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Pegamos Bactérias do Ar Mais Puro da Terra Para Ajudar a Resolver Um Mistério de Modelagem Climática

O Oceano Antártico é uma vasta faixa de águas abertas que circunda todo o planeta entre a Antártica e as massas de terra do hemisfério sul. É o lugar mais nublado da Terra, e a quantidade de luz solar que se reflete ou atravessa essas nuvens desempenha um papel surpreendentemente importante no clima global. Afeta os padrões climáticos, as correntes oceânicas, a cobertura de gelo do mar da Antártica, a temperatura da superfície do mar e até as chuvas nos trópicos. 

Mas, devido ao Oceano Antártico ser tão remoto, houve poucos estudos reais sobre as nuvens da região. Por causa dessa falta de dados, os modelos de computador que simulam os climas presentes e futuros superestimam a quantidade de luz solar que atinge a superfície do oceano em comparação com o que os satélites realmente observam. A principal razão para essa imprecisão é devido à forma como os modelos simulam nuvens, mas ninguém sabia exatamente por que as nuvens estavam `apagadas´. Para que os modelos funcionassem corretamente, os pesquisadores precisavam entender como as nuvens estavam se formando. 

Para descobrir o que realmente está acontecendo nas nuvens sobre o Oceano Antártico, um pequeno exército de cientistas atmosféricos, incluindo os da Universidade Estadual do Colorado (EUA), foi descobrir como e quando as nuvens se formam nesta parte remota do mundo. O que descobrimos foi surpreendente – ao contrário dos oceanos do Hemisfério Norte, o ar que amostramos sobre o Oceano Antártico quase não continha partículas da terra. Isso significa que as nuvens podem ser diferentes daquelas acima de outros oceanos, e podemos usar esse conhecimento para ajudar a melhorar os modelos climáticos.

 O fato das nuvens conterem pequenas gotículas de líquido, de cristais de gelo ou ambos elas são influenciadas pelas partículas no ar. Foto: Kathryn Moore, (CC BY-ND).

Nuvens de gelo e nuvens líquidas

As nuvens são feitas de minúsculas gotículas de água, de cristais de gelo, ou geralmente uma mistura dos dois. Elas se formam em pequenas partículas no ar. O tipo de partícula desempenha um grande papel na determinação da formação de uma gota de líquido ou de um cristal de gelo. Essas partículas podem ser naturais – como a maresia, pólen, poeira ou até bactérias – ou de fontes humanas como carros, fogões, usinas de energia e assim por diante. 

Para o olho não treinado, uma nuvem de gelo e uma nuvem de líquido são muito parecidas, mas têm propriedades muito diferentes. As nuvens de gelo refletem menos luz solar, precipitam mais e não duram tanto quanto as nuvens líquidas. É importante para o tempo – e para os modelos climáticos – saber quais tipos de nuvens existem. 

Os modelos climáticos tendem a prever muitas nuvens de gelo sobre o Oceano Antártico e poucas nuvens líquidas em comparação com as leituras de satélite. Mas as medições de satélite ao redor dos pólos são difíceis de fazer e menos precisas do que outras regiões, então queríamos coletar evidências diretas de quantas nuvens líquidas estão realmente presentes e determinar por que havia mais do que os modelos preveem. 

Este era o mistério: Por que existem mais nuvens líquidas do que os modelos pensam que existem? Para resolver isso, precisávamos saber quais tipos de partículas estão flutuando na atmosfera ao redor da Antártica. 

Antes de irmos até lá, tivemos algumas pistas. 

Estudos de modelagem anteriores sugeriram que as partículas formadoras de gelo encontradas no Oceano Antártico podem ser muito diferentes daquelas encontradas no hemisfério norte. A poeira é uma grande semeadora de nuvens de gelo, mas devido à falta de fontes de terra empoeiradas no hemisfério sul, alguns cientistas levantaram a hipótese de que outros tipos de partículas podem estar conduzindo a formação de nuvens de gelo sobre o Oceano Antártico. 

Como a maioria dos modelos é baseada em dados do hemisfério norte, se as partículas na atmosfera fossem de alguma forma diferentes no hemisfério sul, isso poderia explicar os erros. 

Mapas bacterianos

É difícil medir diretamente a composição das partículas sobre o Oceano Antártico – simplesmente não há muitas partículas ao redor. Então, para nos ajudar a rastrear o que está dentro das nuvens, usamos uma abordagem indireta: as bactérias no ar. 

A atmosfera está cheia de micro-organismos que são carregados por centenas a milhares de quilômetros pelas correntes de ar antes de retornar à Terra. Essas bactérias são como placas de veículos aerotransportadas, são únicas e informam de onde o carro – ou o ar – veio. Como os cientistas sabem onde vive a maioria das bactérias, é possível olhar para os micróbios em uma amostra de ar e determinar de onde veio esse ar. E, uma vez que você sabe disso, também pode prever de onde vêm as partículas do ar – o mesmo lugar em que as bactérias normalmente vivem. 

A fim de coletar amostras de bactérias transportadas pelo ar nesta remota região oceânica, um de nós embarcou no Australian Marine National Facility R / V Investigator para uma expedição de seis semanas. O tempo estava turbulento e as ondas muitas vezes eram brancas, mas por um a dois dias de cada vez, sugávamos o ar da proa do navio por meio de um filtro que captava as partículas transportadas pelo ar e as bactérias. Em seguida, congelamos os filtros para manter o DNA bacteriano intacto. 

Bactérias oceânicas sozinhas

Na maioria das regiões oceânicas do mundo, especialmente no hemisfério norte, onde há muita terra, o ar contém partículas marinhas e terrestres. Isso é o que esperávamos encontrar no sul. 

Com os filtros congelados em segurança em nosso laboratório no Colorado, extraímos o DNA da bactéria e o sequenciamos para determinar quais espécies capturamos. Para nossa surpresa, as bactérias eram essencialmente todas as espécies marinhas que vivem no Oceano Antártico. Quase não encontramos bactérias terrestres. 

Se as bactérias eram do oceano, então elas eram as partículas formadoras de nuvens. Essa era a resposta que procurávamos. 

As partículas de nucleação de gelo são muito raras na água do mar e as partículas marinhas são muito boas para formar nuvens líquidas. Tendo principalmente partículas marinhas no ar, esperávamos que as nuvens fossem feitas majoritariamente de gotículas líquidas, que é o que observamos. Uma vez que a maioria dos modelos trata as nuvens nesta região da mesma forma que tratam as nuvens no hemisfério norte, que é mais empoeirado, não é de se admirar que os modelos estejam fora da realidade para essa região. 

Daqui para frente

Agora que sabemos que as nuvens do Oceano Antártico no verão estão sendo formadas por partículas puramente marinhas, precisamos descobrir se o mesmo é verdadeiro em outras estações e em altitudes mais elevadas. O projeto maior, que envolveu aviões e navios, deu aos cientistas atmosféricos uma ideia muito melhor das nuvens, tanto próximas à superfície do oceano quanto no alto da atmosfera. Os modeladores climáticos entre nós já estão incorporando esses novos dados em seus modelos e esperamos ter resultados para compartilhar em breve. 

Descobrir que as partículas transportadas pelo ar sobre o Oceano Antártico são principalmente provenientes do oceano é uma descoberta notável. Isso não apenas melhora os modelos climáticos globais, mas também significa que confirmamos que o Oceano Antártico é uma das regiões mais ambientalmente intocadas da Terra – um lugar que provavelmente mudou muito pouco devido às atividades humanas. Esperamos que nosso trabalho melhore os modelos climáticos, mas também forneça aos pesquisadores uma base de como é um ambiente marinho verdadeiramente intocado.

Por: Kathryn Moore, Jun Uetake e Thomas Hill. Fonte: The Conversation. Tradução: Maria Beatriz Ayello Leite (Ambiente Brasil).

Jeanne Baret, A Primeira Mulher a Circum-Navegar o Mundo, no Século XVIII, Por Seu Amor à Botânica

Aventureira francesa descobriu mais de 6.000 espécies de plantas em uma expedição, mas viajava vestida como homem, pois as mulheres eram proibidas de embarcar. 

Jeanne Baret representa a máxima expressão da simplicidade, do conhecimento, da aventura e também do erro. Criada num ambiente rural e analfabeto do centro da França, se tornou uma especialista em plantas e em suas propriedades curativas. 

Nasceu na pequena localidade de La Comelle, num dia como hoje, 27 de julho, 280 anos atrás, em 1740. Seus pais eram humildes camponeses que trabalhavam na sua pequena propriedade e também cuidavam das terras e do gado de latifundiários locais. Eles a ensinaram a identificar as plantas por suas propriedades curativas, e assim Jeanne virou uma especialista ― uma camponesa educada em medicina botânica. 

