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'Homo acceleratus' ou A Força dos Nossos Hábitos!

A ordem vigente do poder do capital é o crescimento substancial e privilegiado - sustentado pelo uso ininterrupto das diferentes fontes de energia - que ao longo do tempo tem promovido uma série de melhorias para a sociedade, alterando de certa maneira (ou totalmente) o estilo de vida no campo e na cidade em consequência das rápidas metamorfoses dos sistemas naturais e geopolíticos; o que, em contrapartida, também produz excedentes tais como a miséria humana, a poluição ambiental e a degradação ecológica. A realidade contemporânea é capaz de delinear claramente que auferir lucro e maximizar riqueza sem fomentar um processo permanente de expansão das liberdades substantivas dos seres humanos respeitando limites e regenerando não garante ao planeta ter as bases sólidas para um desenvolvimento qualitativo que perdure indefinidamente. 

Justificava-se no passado a necessidade de extrair os recursos da terra para produzir, poluir e progredir, pois a geração de resíduos da primeira era industrial tinha um poder de sobrecarga muito menor que a capacidade regenerativa da natureza. A intensificação de todo esse processo produtivo para atender às crescentes demandas de uma densidade global com 7 bilhões de pessoas - massa bastante ávida por matérias-primas, insumos, serviços, etc. - traduz perfeitamente a força dos nossos hábitos consumistas e como ela pode estar fora de controle.

Desde que Faraday, Edison e Tesla desenvolveram as correntes elétricas e fizeram o milagre da multiplicação da luz artificial o mundo nunca mais foi o mesmo, acendendo novas ideias e trazendo soluções; entretanto, o aumento da beligerância entre nações provocou duas grandes guerras mundiais (1914-1918; 1939-1945) e o bombardeamento atômico de Hiroshima e Nagasaki, que acabaram por gerar tensões nucleares e ondas migratórias da Europa e Ásia para a África e Américas, daí sucedeu-se o surgimento de uma grande potência chamada Estados Unidos, crescimento econômico em notável aceleração e adventos tecnológicos significativos a partir da década de 1950.

A reboque das mazelas humanas vieram os graves problemas ambientais posteriormente evidenciados no livro Primavera Silenciosa (1962), de Rachel Carson, através de um questionamento crítico e esclarecedor a respeito do uso indiscriminado de substâncias tóxicas na agricultura e perda de diversidade biológica.  O relatório Os Limites do Crescimento (1972) - elaborado por especialistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e coordenado por Donella Meadows - já alertava para o ritmo do desenvolvimento pós-guerra por meio de cinco parâmetros: 1) industrialização acelerada; 2) forte crescimento populacional; 3) insuficiência crescente da produção de alimentos; 4) esgotamento dos recursos naturais não renováveis; 5) degradação irreversível do meio ambiente. É no período entre 1969 e 1973 que ocorre o chamado Milagre Econômico Brasileiro cujo fato surpreendente foi o posicionamento do Brasil durante a Conferência de Estocolmo (1972) ao alegar que o desenvolvimento exponencial de um país terceiromundista e biodiverso legitimava a exploração progressiva do solo, dos mananciais, da flora e da fauna e que os países desenvolvidos deveriam arcar com o ônus ambiental (!!!) - o que soou como uma bomba em uma conferência que discutia o futuro do planeta.

Com a velocidade de um trem-bala, o homem avança pelos trilhos da evolução rumo a um destino incerto - já que não é possível prever um futuro climático menos pessimista que 2 graus Celsius com seus efeitos devastadores - e, incrivelmente, as marcas indeléveis do progresso da humanidade podem ser encontradas nos sedimentos das bacias hidrográficas do mundo inteiro. Assim como o Sol nasce todos os dias fazendo a manutenção da vida, o acelerado homem moderno não vive sem eletricidade e se esta liga e desliga todas as nossas práticas do cotidiano, a gestão ambiental é de fundamental importância para o controle das ações humanas sobre os serviços ecossistêmicos, a fim de que se possa apoiar uma abordagem preventiva aos desafios do milênio.

Em concordância com o economista Carlos Mussi (CEPAL/ONU), "todo passivo ambiental será um passivo fiscal no futuro. Se o Estado ou a sociedade não entrar, não tentar prever e atuar, o passivo ambiental não será pago apenas pelo princípio poluidor-pagador, isso será uma conta da sociedade, isso será um passivo fiscal via dívida para as futuras gerações".



Por: Gustavo Nobio. O autor é técnico em Meio Ambiente formado pela FUNCEFET (RJ) e voluntarioso promotor da Sustentabilidade; articulista, comunicador ambiental e administrador do site SenhorEco.org.

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