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O Destino dos Mamíferos Após a Extinção dos Dinossauros

Quando se fala em extinção em massa, é comum imaginar um meteoro caindo na Terra e dizimando dinossauros, mas não é bem assim. As diversas extinções em massa na história do planeta ocorreram de forma diferente sobre os grupos de seres vivos. Um exemplo são os mamíferos, classe de vertebrados que já existia no tempo dos dinossauros e sobreviveu ao evento extintivo massivo há 66 milhões de anos, que marcou o fim do período Cretáceo. 

Havia quatro linhagens de mamíferos contemporâneas dos répteis gigantes. Todas sobreviveram. Algumas saíram mais chamuscadas, outras menos. Em estudo publicado na Biology Letters, os biólogos Tiago Bosisio Quental, da Universidade de São Paulo, e Mathias Pires, da Universidade Estadual de Campinas, buscam entender de que forma os diversos grupos de mamíferos atravessaram a extinção em massa no fim do Cretáceo. O trabalho contou com apoio da FAPESP. 

"Quando se fala em extinções em massa, subentende-se um evento de grandes proporções, durante o qual um número elevado de espécies se extinguiu em um período relativamente curto", disse Pires. 

Outro modo de se olhar para as extinções em massa é observar o número de espécies no registro fóssil. Verifica-se que em um determinado período geológico ocorreu uma extinção em massa quando o número total de espécies que desapareceu do registro fóssil é muito superior ao número de novas espécies. 

"Ou seja, é quando a taxa de extinções, velocidade com que espécies são perdidas, supera a taxa de especiações, a velocidade com que as espécies são geradas. Isso torna negativa a taxa de diversificação, que é dada pela diferença entre as duas taxas", disse Pires. 

No registro fóssil dos últimos 500 milhões de anos foram identificadas cinco grandes extinções em massa (e muitas outras de menor escala). Elas ocorreram por diversos motivos, como vazamentos magmáticos por centenas de milhares ou milhões de anos, liberando bilhões de toneladas de gases de efeito estufa que envenenaram a atmosfera e bloquearam a radiação solar. 

Foi o que ocorreu na pior das extinções em massa, há 252 milhões de anos, que marcou a passagem dos períodos Permiano ao Triássico (e das eras Paleozoica à Mesozoica), quando mais de 90% das espécies desapareceram. Extinções em massa também ocorreram quando houve a liberação maciça de bilhões de toneladas de gás carbônico (CO2) aprisionadas no subsolo oceânico, causando um megaefeito estufa – como especula-se ter ocorrido no final do período Triássico, há 201 milhões de anos, com perda de 80% das espécies. 

Ou o contrário, com o sequestro de bilhões de toneladas de CO2 da atmosfera, o que derrubou as temperaturas, causando uma severa glaciação planetária. Foi assim há 444 milhões de anos, no fim do período Ordoviciano, quando desapareceram 86% das formas de vida.

Pesquisadores descrevem a dinâmica de diversificação dos mamíferos depois da extinção em massa do fim do Cretáceo. Muitas linhagens contemporâneas aos dinossauros desapareceram, mas outras sobreviveram. Imagem: originação, extinção e taxas de diversificação para os três clados [grupos com um ancestral comum] de mamíferos na América do Norte. Linhas pontilhadas denotam o limite do Cretáceo-Paleógeno.

Evento K-Pg 

A extinção em massa de 66 milhões de anos atrás se chama evento K-Pg, sigla que se refere ao momento em que acaba o período Cretáceo (Kreide, em alemão) e inicia o período seguinte, o Paleógeno (Pg). Em uma escala de tempo mais ampla, o evento K-Pg foi o instante geológico que marca o fim da era Mesozoica, aquela dominada pelos dinossauros, e o início da Cenozoica, os últimos 66 milhões de anos. 

O evento K-Pg foi provocado pela associação de dois fatores: vazamentos magmáticos devastadores onde hoje é a Índia, conjugados com a colisão de um astro celeste de 10 quilômetros de diâmetro na península de Yucatán, no atual México. 

"Todos esses episódios de extinção massiva são heterogêneos. Tiveram causas diferentes e transcorreram de forma diversa. Da mesma forma, seu impacto sobre as formas de vida não foi absoluto, mas relativo. Alguns grupos sofreram mais, outros menos. Alguns desapareceram, enquanto outros aproveitaram as novas condições ambientais pós-catástrofe para se diversificar rapidamente", disse Pires. 

No novo trabalho, os pesquisadores buscaram entender de que modo as diversas linhagens de mamíferos existentes no final do Cretáceo ultrapassaram o gargalo biótico do evento K-Pg. Também participaram do estudo Daniele Silvestro, da Universidade de Gotemburgo (Suécia), e Brian Rankin, da University of California em Berkeley (Estados Unidos). 

A grande classe dos mamíferos surgiu no Triássico há pelo menos 220 milhões de anos, idade do fóssil mais antigo que se conhece. No fim do Cretáceo, a linhagem era bastante diversificada. Havia os placentários (como são popularmente conhecidos os eutérios), linhagem à qual pertence o Homo sapiens, assim como todos os primatas, roedores, morcegos, cetáceos e ungulados, entre outros. 

Havia também os marsupiais (ou metatérios), grupo que hoje acolhe gambás, cangurus e coalas. Eles dividiam o cenário com o grupo dos monotremados e, por fim, com o dos multituberculados (seu nome deriva do formato específico de seus dentes, com vários tubérculos). 

O novo estudo ressalta que a extinção em massa do Cretáceo se abateu fortemente sobre os mamíferos. Isso não quer dizer que todos os quatro grupos sofreram com a mesma intensidade. A extinção em massa foi mais severa para uns do que para outros. 

Durante o Cretáceo, entre 145 e 66 milhões de anos atrás, os multituberculados eram a linhagem dominante e a mais diversificada entre os mamíferos. Sabe-se isso porque, no registro fóssil que antecede o evento K-Pg, os fósseis de multituberculados são a grande maioria. Já os fósseis de placentários e de marsupiais, embora menos numerosos, também são encontrados em bom número. 

A exceção são os monotremados. Assim como ocorre hoje, quando há somente duas famílias de monotremados viventes – das quais fazem parte o ornitorrinco e a equidna –, o registro fóssil dos monotremados é muito rarefeito, tanto antes quanto depois do Cretáceo, sugerindo que este grupo sempre foi relativamente marginal em relação às outras linhagens de mamíferos. É também por essa razão que tal linhagem não foi incluída no estudo. 

Sabendo-se que havia multituberculados, placentários e marsupiais, qual grupo de mamíferos foi mais severamente atingido no K-Pg? De qual linhagem sobreviveram mais gêneros? Qual grupo apresentou o maior aumento de diversidade (maior especiação) nos milhões de anos imediatamente posteriores ao gargalo biótico? Qual grupo jamais se recuperou do cataclismo? 

O único meio para tentar obter respostas a essas perguntas é recorrer ao registro fóssil encontrado em uma mesma região do planeta, de modo a tentar garantir que, há 66 milhões de anos e naquela região, a catástrofe se abateu de forma mais ou menos equivalente sobre todos os grupos de mamíferos. 

