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Redução da Vida Útil das Árvores em Florestas Poderá Neutralizar Ganhos com Sequestro de CO2


Estudo da USP divulgado na Nature Communications mostra que florestas em todo o planeta, incluindo a Amazônica, estão registrando crescimento acelerado das árvores, mas com redução de longevidade (tronco de árvore morta na Amazônia peruana; foto: Roel Brienen/University of Leeds).

A aceleração do crescimento das árvores registrada nos últimos anos vem sendo acompanhada de uma redução da vida útil dessas plantas. No futuro, isso pode parcialmente neutralizar ganhos obtidos com o sequestro de dióxido de carbono (CO2). Essa relação entre crescimento e expectativa de vida das árvores vale para florestas do mundo todo, incluindo as tropicais, como a Amazônica, até as temperadas e árticas. 

Com isso, resultados esperados para modelos e projeções de captação de CO2 estruturados com base no sistema atual podem estar superestimando a capacidade de absorção dos gases de efeito estufa pelas florestas no futuro. Ou seja, plantar árvores é importante para ajudar a reduzir a concentração desses gases na atmosfera, mas não o suficiente – ainda é essencial a redução da emissão do carbono. 

Esses são os principais pontos de discussão da pesquisa Forest carbon sink neutralized by pervasive growth-lifespan trade-offs, publicada na revista Nature Communications, por um grupo de pesquisadores internacionais. Entre eles estão o professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) Gregório Ceccantini e o pesquisador Giuliano Locosselli. Ambos têm o apoio da FAPESP. 

“Há uma relação inversa entre a taxa de crescimento das árvores e a longevidade. Mostramos de maneira consistente que isso está presente independentemente da espécie e do local onde se encontram. Se as árvores crescem mais rápido, também assimilam o carbono mais rapidamente. O problema é que vão viver menos, e o carbono ficará menos tempo estocado”, explica Locosselli à Agência FAPESP. 

Na fase de crescimento, as árvores precisam de uma grande quantidade de CO2 para se desenvolver. Por isso, esse processo de aceleração tem levado a uma grande absorção de carbono. Tanto que estudos realizados recentemente mostram que cerca de um terço das emissões de gases estufa resultantes da ação do homem nos últimos 50 anos foi absorvido por ecossistemas terrestres, graças a uma combinação de novas árvores e a expansão de florestas secundárias. 

A pesquisa publicada na Nature Communications, no entanto, coloca em discussão o grau em que as florestas continuarão a absorver o excesso de CO2 no futuro. E problematiza, dizendo que essa captação “depende não apenas da resposta do crescimento das árvores às mudanças no clima e na composição atmosférica, mas também às alterações nas taxas de mortalidade que, em última instância, liberam carbono de volta para a atmosfera”. 

“Este feedback negativo sobre o armazenamento de carbono via aumento da mortalidade irá compensar – pelo menos em certa medida – os efeitos benéficos do aumento do crescimento no armazenamento total de CO2 das florestas. Nosso conhecimento atual e incompleto da universalidade e das causas do feedback dificulta sua representação nos Modelos do Sistema Terrestre e, portanto, é uma importante incerteza nas previsões da futura absorção de carbono da floresta em resposta à mudança global”, ressalta, na pesquisa, o grupo do qual Ceccantini e Locosselli são integrantes. 

Segundo Locosselli, a maior parte dos modelos climáticos e de dinâmica de biomassa nas florestas tem levado em consideração a taxa de crescimento, mas não a relação negativa com a longevidade. Os motivos para a aceleração desse crescimento ainda não são totalmente claros, mas entre os que podem contribuir estão a temperatura, o CO2 na atmosfera e até mesmo o uso de fertilizantes em diferentes locais, que aumenta a concentração de nitrogênio no ambiente. 

Mudanças climáticas 

Relatório divulgado em 2019 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) apontou que as emissões globais de gases de efeito estufa precisam ser reduzidas em pelo menos 7,6% ao ano, até 2030, para o planeta atingir a meta estabelecida no Acordo de Paris de limitar a alta da temperatura média em 1,5°C. 

Se a temperatura ultrapassar esse limite, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) já alertou que entre os impactos que podem ser registrados no planeta estão, por exemplo, o aumento da intensidade de ondas de calor e a frequência de tempestades. 

Na última década, as emissões de gases de efeito estufa cresceram 1,5% ao ano, em grande parte provocadas por fontes fósseis de energia e por mudanças no uso da terra, como o desmatamento. 

Os países do G20 respondem por cerca de 75% de todas essas emissões, sendo China e Estados Unidos os campeões. O Brasil aparece em 14º lugar no ranking feito pelo Atlas Global de Carbono, com emissões significativas associadas ao desmatamento. No Acordo de Paris, o Brasil se comprometeu a reduzir suas emissões em 37% até 2025 e em 43% até 2030 em relação ao índice de 2005. 

Estudo mais recente da Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês) mostrou que as emissões globais de CO2 fóssil registraram no ano passado recorde de 36,7 gigatoneladas (Gt), 62% a mais do que em 1990, quando começaram as negociações internacionais sobre clima. 

Com a pandemia de COVID-19, que obrigou vários países a adotar medidas de isolamento social durante meses, as emissões de CO2 devem diminuir entre 4% e 7% neste ano em comparação a 2019, segundo a WMO. Mas, mesmo em abril, quando houve o nível mais baixo entre janeiro e agosto de 2020, as emissões diárias de carbono eram equivalentes às de 2006, período em que já havia um crescimento acentuado. 

Caminhos para mitigar essa alta de CO2 incluem a ampliação de políticas públicas visando ao aumento do uso de energias renováveis, meios de transporte de baixo carbono e eliminação do carvão, além da redução do desmatamento e das queimadas de florestas no mundo todo. 

No ano passado, um grupo de 66 países, empresas e investidores fecharam um acordo para zerar suas emissões de gases poluentes até 2050. Também já estão sendo discutidos mecanismos para precificar o carbono, seja por meio da taxação das emissões ou da criação de sistemas de compra e venda de créditos, em que o “poluidor” paga caso a mitigação não seja feita internamente. O objetivo é tornar mais vantajosos modelos de produção que busquem a redução das emissões. 

Metodologia 

Para mostrar a relação da evolução e longevidade das árvores com a captação de CO2, Locosselli explica que a pesquisa teve como base a análise de anéis de crescimento localizados nos troncos das plantas. Foram avaliados registros de mais de 210 mil árvores de 110 espécies. 

Se o anel de crescimento é largo, indica que a árvore cresceu rápido, mas, caso seja estreito, aponta baixo crescimento. Cada um deles representa um ano de vida da planta. Fazendo a contagem de todos os anéis, é possível ter uma estimativa de idade da árvore. 

“Por isso conseguimos medir a dinâmica para árvores com 500, 600 anos de idade. Foi possível extrapolar o tempo para além do que outros trabalhos já analisaram com parcelas permanentes”, afirma Locosselli, que está no programa Jovem Pesquisador da FAPESP com o estudo Florestas funcionais: biodiversidade a favor das cidades

De acordo com o pesquisador, as queimadas também aceleram a mortalidade das árvores, mas esse fator não foi incluído na pesquisa. Outros estudos já mostraram que, uma vez queimadas, florestas tropicais como a Amazônica, por exemplo, retêm 25% menos carbono do que as não queimadas, mesmo após três décadas de crescimento. 

O artigo Forest carbon sink neutralized by pervasive growth-lifespan trade-offs pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41467-020-17966-z.

Por: Luciana Constantino (Agência Fapesp).

Majestades Verdes: Conheça as 10 Maiores Florestas do Mundo


Para conhecer um lugar do meio ambiente não basta olhar o mapa. Seres vivos de grandeza insuperável, elas guardam segredos e belezas. 

No mapa mundi elas são imensas manchas verdes, na vida real são importantíssimas para o equilíbrio do planeta. Responsáveis pela maior parte da cobertura vegetal e hídrica mundial, elas são o lar de milhares de espécies de animais e plantas; muitas em extinção. Já imaginou passar a noite em um desses locais? Conhecer de perto, percorrer trilhas, nadar, explorar e se aventurar na vastidão? A ideia pode ser amedrontadora mas, acredite, esse é o sonho de muita gente. Seja no estilo mais despojado ou acompanhado de luxo e conforto, conheça as possibilidades turísticas por entre as dez maiores florestas mundiais. 

