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Estudo Mapeia Pela Primeira Vez os Limites do Sistema Solar


Cientistas criaram mapa 3D pioneiro que mostra fronteiras da heliosfera com o espaço, uma região varrida pelos fortes ventos interestelares. 

Cientistas conseguiram mapear a heliopausa, que é o limite da heliosfera (em marrom na ilustração acima) com o espaço interestelar (em azul escuro). Créditos: NASA/IBEX/Adler Planetarium. 

Pela primeira vez, uma equipe de cientistas mapeou a região onde está localizado o limite da heliosfera. O trabalho vai ajudar nas pesquisas sobre a interação entre o vento solar e os ventos de origem interestelar. 

“Modelos físicos vêm teorizando sobre essa fronteira há anos”, disse Dan Reisenfeld, cientista do Laboratório Nacional de Los Alamos e principal autor do artigo, e responsável pelo mapeamento. “Mas esta é a primeira vez que realmente conseguimos medir e fazer um mapa tridimensional.” 

A heliosfera é uma bolha criada pelo vento solar. É um fluxo de prótons, elétrons e partículas alfa que se estende desde o Sol até o espaço interestelar, protegendo a Terra da radiação interestelar prejudicial. 

Em seu trabalho publicado no Astrophysical Journal, Reisenfeld e a equipe usaram dados do Interstellar Boundary Explorer (IBEX). O IBEX é um satélite da Nasa que detecta partículas que vêm da camada limite entre o Sistema Solar e o espaço interestelar, ou seja, da heliosfera. A equipe conseguiu mapear a borda dessa zona – uma região chamada heliopausa. Nela, o vento solar, que se desloca em direção ao espaço interestelar, colide com o vento interestelar, que se desloca em direção ao sol. 

Para realizar essa medição, eles utilizaram uma técnica semelhante ao sonar dos morcegos. “Assim como os morcegos enviam pulsos de sonar em todas as direções e usam o sinal de retorno para criar um mapa mental de seus arredores, usamos o vento solar do Sol, que vai em todas as direções, para criar um mapa da heliosfera”, disse Reisenfeld. 

Eles fizeram isso usando a medição do satélite IBEX de átomos neutros energéticos (ENAs), que surgem a partir das colisões entre as partículas do ventos solar e as partículas dos ventos interestelares. A intensidade desse sinal depende da intensidade do vento solar que atinge a heliopausa. Quando uma onda atinge a pausa, a contagem de ENA aumenta e o IBEX pode detectá-la. 

“O ‘sinal’ do vento solar enviado pelo Sol varia em intensidade, formando um padrão único”, explicou Reisenfeld. “O IBEX verá o mesmo padrão no sinal de retorno da ENA, dois a seis anos depois, dependendo da energia da ENA e da direção que o IBEX está olhando através da heliosfera. Esta diferença de tempo é como encontramos a distância até a região da fonte ENA em um direção particular.” 

Eles, então, aplicaram esse método para construir o mapa tridimensional, usando dados coletados ao longo de um ciclo solar completo, de 2009 a 2019. “Ao fazer isso, somos capazes de ver os limites da heliosfera da mesma forma que um morcego usa o sonar para ‘ver’ as paredes de uma caverna”, acrescentou. 

O motivo por trás da demora para o retorno do sinal ao IBEX está relacionado às vastas distâncias envolvidas. As distâncias no Sistema Solar são medidas em unidades astronômicas (UA), onde 1 UA é a distância da Terra ao Sol. O mapa de Reisenfeld mostra que a distância mínima entre o Sol e a heliopausa é de cerca de 120 UA na direção do vento interestelar. Na direção oposta, estende-se pelo menos 350 UA. Para referência, a órbita de Netuno tem cerca de 60 UA de diâmetro.


O Impacto Mais Importante das Políticas Climáticas de Trump Foi a Perda de Tempo


Presidente Donald Trump em um comício de campanha em Minden, Nevada, no dia 12 de setembro de 2020. O presidente menosprezou as mudanças climáticas e promoveu políticas que as aceleram, fazendo com que os Estados Unidos não progredissem em ações contra as mudanças climáticas nos últimos quatro anos. Foto: Doug Mills / The New York Times / Redux. 

Muito dióxido de carbono foi liberado na atmosfera durante os anos do governo Trump, mas especialistas afirmam que o maior prejuízo foi a ausência de progresso.

Por décadas, especialistas climáticos alertaram que adiar a adoção de medidas para controlar o aquecimento global faria com que a resolução do problema fosse mais perigosa e difícil. Portanto, qual foi o impacto causado pelos quatro anos sem progresso sob o governo do presidente Donald J. Trump? 

Surpreendentemente, a quantidade total de dióxido de carbono adicional liberada na atmosfera nos últimos anos foi pouca, afirma Leah Stokes, especialista em política climática da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. Mas o mais importante era desacelerar o progresso das emissões. Os custos climáticos e econômicos da criação de um futuro com menos combustíveis fósseis estão aumentando drasticamente a cada ano, sendo assim, quatro anos sem progresso, pelo menos nos Estados Unidos, pressionam ainda mais os futuros líderes. 

“Não estamos indo na direção errada, mas também não estamos na direção certa”, diz Stokes. 

Quais políticas são mais importantes? 

Durante a campanha de Trump em 2016, ele já havia demonstrado seu ceticismo em relação às mudanças climáticas. Depois que ele assumiu o cargo em 2017, seu governo tomou decisões que desaceleraram ou menosprezaram as ações climáticas. Seu governo reverteu as políticas que ajudavam a mitigar o aquecimento, atenuou regulamentações para os poluidores climáticos, aprovou o oleoduto Keystone XL, desfez o Acordo de Paris e muito mais. 

No início de 2017, por exemplo, Trump determinou que a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) anulasse o Plano de Energia Limpa, política do governo Obama que visava reduzir as emissões de carbono do setor energético para 32% abaixo dos níveis de 2005 até 2030. Esse plano evitaria cerca de 70 milhões de toneladas de emissões até este ano e mais de 400 milhões de toneladas até 2030. 

Em vez disso, a EPA substituiu o Plano de Energia Limpa pela norma de Energia Limpa Acessível (ACE, na sigla em inglês), que não define limites de emissões nacionais, permitindo que os estados decidissem como controlar as emissões das usinas. A agência estimou que essa norma resultaria em apenas 11 milhões de toneladas a menos de CO2 liberados na atmosfera até 2030 — aproximadamente o volume de emissões de Rhode Island durante um ano, com base nos números de 2017. 

De forma semelhante, o governo atenuou as regras de eficiência do combustível de veículos, substituindo as normas por novas metas menos ambiciosas em março de 2020. As mudanças não teriam grandes impactos no futuro imediato, mas retardariam a transição para o uso de carros e caminhões mais eficientes. Tal como o cancelamento pelo governo de uma isenção permitindo que a Califórnia estabeleça normas mais rígidas de gases emitidos por veículos — uma ação que ainda está sendo contestada na justiça. 

O governo também modificou as normas referentes à quantidade de metano, um gás de efeito estufa superpotente, que pode ser emitido como subproduto da perfuração de poços de petróleo e gás e de aterros sanitários. A EPA estima que suas novas normas, estabelecidas em 2020, resultarão em 850 mil toneladas a mais de metano liberadas na atmosfera até 2030, embora alguns especialistas acreditem que seja uma estimativa subestimada. O metano é um agente de aquecimento muito mais poderoso do que o dióxido de carbono no curto prazo, o que significa que seus impactos podem ter forte influência no futuro próximo. 

Diversas outras normas foram atenuadas e muitos indícios mais sutis apresentados que favoreciam a economia de combustível fóssil. “O governo fez tantas coisas, e cada decisão não resulta em um grande impacto de emissões de combustíveis fósseis”, esclarece Narayan Subramanian, especialista em política climática e membro da Data for Progress e da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “Porém as decisões têm uma espécie de impacto coletivo.” 

Qual é a dimensão do impacto?

“É difícil quantificar os impactos dessas mudanças políticas”, explica Kate Larsen, analista do Grupo Rhodium, em parte porque futuras emissões também serão afetadas por outros fatores, como condições climáticas (o frio do inverno aumenta as emissões) e tendências econômicas (mudanças para energia renovável estão ocorrendo independentemente de mudanças políticas). 

Mas Larsen e seus colegas tentaram mesmo assim: eles estimaram quanto dióxido de carbono a mais as ações mais significativas de Trump podem liberar na atmosfera até 2035. 


