabalhos já analisaram com parcelas permanentes”, afirma Locosselli, que está no programa Jovem Pesquisador da FAPESP com o estudo Florestas funcionais: biodiversidade a favor das cidades

De acordo com o pesquisador, as queimadas também aceleram a mortalidade das árvores, mas esse fator não foi incluído na pesquisa. Outros estudos já mostraram que, uma vez queimadas, florestas tropicais como a Amazônica, por exemplo, retêm 25% menos carbono do que as não queimadas, mesmo após três décadas de crescimento. 

O artigo Forest carbon sink neutralized by pervasive growth-lifespan trade-offs pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41467-020-17966-z.

Por: Luciana Constantino (Agência Fapesp).

Há 14 Milhões de Toneladas de Plástico no Fundo dos Oceanos, estima estudo


A poluição pelos plásticos no oceano é muito maior do que se imagina. 

Pesquisa australiana calcula, pela primeira vez, a quantidade de resíduos plásticos nos mares do mundo — e evidencia novamente a urgência de revermos nossos hábitos de consumo e descarte. 

Foi publicada no dia 06/10/2020 uma pesquisa realizada pela agência científica australiana CSIRO's Oceans and Atmosphere que indica, pela primeira vez, uma estimativa global da quantidade de plástico acumulado no fundo do oceano. O número assusta: pelo menos 14 milhões de toneladas do material estão submersas nas águas profundas. 

De acordo com Justine Barrett, que liderou o estudo, o plástico jogado nos mares do planeta acaba se deteriorando e se transformando em microplásticos, fragmentos que medem menos de 5 milímetros. Esses pedaços minúsculos vão parar nas profundezas do mar — a quantidade chega a ser o dobro do que é encontrado na superfície. 

“Mesmo as profundezas do oceano são suscetíveis ao problema da poluição do plástico”, diz Barret, em nota. Segundo a pesquisadora, o número deve aumentar ainda mais nos próximos anos — mesmo com ações de preservação do meio ambiente, como a redução da produção e do consumo de sacolas plásicas ou de canudos. 

O estudo 

As amostras utilizadas no trabalho foram coletadas usando um submarino em profundidades de até 3 mil metros, em locais até 380 quilômetros distantes da costa da Austrália. Com base nos resultados das densidades de plástico encontradas, foi calculada uma estimativa de microplásticos no fundo do mar em todo o planeta. 

Denise Hardesty, pesquisadora principal da investigação e coautora do estudo, diz que a poluição por plástico nos oceanos é uma questão ambiental reconhecida internacionalmente e os resultados indicam a necessidade urgente de novas soluções para combater o problema. 

Segundo ela, o maior número de fragmentos encontrados no fundo do mar estava em áreas onde também havia uma maior quantidade de lixo flutuando. Embora muitas cidades já tenham ações para tentar diminuir a poluição, o uso de embalagens plásticas descartáveis ​​aumentou em meio à pandemia do novo coronavírus. 

“Todos nós podemos ajudar a reduzir o plástico que acaba em nossos oceanos, evitando aqueles que são utilizados apenas uma vez, apoiando a reciclagem e as indústrias de resíduos e descartando nosso lixo com cuidado para que não vá parar no meio ambiente”, finaliza Hardesty.


Majestades Verdes: Conheça as 10 Maiores Florestas do Mundo


Para conhecer um lugar do meio ambiente não basta olhar o mapa. Seres vivos de grandeza insuperável, elas guardam segredos e belezas. 

No mapa mundi elas são imensas manchas verdes, na vida real são importantíssimas para o equilíbrio do planeta. Responsáveis pela maior parte da cobertura vegetal e hídrica mundial, elas são o lar de milhares de espécies de animais e plantas; muitas em extinção. Já imaginou passar a noite em um desses locais? Conhecer de perto, percorrer trilhas, nadar, explorar e se aventurar na vastidão? A ideia pode ser amedrontadora mas, acredite, esse é o sonho de muita gente. Seja no estilo mais despojado ou acompanhado de luxo e conforto, conheça as possibilidades turísticas por entre as dez maiores florestas mundiais. 