Com a morte dos pais, deixou o campo e começou a trabalhar como tutora do filho de Philibert Commerson, um famoso naturalista e botânico. A mudança de vida lhe permitiu continuar ampliando seus conhecimentos de botânica e a transformou em ajudante e amante de Commerson, com quem começou a viajar pela Europa. 

A importância de se chamar Bougainville

Poucos anos depois, ainda sendo ela muito jovem, Commerson foi nomeado botânico do rei Luis XVI. Sua fama foi crescendo, e a jovem Jeanne continuou aprendendo. Uma nova guinada em sua já novelesca vida ocorreu quando o botânico sueco Carl Linnaeus, que concebeu o sistema usado ainda hoje pela ciência para nomear organismos vivos, recomendou Commerson como botânico para uma viagem ao redor do mundo, patrocinada pelo Governo francês para buscar territórios desconhecidos, e que zarpou em 1766 sob o comando de Louis de Bougainville. 

Commerson queria que Baret viajasse com ele e o ajudasse a identificar e compilar espécies de plantas devido ao seu vasto conhecimento botânico, mas naquele momento as mulheres eram proibidas de navegar a bordo de navios da Marinha francesa. Baret e Commerson pensaram num plano, que consistiu em disfarçá-la como um rapaz, a quem chamaram Jean, envolvendo seus seios com ataduras e vestindo-a com roupa larga para ocultar seu gênero. 

Alcançado o objetivo, durante a viagem Baret teve que realizar trabalhos árduos, como qualquer outro integrante da expedição, incluído o transporte das pesadas e incômodas prensas de madeira, usadas para preservar os espécimes botânicos. A viagem teve escalas em lugares paradisíacos como Terra do Fogo, Taiti e ilhas Mauricio, onde a jovem Baret participou, ao lado de Commerson, na coleta de mais de 6.000 espécimes vegetais. 

Em muitos momentos da viagem, Commerson teve problemas de saúde e foi Baret quem assumiu as funções de botânico-chefe. Ela fez algumas das coletas mais notáveis da expedição, embora o reconhecimento sempre tenha sido para o titular do posto. De fato, Jeanne provavelmente merece o mérito da maior descoberta, a Bougainvillea brasiliensis, uma trepadeira com flores brilhantes e belas, nativa da América do Sul. 

Entretanto, nem tudo na expedição foi o clichê “de vento em popa”, já que, após dois anos de viagem, em 1768, a verdadeira identidade de Baret foi descoberta por uma tribo nativa no Taiti. Àquela altura, porém, já havia impressionado por seu trabalho físico como um membro qualquer da tripulação, e tão grande tinha sido a contribuição ao seu campo pelo material recolhido, que Bougainville, o comandante da expedição, decidiu não processá-la nem detê-la. 

Em troca, ela e Commerson foram obrigados a abandonar a expedição na colônia francesa da ilha Mauricio, no Índico, onde Commerson morreu em 1773 em decorrência dos seus graves problemas de saúde. Sozinha e sem recursos, Jeanne abriu um cabaré em Port Louis para ganhar a vida, e lá conheceu um oficial naval francês, Jean Dubernat, com quem se casou em 17 de maio de 1774. O casal regressou à França, completando assim a volta ao mundo em 1776, uma década após a partida. 

Jeanne Baret chegou a Paris com uma coleção de mais de 6.000 espécies vegetais, e o próprio rei Luis XVI a felicitou e lhe concedeu uma renda vitalícia. Entretanto, apesar da façanha, sua figura rapidamente caiu no esquecimento. 

Assim como ocorreu com outras francesas modernas que também foram pioneiras em diversas especialidades, Jeanne Baret viveu numa sociedade onde os homens exerciam seu poder sem pensar duas vezes, e as mulheres eram excluídas dos registros históricos. Baret foi muito capaz como botânica, mas talvez também fosse analfabeta, por isso sua história só se conservou através do testemunho de homens como Commerson e Bougainville, que escreveram sobre ela junto aos registros do diário de navegação e botânica. 

O príncipe de Nassau-Siegen, um nobre que também participou da expedição de Bougainville, foi outra das pessoas que escreveram sobre os feitos de Baret. “Quero lhe dar todo o crédito por sua valentia”, destacou em suas memórias. “Ela se atreveu a enfrentar a tensão, os perigos e tudo o que aconteceu que alguém poderia esperar de maneira realista numa viagem dessas. Acredito que sua aventura deveria ser incluída em uma história de mulheres famosas.” 

Durante a viagem, Commerson dedicou à sua assistente um arbusto da família Meliaceae, a Baretia bonnafidia. Entretanto, a planta mais tarde mudaria seu nome pelo de Turraea heterophylla, que seria sinônimo da Turraea floribunda. Desde aquela época, só as plantas descobertas por Commerson continuam sendo reconhecidas pela taxonomia. 

Embora Baret não tenha recebido menções por suas descobertas naquele momento, finalmente teve o reconhecimento que merecia quando uma nova espécie sul-americana da família da batata e do tomate, a Solanum baretiae, foi batizada em sua homenagem, em 2012. 

Jeanne Baret morreu em 5 de agosto de 1807, aos 67 anos, na pequena comuna de Saint-Aulaye, na região da Nova Aquitânia, com o único reconhecimento público de ter sido a amante do naturalista e botânico Philibert Commerson. Foi preciso que se passassem dois séculos para que o reconhecimento mundial da sua façanha de circum-navegar o mundo e das suas descobertas lhe valesse a justa fama que nunca teve em vida. Foi a publicação do livro O Segredo de Jeanne Baret (2010), da escritora Glynis Ridley, que tirou do anonimato a vida aventureira e o legado de uma grande mulher da ciência. 

 Por: Alberto López (El País). 

Com População em Declínio, Lobo-Guará Ganha Visibilidade ao Estampar Nota de R$ 200

No Brasil, a maior população de lobos-guarás está no Cerrado, com cerca de de 14 mil indivíduos. Contudo, o canídeo está ameaçado sobretudo pela perda de habitat e atropelamentos. 

Símbolo do Cerrado, a espécie vai estar mais próxima da população brasileira a partir de agosto de 2020. Conheça os hábitos e características do maior canídeo silvestre da América do Sul. 

O Chrysocyon brachyurus, conhecido popularmente como lobo-guará, vai estar ainda mais presente na vida dos brasileiros a partir de 2020. O animal, símbolo do Cerrado brasileiro, foi o escolhido para estampar a nova cédula de R$ 200, que deve ser lançada no fim do mês de agosto. Essa é a primeira vez, desde 2002, que o Banco Central institui um novo valor de cédula para a moeda brasileira. 

A notícia causou alvoroço nas redes sociais, mas o Banco Central não divulgou o desenho nem outros detalhes da nova cédula. Apesar de ser um animal emblemático do Cerrado, o lobo-guará tem uma distribuição ampla pelo território brasileiro. É possível encontrá-lo em áreas de transição com a Caatinga, Pantanal, Mata Atlântica, Pampa, além de Paraguai, Bolívia, Argentina e Uruguai. 

Essa é uma importante oportunidade de trazer visibilidade para a situação da espécie: apesar da ampla distribuição, a população dos lobos-guarás está declinando. 

Na lista de espécies ameaçadas do Ministério do Meio Ambiente, o mamífero figura na categoria de Vulnerável, embora conste também no catálogo da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) como Quase Ameaçada. Números estimados baseados em estudos de algumas áreas de ocorrência contabilizam 24 mil indivíduos sobreviventes em todo o Brasil. A situação da espécie é crítica sobretudo no Rio Grande do Sul do Brasil, onde estima-se que existam apenas 50 indivíduos. 

Canídeo de hábitos oportunistas

O lobo-guará é o maior canídeo silvestre da América do Sul e tem hábitos alimentares oportunistas. Caça tanto pequenos vertebrados – como roedores, aves e répteis – quanto artrópodes. Em alguns casos, foram encontrados restos de animais de grande porte, como veados-campeiros, nas fezes do lobinho. No entanto, pesquisadores não chegaram a um consenso sobre se os lobos-guarás atacam essas presas ou apenas consomem carcaças já mortas. 

No cardápio, também estão inúmeras frutas, como a fruta-do-lobo, ou lobeira. Os lobos-guarás as comem aos montes, e como elas saem quase intactas no cocô, eles desempenham um papel de dispersores e contribuem para a manutenção da espécie vegetal. Para caçar ou comer as frutinhas, os lobos preferem o fim da tarde e a noite. Em geral, fazem isso sozinhos, mas também podem estar acompanhados de um parceiro – são animais de hábitos monogâmicos – ao longo do período reprodutivo. 

