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Por Que Fosfina em Vênus (Ainda) Não é Confirmação de Vida Extraterrestre


Na Terra, a molécula é produzida por seres vivos em ambientes sem oxigênio. Pode ser um sinal de vida em Vênus - mas, também, de um processo químico até então desconhecido. 

Com temperaturas que ultrapassam os 465°C na superfície, uma pressão 92 vezes maior que a da Terra e uma atmosfera terrivelmente ácida, Vênus não parece ser, nem de longe, um local plausível para um ser vivo chamar de “casa”. Mesmo micróbios extremófilos, acostumados a viver muito bem em regiões completamente desfavoráveis, não poderiam suportar condições tão adversas. 

Mas há quem diga que nem sempre foi assim: no passado, Vênus contava com grandes porções de água em estado líquido – que inclusive poderiam, segundo argumentam certos cientistas, abrigar vida microscópica. Após a chapa esquentar demais na superfície ao longo de milhões de anos, no entanto, essa vida teria mudado de endereço. “Não é nada difícil imaginar uma forma de vida típica às nuvens de Vênus”, supôs Carl Sagan, cientista e divulgador científico, em um artigo publicado na revista Nature ainda em 1967. 

Décadas após Sagan popularizar a hipótese, astrônomos provariam que essa especulação poderia, sim, fazer sentido. A resposta para uma eventual forma de vida venusiana estaria em uma camada específica da atmosfera: a uma altitude entre 50 e 65 quilômetros da superfície, Vênus reúne características químicas mais amenas e temperatura próxima aos 30°C – condições parecidas às encontradas na Terra. 

Agora, uma equipe internacional de pesquisadores divulgou as primeiras pistas concretas desses tais vestígios – que, segundo argumentam, podem ser as primeiras evidências de uma possível vida extraterrestre. Ao investigar potenciais formas de vida pela galáxia, cientistas costumam procurar por compostos essenciais à vida – à vida como conhecemos aqui na Terra, que fique bem claro. 

Encontrar água, fósforo, metano e outros recursos em um local inóspito pode mostrar que um certo planeta já foi – ou ainda é – habitado. Esses compostos são chamados pelos cientistas de bioassinaturas, e podem ser flagrados à distância, com a ajuda de telescópios potentes. Equipamentos do tipo são capazes de analisar o “espectro” das moléculas ligadas à vida. 

A luz branca é composta por várias frequências de ondas. Se a luz for decomposta, essas ondas podem ser observadas em um arco-íris, como na capa do disco do Pink Floyd. Acontece que quando essa luz atravessa algum gás, o composto químico que está ali absorve comprimentos específicos de ondas, deixando uma “buracos” no arco-íris que chega aqui na Terra. Como cada composto um absorve comprimentos específicos de luz, é possível saber com qual molécula se está lidando apenas olhando para esse espectro. 

No caso do novo estudo, os dados analisados foram coletados a partir de 2017 pelos telescópios ALMA, localizado no Chile, e pelo James Clerk Maxwell, que fica no Havaí. Eles mostraram que, num dado trecho do céu de Vênus, há a presença do gás fosfina. 

Pode ser que você nunca tenha ouvido falar dela, mas trata-se de algo importante para os astrobiólogos, cientistas que estudam buscam por vida em outros planetas. Tudo porque a fosfina – composto feito de três moléculas de hidrogênio ligadas a uma de fósforo – também pode funcionar como uma bioassinatura. Faz sentido: na Terra, a fosfina só costuma dar as caras naturalmente onde existem formas de vida anaeróbicas – ou seja, microrganismos que não precisam de oxigênio para viver. 

A principal suspeita dos cientistas, seguindo essa linha, é que a fosfina da atmosfera de Vênus também tenha sido produzida por seres vivos. Segundo argumentam no novo estudo, publicado na revista científica Nature Astronomy, não há chances de que não tenha origem biológica, levando em conta os processos químicos conhecidos atualmente. 

A quantidade de fosfina encontrada na atmosfera do nosso vizinho de Sistema Solar é relativamente pequena: a cada bilhão de moléculas que vagam pela região analisada do céu de Vênus, apenas 20 são do composto. Mas essa concentração, segundo os cientistas, não dá brechas para qualquer outra explicação. De acordo com o grupo, a taxa é alta demais para vir de uma fonte não viva, mesmo se os supostos micro-organismos de Vênus tenham 10% da eficiência que micróbios da Terra possuem ao produzir fosfina. 

“Se isso for realmente confirmado, vai ter uma dupla importância. Primeiro, vai ser a primeira detecção de vida fora da Terra, uma coisa espetacular”, disse à SUPER, Marcelo Borges, astrofísico do Observatório Nacional, no Rio de Janeiro, que pesquisa planetas com potencial astrobiológico. “Segundo, vai mostrar que a vida, na realidade, não está limitada ambientes similares à vida na Terra, mas pode surgir numa gama mais diversa de locais, incluindo ambientes muito mais extremos, inóspitos”. 

Cientistas testaram eventos como vulcanismo, impacto de meteoros, ou reações causadas pela própria composição química da atmosfera. Nenhum deles teria sido capaz de espalhar tanta fosfina pela atmosfera venusiana. Mesmo assim, não se descarta que algum outro processo químico desconhecido possa estar envolvido. Ele só não é conhecido ainda. 

“Nós não estamos dizendo que encontramos vida em Vênus. Estamos afirmando que detectamos fosfina cuja existência é um mistério. Ela pode produzida graças a processos químicos desconhecidos ou por uma possível forma de vida”, reforçaram os pesquisadores durante a conferência que anunciou a descoberta

É por esse motivo que o estudo, apesar de revelador, ainda não serve como uma evidência definitiva de vida extraterrestre. As conclusões que os pesquisadores reuniram se baseiam em formas de vida conhecidas – e, portanto, terrestres. É possível que a química de Vênus, um vizinho sobre o qual ainda temos muito a descobrir, reserve uma explicação não biológica para o fenômeno. “Pode ser que exista uma outra possibilidade. Só que ninguém pensou até hoje. Essa explicação fica em aberto”, diz Borges. 

Portanto, é essencial que, ao tentar entender as chances de vida venusiana, as próximas missões a Vênus deem atenção especial ao que existe quilômetros acima da superfície do planeta. “Sondas ao redor de Vênus podem observar melhor a atmosfera, confirmando a detecção [de fosfina] e encontrando outras moléculas que podem ser indicadoras da vida”, diz Borges. A Veritas, missão da Nasa que fará a próxima visita a Vênus, está marcada para acontecer entre 2025 e 2029. Até lá, é provável que cientistas, daqui da Terra, tenham recolhido pistas ainda mais precisas para orientar essa investigação.

Por: Guilherme Eler (Superinteressante).

Água Que Vale Ouro: Uma Oportunidade Para o Brasil

Amazônia: Brasil é um dos países com maior reserva de água doce do mundo (iStock/Getty Images).

A água está cada vez mais escassa. Somos um país rico em água doce - com a maior reserva mundial. Esse é o momento de fazer a retomada verde. 

Em relatório recente, o BlackRock Investment Institute alertou os investidores sobre riscos em seus portfólios decorrentes da escassez de um recurso natural tão precioso quanto subestimado: a água. A recomendação é que os investidores considerem companhias que fazem a melhor gestão do recurso hídrico, evitando prejuízos provenientes da potencial falta de água para a continuidade de suas atividades. O relatório indica que, até 2030, é esperado que uma a cada duas pessoas no mundo viva em locais com estresse hídrico – trazendo graves consequências-para a população e para os negócios. 

O Brasil, que tem a maior reserva de água doce do mundo (com 12% do total), precisa participar desde já deste debate. Afinal, não estamos imunes à escassez. Em plena pandemia, Curitiba enfrenta uma das piores crises hídricas de sua história recente, com rodízio de água afetando 1,2 milhão de pessoas. Em Santa Catarina, pelo menos 18 municípios também passaram por racionamento este ano. Em 2014 e 2015, foram o Rio de Janeiro e São Paulo. E, em 2017, o Distrito Federal, para citar alguns casos. Imagine esses cenários daqui a alguns anos, em que a projeção de aumento na demanda por água potável é de 80%, até 2040. Os dados estão num estudo recém publicado pelo Instituto Trata Brasil com a EX Ante Consultoria 

O país construiu o modelo hídrico levando em conta a abundância, embora ela se concentre 80% no Norte do país, o menos povoado. E não se preparou para a escassez em função das mudanças no clima e do desmatamento, que nos conduzem a secas históricas, como a atual no Paraná. Ações de reflorestamento e para manter a floresta em pé são essenciais para proteger nossos mananciais e foco de pressão internacional, de investidores e empresas, como nunca antes. 