Quental e Pires elegeram a América do Norte como local do estudo, uma vez que 150 anos de contínuas prospecções paleontológicas naquele continente fornecem um rico painel da diversidade de mamíferos antes, durante e após o evento K-Pg. 

"A América do Norte apresenta um registro fóssil com qualidade suficiente para esse tipo de estudo. Já foram feitos outros estudos analisando como os mamíferos ultrapassaram a extinção do Cretáceo, mas até onde pudemos constatar este é um dos primeiros a analisar a dinâmica da diversificação das distintas linhagens de mamíferos", disse Quental. 

Os cientistas utilizaram um conjunto de dados com 188 recentes assembleias fossilíferas do Cretáceo e do Paleoceno – abrangendo um lapso temporal que vai de 69,9 milhões de anos até 55 milhões de anos atrás –, formações localizadas no interior ocidental da América do Norte. 

"O registro fóssil de mamíferos da América do Norte possui assembleias muito bem estudadas com datações em torno do evento K-Pg, sendo as ocorrências de fósseis relativamente bem resolvidas, minimizando a incerteza taxonômica. O conjunto de dados que utilizamos inclui informações sobre quase 290 gêneros de mamíferos, entre multituberculados, eutérios e metatérios", disse Quental. 

Foram empregados diversos métodos estatísticos avançados para identificar padrões de originação, extinção e diversificação, antes, durante e após o K-Pg. Os resultados evidenciaram que as três linhagens atravessaram a extinção em massa de maneiras bem distintas. 

O estudo indica que a taxa de originação de Methateria (marsupiais), por exemplo, permaneceu aproximadamente constante durante todo o intervalo de tempo estudado. No entanto, um claro pico de extinção é identificado durante o K-Pg, gerando um saldo líquido de diversificação negativo. Passado o evento K-Pg, a taxa de extinção diminuiu gradualmente. No entanto, a diversificação líquida negativa persistiu por mais de 2 milhões de anos, até cerca de 64 milhões de anos atrás. 

Quanto aos multituberculados, eles estavam se diversificando no fim do Cretáceo, apresentando altas taxas de originação e taxas de extinção relativamente baixas. Já em torno do limite K-Pg, a taxa de extinção permaneceu baixa, mas observam-se quedas na taxa de originação, o que derruba a diversificação de multituberculados para perto de zero. Ou seja, durante o K-Pg a taxa de diversificação encontra-se em equilíbrio, pois aproximadamente a mesma quantidade de gêneros de multituberculados está se originando e se extinguindo. 

Segundo o estudo, decorrido o K-Pg, embora a taxa de extinção dos multituberculados permanecesse em queda, o declínio na taxa de originação era ainda maior, consequentemente levando a uma diversificação negativa. Em outras palavras, a quantidade de gêneros de multituberculados continuou diminuindo durante o restante do período analisado, até 55 milhões de anos atrás. Tal declínio parece ter persistido por muito mais tempo, dado que os multituberculados desapareceram progressivamente do registro fóssil mundial, até, por fim, a linhagem terminar há cerca de 35 milhões de anos. 

Especula-se que a razão para o fim dos multituberculados teria sido a competição crescente com uma nova linhagem de eutérios, os roedores, cuja ordem tem origem justamente logo após o evento K-Pg, já no período Paleógeno. 

Quanto aos eutérios (placentários), o estudo mostra alta originação e alta extinção perto do limite K-Pg, resultando em uma inflexão na diversidade. As taxas de originação eram muito superiores àquelas das extinções, exceto no período entre 66 milhões de anos e 64 milhões de anos atrás. 

Logo após, verifica-se um segundo pulso de originação, acompanhado pela queda nas taxas de extinção, sinal da ocorrência de uma curta explosão na diversificação. Em torno de 62 milhões de anos atrás, a originação de eutérios diminui, enquanto a diversificação fica em torno de zero, sugerindo um equilíbrio de diversidade. 

"Encontramos três padrões de diversificação entre os grupos de mamíferos. Metatheria se comporta da forma clássica em uma extinção em massa. Diversas extinções se agrupam no tempo, levando a uma queda severa na diversificação", disse Quental. 

Segundo o pesquisador, nos multituberculados a diminuição na diversificação e a subsequente perda de diversidade foram impulsionadas pelo declínio das taxas de originação e não pela extinção, ou seja, perderam diversidade porque demoravam muito para gerar novas espécies. 

"Já os eutérios mostram uma dinâmica mais complexa de ascensão e queda, mais precisamente atribuída por oscilações rápidas na taxa de especiação durante e logo após o K-Pg, ao mesmo tempo que a taxa de extinção aumenta, porém, não tanto a ponto de causar uma diversificação negativa por muito tempo", disse Quental. 

Pires ressalta que o estudo mostra que a extinção em massa do K-Pg foi ecologicamente seletiva entre as linhagens de mamíferos, "com uma concentração de extinções entre metatérios carnívoros especializados e eutérios insetívoros, enquanto os eutérios e os multituberculados mais generalistas mantiveram maior diversidade". 

Embora os resultados indiquem que os eutérios (placentários) sofreram perdas substanciais no limite de K-Pg, essas perdas foram compensadas pelo aumento da originação. Pode ter ocorrido diversificação entre os eutérios sobreviventes, graças à chegada à América do Norte de outros grupos de eutérios provenientes de outros continentes. 

"A plasticidade de dietas dos multituberculados pode ter permitido que os grupos persistissem, explicando as baixas taxas de extinção. A diversidade ecológica e taxonômica dos multituberculados foi crescente durante o fim do Cretáceo. No entanto, nossas análises mostram que os multituberculados não compensaram as perdas por extinção, pois geravam cada vez menos diversidade, diferentemente dos eutérios, cujas perdas foram compensadas por altas taxas de originação", disse Pires. 

A conclusão dos pesquisadores indica que, quando os clados (grupos com ancestral comum) são avaliados individualmente, eventos de extinção em massa podem ser vistos como mudanças na extinção, na originação ou em ambos os regimes. 

"Isso significa que os estudos sobre fenômenos macroevolutivos que são centrados em grandes grupos taxonômicos podem estar deixando de contar uma história macroevolutiva muito mais rica, só percebida em escalas taxonômicas mais sutis", destacam. 

O artigo Diversification dynamics of mammalian clades during the K–Pg mass extinction (doi: 10.1098/rsbl.2018.0458), de Mathias M. Pires, Brian D. Rankin, Daniele Silvestro e Tiago B. Quental, pode ser lido em http://rsbl.royalsocietypublishing.org/content/14/9/20180458.

Por: Peter Moon (Agência Fapesp).

Museu da Natureza: O Mais Novo Atrativo da Serra da Capivara

Recém-inaugurado no Piauí, ele aborda desde o surgimento do universo até a contemporaneidade para falar sobre a evolução da natureza na região. Foto: Ingrid Luisa.

