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Conheça 12 Green Techs Que Estão Ajudando o Brasil a Limpar Seu Impacto Negativo




Levantamento, feito pelo Prática ESG, traz alguns exemplos de empresas em áreas como economia circular, monitoramento de florestas, logística reversa, dessalinização de água do mar, bioinsumos, fitoquímicos, entre outras. Confira... 

Relatórios de consultorias diversas têm apontado para um preocupante cenário: as empresas ainda não estão fazendo o suficiente para conseguirmos brecar as emissões de gases poluentes e evitar o aquecimento do planeta acima de 1,5ºC, o que foi acordado como meta no Acordo de Paris, em 2015, e reforçado na COP 26, em 2021. Além de esforço coletivo corporativo maior do que temos visto, o surgimento e uso de novas tecnologias também tende a ajudar nessa missão. A solução passa pela preservação de florestas, combate ao desmatamento, transição para o uso de energia mais limpa, despoluição e circularidade de produtos. As green techs, como são chamadas as startups que estão atuando nessas searas, são, portanto, parte importante da solução. 

O diferencial dessas empresas de tecnologia está no fato de elas trabalharem com base científica e técnica, como o problema exige. O objetivo final dessa classe é mitigar o impacto humano negativo no meio ambiente em diversos campos, que vão da agricultura à mobilidade urbana passando pela oferta de água potável.

Internacionalmente, há muita inovação sendo desenvolvida. Um artigo publicado no site do Fórum Econômico Mundial, em abril deste ano, assinado pelo professor Philip Meissner, da ESCP Business School, e também fundador e diretor do European Center for Digital Competitiveness, traz alguns exemplos interessantes. 

“No campo da agricultura, a agricultura vertical pode revolucionar a forma como os vegetais são produzidos. A Infarm, por exemplo, com sede em Berlim, usa 99% menos espaço, 75% menos fertilizante e 95% menos água do que a agricultura convencional. A proteína também pode ser produzida de uma maneira muito melhor: a startup suíça Planted produz alternativas de carne à base de plantas (e deliciosas), de kebab a pato à Pequim, com 74% menos emissões de CO². E as diferenças da carne à base de plantas vão ainda mais longe: elas podem liberar 80% das terras agrícolas em todo o mundo usadas para pecuária, que atualmente produz apenas 20% das calorias”, escreve. 

Outra frente grande de atuação são as startups com foco em oferecer soluções sobre clima e relacionadas às mudanças climáticas. Segundo relatório da consultoria e auditoria PwC de 2021, já foram identificadas mais de três mil “climatechs”. Muito dinheiro de investidores está indo para essa área. Entre 2013 e o primeiro trimestre de 2021, US$ 222 bilhões foram investidos em empresas de tecnologia relacionadas ao clima. 

Segundo a auditoria, um total de US$ 87,5 bilhões foram investidos no período que compreende o segundo semestre de 2020 e o primeiro semestre de 2021. Isso representa um aumento de 210% em relação aos US$ 28,4 bilhões investidos nos doze meses anteriores. Só nos primeiros seis meses do ano passado, foram US$ 60 bilhões em investimentos. “A tecnologia climática agora responde por 14 centavos de cada dólar de capital de risco”, apresenta o estudo. 

Outra consultoria, a BCG (ex-Boston Consulting Group), publicou em abril deste ano o relatório “The next 'digital': unlocking US$ 50 billion green tech opportunity”, em que traz que as empresas de tecnologia estão prontas para alcançar “um crescimento revolucionário”. “O crescimento da green-tech é impulsionado pela crescente adoção da transformação do modelo de negócios orientado para a sustentabilidade em todos os setores, criando uma vasta oportunidade de US$ 45 bilhões a US$ 55 bilhões por ano e com expectativa de crescimento de 25% a 30%, ao ano, nos próximos cinco anos”, aponta o estudo. 

No Brasil começam a surgir bons exemplos de empresas de tecnologia que trabalham para ajudar empresas, governos e consumidores nos desafios ESG (social, ambiental e de governança). São exemplos em economia circular, monitoramento de florestas, logística reversa, dessalinização de água do mar, bioinsumos, fitoquímicos, entre outros. Conheça as 12 empresas que o Prática ESG elencou e que estão atuando para proteger, preservar ou restaurar o meio ambiente e o planeta. 

1. Eco Panplas - Economia Circular 

A Eco Panplas promove a reciclagem de embalagens plásticas pós-consumo com tecnologia própria. A recuperação das embalagens se dá por meio da chamada descontaminação ecológica, que não utiliza água, não gera resíduos e tem rastreabilidade. Com isso, leva benefícios socioambientais de impacto para a cadeia produtiva, para a sociedade e o ambiente. A empresa desenvolveu uma tecnologia, e obteve uma patente verde, pela qual separa o óleo residual de embalagens de lubrificantes para veículos e recupera as embalagens para que não seja necessário contar com material virgem. A cada 500 toneladas de produto reciclado, seriam preservados 17 bilhões de litros de água. A empresa também recupera todo óleo residual das embalagens, sem a geração de efluentes e resíduos, completando o ciclo da economia circular e logística reversa. 

2. Umgrauemeio - Monitoramento de incêndios em florestas 

O nome da empresa remete ao Acordo de Paris, a fim de reduzir as emissões globais de gases do efeito estufa para que o aquecimento global não supere 1,5 grau celsius. A greentech Umgrauemeio monitora incêndios florestais diretamente na área desejada, instalando câmeras de alta resolução em torres, onde giram 360 graus em busca de focos de incêndio. Cada câmera possui capacidade de detecção de 15quilômetros sendo que o foco pode ser detectado em apenas três minutos após o início do fogo. Outra câmera é direcionada ao foco e, por meio da triangulação das imagens, a coordenada resultante é indicada. Assim, as brigadas de incêndio são rapidamente acionadas, diferentemente do que ocorre quando o monitoramento é feito por satélite. 

3. Tesouro Verde - Confiabilidade de informações sobre preservação florestal 

O Grupo BMV, com sua vertical Tesouro Verde, uma govtech (SaaS que auxilia estratégias de políticas públicas de sustentabilidade e combate a mudanças climáticas), apresenta uma solução para conservação da biodiversidade em floresta, como estratégia de combate às mudanças climáticas. Por meio de um selo ESG, a startup busca certificar que florestas nativas sejam conservadas, em um processo que envolve o uso de blockchain, que garante a confiabilidade da operação. 

4. Green Mining - Logística Reversa 

Por intermédio de um algoritmo exclusivo, a Green Mining faz o mapeamento de pontos de geração de resíduos pós-consumo. Após identificar uma grande quantidade, instala uma central de recebimento, onde fica armazenado todo o material coletado na região antes de seguir para seu destino final. O material é retirado dos estabelecimentos cadastrados utilizando triciclos, em vez de veículos motorizados. Quando o centro atinge sua capacidade, o material é enviado para usinas e empresas de reciclagem. Segundo a startup, o material é pesado em cada etapa do processo e registrado no sistema a fim de garantir que tudo que foi coletado seja corretamente destinado. Nesse processo de rastreabilidade, a empresa adota a tecnologia blockchain. 

5. Biosolvit - Reúso de rejeitos da indústria de palmito 

A empresa utiliza resíduos de diversas origens como matéria-prima, ao transformá-los em novos produtos, sendo então reaproveitados em um novo ciclo, em sintonia com a ideia de economia circular. De acordo com a empresa, numa fábrica de palmito, apenas 3% das palmeiras são aproveitados. Com o rejeito, criou uma linha de produtos para o cultivo de plantas. Também desenvolveu equipamentos para contenção de vazamentos de óleo, capazes de devolver o produto recolhido para a refinaria, e ainda atua no tratamento de águas contaminadas. 

6. Biotecland - Agrobiotecnologia com microalgas 

A Biotecland adota soluções de biotecnologia para serem aplicadas na lavoura como forma de agricultura regenerativa. A startup desenvolveu um biofertilizante que contém microalgas, que conseguem absorver mais CO², ajudando no combate de pragas e trazendo mais resistência às plantas. A Biotechland também promete maior produtividade com a utilização do seu biofertilizante. Isso porque, além de comprar os insumos, o produtor pode também optar por fabricar suas próprias microalgas, utilizando a consultoria e a tecnologia da startup. 

7. Treevia - Monitoramento florestal e de pegada de carbono 

Atuando desde 2016 em soluções para o monitoramento remoto de florestas, a Treevia Forest Technologies também pretende ampliar suas atividades para a mensuração de conservação das florestas e da pegada de carbono. A startup já possui tecnologias que permitem o controle de inventário florestal, performance de florestas e acompanhamento de pesquisas em tempo real. Além disso, recentemente, a startup esteve entre sete iniciativas selecionadas pelo Land Innovation Fund, da Cargill, que vai destinar R$ 4,5 milhões para projetos que visam fomentar a sojicultura sem desmatamento. A proposta da Treevia, em parceria com a empresa GSS Carbono e Bioinovação, pretende entregar uma solução que remunere propriedades do cerrado por serviços ambientais realizados, com base em mapeamento de dados florestais, que utilizam a tecnologia da Treevia. 

