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Como a Mudança Climática Precipitou a Guerra Civil na Síria


Em 27 de janeiro de 2021, o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Lloyd J. Austin III, reconheceu a mudança climática como uma questão de segurança nacional. Para o ex-diretor do Banco Mundial Jamal Saghir, reconhecer a conexão entre clima e a segurança mundial constitui um passo crucial, e o conflito da Síria “é um exemplo perfeito do impacto da mudança climática sobre problemas pré-existentes, como instabilidade política, pobreza e escassez de recursos”. 

No passado, os agricultores sírios dispunham de terras relativamente férteis e produtivas, e entre as décadas de 1970 e 1990 se beneficiaram do apoio estatal à produção de alimentos básicos. Desde os anos 80, porém, o país de cerca de 17 milhões de habitantes foi atingido por três secas: a mais recente, estendendo-se de 2006 a 2010, foi classificada como a pior desde os primeiros registros, há cerca de 900 anos. 

A redução das chuvas, aliada ao incremento das temperaturas, resultou na desertificação e devastação da terra arável, sobretudo na região leste. Ao todo, 800 mil cidadãos perderam seu meio de subsistência, e 85% do gado morreu. Como as safras também encolheram até dois terços, o país teve que importar grande quantidade de cereais, e os preços dos alimentos duplicaram. 

“Mas a seca ainda continuou, e o povo perdeu a esperança”, e assim 1,5 milhão de trabalhadores rurais foram procurar ocupação nas cidades, relata Saghir, que leciona no Instituto para Estudo do Desenvolvimento Internacional da Universidade McGill, no Canadá. Os que permaneceram, na maioria agricultores empobrecidos, se transformaram em alvo fácil para os recrutadores de terroristas de grupos como o autodenominado “Estado Islâmico” (EI).


Muitas regiões sírias não têm água corrente, e situação política dificulta ainda mais a distribuição.

“Um coquetel tóxico virou mistura explosiva”

“O colapso climático foi um amplificador e multiplicador da crise política que se formava na Síria”, explica à DW Staffan de Mistura, enviado especial das Nações Unidas para a Síria de 2014 a 2018. A decisão do presidente Bashar al-Assad de, ao longo dos anos, cortar os subsídios para combustível, água e alimentos agravou a situação. Além da escassez de água nas áreas rurais, acirraram-se as tensões entre curdos, árabes, alavitas e sunitas. 

“Um coquetel tóxico começou a virar mistura explosiva com os ingredientes da Primavera Árabe, a raiva pela perda de empregos, a migração para as cidades, assim como a queda do poder aquisitivo e a ira pelas reações extremamente duras e cruéis do governo”, prossegue De Mistura. 

Do ponto de vista geopolítico, a competição da Síria com seus arqui-inimigos Irã e Arábia Saudita foi mais um elemento de agravamento. “Começamos a ver horríveis cercos medievais em torno de muitas cidades, como Homs e Aleppo, em que era cortado o acesso dos habitantes a água e comida”, recorda o diplomata ítalo-sueco. 

Quando ele deixou a Síria em 2018, havia menos lutas, com 60% da população sob controle governamental. Ainda assim, de seu ponto de vista, “o país não corre mais perigo de uma grande guerra, mas sim de colapso”. 

Para paz é preciso reconstrução

De acordo com a Anistia Internacional, desde 2011 6,6 milhões de habitantes foram deslocados dentro da Síria, e 5 milhões fugiram. As problemáticas condições de vida no país não melhoraram, apesar de o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) e o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Enucah) registarem que em 2019 cerca de 82.500 refugiados retornaram, e 412 mil deslocados internos estão de volta a seus locais de origem. 

Vastos territórios foram devastados pela guerra civil, a água continua escassa e a infraestrutura precisa ser reparada em quase todo o país. “Assad quase venceu a guerra territorial, mas ainda está muito longe de ganhar a paz”, avaliou De Mistura numa conferência online organizada pela Fundação Berghok e o Instituto de Pesquisa do Impacto Climático de Potsdam (PIK). 

Jamal Saghir concorda: “Para a paz, precisamos de reconstrução”, e qualquer acordo de paz precisa ser alicerçado por um pacote de investimentos. No entanto a própria Síria não estará em condições de financiar sua reconstrução, e resta ver se seus aliados Rússia e Turquia estão dispostos a investir no futuro do país. 

O ex-diretor do Banco Mundial não tem dúvidas quanto ao que precisa ser feito: “É imperativo tornar a Síria mais resiliente, ajudando a região a fazer a transição para uma infraestrutura mais segura em termos de energia e água.”

Por: Jennifer Holleis (Deutsche Welle).

O Licenciamento Ambiental Prejudica as Empresas? Especialistas Comentam...

Desastre de Brumadinho, em Minas Gerais: o licenciamento ambiental visa antecipar problemas futuros. Foto: Victor Moriyama / Bloomberg.

Estudos de impacto ambiental e certificações garantem segurança jurídica aos projetos. Mas, é preciso mais agilidade para não travar os processos.

A questão do licenciamento ambiental é uma polêmica antiga no Brasil. O assunto ganhou destaque com a divulgação do vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril de 2020, em que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que a pandemia do coronavírus oferece a oportunidade de “passar a boiada” sobre as regulamentações brasileiras. “Tem uma lista enorme, em todos os ministérios, para simplificar. Não precisamos de Congresso”, afirmou Salles. 

Entidades ligadas ao meio ambiente repudiaram a fala de Salles. Organizações como o Greenpeace, a WWF e o Observatório do Clima criticaram o ministro por promover mudanças de regras sem o devido debate público. Do outro lado, entidades patronais, sob a liderança da Confederação Nacional da Indústria (CNI), da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), e da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), manifestaram apoio à agenda do ministro, alegando a necessidade de reduzir a burocracia. 

A polarização do debate é anterior ao atual governo. Desde 2004, tramita no Congresso a Lei Geral do Licenciamento Ambiental (PL 3729/2004), projeto de lei que visa unificar as regulamentações ambientais nos âmbitos federal, estadual e municipal, garantindo celeridade aos processos. A demora na tramitação do PL se deva à falta de consenso entre ambientalistas e setor produtivo. 

Para Henrique Luz, coordenador da câmara temática de biodiversidade do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), há um problema de foco nessa discussão, que acaba prejudicando a formação de um entendimento geral. 

“Ao optar por discutir a legislação, e não o processo, perde-se muito tempo com questões de difícil acordo”, afirma. O ideal, na realidade, seria promover uma modernização nos órgãos de controle, aliando a digitalização dos processos com práticas avançadas de gestão. 

Afinal, para que serve o licenciamento ambiental? 

Além de proteger o meio ambiente, o processo de licenciamento tem a função de dar segurança jurídica aos projetos. O elemento mais importante do processo são os estudos de impacto ambiental. O objetivo é levantar o contexto natural em que o empreendimento está inserido e antecipar possíveis impactos e conflitos, como no caso de populações indígenas e ribeirinhas. Dessa forma, a empresa garante que não vai enfrentar consequências negativas geradas por sua atividade e se protege de processos judiciais.  

Para Luz, a a fase de pré-projeto, que concentra a maior parte dos estudos de impacto ambiental, é a que mais demanda recursos por parte das empresas. “Não deveria ser assim”, diz ele. “Se existisse estratégia ambiental bem definida, seria possível avaliar com mais precisão os impactos das atividades em determinada região e reduzir a carga de trabalho das empresas”. 

Mas, o grande problema não está no levantamento dos impactos ambientais, e sim na demora dos órgãos competentes em analisar os processos. A situação foi agravada pela pandemia, uma vez que diversos órgãos suspenderam prazos em função da quarentena. “É aconselhável que as empresas sigam com o trâmite normal de licenciamento, mesmo com prazos suspensos, para que não tenham problemas futuros”, afirma Luiz Fernando Sant’Anna, sócio do escritório de advocacia Demarest, especializado em meio ambiente. 

Sant’Anna também acredita que o foco do debate deveria sair da mudança na legislação e se concentrar na padronização dos processos. “Precisamos de um marco legal”, afirma o advogado. “Se as empresas conhecerem as regras, vão cumprir naturalmente. O maior risco é a desinformação”. 

Como aprimorar o licenciamento ambiental no Brasil

No ano passado, o CEBDS preparou um documento com sugestões para melhorar o processo de licenciamento ambiental no Brasil. Conheça os principais pontos da proposta: 

  • Definição de uma regulamentação específica da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para o licenciamento ambiental 
  • Estabelecimento de critério ou metodologia de trabalho que minimize as assimetrias decorrentes das análises das coordenações no estabelecimento de condicionantes e construção dos Projetos Básicos Ambientais (PBAs).
  • Elaboração de processo estruturado e permanente de diálogo entre o IBAMA e os órgãos intervenientes, repensando os fluxos de relação entre o processo do licenciamento ambiental e os ritos conduzidos pelos órgãos intervenientes.

Por: Rodrigo Caetano (Exame).

Estudo Relaciona Risco de Malária em Áreas de Desmatamento à Demanda por 'Commodities' Agrícolas

Terra Indígena Tenharim do Igarapé Preto, Amazonas. Foto: Vinícius Mendonça / Ibama / Wikimedia Commons

Comércio internacional de itens como madeira, tabaco, cacau, café e algodão impulsiona o risco de malária nos países exportadores, relatam pesquisadores da USP e colaboradores na Nature Communications

Estudo publicado na Nature Communications conecta pela primeira vez a demanda de certos países desenvolvidos por commodities agrícolas ao aumento do risco de malária em países fornecedores desses produtos. 

O trabalho, conduzido por cientistas da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) e colegas da Universidade de Sidney (Austrália), estima que cerca de 20% do risco de malária em hotspots de desmatamento é impulsionado pelo comércio internacional de itens como madeira, produtos madeireiros, tabaco, cacau, café e algodão. 