Campos de gás natural nos arredores de Pecos, Texas. O governo Trump mudou as normas referentes à quantidade de metano, um prejudicial gás de efeito estufa, que pode ser emitido como subproduto da perfuração de poços de petróleo e gás. Foto: Ed Kashi / VII / Redux. 

Larsen e seus colegas constataram que a reversão das normas de eficiência de combustível aumentaria cerca de 450 milhões de toneladas de CO2 ou seu equivalente, a suspensão da isenção da Califórnia, se mantida, aumentaria cerca de 570 milhões de toneladas, principalmente por desacelerar a mudança para o uso de veículos elétricos. As normas de metano atenuadas contribuiriam com 640 milhões de toneladas. 

Com mais alguns detalhes, os analistas da Rhodium chegaram à estimativa final: as ações do governo Trump podem liberar um total de pelo menos 1,8 bilhão de toneladas de CO2 a mais na atmosfera até 2035. 

Aproximadamente 30% do que os Estados Unidos emitiram apenas no ano de 2019. 

Os efeitos da substituição do Plano de Energia Limpa pela ACE aumentariam ainda mais esse número, mas não se sabe a magnitude do efeito. E Larsen enfatiza que houve muito mais mudanças inefáveis que eram difíceis ou impossíveis de quantificar, então a estimativa provavelmente é baixa. 

Subramanian esclarece que é importante saber que “as mudanças não são permanentes em termos de estrutura regulamentar da política ambiental. Tudo o que [o governo Trump] fez na regulamentação é reversível”. 

A verdadeira questão, diz ele, é quanto tempo o governo Biden precisará para reverter a situação novamente, obter avanço nas ações climáticas e fazer com que a tendência das emissões siga firme na direção certa. 

Em busca do tempo perdido

Desde que os Estados Unidos atingiram o nível mais alto de emissões em 2007, em geral esse nível está em tendência de queda. Em 2018, a emissão subiu para cerca de 5,9 bilhões de toneladas métricas, de acordo com a Rhodium, antes de cair novamente em 2019 para 5,7 bilhões de toneladas métricas, quase a mesma quantidade de 2017. Em 2020, esses números estão caindo bruscamente mais um vez — mas apenas porque a pandemia paralisou parcialmente a economia e as pessoas não estão viajando ou se deslocando tanto. 

Mesmo assim, os cientistas concordam que as emissões precisam diminuir de forma rápida e sustentável, nos Estados Unidos e em outros lugares. “Temos uma quantidade finita de carbono que podemos emitir”, afirma Kirstin Zickfeld, cientista climática da Universidade de Simon Fraser na Colúmbia Britânica, “e já emitimos a maior parte”. 

A quantidade exata que resta nesse “limite de carbono” e como ele deve ser dividido entre os países são temas amplamente debatidos. Mas Zickfeld diz que uma forma simples de olhar para o problema é a seguinte: para haver 50% de chance de evitar que o planeta aqueça além de 1,5 grau Celsius — a meta mais ambiciosa definida pelo Acordo de Paris — o mundo deve se limitar a emitir menos de 500 bilhões de toneladas de dióxido de carbono no total. 

Com o volume de emissão atual — mundialmente, cerca de 36 bilhões de toneladas de dióxido de carbono fóssil por ano — esse número se esgotará em pouco mais de 12 anos. O desafio é chegar a uma emissão zero antes que o limite seja atingido. 

Larsen fez um cálculo aproximado para ilustrar como o governo Trump afetou esse desafio nos Estados Unidos, onde o presidente eleito Joe Biden agora abraçou o objetivo de emissão zero. Se depois de 2016 o país quisesse se empenhar nessa meta e cumprir o Acordo de Paris, seria necessário “manter as reduções de emissões entre 2025-2030 de 4,4% ao ano para continuar progredindo para o objetivo de emissão zero até 2050”, escreveu Larsen em um e-mail. 

Mas após os retrocessos de Trump, ela escreve, “teremos que atingir reduções de 5,4% ao ano, em média, entre 2025-2030 para continuar no caminho certo”. 

Cada ano sem progresso faz com que os cortes necessários sejam maiores e dificultam a obtenção do objetivo final. Muitos especialistas consideram que o tempo perdido é o maior prejuízo dos últimos quatro anos. 

Ben Sanderson, cientista climático do centro de pesquisa francês CERFACS, e um colega observaram recentemente como o atraso nas ações climáticas afeta o custo econômico de controlar as mudanças climáticas. 

“Conforme nos aproximamos [da meta de 1,5 °C], os custos aumentam exponencialmente a cada dia que passa”, diz ele. “Estamos prestes a tornar isso impossível.” 

“Para mim, o que não aconteceu nos últimos quatro anos é muito mais importante do que o que de fato aconteceu”, afirma Noah Kaufman, especialista em políticas climáticas da Universidade de Colúmbia. “Quanto mais adiarmos, mais cara ficará a implementação dessas políticas ou a alternativa é simplesmente não obtermos tantos resultados com elas. Esse é o impacto dos anos do governo Trump.”

Por: Alejandra Borunda. Fonte: National Geographic Brasil.
 

Como as Soluções Baseadas na Natureza Podem Integrar um Novo Pacto Social e Econômico


O Brasil precisa lidar com o declínio das atividades econômicas e, ao mesmo tempo, resolver os problemas ocasionados pela emergência climática. A solução para essas crises é a conservação da natureza que proporcione uma retomada verde e socialmente inclusiva. 

A humanidade enfrenta uma de suas piores crises. Em meio à pandemia da Covid-19, que já ceifou mais de 160 mil vidas de brasileiros e brasileiras, o Brasil precisa lidar com o declínio das atividades econômicas e, ao mesmo tempo, debater como atuar de forma eficiente para resolver os problemas ocasionados pela emergência climática. A solução para todas essas crises é a conservação da natureza. Novas pandemias poderão surgir na medida em que a destruição dos ambientes naturais avança, por isso, precisamos preservar. 

Uma retomada econômica sem considerar os limites da natureza e o uso sustentável dos recursos naturais, certamente agravará as crises. A retomada verde será ao mesmo tempo a solução para nossa economia e para o enfrentamento da crise climática. Entretanto, para que as soluções sejam de fato efetivas, a retomada não deve somente ser verde, mas também inclusiva. 

Precisamos estimular e ajudar a construir um novo contrato ou pacto social, no qual a equidade de gênero, o combate ao racismo e a proteção da natureza estejam inseridos como questões centrais e inegociáveis. Essa nova economia precisa reafirmar alguns valores: democracia, respeito aos direitos humanos, respeito à diversidade, respeito às minorias, respeito à vida e à biodiversidade, busca da inovação e respeito às futuras gerações. Lembrando dos vários aspectos da ética, do cuidado, do respeito, da responsabilidade e da solidariedade. 

Para isso, precisamos integrar as Soluções Baseadas na Natureza (SBN), que têm a ver com o redesenho e o planejamento das paisagens. Pensar o território com olhar de drone e visão de libélula: do alto, com a complexidade exigida e onde cabem todos os atores e setores existentes em um território, mas cabe também a natureza. 

É necessário buscar a integração de todas as iniciativas sustentáveis existentes, considerando a necessidade de alimentos (qualidade e segurança alimentar), a proteção, restauração e regeneração de ecossistemas, a proteção da biodiversidade, a proteção e uso racional dos recursos hídricos e o desenvolvimento e implementação de energias limpas e renováveis. 

Já existem diversos exemplos de projetos e Soluções Baseadas na Natureza em diferentes áreas. Os desafios são como manter, consolidar e ampliar esses projetos, replicá-los e adaptá-los em outras regiões. 

Há várias ações que podem atrair os aportes necessários para essa mudança. Entre elas: 

• Buscar e direcionar investimentos públicos já existentes para iniciativas sustentáveis; 
• Repensar as políticas públicas – atrelando a concessão e liberação de créditos (agrícolas, imobiliários, infraestrutura, etc.) ao novo pacto social verde; 
• Incentivar e fomentar o cumprimento da legislação ambiental e a implantação de paisagens sustentáveis (Cadastro Ambiental Rural – CAR, Programa de Regularização Ambiental – PRA, Bolsa Restauração); 
• Ter um sistema de financiamento e crédito voltado para o desenvolvimento sustentável para que os imóveis rurais/propriedades se tornem sustentáveis, desinvestindo em atividades e equipamentos altamente emissores de carbono e 
• Remodelar a assistência técnica para que esta tenha um olhar integrado e considere a paisagem, a biodiversidade, os recursos hídricos e a proteção do solo como essenciais para a atividade agrossilvopastoril. 