8. Natcrom - Fitoquímicos 

Criada em 2020, a Natcrom Soluções Sustentáveis trabalha com economia circular, fazendo o reaproveitamento de resíduos agroindustriais para a fabricação de ativos botânicos, ou seja, de extratos que podem ser utilizados por indústrias farmacêuticas e de cosméticos. Um dos materiais descartados pela agroindústria e reutilizados são os rejeitos da casca da manga. Para que os projetos da startup sejam desenvolvidos, a Natcrom recebe apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), da Fapesp, que apoia pesquisas científicas. 

9. SDW - Água potável e impacto socioambiental

Especialista em projetos de impacto socioambiental voltados a populações de zonas rurais ao redor do mundo, a SDW desenvolveu o Aqualuz, um dispositivo premiado pela ONU para desinfecção de água de cisterna de captação de água de chuva de zonas rurais através da radiação solar. Torna potável a água captada pelas cisternas utilizadas por famílias de baixa renda em regiões remotas. Indicado contra a contaminação microbiológica da água, que causa doenças e mortes em crianças. Dura cerca de 20 anos apenas com limpeza de água e sabão, sem precisar de manutenção externa ou energia elétrica. A startup desenvolve ainda o projeto Sanuseco, banheiro sustentável voltado para regiões semiáridas, sem necessidade de descarga para remoção de dejetos e patógenos. Com o projeto Sanuplant Tecnologia complementar ao Sanuseco, voltada para o escoamento e tratamento do esgoto doméstico. 

10. MUSH - Agroindústria 

A startup Mush vem desenvolvendo pesquisas científicas há três anos para a utilização do micélio, que é uma parte componente de fungos, como matéria-prima biodegradável para a fabricação de produtos de ambientes domésticos e corporativos e embalagens sustentáveis. A startup também está criando soluções de isolamento térmico e acústico utilizando o material, ainda em processo de validação. Desde sua criação, a startup participou de várias chamadas e editais de fomento promovidos por Fundação Araucária, CNPq e SENAI. 

11. SOLUBIO - Bioinsumos 

A startup SoluBio possui uma solução de bioinsumos, o manejo biológico OnFarm, que pode ser produzido nas fazendas, diminuindo a necessidade de compra de defensivos ou outros insumos externos e trabalhando com a regeneração do solo. A startup promete uma economia de custos de até 70% para os produtores de cultivos de milho, soja, café, hortifruti, cana, trigo e algodão que utilizem a solução de bioninsumo. No ano passado, a SoluBio captou R$ 13,5 milhões para a ampliação de suas atividades e chegou a 1,6 milhão de hectares de atuação, abarcando mais de 250 grandes produtores. 

12. Yes, We Grow 

Fundada em 2019 pelo empreendedor Rafael Pelosini, a Yes We Grow tem como objetivo incentivar as pessoas a resgatarem o hábito de ter hortas em suas próprias casas. A startup vende kits orgânicos de brotos e mudas, pequenas caixas com sementes que desabrocham em até 20 dias, e vasos autoirrigáveis sem uso de terra. A palavra de ordem é facilidade.

Por: Italo Bertão, Cláudio Marques e Naiara Bertão. Fonte: Valor Econômico.

O Negacionismo Nuclear





Usinas de Angra 1 e 2, no Rio de Janeiro.

O negacionismo do atual desgoverno está presente em vários atos e atitudes de seus membros, em particular do presidente da República. O termo negacionismo é o ato de negar fatos, acontecimentos, e evidências científicas. Tal estratégia tem sido utilizada para a formação de uma governamentalidade (definição dada pelo filósofo francês Michel Foucault, como sendo o conjunto de táticas e estratégias usadas para exercer o poder e conduzir as condutas dos governados), e assim criar as próprias verdades. O que acaba dificultando e confundindo a percepção do público em geral, do risco de determinados eventos de grandes impactos e repercussão, como por exemplo, o que tem acontecido com a pandemia do Coronavírus. 

A criação de uma realidade paralela caracteriza-se por negar a própria pandemia, propagandear o uso de remédios ineficazes e questionar a eficácia da vacina. O que contribuiu nestes dois últimos anos para ceifar uma quantidade elevada de vidas humanas. Segundo cientistas, se cuidados básicos tivessem sido implementados pelo Ministério da Saúde para enfrentar a pandemia, um grande número de óbitos seria evitado. 

Outro tipo de negacionismo praticado tem sido o negacionismo nuclear. Com uma campanha publicitária lançada recentemente pela Eletrobras Eletronuclear, o desgoverno federal escolheu exaltar mentiras, distorcer fatos, manipular e esconder dados sobre as usinas nucleares, cujas instalações no país se tornaram uma prioridade. 

O que tem sido constatado após o último acidente nuclear, ocorrido em Fukushima (antes, o de Chernobyl), é que financiadores de “think tanks” (instituições que se dedicam a produzir conhecimento, e cuja principal função é influenciar a tomada de decisão das esferas pública e privada, como de formuladores de políticas) e lobistas defensores da tecnologia nuclear é que as campanhas pró usinas nucleares, estão muito ativas e atuantes, se valendo de desinformação. A falta de transparência é a arma utilizada pelos interesses dos negócios nucleares. 

Negar fatos e evidências científicas, mesmo que elas estejam muito bem explicadas, documentadas é a essência da prática que serve para explicar qualquer tipo de negacionismo, incluindo o do uso de usinas nucleares, que nada mais são do que instalações industriais, que empregam materiais radioativos para produzir calor, e a partir deste calor gerar energia elétrica, como em uma termoelétrica. O que muda nas termoelétricas é o combustível utilizado. 

No caso do uso da energia nuclear, também conhecida como energia atômica, algumas mentiras sobre esta fonte energética são defendidas, disseminadas, replicadas, compartilhadas, e assim, passam a construir verdades que acabam exercendo pressão, com o objetivo de minimizar e dificultar a percepção da população sobre os reais riscos e perigos que esta tecnologia representa, além de caras e sujas, e de ser totalmente desnecessária para o país. 

A política energética atual tem-se caracterizado pela falta de apoio efetivo às fontes renováveis de energia. Ao contrário, o ministro de Minas e Energia proclama como prioritário, a nucleoeletricidade. Insiste em priorizar e promover fontes de energia questionadas, e mesmo abandonadas pelo resto do mundo, caso do apoio ao carvão mineral para termelétricas, e da própria energia nuclear. 

No mundo em que vivemos cada ação praticada, implica em riscos. Assim, precisamos decidir sobre quais são aceitáveis, já que eliminá-los é impossível. Não existe risco zero. 

A ocorrência de um acidente severo em usinas nucleares é catastrófica aos seres vivos, ou seja, o vazamento de material radioativo confinado no interior do reator para o meio ambiente. É bom que se saiba, que inexiste qualquer outro tipo de acidente que se assemelha a radioatividade lançada ao meio ambiente, e suas consequências e impactos, presentes e futuros. 

No caso de usinas nucleares, onde reações nucleares com material físsil produz grande quantidade de calor concentrada em um espaço pequeno, no núcleo do reator, maiores são as consequências de qualquer anomalia acontecer, e se tornar uma catástrofe. Quanto maior a complexidade do sistema, mais elementos interagem entre si, e maiores são as chances de acidentes, mesmo com todos os cuidados preventivos. Neste caso, existe a possibilidade concreta de se cumprir a Lei de Murphy, segundo a qual “se uma coisa pode dar errado, ela dará, e na pior hora possível”.

Eis algumas mentiras que são propagadas, e que são motivadas pelas consequências políticas e econômicas que representam, e que merecem os esclarecimentos devidos: 

A energia nuclear é inesgotável, ilimitada 

As usinas nucleares existentes no país, e as novas propostas, utilizam como combustível o urânio 235 (isótopo do urânio encontrado na natureza). Este tipo de urânio, que se presta a fissão nuclear, é encontrado na natureza na proporção, em média, de 0,7%. Todavia é necessária uma concentração superior a 3% para ser usado como combustível, assim é necessário enriquecê-lo, aumentando o teor do elemento físsil. Pode-se afirmar que haverá urânio 235, suficiente para mais 30-50 anos, a custos razoáveis, para atender as usinas nucleares existentes. 

A energia nuclear é barata 

É muito mais cara do que nos fazem crer, sem contar com os custos de armazenagem do lixo radioativo, e o desmantelamento/descomissionamento no fim da vida útil da usina (custa aproximadamente o mesmo valor que a de sua construção). Logo, o custo do kWh produzido é próximo, e mesmo superior ao das termelétricas a combustíveis fósseis. E sem dúvida, acontecerá o repasse de tais custos para o consumidor final. 

A taxa de mortalidade de um desastre nuclear é baixa 

O contato de seres vivos, em particular de humanos com a radiação liberada por uma usina nuclear, tem efeitos biológicos dramáticos, e vai depender de uma série de fatores. Entre os quais: o tipo de radiação, o tipo de tecido vivo atingido, o tempo de exposição e a intensidade da fonte radioativa. Conforme a dose recebida os danos às células podem levar um tempo. Podem ser, desde queimaduras até aumento da probabilidade de câncer em diferentes partes do organismo humano. Portanto, em casos de acidentes severos já ocorridos, o número de mortes logo após o contato com material radioativo não foi grande; mas as mortes posteriores foram expressivas, segundo organismos não governamentais. Nestes casos a dificuldade de contabilizar a verdadeira taxa de mortalidade é dificultada pela mobilidade das pessoas. Pessoas que moravam próximas ao local destas tragédias, e que foram contaminadas, se mudam, e a evolução da saúde individual, fica praticamente impossível de se acompanhar. 

