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Entenda o Inequívoco Papel Humano na Mudança Climática


A comunidade científica não tem mais dúvida sobre a mudança climática causada por atividades humanas. A DW explica como o estudo do clima evoluiu para o consenso científico sobre o aquecimento global.

É verdade que, dentro de sua história de 4,5 bilhões de anos, o planeta Terra experimentou eras de menor e maior calor. 

Numa alternância de milhares de anos, essas mudanças foram determinadas por variações na órbita da Terra ao redor do Sol. Enquanto distâncias maiores resultaram em ciclos mais frios, a proximidade gerou eras mais quentes e interglaciais. 

No final do século 20, quando cientistas começaram a observar como as temperaturas mudaram ao longo da história, eles notaram um aquecimento planetário muito mais rápido que a média, iniciado a partir dos anos 1980. 


Em 1998, pesquisadores da Universidade de Massachusetts e do Laboratório de Pesquisas de Anel de Árvore da Universidade do Arizona, ambas nos Estados Unidos, publicaram um estudo mostrando a temperatura média anual global durante os últimos mil anos. 

Para calcular temperaturas tão antigas, eles estudaram os chamados registros naturais – medições de núcleos de gelo, anéis de árvores e corais. 

O resultado mostrou pouca variação durante muitas centenas de anos até o século 20, quando subitamente houve um aumento acentuado. 

Em 2013, uma pesquisa publicada na revista Science analisou temperaturas ainda anteriores, datando de 11 mil anos atrás. A conclusão foi a mesma: o planeta aqueceu mais rápido no século passado do que em qualquer outra época desde o final da última era glacial. 

O estudo também revelou que, nos últimos 2 mil anos, a Terra vem enfrentando um período de resfriamento natural em termos de sua posição em relação ao Sol. 

Mas, como explica o estudo, esse resfriamento natural praticamente não foi notado devido ao aquecimento sem precedentes causado pelas emissões humanas de gases de efeito estufa. 

O que as emissões de CO2 têm a ver com a mudança climática? 

O efeito estufa – um processo natural que aquece a Terra – é necessário para sustentar a vida no planeta. Ele acontece quando certos gases em nossa atmosfera capturam o calor emitido pela Terra e atuam como o próprio efeito estufa do planeta. Os gases naturais que retêm o calor em nossa atmosfera, que incluem dióxido de carbono (CO2), metano e óxido nitroso, são necessários para manter a temperatura da superfície da Terra quente. 

Sem o efeito estufa, a temperatura da superfície cairia 33 graus Celsius, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM). Isso tornaria o planeta um lugar congelado e inabitável. 

Durante milhares de anos, a natureza regulou bem a concentração desses gases. Mas isso começou a mudar quando os seres humanos passaram a queimar combustíveis fósseis para criar energia, o que desencadeou um aumento acentuado das emissões não naturais de CO2. Isso interferiu no equilíbrio atmosférico do planeta e, como resultado, a Terra começou a aquecer mais rapidamente. 

De acordo com o relatório da OMM sobre o Estado do Clima Global 2020, a temperatura média no ano passado foi 1,2 grau Celsius mais alta do que os níveis pré-industriais. Isso se refere ao período entre 1850-1900, quando os combustíveis fósseis não eram amplamente utilizados como meio para gerar energia. 

O relatório descreveu os níveis crescentes de gases de efeito estufa na atmosfera resultantes das atividades humanas como "um dos principais motores das mudanças climáticas".

Em 2001, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estimou que a concentração de CO2 na atmosfera havia sido de 280 partes por milhão (ppm) por vários milhares de anos antes da era industrial. Em 1999, havia aumentado para 367 ppm. 

Criado como um órgão da ONU em 1988, o IPCC tem 195 países-membros e se ocupa da ciência relacionada à mudança climática. Ele atribuiu o aumento de CO2 atmosférico às emissões geradas pelo homem, três quartos delas provenientes da queima de combustíveis fósseis, e o restante da mudança no manejo da terra. 

Em maio de 2021, o nível médio global de CO2 atmosférico atingiu 415 ppm. A última vez em que os níveis de CO2 haviam sido tão elevados foi há cerca de 3 milhões de anos, quando o nível do mar era cerca de 30 metros mais alto, e os humanos modernos nem sequer existiam. 

O cientista climático Benjamin Cook, do Instituto Goddard para Estudos Espaciais da Nasa, explica que, no final do século 20, quando os pesquisadores começaram a procurar respostas para explicar a tendência de aquecimento, eles examinaram diferentes fatores, incluindo gases de efeito estufa, energia solar, circulação oceânica e atividade vulcânica. 

"Somente as emissões de gases de efeito estufa dos combustíveis fósseis e a industrialização nos deram uma previsão que se alinha com o aquecimento que estamos vendo", disse Cook à DW. 

Ele afirma que a comunidade científica está tão confiante na mudança climática causada pelo homem hoje quanto na compreensão da teoria da gravidade. 

"Há incertezas e nuances a serem discutidas na ciência climática", comenta Cook. "Mas a única coisa em que praticamente todo cientista concorda hoje é que o aquecimento que estamos vendo é impulsionado pela queima de combustíveis fósseis." 

Por que demorou para se chegar a essa conclusão?

Uma análise amplamente discutida sobre a evolução do consenso científico sobre o aquecimento global antrópico foi publicada em 2013. 

Liderado por John Cook, pesquisador do Centro de Pesquisa de Comunicação sobre Mudanças Climáticas da Universidade de Monash, na Austrália, pesquisadores americanos, britânicos e canadenses examinaram 11.944 textos relacionados ao clima publicados na literatura científica revisada por pares entre 1991 e 2011. 

Menos de 1% dos trabalhos de pesquisa examinados rejeitavam a ideia da influência humana sobre o clima da Terra. Dos textos, 66,4% não expressaram nenhuma posição sobre o fator antrópico, e 32,6% o endossaram. Uma análise mais aprofundada desse último número revelou um consenso de 97,1% sobre a mudança climática causada pelo homem. 

Os críticos, no entanto, atacaram as conclusões com base no fato de que o consenso de 97,1% foi derivado de menos de um terço (32,6%) de todos os artigos revisados. A maioria (66,4%), argumentaram eles, não havia expressado um ponto de vista. 

O consenso científico não pode ser alcançado através de votação, mas evolui com o tempo à medida que mais pesquisas são feitas. 

Um estudo mais recente conduzido por um grupo de autores internacionais confirmou que mais de 90% dos cientistas climáticos compartilham o consenso de que a mudança climática é causada pelo homem. 

E uma análise de 2019 de 11.602 artigos revisados por pares sobre mudança climática publicados nos primeiros sete meses de 2019 constatou que os cientistas chegaram a um acordo de 100% sobre o aquecimento global causado pelos humanos. Essa pesquisa foi realizada por James Lawrence Powell, geólogo americano e autor de 11 livros sobre mudanças climáticas e ciência da Terra. 

"Se uma teoria alternativa do que está impulsionando a mudança climática em vez de gases de efeito estufa fosse apoiada por pesquisas e evidências, tal trabalho seria inovador", diz Benjamin Cook. "Seria um estudo de nível de prêmio Nobel. Mas nós não temos ainda essa pesquisa." 

A mudança climática de origem humana é endossada pelo IPCC. Já em 1995, o órgão intergovernamental disse: "O equilíbrio das evidências sugere que existe uma influência humana discernível sobre o clima global." 

"Uma abordagem científica significa olhar para os dados, observações e resultados para tirar conclusões", afirma Helene Jacot Des Combes, climatologista da Universidade do Pacífico Sul, autora do IPCC e assessora do governo das Ilhas Marshall. "E tudo isso nos diz que a atual mudança climática é causada pelas atividades humanas."

Por: Tatiana Kondratenko (Deutsche Welle).

Estudo Mapeia Pela Primeira Vez os Limites do Sistema Solar


Cientistas criaram mapa 3D pioneiro que mostra fronteiras da heliosfera com o espaço, uma região varrida pelos fortes ventos interestelares. 

Cientistas conseguiram mapear a heliopausa, que é o limite da heliosfera (em marrom na ilustração acima) com o espaço interestelar (em azul escuro). Créditos: NASA/IBEX/Adler Planetarium. 

Pela primeira vez, uma equipe de cientistas mapeou a região onde está localizado o limite da heliosfera. O trabalho vai ajudar nas pesquisas sobre a interação entre o vento solar e os ventos de origem interestelar. 

“Modelos físicos vêm teorizando sobre essa fronteira há anos”, disse Dan Reisenfeld, cientista do Laboratório Nacional de Los Alamos e principal autor do artigo, e responsável pelo mapeamento. “Mas esta é a primeira vez que realmente conseguimos medir e fazer um mapa tridimensional.” 

