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'ESG' Sob Ataque: Afinal, É Tudo Conversa Fiada?


Para o ex-diretor de Sustentabilidade da BlackRock, sim, o mundo está sendo enganado com isso; veja o que dizem pesquisadores brasileiros. 

O avião do ESG ['environmental, social and corporate governance'; governança ambiental, social e corporativa] mal decolou e já está levando pedrada. E quem atira não é nenhum desavisado que ignora o assunto, mas justamente o ex-diretor de Investimentos Sustentáveis da BlackRock, a maior gestora de capitais do mundo e principal propulsora desse movimento no planeta. 

Tariq Fancy foi contratado em janeiro de 2018 por Larry Fink, o CEO da BlackRock, para fazer exatamente o que preconiza o ESG, ou seja, incorporar os critérios ambientais, sociais e de governança nos US$ 8,7 trilhões sob gestão da empresa. Fez isso e não encontrou valor nenhum nos dados. 

Saiu de lá em setembro de 2019 e começou a atirar há dois meses, primeiro com um artigo no USA Today e depois com uma série de entrevistas, em que lança petardos como este: “O investimento sustentável se resume a pouco mais do que marketing, uma invenção de relações públicas e promessas falsas da comunidade de investidores”. E este: “O ESG cria um placebo social gigante, em que pensamos que estamos progredindo, embora não estejamos”. E mais este: “Em essência, Wall Street está dando uma lavagem verde ao sistema econômico e, neste processo, criando uma distração mortal”. 

Forte, não? A tese de Fancy é que somente a regulamentação governamental pode impedir o desastre das mudanças climáticas. Ele até contemporiza um pouco, dizendo que parte do movimento ESG, incluindo várias ferramentas e padrões, são passos na direção certa, mas ressalta que eles não estão sendo usados corretamente. “Os problemas sistêmicos exigem soluções sistêmicas lideradas por líderes eleitos democraticamente”, conclui. 

Fancy não é um lunático. Pelo contrário, vejo o ceticismo dele refletido em muitas rodas de conversa espalhadas por aí. Mas penso que, num momento crucial de engajamento de empresas mundo afora para fazer algo diferente, ele acabou jogando o bebê fora com a água do banho. Mas eu sou apenas um desavisado que ignora o assunto nesta história toda. Então conversei com dois grandes especialistas brasileiros para perguntar a opinião deles sobre a controvérsia causada por Fancy. 

Para Ricardo Abramovay, professor sênior do Programa de Ciência Ambiental do IEE/USP, o ESG é um modelo de proteção do mercado financeiro, e quem tem a expectativa de que ele vai resolver os problemas do mundo e permitir o crescimento sustentável certamente vai se frustrar. “Por mais importante que seja o setor privado, ele não é capaz de preencher todas as necessidades da sociedade. É preciso que o Estado atue para reformular a relação da sociedade com a natureza e combater a desigualdade”, afirma. 

“Daí a dizer que é tudo greenwashing e que as orientações do mercado financeiro não são importantes, há um grande engano. A BlackRock foi importantíssima para compelir os três maiores bancos privados brasileiros a lançar um programa para a proteção da Amazônia. Somos gratos a ela por isso. É ótimo que o mercado financeiro continue a pressionar”, disse Abramovay, autor de Amazônia: Por uma Economia do Conhecimento da Natureza. 

Para a professora Monica Kruglianskas, da FIA Business School, a crítica de Fancy pode ser considerada radical se confundirmos o ESG com todo o espectro da sustentabilidade. “Não dá para dizer que isso é distração”, afirma ela. “Mas ele traz uma reflexão importante. As empresas são rule-takers, e não rule-makers. É difícil e improvável que os negócios mudem as regras do jogo enquanto estão jogando”, diz. 

Na opinião de Monica, o setor financeiro, apesar do seu tamanho, poder e influência, esteve bastante ausente no debate sobre a crise climática nos últimos tempos – por exemplo, no Acordo de Paris e nas COPs – e ainda não tem acordos definidos para objetivos globais. 

“Há menos de cinco anos, a ideia de clima como externalidade a ser incluída na contabilidade de um investimento nem era considerada. São as movimentações de governos, especialmente da Comunidade Europeia, do Reino Unido e agora também dos Estados Unidos, por meio da criação de leis, e não autorregulamentações e guidelines, que estão mudando este cenário”, diz ela, que é doutora em Sustentabilidade e Reputação Corporativa pela Universidade de Barcelona e foi diretora de desenvolvimento sustentável da Danone na Espanha. 

“Os desafios da crise climática e social são, efetivamente, questões sistêmicas e precisam da inclusão de todos os atores para regenerar o nosso sistema socioeconômico. Não basta inovar processos e produtos, temos que criar novos e sustentáveis modelos de negócios”, afirma Monica. 

E conclui: “O que todo investidor deveria se perguntar é como um determinado investimento ESG está efetivamente fazendo a diferença na vida das pessoas. Seja com melhores condições de trabalho, seja reduzindo violações dos direitos humanos ou emissões de CO₂, ou melhorando a gestão dos recursos que precisamos para sobreviver neste planeta. Ou ainda, se está realmente ajudando a solucionar desafios na cadeia global de suprimentos que sustentam o nosso estilo de vida insustentável. Sob estas lentes, a jornada ESG apenas começou.”

Por: Renato Krausz (Exame).

Articulação Entre Municípios é Essencial Para Combate à Seca e Desastres Naturais


Estudos identificam vulnerabilidades e capacidade de resposta aos efeitos das mudanças climáticas na macrometrópole paulista. Pesquisadores também apontam a necessidade de compreender as disparidades sociais e a distribuição desigual dos riscos dentro de uma mesma cidade (enchente no município de Itaoca, no Vale do Ribeira; foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil). 

Na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), as cidades com maior vulnerabilidade à seca e outros desastres naturais são também as que têm mais capacidade socioeconômica para se adaptar ao problema. Se por um lado isso parece ser positivo, por outro, evidencia a necessidade de articulação não só entre os municípios, mas também nas diferentes esferas governamentais para priorizar e definir as melhores maneiras de atingir a resiliência climática. 

É o que afirma uma equipe multidisciplinar de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e da Universidade Federal do ABC (UFABC) em artigo publicado na revista Sustainability. No estudo, a equipe comparou indicadores socioeconômicos e de vulnerabilidade climática entre os 174 municípios que formam a macrometrópole paulista – área com cerca de 30 milhões de habitantes e que abrange as regiões metropolitanas de São Paulo, Campinas, Sorocaba, Baixada Santista e o entorno do Vale do Paraíba. 

“Das 19 municipalidades mais vulneráveis à seca e desastres naturais, 18 estão situadas na RMSP e uma no Vale do Paraíba. Apesar de esses municípios terem boa capacidade de resposta às mudanças climáticas, eles estão longe de avançar ou de tomar as medidas necessárias para enfrentar os desafios climáticos que já se fazem presentes, e que devem aumentar nos próximos anos”, diz Pedro Henrique Campello Torres , pesquisador da USP e autor do estudo. 

O trabalho integra um Projeto Temático sobre a macrometrópole paulista que trata de cinco eixos principais e interdisciplinares: análise de vulnerabilidades, serviços ecossistêmicos, energia, mudanças climáticas e inovação. 

Os 19 municípios selecionados no estudo são: Arujá, Caieiras, Carapicuíba, Cotia, Diadema, Embu das Artes, Embu-Guaçu, Itapecerica da Serra, Itapevi, Itaquaquecetuba, Jandira, Mauá, Osasco, Poá, São Caetano, São Lourenço da Serra, São Paulo, Taboão da Serra e Jambeiro (o único no Vale do Paraíba e, portanto, distante dos demais). 

Os dados econômicos e de infraestrutura mostram que, embora muitos desses municípios tenham a capacidade institucional para apresentar planos próprios, outros apresentam maior dificuldade. Um exemplo destacado pelos pesquisadores é a cidade de Itaquaquecetuba, que tem Produto Interno Bruto (PIB) muito menor do que as outras cidades, como a capital paulista ou as que formam a região do ABC. 

Outro estudo realizado pelo mesmo grupo e publicado no International Journal of Urban Sustainable Development mostrou que a falta de uma governança antecipatória e de infraestrutura são razões para os recorrentes casos de mortes por enchentes na macrometrópole paulista. “São esses mesmos municípios que, por óbvio, precisam fazer ações imediatas para combater problemas presentes e futuros”, afirma Torres. 

Além da maior articulação entre municípios e níveis de governo, um terceiro artigo publicado pelo grupo de pesquisadores na revista Mercator propõe uma abordagem mais aprofundada para compreender disparidades sociais e a distribuição desigual dos riscos dentro de uma mesma cidade. 

“É preciso que o gestor municipal saiba quais são as áreas mais vulneráveis, fazendo uma governança que tenha justiça distributiva. No fim das contas, estamos falando de um futuro incerto, o que é muito complexo em política, que precisa ser certeira, usar os recursos da melhor maneira possível e com base na ciência. O melhor caminho então é planejar uma governança colaborativa e não concorrente”, diz Pedro Jacobi, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP) e coordenador do Projeto Temático. 