A pesquisa abrange o período de 2000 a 2015 e foi desenvolvida no âmbito do projeto Genômica de paisagens em gradientes latitudinais e ecologia de Anopheles darlingi, apoiado pela FAPESP

Para estabelecer a metodologia – que cruzou rotas comerciais mundiais com dados de perda de cobertura florestal em países exportadores de commodities agrícolas em que ocorre a doença – Maria Anice Mureb Sallum, professora da FSP-USP, e seu aluno de doutorado Leonardo Suveges Moreira Chaves, primeiro autor do artigo, tiveram a colaboração de Manfred Lenzen, professor da Universidade de Sidney, e de sua equipe. 

Lenzen mantém uma base de dados sobre comércio internacional que inclui 189 países e fontes como a Organização Mundial do Comércio e o Banco Mundial, entre outras. Há dados que nos permitem saber quem vende, o que vende, para onde vende, quem compra, quem beneficia e para onde é vendido o produto beneficiado. Por exemplo: um país que compra cacau, produz o chocolate e exporta para o mundo inteiro. Todos os elos da cadeia foram considerados”, explica Sallum

De acordo com Leonardo Suveges, com o uso de computação de alto desempenho, a equipe de Lenzen examinou mais de 1 bilhão de rotas de suprimentos de commodities internacionais. “Como a malária está muito ligada à alteração da paisagem pelo desmatamento, que favorece a proliferação dos vetores e a exposição do homem a esses insetos, conseguimos atribuir uma parte dos casos de malária ao desmatamento – à qual chamamos risco de malária: quantos casos haveria na ocorrência de desmatamento e na ausência de intervenções de controle, como mosquiteiros impregnados com inseticida e tratamentos com medicamentos combinados com artemisinina. E uma parcela desse risco está associada ao comércio de commodities”, resume. 

Os cientistas selecionaram então os países com casos de malária em que há hotspots de desmatamento e cruzaram com os dados da cadeia de produção de commodities associada ao desmatamento nesses lugares, verificando para onde os produtos são exportados. Concluíram que cerca de 10% do risco de malária ligado ao desmatamento está conectado a apenas 10 nações compradoras: Alemanha, Estados Unidos, Japão, China, Reino Unido, França, Itália, Espanha, Países Baixos e Bélgica, onde a demanda por determinados produtos pode estar exacerbando o risco de malária para 10,7 milhões de pessoas em países de baixa renda, principalmente em países da África Subsaariana

O risco em números 

A Nigéria sofre o maior risco de malária com conexões identificadas ao desmatamento: 5,98 milhões de casos em 2015, em parte causados pela exportação de madeira para a China (em um total de US$ 332 milhões em 2015), grãos de cacau para os Países Baixos (US$ 334 milhões), Alemanha (US$ 72 milhões), Bélgica, França, Espanha e Itália (US$ 35 milhões) e carvão para a Europa (US$ 35 milhões). 

Em seguida vem a Tanzânia, onde 5,66 milhões de pessoas correm risco de malária relacionado ao desmatamento, em parte por conta das exportações de tabaco não beneficiado para a Europa e a Ásia (US$ 344 milhões), algodão cru para o sudeste da Ásia (US$ 41 milhões) e madeira serrada para a Índia (US$ 20 milhões). 

Em Uganda, 5,49 milhões de casos de risco da doença estão associados ao desmatamento, potencialmente impulsionado pela exportação de café não beneficiado para a Itália (US$ 88 milhões em 2015), Alemanha (US$ 63 milhões), Bélgica (US$ 40 milhões) e EUA e Espanha (ambos US$ 21 milhões) e, em menor grau, de algodão cru para o sul e o sudeste asiáticos (US$ 15 milhões). 

Em Camarões, também com 5.49 milhões de casos, parte do risco de malária atrelado ao desmatamento foi conectada à exportação de cacau para os Países Baixos (US$ 300 milhões), Espanha, Bélgica, França e Alemanha (que somaram US$ 79 milhões em 2015), madeira bruta para a China (US$ 175 milhões) e madeira serrada para o mesmo país, além de Bélgica, Itália, EUA e outros (somando US$ 440 milhões). 

O artigo, intitulado Global consumption and international trade in deforestation-associated commodities could influence malaria risk, revela que os outros países com maior risco da doença atrelado ao desmatamento, em ordem decrescente, foram República Democrática do Congo, Índia, Zâmbia, Myanmar, República Centro-Africana e Burundi. Eles têm como maior parceiro comercial a China, para onde vendem sobretudo produtos madeireiros. 

Em nota suplementar ao trabalho publicado, os autores calcularam ainda que as importações de commodities feitas pela China em 2015 responderam por 1,7 milhão de casos de malária nos países onde o desmatamento está ligado à sua produção e exportação. A Alemanha respondia por 1,5 milhão de casos, seguida do Japão (986 mil), dos Estados Unidos (770 mil), do Reino Unido (815 mil), da Itália (595 mil), dos Países Baixos (581 mil), da Espanha (466 mil), da França (463 mil) e da Bélgica (361 mil). 

Compensação insuficiente 

“Chama a atenção o fato de que Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha e Japão, alguns dos principais importadores citados como corresponsáveis pelo risco de malária, são os mesmos países que fornecem apoio financeiro para programas de controle da doença, especialmente na África Subsaariana”, aponta Suveges

Mas a conta não fecha. Em 2017, o investimento global para controle e prevenção da malária foi de aproximadamente US$ 3,2 bilhões, com doadores de alta renda fornecendo 72% do financiamento. No entanto, afirmam os cientistas no artigo, os países endêmicos de malária arcaram com 28% do custo e o nível geral de financiamento foi menos da metade do necessário para alcançar uma redução nas taxas de morbidade e mortalidade pela doença, de acordo com a meta 3.3 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável propostos para 2030 pela Organização das Nações Unidas (ONU). 

Sallum ressalta o fato de que, durante todo o período estudado, os países produtores e exportadores de commodities permaneceram nessa posição. “Sabemos por estudos já publicados que os efeitos sociais do desenvolvimento econômico têm impacto sobre a malária, porque as pessoas conseguem morar melhor, ter condições mais dignas de manejo da terra e tudo isso consegue protegê-las. Assim, se o país produtor de commodities se tornasse o fornecedor de manufaturados, poderia agregar um valor maior ao produto dele e posicionar a sociedade em uma situação mais vantajosa – o que poderia diminuir a necessidade de desmatamento e o risco de malária. Mas não há variação de papéis nessa cadeia comercial, o que demonstra a desigualdade que impera nessas relações, tendo em vista que os preços das commodities são estipulados pelos países compradores.”

Por: Karina Ninni (Agência Fapesp).

Técnica Pode Tornar Produção de Plásticos Mais Sustentável a Partir do Bagaço de Cana

Composto que possui 10 átomos de carbono foi obtido de forma mais sustentável – Foto: Green Chemistry. Pesquisador desenvolveu método que permite construir novas moléculas para a fabricação de plástico a partir do bagaço da cana-de-açúcar. 

O carbono é um elemento químico fundamental para a produção de diversos produtos, como cosméticos, plásticos e medicamentos. Normalmente, ele é obtido a partir do petróleo, fonte não renovável e que leva milhares de anos para se formar. Pensando em uma solução para obter moléculas de carbono de forma simples, sustentável e com menor risco ao meio ambiente, o professor Antonio Burtoloso, do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP, criou uma técnica inédita que permite a construção de moléculas de interesse industrial por meio do aproveitamento do bagaço da cana-de-açúcar. 

Empregando algumas reações químicas, o pesquisador chegou a um composto que possui dez átomos de carbono (C10) e que tem potencial para ser utilizado na fabricação de plásticos. Isso foi possível depois que ele conseguiu juntar duas moléculas da valerolactona – líquido incolor obtido a partir do bagaço da cana. Cada molécula da substância possui cinco átomos de carbono. “Utilizamos transformações simples e fáceis de serem reproduzidas, que podem ser aplicadas de forma rápida, robusta e com baixo custo”, explica o docente. Segundo o especialista, o procedimento para a criação do C10 leva apenas um dia. 

Atualmente a busca por fontes renováveis de carbono tem sido intensificada por pesquisadores de vários países, e a biomassa – todo material vindo de fonte natural – surge como um dos alvos favoritos dos cientistas. O professor da USP explica que, apesar de o petróleo também ser proveniente de uma fonte natural, o fóssil, ele não é renovável. Já a cana-de-açúcar, por exemplo, é plantada em abundância anualmente e possui em seu bagaço um enorme potencial de reaproveitamento. 

De acordo com o estudo divulgado em 2017 pelo Instituto de Economia Agrícola (IEA), o Brasil gerou cerca de 166 milhões de toneladas de bagaço na safra 2015/16. Parte dessa produção acaba sendo descartada e é justamente nesse ponto que o docente pretende atuar: “Não precisamos plantar cana-de-açúcar exclusivamente para colher o bagaço. A ideia é aproveitar parte desse resíduo que acaba virando lixo como insumo para a nossa técnica”, afirma o docente, que coordena o Grupo de Síntese Orgânica do IQSC

Essa área de pesquisa envolve, resumidamente, a construção de moléculas complexas e com maior valor agregado a partir de moléculas mais simples, que podem ser compradas no mercado. A possibilidade de desenvolver moléculas no laboratório contribui para a preservação ambiental, pois, em alguns casos, a extração de determinada substância da natureza gera grandes prejuízos aos recursos naturais, não compensando sua retirada. Um exemplo é o taxol, molécula orgânica que pode ser extraída do casco da árvore Taxus brevifolia para o tratamento de câncer. A cada árvore derrubada, que leva pelo menos 100 anos para chegar a sua fase adulta, poderiam ser produzidos poucos comprimidos de taxol, os quais não seriam suficientes para tratar sequer uma única pessoa.