O nuclear é seguro 

Embora o risco de acidente nuclear seja pequeno, é preciso considerá-lo, haja vista que já aconteceu em diferentes momentos da história, e possui consequências devastadoras. Um acidente nuclear torna a área em que ocorreu inabitável. Rios, lagos, lençóis freáticos e solos são contaminados. Esse tipo de acidente ainda ocasiona alterações genéticas em seres vivos. 

O uso da energia nuclear está em pleno crescimento no mundo 

Esta é uma falácia recorrente dos que creditam a esta tecnologia um crescimento mundial. Vários países têm criado dificuldades para a expansão de usinas, e mesmo abandonando a nucleoeletricidade. Como exemplos temos a Alemanha, Áustria, Bélgica, Itália, Portugal, …. E em outros países o movimento anti usinas nucleares tem crescido entre a população, como é o caso da França e Japão. 

A energia nuclear é necessária, é inevitável 

No caso do Brasil, as 2 usinas existentes participam da matriz elétrica com menos de 2% da potência total instalada. E mesmo que as projeções governamentais apontem para mais 10.000 MW até 2050, assim mesmo, a contribuição da nucleoeletricidade será inferior aos 4%. A energia nuclear não é necessária no Brasil que detém uma biodiversidade extraordinária e fontes renováveis em abundância. 

A energia nuclear é limpa 

Por princípio não existe energia limpa, e sim as sujas e as menos sujas. No caso da energia nuclear ela é classificada de suja, pois é responsável por emissões de gases de efeito estufa ao longo do ciclo do combustível nuclear (da mineração a produção das pastilhas combustíveis), e produz o chamado lixo radioativo. O lixo é composto por tudo o que teve contato com a radioatividade. Logo, entra nessa categoria: resíduos do preparo das substâncias químicas radioativas, a mineração, o encanamento através do qual passam, as vestimentas dos funcionários, as ferramentas utilizadas, entre outros. Parte deste lixo, por ser extremamente radioativo, precisando ser isolado do meio ambiente por centenas, e mesmo milhares de anos. Não existe uma solução definitiva de como armazená-lo. Um problema não solucionado que será herdado pelas gerações futuras. 

O nuclear resolve nosso problema energético, evitando os apagões e o desabastecimento 

Contribui atualmente com 2% da potência total instalada no país, podendo chegar a 4% em 2050, caso novas usinas sejam instaladas. O peso das potências total instaladas, atual e futura, na matriz elétrica é muito inferior ao potencial das alternativas renováveis (por ex.: Sol e vento) disponíveis. Logo, a afirmativa de que a solução para eventuais desabastecimentos de energia pode ser compensada pela energia nuclear é uma mentira das grandes. 

O que está ocorrendo no país, caso prossiga a atual política energética nefasta, no sentido econômico, social e ambiental, é um verdadeiro desastre que deve ser evitado. 

Para saber mais sugiro a leitura dos livros:

Por um Brasil livre das usinas nucleares - Chico Whitaker 

Bomba atômica pra quê? - Tania Malheiros

E os artigos de opinião: 

Energia nuclear é suja, cara e perigosa - Chico Whitaker

O Brasil não precisa de mais usinas nucleares - Ildo Sauer e Joaquim Francisco de Carvalho

Porque o Brasil não precisa de usinas nucleares - Heitor Scalambrini Costa e Zoraide Vilasboas

Insegurança na usina nuclear de Angra 3 - Célio Bermann e Francisco Corrêa.



Por: Heitor Scalambrini Costa (EcoDebate).

As Plantas Conversam Entre Si: Isso Não É Ficção, É Ciência

Guarde esse nome: rizosfera. É aí que tudo acontece e onde está focada a pesquisa de cientistas brasileiros realizada por Embrapa e USP. 

No filme “Avatar”, de 2009, dirigido pelo norte-americano James Cameron, sucesso na época que se tornou um símbolo cult, os organismos conversam entre si. A cena da comunicação entre as árvores se tornou icônica e simboliza uma área do conhecimento que extrapola a ficção. Porque é justamente o contrário: a ficção veio depois da realidade. Foi o trabalho pioneiro da ecologista Suzanne Simard, da Universidade da Columbia Britânica que ajudou o cineasta a colocar nas telas a sua arte. As plantas conversam entre si: isso não é ficção, é ciência. 

No Brasil, essa realidade científica passa pelos corredores da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), em parceria com a Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz). Um bioensaio realizado pela universidade e a unidade Embrapa Meio Ambiente, em Jaguariúna (SP), envolveu plantas de trigo no qual os pequisadores mostram que elas se “comunicam” com microorganismos benéficos que envolvem suas raízes para terem acesso a mais nutrientes do solo e obterem maior proteção contra doenças fúngicas. 

Os experimentos ocorreram ao longo de 2021, com o apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), foram apresentados em outubro, durante o Simpósio Internacional “Avances en el mundo de Microbiomas”, da Universidad San Francisco de Quito, e devem continuar. O próximo passo para mapear essa comunicação será analisar o impacto da invasão de fungos e bactérias benéficas na montagem das comunidades bacterianas e fúngicas da rizosfera para entender os padrões e correlações entre a estrutura do microbioma da rizosfera, com o solo, a diversidade do microbioma e o estabelecimento do inoculante benéfico. 

Plantas de trigo do bioensaio realizado pela Embrapa e USP.


Para quem não sabe o que é rizosfera, anote: é a região do solo influenciada pelas raízes das plantas. Os pesquisadores querem, com novos experimentos, entender os padrões e relações que se estabelecem entre um microbioma, o solo e bactérias benéficas eventualmente inoculadas. Explicando em detalhes: sabendo que o microbioma da rizosfera fornece serviços ecológicos, incluindo nutrição e proteção contra doenças, os cientistas foram observar se as plantas de trigo mudariam o padrão da exsudação da raiz (aquele líquido que sai dos poros de uma planta ou um animal, e adquire consistência viscosa) para acessar os recursos fornecidos por esses microrganismos antagônicos, no caso de uma infecção por um patógeno transmitido pelo solo, o fungo Bipolaris sorokiniana. Os patógenos são organismos capazes de causar doenças em um hospedeiro. 

Os cientistas testaram o impacto de três bactérias benéficas – Streptomyces, Paenibacillus e Pseudomonas –, antagônicas ao patógeno, no início da doença, para entender como a planta hospedeira e os micróbios benéficos se comunicam para afastar o patógeno da rizosfera. “Testamos a inoculação independente dos três isolados bacterianos em mudas de trigo inoculadas ou não com o fungo patógeno. O índice de severidade foi o mais alto (93%) em plantas inoculadas exclusivamente com o patógeno (tratamento controle)”, explica Helio Quevedo, da Esalq/USP. “Em plantas inoculadas com a bactéria antagonista e com o patógeno, o índice de severidade variou de 50 a 62%, mostrando uma diminuição significativa na incidência da doença em comparação com o controle tratamento.” 

Diversidade microbioma é boa para o planeta 

Em outro estudo, os cientista avaliaram a diversidade do microbioma da rizosfera e seu impacto na proteção da planta de trigo inoculada com o patógeno de raiz Bipolaris sorokiniana e com um inoculante bacteriano antagonista – Pseudomonas. Utilizando uma técnica chamada “diluição à extinção”, os pesquisadores “diluíram” a diversidade microbiana de um solo natural e, além do solo natural, usaram tratamentos com um gradiente de solo diluído e também autoclavado. 

A inoculação resultou em maior altura de planta e massa seca de raiz, principalmente em tratamentos com o solo natural para a altura, mostrando o potencial de promoção do crescimento deste inoculante. Este inoculante também promoveu a proteção da planta nos tratamentos onde o patógeno foi introduzido. 

Rodrigo Mendes, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, explica que o microbioma da rizosfera oferece à planta hospedeira funções benéficas, incluindo absorção de nutrientes, tolerância ao estresse abiótico – onde há ausência de vida – e defesa contra doenças transmitidas pelo solo. Por exemplo, durante uma invasão de patógeno fúngico do sistema radicular, famílias bacterianas específicas e com certas funções são enriquecidas na rizosfera e ajudam a prevenir a infecção das plantas pelo patógeno. 

Conforme Caroline Nishisaka, da Esalq, o índice de gravidade da doença foi maior em todos os tratamentos que receberam o fungo patógeno Bipolaris sorokiniana, principalmente no solo mais “diluído”, mostrando que é mais destrutivo em solos com baixa diversidade microbiana, onde o inoculante antagonista também é mais eficaz na proteção a planta.

Por: Vera Ondei. Fonte(s): Forbes Agro / Embrapa.

Nem do Oceano Nem da Amazônia: De Onde Vem o Oxigênio Que Respiramos?


É comum ouvir que o oxigênio que respiramos vem do oceano ou das florestas tropicais. No entanto, o biólogo espanhol Carlos Duarte, uma das autoridades máximas da vida oceânica, diz que essa afirmação não possui respaldo científico. 

 De onde vem o oxigênio? 

“No oceano, assim como nos ecossistemas terrestres, a maior parte do oxigênio produzido é consumido pelos próprios organismos do sistema, tanto no caso das cianobactérias como no caso da Amazônia, em que o balanço do oxigênio é quase neutro”, explica Duarte. 

“A fotossíntese produz oxigênio, mas toda a cadeia trófica e os micro-organismos o consomem, de forma que o balanço é de quase zero”, continua. Isso significa que as grandes quantidades de oxigênio geradas nos oceanos e florestas são consumidas pelos mesmos organismos que as geram. 