Floresta Amazônica - América Latina


A maior floresta tropical do mundo se encontra aqui, na região norte do nosso país. Com mais de 7 milhões de km2, a Amazônia abrange sete estados brasileiros e nove países da américa Latina, sendo um dos destinos mais procurados por turistas. Quando falamos em floresta Amazônica, a palavra-chave é diversidade. Em adição às grandes áreas de florestas, ela possui cerrados e campos rupestres, campinas, matas secas, igapós, manguezais, ilhas, praias fluviais de areia branca, cachoeiras, e riquíssimas flora e fauna, com cerca de 30 mil espécies de plantas e 30 milhões de espécies animais. Além de ser um dos ecossistemas mais ricos existentes, abriga cerca de 20% dos recursos hídricos de todo o planeta, influenciando diretamente no equilíbrio climático da Terra. 

Para quem pretende visitar a Amazônia, existem serviços diversos, desde hotéis em meio a floresta a cruzeiros de luxo que navegam pelos rios. A melhor época para visitação vai depender de sua intenção. Durante a época de cheia que normalmente vai de abril a julho, é quando formam-se mais igarapés. O período de seca ocorre normalmente de outubro a dezembro, quando os rios estão mais baixos, trazendo à tona praias fluviais e cachoeiras. 

O turista que visita o local pode aguardar experiências únicas, como nadar com botos-cor-de-rosa. O encontro das águas, como é chamada a junção entre o Rio Negro e o Rio Solimões, é um fenômeno que só pode ser visto lá. Desse encontro, nasce o Rio Amazonas, cuja nascente brota antes de entrar em terras brasileiras. Ele nasce na Cordilheira dos Andes, com o nome de Marañon. Ao entrar no Brasil, recebe o nome de Rio Solimões que, ao se encontrar com o Rio Negro, é batizado de Rio Amazonas, responsável por 17% da água líquida do planeta. 

Onde ficar: Você pode optar por hotéis em meio à selva, fazer cruzeiros fluviais, se hospedar na cidade de Manaus ou até mesmo fazer um mochilão guiado. É imprescindível que ninguém entre na floresta sem um guia. Serviços desse tipo podem ser contratados através de agências especializadas. 

Sugestões de passeios e atividades: Arquipélago das Anavilhanas, praias de água-doce, caminhadas pela floresta, Encontro das Águas, Floresta dos Macacos, Pescaria de piranhas, Reserva de Mamirauá, Nado com botos-cor-de-rosa, Cachoeiras de Presidente Figueiredo, visitar comunidades indígenas na Reserva de Tupé, Museu do Seringal, contato com a comunidade Ribeirinha, escaladas em árvores e o centro histórico de Manaus.

Floresta de Taiga - Hemisfério Norte


Também chamada de floresta boreal, Taiga é formada por florestas coníferas, que são árvores com copas e frutos em formatos de cone, similares aos pinheiros já conhecidos por nós. Considerada um dos maiores biomas terrestres, Taiga tem três vezes o tamanho da floresta Amazônica, e sozinha representa quase 29% da cobertura florestal do planeta. Estendendo-se por boa parte do hemisfério norte, ela vai do norte do Alasca até o Japão, passando pela Sibéria, Canadá, Groenlândia, Noruega, Finlândia, Rússia e Suécia. 

Predominantemente fria, Taiga é o lar do tigre siberiano. O turismo no local concentra-se majoritariamente no município de Kainuu, na Finlândia, dirigido pela Wild Taiga, uma associação de empresários locais. 

As atividades oferecidas são variadas e democráticas, com o foco sempre voltado em proporcionar aventuras e contato com a natureza. Programe-se, pois as atrações mudam de acordo com a estação do ano. 

Atividades de verão: Além das tradicionais como ciclismo, caminhadas, cavalgadas, canoagem, pesca, caça, camping e trekking rude, na Taiga finlandesa, existe uma espécie de trilha guiada por cães adestrados da raça husky siberiano. Os turistas podem ser conduzidos pelos cachorros na coleira ou em um tipo de trenó com rodas. Também é possível visitar fazendas de huskys e participar do treinamento deles. 

Atividades de inverno: snowmobiling guiado, safáris de observação da vida selvagem, esqui, snowshoeing, os passeios com huskys continuam, mas ganham uma outra versão, passam a serem feitos em trenós. A atividade mais inusitada provavelmente será a flutuação nas corredeiras, que consiste em literalmente flutuar nas águas frias seguindo o curso de rios, em pleno inverno. Para isso é usado um traje especial feito de cobertores esponjosos que irão te manter aquecido. 

Floresta do Congo - África Central


Segunda maior floresta tropical do mundo, a floresta do Congo abrange sete países africanos, Camarões, República Centro Africana, República do Congo, Angola, República Democrática do Congo, Guiné Equatorial e Gabão. Assim como na floresta Amazônica, o clima tropical propicia a biodiversidade, hábitat de gorilas, leopardos, girafas, elefantes, leões e mais 400 outras espécies, a floresta é também o lar de mais de dez mil espécies de plantas. As savanas africanas são imagens cultivadas no imaginário de muitos, por isso o safári é a principal atividade turística na floresta. O acesso se dá por meio de dois parques nacionais localizados na República do Congo, o Parque Nacional de Odzal e o Parque Nacional de Nouabalé-Ndoki.

Daintree Rainforest - Austrália


A floresta tropical mais antiga do mundo está em Queensland na Austrália. Com 2600 km; de extensão, ela é a maior floresta australiana, declarada patrimônio da humanidade em 1988. Conhecida pela diversidade em suas fauna e flora, na floresta existem aproximadamente 430 mil espécies de pássaros, 13 delas não são encontradas em nenhum outro local do mundo. 

É possível chegar a Daintree por Cairns, Port Douglas, Cape Tribulation e Cooktown, a melhor época para visitação é durante a primavera, que começa em setembro. Turistas podem se hospedar na vila de Daintre, e às margens da floresta ou num alojamento ecológico dentro da mata. As opções de passeios são variadas, você pode fazer tours guiados com o povo Kuku Yalanji, habitantes originais do local, percorrer trilhas, visitar cachoeiras sagradas para eles e aprender como obter medicamentos, alimentos e abrigo dentro da mata. Outra opção são as praias selvagens ao norte da floresta. Com características tropicais, águas rasas e mornas, lá é possível acampar, praticar ciclismo e fazer trilhas radicais com o auxílio de automóveis. Além disso elas ficam próximas à Grande Barreira de Corais, outro patrimônio da humanidade. Na Barreira existem passeios de mergulho e voos panorâmicos para a observação dos corais. 

Selva Valdiviana - Chile


Uma das mais antigas do mundo, a Selva Valdiviana é classificada como uma floresta temperada, apesar de ter características de uma floresta tropical. Também chamada de bosques valdivianos, estende-se pelo Chile, até a Argentina ao longo de 248.100 km;. Dona de uma fauna e flora bem particulares, seu isolamento geográfico permite o desenvolvimento de um grande número de espécies que só podem ser encontradas ali, como o macaco da montanha, pudu, puma, lorito e o cisne de pescoço preto. Turistas interessados em conhecer os bosques podem optar por visitar a Reserva Costeira de Valdivian ou a Reserva Nacional de Mocho Coshuenco. Lá poderão desfrutar de atividades e passeios, como trilhas, camping, mergulho, pesca, montanhismo e esqui cross crountry. 

Florestas Nubladas - Equador 




Cloud Forests, ou Florestas Nubladas, são um conjunto de seis mil hectares de florestas na cordilheira dos Andes. A floresta foi nomeada devido a uma cobertura de nuvens existentes acima dela, comuns em altas altitudes, elas fazem com que a mata tenha um nevoeiro constante. Por efeito disso, a floresta apresenta um cenário bem diferente do que normalmente é associado à cordilheira. A umidade faz com que as árvores sejam retorcidas e cobertas de musgo, o solo é pouco fértil e, apesar da diversidade da flora não ser grande, a floresta abriga uma variação impressionante de espécies de orquídeas. 