Depois da tragédia com o Museu Nacional, que pegou fogo em setembro de 2018, a população brasileira foi alertada sobre o risco que muitos desses espaços sofrem pelo descaso do poder público. E, mais ainda, percebeu que precisava visitar seus museus. Afinal, não está na ordem natural das coisas o Louvre, em Paris, ter mais visitantes brasileiros que o museu carioca antes do incêndio. 

Apesar da grande diversidade que temos, incluindo excelentes acervos científicos, precisávamos de um genuíno museu de história natural para chamar de nosso. Faltava algo que não só explicasse e mostrasse a história do universo, mas situasse o território em que vivemos no meio disso tudo. Mas o Museu da Natureza, que acabou de ser inaugurado no entorno do Parque Nacional Serra da Capivara, interior do Piauí, cumpre com maestria esse papel. 

A experiência 

O Museu da Natureza já chama a atenção pela arquitetura do prédio que o abriga: sendo o primeiro edifício circular e em espiral todo planejado com estrutura metálica no Brasil, as 12 "salas" do museu formam uma grande rampa helicoidal – como o tronco do mandacaru –, para representar, no sentido ascendente, a evolução das mudanças geológicas e paleontológicas do planeta. 

Nele é possível ver e interagir com eventos cruciais desde as origens da vida até a contemporaneidade. Por exemplo, na primeira sala, para ilustrar a atração entre os corpos (que está na essência da formação do Universo), podemos testar mesas com diferentes tipos de ímãs e observar rochas primitivas (e meteoritos) em microscópios. Depois, na sala que informa sobre a formação dos continentes na Terra, podemos reorganizar as massas terrestres atuais como quisermos em um globo gigante. 

O objetivo disso é abranger, sob um ponto de vista cosmológico, todas as eras existentes. O museu é didático e interativo, fornecendo informações e experiências lúdicas para os visitantes. E um grande foco é conhecer mais sobre as espécies que já habitaram a região: de trilobitas a tigres-dente-de-sabre. 

"Todas as salas são vivenciais. Cada uma delas tem recriações de seres e paisagens que aqui existiram. Um dos pontos altos é o voo livre sobre a Serra da Capivara, o filme no teto com narração da [cantora] Maria Bethânia, a recriação da mega fauna brasileira, e o Infinito da Biodiversidade com os milhares de insetos", diz o curador do Museu da Natureza, Marcello Dantas.

 A sala com os fósseis da mega fauna brasileira mostram tigres-dente-de-sabre, preguiças gigantes, dentre outros grandes animais em uma grande parede interativa. Foto: Ingrid Luisa.





O "Infinito da Biodiversidade" é uma sala que fala sobre as intensas mudanças climáticas e as diferentes espécies animais que já habitaram a região. Foto: Ingrid Luisa.

Idealização 

"A ideia de construir o Museu da Natureza partiu da [arqueóloga] Niede Guidon. Ela achava que a nossa história não poderia se limitar à história do homem, pois as descobertas na Serra da Capivara revelaram muito sobre a evolução da natureza", diz Marcello. 

O Museu da Natureza se baseia em quase 50 anos de estudos na região. Situado na zona rural do município de Coronel José Dias (a 516 quilômetros de Teresina-PI), ele está no entorno do Parque Nacional Serra da Capivara, Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO. 

A Serra da Capivara possui a maior concentração de sítios arqueológicos do mundo: mil e duzentos. As milhares de pinturas rupestres, datadas de 12 mil a 6 mil anos atrás, incluem figuras humanas, animais e uma diversidade de cenas cotidianas que as tornam únicas. Mas Niede Guidon acreditava que mais do que a história humana, a Serra também conta a evolução da natureza na região — e do nosso próprio planeta. 

"Quando cheguei na região, majoritariamente composta pela Caatinga, vi que havia vales profundos e muitos rios por aqui. Nas escavações encontramos muitos fósseis marinhos. Mas como eles vieram parar aqui? Eu e uma equipe de geólogos e paleontólogos estudamos tudo e constatamos: o mar já cobriu toda essa região", conta Niede. Um dos fósseis mais comuns na Serra da Capivara são os trilobitas, artrópodes que habitaram os oceanos por quase 300 milhões de anos, do Cambriano ao Permiano — quando foram extintos. 

Com isso em mãos, e após registrar os achados humanos da região no Museu do Homem Americano, Niede idealizou o Museu da Natureza em 2002. Mas o dinheiro só saiu em 2017, por meio do BNDES. E com um pequeno detalhe: sem nenhuma correção monetária em relação a 2002, quando foi idealizado pela primeira vez. Foram necessárias diversas adaptações no projeto para não estourar o orçamento, o que tornou o museu mais simples do que o originalmente imaginado. 

A construção do local começou em junho de 2017, e foi concluída em dezembro de 2018. O Museu da Natureza é uma bela mistura de ciência, tecnologia, arquitetura e arte — e, o melhor: é tudo genuinamente nosso.

Por: Ingrid Luisa (Superinteressante).

Ceifando a Árvore da Vida

Os pandas vermelhos representam 31 milhões de anos de história evolutiva, que agora está ameaçada. Foto: Gerry Ellis/Minden Pictures/Nat Geo.

Desde a ascensão do Homo sapiens, mais de 300 espécies de mamíferos desapareceram, e, com elas, mais de 2,5 bilhões de anos de história evolutiva. A evolução de um ser vivo na Terra é marcada por ciclos de vida e morte. Nos últimos 450 milhões de anos, cinco grandes extinções em massa levaram ao desaparecimento de milhares de espécies de plantas e animais. Ao que tudo indica, vivemos um novo ciclo de extermínio. Atualmente, uma em cada cinco espécies corre risco de extinção e, até o final do século, metade de todas as espécies animais poderá sumir. 

Mas, diferentemente dos processos anteriores, causados por fortes erupções vulcânicas, eras glaciais e queda de meteoritos (como o que extinguiu os dinossauros há 65 milhões de anos), a chamada sexta extinção em massa não está sendo causada por desastres naturais, mas por uma única espécie – nós, humanos. 

Um novo e preocupante estudo [Mammal diversity will take millions of years to recover from the current biodiversity crisis], publicado na revista da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (PNAS), estima que desde a ascensão do Homo sapiens, mais de 300 espécies de mamíferos desapareceram da face da Terra, e com elas, mais de 2,5 bilhões de anos de uma história evolutiva única. 

História evolutiva? Pois é, a biodiversidade é mais do que o número de espécies presentes na Terra, e representa o conhecimento apreendido pelas espécies ao longo de milhares de anos de evolução. 

A soma desses conhecimentos alimenta o que os cientistas chamam de árvore da vida, cujos galhos representam a história de cada espécie que já passou por aqui. E o que o novo estudo mostra é que as perdas nessa seara são desproporcionalmente grandes nas espécies de mamíferos em comparação com o número de espécies que foram extintas recentemente. 

E isso é preocupante. Quanto mais diferenciada a espécie — como é o caso de grandes mamíferos, que levaram centenas de milhares de anos para evoluir a chegar a sua forma atual — maior é o galho e a perda evolucional quando a espécie some. 