Eles vivem em áreas que variam de 20 km² a 115 km², a depender da disponibilidade de alimentos, e são bastante territorialistas. Para marcar presença, usam fezes e urina, além de uma vocalização características que também serve para se comunicar com os parceiros e filhotes. Estes vêm em ninhadas de até cinco animais depois de uma gestação que não passa de 65 dias. 

O lobo-guará prefere áreas abertas para morar, como campos e matas de capoeira. Por conta disso, a espécie tem sido avistada em regiões de cultivos e pastagens onde antes havia florestas. O que não significa que eles estejam em uma situação confortável: alterações nos seus habitats, conflitos com humanos e atropelamentos fazem com que este número tenda a cair. 

Saiba mais 

  • Nome comum: Lobo-guará 
  • Nome científico: Chrysocyon brachyurus 
  • Tipo: mamífero 
  • Dieta: onívoro 
  • Tempo de vida médio na natureza: 12 anos 
  • Tamanho: entre 95 cm a 115 cm 
  • Peso: entre 20 kg e 33 kg 
  • Status de ameaça: quase ameaçado 
  • Tendência populacional: declinando


O Que São e Como Surgem as Zoonoses?

Muitas espécies de morcegos são responsáveis por carregar patógenos. 

Atualmente, sabe-se da existência de cerca de 200 zoonoses, doenças transmitidas de animais para seres humanos. E o número vem aumentando devido à influência do homem sobre o meio ambiente. 

Entre 60% e 70% de todas as doenças infecciosas são originárias de animais. "O sarampo também é uma delas", explica Isabella Eckerle, diretora do centro de novas doenças virais dos Hospitais Universitários de Genebra (HUG). "Acredita-se que a domesticação de animais vários milhares de anos atrás tenha feito com que o vírus do sarampo passasse para os seres humanos". Segundo Eckerle, é provável que muitos vírus tenham um passado como esse. 

Atualmente, sabe-se da existência de cerca de 200 zoonoses, mas o número vem aumentando. Vírus, bactérias, parasitas ou príons desencadeiam zoonoses. Raiva e tuberculose estão entre elas, mas também o HIV e a toxoplasmose, que é transmitida por gatos, ou a peste, uma das piores zoonoses do mundo. 

No século 14, a peste, que é transmitida por pulga de ratos, matou mais de 50 milhões de pessoas. Apesar de erradicada na Europa, esta doença infecciosa ainda é devastadora em algumas regiões da África, Ásia e Américas. Madagascar, por exemplo, registrou 120 mortes por peste em 2017. 

Várias vias de transmissão 

Uma zoonose pode se espalhar não só através do contato direto dos animais com os seres humanos, mas também ao ser transportada pelo ar ou por alimentos contaminados. Tais patógenos podem ser encontrados em produtos de origem animal, como leite, carne ou ovos. Se os alimentos não são suficientemente aquecidos ou caso sejam preparados em condições insalubres, podem se tornar uma fonte perigosa de infecção. É assim que doenças como Salmonela se propagam com facilidade. 

Outra variante são os chamados vetores. Eles transportam o patógeno do hospedeiro para os humanos, mas não adoecem. Carrapatos são um exemplo típico. Ao morderem, pode acontecer de eles transmitirem os patógenos da chamada encefalite do carrapato e da doença de Lyme para os seres humanos. Mosquitos também são vetores. Alguns deles transmitem malária, outros, por exemplo, doença do sono. 

Animais selvagens 

Desde a Sars, em 2003, pelo menos, que pesquisadores vêm estudando animais selvagens responsáveis pela difusão de várias doenças. Roedores e morcegos se tornaram o foco dos cientistas. 

"Existem muitas espécies de morcegos e mais de mil espécies de roedores que carregam patógenos. É claro que sempre existem aqueles que permanecem em seu hospedeiro original, mas também existem os que infectam seres humanos", aponta Eckerle. 

Produto do homem 

A globalização, o comércio global e o desejo de viajar aproximaram pessoas de diferentes culturas e continentes. E precisamos de mais e mais espaço e matérias-primas. Nós devastamos florestas tropicais, destruímos ecossistemas e, assim, privamos muitos animais selvagens de seus habitats. "A antiga fronteira natural que havia entre humanos e animais exóticos já não existe mais", afirma Eckerle. 

Muitas novas zoonoses surgem devido a um desequilíbrio no ecossistema. "Quando há um ecossistema intacto com muitas espécies diferentes de animais, um vírus tem pouca oportunidade de mudar de hospedeiro e saltar diretamente para os seres humanos", explica a cientista. 

Animais de exploração e animais de estimação 

Nem mesmo em nossos entornos estamos imunes a patógenos perigosos. O gado, por exemplo, é hospedeiro intermediário. Uma vez que um patógeno tenha conseguido penetrar num rebanho, é provável que também dê o próximo passo, entre no corpo dos seres humanos e possibilite assim a infecção de humano para humano.

 O gado é o hospedeiro intermediário ideal.

Mas não só os animais de fazendas, como também os animais de estimação, como cães e gatos, podem ser uma fonte de zoonoses. A toxoplasmose, uma doença perigosa transmitida por gatos, é um exemplo. "Existem várias bactérias e parasitas que podemos adquirir de animais de estimação. Essas zoonoses, no entanto, nós conhecemos muito bem, pois estudamos animais de estimação há muito tempo", disse Eckerle. 

A virologista enfatiza que o risco é controlável. Bastaria, por exemplo, não deixar que os animais durmam na cama com seus donos e lavar as mãos com frequência. 

Perigos em particular 

"Acho que as zoonoses mais comuns são aquelas sobre as quais não ouvimos falar muito, porque não passam de pessoa para pessoa. Para a pessoa infectada, geralmente é trágico ou grave, mas para a população como um todo, não é um grande risco ", explica Eckerle. 

Afinal, muitos patógenos têm pouco potencial de passarem de uma pessoa para outra. Tais zoonoses podem ser contidas de maneira muito eficaz, pois os médicos podem testar as pessoas com relativa facilidade. A situação é diferente quando ocorre uma pandemia, como no caso da covid-19. "Agora é o coronavírus, mas talvez, dentro de alguns anos, seja um outro vírus. O problema é muito mais o que fazemos com isso", resume. 

É preciso esclarecer a população sobre como se manter longe de animais selvagens ou patógenos. "Precisamos garantir que os ecossistemas sejam preservados", salienta. "É uma situação semelhante à mudança climática. Sabemos que não podemos continuar assim e que precisamos tomar medidas urgentes. Mas, por alguma razão, não conseguimos e não levamos isso a sério até que seja tarde demais".

Por: Gudrun Heise (Deutsche Welle).

Efeitos das Mudanças no Clima Global e a Ocorrência do Novo Coronavírus: Teria Uma Coisa a Ver Com a Outra?

Os últimos 5 anos foram os mais quentes do registro histórico. O volume de gelo no Ártico no verão é, hoje em dia, 70% menor do que há apenas 4 décadas. Tempestades, como furacões e chuvas extremas, têm se intensificado, em paralelo com ondas de calor, secas e incêndios florestais, como o que transformou a Austrália recentemente num inferno, ceifando a vida não apenas de seres humanos, mas de cerca de um bilhão de animais. O avanço do nível do mar também já produz efeitos visíveis na linha de costa em vários locais do mundo. Corais estão sofrendo com eventos de branqueamento cada vez mais frequentes e a acidificação dos oceanos avança, ameaçando a biota marinha. 

Sabe-se, pelo menos desde o final do século passado, que o aumento incessante das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera do nosso planeta iriam produzir esses efeitos, e que os mesmos se agravam ano após ano, especialmente se nada for feito. Os cientistas alertaram sucessivamente, através dos relatórios produzidos pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) que a única saída seria reduzir as emissões de gases de efeito estufa, especialmente o CO₂ proveniente da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento. 

Há pelo menos 3 décadas, no esforço construído em torno do IPCC, a comunidade científica internacional vem somando esforços para entender as bases físicas das alterações climáticas, identificar potenciais impactos e vulnerabilidades de sistemas naturais e humanos, propor soluções para conter o aumento da temperatura média global, e reduzir os seus efeitos negativos sobre o meio ambiente e o modo de vida das pessoas. Em 8 de outubro de 2018, na Coréia do Sul, o IPCC divulgou um relatório, considerado o mais importante já publicado abordando as mudanças climáticas, no qual avalia as perspectivas globais de limitar o aquecimento global a 1,5ºC em relação ao Período Pré-Industrial. No referido documento, o IPCC ressalta o aprimoramento e a urgência nas tomadas de decisões dos governos em relação ao Acordo de Paris, deixando claro que um cenário de 1,5°C é mais seguro que 2°C no que diz respeito à impactos climáticos. De fato, as estimativas científicas apontam que caso as temperaturas globais aumentem 2°C acima dos níveis pré-industriais, as consequências serão ainda mais catastróficas, incluindo a escassez de alimento e de água, e desastres naturais potencializados pela ação humana, por exemplo, aqueles que causam impactos diretos na saúde. Em suma, todas essas questões, no fim das contas, envolvem saúde pública. 