Então, de onde vem o oxigênio que respiramos? “O oxigênio que está presente na atmosfera vem do evento da ‘Grande Oxigenação’, que ocorreu como o desenvolvimento da fotossíntese, há milhões de anos, e é esse oxigênio que continua sendo o legado que encontramos na atmosfera e que mantém nossa respiração”, afirma o especialista. 

Trata-se de um processo que ocorreu há aproximadamente 2,4 bilhões de anos, pela proliferação de bilhões de cianobactérias. Muito mais tarde, há cerca de 600 milhões de anos, o processo teve outra fase, que completou a configuração atmosférica que conhecemos. 

Além disso, Duarte afirma que, se todos os combustíveis fósseis da Terra fossem queimados, a enorme massa de oxigênio não diminuiria nem 3%. “A reserva de oxigênio na atmosfera é tão enorme, que se pudéssemos fazer uma experiência mental de apagar a fotossíntese, sem haver nova produção de oxigênio na biosfera, poderíamos continuar respirando, não somente nós, humanos, mas todos os organismos do planeta, durante três mil anos ou mais”.

Fonte: History.

Carne Ainda Mais Cara e Pecuária Mais Poluente: Os Efeitos da Mudança Climática


Mais calor e menos água devem prejudicar a qualidade do pasto, afetando a produção de carne, dizem cientistas. Preços altos vão tornar o consumo do produto ainda mais desigual. 

Quem está pagando R$ 40 o quilo em cortes de segunda ou já nem vê mais carne no prato neste ano de 2021 deve achar que pior do que está, a coisa não fica. Mas como no Brasil, diz o ditado, "no fundo do poço tem um alçapão", os cientistas trazem más notícias: pode ficar muito pior. 

O motivo é o rápido e já perceptível avanço das mudanças climáticas. 

Durante dez anos, pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) em Ribeirão Preto simularam os efeitos do aumento de temperatura e menor oferta de água sobre a qualidade do pasto, que serve de alimento para mais de 90% do gado de corte brasileiro. 

Eles constataram que a qualidade das folhas será severamente afetada pelo aumento de pelo menos 2°C esperado nas temperaturas nos próximos anos. 

Com isso, vai ser mais difícil engordar o gado, ou será preciso complementar a alimentação dos animais "a cocho" — expressão usada pelos pecuaristas para a nutrição do gado em confinamento, geralmente feita com grãos como milho, soja e sorgo — o que tende a reduzir a oferta ou encarecer ainda mais a carne bovina. 

E talvez ainda mais grave: o pasto com menos proteína e mais lignina (um componente indigerível pelos animais) pode levar os bois a produzirem ainda mais metano no seu processo digestivo. Com isso, uma atividade que já é considerada atualmente uma "vilã" do clima pode contribuir ainda mais para as mudanças climáticas, num ciclo vicioso. 

Em outro processo pernicioso, o aumento de temperaturas deve fazer o gado precisar de ainda mais água para se refrescar, num ambiente onde a oferta do líquido será mais restrita. 

Diante desse cenário, o recado dos cientistas é unânime: é preciso atuar já para mitigar as mudanças climáticas, melhorar o uso dos recursos hídricos pela agropecuária e desenvolver novas forrageiras (como são chamadas as plantas usadas na alimentação animal) mais resistentes ao calor e à falta de água. 

A boa notícia, diz a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), é que o país já tem experiência no assunto, pois produz proteína animal no semiárido, que é uma espécie de "microcosmo" do que será um Brasil futuro mais quente e com menos chuva. 

O gado e a grama

"Lá na USP Ribeirão Preto, nós temos uma estrutura montada para simular o clima futuro. Basicamente: o incremento do CO2 [gás carbônico, principal responsável pelo efeito-estufa], o aumento da temperatura e a falta de água", conta o professor Carlos Alberto Martinez Y Huaman, do departamento de Biologia da USP em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. 

"Nosso objetivo principal foi fazer uma simulação de como as pastagens poderiam responder às mudanças climáticas — ao aumento da temperatura em 2°C, ao aumento do CO2 em 50% e à restrição hídrica", explica o pesquisador. "Escolhemos para começar duas forrageiras brasileiras, uma gramínea e uma leguminosa, que foram cultivadas nesses ambientes modificados." 

E o que os pesquisadores encontraram nesses dez anos de estudos? 

"Encontramos o seguinte: o aumento de temperatura e a falta de água são muito prejudiciais para os pastos. Não somente para a produção de biomassa, mas também para a qualidade das folhas, que é a parte da planta que o gado come", diz Martinez, lembrando que os pastos ocupam no Brasil cerca de 160 milhões de hectares — uma área equivalente ao Irã e maior do que todo o Estado do Amazonas, a maior unidade federativa brasileira em território. 

Tanto a produção de carne, como a de leite, dependem do acesso do gado a pastos de boa qualidade e em boa quantidade. "Quando aumenta a temperatura e chove menos, as plantas vão produzir menos folhas e a qualidade da folha também muda: começa a cair o teor de proteína — nós encontramos uma queda entre 20% e 30%." 

"Com menos proteína e mais lignina — um polímero que o gado não consegue digerir —, o aproveitamento do pasto pelo gado cai. Assim, ele ganha menos peso. Para compensar, o gado vai ter que comer mais folha, mais pasto, ou o pecuarista vai ter que dar suplemento alimentar, se não o gado não engorda", afirma. 

"E se aumenta o teor de lignina, pode haver maior emissão de metano, um gás do efeito estufa que tem 20 vezes mais efeito de aquecimento que o CO2. Então pode causar mais problemas para as mudanças climáticas", alerta o especialista. 

Com a mudança climática também se altera a microbiota do solo — microbiota é o nome que se dá aos microrganismos que vivem em um ambiente. "Surgem fungos patogênicos que causam doenças nas plantas, isso é ruim para elas e para a produção pecuária." 

Além da emissão de metano, também podem aumentar as emissões de óxido nitroso, um gás que tem 300 vezes mais efeito de aquecimento que o CO2. 

"Quando se altera o ambiente e é aplicado, por exemplo, um adubo nitrogenado no pasto, pode haver uma perda grande de nitrogênio na forma de óxido nitroso. Isso tem impacto nas mudanças climáticas, contribuindo para o aquecimento global", explica o pesquisador. 

Preço da carne e desigualdade social

Entre as soluções para mitigar o problema, Martinez enumera: o uso de plantas mais resistentes à seca, a fixação biológica do nitrogênio (feita através de bactérias colocadas junto com as sementes que fixam o componente químico no solo) e a recuperação de pastos degradados para evitar o avanço do desmatamento. 

Ele também defende o incentivo ao método de produção chamado ILPF (integração lavoura-pecuária-floresta), que inclusive ajuda no controle de temperatura na criação dos animais, que podem recorrer à sombra das árvores para se proteger, diminuindo consequentemente a necessidade de consumo de água pelo gado num futuro que será mais quente. 

"É preciso que a informação chegue aos produtores, aos tomadores de decisão, para que vejam que o problema já está acontecendo. As mudanças climáticas e os eventos extremos estão ocorrendo dia a dia", alerta. 

"Se não tomarmos medidas para enfrentar essa situação, o preço da carne e do leite vai subir, para compensar o aumento de custo que os pecuaristas terão com a piora da qualidade do pasto. É um problema social, econômico e científico", conclui. 

Ao se vislumbrar esse futuro de preços ainda mais altos, é preciso levar em conta que o consumo de carne é um importante marcador de desigualdade social no Brasil. 

Segundo um estudo de pesquisadores do IFMG (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais), com base em dados da POF do IBGE (Pesquisa de Orçamentos Familiares do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o consumo médio per capita anual de carne bovina entre 2008 e 2009 era de 17,61 kg para as classes com rendimento acima de R$ 6,2 mil, sendo 11,33 kg de carne de primeira e 6,28 kg de carne de segunda. 

Para as classes com renda até R$ 830, o consumo médio por pessoa anual era de 8,88 kg, sendo 6,03 kg de carne de segunda e 2,85 kg de carne de primeira. 

Ou seja: um futuro em que as mudanças climáticas torne as carnes ainda mais caras deve aprofundar a desigualdade no acesso às proteínas mais nobres.

Clique no gráfico para ampliar!
"O que estava previsto para acontecer até 2050, 2100, agora se espera que aconteça até 2030, 2040. As estimativas mais pessimistas já falam que podemos chegar em cinco anos a [um aumento de temperatura de] 1,5°C, que é o limite do Acordo de Paris", alerta Martinez. 

"Normalmente, aqui no Brasil, a época de seca durava entre dois e quatro meses. Se a seca dura cinco, seis, oito meses, não há forma de cultivar plantas. Isso cria um cenário bastante pessimista na produção pecuária e agrícola. E temos que ter consciência de que isso é um problema sério de segurança alimentar." 

Água como questão-chave

Gherman Araujo, pesquisador da Embrapa Semiárido, destaca que, com o aumento esperado da temperatura nos próximos anos, os animais podem demandar um consumo de água entre duas e quatro vezes maior para manter a temperatura de seus corpos sob controle. 

Segundo ele, o consumo de água pelos animais varia de 2% a 6% do seu peso vivo. Isso significa que um boi de cerca de 500 kg ingere pelo menos 20 litros de água por dia. 