A biodiversidade da fauna é riquíssima, a floresta é o lar de mais de 400 espécies de aves, sendo um dos principais destinos mundiais para a observação de pássaros, além de ser o hbitat do urso de óculos andino encontrado apenas lá. O acesso à floresta se dá através de Quito, capital do país. Para chegar à floresta, é preciso muita caminhada, geralmente recompensada por uma vista inesquecível e banhos nas águas termais presentes no local. Você pode visitar também alguns dos parques ecológicos, como a reserva de Maquipucuna, reconhecida internacionalmente pelo ecoturismo e atua pela preservação da floresta tropical. 

Reserva Florestal Nublada de Monteverde - Costa Rica


Um dos locais mais visitados da Costa Rica, a Reserva Florestal Nublada de Monteverde, tem a mesma característica das florestas nubladas do Equador por também estar situada em uma região alta e montanhosa. Dona de um ecossistema impressionante, a floresta possui a maior densidade de orquídeas do planeta, cerca de 300 espécies. Também existem 200 tipos de samambaias que podem atingir até 12 metros de altura e até 500 espécies de árvores. 

O hábitat favorece a reprodução de aves, fazendo da reserva um excelente ponto para a observação de pássaros. Lá também é o lar de 100 espécies de mamíferos, incluindo o puma e o jaguar. Entre as atividades recomendadas, estão o Sky Walk, que são seis pontes suspensas no ar para quem quer conhecer de perto as belezas do local, trilhas e passeios guiados.

Sundarbans - Ásia


Sundarbans é a maior floresta de mangue do mundo, com 10 mil km; de extensão. Localizada precisamente entre Bangladesh e Índia, a maior parte dela se concentra em Bangladesh. 

Patrimônio Mundial, Sundarbans é, na verdade, um mosaico de ilhas de mangues tolerantes ao sal. Riquíssimas em recursos naturais, elas são consideradas uma das principais áreas de reprodução para uma série de espécies ameaçadas de extinção, como o tigre de bengala real. 

O acesso mais fácil à região se dá pela Índia, mas Bangladesh oferece a chance de se aprofundar mais nas florestas. Um passeio pelo mangue pode durar vários dias, na companhia de um guia, o intuito é conhecer a floresta e observar os animais. Algumas empresas realizam esse tour em embarcações especiais equipadas com acomodações para que o turista viaje com conforto. 

Parque Nacional do Kinabalu - Malásia


Mais uma floresta tropical, o Parque Nacional de Kinabalu foi o primeiro local a ser declarado patrimônio mundial da Malásia e também um dos primeiros parques criados no país. A diversidade biológica é presente na fauna e na flora, onde podem ser encontradas 90 espécies de mamíferos e 5 mil espécies de plantas. Além disso, a maior atração do parque é o Monte Kinabalu, uma das montanhas mais altas do sudeste asiático. 

As atividades oferecidas para os turistas envolvem principalmente alpinismo. Além da caminhada tradicional pelas montanhas, existem duas outras trilhas para quem busca um pouco mais de aventura, Ranau Trail Kota Belud. Outras opções são mountain bike, golfe, observação de pássaros, e fotografia.

Reserva Florestal Sinharaja - Sri Lanka 




Uma das reservas ambientais mais preciosas e preservadas do Sri Lanka, Sinharaja foi considerada patrimônio da humanidade e reserva da biosfera em 1978. Cerca de 50% das plantas encontradas na reserva são endêmicas, assim como boa parte da fauna, ou seja, existem apenas nessa região. Repleta de aves, mamíferos, anfíbios e borboletas, a reserva apresenta também uma variedade de árvores impressionantes, 830 espécies. O principal atrativo é ainda a observação de animais, mas também existem cachoeiras lindíssimas onde os turistas podem praticar nado e fotografia. 

Por: Victória Fernandes (Correio Braziliense).

Jeanne Baret, A Primeira Mulher a Circum-Navegar o Mundo, no Século XVIII, Por Seu Amor à Botânica

Aventureira francesa descobriu mais de 6.000 espécies de plantas em uma expedição, mas viajava vestida como homem, pois as mulheres eram proibidas de embarcar. 

Jeanne Baret representa a máxima expressão da simplicidade, do conhecimento, da aventura e também do erro. Criada num ambiente rural e analfabeto do centro da França, se tornou uma especialista em plantas e em suas propriedades curativas. 

Nasceu na pequena localidade de La Comelle, num dia como hoje, 27 de julho, 280 anos atrás, em 1740. Seus pais eram humildes camponeses que trabalhavam na sua pequena propriedade e também cuidavam das terras e do gado de latifundiários locais. Eles a ensinaram a identificar as plantas por suas propriedades curativas, e assim Jeanne virou uma especialista ― uma camponesa educada em medicina botânica. 

Com a morte dos pais, deixou o campo e começou a trabalhar como tutora do filho de Philibert Commerson, um famoso naturalista e botânico. A mudança de vida lhe permitiu continuar ampliando seus conhecimentos de botânica e a transformou em ajudante e amante de Commerson, com quem começou a viajar pela Europa. 

A importância de se chamar Bougainville

Poucos anos depois, ainda sendo ela muito jovem, Commerson foi nomeado botânico do rei Luis XVI. Sua fama foi crescendo, e a jovem Jeanne continuou aprendendo. Uma nova guinada em sua já novelesca vida ocorreu quando o botânico sueco Carl Linnaeus, que concebeu o sistema usado ainda hoje pela ciência para nomear organismos vivos, recomendou Commerson como botânico para uma viagem ao redor do mundo, patrocinada pelo Governo francês para buscar territórios desconhecidos, e que zarpou em 1766 sob o comando de Louis de Bougainville. 

Commerson queria que Baret viajasse com ele e o ajudasse a identificar e compilar espécies de plantas devido ao seu vasto conhecimento botânico, mas naquele momento as mulheres eram proibidas de navegar a bordo de navios da Marinha francesa. Baret e Commerson pensaram num plano, que consistiu em disfarçá-la como um rapaz, a quem chamaram Jean, envolvendo seus seios com ataduras e vestindo-a com roupa larga para ocultar seu gênero. 

Alcançado o objetivo, durante a viagem Baret teve que realizar trabalhos árduos, como qualquer outro integrante da expedição, incluído o transporte das pesadas e incômodas prensas de madeira, usadas para preservar os espécimes botânicos. A viagem teve escalas em lugares paradisíacos como Terra do Fogo, Taiti e ilhas Mauricio, onde a jovem Baret participou, ao lado de Commerson, na coleta de mais de 6.000 espécimes vegetais. 

Em muitos momentos da viagem, Commerson teve problemas de saúde e foi Baret quem assumiu as funções de botânico-chefe. Ela fez algumas das coletas mais notáveis da expedição, embora o reconhecimento sempre tenha sido para o titular do posto. De fato, Jeanne provavelmente merece o mérito da maior descoberta, a Bougainvillea brasiliensis, uma trepadeira com flores brilhantes e belas, nativa da América do Sul. 

Entretanto, nem tudo na expedição foi o clichê “de vento em popa”, já que, após dois anos de viagem, em 1768, a verdadeira identidade de Baret foi descoberta por uma tribo nativa no Taiti. Àquela altura, porém, já havia impressionado por seu trabalho físico como um membro qualquer da tripulação, e tão grande tinha sido a contribuição ao seu campo pelo material recolhido, que Bougainville, o comandante da expedição, decidiu não processá-la nem detê-la. 

Em troca, ela e Commerson foram obrigados a abandonar a expedição na colônia francesa da ilha Mauricio, no Índico, onde Commerson morreu em 1773 em decorrência dos seus graves problemas de saúde. Sozinha e sem recursos, Jeanne abriu um cabaré em Port Louis para ganhar a vida, e lá conheceu um oficial naval francês, Jean Dubernat, com quem se casou em 17 de maio de 1774. O casal regressou à França, completando assim a volta ao mundo em 1776, uma década após a partida. 

Jeanne Baret chegou a Paris com uma coleção de mais de 6.000 espécies vegetais, e o próprio rei Luis XVI a felicitou e lhe concedeu uma renda vitalícia. Entretanto, apesar da façanha, sua figura rapidamente caiu no esquecimento. 

Assim como ocorreu com outras francesas modernas que também foram pioneiras em diversas especialidades, Jeanne Baret viveu numa sociedade onde os homens exerciam seu poder sem pensar duas vezes, e as mulheres eram excluídas dos registros históricos. Baret foi muito capaz como botânica, mas talvez também fosse analfabeta, por isso sua história só se conservou através do testemunho de homens como Commerson e Bougainville, que escreveram sobre ela junto aos registros do diário de navegação e botânica. 