Floresta Amazônica - América Latina


A maior floresta tropical do mundo se encontra aqui, na região norte do nosso país. Com mais de 7 milhões de km2, a Amazônia abrange sete estados brasileiros e nove países da américa Latina, sendo um dos destinos mais procurados por turistas. Quando falamos em floresta Amazônica, a palavra-chave é diversidade. Em adição às grandes áreas de florestas, ela possui cerrados e campos rupestres, campinas, matas secas, igapós, manguezais, ilhas, praias fluviais de areia branca, cachoeiras, e riquíssimas flora e fauna, com cerca de 30 mil espécies de plantas e 30 milhões de espécies animais. Além de ser um dos ecossistemas mais ricos existentes, abriga cerca de 20% dos recursos hídricos de todo o planeta, influenciando diretamente no equilíbrio climático da Terra. 

Para quem pretende visitar a Amazônia, existem serviços diversos, desde hotéis em meio a floresta a cruzeiros de luxo que navegam pelos rios. A melhor época para visitação vai depender de sua intenção. Durante a época de cheia que normalmente vai de abril a julho, é quando formam-se mais igarapés. O período de seca ocorre normalmente de outubro a dezembro, quando os rios estão mais baixos, trazendo à tona praias fluviais e cachoeiras. 

O turista que visita o local pode aguardar experiências únicas, como nadar com botos-cor-de-rosa. O encontro das águas, como é chamada a junção entre o Rio Negro e o Rio Solimões, é um fenômeno que só pode ser visto lá. Desse encontro, nasce o Rio Amazonas, cuja nascente brota antes de entrar em terras brasileiras. Ele nasce na Cordilheira dos Andes, com o nome de Marañon. Ao entrar no Brasil, recebe o nome de Rio Solimões que, ao se encontrar com o Rio Negro, é batizado de Rio Amazonas, responsável por 17% da água líquida do planeta. 

Onde ficar: Você pode optar por hotéis em meio à selva, fazer cruzeiros fluviais, se hospedar na cidade de Manaus ou até mesmo fazer um mochilão guiado. É imprescindível que ninguém entre na floresta sem um guia. Serviços desse tipo podem ser contratados através de agências especializadas. 

Sugestões de passeios e atividades: Arquipélago das Anavilhanas, praias de água-doce, caminhadas pela floresta, Encontro das Águas, Floresta dos Macacos, Pescaria de piranhas, Reserva de Mamirauá, Nado com botos-cor-de-rosa, Cachoeiras de Presidente Figueiredo, visitar comunidades indígenas na Reserva de Tupé, Museu do Seringal, contato com a comunidade Ribeirinha, escaladas em árvores e o centro histórico de Manaus.

Floresta de Taiga - Hemisfério Norte


Também chamada de floresta boreal, Taiga é formada por florestas coníferas, que são árvores com copas e frutos em formatos de cone, similares aos pinheiros já conhecidos por nós. Considerada um dos maiores biomas terrestres, Taiga tem três vezes o tamanho da floresta Amazônica, e sozinha representa quase 29% da cobertura florestal do planeta. Estendendo-se por boa parte do hemisfério norte, ela vai do norte do Alasca até o Japão, passando pela Sibéria, Canadá, Groenlândia, Noruega, Finlândia, Rússia e Suécia. 

Predominantemente fria, Taiga é o lar do tigre siberiano. O turismo no local concentra-se majoritariamente no município de Kainuu, na Finlândia, dirigido pela Wild Taiga, uma associação de empresários locais. 

As atividades oferecidas são variadas e democráticas, com o foco sempre voltado em proporcionar aventuras e contato com a natureza. Programe-se, pois as atrações mudam de acordo com a estação do ano. 

Atividades de verão: Além das tradicionais como ciclismo, caminhadas, cavalgadas, canoagem, pesca, caça, camping e trekking rude, na Taiga finlandesa, existe uma espécie de trilha guiada por cães adestrados da raça husky siberiano. Os turistas podem ser conduzidos pelos cachorros na coleira ou em um tipo de trenó com rodas. Também é possível visitar fazendas de huskys e participar do treinamento deles. 