Um total de 58% dos municípios brasileiros utiliza mananciais de água superficiais – rios, lagos, represas -, e 42% depende de mananciais subterrâneos como aquíferos, que só deveriam ser acessados em último caso. O desmatamento e as grandes transformações climáticas, somados ao aumento da população, afetam dramaticamente o modelo original de abastecimento – o que é agravado também por questões estruturais e culturais, como a perda de 37% da água tratada com vazamentos e fraudes. Além da lentidão na ampliação do tratamento de esgoto, hoje acessível a apenas 46,3% dos brasileiros. O novo marco do Regulamento do Saneamento Básico nacional, com a abertura para a participação do capital privado, traz novos ares e expectativas para evoluir os serviços de água e esgoto, e universalizar os acessos. 

O grande desafio do Brasil e do mundo é construir um sistema de abastecimento resiliente. Transformação que depende de vários atores e está no centro das discussões de um grupo de CEOS de sete grandes empresas globais, entre elas ABInBev, Cargill, Diageo e Microsoft, desenvolvido em parceria com as Nações Unidas. O objetivo da coalizão é reduzir o estresse hídrico até 2050 e garantir que as fontes sejam sustentáveis e diversas para atender às necessidades de produção e da sociedade. 

No caminho da resiliência, Singapura é um exemplo a ser estudado, porque, apesar de não ter uma única fonte natural de água, aquíferos ou lagos, essa pequena ilha no sudeste asiático dá um show de diversidade de opções em abastecimento. É a escassez impulsionadora de inovação! 

O segredo aprendido arduamente durante a grande seca de 1960 e, mais recentemente, na estiagem nos anos 90, é que cada gota de água importa. Singapura conta com quatro fontes diferentes para garantir água: captação local de água da chuva, importação de água, e dois projetos que envolvem construção de alternativas para reduzir a dependência das extremas condições climáticas. Um de dessalinização e outro considerado o pilar da estratégia de sustentabilidade da água no país, o NEWater. 

Esse é daqueles modelos inovadores e inspiradores que nos fazem acreditar no potencial humano de promover grandes feitos para o bem comum. A chamada “água nova” é parte de um conceito de reuso infinito da água. Água reciclada é a forma considerada mais sustentável de aumentar o abastecimento em todo o país, que já reaproveita de apartamentos, ralos e do que importa da Malásia. E pretende ampliar as opções reaproveitando de indústrias. 

Singapura se adiantou 30 anos em soluções e em novos acordos. Esse é o tempo de gestação e de evolução do NEWater que tem a condução de um órgão do governo federal, a Agência Nacional de Água. Se há um belo aprendizado aqui é que é possível regar um futuro melhor se focarmos na solução de problemas com cadência e seriedade. 

A partir de agora, as novas escolhas devem ponderar sob qual perspectiva olhar nossos grandes problemas. Porque a escassez de água pode ser um risco precificado para investidores, mas também uma oportunidade valiosa. Especialmente para o Brasil, dada sua enorme capacidade hídrica. E essa mudança de visão é que libera ações e recursos com foco em soluções, atraindo inclusive uma massa de investidores cada vez mais preocupada com a sustentabilidade do planeta. Para nós, brasileiros, esse deveria ser o momento de utilizar a natureza como fortaleza para nossa construção de País no longo prazo.

Por: Luciana Antonini Ribeiro (Exame).

O Que Explica a Surpreendente Existência de Ferrugem na Lua?


A Lua não tem atmosfera, ou seja, não tem oxigênio, e por isso o achado de óxido é surpreendente. 

Uma parte da Lua tem traços de ferrugem, embora o satélite não tenha oxigênio. 

Pesquisadores do Jet Propulsion Laboratory (JPL, sigla em inglês de Laboratório de Propulsão a Jato) da Nasa e de universidades americanas encontraram hematita, uma forma de óxido de ferro, nas regiões polares da lua. 

Este óxido requer a presença de água líquida e oxigênio para se formar. 

O óxido na superfície de Marte é o que lhe dá sua cor avermelhada e sugere que o planeta já teve água e oxigênio. 

A Lua não tem atmosfera, ou seja, não tem oxigênio, e prevalece o ferro metálico puro, por isso o achado do óxido é surpreendente. 

Mas os cientistas acreditam ter encontrado o culpado pela oxidação do nosso satélite: o oxigênio da Terra. 

Como isso aconteceu? Amostras lunares trazidas à Terra pelas missões Apollo da Nasa não mostraram sinais da presença de ferro oxidado. 

Mas os pesquisadores analisaram dados do Mapeador de Mineralogia Lunar (M3) projetado pelo JPL e instalado na sonda Chandrayaan-1, da primeira missão lunar da Índia, lançada em 2008. 

A Chandrayaan-1 descobriu água congelada na Lua usando radares e detectou uma variedade de minerais na superfície do satélite. 

As cores azuis mostram a presença de óxido de ferro.
"Quando examinei os dados do M3 nas regiões polares, encontrei algumas características e padrões espectrais diferentes do que vemos em latitudes mais baixas ou nas amostras da Apollo", disse Shuai Li, pesquisador assistente do Instituto de Geofísica e Planetologia (HIGP, por sua sigla em inglês) do Havaí na Escola de Ciência e Tecnologia Oceânica e Terrestre (Soest, sigla em inglês) da Universidade de Manoa. 

"Depois de meses de pesquisa, descobri que estava olhando para a assinatura da hematita", acrescentou Li, também autor principal do estudo, à agência de notícias PA. 

A princípio, Abigail Fraeman, coautora do estudo, não acreditava nessa possibilidade. 

"(As hematitas) não deveriam existir, considerando as condições presentes na Lua", disse Fraeman, de acordo com um comunicado do JPL. 

Oxigênio da Terra

Mas o grupo de cientistas apresentou algumas explicações para o fenômeno. 

A análise dos dados do M3 mostrou que as hematitas estavam mais presentes "no lado próximo à Terra do que no lado oposto", diz o estudo publicado na revista Science Advances no início de setembro [Widespread hematite at high latitudes of the Moon]. 

"Mais hematitas no lado lunar mais próximo sugere que a oxidação pode estar relacionada à Terra", disse o professor Li à PA. 

"Isso me lembrou da descoberta da missão lunar japonesa Kaguya (lançada em 2007) de que o oxigênio da atmosfera da Terra pode ser transportado para a superfície lunar pelo vento solar quando a Lua está na cauda magnética da Terra", afirmou Li. 

Portanto, a hipótese de Li e sua equipe é de que as hematitas lunares se formaram graças a esse oxigênio que viajou continuamente da Terra à Lua nos últimos bilhões de anos. 

"O oxigênio atmosférico da Terra pode ser o principal oxidante na produção de hematitas (na Lua)", disse Li à PA.


A superfície lunar está constantemente sendo atingida por poeira interplanetária. 

Também é possível que a Lua tenha recebido mais oxigênio quando estava mais perto da Terra, uma vez que os dois corpos estão se afastando um do outro há bilhões de anos. 

Papel da água

Os cientistas também encontraram hematita no lado oposto da Lua, uma área que não recebe necessariamente oxigênio da Terra, diz a PA. 

Esta presença de hematita pode ser explicada por "moléculas de água encontradas na superfície lunar", diz a declaração do JPL. 

O professor Li explica que "as partículas de poeira interplanetária que tendem a chegar á Lua podem liberar essas moléculas de água na superfície e misturá-las com o ferro lunar". 

"O calor desses impactos pode aumentar a taxa de oxidação", diz Li. 

Vivian Sun, pesquisadora do JPL e coautora do estudo, acredita que "esses resultados indicam que processos químicos mais complexos ocorrem em nosso sistema solar mais do que eram reconhecidos anteriormente".

Fonte: BBC.

Recursos de Compensação Ambiental Podem Ajudar a Economia no Entorno de Unidades de Conservação

Parque Nacional da Serra da Canastra. Foto: EBC.

Até 2018, R$ 1,74 bilhão já havia sido destinado para áreas protegidas federais em todo o Brasil. Mecanismo ainda depende de ajustes para se tornar mais célere. 