O príncipe de Nassau-Siegen, um nobre que também participou da expedição de Bougainville, foi outra das pessoas que escreveram sobre os feitos de Baret. “Quero lhe dar todo o crédito por sua valentia”, destacou em suas memórias. “Ela se atreveu a enfrentar a tensão, os perigos e tudo o que aconteceu que alguém poderia esperar de maneira realista numa viagem dessas. Acredito que sua aventura deveria ser incluída em uma história de mulheres famosas.” 

Durante a viagem, Commerson dedicou à sua assistente um arbusto da família Meliaceae, a Baretia bonnafidia. Entretanto, a planta mais tarde mudaria seu nome pelo de Turraea heterophylla, que seria sinônimo da Turraea floribunda. Desde aquela época, só as plantas descobertas por Commerson continuam sendo reconhecidas pela taxonomia. 

Embora Baret não tenha recebido menções por suas descobertas naquele momento, finalmente teve o reconhecimento que merecia quando uma nova espécie sul-americana da família da batata e do tomate, a Solanum baretiae, foi batizada em sua homenagem, em 2012. 

Jeanne Baret morreu em 5 de agosto de 1807, aos 67 anos, na pequena comuna de Saint-Aulaye, na região da Nova Aquitânia, com o único reconhecimento público de ter sido a amante do naturalista e botânico Philibert Commerson. Foi preciso que se passassem dois séculos para que o reconhecimento mundial da sua façanha de circum-navegar o mundo e das suas descobertas lhe valesse a justa fama que nunca teve em vida. Foi a publicação do livro O Segredo de Jeanne Baret (2010), da escritora Glynis Ridley, que tirou do anonimato a vida aventureira e o legado de uma grande mulher da ciência. 

 Por: Alberto López (El País). 

A Ilha Remota Entre África e Brasil Que Tem Lições Para o Futuro do Meio Ambiente

A Ilha da Ascensão fica localizada no meio do Atlântico entre Brasil e Angola.

Vista do mar, a Ilha de Ascensão parece estar ardendo em chamas, uma paisagem tão aparentemente hostil que rendeu ao local um apelido capaz de espantar qualquer turista: "inferno do fogo apagado". 

Elevando-se acima de crateras adormecidas, depósitos piroclásticos e picos de lava, a Montanha Verde, com 859 metros de altura, e sua vegetação frondosa chamam atenção em meio à ilha carbonizada. São também uma prova da engenhosidade dos seres humanos e da resiliência da natureza. 

Plantada no topo de uma colina devastada há cerca de 160 anos, a floresta que começou por um capricho passou a atrair a atenção de cientistas de todo o mundo. 

A Montanha Verde dá uma esperança de que ecossistemas criados pelo homem possam melhorar o meio ambiente. 

À medida que a crise climática destrói paisagens e gera catástrofes, a próspera selva de Ascensão reforça o argumento de que talvez possamos regenerar uma floresta usando conceitos deste lugar remoto e muitas vezes esquecido. 

A Ilha da Ascensão surgiu do Oceano Atlântico cerca de 1 milhão de anos atrás. Localizada no meio do caminho entre Angola e Brasil, ela recebeu esse nome quando foi redescoberta por Afonso de Albuquerque no Dia da Ascensão em 1503 (ela havia sido identificada pela primeira vez em 1501). 

Durante muito tempo, foi ocupada apenas por aves marinhas e tartarugas verdes que viajam milhares de quilômetros a partir do Brasil para procriar ali. 

Os primeiros habitantes humanos chegaram em 1815, quando a Marinha Real Britânica montou acampamento para vigiar Napoleão, que estava exilado quase 1,3 mil quilômetros a sudeste, na ilha de Santa Helena. 

Ascensão tornou-se um ponto de parada útil para os navios. Mas, durante sua visita em 1836, Charles Darwin apontou a falha mais óbvia da ilha: sua ausência de árvores, o que a tornou um lugar difícil de se viver.

Montanha Verde é um ecossistema criado pelo homem, onde espécies introduzidas e plantas nativas evoluíram juntas. 

Transformação pela chuva

Inspirado pelas teorias de seu amigo Darwin sobre transformar a paisagem árida em um jardim, o botânico Joseph Hooker apresentou o plano de plantar mudas de todo o mundo ali. As árvores poderiam "capturar" as nuvens e aumentar as chuvas na ilha, tornando-a habitável. 

O plano foi um sucesso. Em 1860, John Bell, horticultor da ilha, supervisionou o plantio de cerca de 27 mil árvores e arbustos, o que resultou no desenvolvimento de solo suficiente para o cultivo. 

Foi a oportunidade de visitar essa floresta peculiar e pouco conhecida que levou minha família a Ascensão, que agora tem cerca de 900 habitantes, entre militares americanos e britânicos e funcionários civis. 

Deixando nosso veleiro ancorado em Clarence Bay, dirigimos através de uma paisagem lunar ofuscante, passando pelos fluxos de lava, pelas crateras vulcânicas e pelos burros selvagens que vagam pelo deserto em busca de comida, até começar a subir a Montanha Verde. 

Ali, a luz do sol era suavizada pela névoa e depois apagada pela chuva irregular. A estrada nos levou a uma floresta de casuarinas e acácias, e depois para uma densa selva pontuada por bananas, gengibre, zimbro, framboesa, café, samambaias e figos. 

Os cactos acrescentam cor à paisagem árida da ilha. 

Depois de estacionar, partimos para a caminhada. Encontrando ocasionalmente ovelhas selvagens, seguimos uma trilha fresca e enevoada, cheia de teixos e pinheiros, descendentes de algumas das mudas que Hooker aconselhou aos britânicos transportar para Ascensão a partir de jardins botânicos de todo o mundo. A floresta parecia enganosamente antiga. 

De acordo com os princípios ecológicos tradicionais, essa mistura de gramíneas e samambaias endêmicas com mais de 300 espécies não nativas nunca poderia ter evoluído para um ecossistema próspero. Florestas complexas levam milhões de anos para se desenvolver. 

Mas o ecossistema artificial da Montanha Verde, onde espécies introduzidas e plantas insulares parecem ter evoluído juntas, não se encaixa nesse paradigma.

Os Estados Unidos têm uma base aérea na ilha. 

Contrariando o 'normal'

"O que você vê ali é algo que não despertaria o interesse de pesquisadores tradicionais", diz Dave Wilkinson, professor de ecologia da Universidade de Lincoln, no Reino Unido. 

"Porque é algo completamente dominado por espécies não nativas, e os ecologistas se concentram nos ambientes naturais, não em coisas que não deveriam estar onde estão. Isso seria considerado algo negativo." 

Até recentemente, conservação significava livrar-se de espécies invasoras e permitir que a paisagem voltasse ao modo como era antes da intervenção humana. 

Mas uma visita casual à Ilha de Ascensão em 2004 fez Wilkinson pensar nessa perspectiva "natural versus invasores".

Ascensão é uma ilha de origem vulcânica. 

"A Montanha Verde é um exemplo muito dramático de algo bastante comum: em grande parte do mundo, espécies não nativas são uma parte funcional do ecossistema." 

Wilkinson desenvolveu a ideia em seu controverso artigo de 2004 para o periódico Journal of Biogeography, A Parábola da Montanha Verde, no qual desafia a teoria de que as espécies introduzidas em um local não pertencem àquilo e propõe o argumento de que ecossistemas artificiais, como a Montanha Verde, poderiam desempenhar um papel importante em nosso futuro. 

Nos anos seguintes, essa ideia ganhou força e, em 2006, o termo "novo ecossistema" foi desenvolvido pelo renomado ecologista Richard Hobbs para descrever lugares como a Montanha Verde, que foram irreversivelmente alterados pela intervenção humana - e talvez não precisem ser consertados. 

Anna Bäckström, ecologista sênior do grupo de pesquisa científica ICON, da Universidade RMIT, na Austrália, diz que os proponentes de uma nova abordagem de ecossistema têm uma visão pragmática da conservação. "O conceito oferece mais flexibilidade", explica ela. 

Dadas as mudanças climáticas, o impacto humano e a pequena quantidade de fundos geralmente disponíveis para conservação, Bäckström diz que, ao aceitar as mudanças que os humanos fizeram, a restauração ecológica é mais gerenciável. 