"O componente água é o principal dentro do sistema de produção agropecuário e o que mais será afetado [pelas mudanças climáticas]", destaca Araujo. "Sem água não há possibilidade de se ter qualquer tipo de produção de proteína animal ou vegetal." 

Durante a elaboração do PNHS (Plano Nacional de Segurança Hídrica), a ANA (Agência Nacional de Águas) identificou que os riscos diretos à produção animal por "fragilidades no balanço entre oferta e demanda de água" já alcançam R$ 29,86 bilhões, podendo somar R$ 44,57 bilhões em 2030, conforme informou o coordenador de estudos setoriais da ANA, Thiago Fontenelle, durante simpósio promovido pela Embrapa no ano passado. 

"Isso é muito sério e pode afetar todas as cadeias de produção animal, desde suínos, aves, até os ruminantes caprinos, ovinos e bovinos de leite e de corte", diz o pesquisador. "Até porque esses animais dependem para sua nutrição de grãos e a produção de grãos será afetada — haverá uma competição natural entre a demanda de grãos para consumo humano e para atender o consumo dos animais." 

"É preciso que a zootecnia atue trazendo soluções tecnológicas para mitigar os efeitos da alteração do clima", defende o especialista da Embrapa. "A região semiárida pode ser uma referência para como se produzir e ser eficiente num ambiente onde haja aumento de temperatura e menor disponibilidade hídrica." 

Segundo Araujo, o semiárido tem a ensinar técnicas diversas de captação e conservação de água; o uso de espécies vegetais altamente eficientes no uso do líquido, como a palma forrageira, um cacto utilizado na alimentação animal; além de animais tolerantes a altas temperaturas e eficientes no consumo de alimentos de baixa qualidade. 

"Nós temos muito o que ofertar como alternativas em um ambiente menos favorável em relação a temperatura e precipitação. O semiárido vai ser olhado na busca por soluções para a adaptação de outros biomas. Não tenha dúvida disso."

Por: Thaís Carrança (BBC Brasil).

Entenda o Inequívoco Papel Humano na Mudança Climática


A comunidade científica não tem mais dúvida sobre a mudança climática causada por atividades humanas. A DW explica como o estudo do clima evoluiu para o consenso científico sobre o aquecimento global.

É verdade que, dentro de sua história de 4,5 bilhões de anos, o planeta Terra experimentou eras de menor e maior calor. 

Numa alternância de milhares de anos, essas mudanças foram determinadas por variações na órbita da Terra ao redor do Sol. Enquanto distâncias maiores resultaram em ciclos mais frios, a proximidade gerou eras mais quentes e interglaciais. 

No final do século 20, quando cientistas começaram a observar como as temperaturas mudaram ao longo da história, eles notaram um aquecimento planetário muito mais rápido que a média, iniciado a partir dos anos 1980. 


Em 1998, pesquisadores da Universidade de Massachusetts e do Laboratório de Pesquisas de Anel de Árvore da Universidade do Arizona, ambas nos Estados Unidos, publicaram um estudo mostrando a temperatura média anual global durante os últimos mil anos. 

Para calcular temperaturas tão antigas, eles estudaram os chamados registros naturais – medições de núcleos de gelo, anéis de árvores e corais. 

O resultado mostrou pouca variação durante muitas centenas de anos até o século 20, quando subitamente houve um aumento acentuado. 

Em 2013, uma pesquisa publicada na revista Science analisou temperaturas ainda anteriores, datando de 11 mil anos atrás. A conclusão foi a mesma: o planeta aqueceu mais rápido no século passado do que em qualquer outra época desde o final da última era glacial. 

O estudo também revelou que, nos últimos 2 mil anos, a Terra vem enfrentando um período de resfriamento natural em termos de sua posição em relação ao Sol. 

Mas, como explica o estudo, esse resfriamento natural praticamente não foi notado devido ao aquecimento sem precedentes causado pelas emissões humanas de gases de efeito estufa. 

O que as emissões de CO2 têm a ver com a mudança climática? 

O efeito estufa – um processo natural que aquece a Terra – é necessário para sustentar a vida no planeta. Ele acontece quando certos gases em nossa atmosfera capturam o calor emitido pela Terra e atuam como o próprio efeito estufa do planeta. Os gases naturais que retêm o calor em nossa atmosfera, que incluem dióxido de carbono (CO2), metano e óxido nitroso, são necessários para manter a temperatura da superfície da Terra quente. 

Sem o efeito estufa, a temperatura da superfície cairia 33 graus Celsius, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM). Isso tornaria o planeta um lugar congelado e inabitável. 

Durante milhares de anos, a natureza regulou bem a concentração desses gases. Mas isso começou a mudar quando os seres humanos passaram a queimar combustíveis fósseis para criar energia, o que desencadeou um aumento acentuado das emissões não naturais de CO2. Isso interferiu no equilíbrio atmosférico do planeta e, como resultado, a Terra começou a aquecer mais rapidamente. 

De acordo com o relatório da OMM sobre o Estado do Clima Global 2020, a temperatura média no ano passado foi 1,2 grau Celsius mais alta do que os níveis pré-industriais. Isso se refere ao período entre 1850-1900, quando os combustíveis fósseis não eram amplamente utilizados como meio para gerar energia. 

O relatório descreveu os níveis crescentes de gases de efeito estufa na atmosfera resultantes das atividades humanas como "um dos principais motores das mudanças climáticas".

Em 2001, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estimou que a concentração de CO2 na atmosfera havia sido de 280 partes por milhão (ppm) por vários milhares de anos antes da era industrial. Em 1999, havia aumentado para 367 ppm. 

Criado como um órgão da ONU em 1988, o IPCC tem 195 países-membros e se ocupa da ciência relacionada à mudança climática. Ele atribuiu o aumento de CO2 atmosférico às emissões geradas pelo homem, três quartos delas provenientes da queima de combustíveis fósseis, e o restante da mudança no manejo da terra. 

Em maio de 2021, o nível médio global de CO2 atmosférico atingiu 415 ppm. A última vez em que os níveis de CO2 haviam sido tão elevados foi há cerca de 3 milhões de anos, quando o nível do mar era cerca de 30 metros mais alto, e os humanos modernos nem sequer existiam. 

O cientista climático Benjamin Cook, do Instituto Goddard para Estudos Espaciais da Nasa, explica que, no final do século 20, quando os pesquisadores começaram a procurar respostas para explicar a tendência de aquecimento, eles examinaram diferentes fatores, incluindo gases de efeito estufa, energia solar, circulação oceânica e atividade vulcânica. 

"Somente as emissões de gases de efeito estufa dos combustíveis fósseis e a industrialização nos deram uma previsão que se alinha com o aquecimento que estamos vendo", disse Cook à DW. 

Ele afirma que a comunidade científica está tão confiante na mudança climática causada pelo homem hoje quanto na compreensão da teoria da gravidade. 

"Há incertezas e nuances a serem discutidas na ciência climática", comenta Cook. "Mas a única coisa em que praticamente todo cientista concorda hoje é que o aquecimento que estamos vendo é impulsionado pela queima de combustíveis fósseis." 

Por que demorou para se chegar a essa conclusão?

Uma análise amplamente discutida sobre a evolução do consenso científico sobre o aquecimento global antrópico foi publicada em 2013. 

Liderado por John Cook, pesquisador do Centro de Pesquisa de Comunicação sobre Mudanças Climáticas da Universidade de Monash, na Austrália, pesquisadores americanos, britânicos e canadenses examinaram 11.944 textos relacionados ao clima publicados na literatura científica revisada por pares entre 1991 e 2011. 

Menos de 1% dos trabalhos de pesquisa examinados rejeitavam a ideia da influência humana sobre o clima da Terra. Dos textos, 66,4% não expressaram nenhuma posição sobre o fator antrópico, e 32,6% o endossaram. Uma análise mais aprofundada desse último número revelou um consenso de 97,1% sobre a mudança climática causada pelo homem. 

Os críticos, no entanto, atacaram as conclusões com base no fato de que o consenso de 97,1% foi derivado de menos de um terço (32,6%) de todos os artigos revisados. A maioria (66,4%), argumentaram eles, não havia expressado um ponto de vista. 

O consenso científico não pode ser alcançado através de votação, mas evolui com o tempo à medida que mais pesquisas são feitas. 

Um estudo mais recente conduzido por um grupo de autores internacionais confirmou que mais de 90% dos cientistas climáticos compartilham o consenso de que a mudança climática é causada pelo homem. 

E uma análise de 2019 de 11.602 artigos revisados por pares sobre mudança climática publicados nos primeiros sete meses de 2019 constatou que os cientistas chegaram a um acordo de 100% sobre o aquecimento global causado pelos humanos. Essa pesquisa foi realizada por James Lawrence Powell, geólogo americano e autor de 11 livros sobre mudanças climáticas e ciência da Terra. 

"Se uma teoria alternativa do que está impulsionando a mudança climática em vez de gases de efeito estufa fosse apoiada por pesquisas e evidências, tal trabalho seria inovador", diz Benjamin Cook. "Seria um estudo de nível de prêmio Nobel. Mas nós não temos ainda essa pesquisa." 

A mudança climática de origem humana é endossada pelo IPCC. Já em 1995, o órgão intergovernamental disse: "O equilíbrio das evidências sugere que existe uma influência humana discernível sobre o clima global." 