O Brasil conta hoje com aproximadamente 2,4 mil unidades de conservação federais, estaduais, municipais e privadas que servem como refúgios para a biodiversidade nacional e impactam diretamente a economia do país. Fechadas desde março em razão da pandemia do novo coronavírus, aos poucos, algumas áreas protegidas reabrem para atividades científicas, turísticas e de conservação, como o Parque Nacional de Fernando de Noronha, que reabriu em 1º de agosto. No entanto, o que pouca gente sabe é que a maior parte dessas áreas depende de recursos oriundos de compensações ambientais para sua consolidação e manutenção, elaboração de planos de manejo e até mesmo para estabelecer diretrizes para receber visitantes. 

A compensação ambiental é um instrumento jurídico estabelecido pela Lei 9.985/2000, que criou o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). O mecanismo impõe aos responsáveis por empreendimentos licenciados e causadores de significativo impacto ambiental a obrigação do desembolso de recursos a serem aplicados na implantação e gestão das unidades de conservação. Até 2018, já havia sido distribuído cerca de R$ 1,74 bilhão para unidades de conservação federais pelo Comitê de Compensação Ambiental Federal. Em junho passado, a União liberou outros R$ 7,3 milhões para a manutenção, conservação e infraestrutura de parques nacionais e outras áreas protegidas, como os parques Serra da Capivara e Chapada dos Veadeiros. 

O uso dos recursos recolhidos por compensação segue a legislação federal e sua regulamentação, podendo ser complementada pelos estados e municípios. Entre as possíveis destinações estão a regularização fundiária de unidades de conservação, com a indenização de desapropriações; a elaboração, revisão ou implantação de planos de manejo; e a aquisição de bens ou contratação de serviços para a gestão ou implantação das unidades. Com exceção de finalidades expressamente proibidas em lei, como custeio de folha de pagamento, há, na maioria dos casos, unidades de conservação que dependem quase que exclusivamente dos recursos da compensação ambiental para manter seu funcionamento. 

“Os estados, os municípios e a União vivem um momento de grande ajuste fiscal. Ao terem acesso ao recurso da compensação para cuidarem das unidades de conservação, esses entes não precisam destinar dinheiro do próprio orçamento para esse fim, podendo direcioná-lo para áreas como saúde, educação, segurança e até mesmo outras frentes relacionadas ao meio ambiente”, afirma a presidente da Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente (Abrampa), Cristina Seixas Graça, que também é membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN). O Ministério Público é responsável por fiscalizar a destinação do dinheiro proveniente da compensação ambiental. 

Apesar da sua relevância para as unidades de conservação, o instrumento da compensação ambiental ainda apresenta diversas controvérsias. O próprio cálculo das compensações devidas pelos empreendedores é alvo de discussão, uma vez que as metodologias em uso contrariam decisão do Supremo Tribunal Federal. “Esse fato, somado às diferentes legislações municipais e estaduais, cria certa confusão no cálculo do valor e na decisão de como a compensação será aplicada. Por envolver diferentes entes, incluindo empresas privadas, o processo torna-se demorado, seja no aporte do recurso a fundos ou na aplicação direta pelo empreendedor”, explica Cristina. 

A importância das unidades de conservação

Unidade de conservação é a denominação atribuída pelo SNUC às áreas naturais passíveis de proteção por suas características naturais. Segundo especialistas, sem elas o Brasil não será capaz de atingir compromissos de sustentabilidade assumidos nos últimos anos em acordos e convenções internacionais, como a Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), a Convenção sobre Diversidade Biológica, as Metas de Aichi e o Acordo de Paris. 

A importância das unidades de conservação também se estende ao segmento turístico, que movimenta bilhões de reais anualmente no Brasil somente com o segmento de turismo de natureza. Levantamento realizado pelo ICMBio mostrou que, em 2019, as 137 unidades federais abertas à visitação receberam 15,3 milhões de visitas, um aumento de 20,4% em relação ao ano anterior. “O turismo de natureza no Brasil está diretamente ligado às unidades de conservação, que protegem grande parte do nosso patrimônio natural. Além disso, também possibilita o desenvolvimento socioeconômico de muitas áreas distantes e de difícil acesso, que, se não fosse pela atividade turística, não teriam as mesmas oportunidades”, avalia a diretora executiva da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, Malu Nunes, instituição que contribuiu com a criação de mais de 130 mil km² de áreas protegidas terrestres e marinhas no Brasil. 

A destinação de recursos via compensação ambiental também pode ser benéfica para a imagem do Brasil em relação ao meio ambiente, principalmente no tocante à Amazônia, bioma que concentra 47% da área total das unidades de conservação do país. “Quanto mais célere e clara for a utilização do instrumento da compensação, mais efetiva será a política ambiental como um todo, incluindo a capacidade do Estado de criar novas unidades e conhecer melhor as que já existem por meio da elaboração de plano de manejo, documento básico para a gestão de qualquer área protegida”, afirma Cristina.

Por: Claudia Leone (EcoDebate).

Cientistas Acham Pela Primeira Vez Plástico em Órgãos Humanos

Usados em recipientes para comidas e bebidas, plásticos comprovadamente entram no trato intestinal.

Em descoberta inédita, pesquisadores americanos detectaram micropartículas plásticas em todas as 47 amostras de tecidos examinadas, de pulmão, fígado, baço e rins. Efeitos na saúde das pessoas ainda são pouco conhecidos. 

Cientistas americanos detectaram pela primeira vez microplásticos e nanoplásticos em órgãos e tecidos humanos, de acordo com um estudo apresentado em 17/08/2020 no congresso virtual de outono da Sociedade Americana de Química (ACS, na sigla em inglês). 

Pesquisadores da Universidade do Arizona, nos EUA, encontraram o material em todas as 47 amostras de pulmões, fígado, fígado, baço e rins que examinaram. Eles consideram a descoberta preocupante, ainda que falte informação sobre os efeitos dessas partículas para a saúde humana. 

Eles obtiveram as mostras de um banco de tecidos criado para estudar doenças neurodegenerativas. O método analítico que desenvolveram permitiu que eles identificassem dezenas de tipos de plástico nos tecidos humanos, incluindo policarbonato (PC), tereftalato de polietileno (PET), usado em garrafas plásticas, e polietileno (PE), usado para sacos plásticos. 

Já o bisfenol A (BPA), o composto utilizado na fabricação de plástico e que ainda é usado em recipientes para alimentos, apesar das preocupações com os danos que causa à saúde, foi encontrado em todas as 47 amostras. 

Pesquisas em animais têm associado a exposição a microplásticos e nanoplásticos a infertilidade, inflamações e câncer, mas os resultados para a saúde de pessoas ainda são pouco conhecidos. 

A ACS lembra, num documento sobre a investigação, que a ingestão de partículas de plástico por animais e seres humanos tem consequências ainda desconhecidas para a saúde. 

"Pode encontrar-se plástico contaminando o ambiente em praticamente todos os locais do globo, e em poucas décadas deixamos de ver o plástico como algo muito benéfico para o considerarmos uma ameaça", diz Charles Rolsky também autor do estudo. 

"Há provas de que o plástico está entrando no nosso corpo, mas muito poucos estudos o procuram nele. E neste momento não sabemos se este plástico é apenas um incômodo ou se representa um perigo para a saúde humana", adiantou o pesquisador. 

Vários estudos já mostraram como os microplásticos podem entrar na cadeia alimentar humana. No ano retrasado, uma pesquisa revelou que esse material foi encontrado em quase todas as marcas de água engarrafada. Também naquele mesmo ano, cientistas encontraram o material em fezes humanas. 

"Nunca queremos ser alarmistas, mas é preocupante que estes materiales não biodegradáveis presentes em todos os lugares possam entrar e acumular-se nos tecidos humanos, porque não conhecemos os possíveis efeitos sobre a saúde", adverte Varun Kelkar, outro autor do estudo. 

"Assim que tivermos uma ideia melhor do que está nos tecidos, podemos realizar estudos epidemiológicos para avaliar os resultados de saúde humana", disse ele. "Dessa forma, podemos começar a entender os riscos potenciais à saúde, se existirem." 

Os cientistas definem microplástico como um fragmento de plástico com menos de cinco milímetros de diâmetro. Os nanoplásticos são ainda menores, com diâmetros inferiores a 0,001 milímetro. 