"A paisagem não precisa voltar ao que era. Nós apenas queremos diversidade e equilíbrio." 

Essa ideia de que o serviço que um ecossistema fornece - como controle de enchentes, sequestro de carbono ou polinização - é mais importante do que a condição primitiva de uma floresta está sendo adotada mais amplamente à medida que os ecossistemas são jogados no caos pelos incêndios, tempestades e doenças provocadas pela crise climática.

Os burros foram introduzidos na Ilha da Ascensão no início do século 19 e agora vagam pelas montanhas. 

"Se um grupo de plantas sobreviver e algumas delas não forem nativas, não queremos arrancá-las", diz Bäckström. "A diversidade no ecossistema é mais importante que a origem de uma planta." 

Indo ainda mais longe, Wilkinson diz que essa nova abordagem permite que os ecologistas tenham algum controle sobre forças que podem moldar os ecossistemas do futuro. 

"Vinte anos atrás, os conservacionistas nunca cogitariam plantar espécies não nativas, mas agora sabemos o valor de ter uma mistura de árvores em um local, porque, se um patógeno, fogo ou animais o atacam, nem tudo é perdido", diz ele.

A ilha tem uma população de cerca de 900 pessoas e uma única escola. 

Com uma abordagem inovadora do ecossistema, os conservacionistas têm a liberdade de reconstruir uma planície que antes ficava inundada e que secou com espécies resistentes à seca ou replantar uma paisagem devastada pelo fogo com plantas que prosperam em uma região mais quente. 

O experimento da Montanha Verde, onde as plantas de diferentes lugares foram reunidas em um mesmo lugar e, de alguma forma, prosperaram, talvez possa ser replicado. 

Isso nos aponta que ideias polêmicas - como a da China, de plantar bilhões de árvores para conter o avanço do deserto; ou o esforço da Austrália para que as pessoas plantem espécies e plantas não nativas para conter o avanço de incêndios - devem ser analisadas com mais cuidado. 

A proposta feita por Darwin e Hooker nos diz que, quando se trata de sobrevivência, às vezes, não há problema em experimentar algo novo.

Por: Diane Selkirk (BBC).

A Tragédia do Crescimento, Uma Metafísica do Neoliberalismo

Gilbert Rist foi um dos primeiros críticos do conceito de desenvolvimento. Em seu último livro, ele lembra que a economia política é o resultado de um projeto político e de uma construção social. Rist insiste na centralidade da propriedade privada na dinâmica do crescimento e na necessidade de invenções institucionais para sair desse paradigma.

O crescimento é um Janus [deus romano] com duas cabeças. Considerada necessária, mesmo vital para a continuidade das sociedades industriais, sua busca é, no entanto, impossível. É um dilema. Que o idioma inglês resume muito bem sob o termo predicament. Nós entramos na Era das Rupturas. O mundo de amanhã será muito diferente daquele que conhecemos. São os próprios padrões de explicação social que são obsoletos. Hoje, não se trata tanto de mudar nossa interpretação do mundo, mas de perceber que são as revoltas do mundo que nos forçam a mudar. 

Agora somos atingidos por dissonância cognitiva. Para garantir nosso conforto psicológico, desistimos de considerar a verdade que nos envergonha. Para sair disso, precisamos primeiro decifrar o paradigma econômico dominante. Na primeira parte, Gilbert Rist mostra que a crise social e ambiental é a da ciência econômica dominante. 

O autor de Desenvolvimento: História de Uma Crença Ocidental (4ª edição, 2013) e Da Economia Comum Entre Sonhos e Mentiras (2010) na Presses de Sciences Po, volta às fontes do pensamento econômico para explicar a origem da crise social e ambiental atual. “O duplo não pensado do pensamento econômico dominante” é explicado, por um lado, pela ignorância involuntária dos primeiros economistas em relação às práticas econômicas de outros continentes, criando assim um “viés eurocêntrico”. Além disso, em um momento em que não existiam problemas ecológicos, os primeiros economistas demonstraram “um descuido relativo aos presentes da natureza e às consequências a longo prazo de seu uso”, que é indubitavelmente devido a ” a impressão geralmente compartilhada de sua abundância e disponibilidade infinita ”. A natureza é assim “tornada burra e disponível gratuitamente”. 

David Ricardo não estava mais consciente do que Adam Smith da importância dos recursos naturais. Karl Marx foi mais esclarecido sobre a importância dos recursos naturais, apesar da imensa esperança que ele depositou no desenvolvimento das forças produtivas. A produção capitalista esgota a terra e o trabalhador. Ninguém é dono da terra. Tivemos que esperar que William Stanley Jevons apontasse a possível secagem dos recursos naturais. 

ANACRONISMO DA DOXA 

Essa imprudência dos primeiros economistas, que deixam de lado os incômodos industriais, é reforçada pela retórica da mecânica newtoniana que aumenta a validade do paradigma, dando-lhe uma aparência científica: “massa monetária”, “balanço” do comércio, “equilíbrio” orçamentário, “atomicidade” dos participantes do mercado, “circuito” do comércio, “elasticidade” da oferta ou demanda. O mercado é como um cosmos perfeito. A doxa econômica repousa sobre uma mudança, um anacronismo: tudo acontece como se a ciência econômica contemporânea tivesse possibilitado explicar o mundo antes da revolução industrial. 

Os primeiros economistas ignoram a segunda lei da termodinâmica – a lei da entropia – segundo a qual a energia se degrada de forma irreversível e caótica. Eles raciocinam na ignorância das realidades biofísicas dos ciclos naturais e estoques não renováveis ​​formados por combustíveis fósseis. Os proponentes dessa economia dominante afastam o pioneiro do decrescimento Nicholas Georgescu-Roegen, o pensador da entropia na economia que apontou que o objeto da economia não diz respeito às transações monetárias, mas ao uso e a dissipação da energia-matéria. 

O paradigma econômico dominante é, portanto, obsoleto e animado por uma “ignorância aprendida”, tão prejudicial quanto suspeita. É também um paradigma contingente. Rist cita o trabalho de Thomas S. Kuhn: as ciências “normais” também experimentam transições assim que um paradigma se encontra em um estado de crise, transições sujeitas à relutância. Nesse caso, de acordo com Gilbert Rist, o paradigma econômico dominante deriva do dogma religioso, cuja doxa está contida no pequeno manual de Paul A. Samuleson, que ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 1970 (enquanto isso foi recusado a Nicholas Georgescu-Roegen). 

É impossível estudar a economia sem passar por Samuelson, segundo o qual “a economia procura como os homens e a sociedade decidem, se devem ou não usar dinheiro, alocar recursos produtivos escassos à produção, através do tempo de vários bens e serviços e distribuí-los para fins de consumo presentes ou futuros entre os diferentes indivíduos e comunidades que constituem a sociedade”.

A ECONOMIA, UMA CONSTRUÇÃO SOCIAL 

No entanto, não podemos culpar os economistas de hoje por ignorarem as consequências ambientais dos processos produtivos, exceto que eles visam conciliar a atividade produtiva e seus efeitos sobre o meio ambiente, permanecendo sempre o velho paradigma. Um número de displays é implantado para acender fogueiras e ocultar os desastres causados ​​pelo consumismo produtivista. O princípio do poluidor-pagador estabelece o direito de poluir, isto é, garante o crescimento econômico e, ao mesmo tempo, compensa suas consequências desagradáveis. A ideia de dar um preço à natureza propõe dotar-lhe o status de capital natural baseado em um sistema das chamadas compensações ecológicas. Quanto aos serviços ecossistêmicos, eles podem ser listados e securitizados no mercado de ações. 

O problema do paradigma econômico dominante reside na enormidade de seus efeitos, quando não se baseia em nenhuma validade científica. Os efeitos do dogma neoliberal resultaram em uma distribuição desigual do excedente, além da devastação ecológica que ele causou. 

Consequentemente, é por suas consequências políticas e sociais que a economia deve ser julgada. Com grande clareza, Gilbert Rist emprega uma genealogia de conceitos que alimenta a construção social que é a economia. Ele lembra que os pais fundadores da economia não previam crescimento ilimitado, até pronunciaram a busca por um estado estacionário que permitisse alcançar o suficiente em termos materiais para se libertar e cultivar uma arte de viver, segundo John Stuart Mill

Em seu trabalho anterior, Rist já demonstrou como o mito da escassez alimenta o crescimento, o que deve impedi-lo. Paradoxalmente, a abundância de mercadorias precisava suprir a escassez. No entanto, prevaleceram as desigualdades, sem que a paz social fosse estabelecida, exceto pelo advento de um estado de bem-estar social que hoje está ameaçado. 