De acordo com os pesquisadores, no contexto da macrometrópole paulista, a vulnerabilidade fica evidente quando se abordam os territórios periféricos. A análise espacial de infraestrutura e de serviços mostra que, do ponto de vista do meio físico, são mais frágeis, suscetíveis a processos de deslizamentos e inundações. Já do ponto de vista ambiental, são também os territórios periféricos os responsáveis pela manutenção dos serviços ecossistêmicos quando resguardados pelas leis de proteção ambiental – o que pode resultar em conflitos entre proteção ambiental e direito à moradia e à cidade. 

Mais frequentes e mais extremos 

Os eventos climáticos extremos já afetam os municípios da macrometrópole paulista. Secas severas, chuvas extremas e inundações vêm ocorrendo de forma mais grave em várias cidades da região durante diferentes épocas do ano. 

Nos últimos anos, as políticas de prevenção de desastres têm crescido no Brasil, amparadas em uma nova perspectiva de leis baseadas na mitigação, prevenção, preparação e resposta. 

De acordo com os pesquisadores, a última grande seca que afetou a RMSP entre 2013 e 2015, por exemplo, reforçou a necessidade de uma resposta política regional às questões climáticas, levando em conta suas interdependências e vulnerabilidades. 

“Essa abordagem regional complementa as perspectivas atuais, que estão focadas em nível nacional ou municipal. Porém, existe uma ausência de planejamento conjunto e essa maior articulação parece ser essencial para priorizar e usar melhor os recursos disponíveis, não só os financeiros, mas de pesquisa, que possam servir de base para a tomada de decisão conjunta e em diferentes esferas governamentais”, diz Torres. 

Os pesquisadores afirmam que um dos motivos para essa falta de foco regional no combate às mudanças climáticas é a indisponibilidade de planejamento e cenários regionais. “Com isso também ficaria mais evidente uma avaliação da resposta das políticas para a região, que é a mais rica do Brasil e uma das mais ricas do Sul Global”, diz Torres. 

O grupo de pesquisadores analisou ainda como esses municípios da macrometrópole paulista estavam em relação às políticas e planos territoriais de planejamento e resiliência. “Para nossa surpresa, todos os 19 tinham aderido, por exemplo, ao plano de prevenção da defesa civil e apenas quatro não faziam parte do Programa Cidades Resilientes [Arujá, Embu, Embu-Guaçu e Itapevi]”, diz Torres. 

De acordo com o pesquisador, isso mostra que, de certa maneira, os municípios demonstram a necessidade de ações de enfrentamento e de maior articulação. “Caso contrário, nem sequer teriam atendido a esses programas. Não é qualquer município que pode assinar um compromisso internacional de se tornar uma cidade resiliente”, diz Torres. 

O artigo Vulnerability of the São Paulo Macro Metropolis to Droughts and Natural Disasters: Local to Regional Climate Risk Assessments and Policy Responses (doi: 10.3390/su13010114), de Pedro Henrique Campello Torres, Demerval Aparecido Gonçalves, Flávia Mendes de Almeida Collaço, Kauê Lopes dos Santos, Katia Canil, Wilson Cabral de Sousa Júnior e Pedro Roberto Jacobi, pode ser lido em www.mdpi.com/2071-1050/13/1/114. 

O artigo Why do extreme events still kill in the São Paulo Macro Metropolis Region? Chronicle of a death foretold in the global south (doi: 10.1080/19463138.2020.1762197), de Luciana Travassos, Pedro Henrique Campello Torres, Gabriela Di Giulio, Pedro Roberto Jacobi, Edmilson Dias De Freitas, Isabela Christina Siqueira e Tércio Ambrizzi, pode ser lido em www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/19463138.2020.1762197. 

O artigo Vulnerabilities, risks and environmental justice in a macro metropolitan scale (doi: 10.4215/rm2021.e20003), de Katia Canil, Rodolfo Baêsso Moura, Samia Nascimento Sulaiman, Pedro Henrique Campello Torres, Anna Luisa Abreu Netto e Pedro Roberto Jacobi, pode ser lido em www.mercator.ufc.br/mercator/article/view/e20003.

Por: Maria Fernanda Ziegler (Agência Fapesp).

Majestades Verdes: Conheça as 10 Maiores Florestas do Mundo


Para conhecer um lugar do meio ambiente não basta olhar o mapa. Seres vivos de grandeza insuperável, elas guardam segredos e belezas. 

No mapa mundi elas são imensas manchas verdes, na vida real são importantíssimas para o equilíbrio do planeta. Responsáveis pela maior parte da cobertura vegetal e hídrica mundial, elas são o lar de milhares de espécies de animais e plantas; muitas em extinção. Já imaginou passar a noite em um desses locais? Conhecer de perto, percorrer trilhas, nadar, explorar e se aventurar na vastidão? A ideia pode ser amedrontadora mas, acredite, esse é o sonho de muita gente. Seja no estilo mais despojado ou acompanhado de luxo e conforto, conheça as possibilidades turísticas por entre as dez maiores florestas mundiais. 

Floresta Amazônica - América Latina


A maior floresta tropical do mundo se encontra aqui, na região norte do nosso país. Com mais de 7 milhões de km2, a Amazônia abrange sete estados brasileiros e nove países da américa Latina, sendo um dos destinos mais procurados por turistas. Quando falamos em floresta Amazônica, a palavra-chave é diversidade. Em adição às grandes áreas de florestas, ela possui cerrados e campos rupestres, campinas, matas secas, igapós, manguezais, ilhas, praias fluviais de areia branca, cachoeiras, e riquíssimas flora e fauna, com cerca de 30 mil espécies de plantas e 30 milhões de espécies animais. Além de ser um dos ecossistemas mais ricos existentes, abriga cerca de 20% dos recursos hídricos de todo o planeta, influenciando diretamente no equilíbrio climático da Terra. 

Para quem pretende visitar a Amazônia, existem serviços diversos, desde hotéis em meio a floresta a cruzeiros de luxo que navegam pelos rios. A melhor época para visitação vai depender de sua intenção. Durante a época de cheia que normalmente vai de abril a julho, é quando formam-se mais igarapés. O período de seca ocorre normalmente de outubro a dezembro, quando os rios estão mais baixos, trazendo à tona praias fluviais e cachoeiras. 

O turista que visita o local pode aguardar experiências únicas, como nadar com botos-cor-de-rosa. O encontro das águas, como é chamada a junção entre o Rio Negro e o Rio Solimões, é um fenômeno que só pode ser visto lá. Desse encontro, nasce o Rio Amazonas, cuja nascente brota antes de entrar em terras brasileiras. Ele nasce na Cordilheira dos Andes, com o nome de Marañon. Ao entrar no Brasil, recebe o nome de Rio Solimões que, ao se encontrar com o Rio Negro, é batizado de Rio Amazonas, responsável por 17% da água líquida do planeta. 

Onde ficar: Você pode optar por hotéis em meio à selva, fazer cruzeiros fluviais, se hospedar na cidade de Manaus ou até mesmo fazer um mochilão guiado. É imprescindível que ninguém entre na floresta sem um guia. Serviços desse tipo podem ser contratados através de agências especializadas. 

Sugestões de passeios e atividades: Arquipélago das Anavilhanas, praias de água-doce, caminhadas pela floresta, Encontro das Águas, Floresta dos Macacos, Pescaria de piranhas, Reserva de Mamirauá, Nado com botos-cor-de-rosa, Cachoeiras de Presidente Figueiredo, visitar comunidades indígenas na Reserva de Tupé, Museu do Seringal, contato com a comunidade Ribeirinha, escaladas em árvores e o centro histórico de Manaus.

Floresta de Taiga - Hemisfério Norte


Também chamada de floresta boreal, Taiga é formada por florestas coníferas, que são árvores com copas e frutos em formatos de cone, similares aos pinheiros já conhecidos por nós. Considerada um dos maiores biomas terrestres, Taiga tem três vezes o tamanho da floresta Amazônica, e sozinha representa quase 29% da cobertura florestal do planeta. Estendendo-se por boa parte do hemisfério norte, ela vai do norte do Alasca até o Japão, passando pela Sibéria, Canadá, Groenlândia, Noruega, Finlândia, Rússia e Suécia. 

Predominantemente fria, Taiga é o lar do tigre siberiano. O turismo no local concentra-se majoritariamente no município de Kainuu, na Finlândia, dirigido pela Wild Taiga, uma associação de empresários locais. 

As atividades oferecidas são variadas e democráticas, com o foco sempre voltado em proporcionar aventuras e contato com a natureza. Programe-se, pois as atrações mudam de acordo com a estação do ano. 