Em relação aos investimentos sociais privados, também já existem projetos bem sucedidos que podem e devem ser replicados. Por exemplo, o Projeto Matas Legais, uma parceria da empresa Klabin com a ONG Apremavi, que existe desde 2005 e já atendeu 1.807 famílias/propriedades, plantou 1.695.568 mudas de árvores nativas e envolve 16.500 ha de florestas nativas conservadas, 1.500 ha em regeneração natural, 512 ha restaurados com plantios de mudas nativas. É um projeto altamente replicável. 

A contribuição do setor privado deve ir além dos compromissos “normais”, como é o caso da Natura, ao anunciar que vai investir US$ 800 milhões nos próximos dez anos para ajudar a implantar o desmatamento zero da Amazônia, com ações em toda sua cadeia produtiva. Nesta encruzilhada civilizatória que afeta o planeta como um todo é preciso debater qual é a contribuição do setor privado para além do seu cercado, saber qual é a sua contribuição à sociedade, em uma visão de emergência climática, e quanto de seu lucro o setor privado está disposto a investir. Essa discussão exige um desprendimento muito maior do que o visto até agora. 

Para trazer essas soluções de investimentos, já existem algumas ferramentas que podem ser úteis. Entre elas, estão iniciativas multissetoriais de diálogo, como o Diálogo Florestal, o Diálogo do Uso do Solo e a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. Estes são espaços onde acordos e modelagens de novos projetos podem acontecer. 

Existem também os portais de transparência, que ajudam a monitorar as ações do governo, das empresas e do Terceiro Setor. Um exemplo é o Portal Ambiental da Apremavi, onde são cadastradas as atividades de restauração realizadas pela instituição, possibilitando o acompanhamento público das mesmas 

Outra ferramenta possível é a construção de plataformas de projetos, que pode ter como inspiração a iniciativa Mapa do DF Sustentável, que mapeou as mais diversas iniciativas relacionadas à sustentabilidade no Distrito Federal. 

Por que não criar uma plataforma também de ideias – um espaço onde as pessoas possam cadastrar suas ideias de investimentos verdes, uma vez que a inovação e criatividade precisam de oportunidades para florescer? E, por fim, construir uma plataforma de engajamento, onde as pessoas possam expressar os seus compromissos com o futuro sustentável? A pergunta é simples: que tipo de investimento eu posso fazer enquanto empresa ou cidadão, para ajudar a construir o presente e futuro sustentáveis?

Por: Miriam Prochnow (Página 22).

Volume de Resíduos Eletrônicos Aumenta Mais de 21% em 5 Anos no Mundo

Em 2019, apenas 17,4% dos resíduos eletrônicos foram coletados e reciclados no mundo. Isso significa que ouro, prata, cobre, platina e outros materiais recuperáveis de alto valor, avaliados em 57 bilhões de dólares, foram principalmente descartados ou queimados, em vez de coletados para tratamento e reutilização. 

Desde 2014, o número de países que adotaram uma política, legislação ou regulamentação nacional de resíduos eletrônicos aumentou de 61 para 78. Embora seja uma tendência positiva, isso está longe da meta estabelecida pela União Internacional de Telecomunicações (UIT) de aumentar para 50% o percentual de países com uma legislação sobre resíduos eletrônicos. 

Um recorde de 53,6 milhões de toneladas métricas (Mt) de resíduos eletrônicos foi gerado em todo o mundo em 2019, o que representa um aumento de 21% em apenas cinco anos, de acordo com o Global E-waste Monitor 2020 das Nações Unidas, divulgado no dia 02/07/2020. 

O novo relatório também prevê que os resíduos eletrônicos globais – produtos descartados com bateria ou plugue – totalizarão 74 milhões de toneladas em 2030, quase dobrando em apenas 16 anos. 

Isso implica os resíduos eletrônicos como a categoria de resíduos domésticos que mais cresce no mundo, alimentada principalmente por maiores taxas de consumo de equipamentos elétricos e eletrônicos, ciclos de vida curtos e poucas opções de reparo. 

Em 2019, apenas 17,4% dos resíduos eletrônicos foram coletados e reciclados. Isso significa que ouro, prata, cobre, platina e outros materiais recuperáveis de alto valor, avaliados em 57 bilhões de dólares – um montante superior ao PIB de alguns países – foram principalmente descartados ou queimados, em vez de coletados para tratamento e reutilização. 

Segundo o relatório, a Ásia gerou o maior volume de resíduos eletrônicos em 2019 – cerca de 24,9 milhões de toneladas (Mt), seguido pelas Américas (13,1 Mt) e Europa (12 Mt), enquanto África e Oceania geraram 2,9 Mt e 0,7 Mt, respectivamente. 

Para efeitos comparativos, os resíduos eletrônicos do ano passado pesavam substancialmente mais do que todos os adultos da Europa, ou 350 navios de cruzeiro do tamanho do Queen Mary 2, o suficiente para formar uma fila de 125 km de comprimento. 

Os resíduos eletrônicos são um risco à saúde e ao meio ambiente, contendo aditivos tóxicos ou substâncias perigosas, como o mercúrio, que danificam o cérebro e/ou o sistema de nervoso humano. 

Outras descobertas-chave do Global E-waste Monitor 2020: 

• O gerenciamento adequado de resíduos eletrônicos pode ajudar a mitigar o aquecimento global. Em 2019, cerca de 98 Mt de equivalentes de CO2 foram lançados na atmosfera a partir de geladeiras e aparelhos de ar condicionado descartados, contribuindo para aproximadamente 0,3% das emissões globais de gases de efeito estufa. 

• Em termos per capita, foram descartados no último ano, em média, 7,3 kg de resíduos eletrônicos para cada homem, mulher e criança na Terra. 

• A Europa ocupou o primeiro lugar no mundo em termos de geração de resíduos eletrônicos per capita, com 16,2 kg per capita. A Oceania ficou em segundo lugar (16,1 kg), seguida pelas Américas (13,3 kg). Ásia e África ficaram mais abaixo no ranking, com 5,6 e 2,5 kg, respectivamente. 

• O lixo eletrônico é um risco à saúde e ao meio ambiente, contendo aditivos tóxicos ou substâncias perigosas, como o mercúrio, que danifica o cérebro e/ou o sistema nervoso humano. Estima-se que, anualmente, 50 toneladas de mercúrio – usado em monitores, PCBs e lâmpadas fluorescentes ou de baixo consumo energético – estejam contidas em fluxos não documentados de resíduos eletrônicos. 

• Os resíduos eletrônicos de 2019 são compostos principalmente por pequenos equipamentos (17,4 Mt), grandes equipamentos (13,1 Mt) e equipamentos de troca térmica (10,8 Mt). Telas e monitores, pequenos equipamentos de Tecnologias da Informação (TI) e de telecomunicações e lâmpadas representaram 6,7 Mt, 4,7 Mt e 0,9 Mt, respectivamente. 

• Desde 2014, as categorias de resíduos eletrônicos que crescem mais rapidamente em termos de peso total são: equipamentos de troca térmica (+7%), equipamentos grandes (+5%), lâmpadas e equipamentos pequenos (+4%). Segundo o relatório, essa tendência é impulsionada pelo crescente consumo desses produtos em países de baixa renda, onde esses produtos tendem a melhorar a qualidade de vida. Pequenos equipamentos de TI e telecomunicações cresceram mais lentamente, e as telas e monitores mostraram uma ligeira queda (-1%), explicada em grande parte pela substituição de telas pesadas e monitores de tubos de raios catódicos (CRT) por telas planas mais leves. 

• Desde 2014, o número de países que adotaram uma política, legislação ou regulamentação nacional de resíduos eletrônicos aumentou de 61 para 78. Embora seja uma tendência positiva, isso está longe da meta estabelecida pela União Internacional de Telecomunicações (UIT) de aumentar para 50% o percentual de países com uma legislação sobre resíduos eletrônicos. 

O Global E-waste Monitor 2020 (www.globalewaste.org) é fruto da parceria da Aliança Mundial para o Controle Estatístico dos Resíduos Eletrônicos (AMCERE), formada pela Universidade das Nações Unidas (UNU), a União Internacional de Telecomunicações (UIT) e a Associação Internacional de Resíduos Sólidos (ISWA), em estreita colaboração com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério de Cooperação Econômica e Desenvolvimento (BMZ) da Alemanha também contribuíram substancialmente para o Global E-waste Monitor 2020

“As conclusões do Global E-waste Monitor deste ano, filiado à UNU, sugerem que a humanidade não está implementando suficientemente os ODS. Esforços substancialmente maiores são urgentemente necessários para garantir que a produção, o consumo e o descarte de resíduos elétricos e eletrônicos sejam mais inteligentes e sustentáveis em escala global. Este relatório contribui fortemente para o senso de urgência em mudar esse perigoso padrão global”, disse David M. Malone, reitor da Universidade das Nações Unidas (UNU) e subsecretário-geral da ONU. 