"Grandes mamíferos, ou megafauna, como preguiças-gigantes e tigres-dentes-de-sabre, extintos há cerca de 10.000 anos, eram altamente distintos em termos evolucionários. Como tinham poucos parentes próximos, suas extinções significavam que ramos inteiros da árvore evolutiva da Terra eram cortados" diz o paleontólogo Matt Davis, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, que liderou o estudo em comunicado da instituição.

Recuperação 

Embora a cada extinção em massa, o tecido da vida preencha lentamente suas lacunas com novas espécies, nós humanos estamos exterminando animais tão rapidamente que o mecanismo de defesa embutido na natureza, que é a própria evolução, não consegue acompanhar, alerta o estudo, feito em parceria com a Universidade de Gotemburgo, na Suécia. 

A queima de combustíveis fósseis, o desmatamento de florestas para o agronegócio, a construção de cidades em áreas sensíveis, o despejo de resíduos no oceano e a caça excessiva, todas essas atividades tornam a Terra mais hostil aos animais e os empurram para a extinção. 

Se os atuais esforços de conservação não forem melhorados, os pesquisadores advertem que muitas espécies de mamíferos serão extintas ao longo dos próximos 50 anos, e será necessário de 3 a 5 milhões de anos para a natureza se recuperar dessas perdas. 

Na prática, isso seria o tempo que mamíferos menores teriam que evoluir e diversificar para compensar a o sumiço dos grandes mamíferos. Em relação às perdas que ocorreram desde que os humanos modernos começaram a andar por aqui, seriam necessários de 5 a 7 milhões de anos, estima o estudo. 

Para o estudo, os pesquisadores vasculharam um extenso banco de dados de mamíferos que inclui espécies existentes e que viveram no passado recente, mas foram extintas nos últimos 130 anos. 

"Estamos começando a derrubar toda a árvore [da vida], incluindo o ramo em que estamos sentados agora", disse Davis, da Universidade de Aarhus, ao jornal britânico The Guardian. "Estamos entrando no que poderia ser uma extinção na escala da que matou os dinossauros." 

De maneira preocupante, alguns dos grandes animais mais icônicos da atualidade estão enfrentando taxas crescentes de extinção. Espécies criticamente ameaçadas, como o rinoceronte negro, correm alto risco de extinção nos próximos 50 anos. Outras, como os elefantes asiáticos, uma das duas únicas espécies sobreviventes de uma notável ordem de mamíferos que incluía mamutes e mastodontes, têm menos de 33% de chance de sobreviver até o final deste século. 

"Apesar de termos vivido em um mundo de gigantes, como os castores, tatus e cervos gigantes, agora vivemos em um mundo cada vez mais empobrecido de grandes espécies de mamíferos selvagens. Os poucos gigantes remanescentes correm o risco de serem eliminados muito rapidamente", disse Jens-Christian Svenning, da Universidade de Aarhus, no comunicado de imprensa. 

A equipe de pesquisa não tem apenas más notícias, no entanto. Seus dados e métodos podem ser usados para identificar rapidamente espécies em risco de extinção. 

Salvar animais com longas histórias evolutivas, como é o caso do grandes mamíferos ameaçados da atualidade, deveria estar no centro dos esforços de preservação dos governos mundiais, defende o principal autor da pesquisa. "É muito mais fácil salvar a biodiversidade agora do que voltar a evoluí-la mais tarde", disse Davis.

Por: Vanessa Barbosa (Exame).

Seca Que Pode Ter Levado Ao Colapso Da Civilização Maia Provocou Queda De Até 70% Nas Chuvas

Eles dominavam a arquitetura e a matemática. Eles conheciam a astronomia. Eles tinham um sistema de escrita tão eficiente quanto os que existiam, no mesmo período, na Europa. 

A civilização maia, uma das mais proeminentes culturas americanas pré-colombianas, deixou marcas que denotam o seu alto grau de desenvolvimento. Mas, quando os europeus chegaram ao continente americano, pouco havia restado. 

O mistério sobre o desaparecimento dessa civilização ganha mais uma explicação em estudo publicado pela revista Science [Quantification of drought during the collapse of the classic Maya civilization]. Se muitos já acreditavam que teria sido uma forte estiagem a responsável pelo declínio dos maias, uma pesquisa desenvolvida por cientistas da Universidade de Cambridge e da Universidade da Flórida demonstrou qual o tamanho dessa seca. 

"Descobrimos que a precipitação média anual diminuiu em cerca de 41 a 54% em relação a hoje ao longo de várias décadas de seca. Períodos com até 70% de redução da precipitação podem ter ocorrido em períodos de tempo mais curtos dentro das secas", afirma o geoquímico Nicholas Evans, do Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Cambridge, em entrevista à BBC News Brasil. 

Segundo ele, a pesquisa demonstrou que a umidade relativa diminuiu de 2 a 7% no período. "Nossos resultados podem agora ser usados para prever melhor como essas condições de seca podem ter afetado a agricultura, incluindo os rendimentos das culturas básicas dos maias, como o milho." 

Como a seca afetou os maias?

Os primeiros indícios físicos de uma correlação temporal entre a seca e uma transformação sociopolítica da civilização maia foram encontrados mais de vinte anos atrás, em um sedimento do Lago Chichancanab, na península de Yucatán, no México. 

A atual análise da presença de camadas de sulfato de cálcio e o concomitante aumento dos isótopos de oxigênio nas conchas de alguns moluscos indicam que a época conhecida como período clássico terminal foi uma das mais secas da história da região. 

A teoria de que uma mudança climática por volta do ano 1000 teria levado a civilização ao colapso já havia sido apresentada anteriormente. Essa, entretanto, é a primeira vez que uma pesquisa mostra o quão seca foi essa longa estiagem. 

Isso porque os estudos paleoclimáticos anteriores eram baseados em reconstruções qualitativas. Ou seja, por comparação, apenas se sabia que um período era mais seco que o outro. 

No novo estudo, os pesquisadores reconstruíram a composição isotópica da água do lago Chichancanab, no México, a partir de núcleos de sedimentos de sulfato de cálcio hidratado. Eles mediram a presença de oxigênio e hidrogênio - ou seja, as moléculas da água - nesse material decantado há séculos, depositado como camadas no fundo do lago. Com isso, conseguiram um retrato meteorológico da época do declínio dos maias, entre os anos 800 e 1000. 

Os cientistas descobriram que, no período, a precipitação anual nas planícies maias foi reduzida em quase 50% em média - chegando a picos de 70%. 

A região de Yucatán é rica em rochas calcárias, que acabam dissolvidas pela chuva. Um cenário perfeito para os cientistas analisarem as mudanças climáticas a partir desse material. 

Hoje, a água do lago está próxima da saturação para o sulfato de cálcio. Durante épocas passadas, com clima mais seco, quando o lago encolheu, esse material acabou preservado como camadas distintas dentro dos sedimentos acumulados. Esse processo registra a composição isotópica, de forma fracionada. 

Teorias sobre o declínio dos maias 

O auge civilizatório do povo maia ocorreu entre os anos 250 e 950, período chamado de Clássico. Em 750, acredita-se, a população total tenha chegado a 13 milhões de habitantes. Daí em diante, entretanto, houve um declínio rápido e cheio de mistérios. 