Atividades de verão: Além das tradicionais como ciclismo, caminhadas, cavalgadas, canoagem, pesca, caça, camping e trekking rude, na Taiga finlandesa, existe uma espécie de trilha guiada por cães adestrados da raça husky siberiano. Os turistas podem ser conduzidos pelos cachorros na coleira ou em um tipo de trenó com rodas. Também é possível visitar fazendas de huskys e participar do treinamento deles. 

Atividades de inverno: snowmobiling guiado, safáris de observação da vida selvagem, esqui, snowshoeing, os passeios com huskys continuam, mas ganham uma outra versão, passam a serem feitos em trenós. A atividade mais inusitada provavelmente será a flutuação nas corredeiras, que consiste em literalmente flutuar nas águas frias seguindo o curso de rios, em pleno inverno. Para isso é usado um traje especial feito de cobertores esponjosos que irão te manter aquecido. 

Floresta do Congo - África Central


Segunda maior floresta tropical do mundo, a floresta do Congo abrange sete países africanos, Camarões, República Centro Africana, República do Congo, Angola, República Democrática do Congo, Guiné Equatorial e Gabão. Assim como na floresta Amazônica, o clima tropical propicia a biodiversidade, hábitat de gorilas, leopardos, girafas, elefantes, leões e mais 400 outras espécies, a floresta é também o lar de mais de dez mil espécies de plantas. As savanas africanas são imagens cultivadas no imaginário de muitos, por isso o safári é a principal atividade turística na floresta. O acesso se dá por meio de dois parques nacionais localizados na República do Congo, o Parque Nacional de Odzal e o Parque Nacional de Nouabalé-Ndoki.

Daintree Rainforest - Austrália


A floresta tropical mais antiga do mundo está em Queensland na Austrália. Com 2600 km; de extensão, ela é a maior floresta australiana, declarada patrimônio da humanidade em 1988. Conhecida pela diversidade em suas fauna e flora, na floresta existem aproximadamente 430 mil espécies de pássaros, 13 delas não são encontradas em nenhum outro local do mundo. 

É possível chegar a Daintree por Cairns, Port Douglas, Cape Tribulation e Cooktown, a melhor época para visitação é durante a primavera, que começa em setembro. Turistas podem se hospedar na vila de Daintre, e às margens da floresta ou num alojamento ecológico dentro da mata. As opções de passeios são variadas, você pode fazer tours guiados com o povo Kuku Yalanji, habitantes originais do local, percorrer trilhas, visitar cachoeiras sagradas para eles e aprender como obter medicamentos, alimentos e abrigo dentro da mata. Outra opção são as praias selvagens ao norte da floresta. Com características tropicais, águas rasas e mornas, lá é possível acampar, praticar ciclismo e fazer trilhas radicais com o auxílio de automóveis. Além disso elas ficam próximas à Grande Barreira de Corais, outro patrimônio da humanidade. Na Barreira existem passeios de mergulho e voos panorâmicos para a observação dos corais. 

Selva Valdiviana - Chile


Uma das mais antigas do mundo, a Selva Valdiviana é classificada como uma floresta temperada, apesar de ter características de uma floresta tropical. Também chamada de bosques valdivianos, estende-se pelo Chile, até a Argentina ao longo de 248.100 km;. Dona de uma fauna e flora bem particulares, seu isolamento geográfico permite o desenvolvimento de um grande número de espécies que só podem ser encontradas ali, como o macaco da montanha, pudu, puma, lorito e o cisne de pescoço preto. Turistas interessados em conhecer os bosques podem optar por visitar a Reserva Costeira de Valdivian ou a Reserva Nacional de Mocho Coshuenco. Lá poderão desfrutar de atividades e passeios, como trilhas, camping, mergulho, pesca, montanhismo e esqui cross crountry. 

Florestas Nubladas - Equador 




Cloud Forests, ou Florestas Nubladas, são um conjunto de seis mil hectares de florestas na cordilheira dos Andes. A floresta foi nomeada devido a uma cobertura de nuvens existentes acima dela, comuns em altas altitudes, elas fazem com que a mata tenha um nevoeiro constante. Por efeito disso, a floresta apresenta um cenário bem diferente do que normalmente é associado à cordilheira. A umidade faz com que as árvores sejam retorcidas e cobertas de musgo, o solo é pouco fértil e, apesar da diversidade da flora não ser grande, a floresta abriga uma variação impressionante de espécies de orquídeas. 

A biodiversidade da fauna é riquíssima, a floresta é o lar de mais de 400 espécies de aves, sendo um dos principais destinos mundiais para a observação de pássaros, além de ser o hbitat do urso de óculos andino encontrado apenas lá. O acesso à floresta se dá através de Quito, capital do país. Para chegar à floresta, é preciso muita caminhada, geralmente recompensada por uma vista inesquecível e banhos nas águas termais presentes no local. Você pode visitar também alguns dos parques ecológicos, como a reserva de Maquipucuna, reconhecida internacionalmente pelo ecoturismo e atua pela preservação da floresta tropical. 

Reserva Florestal Nublada de Monteverde - Costa Rica


Um dos locais mais visitados da Costa Rica, a Reserva Florestal Nublada de Monteverde, tem a mesma característica das florestas nubladas do Equador por também estar situada em uma região alta e montanhosa. Dona de um ecossistema impressionante, a floresta possui a maior densidade de orquídeas do planeta, cerca de 300 espécies. Também existem 200 tipos de samambaias que podem atingir até 12 metros de altura e até 500 espécies de árvores. 

O hábitat favorece a reprodução de aves, fazendo da reserva um excelente ponto para a observação de pássaros. Lá também é o lar de 100 espécies de mamíferos, incluindo o puma e o jaguar. Entre as atividades recomendadas, estão o Sky Walk, que são seis pontes suspensas no ar para quem quer conhecer de perto as belezas do local, trilhas e passeios guiados.

Sundarbans - Ásia


Sundarbans é a maior floresta de mangue do mundo, com 10 mil km; de extensão. Localizada precisamente entre Bangladesh e Índia, a maior parte dela se concentra em Bangladesh. 

Patrimônio Mundial, Sundarbans é, na verdade, um mosaico de ilhas de mangues tolerantes ao sal. Riquíssimas em recursos naturais, elas são consideradas uma das principais áreas de reprodução para uma série de espécies ameaçadas de extinção, como o tigre de bengala real. 

O acesso mais fácil à região se dá pela Índia, mas Bangladesh oferece a chance de se aprofundar mais nas florestas. Um passeio pelo mangue pode durar vários dias, na companhia de um guia, o intuito é conhecer a floresta e observar os animais. Algumas empresas realizam esse tour em embarcações especiais equipadas com acomodações para que o turista viaje com conforto. 

Parque Nacional do Kinabalu - Malásia


Mais uma floresta tropical, o Parque Nacional de Kinabalu foi o primeiro local a ser declarado patrimônio mundial da Malásia e também um dos primeiros parques criados no país. A diversidade biológica é presente na fauna e na flora, onde podem ser encontradas 90 espécies de mamíferos e 5 mil espécies de plantas. Além disso, a maior atração do parque é o Monte Kinabalu, uma das montanhas mais altas do sudeste asiático. 

As atividades oferecidas para os turistas envolvem principalmente alpinismo. Além da caminhada tradicional pelas montanhas, existem duas outras trilhas para quem busca um pouco mais de aventura, Ranau Trail Kota Belud. Outras opções são mountain bike, golfe, observação de pássaros, e fotografia.

Reserva Florestal Sinharaja - Sri Lanka 




Uma das reservas ambientais mais preciosas e preservadas do Sri Lanka, Sinharaja foi considerada patrimônio da humanidade e reserva da biosfera em 1978. Cerca de 50% das plantas encontradas na reserva são endêmicas, assim como boa parte da fauna, ou seja, existem apenas nessa região. Repleta de aves, mamíferos, anfíbios e borboletas, a reserva apresenta também uma variedade de árvores impressionantes, 830 espécies. O principal atrativo é ainda a observação de animais, mas também existem cachoeiras lindíssimas onde os turistas podem praticar nado e fotografia. 

Por: Victória Fernandes (Correio Braziliense).

Água Que Vale Ouro: Uma Oportunidade Para o Brasil

Amazônia: Brasil é um dos países com maior reserva de água doce do mundo (iStock/Getty Images).

A água está cada vez mais escassa. Somos um país rico em água doce - com a maior reserva mundial. Esse é o momento de fazer a retomada verde. 

Em relatório recente, o BlackRock Investment Institute alertou os investidores sobre riscos em seus portfólios decorrentes da escassez de um recurso natural tão precioso quanto subestimado: a água. A recomendação é que os investidores considerem companhias que fazem a melhor gestão do recurso hídrico, evitando prejuízos provenientes da potencial falta de água para a continuidade de suas atividades. O relatório indica que, até 2030, é esperado que uma a cada duas pessoas no mundo viva em locais com estresse hídrico – trazendo graves consequências para a população e para os negócios. 