Estudos já mostraram que os plásticos podem passar através do trato intestinal dos humanos, mas os dois investigadores se debruçaram em descobrir se há partículas que se acumulam nos órgãos humanos. 

Os investigadores acreditam que o estudo é o primeiro que examina a existência de partículas de plástico em órgãos de pessoas com um histórico conhecido de exposição ambiental. 

Os doadores de tecidos forneceram informações detalhadas sobre o seu estilo de vida, dieta e exposições ocupacionais, o que pode ajudar a encontrar potenciais fontes e vias de exposição a micro e nanoplásticos, dizem os cientistas.

Fonte: DW.

Pegamos Bactérias do Ar Mais Puro da Terra Para Ajudar a Resolver Um Mistério de Modelagem Climática

O Oceano Antártico é uma vasta faixa de águas abertas que circunda todo o planeta entre a Antártica e as massas de terra do hemisfério sul. É o lugar mais nublado da Terra, e a quantidade de luz solar que se reflete ou atravessa essas nuvens desempenha um papel surpreendentemente importante no clima global. Afeta os padrões climáticos, as correntes oceânicas, a cobertura de gelo do mar da Antártica, a temperatura da superfície do mar e até as chuvas nos trópicos. 

Mas, devido ao Oceano Antártico ser tão remoto, houve poucos estudos reais sobre as nuvens da região. Por causa dessa falta de dados, os modelos de computador que simulam os climas presentes e futuros superestimam a quantidade de luz solar que atinge a superfície do oceano em comparação com o que os satélites realmente observam. A principal razão para essa imprecisão é devido à forma como os modelos simulam nuvens, mas ninguém sabia exatamente por que as nuvens estavam `apagadas´. Para que os modelos funcionassem corretamente, os pesquisadores precisavam entender como as nuvens estavam se formando. 

Para descobrir o que realmente está acontecendo nas nuvens sobre o Oceano Antártico, um pequeno exército de cientistas atmosféricos, incluindo os da Universidade Estadual do Colorado (EUA), foi descobrir como e quando as nuvens se formam nesta parte remota do mundo. O que descobrimos foi surpreendente – ao contrário dos oceanos do Hemisfério Norte, o ar que amostramos sobre o Oceano Antártico quase não continha partículas da terra. Isso significa que as nuvens podem ser diferentes daquelas acima de outros oceanos, e podemos usar esse conhecimento para ajudar a melhorar os modelos climáticos.

 O fato das nuvens conterem pequenas gotículas de líquido, de cristais de gelo ou ambos elas são influenciadas pelas partículas no ar. Foto: Kathryn Moore, (CC BY-ND).

Nuvens de gelo e nuvens líquidas

As nuvens são feitas de minúsculas gotículas de água, de cristais de gelo, ou geralmente uma mistura dos dois. Elas se formam em pequenas partículas no ar. O tipo de partícula desempenha um grande papel na determinação da formação de uma gota de líquido ou de um cristal de gelo. Essas partículas podem ser naturais – como a maresia, pólen, poeira ou até bactérias – ou de fontes humanas como carros, fogões, usinas de energia e assim por diante. 

Para o olho não treinado, uma nuvem de gelo e uma nuvem de líquido são muito parecidas, mas têm propriedades muito diferentes. As nuvens de gelo refletem menos luz solar, precipitam mais e não duram tanto quanto as nuvens líquidas. É importante para o tempo – e para os modelos climáticos – saber quais tipos de nuvens existem. 

Os modelos climáticos tendem a prever muitas nuvens de gelo sobre o Oceano Antártico e poucas nuvens líquidas em comparação com as leituras de satélite. Mas as medições de satélite ao redor dos pólos são difíceis de fazer e menos precisas do que outras regiões, então queríamos coletar evidências diretas de quantas nuvens líquidas estão realmente presentes e determinar por que havia mais do que os modelos preveem. 

Este era o mistério: Por que existem mais nuvens líquidas do que os modelos pensam que existem? Para resolver isso, precisávamos saber quais tipos de partículas estão flutuando na atmosfera ao redor da Antártica. 

Antes de irmos até lá, tivemos algumas pistas. 

Estudos de modelagem anteriores sugeriram que as partículas formadoras de gelo encontradas no Oceano Antártico podem ser muito diferentes daquelas encontradas no hemisfério norte. A poeira é uma grande semeadora de nuvens de gelo, mas devido à falta de fontes de terra empoeiradas no hemisfério sul, alguns cientistas levantaram a hipótese de que outros tipos de partículas podem estar conduzindo a formação de nuvens de gelo sobre o Oceano Antártico. 

Como a maioria dos modelos é baseada em dados do hemisfério norte, se as partículas na atmosfera fossem de alguma forma diferentes no hemisfério sul, isso poderia explicar os erros. 

Mapas bacterianos

É difícil medir diretamente a composição das partículas sobre o Oceano Antártico – simplesmente não há muitas partículas ao redor. Então, para nos ajudar a rastrear o que está dentro das nuvens, usamos uma abordagem indireta: as bactérias no ar. 

A atmosfera está cheia de micro-organismos que são carregados por centenas a milhares de quilômetros pelas correntes de ar antes de retornar à Terra. Essas bactérias são como placas de veículos aerotransportadas, são únicas e informam de onde o carro – ou o ar – veio. Como os cientistas sabem onde vive a maioria das bactérias, é possível olhar para os micróbios em uma amostra de ar e determinar de onde veio esse ar. E, uma vez que você sabe disso, também pode prever de onde vêm as partículas do ar – o mesmo lugar em que as bactérias normalmente vivem. 

A fim de coletar amostras de bactérias transportadas pelo ar nesta remota região oceânica, um de nós embarcou no Australian Marine National Facility R / V Investigator para uma expedição de seis semanas. O tempo estava turbulento e as ondas muitas vezes eram brancas, mas por um a dois dias de cada vez, sugávamos o ar da proa do navio por meio de um filtro que captava as partículas transportadas pelo ar e as bactérias. Em seguida, congelamos os filtros para manter o DNA bacteriano intacto. 

Bactérias oceânicas sozinhas

Na maioria das regiões oceânicas do mundo, especialmente no hemisfério norte, onde há muita terra, o ar contém partículas marinhas e terrestres. Isso é o que esperávamos encontrar no sul. 

Com os filtros congelados em segurança em nosso laboratório no Colorado, extraímos o DNA da bactéria e o sequenciamos para determinar quais espécies capturamos. Para nossa surpresa, as bactérias eram essencialmente todas as espécies marinhas que vivem no Oceano Antártico. Quase não encontramos bactérias terrestres. 

Se as bactérias eram do oceano, então elas eram as partículas formadoras de nuvens. Essa era a resposta que procurávamos. 

As partículas de nucleação de gelo são muito raras na água do mar e as partículas marinhas são muito boas para formar nuvens líquidas. Tendo principalmente partículas marinhas no ar, esperávamos que as nuvens fossem feitas majoritariamente de gotículas líquidas, que é o que observamos. Uma vez que a maioria dos modelos trata as nuvens nesta região da mesma forma que tratam as nuvens no hemisfério norte, que é mais empoeirado, não é de se admirar que os modelos estejam fora da realidade para essa região. 

Daqui para frente

Agora que sabemos que as nuvens do Oceano Antártico no verão estão sendo formadas por partículas puramente marinhas, precisamos descobrir se o mesmo é verdadeiro em outras estações e em altitudes mais elevadas. O projeto maior, que envolveu aviões e navios, deu aos cientistas atmosféricos uma ideia muito melhor das nuvens, tanto próximas à superfície do oceano quanto no alto da atmosfera. Os modeladores climáticos entre nós já estão incorporando esses novos dados em seus modelos e esperamos ter resultados para compartilhar em breve. 

Descobrir que as partículas transportadas pelo ar sobre o Oceano Antártico são principalmente provenientes do oceano é uma descoberta notável. Isso não apenas melhora os modelos climáticos globais, mas também significa que confirmamos que o Oceano Antártico é uma das regiões mais ambientalmente intocadas da Terra – um lugar que provavelmente mudou muito pouco devido às atividades humanas. Esperamos que nosso trabalho melhore os modelos climáticos, mas também forneça aos pesquisadores uma base de como é um ambiente marinho verdadeiramente intocado.

Por: Kathryn Moore, Jun Uetake e Thomas Hill. Fonte: The Conversation. Tradução: Maria Beatriz Ayello Leite (Ambiente Brasil).