Em geral, o plástico é produzido a partir de uma fonte não renovável, o petróleo; o novo método busca atender uma demanda por fontes de produção mais “verdes”. Foto: Marcos Santos/USP Imagens.

Futuro verde 

Além de ser um processo que gera mais riscos à natureza, a obtenção de carbono a partir do petróleo não é um procedimento que terá vida eterna. “Estamos pensando lá na frente, daqui a algumas gerações. Um dia o petróleo irá acabar. Como iremos fazer os produtos? Novos métodos precisam aparecer”, alerta Burtoloso

De acordo com o docente, a técnica desenvolvida no IQSC apresenta grande potencial de escalabilidade na indústria. Além disso, ele aponta que há um direcionamento dentro das empresas para o desenvolvimento de compostos mais sustentáveis. Ele afirma, inclusive, que vários países estipularam como meta, daqui a algumas décadas, a substituição de 20% a 30% do carbono proveniente do petróleo por fontes consideradas “verdes”. 

Esse tipo de ação também poderá atrair os olhares dos consumidores que, muitas vezes, optam por adquirir uma mercadoria fabricada de forma sustentável. “Se as propriedades dos produtos que serão produzidos com a nossa técnica forem similares às existentes no mercado, o cliente faria a compra com a consciência muito mais tranquila. Ele estaria usando algo que foi desenvolvido sem acarretar danos ao meio ambiente”, explica o professor. 

Os resultados obtidos no trabalho foram descritos no artigo científico Synthesis of long-chain polyols from the Claisen condensation of γ-valerolactone, publicado na Green Chemistry, revista britânica de alto impacto mundial na área de química verde. “É uma revista de grande prestígio, e fomos muito bem avaliados pelos revisores. Ficamos felizes com o reconhecimento”, comemora o cientista. 

Agora, os pesquisadores esperam aprimorar a técnica desenvolvida de forma que todo o processo fique ainda mais simples e barato. O grupo está aberto a firmar parcerias com a indústria visando à realização dos testes necessários para disponibilizar o novo método à sociedade. O trabalho contou com a colaboração da aluna de doutorado do IQSC, Camila Santos, além de pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).

Por: Henrique Fontes (Jornal da USP).

Agrotóxico Mais Encontrado em Frutas e Verduras no Brasil é Fatal Para Abelhas

Sem polinizadoras, produção de lavouras fica prejudicada; estudo da Anvisa analisou que mais da metade das 4 mil amostras de 14 alimentos vegetais no país contém agrotóxico. Segundo a ONU, 75% dos cultivos destinados à alimentação humana no mundo dependem das abelhas (Foto: desEYEns – Arte: Bruno Fonseca/Agência Pública). 

Um agrotóxico fatal para as abelhas foi o mais encontrado em um levantamento do governo que analisa o resíduo de pesticidas em frutas e verduras vendidas em todo país. O resultado da nova edição do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, o PARA, foi divulgado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no dia 11/12/2019 e mostrou também que em 51% dos testes realizados foi encontrada alguma quantidade de resíduo de agrotóxico nos alimentos. 

Na pesquisa, que testou 4.616 amostras de 14 alimentos, o ingrediente ativo Imidacloprido foi o mais encontrado. Ele é um neonicotinoide, um inseticida derivado da nicotina que tem capacidade de se espalhar por todas as partes da planta e, por isso, é fatal para os polinizadores. 

Uma reportagem da Agência Pública e Repórter Brasil revelou em março de 2019 que mais de 500 milhões de abelhas morreram em três meses em quatro estados brasileiros. Uma das principais causas das mortes foi justamente o contato com neonicotinoides, que atingem o sistema nervoso central das abelhas – afetando a capacidade de aprendizagem e memória e fazendo com que muitas percam a capacidade de encontrar o caminho de volta para a colmeia. 

Ter um agrotóxico fatal para abelhas como o mais encontrado em alimentos é um alerta também para a saúde humana. 

Primeiro porque ele acaba sendo consumido pelas pessoas. “Esse tipo de produto que se espalha por toda a planta é muito perigoso, pois lavar o alimento ou descascá-lo não é suficiente para retirar os resíduos de agrotóxico, que já circulam dentro da planta”, explica o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, vice-presidente da regional sul da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA). 

Outro problema desse tipo de agrotóxico ser o mais detectado no PARA é que, ao matar abelhas, se prejudica também a produção das lavouras. Isso porque elas são as principais polinizadores da maioria dos ecossistemas. No Brasil, das 141 espécies de plantas cultivadas para alimentação humana e animal, cerca de 60% dependem em certo grau da polinização das abelhas. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 75% dos cultivos destinados à alimentação humana no mundo dependem das abelhas. 

No PARA, o Imidacloprido foi encontrado em 713 amostras, ou cerca de 15% de todos os alimentos testados. Oito produtos agrotóxicos à base de Imidacloprido foram autorizados pelo governo de Jair Bolsonaro em 2019, com registros de comercialização indo para as multinacionais estrangeiras Sulphur Mills, Albaugh Agro (dois registros), Helm, Nufarm, Tide e Tradecorp, e para a nacional AllierBrasil. 

Na edição anterior do PARA, com análises feitas entre 2013 e 2015, o Imidacloprido havia sido apenas o quinto ingrediente ativo mais encontrado nas amostras. Segundo a Anvisa, não é possível comparar os resultados porque a metodologia de pesquisa mudou — alimentos e períodos de análise agora são diferentes. 

Resultados ‘alarmantes’

A pedido da Agência Pública e da Repórter Brasil, especialistas de organizações que estudam o tema dos agrotóxicos analisaram o relatório, disponibilizado no site da Anvisa, e afirmaram que os resultados são alarmantes, ao contrário do que fez parecer o tom otimista da divulgação oficial do relatório

Para Melgarejo, da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), o relatório acende um alerta. “O número de 23% dos produtos apresentarem agrotóxico acima do permitido é assustador. E os 27% com veneno abaixo do limite não traz tranquilidade”, diz. “Nas definições de limites aceitáveis, é tido como base uma pessoa adulta de 50 quilos. Mas estamos alimentando crianças e bebês com esses mesmos alimentos. Estar abaixo do limite considerado seguro para um adulto de 50 quilos não significa dizer que é seguro para um bebê ou criança.” 

Representantes da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida também criticaram o posicionamento da Anvisa em relação ao relatório, qualificado como “roupa bonita para um conteúdo altamente tóxico”. Em nota, a organização diz que apesar do aspecto técnico da publicação, o release divulgado no site da Anvisa é “extremamente otimista”. Segundo eles, o tom é “de uma peça de propaganda política para um relatório que, lido atentamente, traz grandes preocupações para a sociedade.” 

A organização completa dizendo que “em um contexto de uso crescente de agrotóxicos ano a ano, e também de aumento sistemático das intoxicações por agrotóxicos, é lamentável ver a Agência que deveria garantir a segurança alimentar da população minimizando resultados gravíssimos sobre as condições da comida servida ao povo brasileiro”. 

Para o Greenpeace, a comunicação dos resultados foi “maquiada”. “Os problemas continuam os mesmos, mas a forma otimista que eles divulgaram faz parecer que melhorou, e isso, infelizmente, foi replicado por muitos veículos de imprensa. Ainda temos mais de 50% dos alimentos com alguma quantidade de agrotóxicos. E os 27% com agrotóxicos abaixo do limite são questionáveis, pois esses limites são muito frágeis quando falamos de várias refeições durante o dia, com mistura de alimentos e substâncias, que tem um efeito diferente de um produto isolado”, explica Marina Lacôrte, especialista em Agricultura e Alimentação do Greenpeace. 

Criado em 2001, o PARA testou nesta versão 14 produtos da dieta da população brasileira — abacaxi, alface, alho, arroz, batata-doce, beterraba, cenoura, chuchu, goiaba, laranja, manga, pimentão, tomate e uva. As amostras foram recolhidas em estabelecimentos de 77 municípios, entre agosto de 2017 a junho de 2018, ou seja, antes do início do governo de Jair Bolsonaro, no qual 467 produtos agrotóxicos foram liberados em menos de um ano, um recorde histórico. 

Do total de amostras analisadas (4.616), em 2.254 (49%) não foram detectados resíduos, 1.290 (28%) apresentaram resíduos com concentrações iguais ou inferiores ao Limite Máximo de Resíduos (LMR), estabelecido pela Anvisa. E em 1.072 amostras (23%) foram identificados resíduos acima do permitido, incluindo até mesmo agrotóxicos proibidos de serem comercializados no Brasil. 

Em 0,89% — quase um em cada 100 casos —, foi identificado potencialidade para causar riscos agudos à saúde, com efeitos como enjoo, vômito, dor de cabeça e febre nas 24 horas seguintes ao consumo do alimento. 

A visão do governo, por meio da Anvisa, é a de que o resultado do relatório é positivo. “Temos situações pontuais de riscos, mas que não geram nenhum risco à saúde da população. Os dados mostram a segurança dos alimentos que a gente consome hoje”, garantiu Bruno Rios, diretor adjunto da Anvisa, em coletiva após a divulgação dos dados. 

Análise não identifica todos agrotóxicos permitidos

As coletas analisadas no PARA foram feitas pelas vigilâncias sanitárias e encaminhadas para os Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens): Instituto Octávio Magalhães (IOM/FUNED/MG), Laboratório Central de Goiás (Lacen/GO) e Instituto Adolfo Lutz (IAL/SP); e para um laboratório privado contratado por processo licitatório. 