A heliosfera é uma bolha criada pelo vento solar. É um fluxo de prótons, elétrons e partículas alfa que se estende desde o Sol até o espaço interestelar, protegendo a Terra da radiação interestelar prejudicial. 

Em seu trabalho publicado no Astrophysical Journal, Reisenfeld e a equipe usaram dados do Interstellar Boundary Explorer (IBEX). O IBEX é um satélite da Nasa que detecta partículas que vêm da camada limite entre o Sistema Solar e o espaço interestelar, ou seja, da heliosfera. A equipe conseguiu mapear a borda dessa zona – uma região chamada heliopausa. Nela, o vento solar, que se desloca em direção ao espaço interestelar, colide com o vento interestelar, que se desloca em direção ao sol. 

Para realizar essa medição, eles utilizaram uma técnica semelhante ao sonar dos morcegos. “Assim como os morcegos enviam pulsos de sonar em todas as direções e usam o sinal de retorno para criar um mapa mental de seus arredores, usamos o vento solar do Sol, que vai em todas as direções, para criar um mapa da heliosfera”, disse Reisenfeld. 

Eles fizeram isso usando a medição do satélite IBEX de átomos neutros energéticos (ENAs), que surgem a partir das colisões entre as partículas do ventos solar e as partículas dos ventos interestelares. A intensidade desse sinal depende da intensidade do vento solar que atinge a heliopausa. Quando uma onda atinge a pausa, a contagem de ENA aumenta e o IBEX pode detectá-la. 

“O ‘sinal’ do vento solar enviado pelo Sol varia em intensidade, formando um padrão único”, explicou Reisenfeld. “O IBEX verá o mesmo padrão no sinal de retorno da ENA, dois a seis anos depois, dependendo da energia da ENA e da direção que o IBEX está olhando através da heliosfera. Esta diferença de tempo é como encontramos a distância até a região da fonte ENA em um direção particular.” 

Eles, então, aplicaram esse método para construir o mapa tridimensional, usando dados coletados ao longo de um ciclo solar completo, de 2009 a 2019. “Ao fazer isso, somos capazes de ver os limites da heliosfera da mesma forma que um morcego usa o sonar para ‘ver’ as paredes de uma caverna”, acrescentou. 

O motivo por trás da demora para o retorno do sinal ao IBEX está relacionado às vastas distâncias envolvidas. As distâncias no Sistema Solar são medidas em unidades astronômicas (UA), onde 1 UA é a distância da Terra ao Sol. O mapa de Reisenfeld mostra que a distância mínima entre o Sol e a heliopausa é de cerca de 120 UA na direção do vento interestelar. Na direção oposta, estende-se pelo menos 350 UA. Para referência, a órbita de Netuno tem cerca de 60 UA de diâmetro.


'ESG' Sob Ataque: Afinal, É Tudo Conversa Fiada?


Para o ex-diretor de Sustentabilidade da BlackRock, sim, o mundo está sendo enganado com isso; veja o que dizem pesquisadores brasileiros. 

O avião do ESG ['environmental, social and corporate governance'governança ambiental, social e corporativa] mal decolou e já está levando pedrada. E quem atira não é nenhum desavisado que ignora o assunto, mas justamente o ex-diretor de Investimentos Sustentáveis da BlackRock, a maior gestora de capitais do mundo e principal propulsora desse movimento no planeta. 

Tariq Fancy foi contratado em janeiro de 2018 por Larry Fink, o CEO da BlackRock, para fazer exatamente o que preconiza o ESG, ou seja, incorporar os critérios ambientais, sociais e de governança nos US$ 8,7 trilhões sob gestão da empresa. Fez isso e não encontrou valor nenhum nos dados. 

Saiu de lá em setembro de 2019 e começou a atirar há dois meses, primeiro com um artigo no USA Today e depois com uma série de entrevistas, em que lança petardos como este: “O investimento sustentável se resume a pouco mais do que marketing, uma invenção de relações públicas e promessas falsas da comunidade de investidores”. E este: “O ESG cria um placebo social gigante, em que pensamos que estamos progredindo, embora não estejamos”. E mais este: “Em essência, Wall Street está dando uma lavagem verde ao sistema econômico e, neste processo, criando uma distração mortal”. 

Forte, não? A tese de Fancy é que somente a regulamentação governamental pode impedir o desastre das mudanças climáticas. Ele até contemporiza um pouco, dizendo que parte do movimento ESG, incluindo várias ferramentas e padrões, são passos na direção certa, mas ressalta que eles não estão sendo usados corretamente. “Os problemas sistêmicos exigem soluções sistêmicas lideradas por líderes eleitos democraticamente”, conclui. 

Fancy não é um lunático. Pelo contrário, vejo o ceticismo dele refletido em muitas rodas de conversa espalhadas por aí. Mas penso que, num momento crucial de engajamento de empresas mundo afora para fazer algo diferente, ele acabou jogando o bebê fora com a água do banho. Mas eu sou apenas um desavisado que ignora o assunto nesta história toda. Então conversei com dois grandes especialistas brasileiros para perguntar a opinião deles sobre a controvérsia causada por Fancy. 

Para Ricardo Abramovay, professor sênior do Programa de Ciência Ambiental do IEE/USP, o ESG é um modelo de proteção do mercado financeiro, e quem tem a expectativa de que ele vai resolver os problemas do mundo e permitir o crescimento sustentável certamente vai se frustrar. “Por mais importante que seja o setor privado, ele não é capaz de preencher todas as necessidades da sociedade. É preciso que o Estado atue para reformular a relação da sociedade com a natureza e combater a desigualdade”, afirma. 

“Daí a dizer que é tudo greenwashing e que as orientações do mercado financeiro não são importantes, há um grande engano. A BlackRock foi importantíssima para compelir os três maiores bancos privados brasileiros a lançar um programa para a proteção da Amazônia. Somos gratos a ela por isso. É ótimo que o mercado financeiro continue a pressionar”, disse Abramovay, autor de Amazônia: Por uma Economia do Conhecimento da Natureza. 

Para a professora Monica Kruglianskas, da FIA Business School, a crítica de Fancy pode ser considerada radical se confundirmos o ESG com todo o espectro da sustentabilidade. “Não dá para dizer que isso é distração”, afirma ela. “Mas ele traz uma reflexão importante. As empresas são rule-takers, e não rule-makers. É difícil e improvável que os negócios mudem as regras do jogo enquanto estão jogando”, diz. 

Na opinião de Monica, o setor financeiro, apesar do seu tamanho, poder e influência, esteve bastante ausente no debate sobre a crise climática nos últimos tempos – por exemplo, no Acordo de Paris e nas COPs – e ainda não tem acordos definidos para objetivos globais. 

“Há menos de cinco anos, a ideia de clima como externalidade a ser incluída na contabilidade de um investimento nem era considerada. São as movimentações de governos, especialmente da Comunidade Europeia, do Reino Unido e agora também dos Estados Unidos, por meio da criação de leis, e não autorregulamentações e guidelines, que estão mudando este cenário”, diz ela, que é doutora em Sustentabilidade e Reputação Corporativa pela Universidade de Barcelona e foi diretora de desenvolvimento sustentável da Danone na Espanha. 

“Os desafios da crise climática e social são, efetivamente, questões sistêmicas e precisam da inclusão de todos os atores para regenerar o nosso sistema socioeconômico. Não basta inovar processos e produtos, temos que criar novos e sustentáveis modelos de negócios”, afirma Monica. 

E conclui: “O que todo investidor deveria se perguntar é como um determinado investimento ESG está efetivamente fazendo a diferença na vida das pessoas. Seja com melhores condições de trabalho, seja reduzindo violações dos direitos humanos ou emissões de CO₂, ou melhorando a gestão dos recursos que precisamos para sobreviver neste planeta. Ou ainda, se está realmente ajudando a solucionar desafios na cadeia global de suprimentos que sustentam o nosso estilo de vida insustentável. Sob estas lentes, a jornada ESG apenas começou.”

Por: Renato Krausz (Exame).

Imunidade Celular é Essencial Para Evitar Reinfecção Pelo Novo Coronavírus, sugere estudo


Juliana (à esquerda) e sua irmã Luana, que foi reinfectada pelo SARS-CoV-2 quatro meses após se curar da COVID-19. Ao estudar o caso das gêmeas, pesquisadores da USP concluíram que a imunidade celular de Juliana era mais bem desenvolvida e a protegeu da reinfecção (foto: acervo pessoal).