Jeanne Baret, A Primeira Mulher a Circum-Navegar o Mundo, no Século XVIII, Por Seu Amor à Botânica

Aventureira francesa descobriu mais de 6.000 espécies de plantas em uma expedição, mas viajava vestida como homem, pois as mulheres eram proibidas de embarcar. 

Jeanne Baret representa a máxima expressão da simplicidade, do conhecimento, da aventura e também do erro. Criada num ambiente rural e analfabeto do centro da França, se tornou uma especialista em plantas e em suas propriedades curativas. 

Nasceu na pequena localidade de La Comelle, num dia como hoje, 27 de julho, 280 anos atrás, em 1740. Seus pais eram humildes camponeses que trabalhavam na sua pequena propriedade e também cuidavam das terras e do gado de latifundiários locais. Eles a ensinaram a identificar as plantas por suas propriedades curativas, e assim Jeanne virou uma especialista ― uma camponesa educada em medicina botânica. 

Com a morte dos pais, deixou o campo e começou a trabalhar como tutora do filho de Philibert Commerson, um famoso naturalista e botânico. A mudança de vida lhe permitiu continuar ampliando seus conhecimentos de botânica e a transformou em ajudante e amante de Commerson, com quem começou a viajar pela Europa. 

A importância de se chamar Bougainville

Poucos anos depois, ainda sendo ela muito jovem, Commerson foi nomeado botânico do rei Luis XVI. Sua fama foi crescendo, e a jovem Jeanne continuou aprendendo. Uma nova guinada em sua já novelesca vida ocorreu quando o botânico sueco Carl Linnaeus, que concebeu o sistema usado ainda hoje pela ciência para nomear organismos vivos, recomendou Commerson como botânico para uma viagem ao redor do mundo, patrocinada pelo Governo francês para buscar territórios desconhecidos, e que zarpou em 1766 sob o comando de Louis de Bougainville. 

Commerson queria que Baret viajasse com ele e o ajudasse a identificar e compilar espécies de plantas devido ao seu vasto conhecimento botânico, mas naquele momento as mulheres eram proibidas de navegar a bordo de navios da Marinha francesa. Baret e Commerson pensaram num plano, que consistiu em disfarçá-la como um rapaz, a quem chamaram Jean, envolvendo seus seios com ataduras e vestindo-a com roupa larga para ocultar seu gênero. 

Alcançado o objetivo, durante a viagem Baret teve que realizar trabalhos árduos, como qualquer outro integrante da expedição, incluído o transporte das pesadas e incômodas prensas de madeira, usadas para preservar os espécimes botânicos. A viagem teve escalas em lugares paradisíacos como Terra do Fogo, Taiti e ilhas Mauricio, onde a jovem Baret participou, ao lado de Commerson, na coleta de mais de 6.000 espécimes vegetais. 

Em muitos momentos da viagem, Commerson teve problemas de saúde e foi Baret quem assumiu as funções de botânico-chefe. Ela fez algumas das coletas mais notáveis da expedição, embora o reconhecimento sempre tenha sido para o titular do posto. De fato, Jeanne provavelmente merece o mérito da maior descoberta, a Bougainvillea brasiliensis, uma trepadeira com flores brilhantes e belas, nativa da América do Sul. 

Entretanto, nem tudo na expedição foi o clichê “de vento em popa”, já que, após dois anos de viagem, em 1768, a verdadeira identidade de Baret foi descoberta por uma tribo nativa no Taiti. Àquela altura, porém, já havia impressionado por seu trabalho físico como um membro qualquer da tripulação, e tão grande tinha sido a contribuição ao seu campo pelo material recolhido, que Bougainville, o comandante da expedição, decidiu não processá-la nem detê-la. 

Em troca, ela e Commerson foram obrigados a abandonar a expedição na colônia francesa da ilha Mauricio, no Índico, onde Commerson morreu em 1773 em decorrência dos seus graves problemas de saúde. Sozinha e sem recursos, Jeanne abriu um cabaré em Port Louis para ganhar a vida, e lá conheceu um oficial naval francês, Jean Dubernat, com quem se casou em 17 de maio de 1774. O casal regressou à França, completando assim a volta ao mundo em 1776, uma década após a partida. 

Jeanne Baret chegou a Paris com uma coleção de mais de 6.000 espécies vegetais, e o próprio rei Luis XVI a felicitou e lhe concedeu uma renda vitalícia. Entretanto, apesar da façanha, sua figura rapidamente caiu no esquecimento. 

Assim como ocorreu com outras francesas modernas que também foram pioneiras em diversas especialidades, Jeanne Baret viveu numa sociedade onde os homens exerciam seu poder sem pensar duas vezes, e as mulheres eram excluídas dos registros históricos. Baret foi muito capaz como botânica, mas talvez também fosse analfabeta, por isso sua história só se conservou através do testemunho de homens como Commerson e Bougainville, que escreveram sobre ela junto aos registros do diário de navegação e botânica. 

O príncipe de Nassau-Siegen, um nobre que também participou da expedição de Bougainville, foi outra das pessoas que escreveram sobre os feitos de Baret. “Quero lhe dar todo o crédito por sua valentia”, destacou em suas memórias. “Ela se atreveu a enfrentar a tensão, os perigos e tudo o que aconteceu que alguém poderia esperar de maneira realista numa viagem dessas. Acredito que sua aventura deveria ser incluída em uma história de mulheres famosas.” 

Durante a viagem, Commerson dedicou à sua assistente um arbusto da família Meliaceae, a Baretia bonnafidia. Entretanto, a planta mais tarde mudaria seu nome pelo de Turraea heterophylla, que seria sinônimo da Turraea floribunda. Desde aquela época, só as plantas descobertas por Commerson continuam sendo reconhecidas pela taxonomia. 

Embora Baret não tenha recebido menções por suas descobertas naquele momento, finalmente teve o reconhecimento que merecia quando uma nova espécie sul-americana da família da batata e do tomate, a Solanum baretiae, foi batizada em sua homenagem, em 2012. 

Jeanne Baret morreu em 5 de agosto de 1807, aos 67 anos, na pequena comuna de Saint-Aulaye, na região da Nova Aquitânia, com o único reconhecimento público de ter sido a amante do naturalista e botânico Philibert Commerson. Foi preciso que se passassem dois séculos para que o reconhecimento mundial da sua façanha de circum-navegar o mundo e das suas descobertas lhe valesse a justa fama que nunca teve em vida. Foi a publicação do livro O Segredo de Jeanne Baret (2010), da escritora Glynis Ridley, que tirou do anonimato a vida aventureira e o legado de uma grande mulher da ciência. 

 Por: Alberto López (El País). 

Com População em Declínio, Lobo-Guará Ganha Visibilidade ao Estampar Nota de R$ 200

No Brasil, a maior população de lobos-guarás está no Cerrado, com cerca de de 14 mil indivíduos. Contudo, o canídeo está ameaçado sobretudo pela perda de habitat e atropelamentos. 

Símbolo do Cerrado, a espécie vai estar mais próxima da população brasileira a partir de agosto de 2020. Conheça os hábitos e características do maior canídeo silvestre da América do Sul. 

O Chrysocyon brachyurus, conhecido popularmente como lobo-guará, vai estar ainda mais presente na vida dos brasileiros a partir de 2020. O animal, símbolo do Cerrado brasileiro, foi o escolhido para estampar a nova cédula de R$ 200, que deve ser lançada no fim do mês de agosto. Essa é a primeira vez, desde 2002, que o Banco Central institui um novo valor de cédula para a moeda brasileira. 

A notícia causou alvoroço nas redes sociais, mas o Banco Central não divulgou o desenho nem outros detalhes da nova cédula. Apesar de ser um animal emblemático do Cerrado, o lobo-guará tem uma distribuição ampla pelo território brasileiro. É possível encontrá-lo em áreas de transição com a Caatinga, Pantanal, Mata Atlântica, Pampa, além de Paraguai, Bolívia, Argentina e Uruguai. 

Essa é uma importante oportunidade de trazer visibilidade para a situação da espécie: apesar da ampla distribuição, a população dos lobos-guarás está declinando. 