Atividades de inverno: snowmobiling guiado, safáris de observação da vida selvagem, esqui, snowshoeing, os passeios com huskys continuam, mas ganham uma outra versão, passam a serem feitos em trenós. A atividade mais inusitada provavelmente será a flutuação nas corredeiras, que consiste em literalmente flutuar nas águas frias seguindo o curso de rios, em pleno inverno. Para isso é usado um traje especial feito de cobertores esponjosos que irão te manter aquecido. 

Floresta do Congo - África Central


Segunda maior floresta tropical do mundo, a floresta do Congo abrange sete países africanos, Camarões, República Centro Africana, República do Congo, Angola, República Democrática do Congo, Guiné Equatorial e Gabão. Assim como na floresta Amazônica, o clima tropical propicia a biodiversidade, hábitat de gorilas, leopardos, girafas, elefantes, leões e mais 400 outras espécies, a floresta é também o lar de mais de dez mil espécies de plantas. As savanas africanas são imagens cultivadas no imaginário de muitos, por isso o safári é a principal atividade turística na floresta. O acesso se dá por meio de dois parques nacionais localizados na República do Congo, o Parque Nacional de Odzal e o Parque Nacional de Nouabalé-Ndoki.

Daintree Rainforest - Austrália


A floresta tropical mais antiga do mundo está em Queensland na Austrália. Com 2600 km; de extensão, ela é a maior floresta australiana, declarada patrimônio da humanidade em 1988. Conhecida pela diversidade em suas fauna e flora, na floresta existem aproximadamente 430 mil espécies de pássaros, 13 delas não são encontradas em nenhum outro local do mundo. 

É possível chegar a Daintree por Cairns, Port Douglas, Cape Tribulation e Cooktown, a melhor época para visitação é durante a primavera, que começa em setembro. Turistas podem se hospedar na vila de Daintre, e às margens da floresta ou num alojamento ecológico dentro da mata. As opções de passeios são variadas, você pode fazer tours guiados com o povo Kuku Yalanji, habitantes originais do local, percorrer trilhas, visitar cachoeiras sagradas para eles e aprender como obter medicamentos, alimentos e abrigo dentro da mata. Outra opção são as praias selvagens ao norte da floresta. Com características tropicais, águas rasas e mornas, lá é possível acampar, praticar ciclismo e fazer trilhas radicais com o auxílio de automóveis. Além disso elas ficam próximas à Grande Barreira de Corais, outro patrimônio da humanidade. Na Barreira existem passeios de mergulho e voos panorâmicos para a observação dos corais. 

Selva Valdiviana - Chile


Uma das mais antigas do mundo, a Selva Valdiviana é classificada como uma floresta temperada, apesar de ter características de uma floresta tropical. Também chamada de bosques valdivianos, estende-se pelo Chile, até a Argentina ao longo de 248.100 km;. Dona de uma fauna e flora bem particulares, seu isolamento geográfico permite o desenvolvimento de um grande número de espécies que só podem ser encontradas ali, como o macaco da montanha, pudu, puma, lorito e o cisne de pescoço preto. Turistas interessados em conhecer os bosques podem optar por visitar a Reserva Costeira de Valdivian ou a Reserva Nacional de Mocho Coshuenco. Lá poderão desfrutar de atividades e passeios, como trilhas, camping, mergulho, pesca, montanhismo e esqui cross crountry. 

Florestas Nubladas - Equador 




Cloud Forests, ou Florestas Nubladas, são um conjunto de seis mil hectares de florestas na cordilheira dos Andes. A floresta foi nomeada devido a uma cobertura de nuvens existentes acima dela, comuns em altas altitudes, elas fazem com que a mata tenha um nevoeiro constante. Por efeito disso, a floresta apresenta um cenário bem diferente do que normalmente é associado à cordilheira. A umidade faz com que as árvores sejam retorcidas e cobertas de musgo, o solo é pouco fértil e, apesar da diversidade da flora não ser grande, a floresta abriga uma variação impressionante de espécies de orquídeas. 