Segundo o relatório, em cada amostra foram pesquisados até 270 ingredientes ativos, número bastante inferior aos 499 permitidos para serem comercializados no Brasil após avaliação da Anvisa, Ministério da Agricultura e Ibama. Foram detectados resíduos de 122 ingredientes ativos diferentes nas 4.616 amostras analisadas, o que resultou no total de 8.270 detecções de agrotóxicos — em muitos casos foram identificados mais de um tipo de pesticida em um só alimento, mas a Anvisa não especifica quais em seu relatório. 

Depois do Imidacloprido, citado no início da reportagem, os ingredientes ativos mais encontrados foram os fungicidas Tebuconazol (570) e o Carbendazim (526) — este último proibido na União Europeia, Estados Unidos, Canadá e Japão por causar problemas mutagênicos e de toxicidade reprodutiva. Em 2012, os EUA proibiram a importação do suco de laranja brasileiro devido à presença deste fungicida nos produtos. 

Entre os 40 ingredientes ativos mais encontrados está o Carbofurano, um produto proibido no Brasil, identificado 52 vezes na atual pesquisa — na edição 2013-2015, ele aparecia entre os 30 ingredientes ativos mais encontrados. 

Em outubro de 2017, dois meses após o começo das análises, a Anvisa proibiu a comercialização de agrotóxicos à base de Carbofurano justamente pela persistência de seus resíduos nos alimentos, além de malefícios à saúde humana. Ele também é classificado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como altamente tóxico do ponto de vista agudo — a que causaria intoxicação nas 24 horas seguidas ao consumo. 

De acordo com a Anvisa, a presença de agrotóxicos não autorizados nas análises tem como um dos motivos os poucos registros para culturas consideradas de baixo retorno econômico. Por isso, muitos produtores acabam utilizando agrotóxicos autorizados para uma cultura específica – soja, por exemplo, em outras culturas, caso da uva.  

Laranja, goiaba e uva: os três mais com agrotóxicos

Entre os alimentos testados, a laranja foi a que mais apresentou resíduos de agrotóxicos. De 382 análises, apenas 157 não apresentaram vestígios de pesticidas, 173 apresentaram resíduos em concentrações iguais ou inferiores ao permitido pela lei e em 52 casos os níveis de agrotóxico encontrados estavam acima do permitido. 

Foram encontrados 47 agrotóxicos diferentes nas laranjas vendidas em supermercados brasileiros, que incluiu até mesmo resíduos de Carbofurano, proibido no Brasil. O mais encontrado na fruta foi o Imidacloprido. Na laranja também foi encontrado a maior exposição para risco agudo. Depois da laranja, a goiaba e a uva foram os alimentos que mais apresentaram riscos agudos. 

Nova metodologia é criticada

Até 2012, os resultados do PARA eram lançados anualmente. Desde então, optou-se por divulgar o relatório compilado de três anos. O último foi divulgado em 2016, com dados de 2013 a 2015. Não houve coletas em 2016, por conta de uma reestruturação no projeto, que só voltou à ativa no segundo semestre de 2017. 

Na edição anterior, onde foram analisadas 12.051 amostras em três anos, o percentual de alimentos com agrotóxicos acima do permitido era de 19,7%, menor do que o atual. 

Além disso, até 2015, o PARA trabalhava com uma lista de 25 alimentos a serem analisados, que representavam 70% da cesta de alimentos de origem vegetal consumidos pela população brasileira, segundo dados brutos da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE de 2008-2009, que traça o perfil de orçamento doméstico e condição de vida da população brasileira. Agora, esse número foi ampliado para 36, mas nem todos os alimentos escolhidos serão testados anualmente, pois as análises vão variar dentro de cada triênio. Nesta edição, por exemplo, apenas 14 foram analisados, e alimentos como o feijão e a batata ficaram de fora, mas devem entrar nas próximas edições. 

A rotatividade é criticada por especialistas da área. “Produtos muito importantes, que estão no prato do brasileiro, não aparecem no resultado. O trigo que vai no pãozinho do dia a dia, o feijão que é um ingrediente tradicional no prato brasileiro. Não é uma boa ideia a Anvisa fracionar as análises para períodos específicos, quando a população consome esses produtos durante todo o ano”, explica o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo. 

Marina Lacôrte, do Greenpeace, também criticou o baixo número de alimentos apresentados. “Esses dados tem que ser avaliados todo o ano, pois há safras todos os anos. Eles argumentam que essas alterações ocorrem por questões financeiras, mas esse é um investimento necessário que o governo deve fazer: a saúde da população. Se o problema é financeiro então que se retire a isenção de impostos para os agrotóxicos, e utilizem esses impostos para bancar programas como esse”, diz.

Por: Pedro Grigori. Fonte: Repórter Brasil.

Biotecnologia Pode Tornar Agricultura Resiliente às Mudanças no Clima

Estudos feitos com culturas de milho, cana, arroz, trigo, soja, cacau e seringueira foram apresentados em evento organizado pela FAPESP e pela agência japonesa JST; objetivo do encontro foi estimular a colaboração entre pesquisadores paulistas e japoneses (Foto: Léo Ramos Chaves / Pesquisa FAPESP).

Microrganismos encontrados na cana-de-açúcar podem ser uma das chaves para elevar a produtividade no campo e mitigar os efeitos das mudanças climáticas, como secas severas, que atingem diversas culturas agrícolas usadas para alimentação e produção de bioenergia. 

Em um projeto conduzido no Centro de Pesquisa em Genômica Aplicada às Mudanças Climáticas (GCCRC) pesquisadores identificaram fungos e bactérias que favorecem o crescimento da cana e, posteriormente, inocularam esses microrganismos em culturas de milho. O experimento resultou em plantas com maior tolerância à escassez de água e em um aumento da biomassa de até três vezes. 

O GCCRC é um Centro de Pesquisa em Engenharia (CPE) constituído pela FAPESP e pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 

“O milho cultivado com microrganismos que habitam a cana demorou para começar a sofrer com a seca e se recuperou mais rapidamente após sofrer estresse hídrico”, contou o geneticista Paulo Arruda, coordenador do centro, durante o workshop Biotechnologies for efficient and improved production of food crops and bioenergy, realizado na FAPESP

De acordo com Arruda, os experimentos indicam que fungos e bactérias são de fato capazes de mudar a fisiologia das plantas. Podem, por exemplo, diminuir a temperatura das folhas em até 4º C, auxiliando o vegetal a controlar o consumo de água. Em um teste feito no interior da Bahia, em uma região conhecida por longos períodos sem chuva, os pesquisadores observaram que os microrganismos também atuaram contra a doença conhecida como enfezamento do milho, que reduz a produção de espigas. 

A equipe do GCCRC trabalha atualmente no sequenciamento do genoma desse grupo formado por cerca de 25 mil bactérias e 10 mil fungos a fim de entender como agem nas plantas. A enorme quantidade de dados é analisada com a ajuda de inteligência artificial. “Algoritmos fazem o trabalho de mapear padrões genéticos relacionados a funções metabólicas dos microrganismos”, disse Arruda, destacando a importância dos bancos de microrganismos para a pesquisa genética e o desenvolvimento de inoculantes que sirvam como alternativa aos fertilizantes químicos. 

Novas colaborações

Organizado conjuntamente pela FAPESP e pela Japan Science and Technology Agency (JST), o workshop reuniu cientistas de São Paulo e do Japão que se dedicam a pesquisas em biotecnologia de plantas, com o objetivo de estimular novas colaborações. “Iniciamos um diálogo com pesquisadores japoneses interessados em inocular os microrganismos no cultivo de arroz”, contou Arruda, que mantém parcerias com grupos dos Estados Unidos e da Europa

Para a bióloga Marie-Anne Van Sluys, professora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e uma das organizadoras do evento, o encontro foi uma oportunidade para que os japoneses tivessem contato com a pesquisa realizada pelos paulistas. 

De acordo com Van Sluys, a FAPESP e a JST têm interesse em promover novas parcerias de pesquisa por meio, por exemplo, de uma chamada conjunta. Isso seria possível no âmbito de um dos programas internacionais da JST, o SICORP (acrônimo para Strategic International Collaborative Research Program). 

“Na modalidade SICORP, as duas instituições elegem um tema de pesquisa de interesse comum e destinam recursos para projetos selecionados pelos pares”, explicou Makie Kokubun, gerente de programas da JST

Tsukasa Nagamine, supervisor de programas internacionais da JST, apresentou projetos financiados pela agência japonesa que resultaram no melhoramento de culturas, especialmente arroz, trigo e soja, em países como Afeganistão, Madagascar, Quênia e Sudão. Também falou da importância dos bancos de germoplasmas, como o da Organização Nacional de Pesquisa em Agricultura e Alimentação (Naro), vinculada ao governo japonês. “Uma das pesquisas que se beneficiaram da coleção da Naro conseguiu desenvolver variedades de plantas resistentes à estriga [ou erva-bruxa], uma erva daninha extremamente devastadora”, disse Nagamine

Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP, lembrou do acordo de cooperação assinado pelas agências em 2014. “O diálogo entre a FAPESP e a JST já dura cinco anos e busca promover iniciativas de colaboração científica e tecnológica em áreas prioritárias, entre elas biotecnologia”, disse. 

Colaborações mais maduras

A expertise brasileira na pesquisa genômica aplicada à agricultura e o potencial tecnológico desenvolvido pelos japoneses podem render colaborações mais maduras, capazes de gerar conhecimento e inovações de ponta, nas palavras da bióloga Anete Pereira de Souza, do Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética (CBMEG), instalado na Unicamp

“Novas técnicas de sequenciamento genético têm sido desenvolvidas no Japão e isso certamente nos interessa”, disse. “Estamos aptos a fazer parcerias de alto nível com laboratórios japoneses competitivos, como o Instituto Riken.” Para Pereira de Souza, não se trata mais de encarar o Brasil como mero fornecedor de germoplasmas [sementes, células e demais materiais genéticos] para outros países, mas sim como parceiro científico estratégico. 