Na lista de espécies ameaçadas do Ministério do Meio Ambiente, o mamífero figura na categoria de Vulnerável, embora conste também no catálogo da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) como Quase Ameaçada. Números estimados baseados em estudos de algumas áreas de ocorrência contabilizam 24 mil indivíduos sobreviventes em todo o Brasil. A situação da espécie é crítica sobretudo no Rio Grande do Sul do Brasil, onde estima-se que existam apenas 50 indivíduos. 

Canídeo de hábitos oportunistas

O lobo-guará é o maior canídeo silvestre da América do Sul e tem hábitos alimentares oportunistas. Caça tanto pequenos vertebrados – como roedores, aves e répteis – quanto artrópodes. Em alguns casos, foram encontrados restos de animais de grande porte, como veados-campeiros, nas fezes do lobinho. No entanto, pesquisadores não chegaram a um consenso sobre se os lobos-guarás atacam essas presas ou apenas consomem carcaças já mortas. 

No cardápio, também estão inúmeras frutas, como a fruta-do-lobo, ou lobeira. Os lobos-guarás as comem aos montes, e como elas saem quase intactas no cocô, eles desempenham um papel de dispersores e contribuem para a manutenção da espécie vegetal. Para caçar ou comer as frutinhas, os lobos preferem o fim da tarde e a noite. Em geral, fazem isso sozinhos, mas também podem estar acompanhados de um parceiro – são animais de hábitos monogâmicos – ao longo do período reprodutivo. 

Eles vivem em áreas que variam de 20 km² a 115 km², a depender da disponibilidade de alimentos, e são bastante territorialistas. Para marcar presença, usam fezes e urina, além de uma vocalização características que também serve para se comunicar com os parceiros e filhotes. Estes vêm em ninhadas de até cinco animais depois de uma gestação que não passa de 65 dias. 

O lobo-guará prefere áreas abertas para morar, como campos e matas de capoeira. Por conta disso, a espécie tem sido avistada em regiões de cultivos e pastagens onde antes havia florestas. O que não significa que eles estejam em uma situação confortável: alterações nos seus habitats, conflitos com humanos e atropelamentos fazem com que este número tenda a cair. 

Saiba mais 

  • Nome comum: Lobo-guará 
  • Nome científico: Chrysocyon brachyurus 
  • Tipo: mamífero 
  • Dieta: onívoro 
  • Tempo de vida médio na natureza: 12 anos 
  • Tamanho: entre 95 cm a 115 cm 
  • Peso: entre 20 kg e 33 kg 
  • Status de ameaça: quase ameaçado 
  • Tendência populacional: declinando


O Que São e Como Surgem as Zoonoses?

Muitas espécies de morcegos são responsáveis por carregar patógenos. 

Atualmente, sabe-se da existência de cerca de 200 zoonoses, doenças transmitidas de animais para seres humanos. E o número vem aumentando devido à influência do homem sobre o meio ambiente. 

Entre 60% e 70% de todas as doenças infecciosas são originárias de animais. "O sarampo também é uma delas", explica Isabella Eckerle, diretora do centro de novas doenças virais dos Hospitais Universitários de Genebra (HUG). "Acredita-se que a domesticação de animais vários milhares de anos atrás tenha feito com que o vírus do sarampo passasse para os seres humanos". Segundo Eckerle, é provável que muitos vírus tenham um passado como esse. 

Atualmente, sabe-se da existência de cerca de 200 zoonoses, mas o número vem aumentando. Vírus, bactérias, parasitas ou príons desencadeiam zoonoses. Raiva e tuberculose estão entre elas, mas também o HIV e a toxoplasmose, que é transmitida por gatos, ou a peste, uma das piores zoonoses do mundo. 

No século 14, a peste, que é transmitida por pulga de ratos, matou mais de 50 milhões de pessoas. Apesar de erradicada na Europa, esta doença infecciosa ainda é devastadora em algumas regiões da África, Ásia e Américas. Madagascar, por exemplo, registrou 120 mortes por peste em 2017. 

Várias vias de transmissão 

Uma zoonose pode se espalhar não só através do contato direto dos animais com os seres humanos, mas também ao ser transportada pelo ar ou por alimentos contaminados. Tais patógenos podem ser encontrados em produtos de origem animal, como leite, carne ou ovos. Se os alimentos não são suficientemente aquecidos ou caso sejam preparados em condições insalubres, podem se tornar uma fonte perigosa de infecção. É assim que doenças como Salmonela se propagam com facilidade. 

Outra variante são os chamados vetores. Eles transportam o patógeno do hospedeiro para os humanos, mas não adoecem. Carrapatos são um exemplo típico. Ao morderem, pode acontecer de eles transmitirem os patógenos da chamada encefalite do carrapato e da doença de Lyme para os seres humanos. Mosquitos também são vetores. Alguns deles transmitem malária, outros, por exemplo, doença do sono. 

Animais selvagens 

Desde a Sars, em 2003, pelo menos, que pesquisadores vêm estudando animais selvagens responsáveis pela difusão de várias doenças. Roedores e morcegos se tornaram o foco dos cientistas. 

"Existem muitas espécies de morcegos e mais de mil espécies de roedores que carregam patógenos. É claro que sempre existem aqueles que permanecem em seu hospedeiro original, mas também existem os que infectam seres humanos", aponta Eckerle. 

Produto do homem 

A globalização, o comércio global e o desejo de viajar aproximaram pessoas de diferentes culturas e continentes. E precisamos de mais e mais espaço e matérias-primas. Nós devastamos florestas tropicais, destruímos ecossistemas e, assim, privamos muitos animais selvagens de seus habitats. "A antiga fronteira natural que havia entre humanos e animais exóticos já não existe mais", afirma Eckerle. 

Muitas novas zoonoses surgem devido a um desequilíbrio no ecossistema. "Quando há um ecossistema intacto com muitas espécies diferentes de animais, um vírus tem pouca oportunidade de mudar de hospedeiro e saltar diretamente para os seres humanos", explica a cientista. 

Animais de exploração e animais de estimação 

Nem mesmo em nossos entornos estamos imunes a patógenos perigosos. O gado, por exemplo, é hospedeiro intermediário. Uma vez que um patógeno tenha conseguido penetrar num rebanho, é provável que também dê o próximo passo, entre no corpo dos seres humanos e possibilite assim a infecção de humano para humano.

 O gado é o hospedeiro intermediário ideal.

Mas não só os animais de fazendas, como também os animais de estimação, como cães e gatos, podem ser uma fonte de zoonoses. A toxoplasmose, uma doença perigosa transmitida por gatos, é um exemplo. "Existem várias bactérias e parasitas que podemos adquirir de animais de estimação. Essas zoonoses, no entanto, nós conhecemos muito bem, pois estudamos animais de estimação há muito tempo", disse Eckerle. 

A virologista enfatiza que o risco é controlável. Bastaria, por exemplo, não deixar que os animais durmam na cama com seus donos e lavar as mãos com frequência. 

Perigos em particular 

"Acho que as zoonoses mais comuns são aquelas sobre as quais não ouvimos falar muito, porque não passam de pessoa para pessoa. Para a pessoa infectada, geralmente é trágico ou grave, mas para a população como um todo, não é um grande risco ", explica Eckerle. 

Afinal, muitos patógenos têm pouco potencial de passarem de uma pessoa para outra. Tais zoonoses podem ser contidas de maneira muito eficaz, pois os médicos podem testar as pessoas com relativa facilidade. A situação é diferente quando ocorre uma pandemia, como no caso da covid-19. "Agora é o coronavírus, mas talvez, dentro de alguns anos, seja um outro vírus. O problema é muito mais o que fazemos com isso", resume. 

É preciso esclarecer a população sobre como se manter longe de animais selvagens ou patógenos. "Precisamos garantir que os ecossistemas sejam preservados", salienta. "É uma situação semelhante à mudança climática. Sabemos que não podemos continuar assim e que precisamos tomar medidas urgentes. Mas, por alguma razão, não conseguimos e não levamos isso a sério até que seja tarde demais".

Por: Gudrun Heise (Deutsche Welle).

Efeitos das Mudanças no Clima Global e a Ocorrência do Novo Coronavírus: Teria Uma Coisa a Ver Com a Outra?