Duas gêmeas idênticas que moram na mesma casa contraíram a COVID-19 e manifestaram sintomas leves, como febre, tosse e congestão nasal – sem necessidade de hospitalização. Quatro meses depois, em agosto de 2020, uma das irmãs foi reinfectada. Porém, dessa vez, desenvolveu um quadro mais grave, com queda na taxa de oxigenação sanguínea e necessidade de internação por dez dias, parte do tempo em unidade de terapia intensiva. A outra irmã, apesar de ter tido novo contato com o vírus, não foi reinfectada. 

Parece apenas um acontecimento inusitado e fortuito, entre tantos relacionados à pandemia de COVID-19. Porém, ao detalhar pela primeira vez um caso de reinfecção em indivíduos com o mesmo genoma, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) conseguiram comprovar o papel essencial da resposta imune adaptativa (específica para cada patógeno) mediada por linfócitos T – também chamada de imunidade celular – para evitar a recorrência da doença.

“Era de se esperar que gêmeas idênticas apresentassem sintomas semelhantes. No entanto, identificamos um caso em que os resultados foram muito diferentes. Somente uma das irmãs teve reincidência de COVID-19 e apresentou uma resposta deficitária de linfócitos T específicos. No estudo, observamos que a resposta imune adaptativa pode ser diferente entre gêmeos monozigóticos [formados a partir do mesmo óvulo, fecundado por um único espermatozoide]”, afirma Mayana Zatz, professora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-Tronco (CEGH-CEL), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP. 

A descoberta relacionada ao papel dos linfócitos T na prevenção de reinfecções surgiu de uma pesquisa mais ampla sobre sistema imune com a participação de gêmeos idênticos. Os dados completos da pesquisa, que contou com apoio da FAPESP, foram divulgados na plataforma medRxiv, em artigo ainda sem revisão por pares. 

Frentes de atuação 

Como explicam os autores do estudo, o sistema imune conta com diferentes “frentes de atuação”. Ao lado de outras células de defesa – como macrófagos e neutrófilos –, os linfócitos T formam a complexa resposta do corpo humano contra vírus e outros patógenos. 

Quando um vírus infecta uma pessoa e passa a se multiplicar dentro de suas células, ele desencadeia primeiro a resposta imune inata (inespecífica). Células chamadas de macrófagos identificam o vírus e o fagocitam. Há também a ação de proteínas chamadas interferons, uma espécie de “cadeado” que impede as células infectadas de replicarem o vírus. 

Se a resposta imune inata não resolver o problema, entra em cena o sistema imune adaptativo, formado por anticorpos neutralizantes (resposta humoral) e pelos linfócitos T (imunidade celular), que reconhecem o patógeno e podem destruir as células infectadas. 

Para descobrir por que a resposta das irmãs foi diferente, os pesquisadores realizaram uma avaliação abrangente da imunidade inata e adaptativa das gêmeas. Além de ensaios sobre a resposta inata relativa à produção de proteínas interferons do tipo 1 e 3, analisaram a resposta adquirida, que inclui a ligação e neutralização por anticorpos presentes no sangue e a resposta dos linfócitos T a peptídeos sintéticos de SARS-CoV-2. 

“Ao analisar amostras de sangue das gêmeas, notamos que elas apresentavam condição semelhante da resposta inata de interferons do tipo 1 e 3, bem como de anticorpos – inclusive neutralizantes. A irmã reinfectada apresentava até uma quantidade maior de anticorpos, pois tinha acabado de ter a reincidência da infecção, mas havia uma diferença brutal em relação à resposta imune mediada por linfócitos T”, conta Edecio Cunha Neto, professor do Departamento de Clínica Médica e pesquisador do Instituto do Coração (InCor) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). 

Com o objetivo de aprofundar a análise, os pesquisadores compararam os resultados dos testes com amostras de sangue das irmãs com os de outro par de gêmeos idênticos que tiveram COVID-19 assintomática uma única vez (e serviram como grupo controle). 

Dos 46 peptídeos – ou fragmentos do vírus SARS-CoV-2 – que os linfócitos T têm mais facilidade de reconhecer, as células da irmã reinfectada reconheciam apenas sete (15%), enquanto as de sua gêmea reconheciam 40 (87%). No outro par de irmãos (grupo controle) também houve variação, mas ambos identificaram quase 100%. 

“Nossos achados reforçam que o repertório imune é definido somaticamente [por mutações ocorridas em estágios mais avançados do desenvolvimento] e respostas aleatórias individuais são produzidas independentemente do arcabouço genético, o que justifica perfis distintos observados em gêmeos monozigóticos. Ou seja, o repertório imune é desenvolvido a partir de sucessivas exposições a patógenos, fatores ambientais e genéticos que em conjunto fazem a resposta imune ser única em cada indivíduo", explica Mateus Vidigal de Castro, pós-doutorando no IB-USP e primeiro autor do estudo. 

Pesquisadores em todo o mundo ainda têm pouco conhecimento sobre como se dá a reincidência de COVID-19. Antes do surgimento das novas cepas, a estimativa era de que esse tipo de evento acontecesse com uma a cada mil pessoas (1:1000). Mais raro ainda é a reincidência ocorrer e de forma discordante em gêmeos idênticos. 

“Em casos de reincidência, o esperado é que a segunda resposta imune seja mais forte, pois o sistema imunológico tem por característica memória e especificidade. No entanto, a gêmea reinfectada teve uma resposta deficitária de linfócitos T, diferentemente de sua irmã. Essa disparidade entre pessoas com o mesmo genoma mostra que não só os anticorpos são de extrema importância para resposta contra a COVID-19”, diz Cunha-Neto. 

Zatz destaca que a análise do caso das gêmeas abre caminho para mais estudos sobre imunidade e COVID-19. “O mais interessante é que o caso das gêmeas revela pistas importantes sobre a complexidade do sistema imune e também da COVID-19 para a população em geral.” 

Vacinas e variantes do vírus

Outro aspecto importante da pesquisa está em reafirmar a noção de que quanto mais imunogênica for uma vacina, ou seja, quanto mais ela ativar a resposta imune das diferentes células e proteínas do sistema imune, melhor. 

No caso das gêmeas, tanto a infecção quanto a recorrência da doença aconteceram no ano passado, quando ainda não haviam surgido as variantes mais transmissíveis. Ainda assim, os pesquisadores ressaltam a importância dos linfócitos T na proteção contra as novas cepas. 

“Há uma crescente preocupação de que novas variantes do SARS-CoV-2 sejam capazes de evitar a ação de anticorpos neutralizantes induzidos tanto pela vacinação quanto por infecção prévia. Nosso estudo enfatiza a importância da imunidade celular na proteção contra recorrências e reinfecções para a população em geral”, diz Cunha-Neto. 

Segundo o pesquisador, estudos recentes mostram que a resposta imune mediada por linfócitos T é menos afetada pelas novas variantes do que a resposta humoral. “Isso pode sugerir que a proteção conferida pela resposta celular induzida pelo vírus original ou pela vacina seja eficaz contra as novas variantes.” 

O artigo Monozygotic twins discordant for severe clinical recurrence of COVID-19 show drastically distinct T cell responses to SARS-Cov-2 pode ser lido em www.medrxiv.org/content/10.1101/2021.03.26.21253645v1.

Por: Maria Fernanda Ziegler (Agência Fapesp).

Cataratas de Vitória: Como Uma das Maiores Quedas D'água do Mundo Secou


Cataratas Vitória, acima em foto de janeiro de 2019, ainda no período de cheia. 

Em seu volume máximo, as Cataratas de Vitória, no Zimbábue, facilmente se encaixam entre as maravilhas naturais do mundo. Com dimensão de 1,7 km em seu ponto mais largo e altura de mais de 100 metros, elas são conhecidas pelos locais não só como as maiores cataratas africanas, mas também como a 'fumaça que troveja". 

A queda d'água é formada pelo fluxo do rio Zambezi caindo sobre um precipício chamado Primeiro Desfiladeiro. O precipício foi esculpido pela ação da água sobre rochas vulcânicas que formam essa região do sul da África. 

Em dezembro de 2019, porém, a maior parte dessa majestosa queda d'água foi silenciada. 

Em meio à maior seca em um século na região, sobraram ali apenas alguns filetes de água. Segundo a imprensa local, o fluxo hídrico voltou cerca de três meses depois, mas persistem as preocupações quanto ao futuro das cataratas e do clima africano. 

Como uma das principais atrações turísticas locais, as Cataratas de Vitória são uma valiosa fonte de renda para o Zimbábue e a Zâmbia. À medida que a notícia do baixo nível de água se espalhou, comerciantes locais notaram uma queda considerável na chegada de turistas. 

Além disso, a falta de água prejudicou o abastecimento de energia, uma vez que afetou o funcionamento de hidrelétricas. 