Projeções científicas apontam ainda que as mudanças no clima devem implicar no aumento tanto na quantidade quanto na diversidade dessas epidemias, principalmente de doenças infecciosas transmitidas por vetores, como a malária, dengue e Zika. Em 2015, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia publicado um relatório Investing to overcome the global impact of neglected tropical diseases, o qual alertava para o perigo da relação entre o aquecimento global e doenças tropicais negligenciadas. Segundo esse documento, com o aumento da temperatura, a zona de clima tropical do planeta deverá se expandir paulatinamente, ampliando também as áreas acometidas por doenças. Esse relatório conclui que as mudanças climáticas constituem a maior ameaça à saúde mundial do século XXI, cujas estimativas apontam 250 mil mortes por ano até 2030. 

Estudos diversos apontam que ecossistemas modificados pela intervenção humana, além de potencializarem a disseminação de doenças emergentes, podem também contribuir para a propagação de outras doenças associadas, que podem afetar o sistema imunológico e atingir a saúde humana como um todo. Além disso, sabe-se que os impactos antrópicos associados à crise climática também levam à insegurança alimentar, e como resposta à nova realidade ambiental, as pessoas tendem a buscar fontes alternativas de alimento, tais como a inserção de animais silvestres na sua dieta. É exatamente em cenários como estes que emergem as chamadas pandemias, doenças infecciosas cuja ocorrência extrapola fronteiras geográficas, atingindo pessoas ao redor do mundo. Entre 1918 e 1920, por exemplo, estima-se que de 50 a 100 milhões de pessoas tenham morrido na pandemia da Gripe Espanhola, um número superior a quantidade de civis e militares que morreram durante a 1ª Guerra Mundial (aproximadamente 17 milhões de vítimas); e em 2009, especialistas apontam que milhões de pessoas ao redor do mundo tenham sido infectadas – e centenas delas tenham sido mortas – pela Gripe Suína, pandemia causada pelo vírus Influenza H1N1. 

De acordo o último Relatório Anual sobre Preparação Global para Emergências em Saúde (2019), “doenças propensas a epidemias, como gripe, doenças respiratórias agudas graves (SARS), Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), Ebola, Zika, febre amarela e outros, são precursores de uma nova era de alto impacto, surtos potencialmente de rápida disseminação que são mais frequentemente detectados e cada vez mais difícil de gerenciar”. A passagem desses vírus para o ser humano é facilitada quando travamos contato mais frequente com espécies silvestres por conta do desmatamento e degradação ambiental em associação principalmente com a expansão da fronteira agrícola e quando mantemos bilhões de animais geneticamente similares em confinamento (“gripe suína”, “gripe aviária” etc.). Além disso, a rápida disseminação de vírus perigosos só é possível graças à hipermobilidade produzida por nosso modo de vida intensivo em carbono. 

Atualmente, enfrentamos o preocupante novo coronavírus (SARS-COV-2), pandemia que já soma mais de 1 milhão mortes em todo o mundo. Para este caso, há indícios de que o vírus pode ter “saltado” de determinados grupos de animais silvestres para as pessoas, a partir do momento que estes foram inseridos como alimentação alternativa para alguns grupos humanos, bem como os locais insalubres onde tais animais eram mantidos para venda e posterior abate. Em se confirmando tais indícios, ficará evidenciado, mais uma vez, que determinadas atitudes humanas – tais como invadir ambientes habitados por milhares de outros organismos, bem como utilizá-los como alternativa a mudanças provocadas por nós mesmos – têm efeitos nocivos à natureza em geral, com implicações diretas a nossa própria saúde. 

Esse cenário de pandemia do SARS-COV-2 está imprimindo à sociedade uma mudança emergencial introduzindo novos hábitos, que poderão constituir a longo prazo para minimizar a crise climática, como trabalhar de casa, videoconferências, jornadas semanais mais breves ou horários de escritório alternados para reduzir o tráfego. Mostra também que boa parcela da produção e circulação de bens materiais é supérflua, predatória e perfeitamente dispensável e revela que mecanismos de proteção social como a renda universal pode proteger trabalhadores de setores cujas atividades precisam ser ou drasticamente reduzida ou encerrada (petróleo, mineração de carvão, etc). Mas estamos longe de resolver a crise climática, tendo em vista que para isso somente uma mudança de atitude global poderia resolver o problema. Mesmo considerando uma projeção de queda de 8% nas emissões ao final deste ano, o aumento da concentração de CO2 na atmosfera seria apenas ligeiramente freado, sendo necessários cortes da ordem dessa porcentagem por anos a fio para mantermos chances de conter o aquecimento global. 

Que legado deixaremos às futuras gerações? Um mundo ingovernável, com eventos extremos, milhões de refugiados climáticos e pandemias frequentes? Em que não saberemos se devemos dizer “fique em casa” (para evitar contágio numa pandemia) ou “evacuem suas casas” (diante de um furacão ou incêndio florestal)? É preciso afirmar com todas as letras: como solução consistente e de longo prazo para essas duas crises – climática e sanitária – não há outro “medicamento” ou “vacina” senão mudanças de atitudes, o que exige uma autocrítica profunda acerca do nosso papel enquanto “seres pensantes” na manutenção do equilíbrio ecológico-social-econômico do nosso Planeta, cuja dinâmica sistêmica é limitada – atuando à base de fluxos (de matéria e energia) e de ciclos (carbono, nitrogênio, etc.) – em um sistema capitalista expansionista, cuja lógica é baseada na geração, concentração e acumulação de bens e riqueza a curto prazo. Nossa percepção no que diz respeito à centralidade do colapso ecológico tem que ser ampliada e a mudança no nosso modo de nos relacionarmos com a natureza, radicalmente alterada. Já! 

Por: Henrique Fernandes de Magalhães; biólogo, professor substituto do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB) e doutorando em Etnobiologia e Conservação da Natureza pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Regina Célia da Silva Oliveira: bióloga e doutora em Etnobiologia e Conservação da Natureza pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Alexandre Araújo Costa: físico, doutor em Ciências Atmosféricas pela Colorado State University System e professor titular do Centro de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Fonte: EcoDebate.

A Ilha Remota Entre África e Brasil Que Tem Lições Para o Futuro do Meio Ambiente

A Ilha da Ascensão fica localizada no meio do Atlântico entre Brasil e Angola.

Vista do mar, a Ilha de Ascensão parece estar ardendo em chamas, uma paisagem tão aparentemente hostil que rendeu ao local um apelido capaz de espantar qualquer turista: "inferno do fogo apagado". 

Elevando-se acima de crateras adormecidas, depósitos piroclásticos e picos de lava, a Montanha Verde, com 859 metros de altura, e sua vegetação frondosa chamam atenção em meio à ilha carbonizada. São também uma prova da engenhosidade dos seres humanos e da resiliência da natureza. 

Plantada no topo de uma colina devastada há cerca de 160 anos, a floresta que começou por um capricho passou a atrair a atenção de cientistas de todo o mundo. 

A Montanha Verde dá uma esperança de que ecossistemas criados pelo homem possam melhorar o meio ambiente. 

À medida que a crise climática destrói paisagens e gera catástrofes, a próspera selva de Ascensão reforça o argumento de que talvez possamos regenerar uma floresta usando conceitos deste lugar remoto e muitas vezes esquecido. 

A Ilha da Ascensão surgiu do Oceano Atlântico cerca de 1 milhão de anos atrás. Localizada no meio do caminho entre Angola e Brasil, ela recebeu esse nome quando foi redescoberta por Afonso de Albuquerque no Dia da Ascensão em 1503 (ela havia sido identificada pela primeira vez em 1501). 

Durante muito tempo, foi ocupada apenas por aves marinhas e tartarugas verdes que viajam milhares de quilômetros a partir do Brasil para procriar ali. 

Os primeiros habitantes humanos chegaram em 1815, quando a Marinha Real Britânica montou acampamento para vigiar Napoleão, que estava exilado quase 1,3 mil quilômetros a sudeste, na ilha de Santa Helena. 

Ascensão tornou-se um ponto de parada útil para os navios. Mas, durante sua visita em 1836, Charles Darwin apontou a falha mais óbvia da ilha: sua ausência de árvores, o que a tornou um lugar difícil de se viver.

Montanha Verde é um ecossistema criado pelo homem, onde espécies introduzidas e plantas nativas evoluíram juntas. 