Várias hipóteses já foram aventadas e pululam em livros de história. De surtos de doenças a problemas decorrentes da dependência da monocultura, passando por guerras internas, invasão de algum povo estrangeiro e mudanças climáticas. 

Nos últimos anos, a versão climática tem ganhado força, sobretudo por conta de indícios encontrados por cientistas no solo e no fundo de lagos mexicanos. "Outros estudos em toda a região das planícies maias também fornecem pistas de sincronicidade da seca, com apenas pequenas variações temporais em toda a região. Não podemos dizer se essa seca foi experimentada em outras áreas do planeta", ressalta o cientista Nicholas Evans. 

Essa hipótese já era apresentada pelo menos desde 1994, quando o arqueólogo Richardson Benedict Gill publicou o livro The Great Maya Droughts ('As grandes secas maias', em tradução livre). Na obra, ele afirma que a escassez de água teria sido o fator principal no colapso do povo maia. Para isso, ele utilizou o registro histórico de estiagens. 

Mais recentemente, estudos de geólogos e geógrafos da Universidade da Flórida concluíram que, na América Central, o intervalo mais seco dos últimos 7 mil anos ocorreu justamente entre os anos 800 e 1000 – coincidindo com o ocaso maia. 

Uma longa seca não significa que a população maia morreu de sede - ou de fome, considerando a decadência da atividade agrícola devido ao clima complicado. A estiagem não dizimou os maias, mas dispersou a civilização. Os centros populacionais foram sendo abandonados. Cada grupo tratou de buscar algum outro meio de vida. Foi um retrocesso do ponto de vista social. 

Em 2012, outro estudo publicado pela Science apontou que, no caso dos maias, as secas tiveram um papel crucial porque eles dependiam das chuvas de verão para encher seus reservatórios e garantir a atividade agrícola - já que não há rios nas planícies de Yucatán. 

E por que essa seca teria ocorrido? De acordo com Nicholas Evans, é impossível chegar a uma única explicação. 

"Existem várias teorias, mas os dados não sustentam qualquer causa singular. Possíveis teorias incluem o desmatamento, mudanças na frequência dos ciclones tropicais, mudanças na frequência dos eventos El Niño e mudanças na posição da Zona de Convergência Intertropical, entre outros." 

Novas catástrofes no futuro?

Para o pesquisador, não há razão para olharmos para o passado da civilização maia imaginando que algo semelhante possa ocorrer no futuro, em tempos de aquecimento global e outros descontroles. Pelo menos não pelas mesmas razões. 

"Não há ligações diretas entre a seca estudada e os períodos futuros de seca, já que a globalização hoje significa que os seres humanos são capazes de movimentar recursos hídricos e alimentares em todo o planeta, enquanto os maias eram dependentes de chuvas e viviam como uma sociedade agrícola local", afirma. 

"Recursos hídricos, no entanto, são críticos para a sociedade humana, e sem água o mundo não seria capaz de funcionar. Outros cientistas preveem que a severidade da seca em regiões que já são suscetíveis a baixos níveis de chuva e altos níveis de evaporação provavelmente aumentará à medida que os humanos continuarem a influenciar o sistema climático", alerta.

Por: Edison Veiga (BBC).

Órbita da Terra Muda a Cada 405 Mil Anos, Alterando Clima Global, diz estudo

Analisando elementos radioativos em rochas nas profundezas da Terra, cientistas americanos comprovaram o que os cálculos matemáticos já sugeriam; para eles, porém, mudanças climáticas atuais são mesmo resultado do efeito estufa. 

Um novo estudo demonstra que a influência gravitacional de Júpiter e de Vênus provocam, a cada 405 mil anos, uma alteração na órbita da Terra que tem impactos no clima global. De acordo com os autores da pesquisa Empirical Evidence for Stability of the 405-kiloyear Jupiter–Venus Eccentricity Cycle Over Hundreds of Millions of Years, publicada em 07/05/2018, na revista científica PNAS, esse ciclo já havia sido previsto por cálculos de mecânica celeste, mas até agora ninguém havia apresentado evidências físicas de sua existência. 

Segundo os autores, o estudo, que se baseou em escavações feitas em rochas extremamente antigas do Arizona (Estados Unidos), comprovou que o fenômeno tem ocorrido regularmente há pelo menos 215 milhões de anos - antes do aparecimento dos dinossauros -, deixando a órbita mais "alongada". 

"É um resultado espantoso, porque a existência desse longo ciclo, que já havia sido prevista a partir da análise dos movimentos dos planetas nos últimos 50 milhões de anos, foi comprovada e já ocorre há pelo menos 215 milhões de anos. Agora os cientistas poderão ligar esse ciclo de 405 mil anos, de uma maneira muito precisa, às alterações no clima, no ambiente e na evolução dos dinossauros e dos mamíferos, por exemplo", disse o autor principal do estudo, Dennis Kent, da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos. 

Extraindo amostras de rochas extremamente antigas das profundezas do Parque Nacional da Floresta Petrificada, no Arizona, os cientistas identificaram sinais de uma variação regular na órbita da Terra, a cada 405 mil anos, que afeta o clima. Foto: Kevin Krajick/Lamont-Doherty Earth Observatory.

Por várias décadas, os cientistas postulavam que a órbita da Terra em torno do Sol sofre uma modificação a cada 405 mil anos, passando de uma forma quase circular para uma forma 5% mais alongada, ou elíptica. 

O ciclo, segundo eles, é resultado de uma complexa interação com as influências gravitacionais de Vênus, Júpiter e outros objetos do Sistema Solar, que em sua viagem em torno do Sol às vezes estão mais próximos e às vezes mais distantes uns dos outros. 

Segundo os astrofísicos, porém, o cálculo matemático desse ciclo só era confiável nos últimos 50 milhões de anos. Para além desse limite, o problema se torna complexo demais, porque há muitas variáveis em jogo. 

"Há outros ciclos orbitais mais curtos, mas quando olhamos para o passado, é muito difícil saber quais deles têm relações entre si, porque eles mudam muito com o tempo. A beleza desse ciclo maior é que ele não muda. Todos os outros ciclos é que mudam em relação a ele", disse Kent. 

Um dos autores do novo estudo, John Geissman, da Universidade do Texas, puxa um "testemunho de rocha" que acabara de ser extraído no Arizona; a perfuração chegou a 500 metros de profundidade, revelando dados de cerca de 250 milhões de anos. Foto: Kevin Krajick/Lamont-Doherty Earth Observatory.

Escrito nas rochas

A evidência que demonstra a existência do ciclo há pelo menos 215 milhões de anos são amostras de rocha retiradas de até 500 metros de profundidade de uma colina no Parque Nacional da Floresta Petrificada, no Arizona, em 2013. 

As rochas do Arizona que foram estudadas se formaram durante o fim do período Triássico, entre 209 e 215 milhões de anos atrás, quando a área era coberta por rios que carreavam sedimentos. Nessa época, os primeiros dinossauros estavam começando a evoluir. 

Os cientistas determinaram a idade das rochas do Arizona analisando as camadas de cinzas vulcânicas em seu interior que contêm radioisótopos cuja emissão radioativa decai em uma taxa constante. A partir dos sedimentos, eles também detectaram repetidas inversões na polaridade do campo magnético do planeta. 