"Uma abordagem científica significa olhar para os dados, observações e resultados para tirar conclusões", afirma Helene Jacot Des Combes, climatologista da Universidade do Pacífico Sul, autora do IPCC e assessora do governo das Ilhas Marshall. "E tudo isso nos diz que a atual mudança climática é causada pelas atividades humanas."

Por: Tatiana Kondratenko (Deutsche Welle).

Estudo Mapeia Pela Primeira Vez os Limites do Sistema Solar


Cientistas criaram mapa 3D pioneiro que mostra fronteiras da heliosfera com o espaço, uma região varrida pelos fortes ventos interestelares. 

Cientistas conseguiram mapear a heliopausa, que é o limite da heliosfera (em marrom na ilustração acima) com o espaço interestelar (em azul escuro). Créditos: NASA/IBEX/Adler Planetarium. 

Pela primeira vez, uma equipe de cientistas mapeou a região onde está localizado o limite da heliosfera. O trabalho vai ajudar nas pesquisas sobre a interação entre o vento solar e os ventos de origem interestelar. 

“Modelos físicos vêm teorizando sobre essa fronteira há anos”, disse Dan Reisenfeld, cientista do Laboratório Nacional de Los Alamos e principal autor do artigo, e responsável pelo mapeamento. “Mas esta é a primeira vez que realmente conseguimos medir e fazer um mapa tridimensional.” 

A heliosfera é uma bolha criada pelo vento solar. É um fluxo de prótons, elétrons e partículas alfa que se estende desde o Sol até o espaço interestelar, protegendo a Terra da radiação interestelar prejudicial. 

Em seu trabalho publicado no Astrophysical Journal, Reisenfeld e a equipe usaram dados do Interstellar Boundary Explorer (IBEX). O IBEX é um satélite da Nasa que detecta partículas que vêm da camada limite entre o Sistema Solar e o espaço interestelar, ou seja, da heliosfera. A equipe conseguiu mapear a borda dessa zona – uma região chamada heliopausa. Nela, o vento solar, que se desloca em direção ao espaço interestelar, colide com o vento interestelar, que se desloca em direção ao sol. 

Para realizar essa medição, eles utilizaram uma técnica semelhante ao sonar dos morcegos. “Assim como os morcegos enviam pulsos de sonar em todas as direções e usam o sinal de retorno para criar um mapa mental de seus arredores, usamos o vento solar do Sol, que vai em todas as direções, para criar um mapa da heliosfera”, disse Reisenfeld. 

Eles fizeram isso usando a medição do satélite IBEX de átomos neutros energéticos (ENAs), que surgem a partir das colisões entre as partículas do ventos solar e as partículas dos ventos interestelares. A intensidade desse sinal depende da intensidade do vento solar que atinge a heliopausa. Quando uma onda atinge a pausa, a contagem de ENA aumenta e o IBEX pode detectá-la. 

“O ‘sinal’ do vento solar enviado pelo Sol varia em intensidade, formando um padrão único”, explicou Reisenfeld. “O IBEX verá o mesmo padrão no sinal de retorno da ENA, dois a seis anos depois, dependendo da energia da ENA e da direção que o IBEX está olhando através da heliosfera. Esta diferença de tempo é como encontramos a distância até a região da fonte ENA em um direção particular.” 

Eles, então, aplicaram esse método para construir o mapa tridimensional, usando dados coletados ao longo de um ciclo solar completo, de 2009 a 2019. “Ao fazer isso, somos capazes de ver os limites da heliosfera da mesma forma que um morcego usa o sonar para ‘ver’ as paredes de uma caverna”, acrescentou. 

O motivo por trás da demora para o retorno do sinal ao IBEX está relacionado às vastas distâncias envolvidas. As distâncias no Sistema Solar são medidas em unidades astronômicas (UA), onde 1 UA é a distância da Terra ao Sol. O mapa de Reisenfeld mostra que a distância mínima entre o Sol e a heliopausa é de cerca de 120 UA na direção do vento interestelar. Na direção oposta, estende-se pelo menos 350 UA. Para referência, a órbita de Netuno tem cerca de 60 UA de diâmetro.


'ESG' Sob Ataque: Afinal, É Tudo Conversa Fiada?


Para o ex-diretor de Sustentabilidade da BlackRock, sim, o mundo está sendo enganado com isso; veja o que dizem pesquisadores brasileiros. 

O avião do ESG ['environmental, social and corporate governance'governança ambiental, social e corporativa] mal decolou e já está levando pedrada. E quem atira não é nenhum desavisado que ignora o assunto, mas justamente o ex-diretor de Investimentos Sustentáveis da BlackRock, a maior gestora de capitais do mundo e principal propulsora desse movimento no planeta. 

Tariq Fancy foi contratado em janeiro de 2018 por Larry Fink, o CEO da BlackRock, para fazer exatamente o que preconiza o ESG, ou seja, incorporar os critérios ambientais, sociais e de governança nos US$ 8,7 trilhões sob gestão da empresa. Fez isso e não encontrou valor nenhum nos dados. 

Saiu de lá em setembro de 2019 e começou a atirar há dois meses, primeiro com um artigo no USA Today e depois com uma série de entrevistas, em que lança petardos como este: “O investimento sustentável se resume a pouco mais do que marketing, uma invenção de relações públicas e promessas falsas da comunidade de investidores”. E este: “O ESG cria um placebo social gigante, em que pensamos que estamos progredindo, embora não estejamos”. E mais este: “Em essência, Wall Street está dando uma lavagem verde ao sistema econômico e, neste processo, criando uma distração mortal”. 

Forte, não? A tese de Fancy é que somente a regulamentação governamental pode impedir o desastre das mudanças climáticas. Ele até contemporiza um pouco, dizendo que parte do movimento ESG, incluindo várias ferramentas e padrões, são passos na direção certa, mas ressalta que eles não estão sendo usados corretamente. “Os problemas sistêmicos exigem soluções sistêmicas lideradas por líderes eleitos democraticamente”, conclui. 

Fancy não é um lunático. Pelo contrário, vejo o ceticismo dele refletido em muitas rodas de conversa espalhadas por aí. Mas penso que, num momento crucial de engajamento de empresas mundo afora para fazer algo diferente, ele acabou jogando o bebê fora com a água do banho. Mas eu sou apenas um desavisado que ignora o assunto nesta história toda. Então conversei com dois grandes especialistas brasileiros para perguntar a opinião deles sobre a controvérsia causada por Fancy. 

Para Ricardo Abramovay, professor sênior do Programa de Ciência Ambiental do IEE/USP, o ESG é um modelo de proteção do mercado financeiro, e quem tem a expectativa de que ele vai resolver os problemas do mundo e permitir o crescimento sustentável certamente vai se frustrar. “Por mais importante que seja o setor privado, ele não é capaz de preencher todas as necessidades da sociedade. É preciso que o Estado atue para reformular a relação da sociedade com a natureza e combater a desigualdade”, afirma. 

“Daí a dizer que é tudo greenwashing e que as orientações do mercado financeiro não são importantes, há um grande engano. A BlackRock foi importantíssima para compelir os três maiores bancos privados brasileiros a lançar um programa para a proteção da Amazônia. Somos gratos a ela por isso. É ótimo que o mercado financeiro continue a pressionar”, disse Abramovay, autor de Amazônia: Por uma Economia do Conhecimento da Natureza. 

Para a professora Monica Kruglianskas, da FIA Business School, a crítica de Fancy pode ser considerada radical se confundirmos o ESG com todo o espectro da sustentabilidade. “Não dá para dizer que isso é distração”, afirma ela. “Mas ele traz uma reflexão importante. As empresas são rule-takers, e não rule-makers. É difícil e improvável que os negócios mudem as regras do jogo enquanto estão jogando”, diz. 

Na opinião de Monica, o setor financeiro, apesar do seu tamanho, poder e influência, esteve bastante ausente no debate sobre a crise climática nos últimos tempos – por exemplo, no Acordo de Paris e nas COPs – e ainda não tem acordos definidos para objetivos globais. 

“Há menos de cinco anos, a ideia de clima como externalidade a ser incluída na contabilidade de um investimento nem era considerada. São as movimentações de governos, especialmente da Comunidade Europeia, do Reino Unido e agora também dos Estados Unidos, por meio da criação de leis, e não autorregulamentações e guidelines, que estão mudando este cenário”, diz ela, que é doutora em Sustentabilidade e Reputação Corporativa pela Universidade de Barcelona e foi diretora de desenvolvimento sustentável da Danone na Espanha. 

“Os desafios da crise climática e social são, efetivamente, questões sistêmicas e precisam da inclusão de todos os atores para regenerar o nosso sistema socioeconômico. Não basta inovar processos e produtos, temos que criar novos e sustentáveis modelos de negócios”, afirma Monica. 

E conclui: “O que todo investidor deveria se perguntar é como um determinado investimento ESG está efetivamente fazendo a diferença na vida das pessoas. Seja com melhores condições de trabalho, seja reduzindo violações dos direitos humanos ou emissões de CO₂, ou melhorando a gestão dos recursos que precisamos para sobreviver neste planeta. Ou ainda, se está realmente ajudando a solucionar desafios na cadeia global de suprimentos que sustentam o nosso estilo de vida insustentável. Sob estas lentes, a jornada ESG apenas começou.”

Por: Renato Krausz (Exame).