Os últimos 5 anos foram os mais quentes do registro histórico. O volume de gelo no Ártico no verão é, hoje em dia, 70% menor do que há apenas 4 décadas. Tempestades, como furacões e chuvas extremas, têm se intensificado, em paralelo com ondas de calor, secas e incêndios florestais, como o que transformou a Austrália recentemente num inferno, ceifando a vida não apenas de seres humanos, mas de cerca de um bilhão de animais. O avanço do nível do mar também já produz efeitos visíveis na linha de costa em vários locais do mundo. Corais estão sofrendo com eventos de branqueamento cada vez mais frequentes e a acidificação dos oceanos avança, ameaçando a biota marinha. 

Sabe-se, pelo menos desde o final do século passado, que o aumento incessante das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera do nosso planeta iriam produzir esses efeitos, e que os mesmos se agravam ano após ano, especialmente se nada for feito. Os cientistas alertaram sucessivamente, através dos relatórios produzidos pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) que a única saída seria reduzir as emissões de gases de efeito estufa, especialmente o CO₂ proveniente da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento. 

Há pelo menos 3 décadas, no esforço construído em torno do IPCC, a comunidade científica internacional vem somando esforços para entender as bases físicas das alterações climáticas, identificar potenciais impactos e vulnerabilidades de sistemas naturais e humanos, propor soluções para conter o aumento da temperatura média global, e reduzir os seus efeitos negativos sobre o meio ambiente e o modo de vida das pessoas. Em 8 de outubro de 2018, na Coréia do Sul, o IPCC divulgou um relatório, considerado o mais importante já publicado abordando as mudanças climáticas, no qual avalia as perspectivas globais de limitar o aquecimento global a 1,5ºC em relação ao Período Pré-Industrial. No referido documento, o IPCC ressalta o aprimoramento e a urgência nas tomadas de decisões dos governos em relação ao Acordo de Paris, deixando claro que um cenário de 1,5°C é mais seguro que 2°C no que diz respeito à impactos climáticos. De fato, as estimativas científicas apontam que caso as temperaturas globais aumentem 2°C acima dos níveis pré-industriais, as consequências serão ainda mais catastróficas, incluindo a escassez de alimento e de água, e desastres naturais potencializados pela ação humana, por exemplo, aqueles que causam impactos diretos na saúde. Em suma, todas essas questões, no fim das contas, envolvem saúde pública. 

Projeções científicas apontam ainda que as mudanças no clima devem implicar no aumento tanto na quantidade quanto na diversidade dessas epidemias, principalmente de doenças infecciosas transmitidas por vetores, como a malária, dengue e Zika. Em 2015, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia publicado um relatório Investing to overcome the global impact of neglected tropical diseases, o qual alertava para o perigo da relação entre o aquecimento global e doenças tropicais negligenciadas. Segundo esse documento, com o aumento da temperatura, a zona de clima tropical do planeta deverá se expandir paulatinamente, ampliando também as áreas acometidas por doenças. Esse relatório conclui que as mudanças climáticas constituem a maior ameaça à saúde mundial do século XXI, cujas estimativas apontam 250 mil mortes por ano até 2030. 

Estudos diversos apontam que ecossistemas modificados pela intervenção humana, além de potencializarem a disseminação de doenças emergentes, podem também contribuir para a propagação de outras doenças associadas, que podem afetar o sistema imunológico e atingir a saúde humana como um todo. Além disso, sabe-se que os impactos antrópicos associados à crise climática também levam à insegurança alimentar, e como resposta à nova realidade ambiental, as pessoas tendem a buscar fontes alternativas de alimento, tais como a inserção de animais silvestres na sua dieta. É exatamente em cenários como estes que emergem as chamadas pandemias, doenças infecciosas cuja ocorrência extrapola fronteiras geográficas, atingindo pessoas ao redor do mundo. Entre 1918 e 1920, por exemplo, estima-se que de 50 a 100 milhões de pessoas tenham morrido na pandemia da Gripe Espanhola, um número superior a quantidade de civis e militares que morreram durante a 1ª Guerra Mundial (aproximadamente 17 milhões de vítimas); e em 2009, especialistas apontam que milhões de pessoas ao redor do mundo tenham sido infectadas – e centenas delas tenham sido mortas – pela Gripe Suína, pandemia causada pelo vírus Influenza H1N1. 

De acordo o último Relatório Anual sobre Preparação Global para Emergências em Saúde (2019), “doenças propensas a epidemias, como gripe, doenças respiratórias agudas graves (SARS), Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), Ebola, Zika, febre amarela e outros, são precursores de uma nova era de alto impacto, surtos potencialmente de rápida disseminação que são mais frequentemente detectados e cada vez mais difícil de gerenciar”. A passagem desses vírus para o ser humano é facilitada quando travamos contato mais frequente com espécies silvestres por conta do desmatamento e degradação ambiental em associação principalmente com a expansão da fronteira agrícola e quando mantemos bilhões de animais geneticamente similares em confinamento (“gripe suína”, “gripe aviária” etc.). Além disso, a rápida disseminação de vírus perigosos só é possível graças à hipermobilidade produzida por nosso modo de vida intensivo em carbono. 

Atualmente, enfrentamos o preocupante novo coronavírus (SARS-COV-2), pandemia que já soma mais de 1 milhão mortes em todo o mundo. Para este caso, há indícios de que o vírus pode ter “saltado” de determinados grupos de animais silvestres para as pessoas, a partir do momento que estes foram inseridos como alimentação alternativa para alguns grupos humanos, bem como os locais insalubres onde tais animais eram mantidos para venda e posterior abate. Em se confirmando tais indícios, ficará evidenciado, mais uma vez, que determinadas atitudes humanas – tais como invadir ambientes habitados por milhares de outros organismos, bem como utilizá-los como alternativa a mudanças provocadas por nós mesmos – têm efeitos nocivos à natureza em geral, com implicações diretas a nossa própria saúde. 

Esse cenário de pandemia do SARS-COV-2 está imprimindo à sociedade uma mudança emergencial introduzindo novos hábitos, que poderão constituir a longo prazo para minimizar a crise climática, como trabalhar de casa, videoconferências, jornadas semanais mais breves ou horários de escritório alternados para reduzir o tráfego. Mostra também que boa parcela da produção e circulação de bens materiais é supérflua, predatória e perfeitamente dispensável e revela que mecanismos de proteção social como a renda universal pode proteger trabalhadores de setores cujas atividades precisam ser ou drasticamente reduzida ou encerrada (petróleo, mineração de carvão, etc). Mas estamos longe de resolver a crise climática, tendo em vista que para isso somente uma mudança de atitude global poderia resolver o problema. Mesmo considerando uma projeção de queda de 8% nas emissões ao final deste ano, o aumento da concentração de CO2 na atmosfera seria apenas ligeiramente freado, sendo necessários cortes da ordem dessa porcentagem por anos a fio para mantermos chances de conter o aquecimento global. 

Que legado deixaremos às futuras gerações? Um mundo ingovernável, com eventos extremos, milhões de refugiados climáticos e pandemias frequentes? Em que não saberemos se devemos dizer “fique em casa” (para evitar contágio numa pandemia) ou “evacuem suas casas” (diante de um furacão ou incêndio florestal)? É preciso afirmar com todas as letras: como solução consistente e de longo prazo para essas duas crises – climática e sanitária – não há outro “medicamento” ou “vacina” senão mudanças de atitudes, o que exige uma autocrítica profunda acerca do nosso papel enquanto “seres pensantes” na manutenção do equilíbrio ecológico-social-econômico do nosso Planeta, cuja dinâmica sistêmica é limitada – atuando à base de fluxos (de matéria e energia) e de ciclos (carbono, nitrogênio, etc.) – em um sistema capitalista expansionista, cuja lógica é baseada na geração, concentração e acumulação de bens e riqueza a curto prazo. Nossa percepção no que diz respeito à centralidade do colapso ecológico tem que ser ampliada e a mudança no nosso modo de nos relacionarmos com a natureza, radicalmente alterada. Já! 

Por: Henrique Fernandes de Magalhães; biólogo, professor substituto do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB) e doutorando em Etnobiologia e Conservação da Natureza pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Regina Célia da Silva Oliveira: bióloga e doutora em Etnobiologia e Conservação da Natureza pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Alexandre Araújo Costa: físico, doutor em Ciências Atmosféricas pela Colorado State University System e professor titular do Centro de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Fonte: EcoDebate.

A Ilha Remota Entre África e Brasil Que Tem Lições Para o Futuro do Meio Ambiente

A Ilha da Ascensão fica localizada no meio do Atlântico entre Brasil e Angola.