Nos últimos anos, a pesquisadora tem se dedicado ao sequenciamento do genoma de diferentes culturas, como o cacau e a seringueira, para testar uma técnica conhecida como seleção genômica – bastante usada no melhoramento de raças de bovinos, por exemplo, e que agora começa a ganhar força na agricultura. 

“Trata-se de uma alternativa ao melhoramento genético convencional”, afirmou Pereira de Souza referindo-se ao método consagrado de fazer combinações de plantas parentais com o objetivo de obter, após várias gerações, uma planta com características superiores àquelas que lhe deram origem. O problema, disse ela, é que esse processo é caro e longo. 

Enquanto o melhoramento genético tradicional leva em consideração apenas as características fenotípicas (observáveis) da planta, a seleção genômica faz uma associação do fenótipo com sequências do genoma. “Isso permite predizer fenótipos complexos por meio da análise de marcadores moleculares, que são trechos do DNA.” Com essa técnica, disse Pereira de Souza, é possível obter novas variedades de plantas com menos tempo e dinheiro. 

No momento, Pereira de Souza e sua equipe debruçam-se sobre informações genéticas da seringueira, com o objetivo de aplicar a seleção genômica no desenvolvimento de variedades mais produtivas e resistentes da árvore, da qual se extrai o látex usado na produção de borracha natural. 

“Há urgência na obtenção de seringueiras adaptadas a climas mais frios e secos como solução para impedir a ação do fungo causador da doença conhecida como mal-das-folhas, que atinge as árvores em locais mais quentes e úmidos”, explicou a pesquisadora. “Países asiáticos, como China e Tailândia, são os maiores interessados, uma vez que enfrentam hoje a infestação desse fungo em suas plantações de seringueira”, disse. 

Melhoramento da cana 

A aguardada publicação do genoma completo da cana-de-açúcar deve impulsionar a técnica da seleção genômica no país, declarou a bioquímica Glaucia Mendes Souza, do Instituto de Química da USP e membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN). O trabalho, publicado recentemente na revista GigaScience, levou 10 anos para ser concluído (leia mais em: agencia.fapesp.br/32090). 

“Isso significa que os programas de melhoramento da cana não vão mais trabalhar no escuro”, disse Mendes Souza. O projeto brasileiro que sequenciou 99,1% do genoma da cana, do qual o BIOEN faz parte, decodificou 373 mil genes e evidenciou a complexidade da planta – o genoma humano, por exemplo, tem 22 mil genes. 

Mendes Souza participou recentemente de uma audiência pública da Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado, na qual falou das possíveis contribuições da ciência para o RenovaBio, uma nova política nacional de biocombustíveis que passa a valer em 2020. 

“O etanol brasileiro pode, até 2045, substituir 13% do consumo de petróleo em todo o mundo, além de contribuir com uma queda de 5,6% nas emissões de carbono mundiais no mesmo período. Mas faltava ao país montar um esquema de governança para a bioenergia. O RenovaBio veio preencher essa lacuna”, disse Mendes Souza

O workshop realizado na FAPESP contou ainda com a participação da engenheira agrônoma Tsai Siu Mui, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, que vem estudando o microbioma da chamada terra preta antropogênica, um solo enriquecido produzido por índios da Amazônia, cuja presença mais antiga foi detectada na região do alto Rio Madeira. Esse solo mais escuro foi formado a partir de detritos orgânicos acumulados onde houve ocupações humanas prolongadas. “Ele é extremamente fértil, rico em fósforo, e pode ser recriado com o objetivo de recuperar áreas degradadas”, explicou Tsai.

Por: Bruno de Pierro (Agência Fapesp).

Tecnologia da FAO Permite Monitoramento e Prevenção de Infestações de Gafanhotos

Tecnologia da FAO ajuda a combater ameaças de gafanhotos e a proteger os meios de subsistência em dezenas de países. Foto: FAO | Yasuyoshi Chiba.

Por mais de 40 anos, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) tem ajudado países em risco a vencer a luta contra infestações de gafanhotos. 

Realizando um importante trabalho de coleta de dados, o aplicativo eLocust3 permite que equipes em campo de todo o mundo mapeiem os movimentos de gafanhotos entre países e iniciem ações para controlar um enxame antes que ele provoque danos graves. 

As infestações por gafanhotos afetam os meios de subsistência e a segurança alimentar de milhões de pessoas e podem levar anos para serem controladas. Inovadora, a ferramenta desenvolvida pela agência da ONU ajuda a proteger agriculturas de subsistência em dezenas de países. 

Eles podem ser pequenos, mas são poderosos. Causando danos em colheitas, os gafanhotos são uma das pragas migratórias mais antigas do mundo e uma séria ameaça à produção agrícola e à segurança alimentar. 

Quando não detectadas precocemente, infestações que se desenvolvem geralmente levam vários anos e centenas de milhões de dólares para serem controladas. A praga de gafanhotos do deserto, uma das espécies mais perigosas, pode facilmente afetar 20% dos terrenos agriculturáveis do mundo, danificando potencialmente as agriculturas de subsistência de um décimo da população mundial. 

Dezenas de milhões de gafanhotos podem voar até 150 quilômetros por dia com o vento, cobrindo vastas áreas. Um gafanhoto do deserto adulto pode consumir aproximadamente seu próprio peso (cerca de 2 gramas) em alimentos frescos por dia: isso significa que mesmo um enxame muito pequeno irá ingerir, em um único dia, a mesma quantidade de comida de cerca de 35.000 pessoas. 

Dados e monitoramento 

Disponível para o usuário em três línguas (inglês, francês e árabe), o eLocust3 é um tablet portátil e aplicativo personalizado que grava e transmite dados em tempo real via satélite para os centros nacionais de controle de gafanhotos e para o Serviço de Informações sobre Gafanhotos do Deserto (DLIS), sediado na sede da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Roma

Desde 2015, 450 dispositivos portáteis foram distribuídos para equipes de campo em 24 países no norte da África, no Oriente Médio e no sudoeste asiático, permitindo a transferência de dados em tempo real de jipes no meio do deserto diretamente para o escritório nacional de controle de gafanhotos e para o centro de operações na sede da FAO

Os agentes nacionais de informações sobre gafanhotos são todos submetidos a 11 meses de treinamento rigoroso em Roma e lideram equipes de campo para coletar, comparar e analisar os dados para compartilhá-los com países vizinhos. 

O monitoramento 24 horas de dados e imagens de satélite realizado pela FAO permite a criação de previsões com até seis semanas de antecedência. 

Os dados do eLocust3 fornecem ao DLIS uma visão ampla e exata de onde estão os gafanhotos em todo o mundo, permitindo que o centro preveja padrões de voo e dê avisos antecipados a países em risco, que podem iniciar operações de controle. 

Tecnologia de drones prevista para 2020

As equipes em campo fazem um excelente trabalho de coleta de dados, mas em países como a Mauritânia ou o Sudão, que têm desertos maiores que a extensão da Itália, por exemplo, pode ser quase impossível chegar a todos os cantos. 

Embora estimativas baseadas em imagens de satélite possam ajudar as equipes a se concentrarem em zonas menores, as reproduções podem sofrer erros e geralmente estão disponíveis tarde demais. 

Para resolver esse problema, a FAO está trabalhando na utilização da tecnologia de drones para dar às equipes de campo a chance de pesquisar com mais eficácia e a cobrir áreas mais amplas. 

Capaz de voar cerca de 100 quilômetros, o drone de asa fixa pode coletar dados sobre a localização de vegetação verde, processando essas imagens como um mapa. 

Por sua vez, o mapa guiará as equipes de pesquisa em campo a áreas de até 5 quilômetros de extensão para inspeção adicional, usando um drone giratório. 

Se forem encontradas infestações significativas, um drone de controle consegue pulverizar pesticidas com segurança e eficácia, interrompendo os gafanhotos antes que eles formem enxames e minimizando a exposição a pesticidas em humanos. 

Um protótipo desses drones deve estar disponível para os países em 2020. 

Novas tecnologias para um antigo problema 

Gafanhotos e outras pragas transnacionais são um problema mundial há séculos e esforços coordenados e oportunos para além das fronteiras são necessários para garantir a contenção e a prevenção eficazes. 

Como órgão neutro, a FAO está bem posicionada para oferecer conhecimento, mesmo em áreas sensíveis. 

Em 2019, a organização participou pela primeira vez de uma Reunião Conjunta de Fronteira entre a Índia e o Paquistão para trocar informações sobre as atuais operações de controle de gafanhotos do deserto em ambos os países. A participação da FAO nesse encontro foi o reconhecimento da importância de sua experiência e trabalho na área. 

O desenvolvimento do eLocust3 e o uso de drones são exemplos concretos de como podemos resolver antigos problemas através da inovação. 

Segundo as Nações Unidas, novas tecnologias – mas o mais importante, a aplicação dessas tecnologias de formas inovadoras – é a chave para superar os desafios de hoje. 

A ONU acredita que fortes parcerias globais entre países e organizações, aliadas a soluções modernas aplicadas em escala mundial, podem trabalhar juntas para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030. 

Principais fatos sobre os gafanhotos 

  • Os gafanhotos são a praga migratória mais antiga do mundo. Eles diferem dos acrídios comuns em sua capacidade de mudar o comportamento (se agruparem) e formar enxames que podem migrar por longas distâncias. A mais devastadora de todas as espécies de gafanhotos é a gafanhoto do deserto (Schistocerca gregaria); 
  • As pragas podem afetar facilmente 20% das terras no mundo; mais de 65 dos países mais pobres; e potencialmente prejudicar a agricultura de subsistência de um décimo da população mundial; 
  • Durante baixas temporadas, os gafanhotos do deserto vivem nas áreas inóspitas entre a África Ocidental e a Índia – uma região de cerca de 16 milhões de quilômetros quadrados, onde normalmente sobrevivem espalhados por cerca de 30 países; 
  • Os gafanhotos têm alta capacidade de multiplicar-se; formar grupos – migrando por distâncias relativamente grandes (podem voar até 150 km por dia); e, se em períodos de chuvas abundantes as condições ecológicas se tornam favoráveis, reproduzirem-se rapidamente, aumentando 20 vezes o tamanho de sua população em três meses. 