Os efeitos foram além: agências humanitárias alertaram que aumentou a necessidade de auxílio alimentar para a população local, uma vez que as colheitas foram prejudicadas pela seca. 



As Cataratas, em dezembro de 2019; grande parte da queda d'água se reduziu a pequenos filetes.

Secas extremas

Observadores de padrões climáticos no rio Zambezi acreditam que as mudanças climáticas estão causando um retardamento da temporada de monções, fazendo com que as chuvas se concentrem em eventos maiores e mais intensos. 

Isso torna mais difícil o armazenamento de água na região, além de tornar mais dramático o impacto da temporada estendida de secas, com mais consequências danosas para a população e o meio ambiente. 

Um evento climático extremo não pode, isoladamente, ser considerado consequência das mudanças climáticas. Mas essa região do sul da África tem registrado uma série de duras secas que refletem o que cientistas climáticos previam que iria ocorrer, como resultado de aumento nos gases de efeito estufa na atmosfera global, lançados por ação humana. 

O presidente da Zâmbia, Edgar Lungu, disse à época que o ressecamento da queda d'água era "um duro lembrete de o que as mudanças climáticas estão fazendo com o nosso ambiente". 

O relatório de 2019 da ONU sobre O Estado do Clima na África pintava um cenário preocupante para um continente que pode ver sua população dobrar no próximo século. 

Em discurso no lançamento do relatório, em outubro de 2020, Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial, observou: "Mudanças climáticas estão tendo um impacto crescente no continente africano, atingindo com mais dureza os mais vulneráveis, e contribuindo para a insegurança alimentar, o deslocamento de populações e o estresse sobre recursos hídricos". 

"Nos últimos meses, vimos enchentes devastadoras, invasões de gafanhotos do deserto e, agora, a perspectiva de secas, por causa do La Niña", prosseguiu. 

O relatório da ONU acrescenta que 2019 esteve entre os anos mais quentes da história no continente africano, uma tendência que deve continuar. 

O mais preocupante é que, ao mesmo tempo em que a África deve ser o continente mais duramente atingido pelas mudanças climáticas, é também o que tem menos capacidade de se adaptar às realidades de um mundo mais quente — em áreas como suprimento de água, segurança alimentar e proteção da biodiversidade, em meio a cada vez mais secas e enchentes intensas.

Por: Mark Kinver (BBC News).

Menos é Mais: Como o Decrescimento Salvará o Mundo


A exploração da natureza e a domesticação do mundo natural já passou dos limites. A humanidade está promovendo um ecocídio em larga escala que pode se transformar em suicídio.

“Acreditar que o crescimento (demo)econômico exponencial pode continuar infinitamente num mundo finito é coisa de louco ou de economista”, Kenneth Boulding (1910-1993). 

A humanidade já superou a capacidade de carga do Planeta e já ultrapassou 4 das 9 fronteiras planetárias. A lógica do crescimento econômico é incompatível com a sustentabilidade. Hoje em dia a preocupação maior do mundo é com a emergência sanitária provocada pela pandemia da covid-19. Mas, no longo prazo, a emergência sanitária é o maior desafio do século e é uma “ameaça existencial” à civilização como afirmou o presidente dos EUA, Joe Biden, na abertura da Cúpula dos Líderes do Clima. 

Mas o vício do egoísmo, da ganância e da cobiça funciona como uma ideologia que defende o lema do “Mais é melhor” e exalta o acumulo de bens e serviços e o enriquecimento ilimitado da humanidade às custas do empobrecimento e definhamento do mundo natural. Porém, existe uma lógica oposta que foi exposta por Jason Hickel, no livro “Less is more: Degrowth Will Save the World”. O livro fornece o argumento mais persuasivo e abrangente em favor do “decrescimento”, defendendo uma redução planejada do uso de energia e recursos para trazer a economia de volta ao equilíbrio com o mundo vivo de uma forma segura, justa e equitativa. 

O livro de Jason Hickel é uma contribuição essencial para o debate sobre a ultrapassagem da capacidade de resiliência da Terra e é uma leitura obrigatória para todas as pessoas preocupadas com a sobrevivência dos ecossistemas e, em especial, para os formuladores de políticas e analistas. Mas se os políticos e os empresários são, normalmente, obcecados com o crescimento econômico, todas as pessoas que defendem o meio ambiente precisam repercutir este livro que faz uma defesa do DECRESCIMENTO. 

Uma das afirmações centrais de Hickel, e que ele detalha na primeira parte do livro, é que “não há nada natural ou inato no comportamento produtivista que associamos ao homo economicus. Essa criatura é o produto de cinco séculos de reprogramação cultural. ” Em outras palavras, fomos encorajados, até mesmo compelidos a nos comportar de maneira a justificar o produtivismo e o acumulo de bens materiais. O autor considera que as propostas de desmaterialização da economia e o desacoplamento entre produção e recursos naturais não ocorre na prática, pois o que funciona é o “Paradoxo de Jevons”, já que os ganhos microeconômicos não ocorrem em nível macroeconômico. 

Além de defender o decrescimento, Hickel defende a justiça social e critica as desigualdades que são os subprodutos mais significativos e intencionais da expansão capitalista e um dos desafios mais intransponíveis que a população mundial tem que enfrentar. Ele diz: “a justiça é o antídoto para o imperativo do crescimento – e a chave para resolver a crise climática”. A conclusão de Hickel sobre a transição ideológica necessária deixa claro que não será difícil e que a janela de oportunidade se fecha rapidamente. Ele escreve como “a luta diante de nós é mais do que apenas uma luta pela economia. É uma luta por nossa própria teoria do ser. Requer descolonizar não apenas terras, florestas e povos, mas descolonizar nossas mentes”. 

O livro “Menos é mais” está alinhado com outros estudos fundamentais. Artigo de Steffen et. al (2015), que atualizou a metodologia e os dados das fronteiras planetárias, mostrou que quatro das nove fronteiras já foram ultrapassadas: Mudanças climáticas; Perda da biodiversidade; Mudança no uso da terra e Fluxos biogeoquímicos (fósforo e nitrogênio). Duas delas, a Mudança climática e a Perda de biodiversidade, são o que os autores chamam de “limites fundamentais” e tem o potencial para conduzir o Sistema Terra a um novo estado que pode levar a civilização ao colapso. As duas grandes ameaças que pairam sobre a civilização e a vida na Terra são: Mudanças climáticas e aquecimento global e o Ecocídio gerado pela 6ª extinção em massa.

Outra contribuição recente foi o relatório elaborado por Sir Partha Dasgupta, um dos mais prestigiados economistas contemporâneos. Dasgupta diz que os interesses da humanidade, a ideologia da engenhosidade humana e a apologia à tecnologia pregam que se pode fazer o uso do que se quiser da natureza. Mas este ideal de progresso, além de ser eticamente inaceitável, é economicamente desastroso. O gráfico abaixo resume a situação, pois enquanto a produtividade econômica aumenta, cresce o capital humano, mas diminui o capital natural. Para prosseguir um futuro sustentável exigirá uma mudança transformadora em nosso modo de pensar e agir.



Ou seja, enquanto a economia cresce, a humanidade enriquece e a natureza empobrece. A exploração da natureza e a domesticação do mundo natural já passou dos limites. A humanidade está promovendo um ecocídio em larga escala que pode se transformar em suicídio. A economia tradicional tende a ver a natureza apenas como um bem econômico a serviço do bem-estar da humanidade e como uma mercadoria que faz circular a economia pagando salários, lucros e juros. A tão decantada racionalidade do Homo economicus virou um problema de insensibilidade natural e uma prática especista, com sérios danos à biodiversidade. 

A mensagem central do livro “Menos é mais” é que o mundo precisa promover um decrescimento das atividades mais poluidoras do Planeta e promover a redistribuição dos bens públicos e comuns, como forma de evitar o colapso ambiental, garantindo não somente a qualidade de vida humana (com menos consumo), mas também a qualidade da vida ambiental e a regeneração ecológica. 