Transformação pela chuva

Inspirado pelas teorias de seu amigo Darwin sobre transformar a paisagem árida em um jardim, o botânico Joseph Hooker apresentou o plano de plantar mudas de todo o mundo ali. As árvores poderiam "capturar" as nuvens e aumentar as chuvas na ilha, tornando-a habitável. 

O plano foi um sucesso. Em 1860, John Bell, horticultor da ilha, supervisionou o plantio de cerca de 27 mil árvores e arbustos, o que resultou no desenvolvimento de solo suficiente para o cultivo. 

Foi a oportunidade de visitar essa floresta peculiar e pouco conhecida que levou minha família a Ascensão, que agora tem cerca de 900 habitantes, entre militares americanos e britânicos e funcionários civis. 

Deixando nosso veleiro ancorado em Clarence Bay, dirigimos através de uma paisagem lunar ofuscante, passando pelos fluxos de lava, pelas crateras vulcânicas e pelos burros selvagens que vagam pelo deserto em busca de comida, até começar a subir a Montanha Verde. 

Ali, a luz do sol era suavizada pela névoa e depois apagada pela chuva irregular. A estrada nos levou a uma floresta de casuarinas e acácias, e depois para uma densa selva pontuada por bananas, gengibre, zimbro, framboesa, café, samambaias e figos. 

Os cactos acrescentam cor à paisagem árida da ilha. 

Depois de estacionar, partimos para a caminhada. Encontrando ocasionalmente ovelhas selvagens, seguimos uma trilha fresca e enevoada, cheia de teixos e pinheiros, descendentes de algumas das mudas que Hooker aconselhou aos britânicos transportar para Ascensão a partir de jardins botânicos de todo o mundo. A floresta parecia enganosamente antiga. 

De acordo com os princípios ecológicos tradicionais, essa mistura de gramíneas e samambaias endêmicas com mais de 300 espécies não nativas nunca poderia ter evoluído para um ecossistema próspero. Florestas complexas levam milhões de anos para se desenvolver. 

Mas o ecossistema artificial da Montanha Verde, onde espécies introduzidas e plantas insulares parecem ter evoluído juntas, não se encaixa nesse paradigma.

Os Estados Unidos têm uma base aérea na ilha. 

Contrariando o 'normal'

"O que você vê ali é algo que não despertaria o interesse de pesquisadores tradicionais", diz Dave Wilkinson, professor de ecologia da Universidade de Lincoln, no Reino Unido. 

"Porque é algo completamente dominado por espécies não nativas, e os ecologistas se concentram nos ambientes naturais, não em coisas que não deveriam estar onde estão. Isso seria considerado algo negativo." 

Até recentemente, conservação significava livrar-se de espécies invasoras e permitir que a paisagem voltasse ao modo como era antes da intervenção humana. 

Mas uma visita casual à Ilha de Ascensão em 2004 fez Wilkinson pensar nessa perspectiva "natural versus invasores".

Ascensão é uma ilha de origem vulcânica. 

"A Montanha Verde é um exemplo muito dramático de algo bastante comum: em grande parte do mundo, espécies não nativas são uma parte funcional do ecossistema." 

Wilkinson desenvolveu a ideia em seu controverso artigo de 2004 para o periódico Journal of Biogeography, A Parábola da Montanha Verde, no qual desafia a teoria de que as espécies introduzidas em um local não pertencem àquilo e propõe o argumento de que ecossistemas artificiais, como a Montanha Verde, poderiam desempenhar um papel importante em nosso futuro. 

Nos anos seguintes, essa ideia ganhou força e, em 2006, o termo "novo ecossistema" foi desenvolvido pelo renomado ecologista Richard Hobbs para descrever lugares como a Montanha Verde, que foram irreversivelmente alterados pela intervenção humana - e talvez não precisem ser consertados. 

Anna Bäckström, ecologista sênior do grupo de pesquisa científica ICON, da Universidade RMIT, na Austrália, diz que os proponentes de uma nova abordagem de ecossistema têm uma visão pragmática da conservação. "O conceito oferece mais flexibilidade", explica ela. 

Dadas as mudanças climáticas, o impacto humano e a pequena quantidade de fundos geralmente disponíveis para conservação, Bäckström diz que, ao aceitar as mudanças que os humanos fizeram, a restauração ecológica é mais gerenciável. 

"A paisagem não precisa voltar ao que era. Nós apenas queremos diversidade e equilíbrio." 

Essa ideia de que o serviço que um ecossistema fornece - como controle de enchentes, sequestro de carbono ou polinização - é mais importante do que a condição primitiva de uma floresta está sendo adotada mais amplamente à medida que os ecossistemas são jogados no caos pelos incêndios, tempestades e doenças provocadas pela crise climática.

Os burros foram introduzidos na Ilha da Ascensão no início do século 19 e agora vagam pelas montanhas. 

"Se um grupo de plantas sobreviver e algumas delas não forem nativas, não queremos arrancá-las", diz Bäckström. "A diversidade no ecossistema é mais importante que a origem de uma planta." 

Indo ainda mais longe, Wilkinson diz que essa nova abordagem permite que os ecologistas tenham algum controle sobre forças que podem moldar os ecossistemas do futuro. 

"Vinte anos atrás, os conservacionistas nunca cogitariam plantar espécies não nativas, mas agora sabemos o valor de ter uma mistura de árvores em um local, porque, se um patógeno, fogo ou animais o atacam, nem tudo é perdido", diz ele.

A ilha tem uma população de cerca de 900 pessoas e uma única escola. 

Com uma abordagem inovadora do ecossistema, os conservacionistas têm a liberdade de reconstruir uma planície que antes ficava inundada e que secou com espécies resistentes à seca ou replantar uma paisagem devastada pelo fogo com plantas que prosperam em uma região mais quente. 

O experimento da Montanha Verde, onde as plantas de diferentes lugares foram reunidas em um mesmo lugar e, de alguma forma, prosperaram, talvez possa ser replicado. 

Isso nos aponta que ideias polêmicas - como a da China, de plantar bilhões de árvores para conter o avanço do deserto; ou o esforço da Austrália para que as pessoas plantem espécies e plantas não nativas para conter o avanço de incêndios - devem ser analisadas com mais cuidado. 

A proposta feita por Darwin e Hooker nos diz que, quando se trata de sobrevivência, às vezes, não há problema em experimentar algo novo.

Por: Diane Selkirk (BBC).

Neodímio, O Valioso Mineral Raro Escondido Dentro de Computadores

Metais de terra rara valiosos são encontrados em discos rígidos.

O que se deve fazer com velhos discos rígidos de computadores quando eles chegam ao fim de sua vida útil? 

Se dependesse de Allan Walton, partes deles seriam usadas para ajudar a movimentar carros elétricos. 

O professor da Universidade de Birmingham é diretor da empresa Hypromag, que extrai e recicla ímãs de neodímio presentes em discos rígidos. 

O neodímio é um metal de terra rara - um elemento químico que é considerado um ingrediente essencial em muitas das tecnologias que usamos hoje, como smartphones e televisões. O neodímio é usado, entre outras coisas, para produzir ímãs que fazem os motores de carros elétricos girarem. 

Walton acredita que nos próximos dez anos sua empresa poderá estar reciclando neodímio suficiente para atender a um quarto da demanda britânica - que hoje é quase toda suprida por importações da China. 

Carros elétricos são geralmente tidos como mais ecológicos do que os que usam motor de combustão interna. Isso pode até ser verdade na comparação com carros prontos, mas quando se fala na fabricação de carros elétricos - que envolve a produção de ímãs com metais de terra rara - eles não são nada ecológicos. 

Lago tóxico

Os processos usados para refinar terras raras usam os mesmos químicos encontrados em limpadores de fogão e cosméticos, mas os resíduos produzidos podem ser destrutivos se não controlados propriamente. 

Em um local de mineração, em Bayan Obo, na Mongólia, os resíduos formaram um grande lago tóxico. Perto da mina existe uma barragem usada para estocar os resíduos. 

Indústrias como a de aço e alumínio já têm programas de reciclagem com capacidade de reduzir o processamento químico. No entanto, no caso de minerais de terra rara existe pouca reciclagem. 

Há quatro anos, o professor Walton e seu mentor, o professor Rex Harris, descobriram que o uso de gás de hidrogênio em discos rígidos faz com que os ímãs se esfarelem, permitindo que eles sejam colhidos e remontados, formando novos ímãs. 

Esse processo não só é mais ecológico como pode ser bastante rentável. 

Este ano a Hypromag pretende anunciar um acordo com a fabricante britânica de carros Bentley. 