O Brasil, que tem a maior reserva de água doce do mundo (com 12% do total), precisa participar desde já deste debate. Afinal, não estamos imunes à escassez. Em plena pandemia, Curitiba enfrenta uma das piores crises hídricas de sua história recente, com rodízio de água afetando 1,2 milhão de pessoas. Em Santa Catarina, pelo menos 18 municípios também passaram por racionamento este ano. Em 2014 e 2015, foram o Rio de Janeiro e São Paulo. E, em 2017, o Distrito Federal, para citar alguns casos. Imagine esses cenários daqui a alguns anos, em que a projeção de aumento na demanda por água potável é de 80%, até 2040. Os dados estão num estudo recém publicado pelo Instituto Trata Brasil com a EX Ante Consultoria 

O país construiu o modelo hídrico levando em conta a abundância, embora ela se concentre 80% no Norte do país, o menos povoado. E não se preparou para a escassez em função das mudanças no clima e do desmatamento, que nos conduzem a secas históricas, como a atual no Paraná. Ações de reflorestamento e para manter a floresta em pé são essenciais para proteger nossos mananciais e foco de pressão internacional, de investidores e empresas, como nunca antes. 

Um total de 58% dos municípios brasileiros utiliza mananciais de água superficiais – rios, lagos, represas -, e 42% depende de mananciais subterrâneos como aquíferos, que só deveriam ser acessados em último caso. O desmatamento e as grandes transformações climáticas, somados ao aumento da população, afetam dramaticamente o modelo original de abastecimento – o que é agravado também por questões estruturais e culturais, como a perda de 37% da água tratada com vazamentos e fraudes. Além da lentidão na ampliação do tratamento de esgoto, hoje acessível a apenas 46,3% dos brasileiros. O novo marco do Regulamento do Saneamento Básico nacional, com a abertura para a participação do capital privado, traz novos ares e expectativas para evoluir os serviços de água e esgoto, e universalizar os acessos. 

O grande desafio do Brasil e do mundo é construir um sistema de abastecimento resiliente. Transformação que depende de vários atores e está no centro das discussões de um grupo de CEOS de sete grandes empresas globais, entre elas ABInBev, Cargill, Diageo e Microsoft, desenvolvido em parceria com as Nações Unidas. O objetivo da coalizão é reduzir o estresse hídrico até 2050 e garantir que as fontes sejam sustentáveis e diversas para atender às necessidades de produção e da sociedade. 

No caminho da resiliência, Singapura é um exemplo a ser estudado, porque, apesar de não ter uma única fonte natural de água, aquíferos ou lagos, essa pequena ilha no sudeste asiático dá um show de diversidade de opções em abastecimento. É a escassez impulsionadora de inovação! 

O segredo aprendido arduamente durante a grande seca de 1960 e, mais recentemente, na estiagem nos anos 90, é que cada gota de água importa. Singapura conta com quatro fontes diferentes para garantir água: captação local de água da chuva, importação de água, e dois projetos que envolvem construção de alternativas para reduzir a dependência das extremas condições climáticas. Um de dessalinização e outro considerado o pilar da estratégia de sustentabilidade da água no país, o NEWater. 

Esse é daqueles modelos inovadores e inspiradores que nos fazem acreditar no potencial humano de promover grandes feitos para o bem comum. A chamada “água nova” é parte de um conceito de reuso infinito da água. Água reciclada é a forma considerada mais sustentável de aumentar o abastecimento em todo o país, que já reaproveita de apartamentos, ralos e do que importa da Malásia. E pretende ampliar as opções reaproveitando de indústrias. 

Singapura se adiantou 30 anos em soluções e em novos acordos. Esse é o tempo de gestação e de evolução do NEWater que tem a condução de um órgão do governo federal, a Agência Nacional de Água. Se há um belo aprendizado aqui é que é possível regar um futuro melhor se focarmos na solução de problemas com cadência e seriedade. 

A partir de agora, as novas escolhas devem ponderar sob qual perspectiva olhar nossos grandes problemas. Porque a escassez de água pode ser um risco precificado para investidores, mas também uma oportunidade valiosa. Especialmente para o Brasil, dada sua enorme capacidade hídrica. E essa mudança de visão é que libera ações e recursos com foco em soluções, atraindo inclusive uma massa de investidores cada vez mais preocupada com a sustentabilidade do planeta. Para nós, brasileiros, esse deveria ser o momento de utilizar a natureza como fortaleza para nossa construção de País no longo prazo.

Por: Luciana Antonini Ribeiro (Exame).

Recursos de Compensação Ambiental Podem Ajudar a Economia no Entorno de Unidades de Conservação

Parque Nacional da Serra da Canastra. Foto: EBC.

Até 2018, R$ 1,74 bilhão já havia sido destinado para áreas protegidas federais em todo o Brasil. Mecanismo ainda depende de ajustes para se tornar mais célere. 

O Brasil conta hoje com aproximadamente 2,4 mil unidades de conservação federais, estaduais, municipais e privadas que servem como refúgios para a biodiversidade nacional e impactam diretamente a economia do país. Fechadas desde março em razão da pandemia do novo coronavírus, aos poucos, algumas áreas protegidas reabrem para atividades científicas, turísticas e de conservação, como o Parque Nacional de Fernando de Noronha, que reabriu em 1º de agosto. No entanto, o que pouca gente sabe é que a maior parte dessas áreas depende de recursos oriundos de compensações ambientais para sua consolidação e manutenção, elaboração de planos de manejo e até mesmo para estabelecer diretrizes para receber visitantes. 

A compensação ambiental é um instrumento jurídico estabelecido pela Lei 9.985/2000, que criou o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). O mecanismo impõe aos responsáveis por empreendimentos licenciados e causadores de significativo impacto ambiental a obrigação do desembolso de recursos a serem aplicados na implantação e gestão das unidades de conservação. Até 2018, já havia sido distribuído cerca de R$ 1,74 bilhão para unidades de conservação federais pelo Comitê de Compensação Ambiental Federal. Em junho passado, a União liberou outros R$ 7,3 milhões para a manutenção, conservação e infraestrutura de parques nacionais e outras áreas protegidas, como os parques Serra da Capivara e Chapada dos Veadeiros. 

O uso dos recursos recolhidos por compensação segue a legislação federal e sua regulamentação, podendo ser complementada pelos estados e municípios. Entre as possíveis destinações estão a regularização fundiária de unidades de conservação, com a indenização de desapropriações; a elaboração, revisão ou implantação de planos de manejo; e a aquisição de bens ou contratação de serviços para a gestão ou implantação das unidades. Com exceção de finalidades expressamente proibidas em lei, como custeio de folha de pagamento, há, na maioria dos casos, unidades de conservação que dependem quase que exclusivamente dos recursos da compensação ambiental para manter seu funcionamento. 

“Os estados, os municípios e a União vivem um momento de grande ajuste fiscal. Ao terem acesso ao recurso da compensação para cuidarem das unidades de conservação, esses entes não precisam destinar dinheiro do próprio orçamento para esse fim, podendo direcioná-lo para áreas como saúde, educação, segurança e até mesmo outras frentes relacionadas ao meio ambiente”, afirma a presidente da Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente (Abrampa), Cristina Seixas Graça, que também é membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN). O Ministério Público é responsável por fiscalizar a destinação do dinheiro proveniente da compensação ambiental. 

Apesar da sua relevância para as unidades de conservação, o instrumento da compensação ambiental ainda apresenta diversas controvérsias. O próprio cálculo das compensações devidas pelos empreendedores é alvo de discussão, uma vez que as metodologias em uso contrariam decisão do Supremo Tribunal Federal. “Esse fato, somado às diferentes legislações municipais e estaduais, cria certa confusão no cálculo do valor e na decisão de como a compensação será aplicada. Por envolver diferentes entes, incluindo empresas privadas, o processo torna-se demorado, seja no aporte do recurso a fundos ou na aplicação direta pelo empreendedor”, explica Cristina. 

A importância das unidades de conservação

Unidade de conservação é a denominação atribuída pelo SNUC às áreas naturais passíveis de proteção por suas características naturais. Segundo especialistas, sem elas o Brasil não será capaz de atingir compromissos de sustentabilidade assumidos nos últimos anos em acordos e convenções internacionais, como a Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), a Convenção sobre Diversidade Biológica, as Metas de Aichi e o Acordo de Paris. 

A importância das unidades de conservação também se estende ao segmento turístico, que movimenta bilhões de reais anualmente no Brasil somente com o segmento de turismo de natureza. Levantamento realizado pelo ICMBio mostrou que, em 2019, as 137 unidades federais abertas à visitação receberam 15,3 milhões de visitas, um aumento de 20,4% em relação ao ano anterior. “O turismo de natureza no Brasil está diretamente ligado às unidades de conservação, que protegem grande parte do nosso patrimônio natural. Além disso, também possibilita o desenvolvimento socioeconômico de muitas áreas distantes e de difícil acesso, que, se não fosse pela atividade turística, não teriam as mesmas oportunidades”, avalia a diretora executiva da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, Malu Nunes, instituição que contribuiu com a criação de mais de 130 mil km² de áreas protegidas terrestres e marinhas no Brasil. 