AXIOMAS DO INTERESSE 

Surpreendentemente, os efeitos negativos do crescimento passaram despercebidos até hoje, porque os fatores de produção de riqueza não incluem energia, que externalidades não quantificáveis ​​em termos monetários não são levadas em consideração, e que a economia não é vista como um subconjunto da ecologia, de acordo com Rist. Acima de tudo, entender a aderência desse sistema e esse construto social requer esclarecer quem se beneficia. 

O primeiro fator raiz do crescimento é a propriedade privada. Como o título de proprietário se baseia na dinâmica do crédito, será necessário aumentar a renda dos proprietários para enfrentar os vencimentos dos bancos. A generalização e sacralização burguesa da propriedade privada está na origem da obrigação de crescer em uma dinâmica de empréstimos que serve ao credor. Assim como o crescimento, a economia financeira (ou especulação) pode aumentar os lucros. Proporciona renda sem trabalhar, aumenta a desigualdade e concentra a riqueza. 

O resultado é uma onipresença do “axioma do interesse”, inerente às culturas ocidentais, enquanto, como aponta o sociólogo Jacques Godbout, populações não contaminadas pelo capitalismo ignoram o axioma do egoísmo e preferem confiança e cooperação mútuas. Uma fortiori, o indivíduo representado pela teoria econômica dominante nunca é mais do que uma abstração muito distante das realidades antropológicas. Quanto ao mercado, é inseparável do interesse individual e constitui a matriz da maioria das trocas. Agora, estamos lidando com uma ficção econômica que optou por ignorar as práticas sociais para justificar a crença teórica de que o mercado constitui a solução ideal para a troca. O Ato Único Europeu de 1986 e a revogação em 1999 do Ato Glass-Steagall de 1933 quebraram a partição entre bancos de depósito e investimento. Dinheiro exige dinheiro. A doutrina econômica está acima do solo e gera infortúnio social e a destruição da natureza. Trata-se de retirar a economia de seu paradigma simplificador. Devemos tomar nota da finitude. 

Como demonstrou Georgescu-Roegen, o sistema econômico é um sistema aberto que deve constantemente receber e devolver à natureza a energia e a matéria, ou seja, transformar irreparavelmente a matéria e a energia em desperdício. 

O fetichismo do crescimento repousa, antes de tudo, em uma longa habituação coletiva aos efeitos considerados positivos que ele produziu nos países ricos por muito tempo. Mesmo que alguém comece a sentir alguns de seus efeitos indesejáveis, começando pela poluição urbana, prevalece a nostalgia: como se acredita que o crescimento é a solução para todos os problemas, deve-se encontrar, trazer de volta, despertá-lo. Então você tem que pensar em pós-crescimento. Primeiro mude as condições estruturais que tornam necessário o crescimento, depois imagine as características de outro tipo de sociedade que não estaria mais acima do solo. Se o crescimento é baseado no interesse individual, na propriedade privada e nos mercados, como esse conjunto de restrições pode ser superado? 

DESFAZER O CRESCIMENTO 

Primeira via: como a generalização da propriedade privada constitui um dos motores mais poderosos do crescimento, é aconselhável imaginar outros regimes institucionais capazes de reverter a tendência. É por isso que restaurar os bens comuns é agora uma demanda amplamente compartilhada em círculos que afirmam estar diminuindo. Rist prefere usar o termo “instituição comunitária” para não dissociar os bens comuns dos grupos sociais que o utilizam. 

Assim, o comum implica uma “relação social baseada na reciprocidade, mas também uma relação de conivência com a Natureza, ligada a um sentimento de co-pertença”. Rist considera que o Estado não é um bom administrador de mercadorias, que a interação de interesses especiais a impede de desempenhar seu papel de árbitro teoricamente imparcial, constituindo assim uma forma de expropriação que priva a comunidade do direito que exercia. 

Diferentemente dos bens públicos administrados pelo Estado, os bens comuns não devem ser dissociados dos grupos sociais que os utilizam. “O comum é, portanto, uma construção política, uma forma de autogoverno que combina co-atividade e co-decisão e que garante a reprodução do recurso”. Quanto aos bens comuns planetários (bens públicos globais, patrimônio comum da humanidade), Gilbert Rist critica a “solução razoável” proposta por Joseph Stiglitz com o objetivo de estabelecer uma gestão pública global, um conjunto de regulamentos planetários sobre os usos e atos que causam externalidades planetárias. Essa solução equivale a transformar os bens comuns planetários em bens públicos, entregues a critério dos Estados, e trazê-los para a lógica do mercado, longe dos bens comuns administrados por seus beneficiários. Rist propõe abrir um novo espaço na forma de uma categoria jurídica que escaparia das armadilhas da propriedade privada, bem como da onipotência do Estado, que está longe de sempre promover o interesse geral. 

A segunda proposta principal da tragédia do crescimento é acabar com crédito e dívida. Hoje, a dívida pública de todos os países da União Europeia representa quase 90% do seu PIB, contra 30% em 1970. Durante várias décadas, as dívidas públicas explodiram na maioria dos países, em particular porque na União Europeia os bancos centrais nacionais foram proibidos de criar dinheiro reservando esse privilégio ao Banco Central Europeu. A dívida explode para impulsionar o crescimento. A multiplicação do dinheiro do crédito criado pelos bancos envolve uma obrigação de crescimento econômico. 

Assim, o sistema se alimenta de ciclos de feedback positivo (crescimento, circulação de dinheiro, endividamento) que levam à exploração desenfreada da Natureza, considerada como um “ativo negociável nos mercados”. Na maioria das vezes, ninguém imagina seriamente que a dívida será paga: o capital público líquido mal seria suficiente na França para pagar dívidas públicas. O pagamento dessa dívida é uma ilusão: na metafísica neoliberal, dívida e crença são termos relacionados. A dívida é principalmente um instrumento de dominação pelo credor sobre o mutuário, e o endividamento público envenena a vida social. 

Uma medida radical apoiada pelos proponentes do decrescimento consistiria em pura e simplesmente suprimir a possibilidade de criar dinheiro pelo mecanismo de crédito bancário, o que reduziria os juros da dívida pública. Sair do domínio dos bancos implica conceder o monopólio da criação de dinheiro ao Banco Central e proibir a “privatização” do dinheiro pelos bancos comerciais. 

Os Estados não seriam mais reféns dos bancos e não seriam mais forçados a recapitalizá-los em caso de inadimplência. Isso reduziria bastante a dívida pública. A dívida privada também seria reduzida, uma vez que os empréstimos especulativos seriam proibidos e, acima de tudo, o dinheiro seria novamente parte dos bens comuns. 

Terceira faixa: repensar o intercâmbio fora do ciclo utilitário. A sociedade não pode ser reduzida ao mercado, e uma sociedade de mercado é um mercado sem sociedade. O mercado constitui o grau zero de vínculo social. São gestos altruístas que tornam possível “viver juntos”, reciprocidade ou “o ciclo de doações”. À medida que a austeridade aumenta, os serviços de ajuda mútua se tornam mais importantes. Por um lado, o mercado representa uma transação bilateral quase instantânea e impessoal; por outro, o presente desencadeia uma série de relacionamentos feitos de reconhecimento, obrigações e reciprocidade, que se estendem ao longo do tempo, criando uma sociedade unida , colaboração e ajuda mútua. As velhas formas de troca identificadas por Karl Polanyi ainda existem hoje, apesar da oni-mercadoria. 

Na época do Antropoceno, um período de crescimento excessivo e uma dívida incrível com a natureza, resta ouvir a voz dos “coletivos burros” (animais domésticos ou não, a biosfera, a camada de ozônio, rios, geleiras, oceanos, plantas, micróbios etc.) e conceder reconhecimento à natureza e status legal. Para Rist, essa grande transformação – recuperação dos bens comuns, domínio da moeda, reavaliação da reciprocidade e redistribuição, inclusão da natureza nas deliberações – não pode ser alcançada sem a assistência do Estado. Como apenas o Estado pode reformar o sistema tributário, tributar ou proibir transações financeiras especulativas e modificar a distribuição de subsídios agrícolas. 