Imunidade Celular é Essencial Para Evitar Reinfecção Pelo Novo Coronavírus, sugere estudo


Juliana (à esquerda) e sua irmã Luana, que foi reinfectada pelo SARS-CoV-2 quatro meses após se curar da COVID-19. Ao estudar o caso das gêmeas, pesquisadores da USP concluíram que a imunidade celular de Juliana era mais bem desenvolvida e a protegeu da reinfecção (foto: acervo pessoal).

Duas gêmeas idênticas que moram na mesma casa contraíram a COVID-19 e manifestaram sintomas leves, como febre, tosse e congestão nasal – sem necessidade de hospitalização. Quatro meses depois, em agosto de 2020, uma das irmãs foi reinfectada. Porém, dessa vez, desenvolveu um quadro mais grave, com queda na taxa de oxigenação sanguínea e necessidade de internação por dez dias, parte do tempo em unidade de terapia intensiva. A outra irmã, apesar de ter tido novo contato com o vírus, não foi reinfectada. 

Parece apenas um acontecimento inusitado e fortuito, entre tantos relacionados à pandemia de COVID-19. Porém, ao detalhar pela primeira vez um caso de reinfecção em indivíduos com o mesmo genoma, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) conseguiram comprovar o papel essencial da resposta imune adaptativa (específica para cada patógeno) mediada por linfócitos T – também chamada de imunidade celular – para evitar a recorrência da doença.

“Era de se esperar que gêmeas idênticas apresentassem sintomas semelhantes. No entanto, identificamos um caso em que os resultados foram muito diferentes. Somente uma das irmãs teve reincidência de COVID-19 e apresentou uma resposta deficitária de linfócitos T específicos. No estudo, observamos que a resposta imune adaptativa pode ser diferente entre gêmeos monozigóticos [formados a partir do mesmo óvulo, fecundado por um único espermatozoide]”, afirma Mayana Zatz, professora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-Tronco (CEGH-CEL), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP. 

A descoberta relacionada ao papel dos linfócitos T na prevenção de reinfecções surgiu de uma pesquisa mais ampla sobre sistema imune com a participação de gêmeos idênticos. Os dados completos da pesquisa, que contou com apoio da FAPESP, foram divulgados na plataforma medRxiv, em artigo ainda sem revisão por pares. 

Frentes de atuação 

Como explicam os autores do estudo, o sistema imune conta com diferentes “frentes de atuação”. Ao lado de outras células de defesa – como macrófagos e neutrófilos –, os linfócitos T formam a complexa resposta do corpo humano contra vírus e outros patógenos. 

Quando um vírus infecta uma pessoa e passa a se multiplicar dentro de suas células, ele desencadeia primeiro a resposta imune inata (inespecífica). Células chamadas de macrófagos identificam o vírus e o fagocitam. Há também a ação de proteínas chamadas interferons, uma espécie de “cadeado” que impede as células infectadas de replicarem o vírus. 

Se a resposta imune inata não resolver o problema, entra em cena o sistema imune adaptativo, formado por anticorpos neutralizantes (resposta humoral) e pelos linfócitos T (imunidade celular), que reconhecem o patógeno e podem destruir as células infectadas. 

Para descobrir por que a resposta das irmãs foi diferente, os pesquisadores realizaram uma avaliação abrangente da imunidade inata e adaptativa das gêmeas. Além de ensaios sobre a resposta inata relativa à produção de proteínas interferons do tipo 1 e 3, analisaram a resposta adquirida, que inclui a ligação e neutralização por anticorpos presentes no sangue e a resposta dos linfócitos T a peptídeos sintéticos de SARS-CoV-2. 

“Ao analisar amostras de sangue das gêmeas, notamos que elas apresentavam condição semelhante da resposta inata de interferons do tipo 1 e 3, bem como de anticorpos – inclusive neutralizantes. A irmã reinfectada apresentava até uma quantidade maior de anticorpos, pois tinha acabado de ter a reincidência da infecção, mas havia uma diferença brutal em relação à resposta imune mediada por linfócitos T”, conta Edecio Cunha Neto, professor do Departamento de Clínica Médica e pesquisador do Instituto do Coração (InCor) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). 

Com o objetivo de aprofundar a análise, os pesquisadores compararam os resultados dos testes com amostras de sangue das irmãs com os de outro par de gêmeos idênticos que tiveram COVID-19 assintomática uma única vez (e serviram como grupo controle). 

Dos 46 peptídeos – ou fragmentos do vírus SARS-CoV-2 – que os linfócitos T têm mais facilidade de reconhecer, as células da irmã reinfectada reconheciam apenas sete (15%), enquanto as de sua gêmea reconheciam 40 (87%). No outro par de irmãos (grupo controle) também houve variação, mas ambos identificaram quase 100%. 

“Nossos achados reforçam que o repertório imune é definido somaticamente [por mutações ocorridas em estágios mais avançados do desenvolvimento] e respostas aleatórias individuais são produzidas independentemente do arcabouço genético, o que justifica perfis distintos observados em gêmeos monozigóticos. Ou seja, o repertório imune é desenvolvido a partir de sucessivas exposições a patógenos, fatores ambientais e genéticos que em conjunto fazem a resposta imune ser única em cada indivíduo", explica Mateus Vidigal de Castro, pós-doutorando no IB-USP e primeiro autor do estudo. 

Pesquisadores em todo o mundo ainda têm pouco conhecimento sobre como se dá a reincidência de COVID-19. Antes do surgimento das novas cepas, a estimativa era de que esse tipo de evento acontecesse com uma a cada mil pessoas (1:1000). Mais raro ainda é a reincidência ocorrer e de forma discordante em gêmeos idênticos. 

“Em casos de reincidência, o esperado é que a segunda resposta imune seja mais forte, pois o sistema imunológico tem por característica memória e especificidade. No entanto, a gêmea reinfectada teve uma resposta deficitária de linfócitos T, diferentemente de sua irmã. Essa disparidade entre pessoas com o mesmo genoma mostra que não só os anticorpos são de extrema importância para resposta contra a COVID-19”, diz Cunha-Neto. 

Zatz destaca que a análise do caso das gêmeas abre caminho para mais estudos sobre imunidade e COVID-19. “O mais interessante é que o caso das gêmeas revela pistas importantes sobre a complexidade do sistema imune e também da COVID-19 para a população em geral.” 

Vacinas e variantes do vírus

Outro aspecto importante da pesquisa está em reafirmar a noção de que quanto mais imunogênica for uma vacina, ou seja, quanto mais ela ativar a resposta imune das diferentes células e proteínas do sistema imune, melhor. 

No caso das gêmeas, tanto a infecção quanto a recorrência da doença aconteceram no ano passado, quando ainda não haviam surgido as variantes mais transmissíveis. Ainda assim, os pesquisadores ressaltam a importância dos linfócitos T na proteção contra as novas cepas. 

“Há uma crescente preocupação de que novas variantes do SARS-CoV-2 sejam capazes de evitar a ação de anticorpos neutralizantes induzidos tanto pela vacinação quanto por infecção prévia. Nosso estudo enfatiza a importância da imunidade celular na proteção contra recorrências e reinfecções para a população em geral”, diz Cunha-Neto. 

Segundo o pesquisador, estudos recentes mostram que a resposta imune mediada por linfócitos T é menos afetada pelas novas variantes do que a resposta humoral. “Isso pode sugerir que a proteção conferida pela resposta celular induzida pelo vírus original ou pela vacina seja eficaz contra as novas variantes.” 

O artigo Monozygotic twins discordant for severe clinical recurrence of COVID-19 show drastically distinct T cell responses to SARS-Cov-2 pode ser lido em www.medrxiv.org/content/10.1101/2021.03.26.21253645v1.

Por: Maria Fernanda Ziegler (Agência Fapesp).

Cataratas de Vitória: Como Uma das Maiores Quedas D'água do Mundo Secou


Cataratas Vitória, acima em foto de janeiro de 2019, ainda no período de cheia. 

Em seu volume máximo, as Cataratas de Vitória, no Zimbábue, facilmente se encaixam entre as maravilhas naturais do mundo. Com dimensão de 1,7 km em seu ponto mais largo e altura de mais de 100 metros, elas são conhecidas pelos locais não só como as maiores cataratas africanas, mas também como a 'fumaça que troveja". 

A queda d'água é formada pelo fluxo do rio Zambezi caindo sobre um precipício chamado Primeiro Desfiladeiro. O precipício foi esculpido pela ação da água sobre rochas vulcânicas que formam essa região do sul da África. 

Em dezembro de 2019, porém, a maior parte dessa majestosa queda d'água foi silenciada. 

Em meio à maior seca em um século na região, sobraram ali apenas alguns filetes de água. Segundo a imprensa local, o fluxo hídrico voltou cerca de três meses depois, mas persistem as preocupações quanto ao futuro das cataratas e do clima africano. 

Como uma das principais atrações turísticas locais, as Cataratas de Vitória são uma valiosa fonte de renda para o Zimbábue e a Zâmbia. À medida que a notícia do baixo nível de água se espalhou, comerciantes locais notaram uma queda considerável na chegada de turistas. 

Além disso, a falta de água prejudicou o abastecimento de energia, uma vez que afetou o funcionamento de hidrelétricas. 

Os efeitos foram além: agências humanitárias alertaram que aumentou a necessidade de auxílio alimentar para a população local, uma vez que as colheitas foram prejudicadas pela seca. 



As Cataratas, em dezembro de 2019; grande parte da queda d'água se reduziu a pequenos filetes.