A destinação de recursos via compensação ambiental também pode ser benéfica para a imagem do Brasil em relação ao meio ambiente, principalmente no tocante à Amazônia, bioma que concentra 47% da área total das unidades de conservação do país. “Quanto mais célere e clara for a utilização do instrumento da compensação, mais efetiva será a política ambiental como um todo, incluindo a capacidade do Estado de criar novas unidades e conhecer melhor as que já existem por meio da elaboração de plano de manejo, documento básico para a gestão de qualquer área protegida”, afirma Cristina.

Por: Claudia Leone (EcoDebate).

Um Modelo Simples Para Avaliar a Gestão de Externalidades

Entre a Atenção (conhecer), o Interesse (se envolver), a Decisão (desejar e decidir pela aquisição) e a Ação (agir efetivamente), como estão as empresas em relação à governança de externalidades? 

Gosto da simplicidade do modelo AIDA, elaborado por Elmo Lewis no fim do século XIX. Lewis é um dos pioneiros do marketing e desenvolveu modelos voltados para explicar comportamentos associados à aquisição de produtos ou serviços. Trata-se de uma sequência bastante intuitiva: Atenção (conhecer), Interesse (se envolver), Decisão (desejar e decidir pela aquisição) e Ação (agir efetivamente). Vou aplicar o modelo para a governança de externalidades. 

Administradores estão atentos às externalidades, ou “aos efeitos indiretos da produção de bens e serviços que são transferidos à sociedade e a indivíduos não diretamente envolvidos nos processos produtivos, financeiros e mercadológicos gerados pelas organizações”. Esta definição é a utilizada pelo CFA Institute, entidade que reúne profissionais da área de investimentos, uma das mais renomadas do universo financeiro. Administradores, conselheiros, acionistas e empreendedores sabem que a sociedade está crescentemente atenta a esses efeitos. O “A” (atenção) do AIDA está contemplado. 

No entanto, a sequência precisa ainda se consolidar no campo da governança corporativa. Não se pode dizer que o Interesse por conhecer amplamente as externalidades geradas pelas organizações esteja efetivamente traduzido pela Decisão de incorporar a gestão desses efeitos de forma rotineira. Ações neste sentido precisam ser implementadas com urgência. O conceito de externalidades está diretamente associado à “licença social para operar”, outro tema a navegar pela AIDA. Administradores sabem do que se trata, manifestam algum Interesse, mas ainda não Decidem e Atuam com olhar permanente nos stakeholders, buscando alinhamento com as demandas da sociedade.

Ricardo Abramovay, professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da USP, traduz externalidades como “tudo o que produz impacto negativo ou positivo e que não entra no sistema de custos e preços”. Carlos Eduardo Frickmann Young, professor titular da UFRJ, vai direto ao ponto: “Em vez de todos pagarem o pato, que pague o pato quem é responsável por ele”. O uso da palavra responsabilidade está associado à moralidade e não à legalidade. 

A licença social vai além das regras formais, leis e regulamentações, mas lida e antecipa as demandas da sociedade que, gradativamente, são transformadas em leis e normas transformam-se em leis e normas. Quando isso ocorre, viram obrigações e passivos, com impactos nas operações e em modelos de negócios. No entanto, antes de serem incorporadas ao mundo das regras formais, causam efeitos substantivos. Abalam reputações e, com isso, acesso a mercados e a capital financeiro, influenciam a atração de recursos humanos, afetam o clima organizacional e o engajamento da rede de stakeholders. Destroem valor. 

Vale lembrar que externalidades se expressam em um gradiente de impacto, podendo ser negativas ou positivas. Do lado das negativas, devem ser evitadas, mesmo se representarem riscos de baixa probabilidade. No entanto, sabemos que nem sempre é possível eliminar totalmente efeitos indesejáveis. Busca-se então a redução, a mitigação e, no pior dos casos, a compensação. A gestão de externalidades inclui a produção de efeitos positivos para a sociedade, como o desenho de modelos de negócios voltados para a produção e o compartilhamento permanente de impactos de valor positivo. 

Um dos grandes desafios da gestão de externalidades é a extrapolação da responsabilidade para a cadeia de suprimentos e para os efeitos dos produtos e serviços em consumidores, diretos e indiretos. O conceito de responsabilidade subsidiária se amplia gradativamente, tanto no campo moral quanto legal. A rastreabilidade em toda a cadeia torna-se imperiosa e determinante na licença social. A transparência é inevitável na construção de relações de confiança com sociedade. 

A relação com stakeholders é necessária e complexa. Inclui indivíduos e organizações aparentemente apáticas, mas também outras altamente engajadas e profissionais. Lida o tempo todo com assimetria de informação, interagindo com pessoas que não contam com a informação necessária, com vulneráveis e informalidade. Convive com alta imprevisibilidade e ambiguidade. Enfrenta os mais diversos gradientes ideológicos, os bem-intencionados e os oportunistas. 

A gestão de externalidades depende de uma rede de relacionamentos estruturada, com interações que combinem aporte de conhecimento, fortalecimento institucional e reputacional. Além de proporcionar leitura de contexto e ambiente, pode decodificar demandas não evidentes, tendências (incluindo de consumo), com potencial contribuição para desenho de produtos, estratégicas e modelos de negócios. Fortalece a diversidade e, com isso, o repertório organizacional e suas competências dinâmicas – a capacidade da organização de se moldar rapidamente, aprender continuamente e ser menos dependente de trajetórias passadas (ainda que bem sucedidas). 

Além disso, se esses relacionamentos forem explícitos, a gestão de externalidades fornece ao mercado sinais de conexão com a sociedade e compartilhamento de imagem e reputação. Obviamente, a interação com stakeholders não pode ser unidirecional, mas envolve um fluxo de comunicação complexo e pouco controlável. 

Há forte tendência do uso de esquemas de certificação multistakeholder. Com frequência estes esquemas representam uma forma estruturada de expor os modelos de operação e produtos ao crivo de sistemas de auditorias externas fundamentadas em princípios e critérios socioambientais. Assim como a montagem das redes de relacionamento, devem ser objeto de profunda verificação da credibilidade e capacidade de governança. Este cuidado é essencial diante da proliferação de esquemas que, muitas vezes são apenas comerciais, sem a devida legitimidade perante a sociedade. 

A evolução da AIDA sustentável nas organizações depende de como acionistas e conselheiros agem. Como definem o modelo de negócio vis-à-vis às externalidades. Como lidam com ética e integridade no âmbito da governança. A transparência que a mídia digital impõe às corporações estabelece um vínculo entre ética e identidade, percebidas pela sociedade a partir da imagem construída na leitura dos princípios e valores expostos nos produtos, na comunicação e nas externalidades geradas. Contradições na comunicação, nas expectativas internas e externas e nas externalidades, custam cada vez mais caro. 

A relação entre exposição pública, reputação, construção de conexões de confiança e valor é crescente. O aumento da importância do compliance nas organizações é um sinal positivo de que ética e integridade passaram a ser parte da rotina. O desenvolvimento e a sofisticação das estratégias e áreas de compliance, assim como a gestão de riscos, são bons aliados na gestão de externalidades. 

Conselhos devem cuidar da concentração excessiva no campo das finanças. Não se trata de desmerecer a atenção ao desempenho econômico-financeiro, mas sim integrá-lo à gestão das externalidades. Um caminho evidente é a avaliação permanente de como estas afetam o valor das companhias. Desafio longe de estar equacionado. Externalidades negativas são normalmente subdimensionadas ou tratadas como eventos improváveis. Às vezes resultam em provisionamentos. Externalidades positivas tratadas como intangíveis. Este campo avança, mas não deve ser condicionante para que a governança corporativa incorpore em seu repertório análise de externalidades e seus impactos no desenho de estratégias. 

A abordagem ESG (Ambiental, Social e Governança, na sigla em inglês) tem indicado a criação de Comitês de Sustentabilidade como órgãos assessores de conselhos. Se bem estruturados, com a participação de membros externos e independentes, são capazes de contribuir para o monitoramento de como externalidades afetam e são geridas pela organização. Podem indicar tendências e subsidiar boas discussões estratégicas e de modelos de negócios. Servem de sounding boards (caixas de ressonância) para executivos, incluindo a mais alta administração. No entanto, não são a única alternativa. 

Algumas organizações optam pela criação de painéis de stakeholders, outras pela inclusão de representantes da sociedade diretamente nos conselhos. Em qualquer caso, um ponto crítico é a legitimidade e a representatividade das pessoas que integram esses fóruns de governança perante a sociedade. Deve evitar-se, a todo custo, a indicação de representantes com baixa credibilidade perante seus pares, justamente por serem mais afeitos às relações com o mundo corporativo. 

A licença social é algo que deve ser construído com honestidade, transparência, relacionamento permanente com stakeholders, se possível, com obtenção de certificações de terceira parte e, acima de tudo, gestão de externalidades. Este é o “A” da Ação no modelo AIDA voltado para um ambiente de negócios cada vez mais dependente das interferências da sociedade na vida das empresas. 