Clique aqui para acessar o relatório produzido pela FAO e Organização Meteorológica Mundial (OMM) sobre gafanhotos do deserto (em inglês). 

Site do Serviço de Informações sobre Gafanhotos do Deserto (DLIS): http://www.fao.org/ag/locusts/en/info/info/index.

Fonte: ONU.

Agricultura Conservacionista: Conheça os Preceitos e Práticas Para o Cerrado

Em tempos de busca pela sustentabilidade dos sistemas agropecuários frente às mudanças climáticas e ao aumento dos custos de produção, a agricultura conservacionista, que reúne um complexo de tecnologias de caráter sistêmico para preservar e restaurar ou recuperar os recursos naturais com o manejo integrado do solo, da água e da biodiversidade compatibilizados com o uso de insumos externos, se mostra como caminho viável e necessário para que o produtor rural garanta a eficiência e a rentabilidade da produção e ainda preserve o meio ambiente. 

Independente do sistema de produção e da região, a agricultura conservacionista segue três preceitos fundamentais: a redução ou supressão de mobilização de solo; a manutenção de resíduos culturais na superfície do solo; e a diversificação de espécies, em rotação, consorciação e/ou sucessão de culturas. 

Quanto menor o revolvimento do solo, menor é a exposição desse solo à erosão e às perdas de matéria orgânica e de carbono por oxidação. Além disso, há menos gasto de energia e combustível com o revolvimento do solo. “Sempre quando se fala em agricultura conservacionista, é interessante ter isto em mente: revolver o mínimo necessário e manter o solo coberto o máximo de tempo possível, seja com resíduos ou com plantas vivas, e permeado por raízes. Manter o solo coberto é protegê-lo”, ensina o pesquisador Marcos Aurélio Carolino de Sá, da Embrapa Cerrados (DF), que estuda a agricultura conservacionista no bioma Cerrado. 

Ele explica que no passado perdia-se tempo com os procedimentos do sistema convencional de preparo do solo. “O produtor tinha que esperar chover, preparar o solo para só depois plantar. E a janela de plantio era menor, sendo necessário mais máquinas, mais gasto de combustível e de mão de obra”. Com o advento do Sistema Plantio Direto, que eliminou a necessidade do preparo de solo, a janela de plantio ficou maior, e o agricultor passou a iniciar o plantio quando as chuvas se estabilizam, perdendo menos tempo. “Isso possibilita mais de uma safra por ano e, consequentemente, maior diversificação e aporte de resíduos no solo”, diz

Para manter o solo estruturado, é importante a rotação de culturas e a diversificação do sistema de produção, já que diferentes plantas têm diferentes tipos e profundidades de raízes. A soja, por exemplo, é uma leguminosa com raiz principal pivotante e sistema radicular mais superficial. Já o milho e a braquiária são gramíneas de sistema radicular fasciculado ou “em cabeleira”, ou seja, contam com muitas raízes para explorar o solo superficialmente e em profundidade, e tendem a estruturar melhor o solo, favorecendo a estruturação e agregação do solo. 

O clima do bioma Cerrado é sazonal, com estações chuvosa e seca bem definidas, embora as chuvas não sejam muito regulares na estação chuvosa, podendo ocorrer veranicos. A soja de ciclo precoce (em torno de 100 dias) permite a segunda safra em muitas regiões, que pode ser de milho caso a região tenha uma estação chuvosa mais prolongada ou com perspectiva de continuidade das chuvas. Outras opções são o sorgo, que produz grãos, o milheto, que proporciona cobertura de solo e as plantas de cobertura, como a crotalária e a braquiária nos sistema de Integração Lavoura-Pecuária (ILP). Também pode ser usado um mix de plantas de cobertura, com a mistura de sementes de várias espécies leguminosas e gramíneas para diversificação do sistema. 

A diversificação pode ser feita por meio de sistemas de rotação, consorciação ou sucessão de culturas. “Num sistema de produção, o que importa é que o agricultor procure diversificar ao máximo, evitando leguminosas após leguminosas, e gramíneas em sequência a gramíneas. Sempre que possível, utilizar plantas de cobertura durante o período de safrinha para não perder a safra principal e ter mais diversidade até para quebrar ciclo de pragas e doenças”, recomenda o pesquisador. 

A diversificação também é importante para a supressão do efeito de pragas e doenças, segundo . “Nem todas as pragas atacam todas as culturas, então se o produtor cultiva uma leguminosa e em seguida uma gramínea na rotação de culturas, vai quebrar o ciclo de algumas pragas e doenças”, explica. 

Além dos três preceitos, uma série de práticas rigorosas são contempladas pela agricultura conservacionista. As principais são apresentadas a seguir: 

Não queimar restos culturais – Isso permite a cobertura do solo e posterior incorporação de carbono ao solo. A queima desses resíduos é indesejável por volatilizar carbono para a atmosfera, contaminando o ar. 

Manejo Integrado de Pragas (MIP) – É um importante auxiliar em sistemas conservacionistas de uso e manejo do solo. “Quando se faz o MIP, deixa-se de utilizar o famigerado calendário pré-estabelecido de aplicações de inseticidas, herbicidas e fungicidas, as quais passam a ser feitas apenas quando necessário. É feito o monitoramento da lavoura e, se as pragas estão abaixo do nível de controle, não se aplica nada, deixando-se que os inimigos naturais cuidem disso”, diz o pesquisador, acrescentando que há um número de indivíduos estabelecido para cada praga e cultura a partir do qual deve se fazer o controle. As contagens devem ser periódicas e, quando se atinge o nível de controle, o controle químico é utilizado. Enquanto o nível de controle não é atingido, o monitoramento continua sendo feito. 

“Com isso, é possível reduzir custos e economizar bastante em fungicidas e inseticidas, além de herbicidas, que são direcionados conforme o tipo de planta daninha. Aplicando-se menos pesticidas, também ocorre menor risco de poluição do solo e de mananciais, já que com a chuva, boa parte desses produtos pode escorrer e parar nas baixadas”, aponta . Ele lembra que inseticidas seletivos tendem a prejudicar menos os inimigos naturais das pragas, e que existem empresas que produzem inimigos naturais para liberação no campo, prática já muito comum em cana de açúcar e outras culturas – o controle biológico. “Isso diminui muito a necessidade de inseticidas químicos, que passam a ser usados de modo mais racional possível, ou seja, apenas quando necessário”, completa. 

Controle de tráfego mecânico, animal e humano sobre o solo agrícola – Contribui para minimizar a compactação do solo. Segundo o pesquisador, o conceito de tráfego controlado, que cria zonas trafegadas e não trafegadas nas áreas agrícolas, já é bastante antigo, mas o Brasil ainda engatinha na sua utilização prática, com alguns exemplos na cultura da cana de açúcar. Porém, no cultivo de grãos já é bastante utilizado em países como a Austrália. Nessa prática conservacionista, as máquinas para preparo de solo, plantio, controle de pragas, colheita, entre outras, percorram somente zonas trafegadas estabelecidas na área de produção, ou seja, os locais exatos por onde os pneus vão passar. Para isso, é necessário o uso de GPS ou sistemas de RTK (sigla para Real Time Kinematic, ou cinemática em tempo real) para controlar, de forma automatizada, o tráfego das máquinas pelos mesmos rastros. 

“É como se houvesse grandes canteiros na área. Com isso, deixa de haver o tráfego aleatório, no qual as máquinas passam por toda a área, evitando-se assim o plantio em áreas onde as máquinas passaram no ano anterior, que poderiam ter uma produtividade menor. Também aumenta, de forma geral, a infiltração de água na lavoura, já que as zonas não trafegadas terão o solo mais estruturado, mais poroso e mais permeável”, explica

Pesquisas realizadas em canaviais brasileiros mostram que o simples controle de tráfego, com as máquinas trafegando apenas na entrelinha da cana de açúcar, possibilitou aumento de até 20% na produtividade. Na Austrália, também são relatados aumentos significativos de produtividade em áreas de grãos com controle de tráfego. 

Outro meio de minimizar a compactação do solo pelas máquinas é aumentar a largura dos rodados, prática mais comum nos Estados Unidos e em algumas regiões brasileiras. Podem ser usados tratores filipados (com rodado duplo ou triplo nos eixos), que proporcionam aumento da área de pneu, diminuindo a pressão sobre o solo. No entanto, há o pisoteio em uma área maior. “São conceitos diferentes, pois nesse caso haverá uma compactação de maior área do solo, porém com pressões menores. No controle de tráfego, compacta-se muito o local onde as máquinas passam (rastros), mas não há compactação onde elas não circulam”, analisa o pesquisador. 

Ele observa que apesar de já haver tecnologia do controle de tráfego, ela ainda não está ao alcance de todos os produtores. Além disso, há falta de padronização da largura dos pneus. “A bitola de um trator é diferente da de uma colhedora, que é diferente da de um pulverizador. Temos diferentes marcas e cada uma tem o seu padrão. O uso de esteiras possibilitaria essa padronização, além de conferir maior tração, só que elas são mais caras”, comenta. 