Por: José Eustáquio Diniz Alves; doutor em Demografia. Fonte: EcoDebate


Referências: 

ALVES, JED. O decrescimento demoeconômico e o trilema da sustentabilidade, Ecodebate, 20/06/2018 https://www.ecodebate.com.br/2018/06/20/o-decrescimento-demoeconomico-e-o-trilema-da-sustentabilidade-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/ 

ALVES, JED. Planejando o decrescimento demoeconômico, Ecodebate, 05/06/2013 http://www.ecodebate.com.br/2013/06/05/planejando-o-decrescimento-demo-economico-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/ 

ALVES, JED. A grande contradição do capitalismo: capital antrópico versus capital natural. Ecodebate, RJ, 29/06/2012 http://www.ecodebate.com.br/2013/05/29/a-grande-contradicao-do-capitalismo-capital-antropico-versus-capital-natural-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/ 

ALVES, JED. As fronteiras planetárias e a autolimitação do espaço humano, Ecodebate, RJ, 06/06/2012 http://www.ecodebate.com.br/2012/06/06/as-fronteiras-planetarias-e-a-auto-limitacao-do-espaco-humano-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/ 

Nicholas Georgescu-Roegen, O decrescimento: Entropia – Ecologia – Economia. Ed. Senac, 2013. 

Dave Lindorff. Growth is the Enemy of Humankind. 17/01/2013 http://www.nationofchange.org/growth-enemy-humankind-1358432599 

PATTERSON, Ron. Of Fossil Fuels and Human Destiny, May 7, 2014 http://peakoilbarrel.com/natural-resources-human-destiny/ 

PURVIS, Andy. A million threatened species? Thirteen questions and answers, IPBES Global Assessment and Life Sciences, may 2019 https://www.ipbes.net/news/million-threatened-species-thirteen-questions-answers 

STEFFEN, W. et al. Planetary boundaries: Guiding human development on a changing planet, V. 347, I. 6223, Science, 13/02/2015 https://science.sciencemag.org/content/347/6223/1259855 

YOUJIN, Low. The heat is on: Earth is getting ‘very, very close’ to crossing tipping point, scientist warns, Today, 06/06/2019 https://www.todayonline.com/heat-earth-getting-very-very-close-crossing-tipping-point-scientist-warns 

Dasgupta, P. The Economics of Biodiversity: The Dasgupta Review. London: HM Treasury, 2021 https://assets.publishing.service.gov.uk/government/uploads/system/uploads/attachment_data/file/957291/Dasgupta_Review_-_Full_Report.pdf


Múon: Cientistas Acham ‘Forte Evidência’ de 5ª Força da Natureza


Um grupo de mais de 200 cientistas divulgou uma descoberta que pode alterar os rumos da física contemporânea e tornar obsoleto o Modelo Padrão, considerado o mais adequado até então para a descrição das forças fundamentais exercidas pela matéria. Em tese, gravidade, eletromagnetismo e forças forte e fraca se manifestariam da mesma maneira em nível subatômico, mas a equipe por trás do achado se deparou com evidências sólidas de que múons – semelhantes a elétrons – são um pouco mais magnéticos que o previsto. Por sua vez, a pequena anomalia, de 2,5 partes em 1 bilhão, sugere a existência de uma quinta força ou de uma nova partícula de Deus, inédita para o conhecimento humano. 

Há décadas, pesquisadores medem tal propriedade da partícula em questão, que é mais pesada e instável que sua "irmã" mais famosa e se comporta como uma pequena barra magnética. Para isso, colocam múons em um campo magnético horizontal, que os faz girar como pequenas agulhas de uma bússola, e a frequência do movimento revela dados importantes, além de possibilitar a investigação de elementos "escondidos", mesmo daqueles grandes demais para surgirem do Grande Colisor de Hádrons. 

Ao contrário de outros, o múon se encaixa na incerteza quântica, sendo descrito como "virtual" por entrar e sair da existência. Situando-se, então, entre partículas e antipartículas, é afetado, também, por propriedades daquilo que não somos capazes de ver. Ainda assim, segundo a mecânica quântica e a Teoria da Relatividade Especial de Albert Einstein, ele possuiria um magnetismo básico, que é aumentado, conforme apontam pesquisas anteriores, em 0,1% caso partículas previstas no Modelo Padrão flutuem sobre ele, quaisquer que sejam. 

Dito isso, se algo foge da equação, é preciso reformulá-la. Aí é que entra a novidade, capaz de exigir um novo olhar sobre toda e qualquer certeza. 

Progresso constante

Já em 2004, pesquisadores, durante o experimento Muon g-2, no Laboratório Nacional de Brookhaven (EUA), haviam relatado a discrepância do magnetismo do múon em relação ao considerado pelo Modelo Padrão. Entretanto, a metodologia atingiu apenas metade do padrão-ouro da classificação dos resultados de testes físicos, 2,5 – levantando, de todo modo, dúvidas consistentes e incentivando novos estudos. Em 2013, decidiram levar o método para o Fermi National Accelerator Laboratory (Fermilab), e dados obtidos da tentativa chegaram a 3,7 em 2018, um avanço e tanto. 

Desta vez, após reformular técnicas, além de obter informações consistentes com as encontradas em sua trajetória, reforçando que não foram um acaso estatístico nem produto de alguma falha não detectada, a equipe chegou à impressionante taxa de 4,2. Chris Polly, físico do Fermilab, explica como se sentiu por não ter visto tanto esforço prévio descartado. "Como eu era um estudante de pós-graduação no experimento de Brookhaven, certamente foi uma sensação de alívio avassaladora para mim." 

Em suma, prótons, em aceleradores como o do Fermilab, se chocam e produzem outros, a exemplo do múon e do antimúon, e instrumentos precisos analisam o comportamento de tudo. Se os fragmentos apresentassem as mesmas propriedades, confirmando o que diz o Modelo Padrão, haveria muita decepção. "Desde a década de 1970, procuramos uma falha [na teoria vigente]", diz Alexey Petrov, teórico da Wayne State University (EUA). "Pode ser que a tenhamos encontrado", complementa.


 Instalação do Fermilab (EUA) na qual as pesquisas foram realizadas.

O que vem por aí

A confirmação de tanta dedicação chegou em 25 de fevereiro, durante uma reunião de 170 pessoas pelo Zoom, devido à covid-19. Para evitar a manipulação, mesmo que inconsciente, de dados, o time contava com duas pessoas que não participam dos procedimentos, responsáveis pela análise "fria" das informações e munidas de um código essencial para finalização de cálculos de dois experimentos conduzidos independentemente, revelados apenas no momento-chave, com a abertura de envelopes que carregavam a "senha". "Definitivamente, havia uma atmosfera de extrema tensão", destaca Hannah Binney, estudante de pós-graduação e membro da equipe da Universidade de Washington (EUA). 

Por fim, a recompensa. "Quando vimos o número na tela, tivemos uma sensação de grande alívio, entusiasmo, orgulho e alegria. Tínhamos que religar o microfone para podermos gritar", conta Sudeshna Ganguly, cientista associada do Fermilab. "Até agora, analisamos apenas 6% dos dados e, quando combinarmos os resultados de todas as execuções, obteremos uma medição ainda melhor. É muito empolgante fazer parte disso." 

Agora, cabe aos profissionais a continuidade das pesquisas, já que a discrepância com a qual se depararam ainda não possui explicação clara (e a redefinição do Modelo Padrão – ou mesmo a troca por um outro – demanda dedicação redobrada). 

"A corrida agora está realmente aberta para fazermos com que um desses experimentos realmente consiga a prova de que isso é realmente algo novo – o que exigirá mais dados e mais medições. Com sorte, mostraremos evidências de que esses efeitos são reais", finaliza Mitesh Patel, do Imperial College London, instituição britânica.

Por: Reinaldo Zaruvni. Fonte: Tecmundo.

Como a Mudança Climática Precipitou a Guerra Civil na Síria


Em 27 de janeiro de 2021, o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Lloyd J. Austin III, reconheceu a mudança climática como uma questão de segurança nacional. Para o ex-diretor do Banco Mundial Jamal Saghir, reconhecer a conexão entre clima e a segurança mundial constitui um passo crucial, e o conflito da Síria “é um exemplo perfeito do impacto da mudança climática sobre problemas pré-existentes, como instabilidade política, pobreza e escassez de recursos”. 

No passado, os agricultores sírios dispunham de terras relativamente férteis e produtivas, e entre as décadas de 1970 e 1990 se beneficiaram do apoio estatal à produção de alimentos básicos. Desde os anos 80, porém, o país de cerca de 17 milhões de habitantes foi atingido por três secas: a mais recente, estendendo-se de 2006 a 2010, foi classificada como a pior desde os primeiros registros, há cerca de 900 anos. 

A redução das chuvas, aliada ao incremento das temperaturas, resultou na desertificação e devastação da terra arável, sobretudo na região leste. Ao todo, 800 mil cidadãos perderam seu meio de subsistência, e 85% do gado morreu. Como as safras também encolheram até dois terços, o país teve que importar grande quantidade de cereais, e os preços dos alimentos duplicaram. 