Antes de escavar o solo no Arizona para obter os "testemunhos de rocha" - como são chamados os "cilindros" de rocha de centenas de metros de comprimento - os cientistas já haviam obtidos testemunhos em Nova Jersey, que mostravam uma alternância entre períodos secos e úmidos ao longo de milhões de anos. 

Eles acreditavam que essas mudanças do clima registradas nas rochas de Nova Jersey eram controladas pelo ciclo de 405 mil anos, mas naquelas rochas não havia camadas de cinzas vulcânicas que permitissem determinar as datas com precisão. 

Combinando os dois conjuntos de dados - obtidos em Nova Jersey e no Arizona -, os cientistas demonstraram que os dois locais se desenvolveram ao mesmo tempo e que o intervalo de 405 mil anos de fato está ligado às variações do clima. 

Os sedimentos que se acumularam nas profundezas da Terra, no local onde fica hoje o Arizona, há mais de 200 milhões de anos, antes do aparecimento dos dinossauros; a foto mostra um "cilindro" de rocha que acabara de ser extraído de uma profundidade de 500 metros. Foto: Kevin Krajick/Lamont-Doherty Earth Observatory.

Profusão de ciclos

Outro dos autores da pesquisa, o paleontólogo Paul Olsen, afirma que o ciclo não muda o clima diretamente, mas intensifica ou enfraquece os efeitos de outros ciclos de duração mais curta, que por sua vez afetam o clima diretamente. Em conjunto, esses ciclos mudam as proporções de energia solar que atingem a Terra em diferentes momentos do ano. 

Ele explica que há um ciclo menor a cada 100 mil anos, ligado à excentricidade da órbita da Terra, um de 41 mil anos, ligado à inclinação do eixo da Terra em relação à órbita em torno do Sol e um ciclo de 21 mil anos ligado a uma oscilação no eixo da Terra. Na década de 1970, cientistas revelaram que esses ciclos menores levaram à alternância entre períodos de aquecimento e resfriamento do planeta, produzindo as glaciações. 

Mas ainda há muita discussão sobre as inconsistências nos dados dos últimos milhões de anos e sobre as relações desses ciclos com o aumento e redução dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera - outro fator que controla o clima global. O que torna os resultados desses fenômenos ainda mais difíceis de entender é a interação constante entre eles. Eventualmente, um ciclo está fora de fase em relação aos outros e uns tendem a neutralizar os outros. Outras vezes, eles podem se combinar provocando mudanças drásticas e súbitas. 

Segundo os autores do novo estudo, a cada 405 mil anos, quando a excentricidade - ou "alongamento" - da órbita está em seu máximo, diferenças sazonais provocadas pelos ciclos mais curtos se tornam mais intensas, deixando os verões mais quentes, os invernos mais frios, os locais secos mais secos e os locais úmidos mais úmidos. Tudo se inverte 202,5 mil anos depois, quando a órbita da Terra se torna mais circular. 

Os cientistas explicam que Júpiter e Vênus exercem forte influência na órbita da Terra por causa do tamanho e da proximidade, respectivamente. Vênus é o planeta mais próximo da Terra, afastando-se dela no máximo 260 milhões de quilômetros. Júpiter está muito mais longe, mas é maior planeta do Sistema Solar, 2,5 vezes maior que a soma de todos os demais. 

Autor principal do novo estudo, Dennis Kent, da Universidade Rutgers, mostra parte de um "testemunho de rocha" de 518 metros de comprimento retirado do Parque Nacional da Floresta Petrificada, no Arizona; ao fundo, pode-se ver as caixas do arquivo de amostras de rochas retiradas de Nova Jersey, para comparação. Foto: Nick Romanenko/Rutgers University.

Efeito estufa é decisivo

Segundo Olsen, o sistema é tão intrincado que ainda há muita pesquisa a ser feita para que se compreenda completamente as relações entre a órbita e o clima da Terra. "É uma coisa realmente complicada. Nós utilizamos basicamente o mesmo tipo de conhecimento matemático que é utilizado para enviar espaçonaves a Marte - e que funciona muito bem na prática. Mas quando começamos a estudar os movimentos interplanetários em um passado mais remoto e a ligá-los a mudanças no clima, temos que admitir que não entendemos todo o funcionamento." 

Neste momento, segundo os cientistas, a órbita da Terra está no momento mais "circular" dos últimos 405 mil anos. "Para nós isso provavelmente não tem nenhum significado muito perceptível. Esse ciclo está bem longe do topo da lista de coisas que podem afetar o clima em escalas de tempo que nos afetem. Neste momento, todo o dióxido de carbono que nós lançamos na atmosfera é um problema muito maior, com efeitos muito mais importantes nas nossas vidas. O ciclo planetário é bem mais sutil", disse Kent.

Por: Fábio de Castro (O Estado de S. Paulo).

'Homo sapiens' Surgiu 100 Mil Anos Antes Do Que Se Pensava, aponta estudo

O Homo sapiens, espécie à qual pertencemos, não data de 200.000 anos como se acreditava até agora, mas de 300.000, segundo os fósseis encontrados no Marrocos de indivíduos extremamente parecidos com o Homem atual. "Esta descoberta representa a origem da nossa espécie, trata-se do Homo sapiens mais velho já encontrado na África e em qualquer outro lugar", explicou o francês Jean-Jacques Hublin, coautor da pesquisa e diretor do Departamento de Evolução Humana do Instituto Max Planck em Leipzig, na Alemanha. 

"O ninho dos fósseis humanos" encontrado em excelente estado de conservação durante escavações iniciadas em 2004 no sítio de Jebel Irhoud, no noroeste do Marrocos, continha os restos de pelo menos cinco indivíduos: três adultos, um adolescente e uma criança. 

Os pesquisadores descobriram que "o rosto de um destes primeiros Homo sapiens é [igual] ao de qualquer pessoa com a qual poderíamos cruzar no metrô", afirmou Hublin, cuja pesquisa foi publicada em 07/06/2017 na revista Nature [Oldest 'Homo sapiens' Fossil Claim Rewrites Our Species History] junto com outro estudo que aponta na mesma direção. 

Seu crânio, no entanto, é bastante diferente do visto no Homem atual. "Ainda há uma longa evolução à frente antes de chegar a uma morfologia moderna", afirmou este professor. 

A datação destes fósseis foi obtida por Daniel Richter, especialista do Instituto de Leipzig, por meio da termoluminescência, uma técnica muito comum utilizada desde os anos 1980. 

A equipe de arqueólogos encontrou também neste local, situado a 400 km ao sul de Rabat, fósseis inestimáveis, como uma mandíbula, "provavelmente a mais bela de um Homo sapiens jamais encontrada na África", disse Hublin. 

Os Homens de Jebel Irhoud destronam assim o Omo I e Omo II, descobertos em Omo Kibish, na Etiópia, e datados de 195.000 anos. 

Também na Etiópia foram encontrados três fósseis de crânios datados de 160.000 anos.