Secas extremas

Observadores de padrões climáticos no rio Zambezi acreditam que as mudanças climáticas estão causando um retardamento da temporada de monções, fazendo com que as chuvas se concentrem em eventos maiores e mais intensos. 

Isso torna mais difícil o armazenamento de água na região, além de tornar mais dramático o impacto da temporada estendida de secas, com mais consequências danosas para a população e o meio ambiente. 

Um evento climático extremo não pode, isoladamente, ser considerado consequência das mudanças climáticas. Mas essa região do sul da África tem registrado uma série de duras secas que refletem o que cientistas climáticos previam que iria ocorrer, como resultado de aumento nos gases de efeito estufa na atmosfera global, lançados por ação humana. 

O presidente da Zâmbia, Edgar Lungu, disse à época que o ressecamento da queda d'água era "um duro lembrete de o que as mudanças climáticas estão fazendo com o nosso ambiente". 

O relatório de 2019 da ONU sobre O Estado do Clima na África pintava um cenário preocupante para um continente que pode ver sua população dobrar no próximo século. 

Em discurso no lançamento do relatório, em outubro de 2020, Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial, observou: "Mudanças climáticas estão tendo um impacto crescente no continente africano, atingindo com mais dureza os mais vulneráveis, e contribuindo para a insegurança alimentar, o deslocamento de populações e o estresse sobre recursos hídricos". 

"Nos últimos meses, vimos enchentes devastadoras, invasões de gafanhotos do deserto e, agora, a perspectiva de secas, por causa do La Niña", prosseguiu. 

O relatório da ONU acrescenta que 2019 esteve entre os anos mais quentes da história no continente africano, uma tendência que deve continuar. 

O mais preocupante é que, ao mesmo tempo em que a África deve ser o continente mais duramente atingido pelas mudanças climáticas, é também o que tem menos capacidade de se adaptar às realidades de um mundo mais quente — em áreas como suprimento de água, segurança alimentar e proteção da biodiversidade, em meio a cada vez mais secas e enchentes intensas.

Por: Mark Kinver (BBC News).

Menos é Mais: Como o Decrescimento Salvará o Mundo


A exploração da natureza e a domesticação do mundo natural já passou dos limites. A humanidade está promovendo um ecocídio em larga escala que pode se transformar em suicídio.

“Acreditar que o crescimento (demo)econômico exponencial pode continuar infinitamente num mundo finito é coisa de louco ou de economista”, Kenneth Boulding (1910-1993). 

A humanidade já superou a capacidade de carga do Planeta e já ultrapassou 4 das 9 fronteiras planetárias. A lógica do crescimento econômico é incompatível com a sustentabilidade. Hoje em dia a preocupação maior do mundo é com a emergência sanitária provocada pela pandemia da covid-19. Mas, no longo prazo, a emergência sanitária é o maior desafio do século e é uma “ameaça existencial” à civilização como afirmou o presidente dos EUA, Joe Biden, na abertura da Cúpula dos Líderes do Clima. 

Mas o vício do egoísmo, da ganância e da cobiça funciona como uma ideologia que defende o lema do “Mais é melhor” e exalta o acumulo de bens e serviços e o enriquecimento ilimitado da humanidade às custas do empobrecimento e definhamento do mundo natural. Porém, existe uma lógica oposta que foi exposta por Jason Hickel, no livro “Less is more: Degrowth Will Save the World”. O livro fornece o argumento mais persuasivo e abrangente em favor do “decrescimento”, defendendo uma redução planejada do uso de energia e recursos para trazer a economia de volta ao equilíbrio com o mundo vivo de uma forma segura, justa e equitativa. 

O livro de Jason Hickel é uma contribuição essencial para o debate sobre a ultrapassagem da capacidade de resiliência da Terra e é uma leitura obrigatória para todas as pessoas preocupadas com a sobrevivência dos ecossistemas e, em especial, para os formuladores de políticas e analistas. Mas se os políticos e os empresários são, normalmente, obcecados com o crescimento econômico, todas as pessoas que defendem o meio ambiente precisam repercutir este livro que faz uma defesa do DECRESCIMENTO. 

Uma das afirmações centrais de Hickel, e que ele detalha na primeira parte do livro, é que “não há nada natural ou inato no comportamento produtivista que associamos ao homo economicus. Essa criatura é o produto de cinco séculos de reprogramação cultural. ” Em outras palavras, fomos encorajados, até mesmo compelidos a nos comportar de maneira a justificar o produtivismo e o acumulo de bens materiais. O autor considera que as propostas de desmaterialização da economia e o desacoplamento entre produção e recursos naturais não ocorre na prática, pois o que funciona é o “Paradoxo de Jevons”, já que os ganhos microeconômicos não ocorrem em nível macroeconômico. 

Além de defender o decrescimento, Hickel defende a justiça social e critica as desigualdades que são os subprodutos mais significativos e intencionais da expansão capitalista e um dos desafios mais intransponíveis que a população mundial tem que enfrentar. Ele diz: “a justiça é o antídoto para o imperativo do crescimento – e a chave para resolver a crise climática”. A conclusão de Hickel sobre a transição ideológica necessária deixa claro que não será difícil e que a janela de oportunidade se fecha rapidamente. Ele escreve como “a luta diante de nós é mais do que apenas uma luta pela economia. É uma luta por nossa própria teoria do ser. Requer descolonizar não apenas terras, florestas e povos, mas descolonizar nossas mentes”. 

O livro “Menos é mais” está alinhado com outros estudos fundamentais. Artigo de Steffen et. al (2015), que atualizou a metodologia e os dados das fronteiras planetárias, mostrou que quatro das nove fronteiras já foram ultrapassadas: Mudanças climáticas; Perda da biodiversidade; Mudança no uso da terra e Fluxos biogeoquímicos (fósforo e nitrogênio). Duas delas, a Mudança climática e a Perda de biodiversidade, são o que os autores chamam de “limites fundamentais” e tem o potencial para conduzir o Sistema Terra a um novo estado que pode levar a civilização ao colapso. As duas grandes ameaças que pairam sobre a civilização e a vida na Terra são: Mudanças climáticas e aquecimento global e o Ecocídio gerado pela 6ª extinção em massa.

Outra contribuição recente foi o relatório elaborado por Sir Partha Dasgupta, um dos mais prestigiados economistas contemporâneos. Dasgupta diz que os interesses da humanidade, a ideologia da engenhosidade humana e a apologia à tecnologia pregam que se pode fazer o uso do que se quiser da natureza. Mas este ideal de progresso, além de ser eticamente inaceitável, é economicamente desastroso. O gráfico abaixo resume a situação, pois enquanto a produtividade econômica aumenta, cresce o capital humano, mas diminui o capital natural. Para prosseguir um futuro sustentável exigirá uma mudança transformadora em nosso modo de pensar e agir.



Ou seja, enquanto a economia cresce, a humanidade enriquece e a natureza empobrece. A exploração da natureza e a domesticação do mundo natural já passou dos limites. A humanidade está promovendo um ecocídio em larga escala que pode se transformar em suicídio. A economia tradicional tende a ver a natureza apenas como um bem econômico a serviço do bem-estar da humanidade e como uma mercadoria que faz circular a economia pagando salários, lucros e juros. A tão decantada racionalidade do Homo economicus virou um problema de insensibilidade natural e uma prática especista, com sérios danos à biodiversidade. 

A mensagem central do livro “Menos é mais” é que o mundo precisa promover um decrescimento das atividades mais poluidoras do Planeta e promover a redistribuição dos bens públicos e comuns, como forma de evitar o colapso ambiental, garantindo não somente a qualidade de vida humana (com menos consumo), mas também a qualidade da vida ambiental e a regeneração ecológica. 

Por: José Eustáquio Diniz Alves; doutor em Demografia. Fonte: EcoDebate


Referências: 

ALVES, JED. O decrescimento demoeconômico e o trilema da sustentabilidade, Ecodebate, 20/06/2018 https://www.ecodebate.com.br/2018/06/20/o-decrescimento-demoeconomico-e-o-trilema-da-sustentabilidade-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/ 

ALVES, JED. Planejando o decrescimento demoeconômico, Ecodebate, 05/06/2013 http://www.ecodebate.com.br/2013/06/05/planejando-o-decrescimento-demo-economico-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/ 

ALVES, JED. A grande contradição do capitalismo: capital antrópico versus capital natural. Ecodebate, RJ, 29/06/2012 http://www.ecodebate.com.br/2013/05/29/a-grande-contradicao-do-capitalismo-capital-antropico-versus-capital-natural-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/ 

ALVES, JED. As fronteiras planetárias e a autolimitação do espaço humano, Ecodebate, RJ, 06/06/2012 http://www.ecodebate.com.br/2012/06/06/as-fronteiras-planetarias-e-a-auto-limitacao-do-espaco-humano-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/ 

Nicholas Georgescu-Roegen, O decrescimento: Entropia – Ecologia – Economia. Ed. Senac, 2013. 

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PATTERSON, Ron. Of Fossil Fuels and Human Destiny, May 7, 2014 http://peakoilbarrel.com/natural-resources-human-destiny/ 

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Dasgupta, P. The Economics of Biodiversity: The Dasgupta Review. London: HM Treasury, 2021 https://assets.publishing.service.gov.uk/government/uploads/system/uploads/attachment_data/file/957291/Dasgupta_Review_-_Full_Report.pdf