Vista do mar, a Ilha de Ascensão parece estar ardendo em chamas, uma paisagem tão aparentemente hostil que rendeu ao local um apelido capaz de espantar qualquer turista: "inferno do fogo apagado". 

Elevando-se acima de crateras adormecidas, depósitos piroclásticos e picos de lava, a Montanha Verde, com 859 metros de altura, e sua vegetação frondosa chamam atenção em meio à ilha carbonizada. São também uma prova da engenhosidade dos seres humanos e da resiliência da natureza. 

Plantada no topo de uma colina devastada há cerca de 160 anos, a floresta que começou por um capricho passou a atrair a atenção de cientistas de todo o mundo. 

A Montanha Verde dá uma esperança de que ecossistemas criados pelo homem possam melhorar o meio ambiente. 

À medida que a crise climática destrói paisagens e gera catástrofes, a próspera selva de Ascensão reforça o argumento de que talvez possamos regenerar uma floresta usando conceitos deste lugar remoto e muitas vezes esquecido. 

A Ilha da Ascensão surgiu do Oceano Atlântico cerca de 1 milhão de anos atrás. Localizada no meio do caminho entre Angola e Brasil, ela recebeu esse nome quando foi redescoberta por Afonso de Albuquerque no Dia da Ascensão em 1503 (ela havia sido identificada pela primeira vez em 1501). 

Durante muito tempo, foi ocupada apenas por aves marinhas e tartarugas verdes que viajam milhares de quilômetros a partir do Brasil para procriar ali. 

Os primeiros habitantes humanos chegaram em 1815, quando a Marinha Real Britânica montou acampamento para vigiar Napoleão, que estava exilado quase 1,3 mil quilômetros a sudeste, na ilha de Santa Helena. 

Ascensão tornou-se um ponto de parada útil para os navios. Mas, durante sua visita em 1836, Charles Darwin apontou a falha mais óbvia da ilha: sua ausência de árvores, o que a tornou um lugar difícil de se viver.

Montanha Verde é um ecossistema criado pelo homem, onde espécies introduzidas e plantas nativas evoluíram juntas. 

Transformação pela chuva

Inspirado pelas teorias de seu amigo Darwin sobre transformar a paisagem árida em um jardim, o botânico Joseph Hooker apresentou o plano de plantar mudas de todo o mundo ali. As árvores poderiam "capturar" as nuvens e aumentar as chuvas na ilha, tornando-a habitável. 

O plano foi um sucesso. Em 1860, John Bell, horticultor da ilha, supervisionou o plantio de cerca de 27 mil árvores e arbustos, o que resultou no desenvolvimento de solo suficiente para o cultivo. 

Foi a oportunidade de visitar essa floresta peculiar e pouco conhecida que levou minha família a Ascensão, que agora tem cerca de 900 habitantes, entre militares americanos e britânicos e funcionários civis. 

Deixando nosso veleiro ancorado em Clarence Bay, dirigimos através de uma paisagem lunar ofuscante, passando pelos fluxos de lava, pelas crateras vulcânicas e pelos burros selvagens que vagam pelo deserto em busca de comida, até começar a subir a Montanha Verde. 

Ali, a luz do sol era suavizada pela névoa e depois apagada pela chuva irregular. A estrada nos levou a uma floresta de casuarinas e acácias, e depois para uma densa selva pontuada por bananas, gengibre, zimbro, framboesa, café, samambaias e figos. 

Os cactos acrescentam cor à paisagem árida da ilha. 

Depois de estacionar, partimos para a caminhada. Encontrando ocasionalmente ovelhas selvagens, seguimos uma trilha fresca e enevoada, cheia de teixos e pinheiros, descendentes de algumas das mudas que Hooker aconselhou aos britânicos transportar para Ascensão a partir de jardins botânicos de todo o mundo. A floresta parecia enganosamente antiga. 

De acordo com os princípios ecológicos tradicionais, essa mistura de gramíneas e samambaias endêmicas com mais de 300 espécies não nativas nunca poderia ter evoluído para um ecossistema próspero. Florestas complexas levam milhões de anos para se desenvolver. 

Mas o ecossistema artificial da Montanha Verde, onde espécies introduzidas e plantas insulares parecem ter evoluído juntas, não se encaixa nesse paradigma.

Os Estados Unidos têm uma base aérea na ilha. 

Contrariando o 'normal'

"O que você vê ali é algo que não despertaria o interesse de pesquisadores tradicionais", diz Dave Wilkinson, professor de ecologia da Universidade de Lincoln, no Reino Unido. 

"Porque é algo completamente dominado por espécies não nativas, e os ecologistas se concentram nos ambientes naturais, não em coisas que não deveriam estar onde estão. Isso seria considerado algo negativo." 

Até recentemente, conservação significava livrar-se de espécies invasoras e permitir que a paisagem voltasse ao modo como era antes da intervenção humana. 

Mas uma visita casual à Ilha de Ascensão em 2004 fez Wilkinson pensar nessa perspectiva "natural versus invasores".

Ascensão é uma ilha de origem vulcânica. 

"A Montanha Verde é um exemplo muito dramático de algo bastante comum: em grande parte do mundo, espécies não nativas são uma parte funcional do ecossistema." 

Wilkinson desenvolveu a ideia em seu controverso artigo de 2004 para o periódico Journal of Biogeography, A Parábola da Montanha Verde, no qual desafia a teoria de que as espécies introduzidas em um local não pertencem àquilo e propõe o argumento de que ecossistemas artificiais, como a Montanha Verde, poderiam desempenhar um papel importante em nosso futuro. 

Nos anos seguintes, essa ideia ganhou força e, em 2006, o termo "novo ecossistema" foi desenvolvido pelo renomado ecologista Richard Hobbs para descrever lugares como a Montanha Verde, que foram irreversivelmente alterados pela intervenção humana - e talvez não precisem ser consertados. 

Anna Bäckström, ecologista sênior do grupo de pesquisa científica ICON, da Universidade RMIT, na Austrália, diz que os proponentes de uma nova abordagem de ecossistema têm uma visão pragmática da conservação. "O conceito oferece mais flexibilidade", explica ela. 

Dadas as mudanças climáticas, o impacto humano e a pequena quantidade de fundos geralmente disponíveis para conservação, Bäckström diz que, ao aceitar as mudanças que os humanos fizeram, a restauração ecológica é mais gerenciável. 

"A paisagem não precisa voltar ao que era. Nós apenas queremos diversidade e equilíbrio." 

Essa ideia de que o serviço que um ecossistema fornece - como controle de enchentes, sequestro de carbono ou polinização - é mais importante do que a condição primitiva de uma floresta está sendo adotada mais amplamente à medida que os ecossistemas são jogados no caos pelos incêndios, tempestades e doenças provocadas pela crise climática.

Os burros foram introduzidos na Ilha da Ascensão no início do século 19 e agora vagam pelas montanhas. 

"Se um grupo de plantas sobreviver e algumas delas não forem nativas, não queremos arrancá-las", diz Bäckström. "A diversidade no ecossistema é mais importante que a origem de uma planta." 

Indo ainda mais longe, Wilkinson diz que essa nova abordagem permite que os ecologistas tenham algum controle sobre forças que podem moldar os ecossistemas do futuro. 

"Vinte anos atrás, os conservacionistas nunca cogitariam plantar espécies não nativas, mas agora sabemos o valor de ter uma mistura de árvores em um local, porque, se um patógeno, fogo ou animais o atacam, nem tudo é perdido", diz ele.

A ilha tem uma população de cerca de 900 pessoas e uma única escola. 

Com uma abordagem inovadora do ecossistema, os conservacionistas têm a liberdade de reconstruir uma planície que antes ficava inundada e que secou com espécies resistentes à seca ou replantar uma paisagem devastada pelo fogo com plantas que prosperam em uma região mais quente. 

O experimento da Montanha Verde, onde as plantas de diferentes lugares foram reunidas em um mesmo lugar e, de alguma forma, prosperaram, talvez possa ser replicado. 

Isso nos aponta que ideias polêmicas - como a da China, de plantar bilhões de árvores para conter o avanço do deserto; ou o esforço da Austrália para que as pessoas plantem espécies e plantas não nativas para conter o avanço de incêndios - devem ser analisadas com mais cuidado. 

A proposta feita por Darwin e Hooker nos diz que, quando se trata de sobrevivência, às vezes, não há problema em experimentar algo novo.

Por: Diane Selkirk (BBC).