Nikhil Seth, diretor-executivo do Instituto das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa (UNITAR), lembrou que na maior parte do mundo, muito mais resíduos eletrônicos são gerados do que reciclados de maneira segura. “São necessários mais esforços cooperativos para visibilizar esse crescente problema e tomar medidas adequadas, apoiadas por pesquisa e treinamento adequados. Estou satisfeito que o UNITAR agora se junte a esta importante Aliança Mundial para o Controle Estatístico dos Resíduos Eletrônicos da UNU, ITU e ISWA, ilustrando o quanto essas atividades são valiosas.” 

Para Doreen Bogdan-Martin, diretora do Escritório de Desenvolvimento de Telecomunicações da UIT, o Global E-waste Monitor destaca a questão premente do gerenciamento dos resíduos eletrônicos no mundo digitalmente conectado de hoje, no qual a maneira como produzimos, consumimos e descartamos dispositivos eletrônicos se tornou insustentável. 

“O monitoramento dos fluxos de resíduos eletrônicos contribuirá para a consecução dos ODS e para o acompanhamento da implementação da Agenda Conectar 2030 da UIT. O Monitor serve como um recurso valioso para que os governos melhorem suas taxas globais de reciclagem de resíduos eletrônicos, desenvolvendo as políticas e a as legislações necessárias/requeridas. A UIT continuará apoiando os esforços feitos neste relatório em direção à resposta global necessária na identificação de soluções para os resíduos eletrônicos”. 

Antonis Mavropoulos, presidente da Associação Internacional de Resíduos Sólidos (ISWA), lembrou que a quantidade de resíduos eletrônicos está aumentando três vezes mais rápido que a população mundial e 13% mais rápido que o PIB mundial durante os últimos cinco anos. 

Segundo ele, esse aumento acentuado cria pressões ambientais e de saúde substanciais e demonstra a urgência de combinar a quarta revolução industrial com a economia circular. “A quarta revolução industrial promoverá uma nova abordagem da economia circular para nossas economias ou estimulará o esgotamento de recursos e novas ondas de poluição. O progresso alcançado no monitoramento de lixo eletrônico pela Aliança Mundial para o Controle Estatístico dos Resíduos Eletrônicos é um sinal de esperança de que o mundo possa não apenas monitorar de perto o aumento dos resíduos eletrônicos, mas também controlar seus impactos e estabelecer sistemas de gestão adequados”. 

Para Maria Neira, diretora do Departamento de Meio Ambiente, Mudanças Climáticas e Saúde da OMS, a reciclagem informal e inadequada de resíduos eletrônicos é um grande risco emergente que afeta silenciosamente nossa saúde e a das gerações futuras. 

“Uma em cada quatro crianças está morrendo devido a exposições ambientais evitáveis. Uma em cada quatro crianças pode ser salva se agirmos para proteger sua saúde e garantir um ambiente seguro. A OMS tem o prazer de unir forças neste novo Global E-waste Monitor para permitir que evidências, informações sobre impactos na saúde e soluções e políticas conjuntas sejam disponibilizadas para proteger a saúde de nossas futuras gerações”. 


Sobre a Aliança Mundial para o Controle Estatístico de Resíduos Eletrônicos (AMCERE) 

A AMCERE ajuda os países a compilar estatísticas nacionais úteis à elaboração de políticas públicas usando uma estrutura de medição harmonizada reconhecida internacionalmente. Reúne os formuladores de políticas públicas, estatísticos e representantes do setor para aprimorar a qualidade, o entendimento e a interpretação dos dados de resíduos eletrônicos. 

Globalmente, a aliança contribui para o monitoramento de fluxos de resíduos relevantes, medindo o progresso em direção aos ODS 11.6, 12.4 e 12.5. Permite ainda que organizações internacionais, como a UIT, meçam o progresso em direção a seus objetivos. 

Em 2018, a UIT estabeleceu a meta de aumentar a taxa global de reciclagem de resíduos eletrônicos para 30% até 2023 – um aumento de 12,6% em relação à média global de hoje. 

Sobre a União Internacional de Telecomunicações (UIT) 

A União Internacional de Telecomunicações (UIT) é a agência das Nações Unidas especializada em tecnologias da informação e comunicação (TICs), impulsionando a inovação nas TICs junto a 193 Estados-membros e mais de 900 empresas, universidades e organizações internacionais e regionais associadas. 

Fundada há mais de 150 anos, a UIT é o órgão intergovernamental responsável por coordenar o uso global compartilhado do espectro de radiofrequência, promover a cooperação internacional na atribuição de órbitas de satélite, melhorar a infraestrutura de comunicação junto aos países em desenvolvimento e estabelecer as normas mundiais para promover a interconexão contínua de uma vasta gama de sistemas de comunicação. 

Desde redes de banda larga a tecnologias sem fio de ponta, navegação aeronáutica e marítima, radioastronomia, monitoramento oceanográfico e terrestre baseado em satélite, bem como tecnologias convergentes de telefonia móvel fixa, Internet e transmissão, a UIT está comprometida em conectar o mundo. Para mais informações, visite: www.itu.int

Sobre a Universidade das Nações Unidas (UNU) 

A UNU é um órgão autônomo da Assembleia Geral da ONU, dedicado a gerar e transferir conhecimento e fortalecer capacidades relevantes às questões globais de segurança humana, desenvolvimento e bem-estar. 

A Universidade opera por meio de uma rede mundial de centros e programas de pesquisa e treinamento, coordenada pelo UNU Centro em Tóquio. 

O Programa Ciclos Sustentáveis (SCYCLE), sediado em Bonn, na Alemanha, co-organizado pela Vice-Reitoria da UNU na Europa e pelo Instituto das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa (UNITAR), fornece pesquisas e iniciativas de classe mundial sobre resíduos eletrônicos. O SCYCLE visa permitir que as sociedades reduzam a carga ambiental causada pela produção, consumo e descarte de bens ubíquos. 

Sobre o Instituto das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa (UNITAR) 

Como um braço do Sistema das Nações Unidas dedicado ao treinamento, o Instituto das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa (UNITAR) fornece soluções inovadoras de aprendizado para indivíduos, organizações e instituições de modo a aprimorar a tomada de decisões a nível global e apoiar ações em nível nacional para moldar um futuro melhor. 

O UNITAR foi criado em 1963 para treinar e equipar jovens diplomatas de Estados-membros da ONU recém-independentes com o conhecimento e as habilidades necessários para navegar pelo ambiente diplomático. 

Ao longo dos anos, a UNITAR adquiriu conhecimento e experiência únicos no design e fornecimento de uma variedade de atividades de treinamento. Tornou-se um instituto líder no fornecimento de soluções de aprendizado personalizadas e criativas para instituições e indivíduos dos setores público e privado. 

Com uma estratégia totalmente focada em alcançar os ODS, o UNITAR apoia os governos na implementação da Agenda 2030. 

Sobre a Associação Internacional de Resíduos Sólidos (ISWA) 

A Associação Internacional de Resíduos Sólidos (ISWA) é uma associação global, independente e sem fins lucrativos, que trabalha para o interesse público, promovendo o gerenciamento sustentável, abrangente e profissional dos resíduos e a transição para uma economia circular. 

A ISWA está aberta a indivíduos e organizações da comunidade científica, instituições públicas e empresas públicas e privadas de todo o mundo que trabalham no campo ou se interessam pelo gerenciamento de resíduos. A ISWA é a única associação mundial de resíduos que permite que seus membros se conectem com profissionais, empresas e representantes institucionais.

Fonte: ONU.

Um Modelo Simples Para Avaliar a Gestão de Externalidades

Entre a Atenção (conhecer), o Interesse (se envolver), a Decisão (desejar e decidir pela aquisição) e a Ação (agir efetivamente), como estão as empresas em relação à governança de externalidades? 

Gosto da simplicidade do modelo AIDA, elaborado por Elmo Lewis no fim do século XIX. Lewis é um dos pioneiros do marketing e desenvolveu modelos voltados para explicar comportamentos associados à aquisição de produtos ou serviços. Trata-se de uma sequência bastante intuitiva: Atenção (conhecer), Interesse (se envolver), Decisão (desejar e decidir pela aquisição) e Ação (agir efetivamente). Vou aplicar o modelo para a governança de externalidades. 