“Mas a seca ainda continuou, e o povo perdeu a esperança”, e assim 1,5 milhão de trabalhadores rurais foram procurar ocupação nas cidades, relata Saghir, que leciona no Instituto para Estudo do Desenvolvimento Internacional da Universidade McGill, no Canadá. Os que permaneceram, na maioria agricultores empobrecidos, se transformaram em alvo fácil para os recrutadores de terroristas de grupos como o autodenominado “Estado Islâmico” (EI).


Muitas regiões sírias não têm água corrente, e situação política dificulta ainda mais a distribuição.

“Um coquetel tóxico virou mistura explosiva”

“O colapso climático foi um amplificador e multiplicador da crise política que se formava na Síria”, explica à DW Staffan de Mistura, enviado especial das Nações Unidas para a Síria de 2014 a 2018. A decisão do presidente Bashar al-Assad de, ao longo dos anos, cortar os subsídios para combustível, água e alimentos agravou a situação. Além da escassez de água nas áreas rurais, acirraram-se as tensões entre curdos, árabes, alavitas e sunitas. 

“Um coquetel tóxico começou a virar mistura explosiva com os ingredientes da Primavera Árabe, a raiva pela perda de empregos, a migração para as cidades, assim como a queda do poder aquisitivo e a ira pelas reações extremamente duras e cruéis do governo”, prossegue De Mistura. 

Do ponto de vista geopolítico, a competição da Síria com seus arqui-inimigos Irã e Arábia Saudita foi mais um elemento de agravamento. “Começamos a ver horríveis cercos medievais em torno de muitas cidades, como Homs e Aleppo, em que era cortado o acesso dos habitantes a água e comida”, recorda o diplomata ítalo-sueco. 

Quando ele deixou a Síria em 2018, havia menos lutas, com 60% da população sob controle governamental. Ainda assim, de seu ponto de vista, “o país não corre mais perigo de uma grande guerra, mas sim de colapso”. 

Para paz é preciso reconstrução

De acordo com a Anistia Internacional, desde 2011 6,6 milhões de habitantes foram deslocados dentro da Síria, e 5 milhões fugiram. As problemáticas condições de vida no país não melhoraram, apesar de o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) e o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Enucah) registarem que em 2019 cerca de 82.500 refugiados retornaram, e 412 mil deslocados internos estão de volta a seus locais de origem. 

Vastos territórios foram devastados pela guerra civil, a água continua escassa e a infraestrutura precisa ser reparada em quase todo o país. “Assad quase venceu a guerra territorial, mas ainda está muito longe de ganhar a paz”, avaliou De Mistura numa conferência online organizada pela Fundação Berghok e o Instituto de Pesquisa do Impacto Climático de Potsdam (PIK). 

Jamal Saghir concorda: “Para a paz, precisamos de reconstrução”, e qualquer acordo de paz precisa ser alicerçado por um pacote de investimentos. No entanto a própria Síria não estará em condições de financiar sua reconstrução, e resta ver se seus aliados Rússia e Turquia estão dispostos a investir no futuro do país. 

O ex-diretor do Banco Mundial não tem dúvidas quanto ao que precisa ser feito: “É imperativo tornar a Síria mais resiliente, ajudando a região a fazer a transição para uma infraestrutura mais segura em termos de energia e água.”

Por: Jennifer Holleis (Deutsche Welle).

Mineral Pode Ser a Solução Para a Crise Climática

Olivina
Pesquisador da Universidade de Copenhague estuda em detalhes o mineral olivina, que é capaz de extrair CO2 da atmosfera. 

A olivina é um mineral que apresenta grandes possibilidades de extrair o Dióxido de Carbono (CO2) da atmosfera, de acordo com o pesquisador e professor assistente do Departamento de Geociências e Gestão da Natureza da Universidade de Copenhagen, Kristoffer Szilas. 

Este mineral contém níquel, que atualmente é usado na produção de aço e em baterias elétricas, mas as pesquisas mostram que a olivina também tem um potencial incrível para aliviar a crise climática. 

O pesquisador dinamarquês vem trabalhando para recriar o processo natural em laboratório – um trabalho que pode contribuir potencialmente para resolver nossa crise climática no futuro. 

“Quando a olivina é empurrada para a superfície da Terra, por meio de processos tectônicos, o mineral se torna instável e reage com o vento e o clima. Isso faz com que a olivina absorva CO2 da atmosfera e seja convertida em um novo mineral, um carbonato de magnésio chamado magnesita. Desta forma, o CO2 é armazenado no mineral, deixando de permanecer na atmosfera como gás”, diz Szilas. 

Já faz um tempo que os cientistas conhecem as incríveis propriedades da olivina, mas agora Szilas vem trabalhando para conseguir recriar o processo natural, onde o Dióxido de Carbono é retirado da atmosfera, em laboratório. Se a missão for bem-sucedida, ela pode ter um enorme impacto positivo no clima. “Com 1.000 kg de olivina, pode-se extrair 600 kg de CO2 do ar. E como a olivina é encontrada no peridotito da rocha, que representa 80% do volume da Terra, o uso desse mineral tem um grande potencial de efeito no clima”, diz o pesquisador.


Entenda Por Que As Mudanças Climáticas Podem Estar Por Trás da Pandemia de Covid-19


A população mundial de morcegos carrega cerca de 3 mil tipos diferentes de coronavírus (Foto: Jackie Chin/Unsplash). 

Estudo indica que espécies de morcegos, que carregam diferentes tipos de coronavírus, mudaram de região ao longo dos anos em decorrência das alterações no clima. 

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, há um ano, algumas questões permanecem sem resposta. Entre elas, de onde surgiu o Sars-CoV-2, causador da Covid-19. No fim de janeiro, o jornal Science of the Total Environment publicou um estudo que evidencia uma possível relação entre a pandemia e as mudanças climáticas. 

De acordo com a pesquisa, as emissões globais de gases do efeito estufa no último século favoreceram o crescimento de um habitat para morcegos, tornando o sul da China uma região propícia para o surgimento e a propagação do vírus Sars-CoV-2. 

A análise foi feita com base em um mapa da vegetação do mundo no século 20, utilizando dados relacionados a temperatura, precipitação e cobertura de nuvens. Os pesquisadores analisaram a distribuição de morcegos no início dos anos 1900 e, comparando com a distribuição atual, concluíram que diferentes espécies mudaram de região por causa das mudanças no clima do planeta. 

“Entender como a distribuição das espécies de morcego pelo mundo mudou em função das mudanças climáticas pode ser um passo importante para reconstruir a origem do surto de Covid-19”, afirmou, em nota, Robert Beyer, pesquisador do Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e autor principal do estudo. 

Foram observadas grandes alterações na vegetação da província chinesa de Yunnan, de Mianmar e do Laos. Os aumentos na temperatura, na incidência da luz solar e nas concentrações de dióxido de carbono presente na atmosfera fizeram com que o habitat, que antes era composto por arbustos tropicais, se transformasse em savana tropical e florestas temperadas. 

As novas características criaram um ambiente favorável para que 40 espécies de morcegos migrassem para a província de Yunnan no último século, reunindo assim mais de 100 tipos de coronavírus na área em que os dados apontam como a origem do surto do Sars-CoV-2. Essa região também é habitat dos pangolins, que são considerados prováveis agentes intermediários na pandemia. 

“Conforme as mudanças climáticas alteraram os habitats, espécies deixaram algumas áreas e foram para outras — levando os vírus com elas. Isso não apenas alterou as regiões onde os vírus estão presentes, mas provavelmente permitiu novas interações entre animais e vírus, fazendo com que vírus mais perigosos fossem transmitidos ou desenvolvidos”, explicou Beyer. 

O estudo ainda identificou que as mudanças climáticas resultaram no aumento do número de espécies de morcegos em outras regiões, como na África Central, na América do Sul e na América Central. “A pandemia de Covid-19 causou grande prejuízo social e econômico. Os governos devem aproveitar a oportunidade para reduzir os riscos que doenças infecciosas apresentam à saúde e agir para mitigar as mudanças climáticas”, alertou o professor Andrea Manica, do Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge. 

Os pesquisadores também ressaltam que é preciso limitar a expansão de áreas urbanas, fazendas e áreas de caça em habitats naturais para que seja reduzido o contato entre humanos e animais transmissores doenças


Articulação Entre Municípios é Essencial Para Combate à Seca e Desastres Naturais


Estudos identificam vulnerabilidades e capacidade de resposta aos efeitos das mudanças climáticas na macrometrópole paulista. Pesquisadores também apontam a necessidade de compreender as disparidades sociais e a distribuição desigual dos riscos dentro de uma mesma cidade (enchente no município de Itaoca, no Vale do Ribeira; foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil). 