Por: Roberto S. Waack (Página 22).

A Tragédia do Crescimento, Uma Metafísica do Neoliberalismo

Gilbert Rist foi um dos primeiros críticos do conceito de desenvolvimento. Em seu último livro, ele lembra que a economia política é o resultado de um projeto político e de uma construção social. Rist insiste na centralidade da propriedade privada na dinâmica do crescimento e na necessidade de invenções institucionais para sair desse paradigma.

O crescimento é um Janus [deus romano] com duas cabeças. Considerada necessária, mesmo vital para a continuidade das sociedades industriais, sua busca é, no entanto, impossível. É um dilema. Que o idioma inglês resume muito bem sob o termo predicament. Nós entramos na Era das Rupturas. O mundo de amanhã será muito diferente daquele que conhecemos. São os próprios padrões de explicação social que são obsoletos. Hoje, não se trata tanto de mudar nossa interpretação do mundo, mas de perceber que são as revoltas do mundo que nos forçam a mudar. 

Agora somos atingidos por dissonância cognitiva. Para garantir nosso conforto psicológico, desistimos de considerar a verdade que nos envergonha. Para sair disso, precisamos primeiro decifrar o paradigma econômico dominante. Na primeira parte, Gilbert Rist mostra que a crise social e ambiental é a da ciência econômica dominante. 

O autor de Desenvolvimento: História de Uma Crença Ocidental (4ª edição, 2013) e Da Economia Comum Entre Sonhos e Mentiras (2010) na Presses de Sciences Po, volta às fontes do pensamento econômico para explicar a origem da crise social e ambiental atual. “O duplo não pensado do pensamento econômico dominante” é explicado, por um lado, pela ignorância involuntária dos primeiros economistas em relação às práticas econômicas de outros continentes, criando assim um “viés eurocêntrico”. Além disso, em um momento em que não existiam problemas ecológicos, os primeiros economistas demonstraram “um descuido relativo aos presentes da natureza e às consequências a longo prazo de seu uso”, que é indubitavelmente devido a ” a impressão geralmente compartilhada de sua abundância e disponibilidade infinita ”. A natureza é assim “tornada burra e disponível gratuitamente”. 

David Ricardo não estava mais consciente do que Adam Smith da importância dos recursos naturais. Karl Marx foi mais esclarecido sobre a importância dos recursos naturais, apesar da imensa esperança que ele depositou no desenvolvimento das forças produtivas. A produção capitalista esgota a terra e o trabalhador. Ninguém é dono da terra. Tivemos que esperar que William Stanley Jevons apontasse a possível secagem dos recursos naturais. 

ANACRONISMO DA DOXA 

Essa imprudência dos primeiros economistas, que deixam de lado os incômodos industriais, é reforçada pela retórica da mecânica newtoniana que aumenta a validade do paradigma, dando-lhe uma aparência científica: “massa monetária”, “balanço” do comércio, “equilíbrio” orçamentário, “atomicidade” dos participantes do mercado, “circuito” do comércio, “elasticidade” da oferta ou demanda. O mercado é como um cosmos perfeito. A doxa econômica repousa sobre uma mudança, um anacronismo: tudo acontece como se a ciência econômica contemporânea tivesse possibilitado explicar o mundo antes da revolução industrial. 

Os primeiros economistas ignoram a segunda lei da termodinâmica – a lei da entropia – segundo a qual a energia se degrada de forma irreversível e caótica. Eles raciocinam na ignorância das realidades biofísicas dos ciclos naturais e estoques não renováveis ​​formados por combustíveis fósseis. Os proponentes dessa economia dominante afastam o pioneiro do decrescimento Nicholas Georgescu-Roegen, o pensador da entropia na economia que apontou que o objeto da economia não diz respeito às transações monetárias, mas ao uso e a dissipação da energia-matéria. 

O paradigma econômico dominante é, portanto, obsoleto e animado por uma “ignorância aprendida”, tão prejudicial quanto suspeita. É também um paradigma contingente. Rist cita o trabalho de Thomas S. Kuhn: as ciências “normais” também experimentam transições assim que um paradigma se encontra em um estado de crise, transições sujeitas à relutância. Nesse caso, de acordo com Gilbert Rist, o paradigma econômico dominante deriva do dogma religioso, cuja doxa está contida no pequeno manual de Paul A. Samuleson, que ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 1970 (enquanto isso foi recusado a Nicholas Georgescu-Roegen). 

É impossível estudar a economia sem passar por Samuelson, segundo o qual “a economia procura como os homens e a sociedade decidem, se devem ou não usar dinheiro, alocar recursos produtivos escassos à produção, através do tempo de vários bens e serviços e distribuí-los para fins de consumo presentes ou futuros entre os diferentes indivíduos e comunidades que constituem a sociedade”.

A ECONOMIA, UMA CONSTRUÇÃO SOCIAL 

No entanto, não podemos culpar os economistas de hoje por ignorarem as consequências ambientais dos processos produtivos, exceto que eles visam conciliar a atividade produtiva e seus efeitos sobre o meio ambiente, permanecendo sempre o velho paradigma. Um número de displays é implantado para acender fogueiras e ocultar os desastres causados ​​pelo consumismo produtivista. O princípio do poluidor-pagador estabelece o direito de poluir, isto é, garante o crescimento econômico e, ao mesmo tempo, compensa suas consequências desagradáveis. A ideia de dar um preço à natureza propõe dotar-lhe o status de capital natural baseado em um sistema das chamadas compensações ecológicas. Quanto aos serviços ecossistêmicos, eles podem ser listados e securitizados no mercado de ações. 

O problema do paradigma econômico dominante reside na enormidade de seus efeitos, quando não se baseia em nenhuma validade científica. Os efeitos do dogma neoliberal resultaram em uma distribuição desigual do excedente, além da devastação ecológica que ele causou. 

Consequentemente, é por suas consequências políticas e sociais que a economia deve ser julgada. Com grande clareza, Gilbert Rist emprega uma genealogia de conceitos que alimenta a construção social que é a economia. Ele lembra que os pais fundadores da economia não previam crescimento ilimitado, até pronunciaram a busca por um estado estacionário que permitisse alcançar o suficiente em termos materiais para se libertar e cultivar uma arte de viver, segundo John Stuart Mill. 

Em seu trabalho anterior, Rist já demonstrou como o mito da escassez alimenta o crescimento, o que deve impedi-lo. Paradoxalmente, a abundância de mercadorias precisava suprir a escassez. No entanto, prevaleceram as desigualdades, sem que a paz social fosse estabelecida, exceto pelo advento de um estado de bem-estar social que hoje está ameaçado. 

AXIOMAS DO INTERESSE 

Surpreendentemente, os efeitos negativos do crescimento passaram despercebidos até hoje, porque os fatores de produção de riqueza não incluem energia, que externalidades não quantificáveis ​​em termos monetários não são levadas em consideração, e que a economia não é vista como um subconjunto da ecologia, de acordo com Rist. Acima de tudo, entender a aderência desse sistema e esse construto social requer esclarecer quem se beneficia. 

O primeiro fator raiz do crescimento é a propriedade privada. Como o título de proprietário se baseia na dinâmica do crédito, será necessário aumentar a renda dos proprietários para enfrentar os vencimentos dos bancos. A generalização e sacralização burguesa da propriedade privada está na origem da obrigação de crescer em uma dinâmica de empréstimos que serve ao credor. Assim como o crescimento, a economia financeira (ou especulação) pode aumentar os lucros. Proporciona renda sem trabalhar, aumenta a desigualdade e concentra a riqueza. 

O resultado é uma onipresença do “axioma do interesse”, inerente às culturas ocidentais, enquanto, como aponta o sociólogo Jacques Godbout, populações não contaminadas pelo capitalismo ignoram o axioma do egoísmo e preferem confiança e cooperação mútuas. Uma fortiori, o indivíduo representado pela teoria econômica dominante nunca é mais do que uma abstração muito distante das realidades antropológicas. Quanto ao mercado, é inseparável do interesse individual e constitui a matriz da maioria das trocas. Agora, estamos lidando com uma ficção econômica que optou por ignorar as práticas sociais para justificar a crença teórica de que o mercado constitui a solução ideal para a troca. O Ato Único Europeu de 1986 e a revogação em 1999 do Ato Glass-Steagall de 1933 quebraram a partição entre bancos de depósito e investimento. Dinheiro exige dinheiro. A doutrina econômica está acima do solo e gera infortúnio social e a destruição da natureza. Trata-se de retirar a economia de seu paradigma simplificador. Devemos tomar nota da finitude. 

Como demonstrou Georgescu-Roegen, o sistema econômico é um sistema aberto que deve constantemente receber e devolver à natureza a energia e a matéria, ou seja, transformar irreparavelmente a matéria e a energia em desperdício. 