Administradores estão atentos às externalidades, ou “aos efeitos indiretos da produção de bens e serviços que são transferidos à sociedade e a indivíduos não diretamente envolvidos nos processos produtivos, financeiros e mercadológicos gerados pelas organizações”. Esta definição é a utilizada pelo CFA Institute, entidade que reúne profissionais da área de investimentos, uma das mais renomadas do universo financeiro. Administradores, conselheiros, acionistas e empreendedores sabem que a sociedade está crescentemente atenta a esses efeitos. O “A” (atenção) do AIDA está contemplado. 

No entanto, a sequência precisa ainda se consolidar no campo da governança corporativa. Não se pode dizer que o Interesse por conhecer amplamente as externalidades geradas pelas organizações esteja efetivamente traduzido pela Decisão de incorporar a gestão desses efeitos de forma rotineira. Ações neste sentido precisam ser implementadas com urgência. O conceito de externalidades está diretamente associado à “licença social para operar”, outro tema a navegar pela AIDA. Administradores sabem do que se trata, manifestam algum Interesse, mas ainda não Decidem e Atuam com olhar permanente nos stakeholders, buscando alinhamento com as demandas da sociedade.

Ricardo Abramovay, professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da USP, traduz externalidades como “tudo o que produz impacto negativo ou positivo e que não entra no sistema de custos e preços”. Carlos Eduardo Frickmann Young, professor titular da UFRJ, vai direto ao ponto: “Em vez de todos pagarem o pato, que pague o pato quem é responsável por ele”. O uso da palavra responsabilidade está associado à moralidade e não à legalidade. 

A licença social vai além das regras formais, leis e regulamentações, mas lida e antecipa as demandas da sociedade que, gradativamente, são transformadas em leis e normas transformam-se em leis e normas. Quando isso ocorre, viram obrigações e passivos, com impactos nas operações e em modelos de negócios. No entanto, antes de serem incorporadas ao mundo das regras formais, causam efeitos substantivos. Abalam reputações e, com isso, acesso a mercados e a capital financeiro, influenciam a atração de recursos humanos, afetam o clima organizacional e o engajamento da rede de stakeholders. Destroem valor. 

Vale lembrar que externalidades se expressam em um gradiente de impacto, podendo ser negativas ou positivas. Do lado das negativas, devem ser evitadas, mesmo se representarem riscos de baixa probabilidade. No entanto, sabemos que nem sempre é possível eliminar totalmente efeitos indesejáveis. Busca-se então a redução, a mitigação e, no pior dos casos, a compensação. A gestão de externalidades inclui a produção de efeitos positivos para a sociedade, como o desenho de modelos de negócios voltados para a produção e o compartilhamento permanente de impactos de valor positivo. 

Um dos grandes desafios da gestão de externalidades é a extrapolação da responsabilidade para a cadeia de suprimentos e para os efeitos dos produtos e serviços em consumidores, diretos e indiretos. O conceito de responsabilidade subsidiária se amplia gradativamente, tanto no campo moral quanto legal. A rastreabilidade em toda a cadeia torna-se imperiosa e determinante na licença social. A transparência é inevitável na construção de relações de confiança com sociedade. 

A relação com stakeholders é necessária e complexa. Inclui indivíduos e organizações aparentemente apáticas, mas também outras altamente engajadas e profissionais. Lida o tempo todo com assimetria de informação, interagindo com pessoas que não contam com a informação necessária, com vulneráveis e informalidade. Convive com alta imprevisibilidade e ambiguidade. Enfrenta os mais diversos gradientes ideológicos, os bem-intencionados e os oportunistas. 

A gestão de externalidades depende de uma rede de relacionamentos estruturada, com interações que combinem aporte de conhecimento, fortalecimento institucional e reputacional. Além de proporcionar leitura de contexto e ambiente, pode decodificar demandas não evidentes, tendências (incluindo de consumo), com potencial contribuição para desenho de produtos, estratégicas e modelos de negócios. Fortalece a diversidade e, com isso, o repertório organizacional e suas competências dinâmicas – a capacidade da organização de se moldar rapidamente, aprender continuamente e ser menos dependente de trajetórias passadas (ainda que bem sucedidas). 

Além disso, se esses relacionamentos forem explícitos, a gestão de externalidades fornece ao mercado sinais de conexão com a sociedade e compartilhamento de imagem e reputação. Obviamente, a interação com stakeholders não pode ser unidirecional, mas envolve um fluxo de comunicação complexo e pouco controlável. 

Há forte tendência do uso de esquemas de certificação multistakeholder. Com frequência estes esquemas representam uma forma estruturada de expor os modelos de operação e produtos ao crivo de sistemas de auditorias externas fundamentadas em princípios e critérios socioambientais. Assim como a montagem das redes de relacionamento, devem ser objeto de profunda verificação da credibilidade e capacidade de governança. Este cuidado é essencial diante da proliferação de esquemas que, muitas vezes são apenas comerciais, sem a devida legitimidade perante a sociedade. 

A evolução da AIDA sustentável nas organizações depende de como acionistas e conselheiros agem. Como definem o modelo de negócio vis-à-vis às externalidades. Como lidam com ética e integridade no âmbito da governança. A transparência que a mídia digital impõe às corporações estabelece um vínculo entre ética e identidade, percebidas pela sociedade a partir da imagem construída na leitura dos princípios e valores expostos nos produtos, na comunicação e nas externalidades geradas. Contradições na comunicação, nas expectativas internas e externas e nas externalidades, custam cada vez mais caro. 

A relação entre exposição pública, reputação, construção de conexões de confiança e valor é crescente. O aumento da importância do compliance nas organizações é um sinal positivo de que ética e integridade passaram a ser parte da rotina. O desenvolvimento e a sofisticação das estratégias e áreas de compliance, assim como a gestão de riscos, são bons aliados na gestão de externalidades. 

Conselhos devem cuidar da concentração excessiva no campo das finanças. Não se trata de desmerecer a atenção ao desempenho econômico-financeiro, mas sim integrá-lo à gestão das externalidades. Um caminho evidente é a avaliação permanente de como estas afetam o valor das companhias. Desafio longe de estar equacionado. Externalidades negativas são normalmente subdimensionadas ou tratadas como eventos improváveis. Às vezes resultam em provisionamentos. Externalidades positivas tratadas como intangíveis. Este campo avança, mas não deve ser condicionante para que a governança corporativa incorpore em seu repertório análise de externalidades e seus impactos no desenho de estratégias. 

A abordagem ESG (Ambiental, Social e Governança, na sigla em inglês) tem indicado a criação de Comitês de Sustentabilidade como órgãos assessores de conselhos. Se bem estruturados, com a participação de membros externos e independentes, são capazes de contribuir para o monitoramento de como externalidades afetam e são geridas pela organização. Podem indicar tendências e subsidiar boas discussões estratégicas e de modelos de negócios. Servem de sounding boards (caixas de ressonância) para executivos, incluindo a mais alta administração. No entanto, não são a única alternativa. 

Algumas organizações optam pela criação de painéis de stakeholders, outras pela inclusão de representantes da sociedade diretamente nos conselhos. Em qualquer caso, um ponto crítico é a legitimidade e a representatividade das pessoas que integram esses fóruns de governança perante a sociedade. Deve evitar-se, a todo custo, a indicação de representantes com baixa credibilidade perante seus pares, justamente por serem mais afeitos às relações com o mundo corporativo. 

A licença social é algo que deve ser construído com honestidade, transparência, relacionamento permanente com stakeholders, se possível, com obtenção de certificações de terceira parte e, acima de tudo, gestão de externalidades. Este é o “A” da Ação no modelo AIDA voltado para um ambiente de negócios cada vez mais dependente das interferências da sociedade na vida das empresas. 

Por: Roberto S. Waack (Página 22).

A Tragédia do Crescimento, Uma Metafísica do Neoliberalismo

Gilbert Rist foi um dos primeiros críticos do conceito de desenvolvimento. Em seu último livro, ele lembra que a economia política é o resultado de um projeto político e de uma construção social. Rist insiste na centralidade da propriedade privada na dinâmica do crescimento e na necessidade de invenções institucionais para sair desse paradigma.

O crescimento é um Janus [deus romano] com duas cabeças. Considerada necessária, mesmo vital para a continuidade das sociedades industriais, sua busca é, no entanto, impossível. É um dilema. Que o idioma inglês resume muito bem sob o termo predicament. Nós entramos na Era das Rupturas. O mundo de amanhã será muito diferente daquele que conhecemos. São os próprios padrões de explicação social que são obsoletos. Hoje, não se trata tanto de mudar nossa interpretação do mundo, mas de perceber que são as revoltas do mundo que nos forçam a mudar. 