Coexistência com outras espécies 

Estas descobertas realizadas na mesma região fizeram pensar que o Homem atual era descendente de uma população localizada no leste da África. Uma teoria que, com o encontrado em Jebel Irhoud, é completamente questionada. 

Além disso, os utensílios achados nesse local junto com nossos ancestrais - essencialmente pontudos - são típicos do que se conhece como Middle Stone Age ("Idade Média da Pedra", em tradução livre). 

"Já haviam descoberto este tipo de objeto, igualmente datados de 300.000 anos, em várias partes da África, mas não sabiam quem os teria fabricado", explicou Daniel Richter. 

Agora, os pesquisadores consideram que podem associar a presença dos utensílios da Middle Stone Age à do Homo sapiens. 

"Com certeza, antes de 300.000, antes de Jebel Irhoud, houve uma dispersão de ancestrais de nossa espécie no conjunto do continente africano", disse Hublin. "O conjunto da África participou desse processo". 

O Homo sapiens arcaico, o Homo erectus e o Neandertal podem ter coexistido não apenas em regiões distantes, mas também em zonas próximas. 

"Portanto, durante muito tempo houve várias espécies de Homens no mundo, que se cruzaram, coabitaram, trocaram genes...", explicou à AFP o paleoantropólogo Antoine Balzeau, que não participou da descoberta no Marrocos. 

"Nos distanciamos cada vez mais desta visão linear da evolução humana como uma sucessão de espécies", concordou Hublin. 

A sobrevivência, uma sorte? 

Balzeau advertiu contra a tendência de acreditar que o Homo sapiens sobreviveu ao resto das espécies por ser superior. "Durante muito tempo exageramos as características do Homo sapiens, sobretudo as capacidades de nosso cérebro". 

Mas estudos recentes mostraram que "não havia grandes diferenças em termos de valor, comportamento ou complexidade entre o Homo sapiens e o Neandertal". "É frustrante, mas não sabemos o motivo pelo qual continuamos a existir e os outros desapareceram. Acreditamos muitas vezes que somos uma conquista evolutiva, mas se deve também à sorte de continuarmos aqui!". 

Descoberta sobre Homo sapiens deve revolucionar o estudo da evolução humana 

Abdelouahed Ben-Nce e Jean-Jacques Hublin.
As escavações no noroeste de Marrocos começaram em 2004. A equipe trabalhou com fósseis de ao menos cinco indivíduos: três adultos, um adolescente e uma criança. Por uma tecnologia de datação por termoluminescência em pedras encontradas no sítio arqueológico, conseguiram chegar à idade dos ossos. A mesma técnica ajudou a recontar o tempo de existência de três mandíbulas também descobertas em Omo Kibish. Daniel Richter, especialista em datação do Instituto de Leipzig, concluiu que elas não tinham 160 mil anos, como apontado por ressonância paramagnética eletrônica, mas 300 mil. 

Para os investigadores, a acentuada diferença de tempo e a grande distância entre os fósseis do Marrocos e da Etiópia lançam dúvidas sobre a teoria de que o homem atual é descendente de uma população localizada no leste da África. “Com certeza, antes de 300 mil anos, antes de Jebel Irhoud, houve uma dispersão de ancestrais de nossa espécie no conjunto do continente africano. O conjunto da África participou desse processo”, diz Jean-Jacques Hublin. 

Ferramentas de pedras encontradas próximas aos fósseis também ajudam a reforçar a tese. Em vez de machados, comumente encontrados em sítios com vestígios do Homo sapiens, havia utensílios pontiagudos. Segundo o paleoantropólogo Shannon McPherron, eles foram feitos de sílex (variedade de quartzo) de alta qualidade. “Os artefatos de pedra de Jebel Irhoud parecem muito semelhantes aos encontrados no leste e no sul da África. É provável que as inovações tecnológicas da metade da Idade da Pedra estejam ligadas ao surgimento do Homo sapiens”, avalia o autor de um dos artigos. 

Encontro possível 

A possibilidade de ligar ferramentas da Idade da Pedra ao Homo sapiens sinaliza ainda uma coexistência de espécies. O Homo sapiens arcaico, o Homo erectus e o Neandertal podem ter coexistido não apenas em regiões distantes, mas também em zonas próximas. “Portanto, durante muito tempo, houve várias espécies de homens no mundo, que se cruzaram, coabitaram, trocaram genes”, explica o paleoantropólogo Antoine Balzeau, não participante do estudo, em entrevista à AFP. Hublin concorda. “Nos distanciamos cada vez mais dessa visão linear da evolução humana como uma sucessão de espécies.” 

Em um comentário publicado na revista Nature, os paleoantropólogos Chris Stringer e Julia Galway-Witham, do Museu de História Natural de Londres, no Reino Unido, ressaltam que análises de DNA indicam que a linhagem dos humanos modernos se diferenciou dos Neandertais e dos Denisovans, nossos parentes mais próximos, há cerca de 500 mil anos, bem antes dos fósseis encontrados no sítio arqueológico marroquino. “Isso pode significar que existiram membros mais recentes da linhagem Homo sapiens que tinham características preponderantemente arcaicas, em vez dos traços modernos. Até agora, tem sido difícil identificar esses fósseis.” 

Para a dupla de especialistas, os fósseis anunciados nesta semana terão impacto marcante no estudo da espécie humana. “(A descoberta) poderá iluminar a evolução da nossa espécie de uma maneira equivalente à que o fóssil de Neandertal encontrado em Sima de los Uesos, na Espanha, fez com o nosso conhecimento sobre o desenvolvimento dos Neandertais”, comparam. 

Abdelouahed Ben-Ncer, do Instituto Nacional de Arqueologia e Patrimônio do Marrocos e participante do estudo, também aposta no surgimento de novos olhares sobre a história humana. “A África do Norte tem sido negligenciada nos debates em torno da origem de nossa espécie. As espetaculares descobertas de Jebel Irhoud demonstram as estreitas conexões do Magrebe com o resto do continente africano no momento da emergência do Homo sapiens.”


'Austroposeidon magnificus': A Maior e Mais Nova Espécie de Dinossauro Encontrada no Brasil

Uma nova espécie de dinossauro, considerada a maior do Brasil já descrita, foi identificada e anunciada por um grupo de paleontólogos, composta por Alexander Kellner e a estudante de doutorado, Kamila Bandeira, ambos do Museu Nacional (MN), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Diogenes de Almeida Campos, coordenador do Museu de Ciências da Terra; Felipe Simbras, do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello (Cenpes, Petrobras); Gustavo Oliveiro, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE); e Elaine Machado, da Universidade Estácio de Sá. 

Batizada como Austroposeidon magnificus, a nova espécie, por suas características, foi classificada no grupo dos titanossauros – herbívoros de pescoço e cauda longos, com crânio pequeno. Viveu há 70 milhões de anos no planeta, andava em grupo e tinha cerca de 25 metros de comprimento. Para se ter uma ideia de sua magnitude, era maior em tamanho do que aqueles ônibus duplos e articulados do sistema de transporte BRT. Antes de sua descoberta, o maior dinossauro, também do grupo dos titanossauros, era o Maxakalisaurus topai, com 13 metros de comprimento. 