O fetichismo do crescimento repousa, antes de tudo, em uma longa habituação coletiva aos efeitos considerados positivos que ele produziu nos países ricos por muito tempo. Mesmo que alguém comece a sentir alguns de seus efeitos indesejáveis, começando pela poluição urbana, prevalece a nostalgia: como se acredita que o crescimento é a solução para todos os problemas, deve-se encontrar, trazer de volta, despertá-lo. Então você tem que pensar em pós-crescimento. Primeiro mude as condições estruturais que tornam necessário o crescimento, depois imagine as características de outro tipo de sociedade que não estaria mais acima do solo. Se o crescimento é baseado no interesse individual, na propriedade privada e nos mercados, como esse conjunto de restrições pode ser superado? 

DESFAZER O CRESCIMENTO 

Primeira via: como a generalização da propriedade privada constitui um dos motores mais poderosos do crescimento, é aconselhável imaginar outros regimes institucionais capazes de reverter a tendência. É por isso que restaurar os bens comuns é agora uma demanda amplamente compartilhada em círculos que afirmam estar diminuindo. Rist prefere usar o termo “instituição comunitária” para não dissociar os bens comuns dos grupos sociais que o utilizam. 

Assim, o comum implica uma “relação social baseada na reciprocidade, mas também uma relação de conivência com a Natureza, ligada a um sentimento de co-pertença”. Rist considera que o Estado não é um bom administrador de mercadorias, que a interação de interesses especiais a impede de desempenhar seu papel de árbitro teoricamente imparcial, constituindo assim uma forma de expropriação que priva a comunidade do direito que exercia. 

Diferentemente dos bens públicos administrados pelo Estado, os bens comuns não devem ser dissociados dos grupos sociais que os utilizam. “O comum é, portanto, uma construção política, uma forma de autogoverno que combina co-atividade e co-decisão e que garante a reprodução do recurso”. Quanto aos bens comuns planetários (bens públicos globais, patrimônio comum da humanidade), Gilbert Rist critica a “solução razoável” proposta por Joseph Stiglitz com o objetivo de estabelecer uma gestão pública global, um conjunto de regulamentos planetários sobre os usos e atos que causam externalidades planetárias. Essa solução equivale a transformar os bens comuns planetários em bens públicos, entregues a critério dos Estados, e trazê-los para a lógica do mercado, longe dos bens comuns administrados por seus beneficiários. Rist propõe abrir um novo espaço na forma de uma categoria jurídica que escaparia das armadilhas da propriedade privada, bem como da onipotência do Estado, que está longe de sempre promover o interesse geral. 

A segunda proposta principal da tragédia do crescimento é acabar com crédito e dívida. Hoje, a dívida pública de todos os países da União Europeia representa quase 90% do seu PIB, contra 30% em 1970. Durante várias décadas, as dívidas públicas explodiram na maioria dos países, em particular porque na União Europeia os bancos centrais nacionais foram proibidos de criar dinheiro reservando esse privilégio ao Banco Central Europeu. A dívida explode para impulsionar o crescimento. A multiplicação do dinheiro do crédito criado pelos bancos envolve uma obrigação de crescimento econômico. 

Assim, o sistema se alimenta de ciclos de feedback positivo (crescimento, circulação de dinheiro, endividamento) que levam à exploração desenfreada da Natureza, considerada como um “ativo negociável nos mercados”. Na maioria das vezes, ninguém imagina seriamente que a dívida será paga: o capital público líquido mal seria suficiente na França para pagar dívidas públicas. O pagamento dessa dívida é uma ilusão: na metafísica neoliberal, dívida e crença são termos relacionados. A dívida é principalmente um instrumento de dominação pelo credor sobre o mutuário, e o endividamento público envenena a vida social. 

Uma medida radical apoiada pelos proponentes do decrescimento consistiria em pura e simplesmente suprimir a possibilidade de criar dinheiro pelo mecanismo de crédito bancário, o que reduziria os juros da dívida pública. Sair do domínio dos bancos implica conceder o monopólio da criação de dinheiro ao Banco Central e proibir a “privatização” do dinheiro pelos bancos comerciais. 

Os Estados não seriam mais reféns dos bancos e não seriam mais forçados a recapitalizá-los em caso de inadimplência. Isso reduziria bastante a dívida pública. A dívida privada também seria reduzida, uma vez que os empréstimos especulativos seriam proibidos e, acima de tudo, o dinheiro seria novamente parte dos bens comuns. 

Terceira faixa: repensar o intercâmbio fora do ciclo utilitário. A sociedade não pode ser reduzida ao mercado, e uma sociedade de mercado é um mercado sem sociedade. O mercado constitui o grau zero de vínculo social. São gestos altruístas que tornam possível “viver juntos”, reciprocidade ou “o ciclo de doações”. À medida que a austeridade aumenta, os serviços de ajuda mútua se tornam mais importantes. Por um lado, o mercado representa uma transação bilateral quase instantânea e impessoal; por outro, o presente desencadeia uma série de relacionamentos feitos de reconhecimento, obrigações e reciprocidade, que se estendem ao longo do tempo, criando uma sociedade unida , colaboração e ajuda mútua. As velhas formas de troca identificadas por Karl Polanyi ainda existem hoje, apesar da oni-mercadoria. 

Na época do Antropoceno, um período de crescimento excessivo e uma dívida incrível com a natureza, resta ouvir a voz dos “coletivos burros” (animais domésticos ou não, a biosfera, a camada de ozônio, rios, geleiras, oceanos, plantas, micróbios etc.) e conceder reconhecimento à natureza e status legal. Para Rist, essa grande transformação – recuperação dos bens comuns, domínio da moeda, reavaliação da reciprocidade e redistribuição, inclusão da natureza nas deliberações – não pode ser alcançada sem a assistência do Estado. Como apenas o Estado pode reformar o sistema tributário, tributar ou proibir transações financeiras especulativas e modificar a distribuição de subsídios agrícolas. 

Por: Agnès Sinai; professora na Sciences Politiques de Paris, sobre crise ecológica, colapso e decrescimento. Fonte: Terrestres.org / Tradução: EcoDebate.

A Energia Que Promete Impulsionar o Futuro do Brasil Vem do Alto Mar

Infraestrutura eólica 'offshore' na Dinamarca.

Segundo estudo recente, o país tem um dos maiores potenciais para geração de energia eólica offshore. 

Com cerca de 8.000 quilômetros de costa, o Brasil tem um potencial considerado imenso para uma das tecnologias mais modernas de energia renovável: a eólica offshore, que usa turbinas fixas ou flutuantes instaladas no mar, enquanto na onshore os equipamentos ficam em terra.

O país está entre os destaques de um recente estudo sobre o tema, produzido pelo Programa de Assistência Gerencial ao Setor de Energia (ESMAP, na sigla em inglês) e pela Corporação Financeira Internacional (IFC), braço do Grupo Banco Mundial para o desenvolvimento do setor privado. 

Além do Brasil, o estudo analisa Índia, Marrocos, Filipinas, África do Sul, Sri Lanka, Turquia e Vietnã. Somados, esses países têm potencial eólico offshore (medido em 200 km de costa) de 3,1 terawatts, ou cerca de três vezes a capacidade instalada de geração de eletricidade de todos os países da União Europeia. Desse total, 1,228 terawatts vêm da maior economia sul-americana. 

“Nos países que escolhemos analisar, sentimos que havia mais interesse e o melhor potencial de recursos. O Brasil é muito ativo em energia eólica e, apesar de ainda ter muito potencial onshore para explorar, o Governo expressou forte interesse em desenvolver o offshore”, contou um dos autores, o especialista sênior em energia Oliver Knight, do ESMAP. 

No último ano, o Grupo Banco Mundial e o Governo brasileiro participaram de eventos e estudos conjuntos, que também deram origem ao Mapeamento da Energia Eólica Offshore no Brasil, e em 2020 analisarão formas de dar vazão ao potencial do país. 

Custos em queda

Antes de pensar no futuro da energia eólica offshore, inclusive no Brasil, é importante entender onde, como e por que a tecnologia se tornou viável. 

A Europa está na vanguarda dessa indústria desde que o primeiro parque eólico offshore foi instalado em 1991, em Vindeby, no leste da Dinamarca. Ela contava com 11 turbinas, cada uma gerando 450 quilowatts (kW) para uma capacidade total de quase 5 megawatts (MW). Fechada em 2017, abriu o caminho para parques eólicos offshore em toda a Europa. 

Ao longo dos anos 2000, o sistema continuou a se expandir no sul do Mar do Norte, Mar da Irlanda e Mar Báltico, regiões de ventos fortes. A maior indústria eólica offshore do mundo —e com os custos mais baixos— fica hoje no Reino Unido, com uma capacidade acumulada de 8,5 GW. 

Globalmente, o setor cresceu quase cinco vezes desde 2011, com 23 GW instalados no fim de 2018. Mas, apesar da expansão, as turbinas marítimas permaneciam instaladas em grande parte na Europa e na China. 