Por: Agnès Sinai; professora na Sciences Politiques de Paris, sobre crise ecológica, colapso e decrescimento. Fonte: Terrestres.org / Tradução: EcoDebate.

Como Destravar a Bioeconomia na Amazônia?

A chegada da temporada de queimadas, o aumento do desmate e a crise da Covid-19 exigem senso de urgência para alavancar uma nova economia baseada nos ativos da biodiversidade. 

Na temporada de clima seco que começa em junho e vai até outubro, na Amazônia, mais uma preocupação se soma ao desenrolar da Covid-19 pós-crise: as queimadas na floresta, que neste período devem voltar como destaque no noticiário nacional e internacional. Contra elas, entra em cena uma nova arma visível nos céus: um drone acoplado a um sistema inteligente de sensores, em desenvolvimento na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), promete processar dados como temperatura do fogo, gases, umidade do ar e velocidade dos ventos para subsidiar o planejamento e as decisões das brigadas no campo, com ganhos além dos ambientais. 

A inovação ilustra o potencial de uma nova matriz econômica associada à manutenção da floresta em pé como fonte sustentável de riquezas, com possibilidade de melhoria também dos indicadores sociais – tema central do webinar Bioeconomia na Amazônia e o cenário Covid-19, realizado pelo Idesam em parceria com a Página22, no Dia Internacional da Diversidade Biológica (22 de maio). Na ocasião, a tecnologia voltada ao controle das queimadas foi apresentada como case de inovação que contribui para evitar, no futuro não muito distante, as imagens de árvores em chamas que preocupam o mundo diante da influência da região na mudança climática. 

No ano passado, os satélites registraram quase 90 mil focos de incêndio na Amazônia, 30% mais do que em 2018, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) – números relacionados ao aumento do desmatamento. “Além da maior agilidade e eficácia na prevenção de queimadas, a vantagem está no menor custo, obtido pela nacionalização da tecnologia”, afirma o biólogo Jair Maia, pesquisador da UEA que adapta às novas demandas o trabalho com drones antes utilizados no estudo da copa das árvores. 

Junto ao casal Patrícia e Guilherme Guimarães – ela, doutora em clima e ambiente; ele, dedicado à engenharia de software –, Maia soma expertise para testar o primeiro protótipo em campo, em parceria com a Defesa Civil, no município de Humaitá (AM), durante a nova temporada de queimadas que se aproxima. Posteriormente, o plano é aperfeiçoar o equipamento em novas versões para que incorpore Inteligência Artificial, seja operado em centrais de comando à distância e ganhe maior espectro de aplicações, inclusive na agricultura de precisão e controle da qualidade do ar em fábricas, expandindo-se no mercado como um negócio baseado em soluções a favor da sustentabilidade. 

Há avanços na legislação e novos arranjos institucionais de apoio para que histórias assim se repliquem, atraiam mais investimentos e alcancem escala proporcional ao desafio de unir a agenda econômica à ambiental, na Amazônia. “Mas é preciso conectar institutos de pesquisa e tecnologia ao atual sistema de fomento à bioeconomia, preparando-os para atendimento às necessidades das empresas em novos produtos, processos e serviços com visão de mercado”, afirma Carlos Gabriel Koury, diretor técnico do Idesam, instituição que coordena o Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), vinculado à Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). 

O encontro da informática com a biotecnologia

O mecanismo pelo qual o sistema com drone antiqueimada recebeu investimentos para tomar impulso inicial foi lançado há um ano e meio. Prevê o repasse de recursos por empresas do Polo Industrial de Manaus obrigadas pela Lei de Informática a destinar 5% do faturamento à pesquisa tecnológica, fatia que representa R$ 700 milhões ao ano e estava restrita às inovações do mundo digital.

A partir de agora, o montante – contrapartida das empresas do setor pelos incentivos fiscais que recebem – poderá beneficiar também a biotecnologia. Entre os sete eixos tecnológicos do PPBio aptos a acessar parte desses valores, estão a prospecção de princípios ativos, a bioinformática, o tratamento biológico de resíduos e os negócios de impacto ambiental e social – apoio que pode ocorrer por meio de diferentes modelos de parceria. 

Algumas empresas de informática investidoras (indústrias de celulares, computadores, tablets, periféricos, e eletroeletrônicos) almejam apenas visibilidade institucional ao patrocinar o uso sustentável dos recursos naturais na Amazônia; outras buscam soluções voltadas à utilização de bioinsumos e a processos internos de menor impacto ambiental, como substituição de fontes energéticas sujas, além de acesso a ferramentas de gestão em sustentabilidade. Há, ainda, a modalidade de participação acionária em negócios inovadores de startups como forma de diversificar a carteira de investimentos e, desta forma, ampliar alternativas diante de novas demandas de mercado. 

“Podemos fomentar cadeias produtivas de espécies amazônicas, como o açaí e a andiroba, mas também o ecossistema de serviços para que elas se desenvolvam, incluindo soluções para superar os desafios logísticos, por exemplo”, explica Koury. 

No primeiro ano, o PPBio recebeu 73 projetos de universidades e centros de pesquisa para apresentação a companhias de informática do Polo Industrial de Manaus. Até o momento, por meio dessa ponte unindo desenvolvimento de tecnologia e empresas investidoras, foram captados R$ 9,5 milhões. Entre os projetos beneficiados estão os produtos à base de açaí e copaíba da nova linha de creme facial Energetic Face, da marca de cosméticos naturais Simbioze Amazônica, mantida por uma startup instalada no Centro de Incubação e Desenvolvimento Empresarial (Cide), em Manaus. A novidade tem o selo Halal para venda ao mercado árabe. 

A expectativa agora é avançar em tecnologias baseadas em insumos da biodiversidade e soluções customizadas para enfrentamento à Covid-19 na Amazônia Ocidental e Amapá, região de influência da Zona Franca, e ajudar na qualidade de vida pós-crise, conforme portaria específica recentemente publicada pela Suframa, com regras facilitadas frente a situação de emergência. 

Nove projetos foram cadastrados até o início de junho e a previsão é chegar a um investimento entre R$ 30 milhões e R$ 50 milhões até o final do ano – recursos também oriundos da Lei de Informática. “É lamentável dar marcha ré e discutir o desmatamento como entrave à bioeconomia, apesar das leis e mecanismos de fomento existentes”, ressalta Koury, para quem o papel das empresas é fundamental no momento. 

Na direção de uma nova economia 

Como fomentar negócios que, além de gerar emprego e receita, consigam criar soluções permanentes para os problemas sociais e ambientais mais urgentes da Amazônia? Um debate que se arrasta por décadas, desde a concepção do conceito de desenvolvimento sustentável, pode ganhar novo impulso na expectativa das lições aprendidas na pandemia de coronavírus, no sentido de um olhar global mais atento à saúde e ao meio ambiente – apesar das controvérsias em torno da agenda federal brasileira no setor. 

O Brasil é um dos únicos, senão o único país do mundo que aumentou gases de efeito estufa na retração econômica da pandemia, e isso ocorreu devido ao desmatamento em expansão. A mudança de uso da terra responde por cerca de 70% das emissões brasileiras – e, de acordo com analistas, a tendência pode se agravar. “A crise da mudança climática nos coloca em situação de encruzilhada: como desenvolver a economia e melhorar a qualidade de vida das pessoas que vivem na Amazônia sem promover a degradação que hoje marca basicamente todas as atividades rurais na região?”, questiona Mariano Cenamo, diretor de novos negócios do Idesam. 

Ele cita movimentos que buscam quebrar esse ciclo, “fazendo a floresta render e não somente custar”, a exemplo da Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA). Mantida por empresas e organizações da sociedade civil, a iniciativa abrange o maior programa de aceleração de negócios de impacto da Região Norte, com 30 startups em carteira, 12 beneficiadas por investimentos para decolar no mercado. 

No entanto, para Denis Minev, CEO do Grupo Bemol, em Manaus, as condições atuais que incentivam o desmatamento ilegal tornam a bioeconomia, “um sonho no curto prazo; uma perspectiva viável no horizonte de pelo menos uma década”. De acordo com o empresário, atuante investidor de negócios de impacto ambiental e social na Amazônia, “a única alternativa é sermos inteligentes o suficiente para construir um sistema próspero sob o ponto de vista econômico e social, sustentável e politicamente equilibrado”. 