A pesquisa para a descoberta dessa nova espécie foi realizada com base nos fósseis encontrados nos anos 1950 na cidade de Presidente Prudente, São Paulo, por Llewellyn Ivor Price (1905-1980), considerado o pai da paleontologia no Brasil, durante a construção de uma rodovia. À ocasião, os ossos foram levados para o Museu de Ciências da Terra, que atualmente é administrado pelo Serviço Geológico Brasileiro (CPRM). De acordo com Kellner, apesar da crise atual que impede as pesquisas avançarem por falta de recursos financeiros, grande parte desse estudo foi financiado com ajuda de subsídios cedidos pela FAPERJ. “Entre os motivos pelos quais esse material ficou tanto tempo ser analisado, tenho que destacar a falta de verbas e recursos tecnológicos”, justifica o paleontólogo. 

Para se chegar à conclusão do tamanho final do gigante notável muito trabalho foi realizado. Incessantes análises, que envolveram inclusive a tomografia computadorizada, foram realizadas. De acordo com Kamila Bandeira, como só havia ossos da coluna vertebral, um dos recursos foi estruturar uma montagem do Austroposeidon magnificus com comparação a outras espécies. “Se você comparar o tamanho do buraco de onde se encaixa a espinha dessa nova espécie com o Maxakalisaurus topai, por exemplo, a diferença é gritante. O tamanho do Austroposeidon magnificus já nos dava claros sinais de sua magnitude”, diz Bandeira. 

Para Diogenes, a ossada do crânio poderia ajudar muito nas pesquisas, porém, como o fóssil pertence a uma espécie de titanossauro que morreu de causas desconhecidas, fica difícil a total conservação de sua estrutura. “Imagina o banquete que um animal morto desse tamanho representou à ocasião para outros dinossauros? Ele certamente foi todo desmembrado, pois cada espécie que se alimentou dele de uma forma diferente e, inclusive, havia aquelas que quebravam a caixa craniana para comer o cérebro do dinossauro. O que sobrou se conservou porque de alguma forma, a ossada final acabou sendo levada para o fundo de uma lagoa e acabou se petrificando”, explica. 

O Austroposeidon magnificus representa a 23ª espécie achada no Brasil e, de acordo com Kellner, pode ser equiparada aos maiores exemplares de titanossauros encontrados em terras portenhas. “Essa descoberta, além de aumentar a diversidade dos dinossauros brasileiros, vem para suprir um questionamento que eu tinha há tempos: do porquê não haver no Brasil um exemplar de dinossauro tão grande quanto os encontrados na Argentina, que beiram os 36 metros de comprimento, que é nossa vizinha. Agora, com a chegada do Austroposeidon magnificus, fica mais evidente que é possível achar fósseis de espécies ainda maiores aqui no País. Certamente, paleontólogos vão reexaminar as suas coleções em busca de novos materiais de dinossauros gigantes. Ficaremos felizes se isso ocorrer”.

Por: Danielle Kiffer (Agência Faperj).

Crânio Resgatado de Caverna Submersa no México Dá Pistas Sobre o Povoamento das Américas

Análises morfológicas e genéticas do fóssil de 12 mil anos reforçam a hipótese de que o continente americano foi povoado por uma única onda migratória da Beríngia.  

Os primeiros habitantes das Américas chegaram ao continente entre 26 mil e 18 mil anos atrás, atravessando o estreito da Bering (entre a Rússia e o Alasca) num período glacial em que o nível do mar estava bem mais baixo e havia uma “ponte” de terra firme exposta, ligando a Ásia e a América do Norte. Isso é praticamente um consenso dentro da ciência, baseado em evidências fósseis, moleculares e paleontológicas e arqueológicas. Mas uma grande dúvida persiste: Quantas ondas migratórias passaram por essa ponte de terra, chamada Beríngia, antes de ela se “fechar” e ficar submersa novamente? Em outras palavras: Os primeiros seres humanos que chegaram às Américas e deram origem aos povos ameríndios que já estavam aqui antes de Colombo e Cabral são descendentes de uma única população genética, ou mais de uma? (Não apenas da Ásia, mas quem sabe até da Oceania ou da África, por via marítima?).

A dúvida que atormenta os cientistas e historiadores deve-se ao fato de que a morfologia dos crânios mais antigos das Américas (dos chamados paleoamericanos, com cerca de 9 mil anos de idade) não se “encaixa” com a dos ameríndios modernos, nem com a dos povos siberianos nem com a de outros povos asiáticos que poderiam ser, teoricamente, seus ancestrais.

Mas eis que uma luz no fim do túnel — ou melhor, no fim de uma caverna — acaba de aparecer para esclarecer a questão (ou confundi-la ainda mais, dependendo de como o trabalho for avaliado pela comunidade científica nos próximos anos; vamos ver). Pesquisadores descobriram, no fundo de uma caverna mexicana chamada Hoyo Negro, o fóssil de uma menina de aproximadamente 15 anos de idade, cujas datações por radiocarbono indicam ter vivido cerca de 12 mil anos atrás. O crânio dela tem a morfologia característica dos paleoamericanos — diferente dos ameríndios e siberianos modernos. O DNA mitocondrial extraído de seus dentes (muito bem preservados pelas características da caverna), porém, é muito semelhante ao dos ameríndios modernos, indicando que ela possui uma relação direta de ancestralidade com eles.

O que se pode inferir, portanto, é que, apesar da morfologia cranial distinta, os paleoamericanos são ancestrais diretos dos ameríndios (em vez de representar uma população distinta). O que, por sua vez, reforça a tese de que as Américas foram povoadas por uma única onda migratória da Beríngia. As diferenças morfológicas que se observa hoje, segundo os cientistas, teriam surgido como modificações adaptativas ao novo ambiente das Américas, depois que a população original da Eurásia atravessou a ponte e se espalhou pelo novo continente.

O estudo, liderado por James Chatters, da Applied Paleoscience and DirectAMS, e apoiado pela National Geographic Society, está publicado na revista Science: http://www.sciencemag.org/content/344/6185/750

O local onde o fóssil foi descoberto é tão espetacular quanto a descoberta em si. Hoyo Negro é uma caverna submersa, de 62 metros de diâmetro, acessível apenas por mergulhadores técnicos altamente especializados, que precisam percorrer um túnel de aproximadamente 50 metros para chegar lá, entrando por um cenote chamado Ich-Balam. 

Hoje, a base do salão está quase 50 metros abaixo do nível do mar, mas quando a menina paleoamericana estava viva, ele era uma caverna seca, como provam as estalagmites e a camada de guano (fezes de morcego) que cobrem o seu chão. E a entrada mais próxima estava a 600 metros do salão. A menina, assim, como vários animais e outros seres humanos da época, provavelmente ficou presa e acabou morrendo dentro desse sistema de cavernas, chamado Sac Actun, que foi inundado quando as geleiras ao norte derreteram e o nível do mar voltou a subir, entre 4 mil e 10 mil anos atrás. Imagine só!

Fonte: Estadão. Por: Herton Escobar.