Isso porque a construção offshore é mais complexa, demorada e cara do que a onshore. O desenvolvimento de uma usina em terra firme normalmente leva de dois a três anos, do início das obras ao comissionamento, com custos que variam de US$ 1 milhão a US$ 2 milhões por projeto. Já um parque eólico marinho normalmente leva de cinco a 10 anos para se desenvolver, exigindo de US$ 10 a US$ 50 milhões. 

Os custos de geração refletem essa complexidade. Por muitos anos, eles ficaram na faixa de US$ 150 a US$ 200 por megawatt/hora (MWh). Começaram a cair só entre 2016 e 2017. E continuarão em trajetória descendente graças a “melhorias tecnológicas, economia de escala, maturação das cadeias de suprimentos, melhores estratégias de compras e os esforços de grandes e sofisticados desenvolvedores de projetos, incluindo vários dos setores de serviços públicos e de petróleo e gás”, segundo o estudo do ESMAP. 

À medida que os custos se tornam mais baixos, a energia eólica offshore passa a gerar interesse nos mercados emergentes, como o Brasil. Impulsionada por esses países, a capacidade instalada offshore aumentará entre 7 e 11 gigawatts (GW) por ano até 2024, alcançando entre 15 e 21 GW/ano de 2025 a 2030, segundo projeções citadas pelo relatório. 

A energia eólica offshore hoje recebe cerca de US$ 26 bilhões em investimentos anuais ou 8% dos novos investimentos globais em energia limpa. Assim como a capacidade instalada, eles devem aumentar drasticamente, com investimentos estimados em US$ 700 bilhões até 2030. 

Metas climáticas 

De acordo com os dados mais recentes da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a energia eólica corresponde a 7,6% da oferta interna brasileira, com 48.475 GWh produzidos em 2018, equivalente a um aumento de 14,4% em relação ao ano anterior. O desenvolvimento da tecnologia offshore traz inúmeras possibilidades, como a de desenvolver projetos mais próximos da demanda nas grandes cidades costeiras, o que adiaria investimentos em transmissão e evitaria os impactos sociais de projetos onshore. 

No entanto, há também inúmeras questões para reflexão, como instrumentos de gestão ambiental, adequação da infraestrutura portuária e possíveis conflitos socioeconômicos entre a atividade eólica offshore e outras. 

Levar tudo isso em conta será importante para definir as tecnologias a serem usadas pelo Brasil no cumprimento de uma das metas determinadas no Acordo de Paris contra as mudanças climáticas: até 2030, fazer com que 45% de sua matriz energética seja composta por fontes renováveis, elevando para 23% a participação de energia eólica, solar e biomassa.

Por: Mariana Kaipper Ceratti. Fonte: El País.

Queda nos Custos da Energia Limpa Pode Impulsionar Ação Climática na Recuperação Pós Covid-19

Enquanto a indústria de combustíveis fósseis está sendo atingida pelos impactos do COVID-19, as energias renováveis ​​atingiram seu pico de lucratividade, de acordo com um novo relatório divulgado no dia 10 de junho de 2020. A redução de custos é uma oportunidade para que pacotes de recuperação econômica pós-pandemia priorizem as energias limpas, além de aproximar o mundo do alcance dos objetivos do Acordo de Paris. 

O relatório Tendências Globais no Investimento em Energia Renovável 2020, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Centro de Colaboração da Escola de Frankfurt-PNUMA e BloombergNEF (BNEF), analisa as tendências de investimento de 2019 e os compromissos assumidos pelos países e empresas com a energia limpa na próxima década. 

O estudo identificou compromissos que resultam em 826 GW de energia renovável não hidrelétrica, a um custo provável de cerca de US$ 1 trilhão, até 2030. Para limitar o aumento da temperatura global em até 2 graus Celsius – o principal objetivo do Acordo de Paris, seria necessário atingir 3.000 GW até 2030. A quantidade exata, entretanto, depende da combinação de tecnologias escolhidas. 

Os investimentos previstos até 2030 também ficaram muito abaixo dos US$ 2,7 trilhões comprometidos com energias renováveis ​​na última década. 

O relatório também mostra que o custo da instalação de energia renovável está menor, o que significa que investimentos futuros resultarão em resultados melhores. Em 2019, a capacidade de energias renováveis, excluindo grandes barragens hidrelétricas de mais de 50 MW, aumentou 184 GW, 12% a mais que em 2018. Apesar disso, o valor em dólar do investimento em 2019 foi apenas 1% maior que no ano anterior, de US$ 282,2 bilhões. 

Graças a melhorias tecnológicas, economias de larga escala e concorrência acirrada em licitações, o custo total ou nivelado da eletricidade continua caindo para energia de fontes eólica e solar. No segundo semestre de 2019, as novas usinas solares fotovoltaicas reduziram custos em 83%, em comparação à década anterior. 

"Cada vez mais vozes estão pedindo aos governos que os pacotes de recuperação pós-pandemia sejam usados para criar economias sustentáveis. Essa pesquisa mostra que a energia renovável é um dos investimentos mais inteligentes e econômicos que podemos fazer”, afirma a diretora executiva do PNUMA, Inger Andersen. 

“Se os governos aproveitarem a queda no valor das energias renováveis ​​para colocá-las no centro da recuperação econômicapós-COVID-19, daremos um grande passo rumo a um mundo natural saudável, que é uma das nossas melhores chances contra futuras pandemias”, explica Andersen. 

Na última década, as energias renováveis têm ocupado uma parte crescente do mercado de geração de energia elétrica baseado em combustíveis fósseis. Quase 78% dos novos GWs gerados em 2019 correspondem a energia eólica, solar, de biomassa, resíduos, geotérmica e pequenas hidrelétricas. Esse incremento, que exclui as grandes hidrelétricas, foi três vezes maior que o das novas usinas de combustíveis fósseis. 

"As energias renováveis, como a eólica e a solar, já representam quase 80% da capacidade recém-instalada para a geração de eletricidade. O mercado e os investidores já estão convencidos de sua confiabilidade e competitividade", diz a Ministra do Meio Ambiente, Proteção da Natureza e Segurança Nuclear da Alemanha, Svenja Schulze. 

"A promoção de energias renováveis ​​pode ser um mecanismo poderoso para a recuperação da economia após a pandemia, criando empregos novos e seguros", acrescenta. 

“Ao mesmo tempo, elas ​​melhoram a qualidade do ar, o que também protege a saúde pública. Ao promovê-las ​​no âmbito dos pacotes de estímulo econômico pós-coronavírus, temos a oportunidade de investir na prosperidade, na saúde e na proteção do clima". 

O relatório também destaca outros recordes em 2019: 

  • As maiores adições de energia solar em um ano, de 118 GW.
  • O maior investimento em energia eólica offshore em um ano, com US$ 29,9 bilhões – um aumento de 19% em relação ao ano anterior.
  • O maior financiamento para um projeto de energia solar, com US$ 4,3 bilhões, para o Al Maktoum IV nos Emirados Árabes Unidos.
  • O maior volume de contratos corporativos de compra de energia renovável, de 19,5 GW em todo o mundo.
  • A maior capacidade em licitações de energia renovável, de 78,5 GW em todo o mundo.
  • O maior investimento em energias renováveis em economias em desenvolvimento, sem considerar a China e a Índia, totalizando US$ 59,5 bilhões.
  • Investimentos cada vez maiores: um recorde de 21 países e territórios investindo mais de US$ 2 bilhões em energias renováveis.

“Vemos que a transição energética está em pleno andamento, com a maior capacidade de energias renováveis ​​já financiada. Enquanto isso, o setor de combustíveis fósseis foi duramente atingido pela crise do COVID-19, com muitos países enfrentando a queda nos preços do petróleo e na demanda por eletricidade movida a carvão e gás”, afirma o presidente da Escola de Finanças e Administração de Frankfurt, Nils Stieglitz. 

“A crise climática e a crise do COVID-19, apesar de suas naturezas distintas, são rupturas que chamam a atenção tanto de formuladores de políticas públicas quando de gestores. Ambas demonstram a necessidade de maior ambição climática e de mudança das matrizes energéticas rumo às renováveis”. 

Em 2019, a participação de fontes renováveis na geração global de energia, sem considerar as grandes hidrelétricas, subiu para 13,4%, ante 12,4% em 2018 e 5,9% em 2009. Isso significa que as fontes de energias renováveis ​​impediram a emissão de aproximadamente 2,1 gigatoneladas de dióxido de carbono em 2019. Isso representa uma economia substancial, dadas as emissões globais de aproximadamente 13,5 gigatoneladas em 2019. 

"A energia limpa se encontra em uma encruzilhada em 2020", explica o diretor executivo da BloombergNEF, Jon Moore. 

“Tivemos um enorme progresso na última década, mas as metas oficiais para 2030 estão muito aquém do necessário para lidar com as mudanças climáticas. Quando a atual crise diminuir, os governos precisarão olhar não apenas para a energia renovável, mas também para a descarbonização dos meios de transportes, da construção civil e das indústrias”, conclui.