Agora somos atingidos por dissonância cognitiva. Para garantir nosso conforto psicológico, desistimos de considerar a verdade que nos envergonha. Para sair disso, precisamos primeiro decifrar o paradigma econômico dominante. Na primeira parte, Gilbert Rist mostra que a crise social e ambiental é a da ciência econômica dominante. 

O autor de Desenvolvimento: História de Uma Crença Ocidental (4ª edição, 2013) e Da Economia Comum Entre Sonhos e Mentiras (2010) na Presses de Sciences Po, volta às fontes do pensamento econômico para explicar a origem da crise social e ambiental atual. “O duplo não pensado do pensamento econômico dominante” é explicado, por um lado, pela ignorância involuntária dos primeiros economistas em relação às práticas econômicas de outros continentes, criando assim um “viés eurocêntrico”. Além disso, em um momento em que não existiam problemas ecológicos, os primeiros economistas demonstraram “um descuido relativo aos presentes da natureza e às consequências a longo prazo de seu uso”, que é indubitavelmente devido a ” a impressão geralmente compartilhada de sua abundância e disponibilidade infinita ”. A natureza é assim “tornada burra e disponível gratuitamente”. 

David Ricardo não estava mais consciente do que Adam Smith da importância dos recursos naturais. Karl Marx foi mais esclarecido sobre a importância dos recursos naturais, apesar da imensa esperança que ele depositou no desenvolvimento das forças produtivas. A produção capitalista esgota a terra e o trabalhador. Ninguém é dono da terra. Tivemos que esperar que William Stanley Jevons apontasse a possível secagem dos recursos naturais. 

ANACRONISMO DA DOXA 

Essa imprudência dos primeiros economistas, que deixam de lado os incômodos industriais, é reforçada pela retórica da mecânica newtoniana que aumenta a validade do paradigma, dando-lhe uma aparência científica: “massa monetária”, “balanço” do comércio, “equilíbrio” orçamentário, “atomicidade” dos participantes do mercado, “circuito” do comércio, “elasticidade” da oferta ou demanda. O mercado é como um cosmos perfeito. A doxa econômica repousa sobre uma mudança, um anacronismo: tudo acontece como se a ciência econômica contemporânea tivesse possibilitado explicar o mundo antes da revolução industrial. 

Os primeiros economistas ignoram a segunda lei da termodinâmica – a lei da entropia – segundo a qual a energia se degrada de forma irreversível e caótica. Eles raciocinam na ignorância das realidades biofísicas dos ciclos naturais e estoques não renováveis ​​formados por combustíveis fósseis. Os proponentes dessa economia dominante afastam o pioneiro do decrescimento Nicholas Georgescu-Roegen, o pensador da entropia na economia que apontou que o objeto da economia não diz respeito às transações monetárias, mas ao uso e a dissipação da energia-matéria. 

O paradigma econômico dominante é, portanto, obsoleto e animado por uma “ignorância aprendida”, tão prejudicial quanto suspeita. É também um paradigma contingente. Rist cita o trabalho de Thomas S. Kuhn: as ciências “normais” também experimentam transições assim que um paradigma se encontra em um estado de crise, transições sujeitas à relutância. Nesse caso, de acordo com Gilbert Rist, o paradigma econômico dominante deriva do dogma religioso, cuja doxa está contida no pequeno manual de Paul A. Samuleson, que ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 1970 (enquanto isso foi recusado a Nicholas Georgescu-Roegen). 

É impossível estudar a economia sem passar por Samuelson, segundo o qual “a economia procura como os homens e a sociedade decidem, se devem ou não usar dinheiro, alocar recursos produtivos escassos à produção, através do tempo de vários bens e serviços e distribuí-los para fins de consumo presentes ou futuros entre os diferentes indivíduos e comunidades que constituem a sociedade”.

A ECONOMIA, UMA CONSTRUÇÃO SOCIAL 

No entanto, não podemos culpar os economistas de hoje por ignorarem as consequências ambientais dos processos produtivos, exceto que eles visam conciliar a atividade produtiva e seus efeitos sobre o meio ambiente, permanecendo sempre o velho paradigma. Um número de displays é implantado para acender fogueiras e ocultar os desastres causados ​​pelo consumismo produtivista. O princípio do poluidor-pagador estabelece o direito de poluir, isto é, garante o crescimento econômico e, ao mesmo tempo, compensa suas consequências desagradáveis. A ideia de dar um preço à natureza propõe dotar-lhe o status de capital natural baseado em um sistema das chamadas compensações ecológicas. Quanto aos serviços ecossistêmicos, eles podem ser listados e securitizados no mercado de ações. 

O problema do paradigma econômico dominante reside na enormidade de seus efeitos, quando não se baseia em nenhuma validade científica. Os efeitos do dogma neoliberal resultaram em uma distribuição desigual do excedente, além da devastação ecológica que ele causou. 

Consequentemente, é por suas consequências políticas e sociais que a economia deve ser julgada. Com grande clareza, Gilbert Rist emprega uma genealogia de conceitos que alimenta a construção social que é a economia. Ele lembra que os pais fundadores da economia não previam crescimento ilimitado, até pronunciaram a busca por um estado estacionário que permitisse alcançar o suficiente em termos materiais para se libertar e cultivar uma arte de viver, segundo John Stuart Mill

Em seu trabalho anterior, Rist já demonstrou como o mito da escassez alimenta o crescimento, o que deve impedi-lo. Paradoxalmente, a abundância de mercadorias precisava suprir a escassez. No entanto, prevaleceram as desigualdades, sem que a paz social fosse estabelecida, exceto pelo advento de um estado de bem-estar social que hoje está ameaçado. 

AXIOMAS DO INTERESSE 

Surpreendentemente, os efeitos negativos do crescimento passaram despercebidos até hoje, porque os fatores de produção de riqueza não incluem energia, que externalidades não quantificáveis ​​em termos monetários não são levadas em consideração, e que a economia não é vista como um subconjunto da ecologia, de acordo com Rist. Acima de tudo, entender a aderência desse sistema e esse construto social requer esclarecer quem se beneficia. 

O primeiro fator raiz do crescimento é a propriedade privada. Como o título de proprietário se baseia na dinâmica do crédito, será necessário aumentar a renda dos proprietários para enfrentar os vencimentos dos bancos. A generalização e sacralização burguesa da propriedade privada está na origem da obrigação de crescer em uma dinâmica de empréstimos que serve ao credor. Assim como o crescimento, a economia financeira (ou especulação) pode aumentar os lucros. Proporciona renda sem trabalhar, aumenta a desigualdade e concentra a riqueza. 

O resultado é uma onipresença do “axioma do interesse”, inerente às culturas ocidentais, enquanto, como aponta o sociólogo Jacques Godbout, populações não contaminadas pelo capitalismo ignoram o axioma do egoísmo e preferem confiança e cooperação mútuas. Uma fortiori, o indivíduo representado pela teoria econômica dominante nunca é mais do que uma abstração muito distante das realidades antropológicas. Quanto ao mercado, é inseparável do interesse individual e constitui a matriz da maioria das trocas. Agora, estamos lidando com uma ficção econômica que optou por ignorar as práticas sociais para justificar a crença teórica de que o mercado constitui a solução ideal para a troca. O Ato Único Europeu de 1986 e a revogação em 1999 do Ato Glass-Steagall de 1933 quebraram a partição entre bancos de depósito e investimento. Dinheiro exige dinheiro. A doutrina econômica está acima do solo e gera infortúnio social e a destruição da natureza. Trata-se de retirar a economia de seu paradigma simplificador. Devemos tomar nota da finitude. 

Como demonstrou Georgescu-Roegen, o sistema econômico é um sistema aberto que deve constantemente receber e devolver à natureza a energia e a matéria, ou seja, transformar irreparavelmente a matéria e a energia em desperdício. 

O fetichismo do crescimento repousa, antes de tudo, em uma longa habituação coletiva aos efeitos considerados positivos que ele produziu nos países ricos por muito tempo. Mesmo que alguém comece a sentir alguns de seus efeitos indesejáveis, começando pela poluição urbana, prevalece a nostalgia: como se acredita que o crescimento é a solução para todos os problemas, deve-se encontrar, trazer de volta, despertá-lo. Então você tem que pensar em pós-crescimento. Primeiro mude as condições estruturais que tornam necessário o crescimento, depois imagine as características de outro tipo de sociedade que não estaria mais acima do solo. Se o crescimento é baseado no interesse individual, na propriedade privada e nos mercados, como esse conjunto de restrições pode ser superado? 