Precisão na aplicação de insumos agrícolas – A aplicação de adubo conforme a análise do solo e o uso de defensivos de acordo com a necessidade para o controle de pragas e doenças são dois bons exemplos. Mas a regulagem do maquinário também é essencial. “No momento do plantio, é importante regular bem a semeadora. Não adianta ter a análise de solo e a recomendação de plantio se a máquina não for bem regulada, pois ela não irá semear de maneira uniforme ou adequada. O mesmo vale para os pulverizadores. Não adianta fazer MIP se o pulverizador não estiver bem regulado”, explica

Além dessas medidas mais simples, a precisão na aplicação envolve também o conceito de agricultura de precisão, em que os produtos são aplicados a taxas variáveis. Quando uma área de cultivo não é homogênea em fertilidade e o adubo ou fertilizante é aplicado numa dosagem média, algumas partes dessa área recebem mais produto e outras menos. Mas já existem tecnologias que permitem a aplicação de mais onde é preciso mais e de menos onde é preciso menos com base nas informações de mapas de fertilidade do solo. É uma aplicação precisa, mas que demanda o uso de GPS ou sistema RTK e maquinário compatível, capaz de aplicar automaticamente a quantidade de acordo com a mancha de fertilidade mapeada. 

O mesmo vale para a aplicação de pesticidas. Para herbicidas, já existem sensores que podem ser instalados nas barras de pulverização. Eles emitem sinais luminosos, distinguindo solo e planta e permitindo a aplicação do produto somente nas plantas daninhas. Com isso, reduz-se o volume de calda em áreas menos infestadas, além da poluição. 

“A tecnologia já está no mercado, e esperamos que no futuro isso seja mais comum. Mas é preciso conhecer a verdadeira variabilidade espacial da área, o que depende da qualidade das análises de solo, das amostragens e dos mapeamentos de modo que representem de fato a realidade. Se não, o produtor pode até mudar manchas de fertilidade de lugar ou criar novas manchas. Enfim, tudo tem que ser bem feito”, conclui o pesquisador. 

Aptidão agrícola das terras – Antes de produzir numa área, deve ser observada a sua aptidão agrícola, fazendo-se o uso mais racional a partir de suas características e potencialidades. Existem áreas mais aptas à lavoura, de maior facilidade para a mecanização, de relevo mais plano e sem pedregosidade, com fertilidade mais elevada ou mesmo de fertilidade baixa, mas com solo de mais fácil correção, como é o caso de amplas áreas do Cerrado. 

A aptidão agrícola da área varia conforme as limitações existentes. Se a área é mais acidentada ou pedregosa, há problemas para a mecanização e há maior susceptibilidade à erosão. Nesse caso, deve ser utilizada como pastagem ou reflorestamento, representando um uso econômico mais racional, com menos revolvimento do solo, e intervenções e maior cobertura do solo. 

“Se analisarmos o mapa de aptidão agrícola de uma área, algumas partes podem não ter aptidão para a agricultura, ou mesmo para pastagem ou reflorestamento. O melhor é deixá-las para preservação, por serem muito acidentadas ou pedregosas, sendo antieconômico produzir”, observa

Mesmo em áreas de lavoura, há diferentes classes de aptidão. Segundo o pesquisador, há áreas com maior aptidão para agricultura de subsistência, como as de solos mais férteis e com maior retenção de água, onde o agricultor faz operações mais manuais e tem menos capital para investir. Elas podem ter declividade um pouco maior ou algum impedimento à mecanização. “Já a agricultura empresarial, em que o uso de máquinas é uma necessidade, requer áreas mais planas, com pouca ou nenhuma pedregosidade e menos impedimentos à mecanização. Nesse caso, a fertilidade pode não ser um grande problema, pois o agricultor empresarial tem capital para utilizar fertilizantes e corretivos”, compara. 

A Embrapa tem um sistema de avaliação da aptidão agrícola das terras, adaptado à realidade brasileira e que foi baseado no sistema de capacidade de uso desenvolvido nos Estados Unidos

Capacidade de utilização do solo – No Cerrado, as lavouras de grãos atualmente mais produtivas estão sobre latossolos de textura argilosa e muito argilosa, onde há maiores teores de matéria orgânica do solo (MOS). “Uma característica física interessante dos latossolos é que, por serem muito ricos em óxidos de ferro e alumínio na fração argila, teores elevados de argila não são um impedimento ao cultivo, ao contrário dos solos de clima temperado muito argilosos, que têm um tipo de argila mais ativa, que torna o solo mais grudento”, diz

Os solos do Cerrado podem ser menos favoráveis quanto à retenção de nutrientes, o que pode ser contornado com o manejo da adubação. Produtividades elevadas também podem ser obtidas em solos arenosos, como os do oeste da Bahia. “Nesse caso, o manejo deve ser bem mais cuidadoso, com menor revolvimento do solo e manutenção e, se possível, aumento da MOS. Tecnologia é a palavra-chave, desde que adequada e bem utilizada”, destaca o pesquisador. 

A MOS é um componente fundamental na sustentabilidade do sistema agrícola, associada à capacidade de troca de cátions (CTC) do solo principalmente em solos tropicais e especificamente em solos do Cerrado. Assim, a MOS está muito relacionada à capacidade do solo de reter e fornecer nutrientes às plantas. 

Diversificação de sistemas de produção – Segundo , a diversificação é positiva do ponto de vista ambiental, por evitar o monocultivo. “Mas pior que a monocultura de plantas é a monocultura de ideias. Ao diversificar, rotacionando culturas, o produtor passa a ter a chance de obter mais ganhos e a não depender de uma única espécie”, afirma. 

Ele explica que a soja pode ser altamente rentável, mas quando inserida em rotação com o milho, a safra seguinte da leguminosa é favorecida, pois há quebra de ciclo de pragas, doenças e nematoides. Já o capim braquiária aumenta a sustentabilidade do sistema por melhorar a qualidade do solo, e a pecuária é outra fonte de renda. “Enquanto na agricultura o ganho é a curto prazo, na pecuária é a médio prazo. Boi é uma poupança. E quando entra o componente florestal no sistema, o produtor está diversificando mais ainda, ou seja, não está colocando todo o capital em uma única aplicação, minimizando riscos”, analisa. 

Adição de material orgânico ao solo – O solo tem uma capacidade de decompor matéria orgânica por meio da atividade microbiana. Os solos tropicais, por estarem sob temperaturas e umidade mais elevadas, têm um potencial elevado de decomposição de matéria orgânica, principalmente na estação chuvosa. “Com calor e umidade, os microrganismos decompositores ‘fazem a festa’. É preciso haver um aporte de material orgânico (palha, restos culturais) constante e suficiente para manter os teores de matéria orgânica do solo em níveis adequados”, aponta o pesquisador. 

Se o produtor queima os resíduos da lavoura após a colheita, haverá menor aporte de matéria orgânica e uma redução da MOS ao longo do tempo. No caso da monocultura de soja, leguminosa que produz pouca palha e que se decompõe rapidamente, ocorre a incorporação de pouco carbono ao solo. Já o milho incorpora grande quantidade de palha, que se decompõe mais lentamente. Assim, para que haja a constante adição de material orgânico compatível com a demanda biológica do solo, a recomendação é realizar a rotação de culturas. 

“Se o produtor tem uma cultura que incorpora poucos resíduos, precisa depois entrar com outra que incorpora bastante. Por outro lado, usar apenas duas espécies também não é o ideal. Quando ele utiliza outras espécies, está diversificando e atendendo à demanda biológica do solo, não somente quebrando ciclos de pragas e doenças, como também fornecendo ao solo e ao sistema de produção material orgânico de qualidade”, explica

Ele acrescenta que grupos de microrganismos são selecionados de acordo com o tipo de planta incorporada ao sistema. “Quando se tem uma monocultura, a tendência é favorecer alguns grupos de microrganismos. Na diversificação de culturas, esses microrganismos também são diversificados, havendo espécies antagonistas de pragas, doenças e nematoides, decompositoras, que atuam na estruturação do solo, entre outras”, observa. 

Redução ou supressão do intervalo de tempo entre colheita e semeadura (processo colher-semear) – Preconizado fortemente para o sul do Brasil, o processo de colher uma cultura e imediatamente semear outra tem o intuito de deixar o solo o menor tempo possível descoberto. Se o produtor demorar a plantar outra cultura, a palha residual da cultura anterior poderá se decompor nesse período, descobrindo o solo. Por isso, quanto antes plantar a cultura seguinte, melhor. 

O pesquisador explica que no sul do país, as chuvas se distribuem de forma uniforme ao longo do ano, facilitando o processo colher-semear, com culturas de verão e de inverno podendo ser plantadas praticamente o ano todo. No Cerrado, devido à sazonalidade das chuvas, o que favoreceu a adoção do processo colher-semear foi o advento da soja de ciclo precoce e superprecoce, que permite a segunda safra de milho, sorgo ou milheto, dependendo da região, ainda durante a estação chuvosa. 

“Nesse caso, deve-se tentar, durante a estação chuvosa, otimizar esse processo, plantando logo em seguida à colheita. Pode-se colher a soja precoce e plantar milho consorciado com a braquiária, por exemplo. Mesmo que não se consiga uma grande massa de braquiária para pastagem após a colheita do milho, o produtor terá uma planta viva na área, mantendo o solo coberto e permeado por raízes ao longo da estação seca”, recomenda. 

Eliminação da soqueira do algodão – Nas regiões onde se cultiva o algodão, o que inclui também as regiões produtoras do Cerrado, não é recomendado o plantio da fibra todos os anos numa mesma área por questões fitossanitárias, necessitando-se de um intervalo de pelo menos dois anos. Além disso, é preciso eliminar as soqueiras (restos culturais), que podem ser removidas ou incorporadas ao solo para evitar a proliferação de um besouro, o bicudo-do-algodoeiro, principal praga da cultura. 

A destruição da soqueira pode ser feita com o uso de herbicida, mas para que o produto seja efetivo, deve ser aplicado no algodão colhido mais próximo do início da safra, quando ainda há alguma umidade no solo. Se for colhido no meio da safra, já em plena estação seca, o herbicida não fará muito efeito, pois a soqueira da planta não vai absorver o produto, havendo rebrota, ou “escape”. Nesse caso, recomenda-se a destruição mecânica. Existem destruidores de soqueira que atuam na linha do algodão, fazendo o revolvimento localizado do solo. 