Na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), as cidades com maior vulnerabilidade à seca e outros desastres naturais são também as que têm mais capacidade socioeconômica para se adaptar ao problema. Se por um lado isso parece ser positivo, por outro, evidencia a necessidade de articulação não só entre os municípios, mas também nas diferentes esferas governamentais para priorizar e definir as melhores maneiras de atingir a resiliência climática. 

É o que afirma uma equipe multidisciplinar de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e da Universidade Federal do ABC (UFABC) em artigo publicado na revista Sustainability. No estudo, a equipe comparou indicadores socioeconômicos e de vulnerabilidade climática entre os 174 municípios que formam a macrometrópole paulista – área com cerca de 30 milhões de habitantes e que abrange as regiões metropolitanas de São Paulo, Campinas, Sorocaba, Baixada Santista e o entorno do Vale do Paraíba. 

“Das 19 municipalidades mais vulneráveis à seca e desastres naturais, 18 estão situadas na RMSP e uma no Vale do Paraíba. Apesar de esses municípios terem boa capacidade de resposta às mudanças climáticas, eles estão longe de avançar ou de tomar as medidas necessárias para enfrentar os desafios climáticos que já se fazem presentes, e que devem aumentar nos próximos anos”, diz Pedro Henrique Campello Torres , pesquisador da USP e autor do estudo. 

O trabalho integra um Projeto Temático sobre a macrometrópole paulista que trata de cinco eixos principais e interdisciplinares: análise de vulnerabilidades, serviços ecossistêmicos, energia, mudanças climáticas e inovação. 

Os 19 municípios selecionados no estudo são: Arujá, Caieiras, Carapicuíba, Cotia, Diadema, Embu das Artes, Embu-Guaçu, Itapecerica da Serra, Itapevi, Itaquaquecetuba, Jandira, Mauá, Osasco, Poá, São Caetano, São Lourenço da Serra, São Paulo, Taboão da Serra e Jambeiro (o único no Vale do Paraíba e, portanto, distante dos demais). 

Os dados econômicos e de infraestrutura mostram que, embora muitos desses municípios tenham a capacidade institucional para apresentar planos próprios, outros apresentam maior dificuldade. Um exemplo destacado pelos pesquisadores é a cidade de Itaquaquecetuba, que tem Produto Interno Bruto (PIB) muito menor do que as outras cidades, como a capital paulista ou as que formam a região do ABC. 

Outro estudo realizado pelo mesmo grupo e publicado no International Journal of Urban Sustainable Development mostrou que a falta de uma governança antecipatória e de infraestrutura são razões para os recorrentes casos de mortes por enchentes na macrometrópole paulista. “São esses mesmos municípios que, por óbvio, precisam fazer ações imediatas para combater problemas presentes e futuros”, afirma Torres. 

Além da maior articulação entre municípios e níveis de governo, um terceiro artigo publicado pelo grupo de pesquisadores na revista Mercator propõe uma abordagem mais aprofundada para compreender disparidades sociais e a distribuição desigual dos riscos dentro de uma mesma cidade. 

“É preciso que o gestor municipal saiba quais são as áreas mais vulneráveis, fazendo uma governança que tenha justiça distributiva. No fim das contas, estamos falando de um futuro incerto, o que é muito complexo em política, que precisa ser certeira, usar os recursos da melhor maneira possível e com base na ciência. O melhor caminho então é planejar uma governança colaborativa e não concorrente”, diz Pedro Jacobi, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP) e coordenador do Projeto Temático. 

De acordo com os pesquisadores, no contexto da macrometrópole paulista, a vulnerabilidade fica evidente quando se abordam os territórios periféricos. A análise espacial de infraestrutura e de serviços mostra que, do ponto de vista do meio físico, são mais frágeis, suscetíveis a processos de deslizamentos e inundações. Já do ponto de vista ambiental, são também os territórios periféricos os responsáveis pela manutenção dos serviços ecossistêmicos quando resguardados pelas leis de proteção ambiental – o que pode resultar em conflitos entre proteção ambiental e direito à moradia e à cidade. 

Mais frequentes e mais extremos 

Os eventos climáticos extremos já afetam os municípios da macrometrópole paulista. Secas severas, chuvas extremas e inundações vêm ocorrendo de forma mais grave em várias cidades da região durante diferentes épocas do ano. 

Nos últimos anos, as políticas de prevenção de desastres têm crescido no Brasil, amparadas em uma nova perspectiva de leis baseadas na mitigação, prevenção, preparação e resposta. 

De acordo com os pesquisadores, a última grande seca que afetou a RMSP entre 2013 e 2015, por exemplo, reforçou a necessidade de uma resposta política regional às questões climáticas, levando em conta suas interdependências e vulnerabilidades. 

“Essa abordagem regional complementa as perspectivas atuais, que estão focadas em nível nacional ou municipal. Porém, existe uma ausência de planejamento conjunto e essa maior articulação parece ser essencial para priorizar e usar melhor os recursos disponíveis, não só os financeiros, mas de pesquisa, que possam servir de base para a tomada de decisão conjunta e em diferentes esferas governamentais”, diz Torres. 

Os pesquisadores afirmam que um dos motivos para essa falta de foco regional no combate às mudanças climáticas é a indisponibilidade de planejamento e cenários regionais. “Com isso também ficaria mais evidente uma avaliação da resposta das políticas para a região, que é a mais rica do Brasil e uma das mais ricas do Sul Global”, diz Torres. 

O grupo de pesquisadores analisou ainda como esses municípios da macrometrópole paulista estavam em relação às políticas e planos territoriais de planejamento e resiliência. “Para nossa surpresa, todos os 19 tinham aderido, por exemplo, ao plano de prevenção da defesa civil e apenas quatro não faziam parte do Programa Cidades Resilientes [Arujá, Embu, Embu-Guaçu e Itapevi]”, diz Torres. 

De acordo com o pesquisador, isso mostra que, de certa maneira, os municípios demonstram a necessidade de ações de enfrentamento e de maior articulação. “Caso contrário, nem sequer teriam atendido a esses programas. Não é qualquer município que pode assinar um compromisso internacional de se tornar uma cidade resiliente”, diz Torres. 

O artigo Vulnerability of the São Paulo Macro Metropolis to Droughts and Natural Disasters: Local to Regional Climate Risk Assessments and Policy Responses (doi: 10.3390/su13010114), de Pedro Henrique Campello Torres, Demerval Aparecido Gonçalves, Flávia Mendes de Almeida Collaço, Kauê Lopes dos Santos, Katia Canil, Wilson Cabral de Sousa Júnior e Pedro Roberto Jacobi, pode ser lido em www.mdpi.com/2071-1050/13/1/114

O artigo Why do extreme events still kill in the São Paulo Macro Metropolis Region? Chronicle of a death foretold in the global south (doi: 10.1080/19463138.2020.1762197), de Luciana Travassos, Pedro Henrique Campello Torres, Gabriela Di Giulio, Pedro Roberto Jacobi, Edmilson Dias De Freitas, Isabela Christina Siqueira e Tércio Ambrizzi, pode ser lido em www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/19463138.2020.1762197

O artigo Vulnerabilities, risks and environmental justice in a macro metropolitan scale (doi: 10.4215/rm2021.e20003), de Katia Canil, Rodolfo Baêsso Moura, Samia Nascimento Sulaiman, Pedro Henrique Campello Torres, Anna Luisa Abreu Netto e Pedro Roberto Jacobi, pode ser lido em www.mercator.ufc.br/mercator/article/view/e20003.

Por: Maria Fernanda Ziegler (Agência Fapesp).

O Impacto Mais Importante das Políticas Climáticas de Trump Foi a Perda de Tempo


Presidente Donald Trump em um comício de campanha em Minden, Nevada, no dia 12 de setembro de 2020. O presidente menosprezou as mudanças climáticas e promoveu políticas que as aceleram, fazendo com que os Estados Unidos não progredissem em ações contra as mudanças climáticas nos últimos quatro anos. Foto: Doug Mills / The New York Times / Redux. 

Muito dióxido de carbono foi liberado na atmosfera durante os anos do governo Trump, mas especialistas afirmam que o maior prejuízo foi a ausência de progresso.

Por décadas, especialistas climáticos alertaram que adiar a adoção de medidas para controlar o aquecimento global faria com que a resolução do problema fosse mais perigosa e difícil. Portanto, qual foi o impacto causado pelos quatro anos sem progresso sob o governo do presidente Donald J. Trump? 

Surpreendentemente, a quantidade total de dióxido de carbono adicional liberada na atmosfera nos últimos anos foi pouca, afirma Leah Stokes, especialista em política climática da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. Mas o mais importante era desacelerar o progresso das emissões. Os custos climáticos e econômicos da criação de um futuro com menos combustíveis fósseis estão aumentando drasticamente a cada ano, sendo assim, quatro anos sem progresso, pelo menos nos Estados Unidos, pressionam ainda mais os futuros líderes. 