Ela recebeu um aporte de 2,6 milhões de libras (cerca de R$ 17 milhões) do órgão britânico de apoio a inovações Innovate UK e meio milhão de libras (R$ 3,2 milhões) de uma mineradora africana, a Mkango. 

No entanto a solução da Hypromag só atende a uma fração da demanda crescente por terras raras. Algumas estimativas indicam que essa demanda pode dobrar até 2025. 

Walton acredita que se o Reino Unido agir agora, o país poderá ser um líder global em reciclagem de terras raras. 

O 'novo petróleo'?

Imãs de neodímio.
A oportunidade é grande, com a chegada de tecnologias como 5G demandando muitos minerais, além de toda a indústria já existente de telefones, microprocessadores e turbinas de vento. 

No entanto, um dos principais motivos pelos quais algumas pessoas comparam terras raras a petróleo é o crescimento enorme da indústria de veículos elétricos.  Depois de 2025, a Holanda tem como meta não vender novos carros movidos a combustíveis fósseis. O Reino Unido e a França prometeram atingir esta meta até 2040. Neste ano, a China quer que 12% dos carros vendidos sejam de emissão zero. 

A China é a líder mundial na produção de terras raras e de ímãs feitos a partir delas. O motivo disso é que a China consegue extrair e produzir tudo localmente. É o único país capaz de fazer isso. Mais de 70% dos produtos com terras raras no mundo são exportados pela China. 

Sua cadeia de suprimento produz preços que ninguém consegue bater. Terras raras são componentes importantes no plano Made in China 2025, para estabelecer o país como líder industrial mundial. 

Apesar disso, a China não possui tipos mais pesados de metais raros, que são os que estão em maior demanda agora, como neodímio. 

A China importa a maior parte do seu neodímio de Mianmar e dos Estados Unidos, segundo Christopher Ecclestone, que é estrategista de mineração da empresa Hallgarten. 

A mina de Mountain Pass, na Califórnia, vende 100% de suas terras raras concentradas para a China - e a mina é em parte propriedade da chinesa Shenghe Resources, que possui 9,9% das ações. 

"Os Estados Unidos são uma das maiores fontes de terra rara para a China, e os chineses estão comprando tudo quase de graça. Isso está enlouquecendo o Pentágono", diz Ecclestone. 

O que colocou a China em uma posição de domínio nesse mercado foi o fato de que as terras raras são um subproduto de minas já estabelecidas, diz Ian Higgins, que é diretor da empresa britânica Less Common Metals. 

A companhia é uma das únicas produtoras fora da China que combina terras raras para formação de ligas. Ele diz que as minas chinesas são financiadas com subsídios governamentais e práticas obscuras de contabilidade. 

Mesmo com a melhora nas políticas ambientais chinesas, muitas dessas grandes minas foram construídas antes da implementação de novas regras. 

"Existe muito processamento de terras raras que ainda é horrível e existe muito mercado negro para contrabando de terras raras mais pesadas", diz Higgins. 

Mas ele diz que o país está finalmente acordando para o impacto ambiental dessa indústria. 

A pandemia de coronavírus fez com que a linha de produção global parasse subitamente. Mas isso também ajudou produtores a questionar as cadeias de suprimento global e a forma como todos dependem apenas de um país para obter terras raras. 

Os Estados Unidos, o Reino Unido e a Europa estão tentando construir suas cadeias de suprimento. 

No dia 13 de maio, um projeto de lei com previsão de benefícios fiscais foi apresentado nos Estados Unidos - com algo na ordem de US$ 50 milhões (R$ 260 milhões) de financiamento para novas minas americanas. 

Na Europa, o fundo Horizon 2020 tenta estabelecer uma cadeia de suprimento em diversos países.

Por: Nell Mackenzie (BBC).

Volume de Resíduos Eletrônicos Aumenta Mais de 21% em 5 Anos no Mundo

Em 2019, apenas 17,4% dos resíduos eletrônicos foram coletados e reciclados no mundo. Isso significa que ouro, prata, cobre, platina e outros materiais recuperáveis de alto valor, avaliados em 57 bilhões de dólares, foram principalmente descartados ou queimados, em vez de coletados para tratamento e reutilização. 

Desde 2014, o número de países que adotaram uma política, legislação ou regulamentação nacional de resíduos eletrônicos aumentou de 61 para 78. Embora seja uma tendência positiva, isso está longe da meta estabelecida pela União Internacional de Telecomunicações (UIT) de aumentar para 50% o percentual de países com uma legislação sobre resíduos eletrônicos. 

Um recorde de 53,6 milhões de toneladas métricas (Mt) de resíduos eletrônicos foi gerado em todo o mundo em 2019, o que representa um aumento de 21% em apenas cinco anos, de acordo com o Global E-waste Monitor 2020 das Nações Unidas, divulgado no dia 02/07/2020. 

O novo relatório também prevê que os resíduos eletrônicos globais – produtos descartados com bateria ou plugue – totalizarão 74 milhões de toneladas em 2030, quase dobrando em apenas 16 anos. 

Isso implica os resíduos eletrônicos como a categoria de resíduos domésticos que mais cresce no mundo, alimentada principalmente por maiores taxas de consumo de equipamentos elétricos e eletrônicos, ciclos de vida curtos e poucas opções de reparo. 

Em 2019, apenas 17,4% dos resíduos eletrônicos foram coletados e reciclados. Isso significa que ouro, prata, cobre, platina e outros materiais recuperáveis de alto valor, avaliados em 57 bilhões de dólares – um montante superior ao PIB de alguns países – foram principalmente descartados ou queimados, em vez de coletados para tratamento e reutilização. 

Segundo o relatório, a Ásia gerou o maior volume de resíduos eletrônicos em 2019 – cerca de 24,9 milhões de toneladas (Mt), seguido pelas Américas (13,1 Mt) e Europa (12 Mt), enquanto África e Oceania geraram 2,9 Mt e 0,7 Mt, respectivamente. 

Para efeitos comparativos, os resíduos eletrônicos do ano passado pesavam substancialmente mais do que todos os adultos da Europa, ou 350 navios de cruzeiro do tamanho do Queen Mary 2, o suficiente para formar uma fila de 125 km de comprimento. 

Os resíduos eletrônicos são um risco à saúde e ao meio ambiente, contendo aditivos tóxicos ou substâncias perigosas, como o mercúrio, que danificam o cérebro e/ou o sistema de nervoso humano. 

Outras descobertas-chave do Global E-waste Monitor 2020: 

• O gerenciamento adequado de resíduos eletrônicos pode ajudar a mitigar o aquecimento global. Em 2019, cerca de 98 Mt de equivalentes de CO2 foram lançados na atmosfera a partir de geladeiras e aparelhos de ar condicionado descartados, contribuindo para aproximadamente 0,3% das emissões globais de gases de efeito estufa. 

• Em termos per capita, foram descartados no último ano, em média, 7,3 kg de resíduos eletrônicos para cada homem, mulher e criança na Terra. 

• A Europa ocupou o primeiro lugar no mundo em termos de geração de resíduos eletrônicos per capita, com 16,2 kg per capita. A Oceania ficou em segundo lugar (16,1 kg), seguida pelas Américas (13,3 kg). Ásia e África ficaram mais abaixo no ranking, com 5,6 e 2,5 kg, respectivamente. 

• O lixo eletrônico é um risco à saúde e ao meio ambiente, contendo aditivos tóxicos ou substâncias perigosas, como o mercúrio, que danifica o cérebro e/ou o sistema nervoso humano. Estima-se que, anualmente, 50 toneladas de mercúrio – usado em monitores, PCBs e lâmpadas fluorescentes ou de baixo consumo energético – estejam contidas em fluxos não documentados de resíduos eletrônicos. 

• Os resíduos eletrônicos de 2019 são compostos principalmente por pequenos equipamentos (17,4 Mt), grandes equipamentos (13,1 Mt) e equipamentos de troca térmica (10,8 Mt). Telas e monitores, pequenos equipamentos de Tecnologias da Informação (TI) e de telecomunicações e lâmpadas representaram 6,7 Mt, 4,7 Mt e 0,9 Mt, respectivamente. 

• Desde 2014, as categorias de resíduos eletrônicos que crescem mais rapidamente em termos de peso total são: equipamentos de troca térmica (+7%), equipamentos grandes (+5%), lâmpadas e equipamentos pequenos (+4%). Segundo o relatório, essa tendência é impulsionada pelo crescente consumo desses produtos em países de baixa renda, onde esses produtos tendem a melhorar a qualidade de vida. Pequenos equipamentos de TI e telecomunicações cresceram mais lentamente, e as telas e monitores mostraram uma ligeira queda (-1%), explicada em grande parte pela substituição de telas pesadas e monitores de tubos de raios catódicos (CRT) por telas planas mais leves. 