“Mas na maioria dos casos, os produtores utilizam a velha grade pesada e fazem revolvimento em área total, e assim quebram o Sistema Plantio Direto. Para compensar, o ideal é entrar com culturas que farão grande aporte de matéria orgânica, como milho consorciado com braquiária”, indica . No oeste da Bahia, onde a restrição de chuvas é maior, sendo mais comum plantio de safra seguido de pousio, recomenda-se na safra seguinte após algodão o plantio de milho consorciado com braquiária, o que vai proporcionar uma boa cobertura do solo durante o período seco, plantando-se, na estação chuvosa seguinte, a soja, que pode ser de ciclo mais longo. Dessa forma, o algodão retorna somente após dois anos, semeado sobre a palhada da soja. 

Implantação de práticas mecânicas e/ou hidráulicas – O pesquisador salienta que em um sistema conservacionista, não basta fazer apenas Plantio Direto, sendo necessário adotar um conjunto de ações integradas, para que o sistema seja caracterizado como Sistema Plantio Direto. O terraceamento e o cultivo em contorno ou curvas de nível são práticas que minimizam o escoamento da enxurrada e melhoram a infiltração de água no solo. 

Pesquisadores que estudam a conservação do solo têm observado problemas de erosão laminar ou em sulcos em áreas de plantio direto onde houve remoção dos antigos terraços, projetados ainda na época do plantio convencional. Os terraços e curvas de nível diminuem a energia cinética da água da enxurrada. O plantio em curvas de nível faz com que os sulcos de plantio e as plantas atuem como microterraços e forneçam pontos de infiltração para a enxurrada. Assim, o papel dessas práticas mecânicas é disciplinar e reduzir a velocidade de escorrimento da enxurrada. 

O plantio em linha reta morro abaixo não é recomendado para o Cerrado. “Na Europa e Estados Unidos, ele é muito comum, mas normalmente é realizado onde as rampas são mais curtas, de 10 a 15 metros, quase o espaçamento dos terraços do antigo sistema de plantio convencional. Já no Cerrado, as rampas podem ter mais de 1 km de comprimento. No final da rampa, a velocidade e a energia cinética da enxurrada são maiores, e assim o potencial erosivo é maior”, argumenta , acrescentando que a enxurrada também carrega nutrientes como fósforo e nitrogênio, dissolvidos na água, além de pesticidas, o que aumenta o potencial de poluição dos cursos d’água e mananciais. 

Recomenda-se que os terraços sejam o mais paralelos possível, e a largura deve medir o múltiplo da largura do maquinário. Onde o relevo da área for irregular e dificultar a construção de terraços, deve-se realizar o cultivo em contorno ou nível. 

Cordões vegetados – São uma alternativa ao terraceamento, com cordões de vegetação permanente de espécies como capim elefante, cana de açúcar ou feijão guandu, que podem quebrar a velocidade de escorrimento da enxurrada e tendem a favorecer a infiltração de água. “Solos muito arenosos, por serem muito soltos, dificultam a construção de terraços, que demandam certo teor de argila para se manterem estáveis. Nesse sentido, o cordão de vegetação permanente pode ser vantajoso, sobretudo em pequenas áreas. Além disso, essas espécies podem servir como forrageiras (capim elefante, cana de açúcar) ou banco de proteína (feijão guandu), de acordo com o sistema de produção”, aponta o pesquisador. 

Mulching vertical – Mais usado em pequenas áreas no sul do Brasil, é construído por uma máquina apropriada que abre valetas pequenas e estreitas, onde caem ou são dispostos os resíduos culturais, favorecendo a infiltração de água. É uma prática que pode substituir o terraço, de modo a permitir que as máquinas possam realizar o plantio em toda a área. 

Alocação adequada de carreadores e estradas rurais – São práticas auxiliares à conservação do solo. Uma estrada mal dimensionada pode causar erosão em área agrícola, dando origem a voçorocas. As estradas rurais devem ser construídas em áreas mais altas, de forma que o escorrimento possa ser disciplinado e captado em bacias de retenção. 

“O ideal é que tenham leito abaulado, para que a água escorra para as laterais. Se a estrada tiver que ser alocada em um declive, é preciso dimensionar as saídas de água com bacias para reter a água, evitando que ela escorra para as áreas de cultivo”, explica o pesquisador. O mesmo vale para os carreadores nas lavouras e as cercas, que devem estar o máximo possível em nível. Caso estejam em desnível, evitar ao máximo a locação em sentido morro abaixo para evitar a erosão, principalmente em terrenos muito declivosos. 

Quebra-ventos – São barreiras formadas por árvores que cortam a velocidade principal dos ventos. Em períodos de baixa umidade relativa do ar, o vento remove a umidade de lavouras e pastagens do Cerrado, que tem grandes áreas planas e descampadas. O vento também carrega poeira e pode dispersar pragas e doenças. 

Os quebra-ventos podem minimizar esses problemas, mas devem ser plantados de forma perpendicular ao sentido dos ventos predominantes. As árvores devem ser de diferentes tamanhos, de modo a desviar o vento para cima. “Outra vantagem é que determinadas espécies de árvores, como o eucalipto, podem ser usadas como fonte de madeira na propriedade ou para finalidades econômicas”, lembra

Áreas de culturas perenes – Em culturas como o café e as frutíferas, os princípios e práticas conservacionistas são os mesmos: manter o solo coberto e permeado por raízes na maior parte do ano; minimizar o revolvimento do solo; e fazer o cultivo em nível, pois as linhas de plantio passam a funcionar como pequenos terraços, interceptando a velocidade de escorrimento da enxurrada. 

As plantas invasoras são controladas com roçadeira nas entrelinhas e com herbicida ou mesmo capina manual na projeção da copa ou coroamento (“pé”) das plantas. Nos sistemas orgânicos, elas podem ser controladas com roçadeira e, no coroamento, exclusivamente com capina. Com o crescimento das plantas, a sombra da copa inibe o desenvolvimento de invasoras e facilita o coroamento. Outra opção é o consórcio com braquiária, que se torna uma planta de cobertura permanente, mas requer roçagens constantes. 

Pecuária – Nos sistemas pecuários, o conservacionismo envolve o planejamento do local das cercas e estradas, a distribuição de cochos e bebedouros nas pastagens, de modo a evitar a erosão, entre outras medidas. “Se o gado costuma andar no mesmo sentido, formam-se trilhas no solo. Se esse sentido for morro abaixo, normalmente para chegar à aguada, pode ocorrer erosão. Muitos casos de voçoroca se iniciam em antigos trilheiros de gado. O recomendado é planejar a divisão dos piquetes e a distribuição de cochos e bebedouros de modo que o gado não ande nesse sentido e percorra a área o mais uniformemente possível”, afirma o pesquisador. 

Sá lembra que a pastagem pode proporcionar cobertura de solo adequada, mas o terraceamento pode ser uma prática complementar, principalmente para a conservação da água. “Há relatos de pecuaristas que terracearam as pastagens e observaram aumento no volume de água das nascentes. Assim, é uma forma de perenizá-las, pois a prática aumenta a infiltração de água na área, abastecendo o lençol freático”, explica. 

O manejo adequado da pastagem também é importante, pois em pastos degradados o solo tende a ficar exposto. Dessa forma, a adubação, a correção do solo e o controle do pisoteio e das taxas de lotação, ajustando a quantidade de animais de acordo com a capacidade de suporte, também são práticas conservacionistas. “Ao manter a pastagem produtiva, cobrindo bem o solo, o pecuarista está conservando o solo”, garante o pesquisador. 

Para ele, o grande trunfo da ILP é que quando a pastagem começa a se degradar por remoção ou pisoteio, a lavoura é introduzida, trazendo fertilizantes para a correção do solo e assim renovando o sistema. “A ILP é uma forma de manter as pastagens produtivas por mais tempo, pois o sistema é mais sustentável, e portanto mais conservacionista”, justifica. Mesmo que o pecuarista não tenha maquinários e o domínio das técnicas de produção de grãos, ele pode se associar a agricultores, em sistema de arrendamento, por exemplo. 

Não usar fogo em pastagens – Ainda comum em áreas de pastagens contínuas no Cerrado, o fogo pode ter efeitos drásticos em áreas mais acidentadas. Após as primeiras chuvas, boa parte das cinzas escorre para as baixadas, causando eutrofização (acúmulo de nutrientes e matéria orgânica) dos cursos d’água. 

Segundo , normalmente os produtores que queimam pastagens não costumam adubá-las. No Cerrado, onde os solos já são naturalmente mais pobres em nutrientes, a queima pode acelerar o processo de degradação. Nutrientes como nitrogênio e enxofre são perdidos por volatilização (via fumaça), enquanto o potássio e alguns macro e micronutrientes permanecem nas cinzas. Se as cinzas forem removidas com as chuvas, eles também serão perdidos. “Apesar de o efeito não ser imediato, o fogo remove a cobertura do solo, empobrecendo-o em nutrientes ao longo dos anos”, comenta. 

Aos seguir esses preceitos e medidas preconizados pela agricultura conservacionista, o produtor rural contribui para a estabilidade da atividade, para a economia do país e o bem-estar das gerações futuras, pois esses princípios visam à sustentabilidade da atividade agrícola, conservando o solo, a água, o ar e a biota dos agroecossistemas, além de prevenir a poluição, a contaminação e a degradação dos ecossistemas e demais sistemas do entorno, reduzir o uso de combustíveis fósseis e contribuir para amenizar a emissão de gases de efeito estufa.

Por: Breno Lobato (Embrapa).