Neto do professor Samuel Benchimol, um visionário do desenvolvimento da região, Minev diz que a bioeconomia que vai enriquecer e transformar a Amazônia não é propriamente a do extrativismo, mas a do conhecimento. Ele aponta quatro vetores essenciais: disponibilidade de insumos naturais, leis e instituições maduras para uso desses recursos, financiamento e capital humano capacitado para a biotecnologia do século XXI. “Precisamos entrar nesse jogo no nível mundial”, reforça. 

Na sua visão, a atual crise da pandemia colocará essa capacidade à prova. Minev alerta para o colapso dos orçamentos estaduais, com estimativa de queda de 30% a 40% e possível impacto nos investimentos ambientais públicos, embora grande parte dos recursos aplicados pelo governo do Amazonas no setor tenha como origem doações internacionais. “É preciso barrar a destruição, fazendo com que o desmatamento não seja rentável, mas o desafio esbarra na ilegalidade e informalidade reinantes na economia do interior”. 

Pandemia e desmatamento 

“O enfraquecimento da economia de Manaus pela Covid-19 está empurrando pessoas de volta às comunidades ribeirinhas, e precisamos observar atentamente como isso influenciará o desmatamento”, afirma o empresário. Segundo pesquisadores, o polo industrial estruturado há cinco décadas com incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus concentrou a economia na capital e, assim, mesmo que de forma não intencional e indireta, ajudou a evitar a degradação da floresta por atividades predatórias. 

O pesquisador Henrique Pereira, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), no entanto, diz que “não serão os desempregados da capital que vão desmatar o interior, pois os agentes desse processo são outros”. Em alusão ao processo de grilagem, o coordenador do projeto Atlas ODS Amazonas, voltado a territorializar os indicadores da Agenda 2030 da ONU, aponta: “Ondas de maior intensidade do desmatamento estão diretamente relacionadas ao ambiente macroeconômico, com deslocamento de populações para uma fronteira a ser explorada, na busca por capitalização. O interesse econômico de derrubar está na terra e não na floresta”. 

Para Pereira, o desafio de dar base econômica à biodiversidade requer maior atenção à aplicação de tecnologias, que nem sempre poupam recursos naturais, e a algumas questões conceituais. “De que estamos falando: de uma bioeconomia que utiliza formas de vida como modelo para desenvolver processos industriais ou de uma economia que usa a floresta como produtora de matéria-prima?” 

Felipe Naveca, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Amazônia, cuja equipe foi responsável pelo sequenciamento do genoma completo do coronavírus na Região Norte, defende soluções baseadas nas realidades da região, com uma abordagem multidisciplinar em conjunto com físicos, engenheiros e outros especialistas, reduzindo a dependência externa de insumos estratégicos. “Se o Brasil não fizer”, alerta o virologista, “outros países o farão”. 

Há necessidade de maior aproximação com a sociedade: “Para atrair investimentos na bioeconomia, a academia precisa fazer projetos que tenham uma aplicação mais fácil de ser entendida por quem pode financiá-los”. Para o pesquisador, outro desafio é aprender a divulgar esses produtos, de modo que a população reconheça a importância e os valores por trás deles, e assim a ciência chega à ponta final. 

“Defendemos a desregulamentação ambiental em pontos que dificultam o uso sustentável desses recursos”, afirma Alcimar Martins, superintendente adjunto de planejamento e desenvolvimento regional da Suframa. Ele informa que o governo federal iniciará estudo sobre o potencial da bioeconomia amazônica e deverá assinar portaria abrindo espaço a novos investimentos no setor. 

Dos R$ 700 milhões disponíveis pela Lei de Informática, a nova norma estabelece cerca de R$ 400 milhões por ano para capitalização de startups, organizações sociais com propósitos de inovação e projetos internos de sustentabilidade das empresas que poderão contemplar a biotecnologia, apoiada via PPBio. Caminhos começam a se abrir; falta garantir a existência de floresta para explorá-los.

Por: Sérgio Adeodato (Página 22).

O Licenciamento Ambiental Prejudica as Empresas? Especialistas Comentam...

Desastre de Brumadinho, em Minas Gerais: o licenciamento ambiental visa antecipar problemas futuros. Foto: Victor Moriyama / Bloomberg.

Estudos de impacto ambiental e certificações garantem segurança jurídica aos projetos. Mas, é preciso mais agilidade para não travar os processos.

A questão do licenciamento ambiental é uma polêmica antiga no Brasil. O assunto ganhou destaque com a divulgação do vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril de 2020, em que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que a pandemia do coronavírus oferece a oportunidade de “passar a boiada” sobre as regulamentações brasileiras. “Tem uma lista enorme, em todos os ministérios, para simplificar. Não precisamos de Congresso”, afirmou Salles. 

Entidades ligadas ao meio ambiente repudiaram a fala de Salles. Organizações como o Greenpeace, a WWF e o Observatório do Clima criticaram o ministro por promover mudanças de regras sem o devido debate público. Do outro lado, entidades patronais, sob a liderança da Confederação Nacional da Indústria (CNI), da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), e da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), manifestaram apoio à agenda do ministro, alegando a necessidade de reduzir a burocracia. 

A polarização do debate é anterior ao atual governo. Desde 2004, tramita no Congresso a Lei Geral do Licenciamento Ambiental (PL 3729/2004), projeto de lei que visa unificar as regulamentações ambientais nos âmbitos federal, estadual e municipal, garantindo celeridade aos processos. A demora na tramitação do PL se deva à falta de consenso entre ambientalistas e setor produtivo. 

Para Henrique Luz, coordenador da câmara temática de biodiversidade do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), há um problema de foco nessa discussão, que acaba prejudicando a formação de um entendimento geral. 

“Ao optar por discutir a legislação, e não o processo, perde-se muito tempo com questões de difícil acordo”, afirma. O ideal, na realidade, seria promover uma modernização nos órgãos de controle, aliando a digitalização dos processos com práticas avançadas de gestão. 

Afinal, para que serve o licenciamento ambiental? 

Além de proteger o meio ambiente, o processo de licenciamento tem a função de dar segurança jurídica aos projetos. O elemento mais importante do processo são os estudos de impacto ambiental. O objetivo é levantar o contexto natural em que o empreendimento está inserido e antecipar possíveis impactos e conflitos, como no caso de populações indígenas e ribeirinhas. Dessa forma, a empresa garante que não vai enfrentar consequências negativas geradas por sua atividade e se protege de processos judiciais.  

Para Luz, a a fase de pré-projeto, que concentra a maior parte dos estudos de impacto ambiental, é a que mais demanda recursos por parte das empresas. “Não deveria ser assim”, diz ele. “Se existisse estratégia ambiental bem definida, seria possível avaliar com mais precisão os impactos das atividades em determinada região e reduzir a carga de trabalho das empresas”. 

Mas, o grande problema não está no levantamento dos impactos ambientais, e sim na demora dos órgãos competentes em analisar os processos. A situação foi agravada pela pandemia, uma vez que diversos órgãos suspenderam prazos em função da quarentena. “É aconselhável que as empresas sigam com o trâmite normal de licenciamento, mesmo com prazos suspensos, para que não tenham problemas futuros”, afirma Luiz Fernando Sant’Anna, sócio do escritório de advocacia Demarest, especializado em meio ambiente. 

Sant’Anna também acredita que o foco do debate deveria sair da mudança na legislação e se concentrar na padronização dos processos. “Precisamos de um marco legal”, afirma o advogado. “Se as empresas conhecerem as regras, vão cumprir naturalmente. O maior risco é a desinformação”. 

Como aprimorar o licenciamento ambiental no Brasil

No ano passado, o CEBDS preparou um documento com sugestões para melhorar o processo de licenciamento ambiental no Brasil. Conheça os principais pontos da proposta: 

  • Definição de uma regulamentação específica da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para o licenciamento ambiental 
  • Estabelecimento de critério ou metodologia de trabalho que minimize as assimetrias decorrentes das análises das coordenações no estabelecimento de condicionantes e construção dos Projetos Básicos Ambientais (PBAs).
  • Elaboração de processo estruturado e permanente de diálogo entre o IBAMA e os órgãos intervenientes, repensando os fluxos de relação entre o processo do licenciamento ambiental e os ritos conduzidos pelos órgãos intervenientes.

Por: Rodrigo Caetano (Exame).