A biodiversidade da fauna é riquíssima, a floresta é o lar de mais de 400 espécies de aves, sendo um dos principais destinos mundiais para a observação de pássaros, além de ser o hbitat do urso de óculos andino encontrado apenas lá. O acesso à floresta se dá através de Quito, capital do país. Para chegar à floresta, é preciso muita caminhada, geralmente recompensada por uma vista inesquecível e banhos nas águas termais presentes no local. Você pode visitar também alguns dos parques ecológicos, como a reserva de Maquipucuna, reconhecida internacionalmente pelo ecoturismo e atua pela preservação da floresta tropical. 

Reserva Florestal Nublada de Monteverde - Costa Rica


Um dos locais mais visitados da Costa Rica, a Reserva Florestal Nublada de Monteverde, tem a mesma característica das florestas nubladas do Equador por também estar situada em uma região alta e montanhosa. Dona de um ecossistema impressionante, a floresta possui a maior densidade de orquídeas do planeta, cerca de 300 espécies. Também existem 200 tipos de samambaias que podem atingir até 12 metros de altura e até 500 espécies de árvores. 

O hábitat favorece a reprodução de aves, fazendo da reserva um excelente ponto para a observação de pássaros. Lá também é o lar de 100 espécies de mamíferos, incluindo o puma e o jaguar. Entre as atividades recomendadas, estão o Sky Walk, que são seis pontes suspensas no ar para quem quer conhecer de perto as belezas do local, trilhas e passeios guiados.

Sundarbans - Ásia


Sundarbans é a maior floresta de mangue do mundo, com 10 mil km; de extensão. Localizada precisamente entre Bangladesh e Índia, a maior parte dela se concentra em Bangladesh. 

Patrimônio Mundial, Sundarbans é, na verdade, um mosaico de ilhas de mangues tolerantes ao sal. Riquíssimas em recursos naturais, elas são consideradas uma das principais áreas de reprodução para uma série de espécies ameaçadas de extinção, como o tigre de bengala real. 

O acesso mais fácil à região se dá pela Índia, mas Bangladesh oferece a chance de se aprofundar mais nas florestas. Um passeio pelo mangue pode durar vários dias, na companhia de um guia, o intuito é conhecer a floresta e observar os animais. Algumas empresas realizam esse tour em embarcações especiais equipadas com acomodações para que o turista viaje com conforto. 

Parque Nacional do Kinabalu - Malásia


Mais uma floresta tropical, o Parque Nacional de Kinabalu foi o primeiro local a ser declarado patrimônio mundial da Malásia e também um dos primeiros parques criados no país. A diversidade biológica é presente na fauna e na flora, onde podem ser encontradas 90 espécies de mamíferos e 5 mil espécies de plantas. Além disso, a maior atração do parque é o Monte Kinabalu, uma das montanhas mais altas do sudeste asiático. 

As atividades oferecidas para os turistas envolvem principalmente alpinismo. Além da caminhada tradicional pelas montanhas, existem duas outras trilhas para quem busca um pouco mais de aventura, Ranau Trail Kota Belud. Outras opções são mountain bike, golfe, observação de pássaros, e fotografia.

Reserva Florestal Sinharaja - Sri Lanka 




Uma das reservas ambientais mais preciosas e preservadas do Sri Lanka, Sinharaja foi considerada patrimônio da humanidade e reserva da biosfera em 1978. Cerca de 50% das plantas encontradas na reserva são endêmicas, assim como boa parte da fauna, ou seja, existem apenas nessa região. Repleta de aves, mamíferos, anfíbios e borboletas, a reserva apresenta também uma variedade de árvores impressionantes, 830 espécies. O principal atrativo é ainda a observação de animais, mas também existem cachoeiras lindíssimas onde os turistas podem praticar nado e fotografia. 

Por: Victória Fernandes (Correio Braziliense).