DESFAZER O CRESCIMENTO 

Primeira via: como a generalização da propriedade privada constitui um dos motores mais poderosos do crescimento, é aconselhável imaginar outros regimes institucionais capazes de reverter a tendência. É por isso que restaurar os bens comuns é agora uma demanda amplamente compartilhada em círculos que afirmam estar diminuindo. Rist prefere usar o termo “instituição comunitária” para não dissociar os bens comuns dos grupos sociais que o utilizam. 

Assim, o comum implica uma “relação social baseada na reciprocidade, mas também uma relação de conivência com a Natureza, ligada a um sentimento de co-pertença”. Rist considera que o Estado não é um bom administrador de mercadorias, que a interação de interesses especiais a impede de desempenhar seu papel de árbitro teoricamente imparcial, constituindo assim uma forma de expropriação que priva a comunidade do direito que exercia. 

Diferentemente dos bens públicos administrados pelo Estado, os bens comuns não devem ser dissociados dos grupos sociais que os utilizam. “O comum é, portanto, uma construção política, uma forma de autogoverno que combina co-atividade e co-decisão e que garante a reprodução do recurso”. Quanto aos bens comuns planetários (bens públicos globais, patrimônio comum da humanidade), Gilbert Rist critica a “solução razoável” proposta por Joseph Stiglitz com o objetivo de estabelecer uma gestão pública global, um conjunto de regulamentos planetários sobre os usos e atos que causam externalidades planetárias. Essa solução equivale a transformar os bens comuns planetários em bens públicos, entregues a critério dos Estados, e trazê-los para a lógica do mercado, longe dos bens comuns administrados por seus beneficiários. Rist propõe abrir um novo espaço na forma de uma categoria jurídica que escaparia das armadilhas da propriedade privada, bem como da onipotência do Estado, que está longe de sempre promover o interesse geral. 

A segunda proposta principal da tragédia do crescimento é acabar com crédito e dívida. Hoje, a dívida pública de todos os países da União Europeia representa quase 90% do seu PIB, contra 30% em 1970. Durante várias décadas, as dívidas públicas explodiram na maioria dos países, em particular porque na União Europeia os bancos centrais nacionais foram proibidos de criar dinheiro reservando esse privilégio ao Banco Central Europeu. A dívida explode para impulsionar o crescimento. A multiplicação do dinheiro do crédito criado pelos bancos envolve uma obrigação de crescimento econômico. 

Assim, o sistema se alimenta de ciclos de feedback positivo (crescimento, circulação de dinheiro, endividamento) que levam à exploração desenfreada da Natureza, considerada como um “ativo negociável nos mercados”. Na maioria das vezes, ninguém imagina seriamente que a dívida será paga: o capital público líquido mal seria suficiente na França para pagar dívidas públicas. O pagamento dessa dívida é uma ilusão: na metafísica neoliberal, dívida e crença são termos relacionados. A dívida é principalmente um instrumento de dominação pelo credor sobre o mutuário, e o endividamento público envenena a vida social. 

Uma medida radical apoiada pelos proponentes do decrescimento consistiria em pura e simplesmente suprimir a possibilidade de criar dinheiro pelo mecanismo de crédito bancário, o que reduziria os juros da dívida pública. Sair do domínio dos bancos implica conceder o monopólio da criação de dinheiro ao Banco Central e proibir a “privatização” do dinheiro pelos bancos comerciais. 

Os Estados não seriam mais reféns dos bancos e não seriam mais forçados a recapitalizá-los em caso de inadimplência. Isso reduziria bastante a dívida pública. A dívida privada também seria reduzida, uma vez que os empréstimos especulativos seriam proibidos e, acima de tudo, o dinheiro seria novamente parte dos bens comuns. 

Terceira faixa: repensar o intercâmbio fora do ciclo utilitário. A sociedade não pode ser reduzida ao mercado, e uma sociedade de mercado é um mercado sem sociedade. O mercado constitui o grau zero de vínculo social. São gestos altruístas que tornam possível “viver juntos”, reciprocidade ou “o ciclo de doações”. À medida que a austeridade aumenta, os serviços de ajuda mútua se tornam mais importantes. Por um lado, o mercado representa uma transação bilateral quase instantânea e impessoal; por outro, o presente desencadeia uma série de relacionamentos feitos de reconhecimento, obrigações e reciprocidade, que se estendem ao longo do tempo, criando uma sociedade unida , colaboração e ajuda mútua. As velhas formas de troca identificadas por Karl Polanyi ainda existem hoje, apesar da oni-mercadoria. 

Na época do Antropoceno, um período de crescimento excessivo e uma dívida incrível com a natureza, resta ouvir a voz dos “coletivos burros” (animais domésticos ou não, a biosfera, a camada de ozônio, rios, geleiras, oceanos, plantas, micróbios etc.) e conceder reconhecimento à natureza e status legal. Para Rist, essa grande transformação – recuperação dos bens comuns, domínio da moeda, reavaliação da reciprocidade e redistribuição, inclusão da natureza nas deliberações – não pode ser alcançada sem a assistência do Estado. Como apenas o Estado pode reformar o sistema tributário, tributar ou proibir transações financeiras especulativas e modificar a distribuição de subsídios agrícolas. 

Por: Agnès Sinai; professora na Sciences Politiques de Paris, sobre crise ecológica, colapso e decrescimento. Fonte: Terrestres.org / Tradução: EcoDebate.

A Energia Que Promete Impulsionar o Futuro do Brasil Vem do Alto Mar

Infraestrutura eólica 'offshore' na Dinamarca.

Segundo estudo recente, o país tem um dos maiores potenciais para geração de energia eólica offshore. 

Com cerca de 8.000 quilômetros de costa, o Brasil tem um potencial considerado imenso para uma das tecnologias mais modernas de energia renovável: a eólica offshore, que usa turbinas fixas ou flutuantes instaladas no mar, enquanto na onshore os equipamentos ficam em terra.

O país está entre os destaques de um recente estudo sobre o tema, produzido pelo Programa de Assistência Gerencial ao Setor de Energia (ESMAP, na sigla em inglês) e pela Corporação Financeira Internacional (IFC), braço do Grupo Banco Mundial para o desenvolvimento do setor privado. 

Além do Brasil, o estudo analisa Índia, Marrocos, Filipinas, África do Sul, Sri Lanka, Turquia e Vietnã. Somados, esses países têm potencial eólico offshore (medido em 200 km de costa) de 3,1 terawatts, ou cerca de três vezes a capacidade instalada de geração de eletricidade de todos os países da União Europeia. Desse total, 1,228 terawatts vêm da maior economia sul-americana. 

“Nos países que escolhemos analisar, sentimos que havia mais interesse e o melhor potencial de recursos. O Brasil é muito ativo em energia eólica e, apesar de ainda ter muito potencial onshore para explorar, o Governo expressou forte interesse em desenvolver o offshore”, contou um dos autores, o especialista sênior em energia Oliver Knight, do ESMAP. 

No último ano, o Grupo Banco Mundial e o Governo brasileiro participaram de eventos e estudos conjuntos, que também deram origem ao Mapeamento da Energia Eólica Offshore no Brasil, e em 2020 analisarão formas de dar vazão ao potencial do país. 

Custos em queda

Antes de pensar no futuro da energia eólica offshore, inclusive no Brasil, é importante entender onde, como e por que a tecnologia se tornou viável. 

A Europa está na vanguarda dessa indústria desde que o primeiro parque eólico offshore foi instalado em 1991, em Vindeby, no leste da Dinamarca. Ela contava com 11 turbinas, cada uma gerando 450 quilowatts (kW) para uma capacidade total de quase 5 megawatts (MW). Fechada em 2017, abriu o caminho para parques eólicos offshore em toda a Europa. 

Ao longo dos anos 2000, o sistema continuou a se expandir no sul do Mar do Norte, Mar da Irlanda e Mar Báltico, regiões de ventos fortes. A maior indústria eólica offshore do mundo —e com os custos mais baixos— fica hoje no Reino Unido, com uma capacidade acumulada de 8,5 GW. 

Globalmente, o setor cresceu quase cinco vezes desde 2011, com 23 GW instalados no fim de 2018. Mas, apesar da expansão, as turbinas marítimas permaneciam instaladas em grande parte na Europa e na China. 

Isso porque a construção offshore é mais complexa, demorada e cara do que a onshore. O desenvolvimento de uma usina em terra firme normalmente leva de dois a três anos, do início das obras ao comissionamento, com custos que variam de US$ 1 milhão a US$ 2 milhões por projeto. Já um parque eólico marinho normalmente leva de cinco a 10 anos para se desenvolver, exigindo de US$ 10 a US$ 50 milhões. 