• Desde 2014, o número de países que adotaram uma política, legislação ou regulamentação nacional de resíduos eletrônicos aumentou de 61 para 78. Embora seja uma tendência positiva, isso está longe da meta estabelecida pela União Internacional de Telecomunicações (UIT) de aumentar para 50% o percentual de países com uma legislação sobre resíduos eletrônicos. 

O Global E-waste Monitor 2020 (www.globalewaste.org) é fruto da parceria da Aliança Mundial para o Controle Estatístico dos Resíduos Eletrônicos (AMCERE), formada pela Universidade das Nações Unidas (UNU), a União Internacional de Telecomunicações (UIT) e a Associação Internacional de Resíduos Sólidos (ISWA), em estreita colaboração com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério de Cooperação Econômica e Desenvolvimento (BMZ) da Alemanha também contribuíram substancialmente para o Global E-waste Monitor 2020

“As conclusões do Global E-waste Monitor deste ano, filiado à UNU, sugerem que a humanidade não está implementando suficientemente os ODS. Esforços substancialmente maiores são urgentemente necessários para garantir que a produção, o consumo e o descarte de resíduos elétricos e eletrônicos sejam mais inteligentes e sustentáveis em escala global. Este relatório contribui fortemente para o senso de urgência em mudar esse perigoso padrão global”, disse David M. Malone, reitor da Universidade das Nações Unidas (UNU) e subsecretário-geral da ONU. 

Nikhil Seth, diretor-executivo do Instituto das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa (UNITAR), lembrou que na maior parte do mundo, muito mais resíduos eletrônicos são gerados do que reciclados de maneira segura. “São necessários mais esforços cooperativos para visibilizar esse crescente problema e tomar medidas adequadas, apoiadas por pesquisa e treinamento adequados. Estou satisfeito que o UNITAR agora se junte a esta importante Aliança Mundial para o Controle Estatístico dos Resíduos Eletrônicos da UNU, ITU e ISWA, ilustrando o quanto essas atividades são valiosas.” 

Para Doreen Bogdan-Martin, diretora do Escritório de Desenvolvimento de Telecomunicações da UIT, o Global E-waste Monitor destaca a questão premente do gerenciamento dos resíduos eletrônicos no mundo digitalmente conectado de hoje, no qual a maneira como produzimos, consumimos e descartamos dispositivos eletrônicos se tornou insustentável. 

“O monitoramento dos fluxos de resíduos eletrônicos contribuirá para a consecução dos ODS e para o acompanhamento da implementação da Agenda Conectar 2030 da UIT. O Monitor serve como um recurso valioso para que os governos melhorem suas taxas globais de reciclagem de resíduos eletrônicos, desenvolvendo as políticas e a as legislações necessárias/requeridas. A UIT continuará apoiando os esforços feitos neste relatório em direção à resposta global necessária na identificação de soluções para os resíduos eletrônicos”. 

Antonis Mavropoulos, presidente da Associação Internacional de Resíduos Sólidos (ISWA), lembrou que a quantidade de resíduos eletrônicos está aumentando três vezes mais rápido que a população mundial e 13% mais rápido que o PIB mundial durante os últimos cinco anos. 

Segundo ele, esse aumento acentuado cria pressões ambientais e de saúde substanciais e demonstra a urgência de combinar a quarta revolução industrial com a economia circular. “A quarta revolução industrial promoverá uma nova abordagem da economia circular para nossas economias ou estimulará o esgotamento de recursos e novas ondas de poluição. O progresso alcançado no monitoramento de lixo eletrônico pela Aliança Mundial para o Controle Estatístico dos Resíduos Eletrônicos é um sinal de esperança de que o mundo possa não apenas monitorar de perto o aumento dos resíduos eletrônicos, mas também controlar seus impactos e estabelecer sistemas de gestão adequados”. 

Para Maria Neira, diretora do Departamento de Meio Ambiente, Mudanças Climáticas e Saúde da OMS, a reciclagem informal e inadequada de resíduos eletrônicos é um grande risco emergente que afeta silenciosamente nossa saúde e a das gerações futuras. 

“Uma em cada quatro crianças está morrendo devido a exposições ambientais evitáveis. Uma em cada quatro crianças pode ser salva se agirmos para proteger sua saúde e garantir um ambiente seguro. A OMS tem o prazer de unir forças neste novo Global E-waste Monitor para permitir que evidências, informações sobre impactos na saúde e soluções e políticas conjuntas sejam disponibilizadas para proteger a saúde de nossas futuras gerações”. 


Sobre a Aliança Mundial para o Controle Estatístico de Resíduos Eletrônicos (AMCERE) 

A AMCERE ajuda os países a compilar estatísticas nacionais úteis à elaboração de políticas públicas usando uma estrutura de medição harmonizada reconhecida internacionalmente. Reúne os formuladores de políticas públicas, estatísticos e representantes do setor para aprimorar a qualidade, o entendimento e a interpretação dos dados de resíduos eletrônicos. 

Globalmente, a aliança contribui para o monitoramento de fluxos de resíduos relevantes, medindo o progresso em direção aos ODS 11.6, 12.4 e 12.5. Permite ainda que organizações internacionais, como a UIT, meçam o progresso em direção a seus objetivos. 

Em 2018, a UIT estabeleceu a meta de aumentar a taxa global de reciclagem de resíduos eletrônicos para 30% até 2023 – um aumento de 12,6% em relação à média global de hoje. 

Sobre a União Internacional de Telecomunicações (UIT) 

A União Internacional de Telecomunicações (UIT) é a agência das Nações Unidas especializada em tecnologias da informação e comunicação (TICs), impulsionando a inovação nas TICs junto a 193 Estados-membros e mais de 900 empresas, universidades e organizações internacionais e regionais associadas. 

Fundada há mais de 150 anos, a UIT é o órgão intergovernamental responsável por coordenar o uso global compartilhado do espectro de radiofrequência, promover a cooperação internacional na atribuição de órbitas de satélite, melhorar a infraestrutura de comunicação junto aos países em desenvolvimento e estabelecer as normas mundiais para promover a interconexão contínua de uma vasta gama de sistemas de comunicação. 

Desde redes de banda larga a tecnologias sem fio de ponta, navegação aeronáutica e marítima, radioastronomia, monitoramento oceanográfico e terrestre baseado em satélite, bem como tecnologias convergentes de telefonia móvel fixa, Internet e transmissão, a UIT está comprometida em conectar o mundo. Para mais informações, visite: www.itu.int

Sobre a Universidade das Nações Unidas (UNU) 

A UNU é um órgão autônomo da Assembleia Geral da ONU, dedicado a gerar e transferir conhecimento e fortalecer capacidades relevantes às questões globais de segurança humana, desenvolvimento e bem-estar. 

A Universidade opera por meio de uma rede mundial de centros e programas de pesquisa e treinamento, coordenada pelo UNU Centro em Tóquio. 

O Programa Ciclos Sustentáveis (SCYCLE), sediado em Bonn, na Alemanha, co-organizado pela Vice-Reitoria da UNU na Europa e pelo Instituto das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa (UNITAR), fornece pesquisas e iniciativas de classe mundial sobre resíduos eletrônicos. O SCYCLE visa permitir que as sociedades reduzam a carga ambiental causada pela produção, consumo e descarte de bens ubíquos. 

Sobre o Instituto das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa (UNITAR) 

Como um braço do Sistema das Nações Unidas dedicado ao treinamento, o Instituto das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa (UNITAR) fornece soluções inovadoras de aprendizado para indivíduos, organizações e instituições de modo a aprimorar a tomada de decisões a nível global e apoiar ações em nível nacional para moldar um futuro melhor. 

O UNITAR foi criado em 1963 para treinar e equipar jovens diplomatas de Estados-membros da ONU recém-independentes com o conhecimento e as habilidades necessários para navegar pelo ambiente diplomático. 

Ao longo dos anos, a UNITAR adquiriu conhecimento e experiência únicos no design e fornecimento de uma variedade de atividades de treinamento. Tornou-se um instituto líder no fornecimento de soluções de aprendizado personalizadas e criativas para instituições e indivíduos dos setores público e privado. 

Com uma estratégia totalmente focada em alcançar os ODS, o UNITAR apoia os governos na implementação da Agenda 2030. 

Sobre a Associação Internacional de Resíduos Sólidos (ISWA) 

A Associação Internacional de Resíduos Sólidos (ISWA) é uma associação global, independente e sem fins lucrativos, que trabalha para o interesse público, promovendo o gerenciamento sustentável, abrangente e profissional dos resíduos e a transição para uma economia circular. 