“Não estamos indo na direção errada, mas também não estamos na direção certa”, diz Stokes. 

Quais políticas são mais importantes? 

Durante a campanha de Trump em 2016, ele já havia demonstrado seu ceticismo em relação às mudanças climáticas. Depois que ele assumiu o cargo em 2017, seu governo tomou decisões que desaceleraram ou menosprezaram as ações climáticas. Seu governo reverteu as políticas que ajudavam a mitigar o aquecimento, atenuou regulamentações para os poluidores climáticos, aprovou o oleoduto Keystone XL, desfez o Acordo de Paris e muito mais. 

No início de 2017, por exemplo, Trump determinou que a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) anulasse o Plano de Energia Limpa, política do governo Obama que visava reduzir as emissões de carbono do setor energético para 32% abaixo dos níveis de 2005 até 2030. Esse plano evitaria cerca de 70 milhões de toneladas de emissões até este ano e mais de 400 milhões de toneladas até 2030. 

Em vez disso, a EPA substituiu o Plano de Energia Limpa pela norma de Energia Limpa Acessível (ACE, na sigla em inglês), que não define limites de emissões nacionais, permitindo que os estados decidissem como controlar as emissões das usinas. A agência estimou que essa norma resultaria em apenas 11 milhões de toneladas a menos de CO2 liberados na atmosfera até 2030 — aproximadamente o volume de emissões de Rhode Island durante um ano, com base nos números de 2017. 

De forma semelhante, o governo atenuou as regras de eficiência do combustível de veículos, substituindo as normas por novas metas menos ambiciosas em março de 2020. As mudanças não teriam grandes impactos no futuro imediato, mas retardariam a transição para o uso de carros e caminhões mais eficientes. Tal como o cancelamento pelo governo de uma isenção permitindo que a Califórnia estabeleça normas mais rígidas de gases emitidos por veículos — uma ação que ainda está sendo contestada na justiça. 

O governo também modificou as normas referentes à quantidade de metano, um gás de efeito estufa superpotente, que pode ser emitido como subproduto da perfuração de poços de petróleo e gás e de aterros sanitários. A EPA estima que suas novas normas, estabelecidas em 2020, resultarão em 850 mil toneladas a mais de metano liberadas na atmosfera até 2030, embora alguns especialistas acreditem que seja uma estimativa subestimada. O metano é um agente de aquecimento muito mais poderoso do que o dióxido de carbono no curto prazo, o que significa que seus impactos podem ter forte influência no futuro próximo. 

Diversas outras normas foram atenuadas e muitos indícios mais sutis apresentados que favoreciam a economia de combustível fóssil. “O governo fez tantas coisas, e cada decisão não resulta em um grande impacto de emissões de combustíveis fósseis”, esclarece Narayan Subramanian, especialista em política climática e membro da Data for Progress e da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “Porém as decisões têm uma espécie de impacto coletivo.” 

Qual é a dimensão do impacto?

“É difícil quantificar os impactos dessas mudanças políticas”, explica Kate Larsen, analista do Grupo Rhodium, em parte porque futuras emissões também serão afetadas por outros fatores, como condições climáticas (o frio do inverno aumenta as emissões) e tendências econômicas (mudanças para energia renovável estão ocorrendo independentemente de mudanças políticas). 

Mas Larsen e seus colegas tentaram mesmo assim: eles estimaram quanto dióxido de carbono a mais as ações mais significativas de Trump podem liberar na atmosfera até 2035. 


Campos de gás natural nos arredores de Pecos, Texas. O governo Trump mudou as normas referentes à quantidade de metano, um prejudicial gás de efeito estufa, que pode ser emitido como subproduto da perfuração de poços de petróleo e gás. Foto: Ed Kashi / VII / Redux. 

Larsen e seus colegas constataram que a reversão das normas de eficiência de combustível aumentaria cerca de 450 milhões de toneladas de CO2 ou seu equivalente, a suspensão da isenção da Califórnia, se mantida, aumentaria cerca de 570 milhões de toneladas, principalmente por desacelerar a mudança para o uso de veículos elétricos. As normas de metano atenuadas contribuiriam com 640 milhões de toneladas. 

Com mais alguns detalhes, os analistas da Rhodium chegaram à estimativa final: as ações do governo Trump podem liberar um total de pelo menos 1,8 bilhão de toneladas de CO2 a mais na atmosfera até 2035. 

Aproximadamente 30% do que os Estados Unidos emitiram apenas no ano de 2019. 

Os efeitos da substituição do Plano de Energia Limpa pela ACE aumentariam ainda mais esse número, mas não se sabe a magnitude do efeito. E Larsen enfatiza que houve muito mais mudanças inefáveis que eram difíceis ou impossíveis de quantificar, então a estimativa provavelmente é baixa. 

Subramanian esclarece que é importante saber que “as mudanças não são permanentes em termos de estrutura regulamentar da política ambiental. Tudo o que [o governo Trump] fez na regulamentação é reversível”. 

A verdadeira questão, diz ele, é quanto tempo o governo Biden precisará para reverter a situação novamente, obter avanço nas ações climáticas e fazer com que a tendência das emissões siga firme na direção certa. 

Em busca do tempo perdido

Desde que os Estados Unidos atingiram o nível mais alto de emissões em 2007, em geral esse nível está em tendência de queda. Em 2018, a emissão subiu para cerca de 5,9 bilhões de toneladas métricas, de acordo com a Rhodium, antes de cair novamente em 2019 para 5,7 bilhões de toneladas métricas, quase a mesma quantidade de 2017. Em 2020, esses números estão caindo bruscamente mais um vez — mas apenas porque a pandemia paralisou parcialmente a economia e as pessoas não estão viajando ou se deslocando tanto. 

Mesmo assim, os cientistas concordam que as emissões precisam diminuir de forma rápida e sustentável, nos Estados Unidos e em outros lugares. “Temos uma quantidade finita de carbono que podemos emitir”, afirma Kirstin Zickfeld, cientista climática da Universidade de Simon Fraser na Colúmbia Britânica, “e já emitimos a maior parte”. 

A quantidade exata que resta nesse “limite de carbono” e como ele deve ser dividido entre os países são temas amplamente debatidos. Mas Zickfeld diz que uma forma simples de olhar para o problema é a seguinte: para haver 50% de chance de evitar que o planeta aqueça além de 1,5 grau Celsius — a meta mais ambiciosa definida pelo Acordo de Paris — o mundo deve se limitar a emitir menos de 500 bilhões de toneladas de dióxido de carbono no total. 

Com o volume de emissão atual — mundialmente, cerca de 36 bilhões de toneladas de dióxido de carbono fóssil por ano — esse número se esgotará em pouco mais de 12 anos. O desafio é chegar a uma emissão zero antes que o limite seja atingido. 

Larsen fez um cálculo aproximado para ilustrar como o governo Trump afetou esse desafio nos Estados Unidos, onde o presidente eleito Joe Biden agora abraçou o objetivo de emissão zero. Se depois de 2016 o país quisesse se empenhar nessa meta e cumprir o Acordo de Paris, seria necessário “manter as reduções de emissões entre 2025-2030 de 4,4% ao ano para continuar progredindo para o objetivo de emissão zero até 2050”, escreveu Larsen em um e-mail. 

Mas após os retrocessos de Trump, ela escreve, “teremos que atingir reduções de 5,4% ao ano, em média, entre 2025-2030 para continuar no caminho certo”. 

Cada ano sem progresso faz com que os cortes necessários sejam maiores e dificultam a obtenção do objetivo final. Muitos especialistas consideram que o tempo perdido é o maior prejuízo dos últimos quatro anos. 

Ben Sanderson, cientista climático do centro de pesquisa francês CERFACS, e um colega observaram recentemente como o atraso nas ações climáticas afeta o custo econômico de controlar as mudanças climáticas. 

“Conforme nos aproximamos [da meta de 1,5 °C], os custos aumentam exponencialmente a cada dia que passa”, diz ele. “Estamos prestes a tornar isso impossível.” 

“Para mim, o que não aconteceu nos últimos quatro anos é muito mais importante do que o que de fato aconteceu”, afirma Noah Kaufman, especialista em políticas climáticas da Universidade de Colúmbia. “Quanto mais adiarmos, mais cara ficará a implementação dessas políticas ou a alternativa é simplesmente não obtermos tantos resultados com elas. Esse é o impacto dos anos do governo Trump.”

Por: Alejandra Borunda. Fonte: National Geographic Brasil.