Os custos de geração refletem essa complexidade. Por muitos anos, eles ficaram na faixa de US$ 150 a US$ 200 por megawatt/hora (MWh). Começaram a cair só entre 2016 e 2017. E continuarão em trajetória descendente graças a “melhorias tecnológicas, economia de escala, maturação das cadeias de suprimentos, melhores estratégias de compras e os esforços de grandes e sofisticados desenvolvedores de projetos, incluindo vários dos setores de serviços públicos e de petróleo e gás”, segundo o estudo do ESMAP. 

À medida que os custos se tornam mais baixos, a energia eólica offshore passa a gerar interesse nos mercados emergentes, como o Brasil. Impulsionada por esses países, a capacidade instalada offshore aumentará entre 7 e 11 gigawatts (GW) por ano até 2024, alcançando entre 15 e 21 GW/ano de 2025 a 2030, segundo projeções citadas pelo relatório. 

A energia eólica offshore hoje recebe cerca de US$ 26 bilhões em investimentos anuais ou 8% dos novos investimentos globais em energia limpa. Assim como a capacidade instalada, eles devem aumentar drasticamente, com investimentos estimados em US$ 700 bilhões até 2030. 

Metas climáticas 

De acordo com os dados mais recentes da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a energia eólica corresponde a 7,6% da oferta interna brasileira, com 48.475 GWh produzidos em 2018, equivalente a um aumento de 14,4% em relação ao ano anterior. O desenvolvimento da tecnologia offshore traz inúmeras possibilidades, como a de desenvolver projetos mais próximos da demanda nas grandes cidades costeiras, o que adiaria investimentos em transmissão e evitaria os impactos sociais de projetos onshore. 

No entanto, há também inúmeras questões para reflexão, como instrumentos de gestão ambiental, adequação da infraestrutura portuária e possíveis conflitos socioeconômicos entre a atividade eólica offshore e outras. 

Levar tudo isso em conta será importante para definir as tecnologias a serem usadas pelo Brasil no cumprimento de uma das metas determinadas no Acordo de Paris contra as mudanças climáticas: até 2030, fazer com que 45% de sua matriz energética seja composta por fontes renováveis, elevando para 23% a participação de energia eólica, solar e biomassa.

Por: Mariana Kaipper Ceratti. Fonte: El País.

Queda nos Custos da Energia Limpa Pode Impulsionar Ação Climática na Recuperação Pós Covid-19

Enquanto a indústria de combustíveis fósseis está sendo atingida pelos impactos do COVID-19, as energias renováveis ​​atingiram seu pico de lucratividade, de acordo com um novo relatório divulgado no dia 10 de junho de 2020. A redução de custos é uma oportunidade para que pacotes de recuperação econômica pós-pandemia priorizem as energias limpas, além de aproximar o mundo do alcance dos objetivos do Acordo de Paris. 

O relatório Tendências Globais no Investimento em Energia Renovável 2020, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Centro de Colaboração da Escola de Frankfurt-PNUMA e BloombergNEF (BNEF), analisa as tendências de investimento de 2019 e os compromissos assumidos pelos países e empresas com a energia limpa na próxima década. 

O estudo identificou compromissos que resultam em 826 GW de energia renovável não hidrelétrica, a um custo provável de cerca de US$ 1 trilhão, até 2030. Para limitar o aumento da temperatura global em até 2 graus Celsius – o principal objetivo do Acordo de Paris, seria necessário atingir 3.000 GW até 2030. A quantidade exata, entretanto, depende da combinação de tecnologias escolhidas. 

Os investimentos previstos até 2030 também ficaram muito abaixo dos US$ 2,7 trilhões comprometidos com energias renováveis ​​na última década. 

O relatório também mostra que o custo da instalação de energia renovável está menor, o que significa que investimentos futuros resultarão em resultados melhores. Em 2019, a capacidade de energias renováveis, excluindo grandes barragens hidrelétricas de mais de 50 MW, aumentou 184 GW, 12% a mais que em 2018. Apesar disso, o valor em dólar do investimento em 2019 foi apenas 1% maior que no ano anterior, de US$ 282,2 bilhões. 

Graças a melhorias tecnológicas, economias de larga escala e concorrência acirrada em licitações, o custo total ou nivelado da eletricidade continua caindo para energia de fontes eólica e solar. No segundo semestre de 2019, as novas usinas solares fotovoltaicas reduziram custos em 83%, em comparação à década anterior. 

"Cada vez mais vozes estão pedindo aos governos que os pacotes de recuperação pós-pandemia sejam usados para criar economias sustentáveis. Essa pesquisa mostra que a energia renovável é um dos investimentos mais inteligentes e econômicos que podemos fazer”, afirma a diretora executiva do PNUMA, Inger Andersen. 

“Se os governos aproveitarem a queda no valor das energias renováveis ​​para colocá-las no centro da recuperação econômicapós-COVID-19, daremos um grande passo rumo a um mundo natural saudável, que é uma das nossas melhores chances contra futuras pandemias”, explica Andersen. 

Na última década, as energias renováveis têm ocupado uma parte crescente do mercado de geração de energia elétrica baseado em combustíveis fósseis. Quase 78% dos novos GWs gerados em 2019 correspondem a energia eólica, solar, de biomassa, resíduos, geotérmica e pequenas hidrelétricas. Esse incremento, que exclui as grandes hidrelétricas, foi três vezes maior que o das novas usinas de combustíveis fósseis. 

"As energias renováveis, como a eólica e a solar, já representam quase 80% da capacidade recém-instalada para a geração de eletricidade. O mercado e os investidores já estão convencidos de sua confiabilidade e competitividade", diz a Ministra do Meio Ambiente, Proteção da Natureza e Segurança Nuclear da Alemanha, Svenja Schulze. 

"A promoção de energias renováveis ​​pode ser um mecanismo poderoso para a recuperação da economia após a pandemia, criando empregos novos e seguros", acrescenta. 

“Ao mesmo tempo, elas ​​melhoram a qualidade do ar, o que também protege a saúde pública. Ao promovê-las ​​no âmbito dos pacotes de estímulo econômico pós-coronavírus, temos a oportunidade de investir na prosperidade, na saúde e na proteção do clima". 

O relatório também destaca outros recordes em 2019: 

  • As maiores adições de energia solar em um ano, de 118 GW.
  • O maior investimento em energia eólica offshore em um ano, com US$ 29,9 bilhões – um aumento de 19% em relação ao ano anterior.
  • O maior financiamento para um projeto de energia solar, com US$ 4,3 bilhões, para o Al Maktoum IV nos Emirados Árabes Unidos.
  • O maior volume de contratos corporativos de compra de energia renovável, de 19,5 GW em todo o mundo.
  • A maior capacidade em licitações de energia renovável, de 78,5 GW em todo o mundo.
  • O maior investimento em energias renováveis em economias em desenvolvimento, sem considerar a China e a Índia, totalizando US$ 59,5 bilhões.
  • Investimentos cada vez maiores: um recorde de 21 países e territórios investindo mais de US$ 2 bilhões em energias renováveis.

“Vemos que a transição energética está em pleno andamento, com a maior capacidade de energias renováveis ​​já financiada. Enquanto isso, o setor de combustíveis fósseis foi duramente atingido pela crise do COVID-19, com muitos países enfrentando a queda nos preços do petróleo e na demanda por eletricidade movida a carvão e gás”, afirma o presidente da Escola de Finanças e Administração de Frankfurt, Nils Stieglitz. 

“A crise climática e a crise do COVID-19, apesar de suas naturezas distintas, são rupturas que chamam a atenção tanto de formuladores de políticas públicas quando de gestores. Ambas demonstram a necessidade de maior ambição climática e de mudança das matrizes energéticas rumo às renováveis”. 

Em 2019, a participação de fontes renováveis na geração global de energia, sem considerar as grandes hidrelétricas, subiu para 13,4%, ante 12,4% em 2018 e 5,9% em 2009. Isso significa que as fontes de energias renováveis ​​impediram a emissão de aproximadamente 2,1 gigatoneladas de dióxido de carbono em 2019. Isso representa uma economia substancial, dadas as emissões globais de aproximadamente 13,5 gigatoneladas em 2019. 

"A energia limpa se encontra em uma encruzilhada em 2020", explica o diretor executivo da BloombergNEF, Jon Moore. 

“Tivemos um enorme progresso na última década, mas as metas oficiais para 2030 estão muito aquém do necessário para lidar com as mudanças climáticas. Quando a atual crise diminuir, os governos precisarão olhar não apenas para a energia renovável, mas também para a descarbonização dos meios de transportes, da construção civil e das indústrias”, conclui.