A ISWA está aberta a indivíduos e organizações da comunidade científica, instituições públicas e empresas públicas e privadas de todo o mundo que trabalham no campo ou se interessam pelo gerenciamento de resíduos. A ISWA é a única associação mundial de resíduos que permite que seus membros se conectem com profissionais, empresas e representantes institucionais.

Fonte: ONU.

Um Modelo Simples Para Avaliar a Gestão de Externalidades

Entre a Atenção (conhecer), o Interesse (se envolver), a Decisão (desejar e decidir pela aquisição) e a Ação (agir efetivamente), como estão as empresas em relação à governança de externalidades? 

Gosto da simplicidade do modelo AIDA, elaborado por Elmo Lewis no fim do século XIX. Lewis é um dos pioneiros do marketing e desenvolveu modelos voltados para explicar comportamentos associados à aquisição de produtos ou serviços. Trata-se de uma sequência bastante intuitiva: Atenção (conhecer), Interesse (se envolver), Decisão (desejar e decidir pela aquisição) e Ação (agir efetivamente). Vou aplicar o modelo para a governança de externalidades. 

Administradores estão atentos às externalidades, ou “aos efeitos indiretos da produção de bens e serviços que são transferidos à sociedade e a indivíduos não diretamente envolvidos nos processos produtivos, financeiros e mercadológicos gerados pelas organizações”. Esta definição é a utilizada pelo CFA Institute, entidade que reúne profissionais da área de investimentos, uma das mais renomadas do universo financeiro. Administradores, conselheiros, acionistas e empreendedores sabem que a sociedade está crescentemente atenta a esses efeitos. O “A” (atenção) do AIDA está contemplado. 

No entanto, a sequência precisa ainda se consolidar no campo da governança corporativa. Não se pode dizer que o Interesse por conhecer amplamente as externalidades geradas pelas organizações esteja efetivamente traduzido pela Decisão de incorporar a gestão desses efeitos de forma rotineira. Ações neste sentido precisam ser implementadas com urgência. O conceito de externalidades está diretamente associado à “licença social para operar”, outro tema a navegar pela AIDA. Administradores sabem do que se trata, manifestam algum Interesse, mas ainda não Decidem e Atuam com olhar permanente nos stakeholders, buscando alinhamento com as demandas da sociedade.

Ricardo Abramovay, professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da USP, traduz externalidades como “tudo o que produz impacto negativo ou positivo e que não entra no sistema de custos e preços”. Carlos Eduardo Frickmann Young, professor titular da UFRJ, vai direto ao ponto: “Em vez de todos pagarem o pato, que pague o pato quem é responsável por ele”. O uso da palavra responsabilidade está associado à moralidade e não à legalidade. 

A licença social vai além das regras formais, leis e regulamentações, mas lida e antecipa as demandas da sociedade que, gradativamente, são transformadas em leis e normas transformam-se em leis e normas. Quando isso ocorre, viram obrigações e passivos, com impactos nas operações e em modelos de negócios. No entanto, antes de serem incorporadas ao mundo das regras formais, causam efeitos substantivos. Abalam reputações e, com isso, acesso a mercados e a capital financeiro, influenciam a atração de recursos humanos, afetam o clima organizacional e o engajamento da rede de stakeholders. Destroem valor. 

Vale lembrar que externalidades se expressam em um gradiente de impacto, podendo ser negativas ou positivas. Do lado das negativas, devem ser evitadas, mesmo se representarem riscos de baixa probabilidade. No entanto, sabemos que nem sempre é possível eliminar totalmente efeitos indesejáveis. Busca-se então a redução, a mitigação e, no pior dos casos, a compensação. A gestão de externalidades inclui a produção de efeitos positivos para a sociedade, como o desenho de modelos de negócios voltados para a produção e o compartilhamento permanente de impactos de valor positivo. 

Um dos grandes desafios da gestão de externalidades é a extrapolação da responsabilidade para a cadeia de suprimentos e para os efeitos dos produtos e serviços em consumidores, diretos e indiretos. O conceito de responsabilidade subsidiária se amplia gradativamente, tanto no campo moral quanto legal. A rastreabilidade em toda a cadeia torna-se imperiosa e determinante na licença social. A transparência é inevitável na construção de relações de confiança com sociedade. 

A relação com stakeholders é necessária e complexa. Inclui indivíduos e organizações aparentemente apáticas, mas também outras altamente engajadas e profissionais. Lida o tempo todo com assimetria de informação, interagindo com pessoas que não contam com a informação necessária, com vulneráveis e informalidade. Convive com alta imprevisibilidade e ambiguidade. Enfrenta os mais diversos gradientes ideológicos, os bem-intencionados e os oportunistas. 

A gestão de externalidades depende de uma rede de relacionamentos estruturada, com interações que combinem aporte de conhecimento, fortalecimento institucional e reputacional. Além de proporcionar leitura de contexto e ambiente, pode decodificar demandas não evidentes, tendências (incluindo de consumo), com potencial contribuição para desenho de produtos, estratégicas e modelos de negócios. Fortalece a diversidade e, com isso, o repertório organizacional e suas competências dinâmicas – a capacidade da organização de se moldar rapidamente, aprender continuamente e ser menos dependente de trajetórias passadas (ainda que bem sucedidas). 

Além disso, se esses relacionamentos forem explícitos, a gestão de externalidades fornece ao mercado sinais de conexão com a sociedade e compartilhamento de imagem e reputação. Obviamente, a interação com stakeholders não pode ser unidirecional, mas envolve um fluxo de comunicação complexo e pouco controlável. 

Há forte tendência do uso de esquemas de certificação multistakeholder. Com frequência estes esquemas representam uma forma estruturada de expor os modelos de operação e produtos ao crivo de sistemas de auditorias externas fundamentadas em princípios e critérios socioambientais. Assim como a montagem das redes de relacionamento, devem ser objeto de profunda verificação da credibilidade e capacidade de governança. Este cuidado é essencial diante da proliferação de esquemas que, muitas vezes são apenas comerciais, sem a devida legitimidade perante a sociedade. 

A evolução da AIDA sustentável nas organizações depende de como acionistas e conselheiros agem. Como definem o modelo de negócio vis-à-vis às externalidades. Como lidam com ética e integridade no âmbito da governança. A transparência que a mídia digital impõe às corporações estabelece um vínculo entre ética e identidade, percebidas pela sociedade a partir da imagem construída na leitura dos princípios e valores expostos nos produtos, na comunicação e nas externalidades geradas. Contradições na comunicação, nas expectativas internas e externas e nas externalidades, custam cada vez mais caro. 

A relação entre exposição pública, reputação, construção de conexões de confiança e valor é crescente. O aumento da importância do compliance nas organizações é um sinal positivo de que ética e integridade passaram a ser parte da rotina. O desenvolvimento e a sofisticação das estratégias e áreas de compliance, assim como a gestão de riscos, são bons aliados na gestão de externalidades. 

Conselhos devem cuidar da concentração excessiva no campo das finanças. Não se trata de desmerecer a atenção ao desempenho econômico-financeiro, mas sim integrá-lo à gestão das externalidades. Um caminho evidente é a avaliação permanente de como estas afetam o valor das companhias. Desafio longe de estar equacionado. Externalidades negativas são normalmente subdimensionadas ou tratadas como eventos improváveis. Às vezes resultam em provisionamentos. Externalidades positivas tratadas como intangíveis. Este campo avança, mas não deve ser condicionante para que a governança corporativa incorpore em seu repertório análise de externalidades e seus impactos no desenho de estratégias. 

A abordagem ESG (Ambiental, Social e Governança, na sigla em inglês) tem indicado a criação de Comitês de Sustentabilidade como órgãos assessores de conselhos. Se bem estruturados, com a participação de membros externos e independentes, são capazes de contribuir para o monitoramento de como externalidades afetam e são geridas pela organização. Podem indicar tendências e subsidiar boas discussões estratégicas e de modelos de negócios. Servem de sounding boards (caixas de ressonância) para executivos, incluindo a mais alta administração. No entanto, não são a única alternativa. 

Algumas organizações optam pela criação de painéis de stakeholders, outras pela inclusão de representantes da sociedade diretamente nos conselhos. Em qualquer caso, um ponto crítico é a legitimidade e a representatividade das pessoas que integram esses fóruns de governança perante a sociedade. Deve evitar-se, a todo custo, a indicação de representantes com baixa credibilidade perante seus pares, justamente por serem mais afeitos às relações com o mundo corporativo. 

A licença social é algo que deve ser construído com honestidade, transparência, relacionamento permanente com stakeholders, se possível, com obtenção de certificações de terceira parte e, acima de tudo, gestão de externalidades. Este é o “A” da Ação no modelo AIDA voltado para um ambiente de negócios cada vez mais dependente das interferências da sociedade na vida das empresas. 

Por: Roberto S. Waack (Página 22).